Notas iniciais
Oi meninas. E então, vamos aproveitar o capítulo fresquinho?
Esse é dedicado a linda Diê Kellner, pela maravilhosa recomendação deixada na fic.
Eu amei Diê! E esse é totalmente feito para você! Aproveite ;)
Lá em baixo nós conversamos. POR FAVOR LEIAM AS NOTAS FINAIS,O.K?
É MUITO IMPORTANTE!
Boa Leitura ;D

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Capítulo 5 — Eu sabia que você era problema.


— Nessie... — ele repetiu meu nome, encarando-me incredulamente com os seus olhos límpidos.

A sensação de ter um objeto esférico subindo por minha garganta era alucinante. Queria vomitar. E o simples fato que causaria isso seria que meu apelido soou imoral em seus lábios. Sentia nojo de mim mesma por permiti-lo a referir-se a mim daquela maneira tão íntima, através da qual apenas meus familiares tratavam-me. — Meu Deus, é você mesma! Você está aqui, acordada! Isso é bom demais. — Filipe falou vindo em minha direção; porém, foi rápido demais para que eu pudesse fugir de seu abraço sufocante.

Meu Deus, se eu senti nojo de ele falando meu nome, imagine agora que está tocando em mim?

Queria livrar-me, o mais rápido possível, de seus braços ásperos e rijos, que envolviam meu corpo. Era, no mínimo, desconfortante ter seu corpo ao meu redor depois de imaginar tudo o que ele fez ou tocou no corpo da outra. Novamente, aquela bola gigantesca subia por minha garganta. Aquele abraço não me trazia nenhuma sensação boa — muito pelo contrário. As únicas sensações que, naquele exato momento, me acometiam eram a náusea insuportável, o asco contínuo e a repugnância suprema por ter os braços daquele vil traidor envolvendo-me daquela maneira.

Como, algum dia, eu pude gostar de seus abraços? Como pude deleitar-me quando suas mãos brutas e frias passeavam por meu corpo?

Aqueles pensamentos só faziam o nojo de mim mesma intensificar-se mais, e mais, e mais, e mais. Não acreditava que fui tão burra, tão cega, a ponto de acreditar em todas as mentiras que ele me contava. Todas as declarações, todos os momentos, todos os carinhos... Um medo, mais triste e surreal do que qualquer outro, do que poderia ter sido instaurou-se em meu peito ao, apenas, cogitar a possibilidade de que tudo o que vivi com aquele homem foi uma farsa. Uma mentira contada para enganar uma idiota qualquer.

Será que ele realmente nunca me amou?

A pergunta que ecoava em minha mente só servia para machucar, ainda mais, meu coração. E eu sabia o porquê. Em todos os momentos que passamos juntos, eu amei-o.

E esse era o verdadeiro motivo por que sua traição atingiu-me tão severamente. Afinal, nós só nos decepcionamos com aqueles que, de alguma forma, temos como importantes em nossas vidas; com aqueles que compartilhamos coisas relevantes o bastante sobre nós mesmos; com aqueles com que passamos momentos inesquecíveis e que, de repente, nos ferem da maneira mais dolorosa possível... Porém, se eu aprendi uma coisa com a vida, era que ela possuía lições. E, por piores que fossem, toda lição, no fim, virava uma nova cicatriz que permaneceria sempre ali, pronta para freá-la quando estivesse prestes a cometer o mesmo erro de novo.

Era isso que Filipe havia virado para mim: uma cicatriz — assim como eu era apenas mais um furo em seu cinto.

As marcas que ele deixou em mim, tão profundas e pungentes, sempre permaneceriam, lembrando-me eternamente de como fui tola no momento em que aceitei o seu pedido para almoçarmos juntos. Naquela manhã, revés de uma primavera amaldiçoada, eu havia assinado a minha própria sentença. Ah, se eu soubesse o que aconteceria alguns anos depois...

No fim, tudo por que estava passando, era culpa minha; deveria ter ficado mais atenta aos detalhes. Um homem jovem, bonito e com uma carreira em ascensão largaria a vida de vadiagem das grandes metrópoles por uma professora de ensino infantil de cidade pequena?

Não, a resposta é não. E agora eu sabia disso.

— Eu senti tanta saudade, meu amor. — Filipe falou, acariciando minha face. Minha expressão, provavelmente, assumia um meio termo entre espanto, descrença e novamente nojo.

