Slowly
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
SLOWLY
.capítulo dois.
2025, 20 de dezembro.
O interior da capela preenchia-se com o som das vozes que conversavam, animadas com o que estava para acontecer. Duas crianças de cinco e seis anos corriam entre os bancos vazios, perseguidas pela organizadora do evento, a qual lutava para manter a ordem. O farfalhar dos vestidos principescos das meninas fujonas as transformava numa profusão de verde ciano e azul cristal, o caleidoscópio do inverno louisiano.
O chapéu de uma das convidadas teve o infortúnio de cair no chão, pisoteado por um cavalheiro que andou para trás a fim de tirar uma foto de sua amada.
Uma flor branca se soltou de um dos arranjos laterais, resgatada por uma mulher de vermelho, que a guardou consigo.
O pastor robusto e bem apessoado conversava com um punhado de convidados frequentadores de sua igreja, a esposa postada a seu lado, o vestido amarelo e esvoaçante fornecendo-lhe um brilho singelo de doçura.
Um grupo de homens em altas risadas apostava quanto tempo o noivo ficaria no próprio casamento antes de arrebatar a noiva para longe de todos, menos para longe de si mesmo.
No pequeno altar, o noivo tinha a gravata endireitada por sua mãe. O cabelo, perfeitamente penteado como da vez em que conheceu a noiva, permanecia no lugar, puxado para trás.
O noivo sorriu tranquilizadoramente para a mais velha, garantindo que estava bem, nem um pouco nervoso. Na verdade, se não fosse pela crescente agonia de finalmente ter a noiva consigo, ele diria que desfrutava da mais completa paz.
Dentro de vinte minutos, Katniss atravessaria o corredor para se unir a Peeta diante de Deus e dos homens, um ano depois do encontro bem-sucedido no hotel Olympic.
Absolutamente, sorriu Peeta com o pensamento, ele era o maldito de um sortudo.
**
Dali a alguns cômodos de distância, a cortina de seda branca esvoaçava com o vento que entrava desimpedido pela janela aberta. A brisa gelada atingiu o tecido branquíssimo do vestido da mulher, sozinha no recinto, de pé em frente ao espelho de corpo inteiro, tremeluzindo a saia acetinada.
A jovem empurrou os ombros para baixo enquanto expirava devagar, as mãos unidas sobre a barriga lisa. Maneando a cabeça, avaliou o próprio rosto. A maquiagem estava impecável, exatamente como pedira à maquiadora que fizesse. Mantendo uma das mãos sobre o abdômen, com a outra tocou o tecido escorregadio do vestido, da cintura ao alto da coxa, assentando-o.
Katniss estava convencida, queria casar-se com Peeta desde que o conheceu. Desejava ter seus nomes unidos por um papel e pela vida, serem reconhecidos como casal de todas as formas possíveis. A convicção disso a atingia com tanta força que doía, ela queria ser dele, tal qual ele era seu.
Peeta era seu há muito tempo e Katniss percebeu cedo demais tal fato. Talvez, desde que se viram pela primeira vez, Peeta estivesse disposto a se entregar, porque ele era daquele jeito, intenso, completo e a amava muito.
E Katniss o amava de volta com igual força e foi tão fácil fazê-lo, render-se, pois Peeta, como que por hábito, segurava sua mão no meio de conversas profissionais em jantares chiques; mandava mensagens ao longo do dia que injetavam nela uma dose de dopamina ante o estresse da rotina; puxava-a para dançar sempre que tinha oportunidade, fosse em eventos recatados ou nos despojados, porque ele sabia da sua paixão por dança antes mesmo dela falar sobre, por prestar atenção em Katniss, por vê-la de verdade.
Ela sorriu para o reflexo, decidida a ser a esposa que Peeta, seu noivo apaixonante e que a amava tanto, merecia.
- Está na hora. — disse para si mesma.
Dando uma última olhada no espelho, foi até a janela e aguardou o pai vir buscá-la.
Os sapatos escolhidos eram pouco altos, o pequeno salto branco mal aparecia sob a barra do vestido. Fora o primeiro presente que Peeta lhe dera, os sapatos. “Para quando nos casarmos”, ele dissera, os dois tomando um milkshake na praça de alimentação do shopping após comprar os sapatos para ela. Vira-a com olhos desejosos sobre a vitrine que expunha o par e, quando Katniss foi ao banheiro, ele comprou o item e o entregou a ela, a sacola escondida atrás do corpo como uma criança antes de revelar o presente. Relutante e encantada, Katniss aceitou.
“Que história é essa? A gente se conhece só tem três meses”, ela respondeu, lutando contra a onda de emoção que a atingiu com o que ele dissera. Um sorriso idiota ameaçou despontar nos lábios, ela prontamente o aplacou antes que aparecesse.
Peeta resvalou os dedos pelo pulso dela de leve, tão suave que Katniss mal sentiu, acendendo-a como um letreiro.
“Nós nos casaremos, Katniss, e não é nem exagero meu, só um fato”.
A jovem o ignorou de modo proposital, concentrada em terminar o milkshake de flocos e pôr fim à conversa absurda.
Se Katniss fechasse os olhos, ainda hoje descreveria com exatidão como ele estava naquele dia. Peeta havia saído do trabalho mais cedo e a convidara para ir à sorveteria nova do shopping. Ele usava somente a calça do terno e a camisa social branca com as mangas arregaçadas sem cerimônia; os dois primeiros botões da peça abertos, a gravata afrouxada; num dos braços, pendia o paletó preto; os fios dos cabelos, sempre comportados, daquela vez à revelia. Katniss lutou para não o cobrir de beijos, porque Peeta despenteado e levemente desarrumado era perigosamente mais beijável do que o normal.
