Notas iniciais
Capítulo todinho da Carolina Calyn *o* Mil obrigadas pela sua recomendação, cherié, divirta-se o/

Fazia um pouco mais de calor do que da ultima vez quando acordou ao som de alguém batendo a massa de um bolo, como aprendera a descobrir.

O cheiro de torta de maça se espalhava e mesmo seu estomago machucado amou aquele aroma, finalmente acordando com fome.

Mas encontrava-se tão cansada que não quis nem mesmo se mexer. Ficou apenas a apreciar o cheiro, os sons de vida, lembrando-se da noite anterior, do que ouvira, da esperança que se quebrara... Tantas coisas pelas quais tinha que pesar mais uma vez.

Foi no momento em que escutou passos diferentes seguido de um cheiro de menta.

Hades.

- Bom dia, Shadow, você viu Persefone? Ela não estava na cama quando levantei para tomar banho.

Bem claro ficou que Shadow tinha apontado para sua pessoa encolhida no sofá.

- Ela está ai antes mesmo de eu ter chegado à cozinha.

- Será que estava passando mal?

- Não disse nada, nem se moveu desde que cheguei.

- E nem mesmo olhou a pressão dela?

- Esta normal, só parecia com frio, então, fui buscar um coberto para ela. Não quis acordá-la.

- Vou levá-la ao quarto.

Som de passos em sua direção. Persefone aspirou mais profundamente aquele agradável aroma.

- Olhe a mão dela, Hades.

Fazendo o que Shadow mandou, ele abriu sua palma delicadamente e o viu arfar de surpresa.

- Tem certeza que é dela?

- Tenho, ela passou a manha tossindo.

A manha? Pensou, que horas eram então? Hades havia acordado tarde?

- Ela está...

- Morrendo, creio que seja melhor chamar seu sobrinho, Apolo, para ajudá-la. Ou então descobrira que nem mesmo você consegue burlar as regras da morte.

- Irei falar com ele hoje. Acho que Zeus não chegou a pensar nisso. Vou levá-la lá para cima.

- Cuidado, o machucado não está muito bonito.

- Cuidarei.

Então, estava sendo puxada para um peito forte com cobertor e tudo mais.

- Ela estava só com a minha blusa?

- Sim, acho que estava andando pelo castelo.

- Vou manter essa garota presa no quarto.

Shadow riu, achando graça na fala dele.

- Provavelmente você ficaria lá o dia todo.

- Mande o café da manha para o quarto.

- Levo o bruncht para vocês.

E parou de escutar a voz de Shadow ao entrarem em outros cômodos mais gelados.

Só soube que chegou ao quarto dele porque estava mais quente todos os demais, bem mais confortável para sua pessoa. Sua respiração até mesmo ficou bem melhor.

Suavemente, Hades deslizou seu corpo na cama, em seguida retirando a blusa que usava para cuidar de seus ferimentos e logo era embrulhada pela quente coberta. Não quis se mexer, adorando aquela sensação de pelo menos uma vez ele estar sendo carinhoso consigo.

Ainda mais quando ele passou a acarinhar seu rosto.

- Está tão machucada, Persefone. – ele suspirou. – Não há saída, terei que chamar Apolo. Sei que não gostaria disso, mas não há saída. Prometi que ninguém mais morreria, muito menos você.

Preferiu fingir que estava dormindo ao ver a pena nos olhos dele e minutos depois, havia, de fato, caído nos braços de Morfeu.

[...]

Acordou mais tarde, ao sentir algo quente sobre sua barriga e uma melodiosa voz entoando rítmica e belamente um hino de cura, um cântico. Seus olhos, apesar de pesados, aceitaram seu comando para abrirem-se, só para dar de cara com um lindo homem de cabelos loiros como o sol, olhos azuis como o céu e sempre sorridente, quente como o verão.

Por que não era de Apolo que gostava? Ele era tão igual a sua pessoa!

- Persefone. – sussurrou ele, lhe dando um beijo na testa. – Senti saudades de você, nessas suas estendidas férias. Vejo que finalmente se meteu em uma briga.

Sorriu, um dos fáceis sorrisos que Apolo conseguia tirar das pessoas. Quer dizer, todos menos de sua Irma gêmea Artemis. Sentiu falta daquele grupo estranho e festeiro.

- Sabe como é, né? A gente começa a se divertir demais e acaba quebrando umas garrafas, uns murros, batendo em um cara ou outro... Opa, contei a história errada, essa era sua.

