Slytherin Past
14 O sótão
A verdade é que eu fiquei feliz por ele me seguir, mas só porque agora eu teria um álibi se alguém me pegasse, não porque ele cheirava bem ou porque eu o queria por perto todos os minutos da minha vida.
— Como vocês entraram? – ele perguntou, perto demais da minha nuca, depois de subirmos alguns andares. — Fingimos ser capturados. – respondi, seca. – O que você está fazendo acordado? Eu não queria mostrar interesse, mas quando eu faço alguma coisa que eu quero, não é mesmo?— Não consegui dormir. – ele se limitou a responder. Ótimo, mais segredos. Existia alguém na minha vida que não mentia para mim constantemente? A movimentação dos Comensais parecia se concentrar no térreo, então não me preocupei muito, eles estariam muito preocupados com Voldemort encontrando a hor... Sei lá o nome daquilo. Encontrando a parte da alma dele.— Isso é óbvio. – retruquei e ficamos em silêncio. Eu odiava aquilo. Odiava que a nossa relação tinha se tornado aquela coisa esquisita e desconfortável quando anteriormente já tínhamos abaixado as nossas barreiras. Como retrocedemos tanto? Ah é, ele foi para o lado do mal. Finalmente consegui entender o mapa de Jesse e entrei em um dos cômodos que ele apontou. Apesar de tentar ignorar Draco, era quase impossível com o seu cheiro e respiração. Quis mandar ele parar de existir, mas não queria que ele soubesse que eu me importava.A iluminação de nossas varinhas não era suficiente para o tamanho daquele cômodo. Honestamente, quantos quartos uma família de três pessoas precisavam?— Nós temos um elfo doméstico, posso falar para ele procurar o qu-— É claro que tem. — respondi, revirando os olhos. Não é possível que ele ainda não sabia minha opinião sobre elfos e o tratamento nojento que eles tinham pelas famílias puro-sangue. — Já falei que não quero a sua ajuda.Ele bufou e continuou a me seguir em silêncio. Eu sei que a ajuda de Draco seria muito bem-vinda, eu provavelmente encontraria aquela maldita esfera em minutos, mas o destino me fez uma sonserina e sonserinos têm um orgulho e ego insuportável que nos impede constantemente de sermos felizes.Estar ali, no escuro em silêncio com Draco me fez lembrar dos nossos dias consertando o armário. E em como era confortável ficar sem falar, só sentindo a presença um do outro, sem nos incomodarmos com nada e focando apenas na tarefa a frente.Se eu pudesse voltar no tempo, talvez eu tivesse falado para Lizzie de um ano atrás que ela estaria numa missão inútil, que todo o seu esforço de salvar Draco e impedir a morte de Dumbledore seria em vão. Mas eu estava no presente, e no presente Draco não era meu namorado e eu não tinha nenhuma razão nobre para estar fazendo o que eu estava fazendo.Apenas motivos mesquinhos e egoístas.Acendi todas a velas por onde passava e Merlin, como aquele lugar tinha velas. Ninguém nunca ouviu em energia elétrica no mundo bruxo? Francamente. Se tinha uma coisa que me incomodava era essa aversão por tecnologia e qualquer bom senso. Um Wi-Fi não ia matar ninguém, ia? E celulares, então? Nem me falem!Olhei em volta e vi que estava em uma grande sala de reunião. Tinha uma mesa de madeira cor de carvão no centro, tão envernizada que eu conseguia ver o reflexo dos candelabros do teto nela. As paredes estavam cobertas por estantes que continham diversos objetos, um mais esquisito que o outro. A sala, como a mansão toda, era muito elegante e luxuosa.Não quis nem pensar que tipo de reuniões eles faziam ali.Comecei a vasculhar as estantes, quando Draco finalmente quebrou o silêncio:— Elizabeth.Eu não ia virar para dar-lhe atenção, eu juro. Mas o jeito com que ele falou meu nome, como se fosse o último sussurro que soltaria na vida, fez até o mármore mais duro do meu coração derreter. Ele estava mais próximo do que eu esperava. Quase conseguia sentir o seu calor e, se eu desse mais um passo, nossos rostos estariam irresistivelmente encostados.