Uma batida soou à porta, Katniss afastou-se da janela tão logo Madge entrou na sala. A amiga lançou-lhe um sorriso apreciador e a noiva girou em trezentos e sessenta graus, devolvendo a alegria.
-Então?
Os olhos de Madge brilharam com as lágrimas contidas, as mãos unidas debaixo do queixo.
-Nunca vi noiva mais linda. Pobre Peeta – ela tomou as mãos de Katniss nas suas – não vai conseguir te deixar ficar pra festa. Assim que a cerimônia acabar, ele te leva embora, com certeza.
Katniss jogou a cabeça para trás, rindo. Inclinando-se para frente, segredou em tom conspiratório:
-Estou contando com isso.
**
2024, 21 dezembro.
— Peeta está ligando — comendo uma maçã, Madge balançou no ar o celular de Katniss. A amiga passaria uns dias com ela enquanto o aquecedor de sua casa era consertado.
A outra pulou do sofá e arrancou o celular de Madge. De fato, o nome Peeta Mellark brilhava na tela. Madge estava com a pergunta formada e, prestes a fazê-la, Katniss atendeu.
— Oi!
Um riso do outro lado da linha. A garota pôs a unha do dedão na boca, mordiscando a cutícula, esperando.
— Oi, Katniss – a voz dele soou tão bonita e composta quanto na noite anterior e ela adorava como Peeta dizia seu nome, não era de um jeito comum.
Madge sinalizava à frente, exigindo saber quem era. Katniss a dispensou com um aceno.
— Você ligou mesmo.
Não achou em hipótese alguma que ele não ligaria, no entanto pensou que seria dentro de alguns dias. Deveria saber que Peeta não combinava com as etiquetas atuais de flerte. Dar gelo ou esperar que o outro dê o passo seguinte, nada disso era abraçado por ele e ela agradecia infinitamente, pois o tornava um cara em um milhão.
— Claro que sim, eu disse que entraria em contato.
— Eu não esperava que fosse tão rápido.
A noite passada terminara com os dois trocando números de telefone após o sério risco de não o fazerem. Envolvidos em conhecer um ao outro, na despedida final em frente ao prédio em que Katniss morava, Peeta voltou correndo, alcançando-a no pequeno saguão. Ele estava ofegante da corrida, as bochechas coradas do frio, as chaves do carro nas mãos. “Seu número. Qual seu número? Não vou te perder de vista de novo”. Foi o jeito mais criativo, verdadeiro e romântico que um homem pediu seu telefone. Ela digitou no celular dele e salvou, ele fez o mesmo no dela. Um último beijo, um último abraço e Peeta se foi.
— Liguei em má hora?
Katniss viu Madge sair da sala, curiosa e pronta para enchê-la de questionamentos depois da ligação. Ela se agasalhou no recamier debaixo da janela da sala, observando o cair intenso da neve lá fora, mal se enxergava a rua do apartamento, o trânsito pouco movimentado. Pessoas protegidas com casacos densos, gorros, luvas e cachecóis transitavam nas calçadas. O aquecedor de casa cumpria bem sua função, mantendo o espaço acolhedor.
-Não — ela suspirou, encostando-se na janela — Está perfeito.
**
2025, 10 de fevereiro.
Não houve um momento de pedido de namoro, mas era isso que Katniss acreditava que tinham, sentindo a pele aquecida por Peeta, que segurava sua mão por debaixo da mesa, o polegar fazendo círculos na palma eventualmente. O homem adiante, sr. Jenkins, possível cliente dele, desfiava uma longuíssima conversa sobre os ativos de sua empresa, prestes a expandi-la pelo estado em filiais.
Outros advogados da firma do rapaz ocupavam a mesa, todos preocupados em absorver a história e pôr as garras no caso. Peeta era um deles, astuto e pronto para dar o bote.
— Juridicamente, você já caçou? — ele lhe perguntou dois dias antes dentro do carro dele, o veículo estacionado no pátio do Wallmart com mais uma dezena de carros. Um telão exibia “Um corpo que cai”, do Alfred Hitchcock.
— Considerando que não sei do que está falando, provável que não — respondeu Katniss, a boca cheia de pipoca.
Peeta se recostou no banco e virou a cabeça para ela de modo relaxado.
— Tá a fim de ir comigo? O pessoal do escritório tem um jantar depois de amanhã com um cliente. Lindsay, o advogado sênior, vai designar o caso a um de nós, o jantar vai ser para preparar o terreno.
-Não é apenas para os advogados do escritório?
Peeta se remexeu no banco.
-Podemos levar um acompanhante. A título de experiência, vai ser bom pra você também.
Katniss quis perguntar se os outros advogados tinham esposas/esposos ou namoradas/namorados. Desistiu da indagação porque levantaria a questão “O que nós somos?” e ela, apesar de curiosa, não queria apressar as coisas. Havia uma região de transição entre amizade e namoro que não conhecia e que sabia da existência, contudo qual a denominação da área em que estavam, já que não houve o prelúdio da amizade?
Katniss bebericou a taça de vinho, escutando a conversa de Peeta com o cliente. Os demais acompanhantes compreendiam-se em uma mulher e um homem, que foram com Darius e Clove, colegas de Peeta que disputavam pelo caso. Os parceiros, alheios ao assunto enfadonho demais para ouvidos leigos, comiam o jantar vagarosamente, preocupados em não se desocuparem tão cedo.