Apolo soltou uma risada melódica.

- Vejo que as férias não mudaram minha garotinha.

- E como foram as festas sem alguém para cuidar de você?

- Pergunte a Afrodite, foram estranhas... – revirou os olhos. – Artemis nem cuida de mim... Ela bebeu mais do que eu. E eu descobri que tenho mais um filho, desse você ia gostar, ele se amarra em plantas e vinhos e essas coisas.

Riu, mas parou ao sentir dor.

- Como vê, vou ter que esperar um pouco para conhecê-lo. Sempre burlando as regras de papai, não é?

- O que posso fazer? Eu amo meus pimpolhos, são tão divertidos quanto eu.

- E continua se achando.

Apolo piscou, os olhos azuis divertidos.

- Isso nunca irá mudar. Mas você precisa voltar, precisamos sair, todos juntos outra vez. O que acha? Da próxima vez, vou te levar pra comer um Donuts.

- Por favor, diga que não é cereal!

Ambos riram.

- Não, princesa, é um tipo de comida bem calórica de dar a louca em sua mãe.

- Então, está marcado. – respirou fundo. – E como vai meu corte de garrafa?

- Bem pior do que todos que já tive, mas nada que eu não consiga fechar. – fez uma adorável cara de mal – Só devia ter me chamado antes, não acha?

Persefone mordiscou o lábio.

- Eu sou sobre a...

- Ah, e por causa disso não me chamou? Qual é, Perse? Há algo melhor do que deixar nosso pai doido no meio de uma guerra? Ainda mais, não seria tempo perdido, princesa, seria para cuidar de você. – ele desligou um dedo por seu rosto. Imediatamente, Persefone sentiu-se melhor, como se sentisse o verão outra vez. – Mas, acho que vai me ver por mais uns dois dias por aqui, até a gente conseguir fechar isso daí direitinho. Então, nada de esportes radicais, se é que me entende...

Persefone corou e olhou para outro lado. Ficou aliviada ao ver que Hades não estava ali.

- Realmente desnecessário, Apolo.

- Não, necessário... E nada de ficar no frio demais, coisas fáceis de digerir e todo dia vai toma um litro de néctar, beleza?

- Maravilhoso.

- Isso ai então – Apolo sorriu muito. – Agora, princesa, vou te colocar para dormir em um sono diferente. Vai dormir mais que o normal, mas relaxe.

- Sem problemas, vá em frente.

- Te vejo amanha, princesa.

- Nada de festas, Apolo.

E sabendo que ele ria, sentiu-o beijar sua testa mais uma vez, antes de acarinhando seu cabelo, como ele fazia desde que era mais nova, Persefone caiu em um sono suave e restaurador, conduzido pela voz lírica do deus da musica.

Não soube se chegou ao máximo do sono quando começou a escutar duas vozes dentro do quarto.

- Ela está tão machucada, eu nunca a tinha visto assim antes. – era claramente a voz de Apolo. – Olhe, tio, não querendo brigar com o senhor nem nada assim, mas não sei se você faz bem a ela.

- Ela passou por maus bocados esses dias.

- Não digo somente do ferimento, porque esse eu consigo curar. Estou dizendo dela, como Persefone, como deusa. Eu não sei o que aconteceu, mas parece que ela abriu mão de algo e como não há ninguém alem de você, acho que ela desistiu de algo por sua causa.

- Está dizendo que ela perdeu uma parte dela?

- Ou então ela está perdendo algo que era da personalidade dela. Acho que você a manteve por demais por aqui. Nada contra o inverno e talz, mas ela é do calor, entende? Ela precisa de vida... E...

- Eu entendo, Apolo, já havia pensado sobre isso.

- E eu vim aqui não somente para curá-la, mas para levá-la.

- Hoje?

- Não, assim que ela estiver melhor e não precisar mais de seu poder. Desculpe.

- Não há o porque de se desculpar. Ela já sabia sobre isso também.

- Mas você chegou a pensar em outra coisa?

- No que eu deveria pensar, Apolo?

- Que ela talvez goste do senhor?

- Não seja tolo, não temos nada demais. Ela somente me ajudou quando precisei.

- Hum... – Apolo assobiou. – Não vou me meter nisso, mas só afirmo que irá machucá-la dessa forma e sem nenhuma ameaça, já ameaçando, não quero minha garotinha de volta e duvido que Poseidon, Atena ou Zeus também a deseje. Claro, sem contar Demeter.

- Sua garotinha?

