Snow

3 Nem tudo é o que parece.


Notas iniciais
Se divirtam ^^

Mais tarde, naquele mesmo dia, Perséfone teve a visita de Shadow quando se achava encolhida na cama de Hades, sentindo o maldito cheiro de menta que ele exalava como um calmante que a levou a imaginar que a morte podia ser doce para aqueles que o tocavam, seus braços ao redor de suas pernas e seu queixo pousado nos joelhos, olhando para a janela onde os flocos de neve continuavam a cair infinitamente.

Era tão incrivelmente igual a aquele idiota coração dele: gelado.

Morto.

Sentiu uma lágrima cair em sua bochecha.

Nunca odiara alguém, não nascera com esse sentimento, mas também nunca encontrara alguém tão perverso e cruel como Hades.

Odiava-o.

Se aquela raiva incontrolável mesclada à agonia a mera presença daquele homem era o que chamava de ódio, então sem dúvida o sentia.

E também nunca quisera matar alguém como desejava fazer agora, acabando com a vida daqueles olhos negros, que já pareciam mortos há tanto tempo que davam a ideia de que nunca estiveram vivas.

Sentiu Shadow sentar-se ao seu lado, aquela senhora de não mais que sessenta anos de olhos tão doce e diferente de seu patrão que passou a deslizar os dedos por seu cabelo e levou seus olhos a se embaraçarem com aquele carinho que tanto precisava depois de tudo o que passara.

Shadow suspirou, baixinho.

Era o pior pesadelo de sua vida. O que havia feito para o Destino?

– Eu vou dar uma bronca naquele moleque – dizia a senhora, com a voz suave repleta de compaixão e uma raiva materna ao comentar sobre Hades. Como alguém podia amar aquele cara? – Ele te machucou. Hades não tem jeito, só tem gelo naquela mente. Não acredito que ele tenha feito isso.

– Pois ele fez. – murmurou ao sentir os dedos que soava quase como um roçar de vento em seu pescoço onde vira que ficara a forma dos dedos dele, assim como a cortara por causa do colar. – O que eu fiz de errado, Shadow?

– Nada minha, querida, você não fez nada. Hades só é um pouco... Excêntrico.

Perséfone capturou os olhos que um dia deveriam ter sido azuis como o céu de seu antigo lar.

Recordar como eram lindos os campos de trigo ao por do sol, o cheiro de frutas únicas ao amanhecer, e clima sempre agradavelmente quente de sua casa só levaram mais lágrimas aos seus olhos.

– Sim, eu fiz algo de errado. Não tem como não ter sido. Eu só... Sofri na mão dele. Hades me trata como se eu fosse um poodle que pudesse estalar os dedos e ter, e meu pai está brigando por mim.

– E isso é bom, não é, querida?

– Não. – suspirou. – Não é, Shadow, eles estão se machucando. Pode parecer ridículo, mas não quero ninguém brigando por mim.

– É assim que você pensa que está acontecendo?

Olhou-a confusa enquanto via-a secar uma lágrima sua.

– E não é?

Um sorriso delicado apareceu nos lábios da senhora.

– Você é tão inocente, Perséfone, quase posso compreender porque ele a sequestrou. – deslizou um dedo por sua face. – Não é com seu pai que Hades luta, ainda que esse esteja envolvido, é com Tártaro. Está tentando manter um pouco de ordem no seu reino e acha-se inconstante. Não vê como ele sempre me manda cuidar de você? Ele não a quer mal, quer se impor em um momento critico. É uma natureza dele. Então, querida, por favor, por agora, não se imponha contra ele. É um pedido que faço para seu bem estar. Promete?

E, encarando aquela preocupação nos olhos translúcidos da fantasma, só o que Perséfone pode fazer foi assentir, por sempre aceitar os pedidos dos outros, e deixá-la dar um beijo em sua testa, sabendo que ao menos alguém naquele lugar estava ao seu lado.

Segurou a mão fria da senhora.

– Eu prometo, Shadow, só não sei quanto vou aguentar.

Ela lhe sorriu.

– O suficiente para tudo melhorar, você tem garra... Por isso, vamos, levante. Vou te arrumar para ver o reino. – piscou de um modo que a levou há sorrir um pouco. – Isso, o Mundo Inferior pode parecer cruel, mas vai ver que é bonito. Prometo.

[...]

– Não estou com tempo agora, Shadow. – disse Hades assim que escutou os passos de salto alto de sua empregada entrarem em seu escritório que se achava cheio de livros por todos os lados, mapas de guerra de seu reino e muito mais.

Um conjunto de problemas que tentava finalizar ainda naquela semana, mas que se achava o arrastando e o cansando mais do que pensava ser possível.

Desde que Tártaro fraquejou um pouco e um dos titãs conseguiu sair, por sorte não sendo seu pai, que Hades vem lutando com o mesmo. De alguma forma, chegou a achar graça ao ver que perdia mortos no reino dos mortos, e só o que podia fazer era conseguir matar o deus. Contudo, jamais soube que dar fim a um daqueles poderia desestabilizar as suas alianças já fraquejadas pelo tempo com o Olimpo.

O consideraram forte demais, perigoso demais e como um modo de acalmar e evitar piores erros, "entregaram" Perséfone a ele. Imaginou que fosse alguma ideia estúpida de Afrodite, e de fato o era, tanto que se achava brigando com Poseidon todas as vezes que esse aparecia em seu reino para tentar desdizer o que houve por pedido de Demeter.

Não deu importância a ninguém, tinha uma luta para lidar e Perséfone já estava ali mesmo, por ali ficaria.

Simples assim.