Para Katniss, a experiência estava sendo de alguma valia. Ela nunca arriscara cuidar de causas empresariais, entretanto o modo como Peeta e os demais lidavam com a matéria a tornava menos ameaçadora.
Em dado instante, as mãos de Katniss e Peeta, unidas em segredo, foram expostas a todos pelo rapaz, quase fazendo-a se engasgar com o vinho. Ele, distraído com o tema, trouxe-as para debaixo do queixo, para os lábios, assentindo, compenetrado no que Lindsay dizia.
Surpresa demais para recuar, Katniss fingiu normalidade, embora não enganasse ninguém, principalmente quando Jenkins interrompeu, falando:
— Mellark, meu rapaz, não faça inveja a este velho, sim? — todos fitaram o casal — Você me fez lembrar da minha mulher em casa. Queria tê-la trazido, mas, sabe como é, — Jenkins balançou a cabeça — ela detesta esses jantares.
Peeta riu e abaixou as mãos dos dois, escondendo-as sob o abrigo da mesa.
— Lamento pelo senhor, sr. Jenkins. É fácil esquecer dos outros quando estou com a minha garota.
O resto do jantar seguiu sem mais intercorrências. Katniss conversou com Jenkins, que se interessou pelas habilidades profissionais, ainda que incipientes, da jovem. “Um dia entrarei em contato com você, srta. Everdeen”, ele prometeu.
Peeta nunca deixou de tocá-la.
**
Mais tarde, acomodados nos balanços do parquinho defronte o prédio onde Peeta morava, ele disse:
— Eu falei sério antes.
Katniss diminuiu o ritmo no balanço até parar, atenta a ele.
Ela não sabia como ficava linda com as bochechas rosadas, o pequeno esforço do balançar responsável por corá-la, o cabelo ondulado levemente revolto pelo vento. Peeta forçou-se a se concentrar, sempre tendendo a perder-se nas linhas de quem Katniss era.
-Sério sobre o que?
O homem descansou os braços sobre o colo.
— Sobre você ser minha garota – ele fez uma pausa, analisando o que disse – Ou, pelo menos, sobre querer que você seja.
Katniss segurou-se nas correntes do balanço, os pés bem plantados no chão.
— Não me parece mau negócio — ela se virou para ele e sorriu de leve – contanto que seja recíproco.
Peeta inclinou a cabeça, avaliando-a. Ao longe, uma sirene soava. O parquinho estava vazio, a não ser pelos dois. Do outro lado da rua, uma mulher passeava com o cachorro, um cigarro pendendo aceso na mão direita.
Ele estendeu o braço e entrelaçou os dedos com os de Katniss, as mãos ligadas no interstício vazio entre os balanços. Quietos, encontraram um ritmo próprio.
-Ah, Katniss, se você soubesse...
Katniss sorriu para o horizonte. Ela sabia.
**
2025, 06 de maio
As gordas gotas de chuva pegaram os louisianos de surpresa. Não era comum chover tanto naquela época do ano.
Peeta sentiu na pele a água cair e gotejar no chão, o braço esticado para fora do toldo do arranha-céu, os punhos do terno úmidos onde os pingos alcançavam. A mornidão da chuva acalmou os nervos dele, que fechou os olhos em apreciação.
Dentro da pasta, o toque do celular o fez recolher o braço, tateando o interior da bolsa até encontrá-lo. Peeta franziu a testa em desagrado, o nome de Lindsay aparecendo na tela.
Pela primeira vez em muito tempo estava saindo do trabalho em um horário razoável, quando a luz do sol, ou o que restava dela, ainda despontava no horizonte. Todavia, uma ligação de seu chefe indicava que teria que retornar, sem horário para sair.
— Preciso de você na minha sala agora – despejou Lindsay antes de Peeta sequer cumprimentá-lo.
O rapaz fixou o olhar no tempo nublado, no céu que chorava e molhava a cidade com rigor. Katniss o esperava na cafeteria deles, a Deux Moulins, a vinte quadras de distância do imponente Phoenix Tower, onde ficava Lindsay&Wharton, o prestigioso escritório em que Peeta trabalhava. Ele conseguiria visualizar com clareza a expressão da namorada quando ligasse desmarcando o compromisso. Katniss não diria nada a princípio, crisparia os lábios e assentiria, descontente com o fato de ele estar, como ela mesma dizia, sendo escravizado por Lindsay.
Quando Katniss disse isso pela primeira vez, Peeta achou graça, porém não discordou. Ele era um dos advogados mais promissores dentre os colegas. Dali a um ano, completaria sete anos advogando ao lado de Lindsay, tendo conquistado algumas promoções ao longo dos anos, o que lhe proporcionou melhora significativa de vida. Só que o sucesso tinha seu preço, o dele era seu tempo e, às vezes, sua saúde.
Peeta deu meia volta, atravessando as portas do prédio até o elevador, o celular preso à orelha enquanto o celular de Katniss tocava do outro lado da linha. Ela atendeu no quinto toque. A sua voz fez o humor de Peeta elevar – se em vinte por cento.
— Tudo bem, vá lá e mostre como é que um advogado de verdade faz – Katniss desejou após tê-lo escutado.