- Cuido dessa garota desde que ela nasceu. Sabe, além de amor paterno, ganhei alguns direitos de apelidos assim. Só... – Apolo suspirou. – Não a machuque demais, beleza? Ela não sabe lidar com essas situações.

- Posso negar bravamente isso, mas deixare para Persefone fazer isso sozinha depois.

- Não, ela finge que sabe, ela esconde, mas... Acredite, ela é delicada como as flores do poder dela. Podem resistir ao frio, mas se machucam fazendo isso, ok? Entao, pela primeira vez na sua vida, depois de tudo aquilo, pense em Persefone com carinho, porque ela tem um bom coração.

- Disso tudo o que você falou eu já sabia, Apolo, apenas não irei mentir e fingir sentir o que sinto a ela. Seria brincar com ela. Então, simplesmente, não se meta até seus três dias chegarem.

- O.k. Estou quieto na minha. Agora, vou ter que ir, tio. – som de tapas fracos. – Artemis me espera.

- Obrigado por vir.

- Por Persefone, qualquer um faz tudo. Se cuidem e se ela acordar, dê aquele liquido a ela depois dos um litro de néctar. Deixo com você.

- Mande um olá para Artemis por mim.

- Pode deixar. Vejo vocês depois.

E um cheiro de sol e praia explodiu pelo quarto. Seu sono veio logo depois, assim que uma mão gelada deslizou por seu rosto.

- Uma rosa.

E dormiu.

[..]

Durante três dias, nada houve de anormal.

Por mais que tentasse, nunca conseguia ver Hades, ou Shadow não lhe permitia ou se enxergava um pedaço da lapela da roupa dele, ele sumia. Pensou que talvez fosse aquele modo dele dizer que estava na hora de voltar para casa e esquecer tudo o que tinha vivido por ali.

E apesar de doer compreender aquilo, sabia que ele havia escolhido entre tê-la ou deixá-la ir. Se fosse aquela a escolha dele, aceitaria-a como se fosse a sua própria.

Então, depois de tentar conversar com ele no segundo dia, no instante em que bebia o seu ultimo copo de néctar antes de dormir e tudo o que ele lhe disse era que estava ocupado demais, de fato desistiu.

Não desistiu de um jeito pratico, como deveria ser, como se fosse um botão. Mas de uma forma que doeu, que a fez aceitar aquilo enquanto pensava sobre isso, sentada em uma das poltronas negras, na verdade, a preferia dele, e encarava uma foto não muito antiga, que Shadow havia lhe dado de presente, sem dizer uma palavra, somente com um abraço, como se aquilo fosse o necessário para afimar que mesmo Hades havia desistido.

Eram eles, no dia do suposto noivado. Hades segurava sua cintura, tranquilamente, sem nenhum sorriso, mas com expressivos olhos negros que encaravam seu rosto quase não acreditando “que louca é essa?” que a fez sorrir em contradição a ele, uma mão um pouco abaixo do bolso do smoking e o encarando com aquela fascinação que jamais imaginou que sempre tivera por aquele homem gelado.

Por alguns segundos, ficou a encarar como ele ficara maravilhoso naquele smoking, antes de tudo borrar e perceber que chorava, caladinha.

Pela primeira vez, depois de tanto tempo debaixo do teto daquele castelo onde tivera os melhores momentos de sua vida, notava que não desejava ir embora, que queria ficar e dar o amor que sabia que Hades precisava. Era um homem frio, no entanto, sabia como tratá-la. Podiam ter se confundido no começo, contudo, ao passar os dias, lidaram um com o outro e deram a chance de se conhecerem melhor.

Mas aquilo não era o suficiente para ele, pensou, deslizando um dedo pelo rosto aristocrático e que poucas vezes sorria.

- Meu coração não foi suficiente – sussurrou baixinho, encolhendo-se mais.

Sabia que dali poucos minutos, Shadow entraria para informar que era hora de tomar seu remédio. Dormiria por mais sabe-se lá quantos dias. E nem teria tempo de dar um adeus a Hades antes de Apolo buscá-la.

Apolo.

Suspirou.

Era o único que vinha ali, conversar com ela alegremente, exatamente do jeito que os humanos fazem quando estão em paz ao invés de estar nervoso com a iminente guerra. Mas mesmo ele não conseguia esconder o medo de levá-la lá para cima.

Só que o anfitrião não me deseja mais por aqui, hora de ir, pensou mais uma vez e, secando as lágrimas que caiam, se colocou de pé. Cada parte do seu corpo já havia melhorado, mesmo o poder do deus dos mortos não era notável em comparação com o que detinha agora que não usava aquele colar.

