Slytherin Past

13 Reencontro


Eu sabia que não era CeCe, mas a sua transformação me pegou de surpresa mesmo assim. Nunca tinha visto alguém mudar na minha frente e imaginei que era o efeito de uma poção polissuco acabando. Os olhos verdes da minha amiga se tornaram ainda mais verdes e só havia uma pessoa que conseguia ter olhos mais claros que ela.

— Jesse?! – exclamei, atônita.

A minha frente estava nada menos que o meu primo, quem eu achava que tinha traído a resistência e consequentemente, eu. Qual era a dele, afinal? Desde que o revi em Hogwarts, fiquei confusa sobre sua pessoa. Quão estranho era ele ter entrado no sexto ano? E mesmo assim ser excelente em feitiços?

Como eu lembrava de coisas sobre ele mesmo antes de saber que Dumbledore tinha alterado minhas memórias e tentar recuperá-las? E ainda tinha toda a questão dele estar mandando cartas com o selo dos Comensais, ter uma casa extremamente suspeita e um elfo doméstico.

Por muito tempo, eu ignorei todas essas perguntas por ser mais conveniente e porque ele era meu primo e namorado de uma das minhas melhores amigas. Mas eu não aguentava mais. Não conseguia mais conviver com ele sem saber absolutamente tudo, começando pela história com os Comensais.

— Fala baixo! – ele sussurrou e abriu a minha cela. – Precisamos procurar o artefato e dar o fora daqui o mais rápido possível.

— Não antes de você me explicar tudo. – falei, inflexível, notando que ele claramente sabia do artefato sem eu nunca ter falado nada. Era só mais uma pergunta para a lista.

Mesmo no escuro, eu consegui ver seus olhos girando.

— Não temos tempo! – fiz uma cara de “você tá me tirando?” — Não estou falando isso para evitar explicar como sempre acontece nos filmes. Nós realmente não temos. Estamos no quartel general inimigo e Você-Sabe-Quem pode aparecer a qualquer hora!

Quando viu que eu ainda estava hesitante, completou:

— Assim que sairmos daqui, eu te conto absolutamente tudo sobre mim, eu juro.

Eu sei, eu sei. Eu não devia acreditar nele depois de todos os motivos que ele me deu para o contrário, mas eu realmente estava no quartel general inimigo, onde meu tio podia me encontrar a qualquer momento. E realmente era a melhor chance que eu tinha para encontrar a esfera.

Bufei, claramente descontente e sai da cela, mostrando que estava pronta para ir atrás dele.

— Eu fiz algumas pesquisas e acho que sei os cômodos mais bem protegidos. – ele falou, enquanto corríamos escada a cima.

Depois de fazer alguns feitiços para nos silenciar enquanto andávamos, me deu um pequeno papel que eu não conseguia ler no escuro.

— Lumos. – falei, analisando o papel.

— É um mapa da mansão, eu sinalizei os cômodos. Você vai indo, enquanto eu encontro CeCe no jardim. – Jesse esclareceu, como se fosse óbvio. Quis protestar e dizer que não queria andar pela mansão cheia de pessoas que queriam me matar, mas ele já tinha corrido para longe de mim. Como ele sabia onde CeCe estava, afinal?

O maldito nem tinha me dito onde raios era para nos encontrarmos. Respirei fundo, não era hora de ser covarde. Precisava achar a porcaria da esfera e cair o fora dali o mais rápido possível.

Eu tinha descoberto, naquele momento, que eu era uma péssima leitora de mapas. Não conseguia nem entender onde eu estava no desenho elaborado de Jesse. Fiquei um tempo apenas andando sem rumo, esperando encontrar alguma sala que parecesse suspeita, torcendo para que ninguém me achasse. Teoricamente estava tarde demais para ter gente acordada zanzando pela mansão, mas vai saber quais são os horários desses bruxos das trevas?

Então, do nada, eu o vi. Draco Malfoy estava parado a poucos metros de mim no corredor, com uma expressão de completa surpresa ao me ver. Seus olhos cinzentos ainda eram os mesmos e seus cabelos louros permaneciam incrivelmente sedosos mesmo por trás da luz fraca da minha varinha. Encarei-o por alguns segundos, sem saber o que pensar ou agir. Fazia meses que eu não o via, apenas imaginando onde estava e o que andava fazendo. Parte de mim queria correr e abraça-lo, nunca mais larga-lo. E a outra parte queria socar sua cara.

— Lizzie.... – ele disse, se aproximando. De repente, minha barreira se ergueu. – O que está fazendo aqui? – perguntou, em um tom urgente que eu preferi ignorar.

Apesar de ser o meu ex-namorado pelo qual eu obviamente ainda tinha sentimentos, ele era o mesmo Draco que tinha me abandonado e ido para o lado dos Comensais da Morte como um covarde.