Peeta encostou o ombro na parede do elevador, os números do painel brilhando em uma crescente até o 58º andar. Uma mulher muito elegante ocupava o espaço junto com ele, reparando-o pelo canto do olho. Se Katniss estivesse presente, lutaria para pôr na cara uma expressão amistosa, ainda que enciumada. Costumava dizer que Peeta era atraente e que ele ou não se dava conta disso, ou ignorava bem demais as olhadas que recebia. Fosse como fosse, ela era grata às duas coisas.
Peeta endireitou a postura quando o elevador chegou ao 56º andar.
— Hoje eu só queria sair com você, querida. Depois vermos juntos uma das séries ruins que você gosta – alfinetou ele.
— The office não é ruim. Você que não tem o senso de humor que a série pede – Katniss respondeu, o divertimento por detrás das palavras.
A porta do elevador abriu no 57º andar e a mulher saiu, um suspiro decepcionando escapando.
Finalmente sozinho, Peeta endireitou a gravata há muito afrouxada, o elevador chegando ao seu andar.
— Respeito seu senso de humor. Até que The office não é tão chato quando vejo com você.
Por um instante, do outro lado da linha fez-se audível somente a respiração de Katniss, então ela disse:
— Vindo de você, até que não é tão ruim ouvir que The office é chato.
**
O relógio na parede bateu em sete horas. Peeta jogou a cabeça para trás, depois para os lados, cada movimento fazendo o pescoço estralar. Ele encarou a parede de vidro que separava sua sala do restante do escritório, o recinto mergulhado na penumbra, excelo pela luz de sua luminária e do computador. Três das mesas do escritório estavam ocupadas, dois funcionários do setor administrativo e a estagiária de Peeta foram obrigados a ficar com ele naquela noite.
Ele alongou os braços acima da cabeça e voltou-se para a tela do computador, a vista exausta da última hora de análise minuciosa dos documentos da empresa de seu cliente.
Cerca de dez minutos depois, Peeta despertou do estupor do trabalho com a sensação de estar sendo vigiado. Katniss estava parada à porta, nas mãos trazia dois pacotes pardos com o nome Deux Moulins gravado em letras cursivas e vermelhas. Ainda usando roupas formais de trabalho; a blusa branca de botões aberta nas três primeiras casas; a calça chumbo social e larga deixando apenas a frente do salto preto a mostra; o cabelo curto um pouco mais comprido por falta de corte; ela entrou na sala.
Peeta afastou a cadeira do computador e se levantou, dando a volta na mesa que os separava.
— Quer ajuda? — ela perguntou, o pacote pardo erguido.
Peeta enlaçou sua cintura e deu um beijo em sua bochecha. No processo, pegou os pacotes de suas mãos e os abriu. O cheiro do crepe de presunto e queijo e de frapê de capuccino escapou e inebriou os sentidos de Peeta, que, faminto, apressou-se em sentar-se para comer.
— Katniss, você é a namorada mais incrível da vida – expressou de boca cheia, ela riu dele.
— Talvez eu saiba disso – gabou-se, ocupando a cadeira a frente.
Peeta parou no meio de uma mordida e olhou além da sala, para as mesas ocupadas, depois para Katniss.
— Espere aí.
Meio segundo após, ele retornou acompanhado de três pessoas, dois homens e uma mulher que bocejava e coçava os olhos. As expressões dos recém-chegados mudaram num átimo quando viram os crepes sobre a mesa.
— Fiquem à vontade, já comi o meu – falou Peeta, que havia comido um salgado e tomado metade do frapê.
A bebida repousava sobre o tampo amadeirado, gotículas de água escorrendo até a superfície. Katniss só conseguia pensar que a umidade faria o material da mesa estufar, até que lembrou que aquilo era carvalho de verdade, não o material de MDF do qual sua escrivaninha do escritório era fabricada.
— Obrigada, senhor – agradeceu um dos homens, seguido pelos demais nos agradecimentos.
A jovem estagiária quase engoliu dois dos crepes, vez ou outra lançando olhadelas nada discretas para o copo de frapê de Peeta.
-Tome – ofereceu ele à moça — Já estou satisfeito.
Era mentira, Katniss sabia, só que Peeta era daquele jeito e era um de suas características mais especiais. Ele estava disposto a garantir o bem-estar dos outros em atitudes simples de gentileza. Katniss ainda estava se habituando a isso.
Logo ficou claro que o lanche não seria suficiente para a noite de trabalho, mas repôs as energias para continuar. Com isso, Peeta voltou para sua mesa, os funcionários para seus afazeres e Katniss permaneceu para ajudar o namorado. Munida de um notebook fornecido por ele, recebeu os documentos e analisou aqueles que faltavam.
Às oito e meia concluíram o serviço, olharam um para o outro e Katniss deu uma piscadela para Peeta. Por sua vez, ele soltou um assovio baixo e galanteador que a deixou encabulada.
- O quê? — indagou ela.
- Estou vendo a maior gata de Saint Louis, inteligente, que me traz comida e ainda me ajuda a trabalhar. Um partidão.
— Seu besta – Katniss mordeu o lábio e balançou a cabeça em negativa.
Peeta se levantou e esticou as costas, seguido de um bocejo alto. Endireitando a postura, se virou para ela:
— Posso ser besta, mas não mentiroso.
Lado a lado, saíram do prédio; a chuva, um episódio distante; o plano de assistir a The Office deixado para outra oportunidade, todavia felizes por estarem juntos no final do dia.
**
2025, 10 de julho.
Gale olhava repetidamente as horas no celular.