E a lembrança do mesmo a fez erguer a mão direita, onde um anel feito do mais belo diamante negro pousava entre seus dedos beijados pelo sol. Suas unhas, finas, delicadas, assim como seus dedos, pareciam aceitar muito bem aquilo.

O anel de noivado deles.

Nem mesmo lembrava-se mais deles, acostumada a todos os dias acordar com aquele peso na sua pequena mão comparada a de Hades.

E não podia mais ficar com aquilo.

Retirava-o delicadamente e logo o pousava sobre a cômoda, bem acima a foto dos dois. Por mais que desejasse ficar com aquele presente, sabia que não conseguiria. Depois de tudo, devia continuar a vida, assim como o verão sempre vinha depois de um inverno rigoroso.

Era apenas uma fase que ela pretendia deixar somente no coração.

Estava assim, olhando-se no espelho, a admirar um dos tantos vestidos que ele trouxera para ela, assistindo o modo como aquele prendedor brilhava ao prender seus cabelos ou mesmo o modo como parecia pronta para ir embora, no momento em que sons que nunca deveria escutar por ali ecoaram pelo castelo.

Era ferro, tocando-se.

Uma luta.

Seu corpo todo travou ao lembrar da imagem do homem de armadura branca. Será que ele teria sobrevivdo?

Mas antes que pudesse se quer se esconder, a porta se escancarou com tudo e o que viu a permitiu respirar outra vez. Quer dizer, até compreender que não estava normal.

Sem dizer uma palavra se quer, Hades caminhou com passos rápidos em sua direção, a armadura negra como os olhos de seu dono sacudindo a cota de malha por baixo e a espada empunhada, pingando sangue, e segurou seu braço com firmeza em segundos a puxando para perto.

- Hades, o que é isso? – falou alarmada ao ser puxada sem mais nem menos para fora. Sua pergunta pareceu frívola quando notou o corpo de muitos homens no corredor. Por algum motivo, todas as portas encontravam-se aberta enquanto Hades praticamente corria com ela, não a deixando grava o caminho para onde iam. – Por que as portas estão todas abertas?

Ele não olhou para seu rosto ao responder, concentrado.

- Procuravam você, por sorte, sempre mantive o endereço do meu quarto bem escondido de ouvidos alheios. – Hades acenou para um de seus comandantes que tinha um circulo de homens mortos aos seus pés. Persefone institivamente encolheu-se para perto de Hades, pasma. Nenhum dos dois deu atenção a sua reação. – Jack, vou levá-la ao Principal, redobre a segurança nos caminhos para lá e não hesite em precisar matar se alguém se aproximar e não estiver autorizado. Tambem chame Apolo, já é a hora. Depois vá atrás de Shadow, eu não a encontrei e... – pela primeira vez, Hades fitou com aqueles olhos pretos. – Traga um edredom e algo a mais. Estarei com ela por agora, voltarei assim que estiver segura.

Jack, como Persefone finalmente tinha reconhecido, sorriu, a jogar o cabelo loiro para o lado.

- Precisa de mais alguma coisa, majestade? Talvez uma marguerita?

Hades revirou os olhos e apontou para o outro lado.

- Corredor leste, agora.

- Sim, senhor. – Jack piscou para sua pessoa. – E bela aventura não acha?

Antes que pudesse responder, Jack saiu correndo, a cota de malha em tom vermelho balançando e a fazendo pensar que ao menos alguém estava se divertindo ali. Por algum motivo, apreciou muito mais Jack naquele momento: era o Apolo daquele lugar. Talvez fosse filho dele, quem sabe?

Então, Hades voltou a puxá-la escadaria acima.

- Como conseguiram entrar, Hades?

- Não sei, acho que subestimei o inimigo. De algum modo conseguiram e por algum motivo parecia ser você o ponto principal do ataque. – ele ergueu uma sobrancelha. – Não compreendo muito, não o porque desse ataque certeiro, mas admito estar melhor depois de conseguir fazer o plano deles falhar.

- Estava aqui? No Castelo?

- Estava, ia sair a poucos minutos para o ataque principal, mas lembrei que havia esquecido algo e voltei. Foi quando vi um deles no meu escritório. E percebi que aqui seria o ponto de encontro.