Mesmo assim, seu olhar fez minhas entranhas se contorcerem, meus dedos ansiarem por seus cabelos e meus lábios pelos seus, como uma garotinha patética que não conseguia controlar seus próprios sentimentos.

— Eu vim... – as palavras se perderam na minha boca. Me ocorreu que eu não confiava nele, não depois de tudo o que ele fez. – Eu...

Pensei em alguma coisa para inventar, mas ele não me deu a chance.

— Você tem que sair daqui! – exclamou com ansiedade, agora segurando meus ombros e me encarando com firmeza. Seu toque simplesmente foi demais para mim, ele não tinha direito de me fazer me sentir assim, não depois de suas últimas palavras no ano passado. – Se o Lorde das Trevas souber que você...

— Ele não vai. A não ser que alguém me denuncie. – completei sugestiva, com um olhar gélido. Senti o rancor na minha voz e notei minha vontade de mostrar a ele que ainda não tinha o perdoado, que ainda não confiava nele e talvez nunca voltasse a confiar.

— Eu não faria isso. – seu tom se tornou frio e eu senti a barreira se solidificar, Draco ainda era tão orgulhoso quanto eu afinal. – Mas ele checa a Mansão a cada segundo e há vários Comensais da Morte que podem te reconhecer. Ele já não confia tanto na minha família.

Draco parecia ressentido de alguma forma e eu consegui sentir o arrependimento em seu tom, assim como a angústia em seu rosto. Ele devia estar odiando estar na mansão e à mercê das vontades do meu tio, mesmo quando foi ele quem causou tudo isso para si mesmo.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, imersos no mar de palavras não ditas, até que ele quebrou o silêncio:

— O que você precisa? Qualquer coisa, eu...

Mas eu não queria a ajuda dele, não queria contar porque estava ali e o que estava fazendo. Queria abraçá-lo e beijá-lo e esquecer de todos os nossos problemas, da guerra e de tudo o que estava acontecendo e aconteceu. Em vez disso, fiquei em silêncio, imaginando um cenário no qual a nossa relação podia dar certo. Então, ele me desarmou:

— Me desculpa, Liz.

Prendi a respiração. O quê?

— Quê?

— Você ouviu. Eu devia ter te ouvido. Eu sei que o que a minha família está fazendo está errado. Não pense que eu sou um idiota que não sabe o que é certo e errado. Eu só... É só que, eles são...

— A sua família. – completei, pensando em tudo o que eu estava fazendo para encontrar meus pais e ajudar Rabastan.

Ele olhou para baixo e não me respondeu, como se sua justificativa fosse o suficiente para explicar seus atos.

— Mas Vol- Você-Sabe-Quem está ganhando, Draco. – falei, sem saber exatamente o porquê. Talvez uma parte rancorosa de mim ainda quisesse fazê-lo se sentir culpado. – Potter sumiu e Hogwarts está um caos. Você não pode ficar fingindo que nada está acontecendo e não fazer nada.

Imediatamente percebi meu erro. A barreira sólida que se mantinha entre nós, mantendo o ambiente frio tornou-se ainda mais explicita quando ele voltou a me encarar com um olhar completamente raivoso.

— E o que você está fazendo? Eu não vejo você por ai na resistência. – ele ralhou. Era a vez dele de jogar veneno em suas palavras, alguma parte dele ainda estava rancorosa também. Essa era boa, ele estava ressentido comigo? Fala sério.

— Bom, desculpa se eu estou preocupada demais me mantendo viva para começo da conversa! – retruquei imediatamente, na defensiva. Logo depois de me ouvir gritando, me dei conta de que ele estava certo. Quer dizer, eu estava fugindo para onde quer que meus pais estivessem, porque estava com medo de Voldemort me matar. E se eu não tivesse parte da minha vida pensando que fosse nascida trouxa, talvez eu nem me importasse com a guerra.

Talvez nem naquele momento eu realmente me importasse. Talvez eu só estivesse envolvida porque os eventos me forçaram a estar. Draco estava cruelmente certo. Eu não podia xingá-lo de covarde, porque eu era uma também. Além de uma egoísta que só pensava nos meus próprios interesses.

Com uma nova dose de compaixão, eu lembrei dele no ano passado e como foi difícil para ele manter-se leal ao pedido de Voldemort. E como se preocupava com a sua família antes de qualquer ideal. E como meus motivos para ajudá-lo eram também egoístas. Eu nunca quis realmente salvar o mundo bruxo, eu quis ficar com ele e descobrir sobre meu passado.

Bom, fazer o que? Não é como se vocês já não soubessem que eu sou uma megera.

— Ele te encontrou? – Draco perguntou.

