Snow
13 Luta.
Notas iniciais
Acordou suando e tremendo, sem saber que horas eram, somente com a mente recordando de como foi a dor e a agonia de sentir aquela adaga deslizando por sua carne, sem qualquer intromissão. Virou para o lado, atrás daquele que a fazia relaxar, acalmar-se, mas tudo o que tinha era uma cama gelada do lado dele e a colcha bagunçada. Imaginou que ele se levantara há algum tempo. Assim imaginando, ainda com pavor do que vivenciou mais uma vez, procurou algum lugar onde pudesse ver as horas. Nada encontrou por perto, então, teve de levantar-se, não que lhe custasse muito, não conseguia dormir de qualquer jeito, mesmo se tentasse. Aquele relampejo de antes de morrer ainda lhe custando muito suas noites de sono. Ao perceber que encontrava-se somente com uma blusa e calcinha, enrolou-se no que pensou ser o roupão negro de Hades pois era grande demais para sua pessoa e foi aventurar-se pela cozinha. Não havia ninguém acordado, nem mesmo um som, ou de animal ou corujas ou grilos. Era o silencio mais puro possível. Imaginou que atrás de alguma daquelas portas, Hades estava concentrado, lendo seus relatórios, criando novas estratégias e tão preocupado com seu reino que não conseguia nem mesmo dormir. Seria uma causa nobre para se ter insônia, brincou consigo mesma, enquanto tomava sem pressa seu copo d’agua. A ultima coisa que desejava era voltar para aquela cama ou mesmo cair no sono. Não se tivesse aquele sonho.
Mas quando começou a ficar frio demais, tanto quanto lá fora devia estar, decidiu que só pioraria seu estado e ninguém precisava dela com febre. Então, terminou sua água, encolheu-se no maravilhoso roupão e foi se dirigindo as escadas que teria de subir. Só que um barulho chamou sua atenção. A diferença era que conhecia aquela voz ou o que parecia ser correntes. E mesmo pensando que não seria uma boa fazer o que faria, encaminhou-se de qualquer modo para o local onde ele deveria estar. Caminhou um pouco, sentindo cada vez mais o clima abaixar, apenas comprovando que ele estava com muita raiva, e parou na batente da porta aberta, escorando-se, a fim de aliviar a dor e visualizá-lo.
Hades, profissionalmente encurvado, com os punhos em posição, as pernas abertas no necessário, trajando apenas uma calça de moletom e luvas, socava com força um saco de Box, como se toda a culpa fosse dele, com tanta raiva que a espantou ao ver que praticamente tremia. Alguns homens batem, outros congelam o clima, pensou, sorrindo um pouco ao ver como ele se movimentava elegantemente. Não conhecia muito do jogo, mas via o necessário para ser um vencedor. Ele suava, algo que ela nunca vira acontecer em um deus sem estar em outra situação alem da cama com uma mulher, algo que significava que ele segurava seu poder.
- AARGH – e socou com tanta força que o saco caiu ao chão, em um barulho estrondoso.
Persefone sorriu, cruzando os braços para se aquecer, e o olhou com diversão, aproveitando os últimos segundos para aprenciá-lo antes de se anunciar.
- Eu não queria ser esse ai. Quem imaginou? Meu pai? – brincou.
Hades pareceu perplexo ao vê-la ali, mas logo disfarçou dando de ombros.
- No momento, podia ser qualquer um. Tirando isso, você não devia estar dormindo?
- Idem para você.
- Não consigo.
- Bem vindo ao grupo – dizia enquanto caminhava na direção dele que já prendia outro saco de Box no lugar do ultimo. – Aconteceu algo?
- Acho que não quero falar sobre isso agora.
Engolindo a patada e sorrindo, parou a frente do deus, tendo de olhar para cima, e apontou para o saco.
- Já que estamos brincando de não digo nada... – assistiu uma sombra de um sorriso naqueles lábios — ... Que tal você me ensinar isso? Talvez te distraia.
- Pode ser. – e sumiu por alguns segundos antes de voltar com algo em mãos. – Aqui, tome, tem que colocar isso.
