Slowly

1 Capítulo Um



SLOWLY


.capítulo único.

Vinte de dezembro mostrava-se uma data estratégica para casamentos, pensou Katniss, desamassando com a mão livre o vestido preto de seda, que não trazia um único vinco. A data, considerada mágica por muitos, carregava ares de fantasia por si só, colaborando para que o ambiente da festa fosse tomado por romantismo.

Era engraçado que as pessoas transformavam um feriado, em tese religioso, em algo romântico. Não só ali, no salão de festas do hotel Olympic, onde a recepção de casamento de seus amigos acontecia, mas em todo lugar, nas calçadas de Saint Louis, nos restaurantes e lojas de café. Menos no trabalho, em que passava a maior parte do tempo sozinha em frente ao macbook, respondendo clientes, e-mails relacionados a processos jurídicos e peticionando novos casos.

Se avaliasse bem, era culpa sua que seu estado de espírito estivesse anticlimático e destoante da alegria que banhava os convidados. Insistiu em espremer até a última gota de disposição no dia de hoje, porque, como pensava a respeito de si mesma, ela era uma filha da mãe viciada em superar seus limites. Queria de verdade entrar no recesso de natal e ano-novo livre de qualquer pendência de trabalho, mas a que custo?

Katniss soltou o ar longamente e deu um passo à frente, vasculhando o local com os olhos a fim de encontrar um lugar para sentar. Todas as mesas estavam ocupadas por pessoas que conversavam alegremente, amigos e familiares, exceto por uma escanteada, parcialmente vazia. Nessas horas, o desejo traiçoeiro e cunhado de interesse puramente pessoal de ter um namorado aparecia. Ora, ela não conhecia quase ninguém dali, estava sozinha e deslocada, como costumava ficar em eventos sociais para os quais suas amigas não eram chamadas. Ter alguém num momento como aqueles parecia um bom negócio. Riu-se ao lembrar-se da mensagem de confirmação de presença ao casamento, que chegara semanas atrás, cuja opção de acompanhante foi preenchida com um “não”. Deveria ter posto Madge nesse papel, a presença da amiga em tempo lhe faria muito bem.

Antes que pudesse caminhar até a mesa, Hazelle, uma das poucas conhecidas de Katniss, a abordou com um sorriso que mostrava todos os dentes. Nas mãos trazia uma taça de champagne numa quantidade nada elegante. A bebida transbordou pela borda e gotas caíram na barra do vestido verde de Hazelle, que soltou um palavrão. Katniss devolveu o sorriso.

— Katniss! – Hazelle a abraçou – Que bom te ver aqui, achei que não viria.

— Também achei que não – respondeu e abriu os braços – Cá estamos.

Hazelle tomou um grande gole do champagne e limpou o canto dos lábios, agarrando Katniss pelo braço, e a conduziu até uma mesa longa e retangular abarrotada de pessoas desconhecidas, muito distante daquela a princípio almejada por ela.

— Venha, venha. Uma moça bonita como você não deveria estar desacompanhada, sabe. – Hazelle soltou em tom de desagrado – Cadê seu namorado?

Katniss torceu a cara enquanto a outra a puxava pelo salão, lutando para se manter composta a cada passada. Estava cansada mentalmente, passara o dia enfurnada no escritório terminando relatórios e cumprindo prazos, a paciência muito curta para ter que explicar à Hazelle, mais uma vez, que não tinha namorado. Por isso e por saber que a outra disse por dizer, como sempre dizia as coisas porque adorava falar, não conversar, Katniss absteve-se de responder, posta sentada entre duas mulheres que conversavam. As duas espantaram-se com a interrupção física na comunicação, quando ela, enfiada lá por Hazelle, sentou-se.

— Amber, Rory, esta é Katniss, trabalha com Gale. Ela vai ficar aqui, sejam agradáveis – Hazelle enfatizou a última parte com um tom nada sutil de aviso, lançou um sorriso para a moça e saiu pelo salão, cumprimentando as pessoas, porque Hazelle conhecia todo mundo.

Amber e Rory não cumprimentaram a recém chegada com palavras, avaliaram-na rapidamente e ofereceram um sorriso por um triz inexistente.

Que grande palhaçada, remoeu Katniss, o desgosto quase estampado no rosto.

— Amber – ela se dirigiu à da esquerda – podemos trocar de lugar, se quiser.