— Eu quero ir com você. — ele disse, ainda em um sussurro. Parece que toda vez que ele falava, eu me lembrava de como sua voz soava. Como veludo, como seda. Terrivelmente linda, mas escorregadia. — Meus pais vão achar que eu estou na escola. E eu mando alguém falar para Snape que eu estou doente em casa, ele não vai se dar ao trabalho de checar. Eu apareço aqui nos feriados para os meus pais não suspeitarem.— Draco, eu…— Você não sabe o que eles estão me forçando fazer aqui e na escola. — seu olhar abaixou, escondendo-o de seus pecados. — Eu não aguento mais. Não tenho mais desculpas para me esquivar dos trabalhos.— Trabalhos? — perguntei. Ele tinha me quebrado. Lá estava eu, com pena. Lá estava eu, um ano atrás sentindo que eu podia ajudá-lo, podia consertá-lo. Eu não tinha acabado de pensar que se eu pudesse voltar no tempo eu impediria a mim mesma? Então porque estava cometendo o mesmo erro? Exatamente da mesma forma. Sucumbindo ao cinza de seus olhos marejados.— Não me faça explicar. — Draco negou com a cabeça e voltou a me encarar. — Só me deixe ir com você. Eu prometo que não vou atrapalhar.
Eu o conhecia bem, ele estava suplicando. Esse era o mais próximo de “por favor” que eu teria.— Você já está me atrapalhando. — era verdade. Ele estava me distraindo, estava me fazendo pensar coisas que eu não deveria estar pensando. Estava me impedindo de ir rápido e me encontrar com Jesse e CeCe. Estava colocando todos nós em perigo. Mas mesmo assim… — Mas é claro que você pode vir.Ele não sorriu e nem agradeceria. Apenas acenou com a cabeça e se afastou, imaginando que isso fosse o que eu iria querer. Óbvio que o que eu queria era o total oposto, mas não podia fazer nada a respeito naquele momento.Suspirei e falei:— Estou procurando uma esfera negra. É como aquelas bolas que a Trelawney usava nas aulas de Adivinhação, mas menor e completamente preta. — eu não precisava dar detalhes, mas se ele iria conosco, iria descobrir eventualmente o básico. — A última vez que eu vi foi na Borgin & Burkes.Tomei cuidado para não mencionar Rabastan, Draco nunca soube da lealdade do verdadeiro homem que cuidou de mim até os 11 anos.— Quando você esteve na Borgin & Burkes?— Prioridades, Draco. — falei. — A esfera? Te parece familiar?Ele desviou o olhar e franziu a testa.— Não.Ótimo, além de tudo, ele seria inútil. Ele percebeu a minha frustração, porque rapidamente completou:— Mas eu sei onde deve estar, nós deixamos as coisas mais preciosas no cofre do sótão, vem.Não sei se ele fez isso naturalmente ou foi um ato pensado, mas pegou a minha mão e me puxou, me transportando imediatamente para o ano anterior, quando andávamos por Hogwarts em segredo, com apenas nossos objetivos mesquinhos em mente e sem se importar com nada mais. Quem imaginaria que eu sentiria falta dos tempos simples de tentar impedir alguém de matar o bruxo mais poderoso de todos os tempos?Sua mão quente envolvendo a minha fez os minutos passarem mais rápidos, porque estávamos no sótão antes de eu perceber que se quer nos movemos para começo de conversa. Então ele me soltou e eu o encarei incrédula, por que ele fazia isso comigo? Como ele me destruía tão facilmente? Mas ele imediatamente justificou o ato ao pegar sua varinha com sua mão recém desocupada. Com um feitiço que eu nunca tinha escutado, as portas a minha frente se abriram e eu encarei o que parecia ser mais um