Como ele poderia ser tão cara de pau?

Abandonei o rosto de Filipe e permiti que meus olhos corressem pelo quarto, buscando duas pessoas em especial: Hannah e Amy. Necessitava saber o que elas estavam achando de toda aquela situação.

Hannah administrava, em seu rosto jovial, uma estampa engraçada. Seus lábios, moldados em um enorme “o”; e suas sobrancelhas, escuras e delineadas, arqueadas sugestivamente. Tais denunciavam o que se passava em sua mente naquele momento: confusão, surpresa, mas, acima de tudo, incredibilidade.

Já Amy transpassava apenas uma emoção em seu rosto:raiva. Sabia que esse era o sentimento que preenchia meu irmão também; e talvez fosse esse o motivo dela sentir o mesmo: raiva de tudo o que esse homem fez-me passar; raiva da vergonha, da dor, do coma...

Com aquela asserção, o ódio acendeu-se em meu peito. Era como uma fagulha cercada por barris de pólvora pequena e, aparentemente, irrelevante, entretanto, extremamente perigosa quando mal administrada. Qualquer atitude impensada, naquela altura, ocasionaria uma explosão de sentimentos dentro de mim; contudo, frear o impulso de vaguear em meus pensamentos era inevitável. Ainda mais agora que tinha noção do que Filipe era capaz.

Se não fosse graças ao seu “showzinho” em nosso casamento, eu nunca teria fugido para a floresta daquela maneira. Nunca me teria perdido na imensidão do verde. Nunca me teria encontrado com aquela misteriosa senhora e cedido — acuada como um filhote de veado perante um caçador. E nunca, em hipótese alguma, nunca mesmo, teria de passar um ano em coma.

A culpa era dele. Filipe era o responsável por causar pesares a mim e a minha família, e isso — ah! —, eu não perdoaria.

— Nós temos tanto para conversar, Nessie. Tem tanta coisa que eu preciso lhe explicar. — ele falava com seus olhos azuis celeste tomados pela a angústia.

"Nós não temos mais nada para conversar, imbecil!", pensei em dizer, mas acabei freando esse impulso, já que uma ideia melhor surgiu em minha mente.

—Claro. — respondi em um tom ponderado, pronunciando-me pela primeira vez desde que ele entrou naquele quarto.

Filipe esboçou um pequeno sorriso de contentamento. Seu olhar voltou-se para Amy e Hannah como se enviasse um pedido a elas. Entendi no mesmo momento. Ele queria que ambas retirassem-se do local para conversarmos com mais privacidade.

Logo depois, seus olhos voltaram-se para um canto específico da sala.

Segui seu olhar e fui pega de surpresa ao notar o ser que residia ali: Jacob. Havia-me esquecido completamente de sua existência no momento em que Filipe entrou em meu campo de visão, reavivando todas aquelas sensações horripilantes que eu ansiava libertar-me — o quanto antes.

Ahr... Acho melhor deixá-los a sós. — falou meio sem jeito, devido ao olhar penetrante de Filipe em sua direção.

O que tinha dado nesse energúmeno para olhar assim para Jacob?

— Nós também já estamos indo. — comentou Amy ríspida e muito contrariada, puxando Hannah logo em seguida. As duas e Jacob estavam caminhando até a porta, mas eu impedi-os.

— Espere! — chamei, e ambos viraram para fitar-me com expressões, no mínimo, surpresas. — Filipe, não há nada que você tenha para me dizer que não possa ser na frente dessas pessoas. — falei, agora direcionando-me para Filipe e apontando na direção deles.

— Mas, Nessie, eu queria conversar apenas com você. É algo estritamente particular.

— E desde quando falta de privacidade é algo que o incomoda? — questionei arqueando as sobrancelhas. Filipe entendeu perfeitamente onde eu queria chegar, pois este engolia em seco, com uma expressão tensa.

Ele não me humilhou diante de milhões de pessoas? Que diferença faria apenas os três presenciarem nossa conversa a essa altura do campeonato?

— Tudo bem... — suspirou derrotado.