De forma geral, Katniss costumava ser diplomática, fugia de situações que poderiam ser evitadas e aquela era uma delas.

Amber assentiu e as duas fizeram a troca. A conversa entre as mulheres recomeçou do ponto em que pararam, como se o atrapalho da outra fosse uma breve suspensão de tempo tão logo superada.

Katniss vasculhou a pequena bolsa de mão e olhou as horas no celular. Sete horas da noite, seu limite seria até dez e iria embora.

Entediada, passou a observar comportamentos e interações, o joelho involuntariamente balançando sob a cadência de Fly me to the moon, do Sinatra. Ao longe, dançando com a nova namorada, avistou seu colega nos negócios, Gale, grande como ele era e um tanto desengonçado para a dança, mas espontâneo e de bem com a vida. A moça conduzida parecia feliz, não desgrudava os olhos dele, confiando nos passos incertos de seu parceiro. Katniss sorriu achando graça e feliz por ele, que merecia alguém que o olhasse como sua garota fazia.

Para ser franca, achava que Gale bancaria o descompromissado por mais um tempo, mas, a cada vez que o via à mesa na pausa para o almoço preso ao celular, fosse em ligações claramente agradáveis, fosse nas trocas intermináveis de mensagens, percebeu que a fachada cairia em breve.

Uma dúzia de casais arriscava o jazz sem se importar com o descompasso, que não passava despercebido pelos olhos treinados de Katniss. No fundo do salão, os recém-casados, Diana e Marcus, posavam para o fotógrafo. Diana emanava serenidade, tão elegante quanto sabia ser com o vestido branco cintilante, sem o véu preso nos cabelos loiros. Marcus fazia um bonito contraste com a esposa, o terno azul marinho sem o paletó, este jogado em uma poltrona próxima. Os braços do noivo rodeavam a cintura da mulher e ele cochichou algo em seu ouvido que a fez rir. O fotógrafo capturava cada mínima interação, já que a ideia era fotos espontâneas. Não pareciam ter dificuldades com isso, alheios às pessoas ao redor, envolvidos um no outro.

Hazelle, semelhante a uma boa política, fazia sala como ninguém, outra taça cheia nas mãos. Pobre Gale, compadeceu-se Katniss, teria que lidar com a mãe bêbada e escandalosa em pouquíssimo tempo.

Embalada pela grave voz de Sinatra, Katniss levantou-se da malfadada mesa, tão lotada de parentes e amigos de Hazelle que mal tinha mobilidade. Mais uma vez, alisou o vestido, assentando-o, e foi até o bar reservado que ficava à esquerda do salão, separado por uma parede de vidro que possibilitava quem estivesse lá de vislumbrar a festa sem efetivamente participar dela. Perfeito.

O ambiente era iluminado por um grande lustre colonial de cristal, a baixa luz cor âmbar abraçava com quietude e tranquilidade os que chegavam. Katniss amou no mesmo instante.

Havia, de certa forma, uma quota de interações sociais que ela suportava por dia e, no momento, precisava ficar a sós consigo mesma depois de atender, pela manhã e tarde, três longas ligações de clientes.

O primeiro iniciou a ligação com um “Pode falar à mãe do meu filho que não posso busca-lo hoje? Você sabe como ela é um pé no saco quando ligo pra ela”. Katniss ferveu de irritação, apertando o telefone com força. “John, não posso fazer isso por duas óbvias razões, sou sua advogada e não um amortecedor entre você e sua ex-esposa. E outra, não sou paga pra isso. Ligue você mesmo e se resolva com ela, ainda têm uns bons dez anos disso pela frente” respondeu de volta. John não gostou nada da resposta, ameaçando procurar outro advogado para cuidar da situação. Katniss desejou a ele boa sorte e desligou.

Os outros dois clientes foram igualmente incômodos, mas de formas diferentes. Um deles chegou a insinuar que ela era muito jovem para resolver a situação. Não era a primeira vez que escutava aquilo, nem seria a última. Como advogada há um ano e com apenas vinte e três anos de idade, Katniss sofreu, no último ano, inúmeros descréditos quanto ao trabalho desenvolvido por conta da idade e aparência jovem. Estava aprendendo, ainda, a lidar com o desconforto quando alguém apontava isso.

Acomodou-se num dos bancos altos do balcão do bar, servida pelo barman com um drink de morango sem álcool. A bebida doce com leve toque cítrico de imediato fez Katniss fechar os olhos em apreciação. Não tardou para a taça ser esvaziada e outra tomar seu lugar.