— Seu namorado está atrasado – disse o óbvio, um vinco formado na testa, os nós dos dedos rechonchudos batucando a lateral da mesa.
Katniss o encarou, as feições duras.
— Se você não dissesse, eu nem teria notado.
Atrasos injustificados não eram do feitio de Peeta, ainda mais quando relacionado a trabalho. Ele havia sido chamado por Gale, apesar de trabalhar em outro escritório, para ajudar em um dos casos jurídicos mais complexos que tinham. Quarenta minutos, aguardavam-no havia quarenta minutos.
O celular de Katniss piscou, ela desbloqueou a tela com rapidez, esperando encontrar uma mensagem do rapaz. Ela bufou, a enxaqueca, companheira constante de seus dias, dando os primeiros sinais de dor. Não era Peeta, e sim sua mãe, convidando-a para jantar em casa naquela noite. A jovem ignorou o convite, limitando-se a ler a mensagem pela barra de notificação, sem vontade alguma de estar com os pais, principalmente depois da última discussão que tivera com o pai acerca de sua carreira que não era lá grande coisa, como se ela não soubesse daquilo.
Gale se levantou.
— Não posso mais esperar – anunciou, ajeitando o colarinho – Veja com ele o que aconteceu, precisamos conversar sobre a estratégia de defesa do nosso cliente, Katniss — ele parou debaixo da soleira da porta — Sorte de Peeta ser bom no que faz, se não eu diria umas poucas e boas pra ele. Boa tarde – com um aceno curto, saiu.
Katniss juntou seu iPad e a bolsa da mesa, o celular pronto para fazer a sexta ligação para Peeta. De novo, o tom límpido e firme que ele reservava para os clientes a saudou, caindo na caixa postal. Dessa vez, ela deixou um recado:
— É bom que tenha um excelente motivo para ter faltado. Que droga aconteceu? Liga assim que ouvir, por favor.
Torcia para que estivesse preso no trânsito com o celular descarregado, qualquer coisa frívola seria melhor do que o incômodo que martelava o estômago. Peeta está bem.
**
Passava das sete da noite. Uma ligação para o escritório em que Peeta trabalhava veio com a notícia de que não o viam desde o almoço. Vinte ligações perdidas para Peeta.
Katniss chegara em casa há mais de duas horas. De banho tomado e estômago cheio de pizza gelada de um dia atrás, sobre o sofá, ela puxou os joelhos para junto do peito, a barra da calça de flanela azul marinho roçando os tornozelos. Franziu a testa para o celular, encarando o registro de chamadas.
Ela pulou do sofá, agarrou o cardigan cinza do cabide atrás da porta e saiu do apartamento.
**
Katniss olhou de um lado para o outro antes de atravessar a rua até o prédio em que ele morava, no centro de Saint Louis. Estivera no lugar apenas um par de vezes, quase sempre aos fins de semana. Na portaria, vislumbrou o jovem porteiro, contando com a sorte de que ele se lembrava dela e de sua relação com o morador do apartamento.
Ela ensaiou um sorriso, prejudicado pela tensão.
— Olá, sou Katniss Everdeen – apresentou-se – Pode interfonar para o apartamento 110 e avisar que estou aqui? — ela pôs os antebraços sobre o balcão, pensando no que faria caso Peeta não estivesse em casa. Provavelmente ligaria para os amigos dele, então familiares, então iria à polícia.
— É o apartamento do sr. Mellark, certo? — o rapaz indagou. Katniss balançou a cabeça afirmativamente.
Ele abriu algo no computador, os olhos correndo por uma lista.
– Aqui está — o jovem se virou para ela – Sua entrada está liberada sempre que quiser, ordens do sr. Mellark – ele lhe estendeu um cartão eletrônico.
Piscando em atordoamento, Katniss pegou o cartão e chamou o elevador até o apartamento. O prédio, muito maior e mais moderno do que o dela, estava tranquilo naquela noite de quinta – feira, sem ter esbarrado com ninguém no elevador ou no corredor. Checou novamente o celular, sem resposta de Peeta às mensagens ou ligações. Àquela altura, a preocupação sobrepunha-se a qualquer irritação pelo bolo de mais cedo.
Em frente ao número 110, Katniss não hesitou ao encaixar o cartão na abertura, o bipe convidando — a a empurrar a madeira polida da porta.
Recebida pela escuridão da sala, a porta de vidro da varanda aberta chamava o vento noturno, soprando as cortinas claras para dentro, envolvendo Katniss em um tremor que a fez apertar o cardigan em torno de si. Ela se apressou a fechar o acesso, a rajada subitamente interrompida.
O facho lúgubre da lua, permitido pelo vidro que separava a varanda da sala, facilitou para que ela distinguisse a silhueta dos móveis e avistasse a sombra do interruptor de luz na parede, acionando-o. A súbita claridade artificial incomodou os olhos recém-acostumados à escuridão.
Katniss deu um pulo para trás, a mão sobre o peito.
No sofá, Peeta estava encolhido em posição fetal, trajando roupas sociais, os olhos fechados com força, os punhos cerrados, o rosto marcado por uma trilha de lágrimas frescas e secas.
Katniss deu um passo incerto na direção do sofá, depois outro, até os joelhos quase tocarem a margem. Só assim viu que Peeta mexia os lábios imperceptivelmente, sem emitir som. Ela estendeu a mão devagar, temendo que movimentos bruscos o sobressaltassem. Ele não mostrava estar consciente de sua presença.