dos salões luxuosos que eu já estava cansada de ver.Porém, dessa vez, o luxo era diferente, mais antiquado, chegando até a cheirar magia antiga. Era como se eu pudesse sentir a presença de Voldemort ali mesmo, como se ele frequentasse aquele quarto frequentemente. Eu não sei como eu sabia daquilo, era só mais um dos talentos esquecidos que eu tinha por causa dos meus tempos na Borgin & Burkes. — Lumos. — dissemos ao mesmo tempo e nossas varinhas acenderam.Eu não acreditei nos meus olhos. Acreditem, eu vi muitas coisas na minha vida bruxa, eu entrei na sala do prof. Moody no quarto ano, eu já andei pela Floresta Proibida e me perdi em várias alas proibidas de Hogwarts. Eu trabalhei em uma loja de artefatos mágicos das trevas, por Merlin!Mas nada, nada, se comparava ao que eu estava sendo obrigada a observar. O pequeno sótão iluminado parecia ter vindo diretamente de um daqueles filmes de terror dos anos 80, quando ainda não existia efeitos digitais, então eles tinham que ser criativos e fazer todas as coisas nojentas a mão. Nas prateleiras altas, haviam potes com cérebros, olhos, rostos inteiros vivos se contorcendo dentro da água, só para dizer o mínimo.No fundo, consegui enxergar grandes jaulas com animais que claramente não nasceram daquele jeito e uma pilha imensa de varinhas quebradas. Nas paredes, as prateleiras se estendiam até o teto, onde livros pairavam no ar, encantados. E mais eu prestava atenção, mais eu escutava gritos por trás do silêncio. Sussurros, pedidos de socorro abafados, encantamentos… O barulho proibido era ensurdecedor, uma vez que você o notava.— Cuidado, há alguns feitiços de proteção. É melhor que eu procure sozinho. — Draco avisou, ao ver que eu estava me aproximando de algumas prateleiras, quase hipnotizada pelo horror. Pela primeira vez, o obedeci sem contestar e percebi que meu medo de Voldemort era maior do que eu imaginava. Eu finalmente estava vendo, com meus próprios olhos, tudo o que ele era capaz de fazer.— Draco, o que Você-Sabe-Quem quer? Além da supremacia dos bruxos, claro. — perguntei, surpresa com o fio de voz que tinha saído da minha boca.Ele virou-se para me encarar, deve ter percebido o medo na minha voz e quando eu me dei conta, já estávamos perto um do outro novamente.— Eu não sei exatamente, ele não nos conta tudo. As coisas que eu sei foi porque passo tempo ouvindo os prisioneiros e lendo a mente de alguns Comensais. Eu sou um dos únicos que sei sobre as horcruxes, se ele soubesse acho que me mataria...Engoli em seco.— Mas eu acho que ele quer arranjar alguma forma de viver para sempre. Está procurando algum objeto para ajudar com isso antes de realmente atacar.Então era por isso que as coisas estavam caminhando lentamente, Voldemort não estava pronto. Talvez tenha sido por isso que ele ainda não tinha me encontrado e matado, estava preocupado demais com outros assuntos. Eu já sabia que eu não era um problema tão importante para ele resolver pessoalmente, mas isso fazia muito mais sentido.Encarei o chão, a realidade estava pesando em minhas costas. Eu nunca tinha vivido uma guerra, só havia lido sobre em livros e estudado sobre na escola nas memórias falsas que tinha da minha vida de trouxa. Vi filmes que romantizavam os soldados, romances trágicos e músicas tristes, mas era como se fosse tão distante. Como um sonho, uma história fictícia, algo que eu nunca viveria e nunca poderia entender.Agora, eu entendi. O medo e vazio que tinha estabelecido no fundo do meu estômago era como uma ansiedade constante, um pânico de que coisas horríveis estavam prestes a acontecer. Finalmente, tudo o que tinha passado comigo estava tomando forma. Os