Uma onda de raiva varreu todo o seu medo e o parou, bruscamente o fazendo encarar seus olhos. Persefone procurava algo neles. O que? Não sabia, mas resolveu deixar-se falar:

- Então, sairia sem me avisar ou dar adeus para uma guerra colossal exatamente no dia que eu iria embora?

Hades mostrava-se impaciente, a todo segundo fitando o outro lado, e os cantos. E provavelmente estava certo em fazer isso, mas ela queria explicações.

Ele revirou os olhos, exasperado.

- Persefone, poderíamos discutir isso em outro lugar? Pretendo de deixar viva, se compreende, e creio que um ataque furtivo na escada seria o melhor golpe para arrancá-la de minha segurança. Então, se não se importa, deixo você brigar comigo assim que estiver segura.

Mesmo sabendo que estava sendo boba, cruzou os braços e bateu o pé, as sobrancelhas erguidas.

- Não.

Hades suspirou.

- Ok então, foi você quem pediu por isso, Persefone.

Sem avisos, o deus dos mortos agarrou seu corpo, como faz com um saco de batata, jogou sobre o ombro e começou literalmente a correr. Em qualquer outra situação, Persefone riria daquela medida, mas estava nervosa demais com ele por fazer de tudo para evitá-la, mesmo uma guerra.

Por tais fatos, preferiu somente segurar-se a fim de não fazer algo estúpido como bater a testa contra a armadura dele e sorria a cada vez que passavam por algum soldado de Hades, escutando-o dar ordens.

Ao final, reconheceu o local em que ele a descer.

O clima estava congelante, seus dentes batiam-se e precisou se abraçar para ter a certeza de que não havia congelado só de entrar ali. Hades não parou. Deu mais algumas ordens, avisou que já sairia e trancou a porta.

Só quando estiveram os dois juntos que ele ficou em toda a sua postura, preso em uma bela armadura negra, esperando-a dizer algo.

Enquanto o olhava, sabia que devia brigar com ele por ter pensado em fugir, em descontar toda a raiva e tristeza de ter ficado aqueles últimos dia sozinha ou mesmo em bater nele, contudo, assim que viu que ele cumpria a promessa de que poderia brigar com ela agora, a fitando com aqueles olhos negros que poderiam ter se apagado em um guerra de puros e tolos interesses, tudo o que conseguiu fazer foi puxá-lo pela mão com toda a força que tinha e afundar o rosto no peito do deus que pareceu surpreso. Suas mãozinhas apertaram o metal frio.

Apesar de tudo, ele cheirava como sempre: menta, homem, Hades e metal, o mais novo.

- Eu te odeio tanto por me deixar preocupada, seu cabeça dura. – sussurrou, sua voz tão molhada quanto seus olhos. – Voce sumiu por tanto tempo.

Escutou um suspiro ao mesmo tempo em que sentia o peito dele subir e descer mais devagar. Em seguida, braços de ferro estigio a abraçavam de volta.

- Foi o necessário, Persefone.

E ela não tinha mais forças para brigar com aquilo. Como ele, havia desistido.

- Não importa, você está bem, está aqui. – apertou-o com mais força. – Eu poderia te matar agora só de ter pensado em sumir em uma guerra sem dizer adeus. Não sabe com quanta raiva estou. Mas nada mais importa.

Uma risada rouca soou bem acima de seu ouvido, bem no local onde a boca de Hades colava-se ao seu cabelo. Era o som mais maravilhoso do mundo. Um dos raros e espontâneos, como se ele jamais tivesse esperado conseguir rir no meio daquele tulmuto.

E era por isso que Persefone acreditava que ele precisava dela: amor, carinho, verão. Mas nem sempre é o que pensamos, imaginou apreciando aquele tempo. Até que a risada dele tornou-se um gemido de dor.

Rapidamente, Persefone afastou-se, a procura daquilo que o fazia se curvar para um lado e só descobriu que era perto das costelas ao notar como sua própria manga estava dourando-se.

Olhou-o, pasma.

- Voce está machucado.

- Não é nada demais.

- Claro que é... Não me segure, por favor... Onde está doendo?

- Persefone, não é nada, apenas um corte superficial.

No entanto, ela não o escutou e, apalpando-o, achou o local.

Teve de se esforçar para puxar a placa de metal para frente com Hades reclamando, contudo, ao fim, conseguiu e o que viu fez seu estomago se revirar. Estava horrível. A pele dele parecia ter sido cortada em todas as camadas possíveis, mostrando muito mais do que deveria do corpo daquele homem que ainda havia conseguido a carregar por vários lances de escadas.