Na metade do segundo drink, de costas para o salão onde a festa se desenrolava, ela não o percebeu chegando. Notou pela visão periférica que alguém, um rapaz, postara-se a sua direita, dois bancos depois.

Ele olhava para ela.

Observadora e sóbria, Katniss continuou do jeito que estava, o corpo levemente virado na direção do homem, as pernas cruzadas, a cabeça pendida, a mão esquerda devagar mexendo a bebida, repousada no balcão, com o canudo.

Aquilo seria interessante, no mínimo.

Esperaria mais um pouco para ver qual próximo passo ele tomaria, se haveria um próximo passo. Quase nunca os homens partiam para a etapa seguinte com ela. O que ela faria, afinal, com os olhares que recebia? Chegou a pensar, por diversas vezes, que o problema era com ela, algo na sua expressão que os afastava.

Madge, sua amiga, dizia que Katniss desempenhava a linha indiferente, mas ela não entendia como a fazia e como mudar. Seu rosto, em linhas gerais, era bonito de um jeito comum, mas suas feições eram severas, pronunciadas. Talvez fossem os lábios, grossos e levemente inclinados para baixo nos cantos, ou fossem os olhos graúdos e de expressão dura, ou o nariz afilado e levemente arrebitado, que deixava o rosto altivo. Ou o conjunto de tudo isso.

Certa vez, Katniss postou-se em frente ao espelho e tentou fazer expressões serenas e acessíveis. Mentalizou Madge, de quem as pessoas imediatamente gostavam e sentiam afeição. Porém, em menos de um minuto, desistiu, pois os olhos arderam enquanto esforçavam-se para invocar ternura; a bochecha e a testa engessadas travaram um esforço tremendo para manterem-se esticadas ao redor dos lábios e sobrancelhas, visto que lhes era ante anatômico e impróprio. Revelou à Madge o experimento e, desde então, aceitou que a severidade do rosto era igual a relaxado.

O homem bebericou o que quer que o barman tivesse colocado diante dele, os olhos vez ou outra voltando-se para ela, que simulava ignorância. No meio de um desses olhares furtivos, Katniss o encarou de repente e sustentou o olhar. Pego de surpresa, o homem arregalou os olhos um pouco, sem desgrudar a atenção dela.

Katniss considerava-se uma pessoa confiante e nada covarde. Todavia, interações que envolviam possíveis flertes a deixavam de mãos atadas. Ela escolheu um caminho conhecido: desviou o olhar primeiro e se concentrou em sua bebida. Praticamente ouviu a voz de Madge dizendo “dê um leve sorriso, mostre receptividade”.

Engolindo o último gole do drink, preparou-se para ir ao banheiro. Com sorte, quando voltasse, ele já teria ido embora.

— Qual o seu nome?

Katniss deu um leve pulo no assento, surpreendida pela pergunta que ele fez.

Erguendo a cabeça, o encarou. O rapaz dispensava toda sua atenção a ela, os olhos questionadores, curiosos. Katniss sentiu-se inquieta, a mão automaticamente ajustando o decote solto do vestido de seda. Ele não deixou de encarar seu rosto.

— Katniss – respondeu, a voz estranha aos próprios ouvidos.

— Katniss — repetiu ele, testando o nome – Bonito – sorriu de leve – Você tem sobrenome, Katniss?

Com essa ela teve de rir.

— Everdeen. Katniss Everdeen.

Ele chegou mais perto, parou no banco ao lado do dela.

— Posso? – pediu, indicando o assento.

Katniss acenou em afirmação. O homem sem nome se acomodou.

— Sou Peeta Mellark.

Ali estava, a encruzilhada infame, o que dizer depois das apresentações era que dava um nó em sua inteligência e perspicácia. A falta do que articular levava-a a supor que o outro a julgaria sem graça e poria fim antes mesmo de começar.

Peeta não pareceu achar um problema e não deu espaço ao silêncio.

— Katniss Everdeen, o que faz sozinha aqui? — ele girou o copo parcialmente, indicando o salão atrás deles. – Há uma linda festa acontecendo.

Katniss vislumbrou o salão vibrante e luxuoso. Os acordes de Stand by me estendiam-se até o bar, mas, fosse qual fosse o vidro que separava os espaços, não deixava que a música sobrepujasse o jazz instrumental e ambiente que reverberava no recinto.