- Uau, luvas, tá ai um coisa que eu nunca colocaria no meu pedido de natal. Afrodite estaria brigando comigo por eu estar sendo tão menino.
- Ela esta perdendo ver você assim.
- Haha, engraçadinho. – e mostrou as mãos enluvada. – De luvas eu entendo.
- Voce vai ter que tirar esse roupão, mal consigo ver suas mãos nele.
- Isso porque ele é seu, mas pode ser. Ah, só uma coisa, não diminua a temperatura.
Agora, ele sorria.
- Ok, vou me segurar.
- Então tá. – e como se nada demais estivesse acontecendo, Persefone tirou o que a protegia e entregou a um pasmo Hades, antes de dar de ombros. – Falei que ia te distrair. Agora, anda, eu quero aprender.
E isso era um fato. Amava aprender, independente do que fosse. Hades revirou os olhos para sua alegria, ainda que ela soubesse que ele sorria internamente de sua brincadeira, e posicionou logo atrás de si. Ah, ela sabia, seria uma distração e tanto.
- Regra numero um: nunca abaixe a guarda. Um punho sempre perto do queixo e outro mais afastado. Assim.
Persefone sorriu ao ver que ele mal a tocava ao fazer isso e mesmo assim o peito dele todo minuto encostava-se as suas costas onde a blusa de alcinhas parecia nada. Na verdade, naquele frio, sentia-se praticamente nua.
- Nada mal.
- Voce ainda não bateu, Persefone.
- Não estava falando sobre isso.
Sentiu-se bem ao dizer aquilo ainda que corasse. Hades abriu só um pouco suas pernas, mas teve que tocar mais dessa vez, a fazendo olhá-lo por cima do ombro. Ele revirou os olhos, claramente já entendendo onde ela queria chegar. E por isso, ela poderia rir dele.
- Uma mais a frente da outra, flexionada, como os punhos. Cabeça mais levantada, ombros mais curvados. Agora... – sentiu os lábios dele sob seu ouvido – Bate.
O primeiro soco foi mal dado. O segundo foi melhor. E no terceiro, Persefone teve que se virar para comemorar por ter acertado, passando os braços pelo pescoço de Hades e sorrindo como se tivesse ganho o melhor presente do mundo. Mesmo o rosto dele desanuivou, ficando suave, enquanto fitava sua pessoa, ainda que não abraçasse sua cintura como esperava que acontecesse. Mas já era um avanço, melhor aquiilo do que nada.
- Obrigada.
- Só foram três socos, Persefone.
Deu de ombros.
- Os primeiros três socos da minha vida.
- Ah, você é boa nisso.
- Obrigada. Agora, eu quero lutar contra você.
Hades sorriu um pouquinho, de canto.
- O que planeja, Persefone? Sabe que eu vou ganhar.
- Hum... – ela parou com as mãos enluvadas no quadril, arqueando as sobrancelhas. – Então esta com medo dessa menininha que bate no seu ombro?
- O que fizeram com você?
- Tambem estou me distraindo. – se preparou como ele havia dito, ignorando o olhar curioso dele. – Ande, ou vou ter que te nocautear sem nem mesmo precisar lutar. Vai ser digno para contar aos meus tios e primos e irmãos e todo mundo.
Agora, Hades realmente sorria.
- Nunca. – e se preparou. Apesar de não deixar transparecer, jamais queria ser aquele que Hades batesse de verdade, pois não tinha duvidas que ele só brincaria consigo. Ele parecia um felino, pronto para atacar, para pular em cima dela. Sorrindo dessa perspectiva de renascer um Hades brincalhão, que o atacou. Sem nem mesmo tocar em sua pessoa, ele desviou. Foram três vezes assim antes dele rir e sentir-se melhor por tirar alguma alegria dele. Talvez nada estivesse tão ruim. Então, num ultimo ataque, mudou o passo e conseguiu colar um beijo no ombro dele. Hades pareceu-lhe perplexo por um segundo, encarando sua pessoa, seguido de revirar os olhos.
- Era isso que você queria? Só pedir.