Um silêncio causticante insistia em habitar no quarto. Jacob, Amy e Hannah permaneciam na porta, mas agora não ousariam sair tão cedo. Parecia egoísmo de minha parte — ou até mesmo falta de sanidade —; entretanto, ao imaginar-me sozinha com Filipe, tendo uma conversa daquela conotação, meu estômago começava a embrulhar-se, e aquela bola enorme voltava a surgir velozmente, arrastando-se lentamente, rumando à saída mais próxima para fora de meu corpo: minha boca.

— Pode começar. — incentivei Filipe, cruzando os braços sobre o peito.

Ele soltou mais um longo suspiro.

— Nessie, eu sei que esse não é momento mais propício para isso, mas eu não posso deixá-la com dúvidas nem por um segundo a mais. — ponderou aflito. — Eu não sei o que você viu exatamente naquela fita, até por que eu nunca tive acesso a ela, mas, inicialmente, tudo o que você precisa saber é que eu te amo. — ele falou, erguendo seus braços em direção do meu rosto. Bruscamente, esquivei-me, inclinando-me para trás, fugindo das suas mãos asquerosas.

— É mesmo? E quanto você me amou quando estava transando com a Loren? — inquiri ríspida, semicerrando os olhos. Filipe espantou-se com minha atitude. Geralmente eu não era tão direta, mas situações desesperadas exigem medidas desesperadas.

— Nessie! — ele repreendeu com os olhos esbugalhados. Filipe olhou para trás, na direção de Hannah, Amy e Jacob, aparentemente constrangido.

— O que foi? — perguntei cínica. — Agora você está com vergonha? Isso é sério mesmo? — arqueei minhas sobrancelhas, administrando o melhor tom irônico em meus lábios. — Porque, se for, em um ano, você mudou bastante. Já que no nosso casamento, seu videozinho picante bombou! E olha que você parecia bem à vontade na frente daquele mar de gente — comentei rindo sem humor algum.

— Renesmee, acho que você se precipitou em sua escolha. Nós temos de tratar esse assunto realmente a sós. — ele falou sério.

Não sei se foi o seu tom de voz sempre autoconfiante e superior ou até mesmo minha indignação pelo fato de ele estar exigindo algo — mesmo não estando em condições de fazê-lo —; contudo, só percebi que aquela sua frase havia-me tirado do sério quando meu tom de voz era tão audível quanto um autofalante.

— É mesmo? Pois eu não acho! Muito pelo contrário! Acho que todos no mundo mereciam fazer parte dessa nossa “conversinha intima”, Filipe. Para que assim, de uma vez por todas, as pessoas que me viram chorar, sofrer e ser completamente humilhada, no meu próprio casamento, tenham noção de que eu não sou mais a mesma idiota de antes! — gritei com meu dedo quase encravado em sua face.

De soslaio, pude notar as expressões das pessoas naquela sala. Jacob mantinha em sua face um misto de confusão e surpresa, provavelmente, por não ter noção alguma do assunto de que tratávamos. Pela primeira vez, pude perceber que envolvê-lo naquilo tudo não era lá tão correto. Mesmo assim, quando a hipótese de ter de enfrentar uma conversa daquelas com Filipe, sozinha e sem nenhuma plateia, voltava a perturbar-me, não me arrependia de não ter permitido sua saída do quarto.

Continuei a captar as os rostos das pessoas na sala. Hannah e Amy mantinham a mesma expressão: uma mescla de divertimento e surpresa. Talvez, minha reação tenha-as agradado.

Aos poucos, fui avistando uma meia dúzia de cabeças aparecendo na porta do quarto; provavelmente, as pessoas estavam assustadas pelo meu “pequeno escândalo” no hospital.

"Ótimo", pensei, "quanto mais gente presenciar isso, melhor."

Queria humilhar Filipe assim como ele fez comigo. Queria feri-lo, apunhalar seu ponto fraco: aquele seu ego enorme.

— Nessie, não era a minha intenção fazê-la de idiota em momento algum.

— Ah, não era? Então, protagonizar um vídeo de sexo com a minha melhor amiga, exibi-lo em nosso próprio casamento, na frente de todas as pessoas que amo, não é me fazer de idiota? — inquiri incrédula. — Me diga, Filipe, o que é fazer alguém de idiota para você? Porque eu preciso estar bem preparada caso, algum dia, eu vire seu alvo.