Vagamente ouvia-se o canto apaixonado de Ben E. King, "Então, querido, querido, fique ao meu lado".

— Hoje, prefiro a quietude – ela se virou para ele – Escolhi um belo dia para isso, não acha?

Peeta se ajeitou no assento, o corpo inteiramente direcionado a ela.

— Inquestionavelmente.

Um calor gradativo surgiu na base do estômago, os dedos da mão formigando diante da intensidade com que Peeta a encarava. Não sabia como, mas a fazia se sentir muito bonita.

— E você? Porque está aqui e não lá? – perguntou de volta.

Peeta pensou um pouco, abriu a boca e a fechou rapidamente, como se decidisse se diria ou não o que queria. Optando pela objetividade, expôs sem qualquer hesitação:

— Vi uma moça de vestido preto muito bonita e aparentemente desacompanhada entrar aqui. Resolvi arriscar a chance e vim falar com ela.

Ponto para ele. Katniss esboçou um sorriso envergonhado, transparecendo o embaraço que de fato sentia. Gostou de Peeta imediatamente.

Katniss o avaliou por um brevíssimo segundo, a procura do que responder sem sugestionar tolice. Peeta, mesmo sentado, era alto, tinha um rosto bonito e maduro, talvez alguns anos mais velho que ela, na casa dos trinta. O terno preto e bem passado estava alinhado, contrastando com a gravata azul marinho. Os olhos eram gentis e assertivos. Não podia afirmar com certeza, porém, ao menos com ela, era a impressão que passava, ele a levava a crer que valia a pena.

— Nossa, devo lhe dar os parabéns. De todas as cantadas, de longe essa foi a mais criativa que já ouvi – Katniss também se virou no banco, completamente de frente para ele.

Peeta gostou da resposta e exibiu um sorriso de quem sabe das coisas.

— Não posso negar a verdade. Mas quantas cantadas você já ouviu? Ah, não, espere – ele estendeu a palma da mão para cima, impedindo-a de responder – deve ser difícil contar.

Katniss pensou um instante, depois disse num tom de quem acha engraçado, todavia verdadeiro:

— Pra ser sincera, é a primeira vez que isso me acontece. Digo numa abordagem direta – ela entortou os lábios, reflexiva — Pelo Instagram conta?

Ele captou a sinceridade por trás da confissão.

— Como posso ser o primeiro? Certamente alguém já tentou a sorte. – Peeta alongou os dedos sobre o balcão, ele tinha belas mãos. Katniss juntou as suas sobre o colo, propensa a escorregar uma delas sobre a superfície polida e tocar a de Peeta. Mas que diabos?

— Uma mulher bonita como você não passa despercebida, é digna de uma excelente cantada – continuou ele, alheio ao quase deslize dela.

Se estivesse ali, Madge o teria coroado como aquele que mais deixou Katniss sem palavras num espaço de tempo tão pequeno.

— Você é sempre assim? Excelente em falar essas coisas? – remexeu-se inquieta.

Ele se fez de desentendido, achando graça, e, despreocupado, ergueu os ombros. Peeta fitou-a dentro dos olhos.

— Com você, diria que sim.

**

Para Peeta, aquela era uma noite de muita sorte. Havia poucas coisas na vida que considerava que tinha sido bem sucedido logo de cara. Falar com Katniss Everdeen com certeza encimava a pequena lista.

Que Deus o ajudasse, a mulher a sua frente era linda. Assim que disse a ela que era bonita, arrependeu-se, o elogio não fazia jus ao que pensava. Katniss esbanjava uma beleza discreta que a tornava linda, os traços do rosto pequeno e arredondando formando feições sérias e atraentes, junto ao porte médio e esguio do corpo.

Notara sua presença desde que ela chegara, parada na entrada do salão, os olhos pretos e afiados em busca de um lugar para sentar. Ficou animado quando percebeu que ela se interessou por uma mesa ao lado da sua, mas uma senhora a arrastou para outro lugar, longe demais dele.

Desde então, esperou a sua chance e, se ela não surgisse, faria acontecer.

Não precisou esperar muito, logo a jovem se encaminhou para o bar vazio e Peeta, lutando para não disparar atrás dela, aguardou cinco, dez, quinze agonizantes minutos.

— Vai logo – disparou Carl, um dos padrinhos dos noivos e seu amigo, que sentava ao seu lado.