- Tem que fazer por merecer.
Ele sorriu outra vez mais. Seu coração foi a mil ao vê-lo tão lindo.
- O que por exemplo?
- Hum... – sorriu de lado. – Me pegar por exemplo.
E saiu correndo. Sabia que era um clichê, mas era o que ele precisava: de algo que soubesse fazer, sem nada muito complexo e que receberia um premio ao final. Hades se desdobrava em sua guerra todos os dias, uma válvula de escape, um riso fácil era o necessário. Então, assim pensando, passou pela porta,
escutando-o rir da sua boba brincadeira e ir para um outro salão. Não soube quantas portas abriu, também rindo com ele, no momento em que sentiu uma dor onde fora perfurada e caiu de quadro, tossindo. Nesse entremeio, sentiu um gosto estranho na boca e Hades parar de rir no mesmo momento em que a vira daquele modo. Ele rapidamente ajoelhou-se ao seu lado, pegando seu corpo e o envolvendo nos braços. E apesar de saber do que se tratava, do que era aquilo e o porque, resolveu que fazer uma brincadeira era a melhor saída. Havia se esforçado, era culpa daquilo,não de que estivesse pior do que imaginara. Se ele estava ansioso com aquilo, com medo, ela nem se quer dizia algo. Então, transformando aquilo em brincadeira, o puxou para baixo, até conseguir tocar seus lábios aos de Hades e esquecer de tudo mais. Tambem era por isso que o amava. Era seu antídoto para tudo: dor, medo, pesadelos. Era a segurança em pessoa. E não foi diferente dessa vez.
Sorria ao se separarem, encarando-o com a alegria escondendo o medo.
- Te peguei – sussurrou, a deslizar a mão no maxilar dele. – Voce caiu na brincadeira, logo, eu ganhei.
Olhos negros a sondaram.
- Voce está bem?
- Depende do que é bem pra você... Precisando que você me beije? Então, não, não estou bem. Ou que você sorria do jeito que você faz agora? Então, sim. O que quer? Defina-o.
- O que esconde?
- Shh, não posso contar, só se eu ganhar algo em troca.
Ele sorria de lado, só um pouquinho.
- O que quer, Persefone?
E toda sua alegria se perdeu, transformando-se em algo mais profundo, naquilo que sentia lá dentro. O que a permitiu beijá-lo mais uma vez antes de sussurrar:
- Voce. – e o olhou, enfrentando a reprienda dele. – Voce, sem poderes, sem guerra, sem brigas. Só eu e você, como mais cedo. Nós.
- Persefone.
- Por favor, Hades... – tocou os lábios dele com o polegar. – Nada mais. Um homem e uma mulher, não importando o que acontece lá fora. Só isso.
- Voce não sabe o que pede, Persefone.
E ele a beijou, prometendo que cumpriria, e Persefone não pode se sentir melhor ao amá-lo mais uma vez naquele dia, o sentindo daquele modo maravilhoso: entre o físico e o sentimental. Poderia viver para amar aquele homem estranho.
[...]
Persefone suspirou, encolhida sobre o peito de Hades, a senti-lo deslizar os dedos por suas costas nuas, ambos calados. Estavam deitados, juntos, na cama do quarto principal do castelo, apreciando a companhia um do outro, sem conseguirem de fato dormir. E Persefone não lembrava-se de um dia que pudesse estar tão feliz quanto naquele, escutando o coração daquele que amava bater com firmeza, degustando a mão gelada em sua coxa, a respiração controlada. Por que o amava? Ele era frio, insensível, feito de gelo como seu submundo, já ela era tão ao inverso, não tinha medo de dizer o que sentia, era delicada, feita do calor do verão. Por que? Suspirou.
- O que está pensando? – perguntou Hades, baixo.
- Em por que gosto de você. – fechou os olhos. – Coisas bobas.
- Mente inteligente, devia pesar outra vez o que já me disse.
- Nunca retiro o que digo, Hades, compreendo o que sinto. Apenas... Deixe pra lá, não vamos estragar o momento, tudo bem? – suavemente, beijou o peito dele. – Obrigada.