— Mas eu não sabia do vídeo... Quer dizer, Loren me ameaçou no dia do nosso casamento, por isso que eu liguei para você... — ele falou explicando-se. — Mas eu nunca faria aquilo. Nunca iria expô-la daquela maneira. Você tem que acreditar em mim. — ele pedia em tom de súplica.

— Então, você está querendo dizer que, se Loren não tivesse posto o vídeo, eu nunca saberia da existência dele? — Perguntei, forçando um tom ameno. Na realidade, estava sendo sorrateira.

— Sim — concordou.

— Então, você mentiria para mim a vida inteira? Você se casaria comigo mesmo depois de ter cometido tamanha traição? — indaguei boquiaberta. Filipe balbuciava palavras. Acho que ele tinha noção de que o que quer que ele falesse condená-lo-ia a qualquer momento.

Er... Eu... Eu... Não, Ness! Eu não esconderia isso de você... Eu só...

— Você só? — pressionei, interrompendo-o.

— Renesmee, eu não queria traí-la. Eu a amo. — Aproximando-se de mim mais uma vez, Filipe disse. Revirei os olhos e bufei. Em algum lugar, na mente dele, “eu te amo” deve ser algum tipo de palavra mágica para resolver as coisas, pois, ao que parece, era a única resposta concreta que ele sabia dar.

— Filipe, quem ama não trai — suspirei.

— Mas eu não queria te trair e...

— Mas traiu — cortei cáustica.

— Aconteceu! Não foi intencional. — ele falou. Seus olhos azuis, antes tão profundos como o céu, agora, a meu ver, eram totalmente ocos, vazios de qualquer sentimento como os de um robô.

Cada vez mais, ficava abobada; tentando, de alguma maneira, desvendar o que, afinal, eu havia visto de tão interessante naquele homem.

— Nunca é. — disse irônica.

— Nessie, eu e Loren sempre nos demos bem até porque você queria isso. Queria estabelecer um bom relacionamento entre mim e todos aqueles que a cercavam. E isso aconteceu há muito tempo. Loren estava doente e, como você estava em uma viagem com as crianças da escola, ela ligou para mim e...

—Oh, não me diga? Deixe-me adivinhar essa! — falei, alterando meu tom de voz e atraindo a atenção do aglomerado de pessoas na porta para mim. Aquelas explicações ridículas de Filipe já estavam dando-me nos nervos. — Ela estava doente e, você, como o bom amigo que é, foi até lá acudi-la. Mas me conte, Filipe, com o que você pretendia curá-la? Com seu pênis mágico? — questionei irônica, gesticulando. — Sinto desiludi-lo, mas você não tem todo esse poder. — dei de ombros.

Hannah soltou uma alta gargalhada, fazendo Filipe virar para olhá-la, finalmente dando-se conta de que, agora, nós tínhamos uma plateia maior nos assistindo.

Seu olhar, antes vazio, agora assumia algum resquício de sentimento, mas, por alguma razão, aquilo me assustava. Seus olhos azuis escureceram, e seu rosto assumia uma tonalidade mais avermelhada. Sabia o que estava acontecendo: havia finalmente acertado em seu ponto fraco — seu orgulho machista.

— Já chega Nessie! — ele falou rudemente, puxando-me pelo braço, diminuindo a distância entre nós e acarretando no bruto choque entre nossos corpos.

Seus olhos exalavam raiva, e uma corrente elétrica brincava em minha espinha. Estava assustada com sua atitude agressiva. Ele nunca fora assim — não comigo.

— Essa palhaçada acaba aqui. Nós vamos conversar sozinhos, você querendo ou não. — sibilou com um tom ameaçador.

— Você está me machucando. — sussurrei apenas para ele, encarando-o intensamente assim como ele; transmitindo, através do meu olhar, todo o nojo e a crescente raiva que abundava dentro de mim. — Acho melhor você me soltar.

— Ou o quê? — riu sarcástico.

— Ou eu quebro a sua cara, seu imbecil. — ouvi aquela voz rouca e máscula ecoar pelo cômodo, causando uma rebelião em meus pelos que insistiam em eriçarem-se.

Automaticamente, Filipe virou o rosto na direção da voz, e, assim que seus olhos encontraram-se com os de Jacob, suas feições transtornaram-se de ódio.