Carl indicou com a cabeça na direção do bar, encorajando Peeta que, diga-se, não precisava de incentivo algum àquela altura. O encorajamento, no entanto, deu o aval que ele queria quanto ao tempo para segui-la.

Sem pensar duas vezes, lançando mão de uma calmaria que não sentia, mas que a elegância e o bom senso pediam, Peeta levantou-se da cadeira e deixou o salão para trás em busca da bela mulher de vestido preto.

Agora, Peeta a observava enquanto ela falava e cada palavra que saía da boca dela o convidava a admirá-la mais.

— Então comecei a advogar, já que era a única coisa que tinha disponível depois da colação – ela confidenciou – Não gosto muito, não paga bem e, sinceramente, – Katniss franziu o nariz – lidar com os problemas alheios de forma tão próxima consome minha energia – ela exibiu uma expressão intensa de indignação – Ainda tenho que ouvir julgamentos sobre a minha capacidade profissional porque me acham jovem demais.

Peeta assentiu compreensivo, bebendo seu drink. Katniss se expressava muito bem, as palavras saíam com clareza e firmeza, passava certeza no que dizia. Apesar disso, não se sentiu intimidado quando ela o flagrou, mais cedo, matutando como a abordaria. Foi a primeira vez em muito tempo que a viu tão de perto e com a atenção voltada para ele.

Katniss endireitou o fino colar de prata no pescoço exposto, o caminho desimpedido por conta do cabelo preto muito curto, à la Demi Moore, em Ghost. Peeta lutou para não a tocar. O vestido de alças finas era elegante e ligeiramente cintilante, a beleza acentuada pelo comprimento do cabelo de Katniss, que expunha sua nuca, pescoço e orelhas. De fato, linda.

— Com o que você trabalha, Peeta? – ela interrompeu o rumo de sua divagação nada cortês.

Ele se preparou e sorriu.

— Sou advogado aqui em Saint Louis.

Lá estava, a surpresa seguida de um fugaz lampejo de reconhecimento, depois um estreitar de olhos.

— Eu te conheço – ela apontou, vasculhando na mente – Mas não lembro de onde.

— Permita-me – disse Peeta – Dois meses atrás, no tribunal, você acompanhava uma senhora idosa, estavam no corredor do gabinete do juiz Jackson. Você explicava a ela sobre como funciona o processo de aposentadoria. Eu estava na outra ponta do corredor, olhando, esperando para falar com o promotor – ele sorriu com a lembrança — Parecia que você mataria um leão.

Ela avermelhou-se, tomando um gole da água servida pelo barman, o reconhecimento aos poucos ganhando forma.

— Depois — continuou Peeta – Um rapaz veio buscar a senhora e você ficou parada no meio do corredor, pensativa, aí se jogou em um dos bancos na parede.

Katniss abriu a boca, finalmente recordando. Aquele fora um dia particularmente exaustivo, já que a aposentadoria da sua cliente estava por um fio, não por culpa dela, e sim por causa de algum outro profissional incompetente que ferrara tudo e deixara o problema para ela resolver.

Lembrava-se da enormidade da frustração, somado ao incômodo da saia lápis que vestia, o tecido quente e um tanto áspero. Além disso, estava dura de dinheiro, pagara uma pequena fortuna ao motorista para leva-la ao tribunal, pois o único transporte que tinha era uma moto antiga que padecia na oficina. Sentada no banco do corredor, chamou o motorista pelo aplicativo, a corrida custando quase quarenta dólares, ele chegaria em dez minutos.

Daí, Katniss espantou-se com um copo de água estendido em sua direção. Erguendo a cabeça, deparou-se com um homem alto a encarando, trajando terno cinza e, num dos ombros, pendia uma pasta de couro marrom.

— Tome – ele disse. Vasculhando um dos bolsos, revelou uma barrinha de cereal, que também ofereceu a ela.

Os lembretes da mãe sobre não aceitar nada de estranhos ruíram diante do olhar gentil dele. Devagar, sem deixar a desconfiança de lado, Katniss estendeu as mãos e pegou a água e a barrinha de cereal.

— Obrigada – agradeceu sinceramente.

— Longo dia? – indagou ele.

Katniss franziu o cenho e acenou, cansada.

— Ultimamente, todos os dias tem sido longos, só estou cansada.

Uma declaração curta e pessoal demais a ser feita a alguém que você não conhece. O homem deu um sorriso apaziguador, as mãos nos bolsos, balançando-se nos calcanhares.