Antes de tocá-lo, a mão se recolheu. Katniss abaixou-se na altura de Peeta, as pernas dobradas a deixaram no nível do rosto dele. “Está tudo bem, tá tudo bem, você está bem, eu estou bem”, ele murmurejava. Katniss apiedou-se, ocorreu-lhe que não poderia livrá-lo do que fosse que o afligia.
Sem contato físico algum, ela fechou os olhos e inspirou o ar denso, soltando-o devagar. Entreabrindo os lábios, entoou as notas iniciais da primeira música que passou por sua mente. A voz baixa e tímida aplacou o silêncio do lugar, a melodia lírica e meio fora do tom o único som e, por isso, parecia fazer muito barulho.
Katniss não viu quando Peeta, acordado de sua agonia, abriu os olhos avermelhados. Por um momento brevíssimo, ele não soube onde estava, atordoado pela voz familiar que o chamou através da música até a beirada. O reconhecimento recaiu sobre ele como um milagre. Katniss.
Ela movia a boca quase sem abri-la, cantando uma canção, concentrada e muito presente, real. Ela era real, estava ali. Peeta cobriu a distância que os separava com o braço estendido, tocando seu rosto. Aquela foi a prova de sua total consciência, pois Katniss não se assustou ante o toque, apenas abriu os olhos com mira certa, para ele. Katniss afagou a mão que a tateava, levou a palma aos lábios e a beijou. Sem dizer nada, postou-se atrás de Peeta, sentada no sofá, e o convidou para seu colo, que o ocupou sem pestanejar.
Os dedos de Katniss passeavam pelos cabelos de Peeta, as pontas circundando o couro cabeludo para acalmá-lo. Os braços do homem, costumeiramente firmes e seguros quando a seguravam, rodeavam a cintura dela com a força advinda do temor, fortes e oscilantes, Peeta estava assustado. A jovem o apertou contra si, a mão livre espalmada nas costas dele.
O ouvido de Peeta, pressionando o esterno de Katniss, escutava o coração dela como uma bela sonata, os batimentos ritmados e constantes iguais à dona.
— Quando eu era criança, — iniciou ela, a voz pouco mais alta que um sussurro — tinha o péssimo hábito de pegar os sapatos dos outros pra calçar em vez dos meus. Se visse na entrada de casa o sapato da minha mãe, não importava aonde eu fosse, calçava e saía com o que estivesse nos pés, mesmo que grandes demais.
O único indicativo de que Peeta ouvia foi a leve pressão em sua cintura.
– Um dia, meus pais e eu fomos ao supermercado – continuou — Eles já me esperavam dentro do carro e não viram que peguei o sapato de papai – Katniss riu pelo nariz, a lembrança vívida na mente – Minha mãe me fez andar descalça pelo supermercado durante todo o tempo em que ficamos lá e eu odiei o contato dos pés com o chão, estava muito gelado. Passamos pela seção de vestuário e eu pedi uma sandália pro meu pai e ele disse não. Comecei a chorar, dizendo que estava frio o chão — uma pausa — Sabe o que ele disse? “Pode chorar, faz bem e te faz pensar em ser obediente da próxima vez.” Na saída do mercado ao estacionamento, fazia um sol forte aí, pra não deixar queimar meus pés, papai me pôs sentada nos ombros dele enquanto corria até o carro.
Katniss fechou os olhos, recordando-se do riso infantil e solto, dos solavancos que a impulsionaram para o alto, de agarrar os fios curtos do cabelo do pai na corrida, da risada dele, que acabou se rendendo ao momento com a filha, da mãe que os seguia mais atrás, a irritação de antes há muito esquecida.
— Eu ri pra caramba, achei muito divertido. Eu só conseguia pensar que, se andar descalça por aí me rendesse ser carregada daquele jeito, os sapatos que se danassem, valia à pena. Depois disso, foi outra guerra fazer com que eu andasse calçada — ela soltou uma risada e Peeta ergueu a cabeça, o olhar frágil tomado por uma pitada de divertimento.
Katniss suavizou o rosto, a face assumindo uma ternura desconhecida e bem-vinda.
— Pode chorar, Peeta, faz bem e te faz pensar qual é o problema — ela acariciou sua bochecha — Tudo bem também porque há algo que te fará querer sorrir depois da tristeza, um motivo que vai te fazer valorizar o mais momentâneo brilho de felicidade. Está tudo bem.
Devagar, Peeta se sentou, as pernas cruzadas em cima do sofá. A cabeça permaneceu baixa, os olhos fechados. Erguendo o olhar, encarou-a e o que Katniss viu a desarmou.
— Eu... eu não... — lutou para verbalizar — não sei o que houve – Peeta engoliu, o pomo subiu e desceu à medida que as lágrimas se avolumaram nas bordas da linha d'água — eu estava trabalhando e de repente senti essa agonia – ele balançou a cabeça — Achei que fosse morrer. Katniss, achei que fosse morrer, sozinho, aqui – o semblante dele se tornou perdido — O que tá havendo comigo?
Ela não tinha resposta a ofertar. Não se pode nomear medos irracionais advindos da multidão de sentimentos e pensamentos que tendem a nos engolir na rotina. Irracionais, porém completamente bem fundados. Peeta trabalhara muito nos últimos meses, fazendo o serviço de dez advogados. Competente como era, dava conta, contudo o custo era alto. Katniss conversara com ele sobre isso, expressara sua preocupação com a doação quase completa do namorado à firma.