Olhei para Jacob, que mantinha o mesmo olhar de Filipe: ambos, impassíveis. Eles encaravam-se como animais selvagens prestes a alçar uma luta por território. A qualquer momento, sentia que as faíscas voariam da troca de assustadores olhares entre ambos.

— E quem você pensa que é?

— O cara que vai fazer você chorar como uma garotinha, se você não a soltar agora. — Jacob sibilava as palavras com ira.

— É mesmo? — Filipe soltou-me, aproximando-se de Jacob.

— O bom é que você é esperto. Foi só eu dar o recado que você a soltou rapidinho. — Jacob falou sarcástico, lançando uma piscadela a Filipe.

Meus olhos quase saltaram das órbitas. Jacob estava provocando; e Filipe, reagindo. Eles encaravam-se de maneira agressiva; e, a qualquer momento, tinha noção de que um voaria no pescoço do outro. Isso não terminaria bem.

Filipe, na maioria das vezes, era um homem calmo e agradável; entretanto, quando cutucavam sua ferida, ele transformava-se em um animal selvagem e cruel que não media as consequências de seus atos. Já o havia visto brigar diversas vezes com outros caras — sempre por ciúmes de cantadas que eles lançavam a mim ou até mesmo por ultrapassagens no trânsito. Contudo, se há algo que sei, é que Filipe nunca deixava nada barato, e a grande parte dos caras que se envolviam em brigas com ele saíam arrasados; literalmente, catando os pedaços. E afligia-me o fato de Jacob ser um candidato, em potencial, a ser o próximo da lista.

Resolvi intervir antes que o pior acontecesse e antes que aquele desgraçado fizesse-me passar vergonha novamente.

— Ah, seu filho da... — Filipe começou, fechando os punhos e indo em direção de Jacob, que também não recuou um milímetro.

— FILIPE! — gritei, entrando no meio dos dois, tentando separar uma briga que estava apenas começando. — Já chega! Chega! — Empurrei Filipe pelo peito, para longe de Jacob. — Será que você não tem noção do que faz? — questionei, franzindo o cenho. — Eu acabei de sair de um coma, Filipe! De um coma! Parece que você não tem ideia do que é isso, não? Você diz que me ama, mas não respeitou nem a minha recuperação, vindo aqui e tentando me convencer com seus argumentos ridículos. — falei estourada, sentindo meus olhos úmidos, graças às lágrimas que insistiam em surgir. — Chega! Eu não quero mais ouvir nada! Eu quero você fora daqui! Agora! — Apontei em direção à porta.

— Nessie, me desculpe eu...

— Agora! — gritei, sentindo um gosto amargo e salgado em minha boca. — Eu não quero mais saber das suas explicações, de suas mentiras, de sua traição, da Loren... De você! Eu o quero longe de mim. Vá embora agora, Filipe, para o seu próprio bem. — continuei meu discurso recheado de dor e ressentimento. — E, se você for sábio, nunca mais voltará a aparecer na minha frente. — sequei as lágrimas com as costas das minhas mãos, enquanto via a imagem derrotada de Filipe seguir caminho até a porta.

Era para me sentir aliviada, não? Mas, então, por que a incômoda sensação de que não havia acabado inquietava meu peito?

O ódio que sentia de Filipe ainda se mantinha aceso dentro de mim como uma chama vívida e ardente. Aquelas palavras não bastavam. Eu não havia ferido sua alma como fez com a minha. Não, não havia acabado. Eu precisava de mais. Precisava descontar minhas frustrações. Precisava extrapolar, ao menos, uma vez em minha vida.

Poderia ser algo infantil, mas o que eu desejei fazer a seguir inseriu uma sensação deliciosa de dever cumprido dentro de mim.

— Filipe! — chamei-o, fazendo-o virar para fitar-me. — Espere! — andei devagar ao seu encontro, já que ainda tinha presa a mim a bolsa de soro, o que dificultava um pouco minha locomoção pela sala. —Você esqueceu uma coisa.

— O quê? — ele questionou enquanto o azul de seus olhos administrou um misto de surpresa e esperança.

— Me desculpe, mas eu não podia deixá-lo ir sem isto. — falei, aproximando-me lentamente dele. Nossos rostos estavam a centímetros um do outro. Seu hálito já ricocheteava em minha face. Ele mantinha lufadas rápidas de ar, e seu batimento cardíaco estava descompassado, provavelmente graças a minha inesperada ação.

