Foi à pior noite da sua vida, de todos aqueles dias que esteve naquele lugar.

De fato, tornara-se uma mágica, conseguira manter todos os deuses entretidos, claro, tivera algumas pequenas e baixas discussões com seu pai, mas não fora nada comparado a aquele frio que se achava agora uma vez que todos os convidados já haviam ido embora e os candelabros desligados.

Não conseguira deitar na cama, que pensara apenas cair sem nem tirar o vestido, nem se quer ficar parada para pentear seus cabelos que pareciam tão longos e sem brilho ao olhá-los pelo espelho de Hades, e só o que lhe dera vontade de fazer foi apanhar uma taça de vinho tinto, sentar-se em uma cadeira larga o suficiente para ser um trono de frente a uma das enormes janelas e ficar tomando aquele liquido que não esquentava nem um pouco o clima frio que se instalava no grande salão quando a lareira desligada não exalava calor.

Shadow não lhe disse nada, parecendo compreender que precisava de um tempo sozinha para esperar Hades, e agradeceu mentalmente que não precisara dizer isso.

Estava preocupada, muito mesmo, mais do que a promessa de vir resgatá-la que seu pai prometera ao ir embora ou dos sorriso de que não acreditava naquela farsa de Poseidon e Apolo, seguidos de promessas iguais as de Zeus.

Preocupada com a saúde de Hades e com a vida do mesmo. Podia ser um deus, talvez mesmo dos mortos, mas isso não queria dizer que não estava suscetível a imprevisibilidades, principalmente se vindas de Tártaro ou de um Titã.

Mas isso não importava para seu coração que se retraia só com o pensamento de alguma espada transpassar o corpo forte do Rei do Mundo Inferior como o mesmo havia feito para matar aquele bicho que ameaçara sua vida naquele dia.

E, por tal fato, a fim de calá-lo por ser tão estupidamente idiota por estar daquela maneira quando ele lhe tratava sempre frio, distante e maldosamente.

Era bem explicito que Hades não ligava para o que acontecia a sua pessoa, que pouco importava, mas que somente a mantinha viva por aquela pequena peça do quebra cabeça não compreendia e que sabia ter algo envolvido com seu pai.

Assim, acabava sua segunda garrafa de vinho, já se sentindo meio tonta e suficientemente quente para não ter mais sua mente pensando no instante em que sentiu dedos frios tocarem-lhe o ombro nu pelas mangas que escorregaram e ergueu os olhos, um pouco nebulosos, para encarar orbes tão negras quanto o céu do exterior e tão impenetráveis.

- O que está fazendo acordada, Perséfone?

E nem mesmo a voz rude a fez levantar-se de onde se encontrava, sem luvas, sem anel e sem a coroa, com os cabelos soltos pelos ombros.

- Não conseguia cair no sono.

- E por isso bebeu dois litros de vinho sozinha?

Fez sinal de descaso, esquecendo-se completamente de ser uma dama.

- Eu sou maior de idade, Hades.

- Eu...

- Não, você não sabe. – e finalmente ergueu-se, sem ligar para os olhos frios nos seus e se concentrando em descer o olhar pelo corpo do homem. Estava sem armadura, banhado e com os ferimentos cuidados e tampados para o tempo que seria necessário até estar com a pele lisa. – Acho que quem deveria estar dormindo era você.

- Vamos, já bebeu demais.

Apartou a mão dele da sua assim que ele tentou puxá-la.

- Hades, me deixa, ok?

Os olhos negros se estreitaram.

- Perséfone...

- Hades, quer saber, cala a boca.

E viu-se o puxando para beijá-la na segunda vez naquele dia, mas de uma forma desejosa que não havia acontecido anteriormente, nem a aquecera daquela forma.

E muito menos o atingira também.

Seu corpo, pequeno, empurrou-o para cima de um divã até achá-lo sentado por não conseguir frear aquilo e sua boca abrindo-se para receber o beijo que ele devolvia, respondendo toda a raiva por ter sido ordenado a algo daquela forma.

E ficou assim, sentada no colo do mesmo enquanto o beijava, ansiando por mais, querendo algo acima do que compreendia, mas que todos seus instintos diziam no momento em que ele segurou seu rosto entre mãos e deu um sorriso.

O sorriso mais sincero, suave e delicado que já o vira dar, que foi bem mais caloroso do que qualquer toque até aquele momento.

- Acho que é hora de dormir, está fora de si, é isso o que o álcool faz, deusa.

E, apesar de querer mais, teve de concordar, não sabendo nem como chegara a aquilo.