Pacientemente, Katniss se levantou do sofá. Com os olhos de Peeta sobre si, empurrou os ombros dele com gentileza até suas costas estarem apoiadas sobre o encosto do sofá, as pernas esticadas à frente. Logo, tomada pelo desejo de aplacar o pânico dele, subiu em seu colo, as pernas enlaçando sua cintura, os braços rodeando-o num abraço aconchegante e vital.
Peeta a abraçou de volta, o rosto escondido no pescoço de Katniss.
O arranjo durou por um tempo infindável, em que ambos temiam a hora da separação. Até que:
— É você — disse, os lábios mornos sobre o ombro de Katniss, coberto pelo cardigan.
Ela se afastou um pouco, o olhar questionador, cara a cara com ele, ou quase, pois Peeta era alto.
Ele afastou o tecido do ombro de Katniss e beijou o local.
— Você me faz querer sorrir depois da tristeza, o motivo que me faz valorizar o brilho de felicidade. Só que, nesse caso, não é nada momentâneo – Peeta acariciou os fios curtos do cabelo que emoldurava as orelhas de Katniss, que arregalou os olhos, comovida com o uso de seu discurso pretérito. Ele a sondou como nunca antes, o medo e a convicção ocupando o mesmo cenário — Eu te amo, Katniss.
Ela acreditaria mesmo sem ouvir. Sabia antes dele dizer. Entretanto, a sensação de ouvi-lo valia uma vida inteira. Era como ter o coração tirado do peito e recolocado, como soprar vida num corpo moribundo. Katniss desconhecia o som do próprio coração até então.
Ela segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou com ímpeto, empurrando Peeta para trás no processo, que, desprevenido, demorou pouco mais que um segundo para corresponder.
A jovem interrompeu a carícia com pequenos beijos. Nos lábios, olhos, ponta do nariz, maxilar de Peeta. Enfim, olhos nos olhos, ela disse:
— Eu também te amo.
**
2025, 02 de setembro.
— Não vamos nos casar agora – Katniss puxou a barra da blusa preta para baixo, o calor do verão batendo em trinta graus. A fatia de bolo de chocolate comida pela metade descansava no pequeno pires que segurava.
Peeta enlaçou as pernas nas dela, ajustando-as melhor no recamier que ficava debaixo da janela aberta do apartamento de Katniss, ausente de qualquer frescor naquele fim de tarde quente e abafado de setembro.
— Por quê? — ele adotou uma voz paciente e comedida, a que usava para compreendê-la.
Após o almoço na casa dos Everdeen, o casal foi para a casa de Katniss, onde passaram a tarde fazendo um bolo de chocolate cuja receita viram num dos instagrans de culinária que Peeta seguia. Entre a primeira xícara de cacau em pó e os ovos, Katniss flagrou-o a observando, como se quisesse dizer algo, pois a indagação estava em seus olhos junto com a incerteza.
Ele só disse enquanto comiam o bolo no recamier, uma hora depois, a cabeça para fora da janela, os olhos contemplativos para o céu. “Quero me casar com você. Você quer casar comigo?”. Katniss riu, sabendo que ouviria isso dele uma hora ou outra. “Quero”, respondeu com sinceridade, “Mas não agora”, completou. Isso chamou a atenção dele. “Não agora”, Peeta repetiu para ela e para si, não com o fim de concordar, e sim para constatar.
E aí ela reiterou, ele perguntou por que, ela respondeu:
-É absurdo, é cedo demais.
Peeta cruzou as pernas e colocou o pires vazio no chão.
— Não é absurdo. Sim, é cedo, mas não demais.
Katniss imitou sua posição.
— Não é racional, somos recentes. Namoramos há menos de um ano. Ninguém casa com tão pouco tempo junto.
Peeta deu de ombros e, confortavelmente, esticou as pernas sobre o estofado.
— Podemos ser essas pessoas. — Katniss revirou os olhos e, ostentando um sorriso provocador, ele a cutucou com o dedão do pé.
O rapaz se aproximou dela, afagando seu joelho, o olhar compenetrado e sereno.
— Me dê uma boa razão para não fazermos isso logo – disse — Katniss, não há outra pessoa que eu queira como minha esposa, nunca teve, só você. O futuro está fora do nosso controle, só que podemos planejá-lo e eu o quero com você — a garota segurou o pires contra o peito, as extremidades da porcelana a mantendo firme — Acho que você também me quer na sua vida por muito mais anos do que seria possível a um ser humano.
Katniss afrouxou o aperto no pires e o encarou, a cabeça tombou sobre a parede adjacente.
— Você é impossível, Peeta, e muito injusto.
Ele riu
— Injusto?
Katniss cruzou os braços.
— Sabe que eu te amo e que sou apaixonada por você e usa isso contra mim.
Katniss soltou um gritinho de surpresa quando Peeta a puxou para um beijo, ficando sobre ela, que fora deitada no recamier. O pires caiu no tapete felpudo abaixo, amortecendo-o e impedindo-o de quebrar.
Peeta se afastou o suficiente para admirá-la.
— Pois somos dois injustos.
Katniss virou o rosto, nunca acostumada com a forma com que ele a tratava, como se ela fosse uma bênção.
-Sequer há anel. Não se propõe sem anel – desconversou.
Peeta ergueu uma sobrancelha especulativa, os dedos afagando a cintura da namorada.
-Se eu tivesse um anel, você aceitaria?
Katniss deu uma risada sardônica, os orbes escuros cercados de humor.
-É, aceitaria.