- Garanto que foi um prazer.
Corava ao sorrir.
- Gosto de você assim, vivo, alegre.
Ele nada disse, continuando o que fazia, antes de puxar um cobertor para cima de seu corpo nu.
- Durma.
- Voce também.
- se eu conseguir.
Lembrando-se que ele dissera algo assim antes, espantou o sono com prazer, pois tinha medo de sonhar de novo com aquele cavaleiro, e cruzou os braços, pousando o queixo sobre eles e o encarando de cima, completamente deitado sobre o corpo muito maior do deus. Teve de ignorar um pouco a dor com isso, mas ganhou em troca uma olhada alegre por parte daqueles lindos olhos negros.
- Por que não consegue dormir? – perguntou doce e baixinho.
Hades desviou os olhos e colocou os braços atrás da cabeça, parando de tocar seu corpo.
- Muitas coisas, Persefone. Tantas que seria difícil listar.
- Temos o resto da madrugada inteira.
- E por que você não consegue dormir?
- Boa escapada do assunto, em? Hum... Olha, seu contar... – tocou o cabelo dele com carinho. -... Voce conta?
Seus olhos se colaram. Negro no castanho claro.
- Feito. Vou me arrepender depois.
- Vai não, prometo. Então, quem começa?
- Voce, já que deu a ideia.
Deu de ombros, sem desviar o olhar do dele. Era seu porto seguro e o que contaria precisaria dele.
- Eu não consigo dormir porque todas as noites sonho com aquele homem de armadura branca. Meu corpo se lembra de como ele me segurou pelo braço, girou e enfiou aquela adaga até perto do meu coração, forçando-a mais quando tentei fugir. Escuto-o dizendo que ninguém me ajudaria, que eu morreria sozinha e há sangue por todos os lados. Então, o sonho muda, e estou em uma praia, sozinha. A sua praia. – encolhe-se no peito dele. – Eu me pergunto o que vai acontecer, mas sei que já estou morrendo e sem nem perguntar se era o certo, me jogo no mar negro e morro sufocada. – tentou dar um sorriso, diminuindo o impacto, mas Hades não parecia querer isso. – São apenas sonhos, nada demais.
Suavemente, ele passou um passo por sua cintura. E o poder dele já é suficiente para esquecer tudo.
- Então, você acorda?
- Geralmente suada e tremendo, mas penso que são apenas efeitos colaterais de estar melhorando. De qualquer forma, sei que estou viva no final.
- Falando em melhorar, você estava tossindo sangue hoje?
- Não, não... – deu um beijo nos lábios dele, sorrindo. – Não vai fugir da sua pergunta. Sua vez, por que não consegue dormir?
Um sorriso mostrou-se no rosto de Hades.
- Inteligente.
- Obrigada, mas não vai fugir.
Ele suspirou, não a fitando enquanto começava a dizer:
- Eu tinha duzentos anos de vida. Estavamos no ápice da Era de Ouro de Zeus, tínhamos conseguido ganhar de nosso pai e tudo era paz. A Grécia e a própria Atena estava em ascensão, éramos os deuses preferidos dos humanos e nada poderia estar melhor. Até mesmo me aventurava a fazer o que Afrodite pensava: amar. – ele fechou os olhos, como se não conseguisse encarar sua pessoa. – Eu aceitei, desci aos humanos, me camuflei com dezoito anos e achei uma linda garota. Era Penelope, o mesmo nome da mulher de Ulisses. Linda. Cabelos loiros, olhos tão verdes que pensei ser filha do meu irmão, Poseidon, e muito divertida. Nos apaixonamos e pela primeira vez eu não estava sozinho. Amei ela como ninguém, vivemos algum tempo juntos, então meu irmão, Zeus, falou que já tinha tempo demais e seria estranho que eu não morresse. Mas eu não queria deixá-la, tive filhos com ela, tinha uma casa e podia trabalhar no mundo inferior pela noite. Só que eu havia esquecido um fato: eu não sabia lidar com meus poderes ainda. Então, uma vez estressei com ela por besteira e quando menos vi, sem nem saber como, eu tinha a apunhalado diretamente no seu coração com a faca de nossa cozinha. Cheguei a vê-la morrer em meus braços, meus filhos me encarando com medo, o sangue dela e tudo mais. Depois disso, me mantive no meu reino. – suspirou. – Então, alguns desses pesadelos, eu vejo ela morrendo, os olhos acusadores e sentindo dor. Apartir dali, prometi que não deixaria mais ninguém morrer por minha causa ou em meus braços.