— É de se esperar, com a profissão que exercemos, algum tipo de satisfação pessoal. Acho que, no início da carreira, o maior desafio é construir essa motivação.

Katniss piscou. Era óbvio que ele sabia, assim como todos que olhavam pra ela, que era jovem e iniciante na carreira.

— Mas vale a pena insistir – ele soltou o ar – pelo menos pra mim foi assim.

Ela teria dito algo mais, quando a notificação do aplicativo desviou sua atenção. O motorista aguardava em frente ao prédio.

Ela pulou do banco, pondo-se de pé.

— Merda – juntou as pressas a bolsa e disparou o mais rápido que a saia e o salto permitiam.

Na corrida, Katniss teve a presença de espírito de se virar para trás, o homem permanecia parado, olhando para ela.

— Obrigada! – disse alto, recebendo murmúrios de reprovação por perturbar o silêncio do local.

Ele acenou de volta e só saiu de lá após Katniss sumir de suas vistas.

Para Peeta, aquele encontro fugaz o fez pensar na mulher vez ou outra. Sempre que ia ao tribunal, torcia para topar pelos corredores com a jovem advogada.

— Então era você. – Katniss verbalizou, surpresa por não ter se lembrado do rosto dele.

— Sabe, Katniss, você diz que não gosta da sua profissão, ainda sim a pratica com dedicação – disse Peeta, recordando da visão dela conversando com a cliente. Ele ouviu trechos da conversa, o que foi suficiente para tirar suas conclusões — Me pergunto como seria se realmente gostasse do que faz.

Katniss maneou a cabeça.

— Eu também.

De repente, ela se empertigou.

— Espera aí, você sabia quem eu era desde o início?

Ele riu.

— Depende a qual dos inícios você esteja se referindo. No tribunal, não fazia ideia de quem você era, só de que queria ir até você – ele bateu a mão na testa – Mas que grande idiota eu fui, nem mesmo perguntei seu nome e me dei conta disso depois que você foi embora.

— Bem – Katniss recostou-se no balcão – agora você sabe.

Ele olhou para ela de novo.

— Graças a Deus, agora eu sei.

Atrás deles, o salão irrompia em festa; ao fundo, o jazz persistia, convidando os ouvintes a embarcar na melodia, junto ao tilintar distante do barman que organizava as taças. O cheiro suave de uma fragrância desconhecida por Katniss acentuava a sensação intimista do bar.

Peeta endireitou o corpo, levantou-se do banco e ofereceu a mão a ela.

— Dança comigo? — seus olhos pediam junto com as palavras.

Movida pela emoção do que via, Katniss sequer cogitou dispensá-lo. Deixando a bolsa no banco sem receio algum, já que somente eles ocupavam o espaço, deu a mão de bom grado a Peeta, que a conduziu um pouco mais para a esquerda do bar, onde o espaço era livre dos bancos e ficaria longe da porta e de olhos curiosos.

Diante dele, Katniss permitiu-se ser conduzida pela melodia suave e romântica e, sobretudo, por Peeta. Eles não conversaram, apenas dançaram. À medida que a música avançava, seus corpos entravam em sintonia, a mão de Peeta, outrora em contato com uma das mãos de Katniss, delicadamente deslizou à cintura dela, onde já a segurava. Katniss, por sua vez, descansou as mãos nos ombros de Peeta, que se aproximou um pouco mais.

No fim da música, estavam abraçados, o rosto dele acima dos cabelos de Katniss, esta recostada nele.

Em determinado momento, não perceberam, um grupo de três amigos passou pela porta e os viram naquela situação, perdidos um no outro. O grupo se entreolhou e deu meia volta, rumando à festa.

— Você cheira bem – soltou Katniss.

Cheirava mesmo, o paletó tinha um cheiro suave de amaciante e de limpeza. O próprio Peeta exalava a fragrância de um perfume masculino amadeirado.

O peito de Peeta tremeu com o riso dele.

— É bom saber disso – ele abaixou a cabeça e, muito delicada e brevemente, sempre sem ir longe demais, encaixou o nariz na curva do pescoço dela, que, por instinto, encolheu o ombro ante a sensibilidade da região – Você também é cheirosa – um momento de silêncio, depois: – Muito cheirosa.