Pondo-se de pé num átimo, Peeta saiu de cima dela, as mãos apalpando o bolso lateral da bermuda. De repente, foi revelada uma caixa minúscula aveludada. Dentro, jazia um finíssimo e delicado anel solitário.
Peeta a encarou, o sorriso dançando na face.
-Pois que bom que eu tenho.
Katniss parou de respirar, agora sentada e descabelada, a blusa desalinhada sobre os ombros e, boquiaberta, absorvia a situação. Peeta pegou sua mão direita e se pôs sobre um dos joelhos.
-Ai, meu Deus – sussurrou — Peeta, o que você está fazendo?
Ele beijou seus dedos.
— Pedindo direito, apesar da falta de estilo – falou, olhando para o que vestia, depois para Katniss — Posso esperar e te levar para jantar no Elysium e, ao final da refeição, quando sobrar apenas o vinho e a sobremesa, me ajoelhar diante de você e propor na frente de gente que nunca mais veremos na vida – ele maneou a cabeça — Ou pode ser aqui, agora, ou posso pedir dos dois jeitos, ou quantas vezes você quiser, das maneiras que desejar, desde que diga sim – Peeta inspirou e soltou o ar — Eu te amo, linda senhorita Everdeen. Conceda-me o privilégio de ser minha esposa?
Não adiantava fugir, Katniss estava inundada pelo que sentia por Peeta. Ela achava que todos os pedidos de casamento do mundo eram clichês e repetitivos, nada originais. Podiam até ser, mas, a quem interessavam, eram a coisa mais maravilhosa de se receber mesmo diante de sua vulgaridade. Para ela, na terra, não houve pedido melhor do que aquele. Irretocável, irrecusável, ao qual ela se viu aceitando antes de falar, audivelmente:
-Eu aceito, de todo o coração, aceito.
Peeta inteiro se iluminou e, sem pressa, envolveu o dedo anelar direito de Katniss com a aliança. Erguendo-se sobre seus pés, puxou-a para um abraço, que logo se transformou em uma dança guiada pelo som do crepúsculo, a sala do apartamento envolta em luz laranja e arroxeada, um presente do sol que se despedia dos amantes, a lua prestes a tomar seu posto.
Katniss foi girada e trazida de volta ao aconchego do noivo, que a tirou levemente do chão. O ritmo do balançar lento da dança colocou-a de frente para os últimos raios de sol. Naquela luz, os olhos de Katniss revelavam-se castanhos.
Havia uma história de amor entre o sol e a lua, ela recordou. Dois seres tão diferentes se apaixonaram, sem nunca poderem estar juntos. De dia, o sol aquecia e trazia felicidade. De noite, a lua iluminava os apaixonados, servindo de inspiração às mais bonitas poesias, apesar de ser o sol quem ardesse de paixão. Então Deus decidiu que o improvável casal teria seu encontro e, assim, criou o eclipse, a ocasião em que o sol e a lua, amantes um do outro, podem estar juntos por alguns segundos.
Peeta inclinou-se sobre a noiva, o braço a sustentando, depois lentamente a endireitou. Katniss o abraçou forte.
Fariam valer os papéis do sol e da lua. Seriam felizes de dia, iluminados pelo sol. De noite, quando a lua os encontrasse, nunca se esqueceriam de ser apaixonados um pelo outro.
Peeta fechou os olhos e beijou-lhe a testa.
Eles fariam valer a pena.
**
2025, 20 de dezembro.
Sr. Everdeen endireitou a postura e olhou para a filha, o rosto, habitualmente severo, aplacado pela emoção. Katniss fitou o pai com tranquilidade, a pessoa mais parecida com ela que existia, tanto na aparência quanto na alma.
— Você está linda. Peeta será um bom marido, eu sei – declarou ele, de frente para a porta que os separava da congregação, a presença sólida transmitindo calma e ordem.
Katniss repousou a cabeça no ombro do pai, lembrando-se das vezes que, mais jovem e até na fase adulta, o fazia, um dos poucos contatos físicos que tinha o costume de trocar com o homem. Os dois tinham um código tácito de carinho e afeto que a mãe de Katniss não compreendia, sendo ela alguém calorosa e emocional. Para pai e filha, o que tinham bastava e funcionava, o que tornava a relação deles estável.
A música que serviria de deixa para a noiva começaria em breve, Katniss aproveitou os últimos momentos com o pai, mantendo-se segura ao lado dele.
Ela apertou os dedos em volta do braço dele, o tecido grosso do terno macio e bem passado.
-Obrigada, pai, por me confiar a ele.
Sr. Everdeen não falou nada, conquanto a postura estoica tornou-se mais acessível e cálida.
Permaneceram em silêncio até que o sinal indicativo da vindoura marcha nupcial foi ouvido. Katniss esticou o corpo, o caule do buquê meio estrangulado na mão direita.
Sutilmente, a música mudou e a harmonia doce do piano e violoncelo atravessou a porta, que foi aberta devagar.
A vida se reduziu àquele momento, um belo rapaz de smoking parado no final de um corredor. A vida podia mesmo ser bastante simplista e bonita. Katniss perdera a noção de todas as pessoas que olhavam para ela, porque ele a estava esperando.
Certa vez, Stephen Chbosky escrevera sobre se sentir-se infinito. Estar apaixonada, amar, fazia-a infinita. Ela, por fim, com o coração brilhando e o espírito em paz, deu o primeiro passo em direção a Peeta.
Fale com o autor