Com o canto dos olhos, notava as expressões confusas das pessoas ao redor, provavelmente achando-me uma mulher insana e sem juízo. Uma hora gritava, chorava, urrava de raiva e agora estava prestes a beijar o cara que despertou todos esses sentimentos. Isso deixaria qualquer ser humano normal confuso.

Porém, foi quando avistei o rosto de Jacob que meu coração perdeu uma batida. Assim como os outros, ele mantinha uma confusão evidente estampada em seu rosto; todavia, em seus olhos, o brilho da tristeza ofuscava qualquer outro sentimento; e, por mais bizarro que soasse, aquilo doía em mim. Resolvi terminar logo com isso.

— Nessie eu... — Filipe começou a falar com um pequeno sorriso brotando em seus lábios rosados.

— Shiu... — silenciei-o com o dedo indicador. — Isso é para você ter sempre uma recordação de mim e dos nossos momentos juntos. — sussurrei de uma maneira delicada, esbanjando um enorme sorriso em seguida, aproximando mais nossos rostos. Filipe sorriu logo em seguida.

Aproximei meus lábios de sua orelha e ronronei a seguinte palavra:

— Imbecil. — afastei-me abruptamente de Filipe, não dando tempo de ele esboçar alguma reação.

Com todo o ódio contido dentro de mim, fechei minhas mãos em punhos e lancei uma delas, com toda força, em seu rosto. Seu maxilar deu um leve estalo enquanto seu corpo desequilibrava para trás. Sua expressão exalava dor e incompreensão ao mesmo tempo em que o resto de seu corpo mantinha uma tentativa frustrada de manter-se de pé.

Filipe ainda tentava assimilar tudo o que havia ocorrido enquanto o resto das pessoas encaravam-me incrédulas.

A única sensação que se manifestava em mim era o alívio — o mais delicioso e excitante alívio. Sentia como se um elefante tivesse sido retirado de minhas costas.

Várias pessoas costumavam dizer-me que praticar algum tipo de luta, como forma de atividade física, era relaxante e, simplesmente, um remédio para a alma; agora eu compreendo o porquê.

Poderia parecer que minha sanidade esvaiu-se como a água de uma torneira aberta, mas bater em Filipe foi a melhor sensação que já tive em minha vida.

— Sua vadia. — ele sussurrou desnorteado e incrédulo. Lancei-lhe um sorriso de escárnio em resposta.

— Você achou que eu realmente o beijaria, amor? —questionei, imitando seu tom de voz com o sarcasmo reinando em absoluto.

— Você vai me pagar por isso, Renesmee! Vai me pagar! — vociferava em um tom ameaçador. — Eu vim aqui tentar consertar as coisas, e é assim que você me recompensa? Com ofensas, humilhações e tapas? Você não me merece... — falou colérico, usando o artifício de autopiedade.

Ri incrédula. Aquela cena daria um bom filme de comédia. Aquilo era realmente real? Filipe estava bancando a vítima?

— Querido, você tem razão. Eu não o mereço. — falei balançando a cabeça negativamente. — Não mereço um cretino, sem vergonha, descarado, filho de uma égua como você. Eu mereço coisa muito melhor. Aquela vadia da Loren sim, o merece e muito, Filipe! Na realidade, ambos se merecem, acho até que foram feitos um para o outro. E pensar que eu empaquei essa história de amor entre vocês por tanto tempo... Mas agora eu não sou mais um problema. Você pode curtir quantas noites quiser com a sua prostituta que eu não irei mais atrapalhar. — cuspi as palavras. — Só lhe peço uma única coisa: suma da minha vida e não volte nem que o capeta o ameace.

— Se você acha que isso vai ficar assim, você está muito enganada, Ness... — ele falou, aproximando-se de mim e segurando o lado de seu rosto em que eu acertei o soco. — Você pode até não querer mais ficar comigo, mas eu lhe juro que, se não for eu, não será mais ninguém. — sussurrou as palavras em meu ouvido, de uma maneira despreocupada; porém, extremamente, assustadora. — Eu nunca vou sair da sua vida. E eu juro, Ness, eu lhe prometo que, a partir do momento em que eu sair por aquela porta, você nunca mais saberá o que é felicidade. Não porque eu saí da sua vida, mas porque você vai temer. Você vai sentir medo todos os dias enquanto ainda houver ar em seus pulmões. Você vai lastimar as palavras hostis que você me direcionou, porque, quando chegar o momento, eu voltarei e arrancarei de você tudo o que você conseguir conquistar. — os pelos de minha nuca eriçaram-se devido ao torpor de medo que me atingiu naquele momento.