— Não. Ainda não. – respondi, com a voz fraca. A segunda menção de Voldemort me fez lembrar o motivo de eu estar ali para começo de conversa e como eu, Jesse e CeCe estávamos correndo perigo a cada segundo que permanecêssemos na mansão.

— Então saia daqui! – ele insistiu e eu neguei com a cabeça.

— Não antes de eu fazer o que eu preciso fazer. Preciso ir logo, CeCe e Jesse estão me esperando. – afirmei sem saber se era verdade, me desvencilhando de seu olhar.

Mas parecia que Draco estava obstinado em manter-me ali, pois não saiu da minha frente. Ótimo, perfeito timing. Por que ele não me olhou assim meses atrás? Ah sim, porque a minha vida é uma droga.

— O que você quer? – ele perguntou novamente, me encarando com olhar orgulhoso e genuinamente curioso. Talvez um pouco preocupado, ou talvez isso era o que eu queria ver.

Você, respondi mentalmente. Ah, me xinguem quanto quiserem, Draco ainda era incrivelmente lindo e era óbvio que eu ainda o amava mais que tudo nessa vida e que talvez eu largasse tudo só para ficar com ele e... Ok, não. Eu precisava achar meus pais, precisava me salvar, precisava honrar a vontade de Rabastan.

— Não precisa me contar o motivo, só me diga o que você precisa.

Eu fiz uma careta, ele percebeu que eu não confiava nele e eu consegui ver um tom de mágoa em sua voz, que me fez ficar ainda pior.

— Draco, eu não quero a sua ajuda. – tentei ao máximo me manter determinada em não satisfazê-lo. Ele finalmente se irritou.

— Certo, ótimo! Então vai e seja morta! Eu não ligo!

E ali estava o Draco dramático que eu conhecia.

— Ok, me deixa passar então. – pedi, tentando não rir para não deixá-lo ainda mais bravo. Ele bufou e jogou os braços para o ar.

Estava prestes a falar mais alguma coisa, provavelmente me xingar, quando um barulho de porta batendo e alguns gritos nos interromperam. O pânico tomou conta de mim, eu não podia ser pega antes de achar a maldita esfera. Por que justo os Malfoy tinham que ser colecionadores de artefatos das trevas?

Enquanto eu estava pateticamente paralisada em choque, Draco me segurou pelos ombros e me empurrou para dentro de um quarto. Ele fechou a porta rapidamente e ficou com o ouvido grudado nela, tentando ouvir qualquer coisa que estava acontecendo no corredor. Quando eu tentei protestar, ele me colocou o dedo indicador na boca e fez “shhh” da forma mais adorável possível. Tive que obedecer.

Depois, com um feitiço, ele conseguiu ouvir melhor o que estava acontecendo. Foi só depois de ter certeza de que não havia mais ninguém no corredor, que ele se voltou para mim e deu um suspiro aliviado.

— Parece que Potter achou mais uma horcruxe. – ele murmurou ranzinza e eu franzi a testa. Do que raios ele estava falando?

— É... Oi? – perguntei, deixando a curiosidade levar o melhor de mim.

— O Lorde das Trevas dividiu sua alma em seis partes, deixando cada uma em um objeto. Ele só pode ser morto se todos os objetos forem destruídos. – Draco explicou e eu soltei um sorriso involuntário, esquecendo-se que estávamos de lados diferentes. Eu pensei que Potter tinha fugido e estava fazendo sabe-se lá o que, então uma parte ficou aliviada em saber que ele estava cumprindo sua missão.

— Isso é uma coisa que Você-Sabe-Quem faria. – murmurei de volta, em vez de falar bem de Harry Potter, sabendo o que isso desencadearia.

Eu vi Draco apreensivo e me encarando de forma suspeita. Quis saber o que ele estava pensando, mas não ousei perguntar. Eu precisava sair dali e encontrar a porcaria do artefato.

— Agora eu já posso... ?

— Miller, o que você está fazendo? – ele me perguntou novamente. E dessa vez eu vi a determinação e ambição sonserina em seu olhar. – O que você quis dizer com se mantendo viva?

Ok, essa preocupação eu tenho certeza que não foi invenção da minha cabeça. Tudo o que eu queria era contar tudo para ele. Absolutamente tudo, desde o momento que eu deixei a minha casa até aquele, mas não podia. Não pude.

— Eu adoraria ficar aqui e conversar, mas CeCe e Jesse podem estar em perigo, enquanto me esperam. – falei a verdade. Eu não queria que os meus amigos morressem porque eu estava tendo uma DR com o meu ex.

Draco me encarou furioso e eu dei de ombros.

— Você não pode me impedir de te seguir. – ele disse, como uma criança e eu revirei os olhos.

Notas finais
Essa sou eu POSTANDO NO TEMPO CERTO! Haha, mereço reviews, vai? A tão esperada reunião dos pombinhos :) Gostaram? Beijocas :*