Era isso, finalmente estava acontecendo com ela. Madge soltaria fogos se a visse então. Em seus vinte e três anos de vida, aquele estava sendo o ponto alto da sua vida amorosa quase inexistente. Em retrospecto, chegou à conclusão de que não ligava de estar tão perto fisicamente de Peeta, de ele cheirá-la de modo carinhoso e inesperadamente respeitoso. Também não se importava de ele beijá-la, ela queria.

Peeta foi o primeiro a se afastar, o suficiente para olhá-la nos olhos.

— Quer sair daqui?

— Depende. É pra voltar pra festa?

Ele negou com a cabeça, aproximou-se um centímetro mais. Se Katniss esticasse o pescoço, seus lábios se tocariam.

— E perder a chance de ficar a sós com você? – Peeta segurou a mão dela – Nem pensar.

Katniss não se conteve, àquela altura rendida aos encantos do charmoso Peeta. Que surpresa interessante.

— Certo, vamos então.

**

De mãos dadas, Peeta a conduziu para fora do bar, recepcionados, ao passar pela porta, pela voz de Kate Perry em Unconditionally: "Eu faria tudo isso porque amo você. Eu te amo"

No percurso até a saída do salão, foram abordados por Hazelle, muito alta e sorridente.

— Katniss, querida! – seus olhos dançaram de Katniss para Peeta e dele para as mãos unidas dos dois. O sorriso aumentou – Você disse que não tinha namorado, sua pequena mentirosa.

Katniss revirou os olhos.

— É porque não tenho, Hazelle. Já falei um milhão de vezes.

Hazelle a ignorou como sempre, vidrada em Peeta. — Jovem bonito, querida – ela acenou na direção da saída, dispensando-os — Vamos, saiam daqui enquanto podem.

Peeta não perdeu tempo, os passos calmos, insistentes e firmes. Katniss não teve dificuldade em acompanha-lo. Próximo à saída, um dos padrinhos, ela reconheceu, piscou para Peeta, que apenas sorriu e acenou com a cabeça.

Fora do salão de festas, deram com o corredor que levaria à escadaria luxuosa do hotel Olympic e, após, ao enorme saguão. O lugar estava tomado de pessoas vestidas com roupas de inverno chiques, casacos de pele, trajes de negócio, famílias inteiras fazendo check — in. Uma gigante e imponente árvore de natal tomava o centro do saguão, preenchido pelo som de uma música natalina genérica, misturada ao som de vozes que falavam ao mesmo tempo.

— Você trouxe casaco? – indagou Peeta.

Katniss fez que sim, incerta se seu casaco a protegeria do frio vindouro da noite.

Peeta os conduziu até onde os casacos dos convidados do casamento foram deixados. Depois de pegar o seu próprio, ajudou Katniss a vestir o dela.

Devidamente agasalhados, partiram para fora, uma lufada de ar gélido fazendo Katniss estremecer. Estava nevando, os primeiros flocos de neve de dezembro começando a cair e, em breve, cobririam toda a extensão da cidade, enfeitando tudo de branco.

Ela arriscou olhar para Peeta, que a encarava, e Katniss, bem... ela enrubesceu e, de novo, foi a primeira a quebrar o contato. Não seria fácil acostumar-se com isso, com alguém que não consegue tirar os olhos de você. Era elogioso, um afago no ego e, para mais, muito íntimo de uma forma desconhecida a ela.

Um floco de neve pousou no cabelo farto e bem penteado de Peeta. Katniss estendeu a mão e tirou o floco, demorando-se mais do que o necessário, os dedos acariciando, quase sem tocar, os fios escuros.

— Eu... – ela hesitou, sequer sabia o que diria.

Peeta esperou. Katniss engoliu, a boca seca e enregelada.

— Isso é novo pra mim – disse enfim – Peeta, eu não te conheço, mas tenho a sensação de que adoraria fazer isso.

Ele sorriu com os olhos, os dedos caminharam para a bochecha dela, fazendo o contorno do maxilar, do queixo, dos lábios.

— Quero te conhecer desde que a vi pela primeira vez, Katniss Everdeen, brilhante, inteligente e muito – uma pausa, examinou o rosto dela, demorando-se nos lábios avermelhados de batom — meu Deus, linda.

Katniss sabia que não era linda. Bonita, linda, não. Mas se permitiu acreditar naquelas palavras, verdadeiras demais para o seu próprio bem quando vindas dele.