Não era por ignorância, só não podia dar atenção aos olimpianos que nem se quer sabiam do que acontecia no Mundo Inferior, a guerra que estava se deslocando ali embaixo. Impedira da noticia se espalhar e só que detinha esse conhecimento era os seus cincos comandantes que se achavam agora na sua sala, sentados em poltronas, também a procura de uma saída.

Quer dizer, até Shadow chegar e terem que parar.

Suspirando, Hades retirou os olhos do que lia sobre as baixas para encarar os furiosos e tempestuosos olhos azuis de sua empregada que se achava de braços cruzados.

Uma patética imagem de quem dava medo.

– Eu preciso conversar com você, Hades, agora.

– Shadow não está vendo que estou...

– Ou você me dá atenção agora. Ou... – semicerrou os olhos, ameaçadoramente. – Vou dizer o que vim falar na frente de todos. E acho que você não vai gostar.

E nem eu, pensou enquanto travava uma luta com aqueles olhos.

Por fim, sabendo que aquela quem o criara não poderia ser ameaçada por nada que detinha, aceitou seu destino de ter que escutá-la e estalou os dedos.

Não demorou muito para estarem os dois sozinhos, os capitães saindo ao simples movimento que fazia, e Shadow não perdeu tempo em bater suas duas mãos sobre a mesa de madeira que se encontrava entre os dois.

Ao menos uma proteção, pensou acidamente enquanto a via tremular de fúria.

– Como você ousou machucar Perséfone?

Suspirou.

– Por que eu não estou surpreso de que esta conversa seja sobre ela?

– Sem ironias, Hades, ela é uma mulher. Você machucou uma deusa.

Seus lábios se crisparam.

– Ela mereceu.

– Ah é? – os olhos azuis eram decrescentes ao serem encarados. – O que ela fez de errado? Te bateu?

– Não se remete a você, Shadow. – o tom mais frio que podia. – Não se meta no que não é chamada.

– Ah, mais vou me meter mesmo. Hades, você deixou uma marca horrível no pescoço dela e ainda a faz usar aquele ridículo colar. Você tem alguma ideia do quanto estou me segurando para não ir ai puxar sua orelha e fazê-lo ir lá se desculpar? Eu nunca acreditaria que o menino que criei faria isso a uma deusa – ela suspirou, exasperada – Hades, ela estava chorando! Ela quer ir embora, ela quer morrer... Ela te odeia! Uma deusa doce como aquela queria te matar! Você...

– Calada. – bateu suas mãos na mesa, inclinando-se para perto da senhora que nem se quer se mexeu, e finalmente levantando-se, para ficarem na mesma posição. Sentia todos os seus poderes extravasando. Já era a segunda vez que uma mulher brigava com ele naquele dia, não precisava daquilo, tinha seus próprios problemas. Encarou os olhos uma vez azuis dela com frieza. – Não me diga o que faço ou deixo de fazer.

– Eu te criei, eu falo o que quiser, Hades, não pode mandar em mim como faz com os outros.

– Não se meta nos meus assuntos, Shadow. Não se envolva com Perséfone. Cuide do que é seu. O resto, eu cuido. – semicerrou os olhos. – Eu não quero saber de mais nada. Eu faço o que bem entendo. Eu sou o deus daqui, eu mando aqui e ninguém me diz o que fazer.

– Assim como você não me dá medo, Hades. – então, em uma mudança radical, a senhora a sua frente que o criara tocou seu maxilar travado com carinho. Aqueles olhos tornando-se cheios de amor fraternais, a voz baixa e doce de sempre. – Ela está com medo de você, Hades. Não deixe que isso aconteça. Por favor. Eu sei que você é uma boa pessoa, querido, mostre isso a ela, seja um bom anfitrião.

Suspirou ao fechar os olhos, a tentar controlar dentro de si o redemoinho de poderes que se achavam instáveis diante seu pouco tempo de descanso.

Ele sabia que Shadow estava certo. Que estava sendo um completo idiota que machucava aquela que era o símbolo de paz entre os reinos e que ameaçava assim mais uma briga que não podia lidar no momento.

Uma vez mais, respirou profundamente.

Precisava acalmar-se.

– Onde ela está? – perguntou assim conseguiu não fazer sua voz tremer com o poder.

E quase pode ver Shadow sorrindo por ter ganhado. Era incrível como àquela senhora sempre ganhava e sempre tinha a resposta para tudo.

– Ela está lá fora, indo aos campos Elísios.

Seus olhos se abriram de surpresa.

– É o que?

A testa da mulher a sua frente se franziu levemente de confusão ante sua expressão.

– Elísio, ela foi para lá. Hades, o que houve?

– Não. – e correu para apanhar, preso ao lado de sua armadura negra que sempre ficava em seu escritório agora que vivia tendo de sair com pressa para lutas, a sua espada negra. Puxou-a sem qualquer problema e logo se via colocando-a nas costas, na bainha que sempre a deixava pronta para ser mais rápido, apanhando mais algumas coisas na mesa e dando a volta para chegar às portas duplas que o levariam para fora.

Nem se quer recordava porque brigara com Perséfone, não agora que sabia do perigo que ela corria, do que poderia acontecer aquela deusa que sempre era tão doce mesmo depois de brigar com ela.

E que o fez correr.

– SHADOW, MANDE AS FÚRIAS ATRÁS DELA.

– HADES, O QUE FOI?

Virou-se um minuto para encarar os olhos azuis preocupados e mostrar o perigo da situação.

– Os meus inimigos estão por lá.

E correu.

Notas finais
Hey, não esqueçam meus recadinhos, ok? ^^