gritos que eu escutei ano passado, a morte de Dumbledore, o ataque dos Comensais, a proteção que tive que dar aos meus pais, o sequestro de CeCe… Tudo se encaixou em um grande quebra cabeça e eu finalmente entendi o grande cenário.Estávamos em guerra. Havia mortos, torturados, pessoas perdendo famílias e crianças chorando. Não era sobre minha família, Rabastan, Voldemort, Jesse ou Draco. Era sobre racismo, ego, poder, política. Coisas muito maiores que eu e minha essência mesquinha. Percebi, então, a oportunidade em minhas mãos.Lá estava eu, em uma sala cheia de armas importantes para o inimigo. Eu tinha que começar a fazer alguma coisa, atos maiores do que eu e minha agenda.— Lizzie, o que foi? — Draco me transportou de volta. — Você está bem?— Não. Imagina um mundo no qual Vold-Você-Sabe-Quem vive para sempre? — perguntei, ainda com uma voz fraca que não me era familiar. — Eu não acredito que esse tempo todo eu estive preocupada com o meu umbigo, enquanto…Para minha surpresa, lágrimas começaram a cair no meu rosto. Vocês me conhecem, eu não choro. Ainda mais na frente dos outros. E Draco, infelizmente, também me conhecia. A última vez que tinha me visto chorar foi de felicidade, quando consertamos o armário e achávamos que tínhamos resolvido todos os nossos problemas. Quão errados estávamos, não é mesmo?Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Draco já tinha acabado com a pequena distância entre nós e me envolvido em seus braços. A familiaridade daquele abraço me fez esquecer qualquer desentendimento que tivemos no passado. Me deixei ser consolada por alguns segundos, apenas soluçando em silêncio.— Cada um está lutando a luta que pode. — ele sussurrou e eu entendi que estava se incluindo nessa afirmação. — Vamos ficar bem. Nós e todos com quem você se importa.A forma com que ele disse isso me fez quase acreditar que aquelas palavras poderiam ser verdade.— E as pessoas com quem você se importa? — perguntei, erguendo a cabeça para finalmente encará-lo. Mas ele não encontrou o meu olhar. Em vez disso, se afastou e fingiu que não me escutou, como sempre fazia quando queria fugir de um assunto.Porque era claro que se o meu lado vencesse, os Malfoy seriam os primeiros a sofrer as consequências de terem ficado ao lado de Voldemort. Eu queria dizer a Draco que talvez os seus pais conseguissem escapar de uma vida em Azkaban, mas eu não sabia se isso era verdade. Algo me dizia que o Ministério seria muito menos tolerante aos Comensais da Morte do que da última vez.
Suspirei e enxuguei as últimas lágrimas.— Draco, eu sei que-— Achei! — ele me interrompeu, mostrando a pequena esfera que tinha em mãos. — É isso aqui?Mas, apesar de eu ter reconhecido o artefato imediatamente, eu não consegui responder. Draco tinha desaparecido tão rápido quanto a luz da minha varinha apagando.
Notas finais
GENTE AHAHHA To rindo, mas é pra não chorar.
Dessa vez eu tenho uma justificativa de verdade por ter demorado tanto, eu mudei de país!!! Desde março estou vivendo na Espanha e vocês não imaginam a loucura que está sendo para me adaptar com estudos e trabalho. Como eu sempre falo, eu nunca nunca vou abandonar essa fic, mas é realmente uma merda que eu demore tanto para atualizar.
Eu juro que agora que minha rotina está mais estabelecida, eu vou tentar voltar a um capítulo por semana. Acreditem, eu quero terminar essa fic mais que vocês! Eu sei que não mereço reviews, mas espero que ainda tenha gente por aí lendo que esteja curiosa para saber o fim da jornada da Liz com o Draco ♥
Beijocas, :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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