Agarrada ao tênue fio de coragem que restava, segurou a mão de Peeta, observando o movimento da Washington Ave, iluminada pelas luzes de natal. O caminho de luz estendia-se até onde a vista alcançava, com crianças correndo pela calçada atirando bolas de neve.

— O que vamos fazer agora, Peeta?

Ele passou a observar a rua também, a mão quente e firme segurando a dela, o braço esquerdo encostando nela.

— Há algo em mente?

— Estou a sua mercê – disse Katniss ainda sem encará-lo.

Aceitando o desafio, Peeta se permitiu ir mais longe, cobrindo a visão da rua ao postar-se de frente para ela. A diferença de altura a obrigou a erguer a cabeça. Sem mais cerimônia, Peeta segurou o rosto de Katniss ao mesmo tempo em que, devagar, rodeou sua cintura.

— Sendo assim... – inclinou-se um pouco mais para perto, um suspiro os separando.

A antecipação de um beijo, o preparo e a expectativa para saber como será, para Katniss, nunca superava a execução do ato em si. Entretanto, teve a deliciosa impressão de que Peeta provaria o contrário. Como alguém que morria e vivia para ter razão, Katniss pegou-se torcendo de corpo e alma para que estivesse errada, que o beijo de Peeta se provasse tão promissor como aqueles segundos prometiam.

Katniss fechou os olhos, o sinal de que Peeta precisava.

A parte sensorial foi a primeira a ser desperta, os lábios de Peeta eram mornos contra os gelados de Katniss, gentis como o dono. Em seguida, o prolongamento do beijo acendeu as emoções dela, envolvidas em uma chama lenta e gradativa. Ela se sentia linda e querida.

Peeta, percebendo que a hesitação inicial se fora, fez outro avanço discreto, o braço que rodeava a cintura a trouxe para tão perto dele que os botões do casaco de meia estação de Katniss encostaram-se nos botões do casaco espesso de Peeta.

Os céus sopraram um vento gelado e repentino, que a fez estremecer contra ele. Peeta a abraçou mais forte, apertando-a contra o peito. Katniss, então, estremeceu de novo, o vestido fino de seda e os sapatos inadequados para a temperatura que caía conforme a noite avançava, o casaco cumprindo mal a função de aquecê-la. Parcialmente consciente disso, Peeta interrompeu o beijo, agasalhando Katniss junto de si dentro de seu grosso sobretudo.

Ela passou os braços em torno do tronco de Peeta, as mãos espalmadas sobre suas costas, tocando o paletó, a cabeça debaixo de seu queixo.

Peeta abaixou a cabeça e acariciou a face de Katniss com a sua própria, esquentando-a mais.

— Suas orelhas estão geladas – ele disse suavemente, rindo e demorando-se lá.

Katniss também estava rindo, enxergando, na posição em que estava, duas crianças segurando balões de gás hélio em formato de rena. Uma delas tentava desamarrar o nó que prendia a corda do balão ao pulso, provavelmente amarrado lá por seus pais para que não voasse e se perdesse nos céus.

— Uma observação estranha de se fazer após beijar uma garota – ela fechou os olhos, concentrando-se nos batimentos calmos do coração de Peeta.

— Sabe o que é surpreendente? – perguntou ele retoricamente. Katniss esperou – Essa noite saí de casa disposto a ouvir música boa e tomar bebida cara. Nunca pensei que a garota do tribunal pudesse estar aqui. Você fez com que as minhas expectativas parecessem tão baixas.

— Faz parecer que sou alguém além do que eu sou, talvez eu devesse ter cuidado com você, Peeta.

Ele a abraçou um pouco mais, apertando o casaco ao redor dos dois.

— Você precisa saber, Katniss, que, perto de você, tenho a tendência de ser mais sincero do que me seria permitido.

Ela respirou devagar.

— Estou assustada – segredou em baixa voz.

— Eu também — Peeta fechou os olhos – Mas é um risco que vale a pena correr.

Tremendo por razões além do frio que se tornava fustigante, Katniss inclinou-se e depositou um beijo no canto dos lábios de Peeta.

— Sim, é.

Nas calçadas da Washington Ave, um casal recém-apaixonado caminhava para longe e prometia silenciosamente, em seus corações, entrelaçarem-se à belíssima e incerta trama do afeto e atração, sabedores de que, o passo de fé que deram poderá leva-los a alcançar o objetivo mais cobiçado pelos mundanos mortais, o amor.

Notas finais
Boas festas!