Minutos depois se achava somente tocando o peito de Hades, alisando a pele que estava partida, rompida ou cortada na qual podia arrumá-la, tentando ignorar aquele seu desejo, aquela sua vontade que sabia que ele compreendia por não estar tão imparcial assim por sempre encarar sua boca e que o fez no momento em que se levantou, com um sorriso.

- Terminei.

- Hum... – ele engoliu a seco. – Obrigada.

- De nada.

Hades abaixou a blusa que usava, escondendo as marcas da guerra, e levantava-se para colocar as mãos em seus ombros, delicadamente. Olhos negros.

- Deve dormir.

- Eu sei. – bocejou. – Vou fazer isso agora. Não vai também?

- Não, tenho de ver os últimos documentos. Pode ir, vou dormir no quarto ao lado.

- Hum... Então... Vou lá.

E ele assentiu.

E, pela primeira vez, Perséfone viu-se sem querer dizer nada e foi para o quarto, desejando muito ignorar tudo o que pensara e passara.

[...]

Perséfone suspirou no momento em que acordou.

O sol, sim, estranhamente o sol, tocava seus ombros e seu rosto delicadamente em uma caricia de quem sentia muita falta, o que ela não duvidava ao pensar que Apolo, seu primo, era quem dizia olá naquele lugar.

O ar estava menos frio, já não congelava como antigamente de um modo que até seus olhos doíam ao lacrimejarem, mas de jeito que conseguia respirar deliciosamente o ar gelado e quase provar o sabor de Natal e dias felizes perto da lareira que aquela sensação provocava.

Se é que havia como acreditar nisso naquele lugar.

No castelo do Drácula em plena campina branca do Mundo Inferior.

Preguiçosamente, girou um pouquinho para se espreguiçar, como costumava fazer em sua própria cama, adorando sentir o veludo do edredom escorrer por seu corpo e estava muito feliz, quando sentiu algo que não deveria estar ali, um corpo frio e estranho que se remexeu ao tocar o seu, mas não mais se moveram.

Perséfone abriu os olhos de supetão, assustada, para ver o que havia ao girar o rosto, seus cabelos tocando seus ombros...

Então, havia um homem realmente bonito na sua linha de visão.

Os traços eram firmes, perigosos até quando se encontrava dormindo. Os cabelos negros eram lisos e brilhavam de uma forma que mesmo seus dedos lhe traíram ao tocarem suavemente, seus olhos castanhos descendo pelo peito não machucado do mesmo muito bem trabalhado e perceber que finalmente ele descansava no sono que vinha tendo ter a tanto tempo.

Um que nem precisou ser gênio para descobrir que necessitava. E que a fez sorrir um pouquinho ao notar que os ombros não estavam tensos, em um estado de relaxamento muito acima do físico, da alma.

Hades. O deus do Mundo Inferior estava ali, dormindo de uma forma que jamais colocaria como vulnerável, enquanto sua pessoa esteve dormindo ao lado do mesmo.

E foi quando olhou para si e quase gritou.

Estava nua!

Por debaixo da coberta, sua pele suavemente dourada mostrava-se por completo, sem interrupções por calcinha ou sutiã. Seus braços automaticamente apertaram-se contra o peito, segurando o pano.

O que tinha acontecido?

Por que sua mente não conseguia acessar aquela parte do seu dia?

Recordava-se de ter dançado com Hades. De tê-lo beijado de uma forma que fez seus lábios formigarem agora com a lembrança. E, depois de ter tomado algumas taças de vinho, pouco da memória havia de correto... Alguns flashes.

O primeiro de Hades aparecendo e falando alguma coisa para sua pessoa que só o fez calar aquela boca ao beijá-lo.

Os dedos frios dele escorrendo por suas costas ao mesmo tempo em que puxava a corda de seu espartilho.

O tecido macio do seu vestindo deslizando por sua pele que se arrepiava pelo frio a cada vez respirava uma pequena nuvem de ar condensando, deixando seu corpo nu na frente daqueles incríveis olhos negros que não resplandeciam nada...

E então... Sua mente não recordava mais, preferindo muito mais deixar para sua pessoa uma maravilhosa dor de cabeça e um gosto estranho na sua língua que devia ser algo entre a mistura de menta e uvas do que mostrar o que de fato havia acontecido.

Seu coração pulou ante a idéia de poder ter divido muito mais do que só a cama com Hades.

Com aquele Hades que dormia tranquilamente com um braço embaixo da cabeça e uma mão, que antes estivera sobre sua barriga, agora pousada nos tecidos brancos da roupa de cama inferior.

Os dois dividindo o mesmo edredom.