E ele não precisou terminar para Persefone compreender o que ele queria dizer: Hades havia a impedido de morrer porque havia feito uma promessa a Penelope e que por coincidência tinha morrido nos braços dele. Apesar daquela confissão, sentiu-se menor ao ouvir aquilo. O que estava fazendo a si mesma? Ele estava preso em outra época, com outra mulher, com outros filhos... O que planejava? Hades estava certo, será que devia pesar outra vez o que sentia? Encarou os olhos negros dele. Ele já amara outra pessoa e por te-la mataado se impedia outra vez, ou será que era porque continuava a amando? Por que a segunda opção parecia a mais obvia, ao fim de tudo, ele a salvara por causa de uma divida com outra mulher, não por quem ela era. Ele não consiguiria amá-la se fosse esse caso. Não aguentando mais a dor em seu peito ao ver que tudo o que havia pensado, sobre estar lutando contra a correnteza que a levaria a dor junto com ela, fechou os olhos, segurou o choro e o abraçou, decidindo que preferia o pesadelo a aquilo. Pelo menos, o pesadelo acabaria quando acordasse enquanto aquilo só pioraria.
- Sinto muito. – sussurrou baixinho, antes de virar-se para o outro lado, para onde o espelho refletia sua imagem. Loira, de olhos verdes, linda, pensou encarando as diferenças absurdas. Não era tinha nem mesmo olhos claros. Era da cor de amêndoa, com a pele beijada pelo sol em um dourado que parecia
pálido com aquele seu estado, olhos castanhos como a terra do agricultor, de cabelos cor de chocolate cheio de tons de âmbar entre eles. Nem mesmo o tipo dele era. Notou que uma lagrima escorria por seu rosto e tratou de secá-la, quisera saber, era culpa de si mesma. Só não esperava algo assim. Encolheu-se um pouco pela dor que sentia.
- Persefone...
- Sim?
- Voce está bem?
Por aquelas três palavras, quis chorar. Odiava quando alguém perguntava isso quando tudo o que queria era sentir a dor. Não que a conhecesse antes dele, mas ainda assim. Engoliu a seco.
- Cansada, apenas. – mentiu. – Devemos dormir.
- Obrigado por dividir comigo seu pesadelo.
Suspirou.
- Sem problemas, Hades.
Então, antes que pudesse dizer algo, Hades deslizou um braço por sua cintura e fitou seu rosto através do espelho. Eram tão completamente diferentes. E nunca teve tanta certeza daquilo quanto naquele momento. Ele estava preso ao passado, amando outra. E ela estava procurando um futuro.
- Como é o verão? – perguntou ele, sob seu ouvido, sem tirar os olhos dos seus.
Ele a matava com amor, devagar, dolorosamente. Pior até que seus machucados, mas não pode negar aquela pergunta a ele. Fechando os olhos para não chorar por saudade, explicou:
- Quente. Muito quente, o sol brilha todos os dias em um céu sem nuvens. As plantas crescem fortes, aguentando o calor. Há um pouco de brisa, mas o melhor lugar é na praia, onde fica perfeito se refrescar no mar. Ainda que eu prefira a primavera.
- E como é a primavera?
- Tambem é quente, mas não como no verão. Há chuvas, fracas, gostosas, para refrescar e não deixar abafar o dia... – sorria de olhos fechados. – A grama cresce alta, verde. As flores se abrem nas mais diferentes formas: rosas, lilases, margaridas, girassóis, azaleias, flor de cerejeira... As arvores crescem e há sempre uma brisa deliciosa de Bóreas. Os agricultores agradecem, se divertem e vendem seus produtos. Há os cheiros de manga, maça, maracujá, jasmins... Tudo fica mais vivo, os animais mais alegres, os rios mais cheios e mais bonitos... Não consigo descrever, mas é maravilhoso. Nunca viu um?