Hades segurou sua mão quando foi tocá-lo.

- Não. – disse, seguro, a fitar seus olhos. – Voce ainda está se recuperando, isso exigiria muito do seu poder. Em outra cirscuntancia, eu deixaria.

E apesar de ser lógico o que ele dizia, ela o ignorou e pousou seus dedos sobre o corte, sabendo que ele jamais manteria aquele aperto onde a luva poderia cortá-la. Como imaginara, ele soltou.

Sob seu toque, a pele começou a se reconstituir, limpando-se, fechando-se, como mágica. Ao final, tudo o que restava era uma fina linha rosada que logo sumia.

- Pronto – sorriu para ele, a notar que uma gota de suor escorria por seu rosto, mesmo o clima estando muito abaixo de zero. – Nada mal para uma doente, não acha?

- Acho que deveria brigar com você. – suspirou. – Mas agradeço.

Um agradecimento assim do nada? Pensou, alegre. Fazia tempo que ele não a agraciava com um daquele, tanto que só o que pode fazer foi encará-lo rearrumar a armadura e aceita a ordem de sentar-se bem autoritária que ele soltou.

Após tudo, por um lado, ele estava certo. Estava mais cansada do que deveria. Pouco se importou, ele estava melhor.

- As vezes você me deixa doido.

- Fico lisonjeada de poder tirar sua paciência, considere um dom.

Ele não sorriu, apenas continuou andando de um lado para o outro.

Ela não sabia o que ele esperava, mas no minuto em que um deus, em uma armadura dourada que chegava até mesmo a cegar com tanto brilho próprio apareceu ao lado de Hades, todos os pontos se ligaram.

- Hey, garotada. – sorriu Apolo. – Desculpe, Hades, Hermes estava um pouco ocupado e só eu tinha conseguido lidar melhor com a situação. Como vai, princesa? Melhor?

Só o que Persefone era encarar os olhos de Hades, sentindo uma lágrima escorrera pela sua bochecha esquerda, sem acreditar no que ele tinha feito. Mas era claro que ele faria, remoeu seu lado racional. Nada melhor do que uma guerra para devolver o que não queria mais.

Sentiu-se traída, o fitando, sem dizer nada.

Ao ver que ninguém respondia, Apolo assobiou e bagunçou os cabelos loiros.

- Então, sem querer atrapalhar, mas eu realmente tenho que ir.

Hades desviou os olhos dos seus, os negros completamente impaciais.

- Leve-a.

- Então é isso? – ambos fitaram sua pessoa ao ouvir seu tom de voz ultrajado, mas só quem Persefone conseguia encarar era Hades, com toda a raiva que guardava. – Então essa é a escolha daquela conversa que tivemos? Voce vai me deixar ir, sem mais nem menos, não é? Eu sou uma estúpida. Não, de verdade... – respirou fundo. – Não, não vou dizer nada. Foi sua escolha, vou aceitá-la. Mas, Hades, espero realmente espero que saiba o que está fazendo.

Quando ele nada falou, apenas fitando seus olhos sem nenhum arrepedimento ou emoção, teve a certeza do que a tanto a atormentava: aquele coração de gelo nunca havia sentido nada por ela. Somente luxuria conseguia florecer naquele inverno constante. Preso por um amor, por Penelope.

E com essa confirmação, segurou muito seu choro e deu um sorriso triste.

- É, Shadow estava errada. – suspirou, o fitando. – Meu coração não é o suficiente para você. Desculpe, Hades.

Apolo lhe parecia, pela primeira vez, em anos, sem graça. Encarava o outro lado da sala, para as enormes romãs e forçou-se a sorrir ao ver sua pessoa aproximando-se dele. Aquele sorriso, por muito pouco, não a levou a chorar, ao perceber que havia pessoas que a amavam.

Pessoas como Apolo.

Não olhou para trás, para onde sabia que Hades estava, parado, daquela forma que amava, e se entregou ao fato de que aquela era a escolha dele e prometera que não o forçaria a nada que ele não quisesse.

Então, somente, abraçou Apolo e disse um baixo:

- Se cuide, Hades.

Antes de fechar os olhos.

- Boa sorte, tio.

- Persefone...

- Vamos, Apolo. – ela já sentia as lágrimas caindo. – Por favor.

E sem mais nenhum som, o deus sol a abraçou e a levou de lá, para o calor, para a luz, para a vida do Olimpo.

Para todo o inverso daquilo que sentiria saudades: de Hades.