Será que havia... Franziu o cenho... Transado com Hades?

Seu corpo se esquentava só com a imagem não muito saudável para sua alma do deus dos mortos, que havia conseguido ganhar sua preocupação, em cima de sua pessoa, a beijar sua boca.

Será que isso era somente a sua imaginação ou uma pequena cena do que de fato poderia ter acontecido?

Se fosse isso, por que não estava preocupada de ter deixado-o “tomar” seu corpo daquela forma?

Ou melhor, por que gostava da forma em que o dedo indicador do deus afagava sua coxa suavemente naquele instante?

Ou como seu corpo se arrepiava só pelo fato do clima encontrar-se esfriando um pouco porque sabia que ele acordava?

Pensava nisso, totalmente em pânico sobre o que poderia ter acontecido, quando sentiu olhos negros em seu rosto, tentando chamar a atenção que foi lhe dada assim que deusa conseguiu forças o suficiente para encará-lo.

- Algum problema? – foram as duas primeiras palavras que saíram daqueles lábios que pareciam ter mordido seu pescoço porque perto da clavícula doía muito.

Pousou a mão no local.

- Não. – sussurrava, ainda sem acreditar. – Nenhum.

- Isso saiu tão crível quanto se tivesse me batido.

Uma piadinha?

Hades estava brincando com sua pessoa?

Só o que pode fazer foi erguer ambas as sobrancelhas ante o sorriso mais feliz e nada falso que ela já havia visto, barrando todos os que pudera coletar em sua memória dos dias anteriores.

Um sorriso que deixou a face mais... Suave. Não menos perigosa, mas mais receptiva. Ao menos, era o que lhe parecia e o que lhe fez sorrir docemente.

- É verdade, só que...

- Perséfone?

Mordeu o lábio. Sabia que corava, sentia isso no simples arrepio que subiu pela sua coluna com a enorme mão de Hades pousada em seu joelho. Fria e segura.

- É que... Eu realmente não sei como perguntar isso de forma delicada... Mas... É...

- Perséfone, deusa, está ficando pior. Que tal só perguntar e eu decido se foi delicado ou não?

E, pela primeira vez, não ligou para o tom brusco de Hades. Estava... Delicado consigo igual como desejava que as palavras saíssem.

- Nós... É... Você sabe...

As sobrancelhas negras se arquearam de diversão.

- Nós o que, Perséfone?

A deusa revirou os olhos.

- Você sabe do que eu to falando... Daquilo.

- Daquilo o que?

- Argh, você está brincando comigo.

E fez algo que nunca imaginara fazer: jogou uma das almofadas no deus dos mortos que ria, a risada que ela sempre quis escutar e que amaciou seu coração, e levantou-se, segurando com força o pano para que não caísse.

Algo dentro de si pulou com aquela alegria que via nele. Uma alegria que parecia até anormal naquele lugar místico e gelado, mas completamente encaixada naquele rosto.

E, como que uma promessa, sentiu-se cortando um item da listinha que inconscientemente tinha feito.

O anel ainda pesava em seus dedos no momento em que passou na frente do enorme espelho e notou que uma mão enroscava-se em seu quadril, puxando-a até que estivesse de frente a sua própria imagem refletida, sorrindo como uma idiota para o deus atrás de si, a encarar seus olhos.

Os seus cabelos castanhos foram jogados para um de seus ombros quando Hades aproximou-se, suas costas arqueando-se de surpresa ao sentirem os músculos e o poder que o deus dos mortos detinha ao encostarem-se nelas.

- Não. – sussurrou ele em seu ouvido, sem deixar de encarar, bem mais serio agora. – Eu não fiz nada com você.

Seu reflexo enrugou, de uma forma que si mesma achou adorável, a testa, as suas sobrancelhas finas quase se juntando ao tentar entender de uma forma racional, ainda que soubesse ser idiotice quando se tinha os dedos gelados subindo por seu braço.

- Então...

- Você estava bêbada. – tocou a boca em seu ombro. O negro preso ao seu cor de mel. – Tentou algo comigo, estava chorando, mas foi em vão, eu não ia me aproveitar de você só porque estava um pouco... Mexida pelas duas garrafas de vinho que tomou...

- Duas? – sua voz saiu tão estúpida quanto imaginava só pelo deus estar mordiscando sua nuca ou era mera impressão sua?