Sentiu o rosto dele contra seu cabelo.
- Já, mas foi a tanto tempo que não recordo muito bem mais. Parece ser lindo.
- É lindo.
- É a sua época, não é?
- Sim... Mas divido com minha mãe, Demeter, ela também é.
Um tempo em silencio.
- Sente saudades?
- Da minha mãe?
- Tambem, mas da sua época?
Suspirou, encolhendo-se um pouco mais no peito dele, a evitar a dor. Não suportaria tantos sentimentos.
- Da minha mãe, a todo minuto, era a única pessoa que eu conhecia alem de Apolo e Atena, as vezes via Artemis e meu pai, sem contar o tio Poseidon. Eramos melhores amigas... Mas nada que eu não possa administrar.
Hades deslizou os dedos delicadamente por seu braço, calado.
- Eu devia te deixar ir...
Aquelas palavras quebraram qualquer esperança que tivera de que algum dia ele pudesse gostar de sua pessoa. De fato, era de outra. Não a queria por ali e já tinha deixado isso bem visível ao ser tão insensível com sua pessoa. Nnguem pode começar a amar alguém de uma tentativa de assassinato. Mas forçou tudo isso para o lado, engolindo a dor como um acido que queimava toda a garganta e deu de ombros.
- Tanto faz. – fingiu bocejar. – Hades, desculpe-me, mas estou realmente cansada. Tem problema se eu dormir?
Escutou-o suspirar uma vez mais.
- Não, está tudo bem, também estou com sono.
E calaram-se. Por algum tempo, Persefone nem se moveu, ate que ele relaxou o aperto em sua cintura e de fato caiu em um sono mais tranquilo. Ela não conseguia dormir, seus snetimentos vivos e doendo demais para isso, então, empurrou o braço dele devagar, sem acordá-lo, e pulou para fora da cama. Ao encontrar a primeira roupa que conseguiu tatear naquela escuridão, saiu do quarto e foi caminhar sem rumo pelo castelo.
Tambem ignorando a dor no peito que sentia, mais abaixo, onde fora machucada, andou só com a blusa de Hades pelos enormes corredores, até encontrar o que procurava. Mais cedo, havia a visto, mas não tinha associado por não saber de quem se tratava. E agora, sentando-se na frente daquele enorme quadro, entendia bem quem era quem. Uma linda mulher deitada, cuidando de uma criança que esperneava era ninguém menos que Penelope e o filho de Hades. Ela era de fato lindo de um jeito Afrodite de ser, do modo mais clássico e belo de uma loira. Dali consegui enxergar a alegria dela. E, sem saber porque se machucava dessa forma, abaixou a cabeça e chorou sem som algum.
Ele estava engolido pelo amor daquela mulher. Jamais deixaria Persefone entrar, independente do que fizesse... Só... Não, não podia continuar com aquilo. Era melhor sair de lá com o que sobrara de seu coração. Ao final, Apolo conseguiria cuidar de seus machucados.
Pensava exatamente nisso, no momento em que começou a tossir, cada vez mais secamente, até que cuspiu algo. Sob a luz da lua, virava algo maravilhoso, mas ela sabia do que se tratava: icor. Sangue dos deuses. E mesmo a mágica de Hades não estava funcionando, porque Apolo conseguiria. Se talvez pedisse para o Deus Sol descer ali só para cuidar dela por um tempo... Não, não podia atrapalhar a guerra de Apolo também. Respirou fundo. Ser deusa nem era tanta vantagem assim depois de tudo.
Ignorando a nova onda de dor, tanto emocional quanto física, levantou-se e caminhou vagarosamente até um sofá na cozinha. Por um tempo, pensou em ir beber água, mas logo que o sono bateu, desistiu. E daquele modo mesmo dormiu ali.
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