- Acho que não deixei que terminasse a segunda. Sei que te trouxe para o quarto, já que Shadow mandou por estar ocupada em arrumar o resto do palácio, te ajudei a trocar de roupa porque não conseguia se manter em pé sem brigar comigo e cambalear e depois cuidou de mim. – ele assoprou, o vento saindo bem gelado contra o espacinho abaixo de sua orelha. Tremeu. – Só então consegui te colocar pra dormir, estava inquieta demais e tentando me agarrar a todo minuto. O que foi bem divertido vindo da sua parte.

Suas bochechas tornaram-se escarlates enquanto tentava manter a compostura diante dos olhos do deus do Mundo Inferior, tão negros e perigosos quanto os olhos de um felino pronto para caçar.

E era isso que se sentia ao notar que os dedos gelados enrolavam-se lentamente na coberta que segurava.

- Me desculpa – tentou dizer, sentindo-se envergonhada. – Eu não queria te atacar. Desculpe, Hades.

- Você foi a melhor surpresa que aconteceu, Perséfone, não tem o porquê de se preocupar.

E então o pano flutuava ao chão, como uma bandeira negra de algum pirata que apanhava seu tesouro, amontoando-se em torno de seus pés enquanto tentava ter alguma reação alem de arrepiar ante o ar gelado tocando sua pele quente e encarar os olhos cor de escuridão do deus que pousou a mão aberta em seu ventre puxando seu corpo para o dele.

Lábios gelados contra sua orelha.

- Bem mais bonita do que vestida. – um dedo subiu delicadamente até o vale entre seus seios. Estava hipnotizada por aquele homem, curiosa e ansiosa demais para descobrir o que eram aquelas novas sensações. Aquele ardor em seu peito. A sua respiração fraca. Seus joelhos ameaçando não aguentar seu peso. Aquela agonia estranhamente gostosa que parecia vir de todos os lados, tornando-se extremamente sensível ao toque, inclusive ao polegar dele que pousou ao canto de um de seus seios, perto de sua cintura. – Tão apreciável quanto uma obra de arte. Você é linda, Perséfone.

E, a segunda coisa que jamais pensou que faria, a deusa assistiu-se fazendo ao girar nos braços do mesmo e pousar uma mão no grave rosto, em geral fechado pela frieza que havia naquele coração aos pulos contra o seu enquanto o puxava para baixo.

Ou talvez estivesse sendo puxada para cima. Tanto fazia desde que aquela mão jamais parasse apertar, de uma forma que diria até ser carinhosa, suas costas.

Seus olhos caíram nos lábios do deus.

- E você me quer, Hades?

E fitou os olhos negros, cheios de algo que ainda não sabia o que eram, mas que fez sua boca ficar seca.

- Está se entregando a mim?

Engoliu a seco.

- Se é assim que pensa – bateu os cílios enquanto o encarava. – Deixe-me reformular a perguntar. Você quer que eu seja sua, Hades?

E soube que apertou a tecla certa assim que o viu dar um sorriso de canto.

- Fica mais linda com esses olhos inocente repletos de cores. – o viu aproximar-se, curvando-se sobre sua pessoa sem jamais perder o contato ocular que tinham. – E você deixaria que a fizesse minha?

A respiração dele era gelada e sem ritmo ao tocar seus narizes. Seus olhos automaticamente fechando-se para apreciar aquela sensação quase tão boa quanto o que viria depois.

Aquela dança que Hades parecia saber bailar muito bem em sua opinião.

E que fez seu coração tremer assim que os braços dele fecharam-se a sua volta, impedindo sua saída, e aquelas palavras chegaram ao seu ouvido.

E soube o que faria. Ou talvez sempre soubesse.

- O que você quiser, Senhor.

A risada baixa e divertida do mesmo.

- Você é minha então, Perséfone, adoravelmente minha.

E, finalmente reivindicando seu poder sua pessoa, ao tocar seus lábios aos gelados.

Um poder que ela já sabia que seria dele.

Sentia uma urgência, um desejo que ronronava dentro do peito sob o seu, uma vontade que ela desconhecia, mas que fazia sua barriga se encolher ao simples contato que fazia com a parte debaixo da calça dele e levava seus lábios a suspirarem com aquela sensação maravilhosa de ser desejada, do toque dos dedos do deus bem abaixo de seu seio, aquecendo algo desconhecido a si.

Sua mãe nunca tinha lhe falado algo semelhante, nem meramente perto daquele coquetel de explosões, nunca lhe avisara que poderia desejar alguém fisicamente sem nem mesmo saber como poderia ocorrer aquilo.

E sentiu-se estranha ao ser pousada suavemente na cama, em meio aos flocos de neve que caiam e que aprendera a perceber que sempre apareciam mediante alguma emoção extrema do deus, para receber o corpo de Hades em cima do seu, aquele volume tocando estranhamente prazeroso a parte interna de sua coxa.

Ela não era boba de não saber o que se tratava, mas era inocente por não saber como ocorria. Em toda sua existência, não precisara daquilo, nunca até achar Hades e saber o que era desejar alguém.

E seus instintos falaram mais alto logo que sentiu a boca dele mordendo seu pescoço e suas mãos prenderam-se aos ombros largos que se mostravam tensos sob o toque, aparentemente segurando um pouco de seu peso.

Algo que mentalmente agradeceu por não saber se o aguentaria, contudo, o suficiente para que os olhos negros saíssem do vale entre seus seios que era onde a boca dele tocava, criando sensações incríveis, e encarassem o seu já a questionar.

Se não estivesse tão se ar, talvez tivesse percebido a magnífica trocar de informações que já conseguia ler nas orbes escuras.

- Hades...

Sabia que corava.

Ele ergueu uma sobrancelha, como se estivesse impaciente para voltar a beijar sua pele, o que não reclamaria se ele fizesse isso. Principalmente se fosse onde os dedos gelados pousavam sobre seu seio, sem movimentarem-se.

- Sim, Perséfone?

Mordeu o lábio.

Como podia dizer aquilo sem parecer uma idiota? Só havia um modo: tentando e implorando para que não saísse estúpido.

- Eu... Bem... Er, quanto a isso... – apertou as unhas no ombro do mesmo, sem conseguir encará-lo. – Eu não sei como... Eu nunca...

- Você é virgem?

A pergunta soou mais alta do que suas palavras estiveram saindo, só que não como se estivesse gritando, mas surpreso pelo o que ela falava.

Só um pouco, já que Hades não deixava demonstrar.

Mordia o lábio ao assentir. Corava.

Estupidamente corava quando devia mostrar-se como um puma ou algum felino forte o bastante para encarar o deus dos mortos.

Mas, cá estava, olhando para o anel que explicitavam que estava noivos em seu dedo e com um deus imóvel entre suas pernas, aquecendo seu corpo do frio que fazia a sua volta.

- Eu nunca... – como dizer? – Eu nunca tive nenhum contato com o seu... Sexo.

E sabia que ele franzia o cenho daquela forma preocupada que sempre via quando não compreendia tudo, mas queria manter sob controle. Hades suspirou.

- Então, eu sou o...

Antes que pudesse terminar o que dizia, uma batida na porta o interrompeu e deu forças a Perséfone para fitar os olhos negros e impossíveis de serem lidos, explicando para ele tudo o que podia daquela forma, esperando que ele compreendesse que era muito mais complexo para ela aquilo que sentia do que devia ser para o mesmo.

A voz de uma dos oficiais soou do lado de fora.

- Senhor?

Sem desgrudar seus olhos, nem se mover, Hades respondeu:

- Sim, Fred?

- Precisamos de sua ajuda, ataque na ala leste. Acreditamos que só o seu poder conseguira segurar o titã.

- Estou indo, Fred, vai na frente. Coloque Klaus por enquanto.

- Sim, senhor.

E os passos se afastaram.

Perséfone não sabia o que fazer enquanto mantinham-se naquele impasse, se encarando, até Hades suspirar e balançar um pouco a cabeça, o semblante saindo de alegre de quando acordara para o usual de distante e preocupado que fez seu coração idiota doer ao ser jogada de fora da mente do mesmo, ser impedida de ver aquela alma como fazia segundos atrás.

- Eu vou lá lidar com isso, mas... – e antes que sua pessoa pudesse dizer algo, porque já sentia seus olhos encherem-se de água sob a perspectiva de mais uma guerra para o deus, Hades colou os lábios gelados sobre os seus, empurrando sua boca em uma pressão que prometia mais do que aquelas palavras dele diziam, assim como o sorriso seguido de uma mordida em seu pescoço que doeu ao se afastarem. E só o que pode fazer foi beijá-lo mais uma vez. Aquele medo idiota aproximando-se. – Eu darei um jeito.

Perséfone suspirou.

- Tenha cuidado.

Um sorriso calmo apareceu nos lábios do deus.

- Eu sempre tenho, deusa. E... – o deus tocou sua boca outra vez. – Você ainda é minha, terminaremos depois o que começamos aqui, Perséfone, eu sempre tomo o que é meu.

Assim, Hades se levantou e sumiu no banheiro, deixando seu corpo gelar e sua mente a pensar que diabos a tinha feito se entregar ao deus do Mundo Inferior.

Aquele que tanto odiava antes.

Mas que agora nem sabia o que sentia.