Eu tinha muitos temores, muitos medos, muitas dúvidas; mesmo assim, não era nada que eu não conseguia lidar. Nada excepcional.

Porém, no momento em que Filipe terminou o seu discurso, sentia como se o mundo tivesse sumido debaixo de meus pés, e eu estava flutuado — flutuando juntamente com as nuvens densas e cinzas da tempestade que habitava em meu pesadelo, esse que eu costumava chamar de vida. Estava com medo — um medo absurdamente horripilante.

Talvez, essa reação extrema que me sucumbia tivesse surgido por não esperar que Filipe ameaçar-me-ia, já que isso não era algo de seu feitio. Contudo, o real motivo do meu temor era poder compreender a verdade que suas palavras transmitiam a mim.

Desde meus quinze anos de idade, praticava pôquer com meu pai e meus tios. Era quase como um hobbie em família. Noites de feriado, datas comemorativas, natal, ano novo. Sempre que nos uníamos, era obrigatório jogarmos uma partida de pôquer. Meu pai sempre teve um espírito competitivo e, como eu era sua filhinha, quis transpassar essa alma de jogador para mim. Ensinou-me todas as suas táticas e sistemas infalíveis para ganhar no jogo.

O.K., algumas falhavam, mas havia uma, apenas uma tática, que eu admirava perdidamente: o blefe. Todo mundo gosta de um bom blefe. É o que torna o pôquer um jogo excitante. A chance de ganhar alguma coisa com nada, a chance de intimidar alguém, fazê-los desistir com a melhor mão. Se o pôquer fosse a melhor mão vencendo toda vez, o jogo perderia muito de seu charme. Você nunca iria a uma casa de pôquer ou cassino sem ver blefe atrás de blefe. Mas o problema é que a maior parte das pessoas não sabia como fazê-lo. Eles blefavam só por blefar. E é ai que eles pecavam.

Quando uma pessoa está mentindo; ela, involuntariamente, expressa reações em seu corpo. Provavelmente, seu sistema nervoso forja uma própria armadilha para si; ou, então, a incapacidade de ser um bom mentiroso impera em alguns seres humanos.

Todavia, eu era o tipo de pessoa que sabia exatamente identificar um blefe.

Mãos suando. Tique nervoso. Estalos de dedo. Mordidas nos lábios. Caretas discretas. Mudança no timbre da voz. Mexer no cabelo. Respiração alterada. Ea inevitável não notar os pequenos deslizes de meus oponentes. No fim das contas, a verdade está estampada no rosto de cada pessoa.

E, para pessoas como meu pai — e consequentemente eu —, era fácil, como roubar doce de criança, perceber quando uma mentira era contada. Como dizia o Dr.Lightman: “Linguagem corporal diz a verdade até se estiver enterrado”.

Mas, com Filipe, foi diferente: ele não vacilou, ele não alterou seu tom de voz, ele não piscou, ele não recuou, ele não mentiu. E era exatamente isso que me assustava: a verdade absoluta de suas palavras. Seria ele realmente capaz de fazer-me algum mal?

Balancei minha cabeça negativamente, afastando aqueles pensamentos importunos.

Afinal, era exatamente isso que Filipe queria, não? Tirar-me do sério, amedrontar-me. Como os jogadores de pôquer, ele queria intimidar-me, mas sem ter absolutamente nada de valioso nas mãos.

Forcei um sorriso de deboche e sussurrei as seguintes palavras:

— Vá em frente.

O ódio que se infiltrou em seus olhos naquele momento assustou-me tanto quanto suas palavras. Pensei que ele dar-me-ia uma surra a qualquer momento, mas seu olhar, recheado de raiva, dissipou-se assim que ouvimos uma voz alterada no cômodo bramir:

— O QUE ESSE DESGRAÇADO ESTÁ FAZENDO AQUI?

Filipe virou-se rapidamente na direção da porta e deu de cara com um Riley transtornado, tomado pela raiva.

Deus, será que não há ninguém calmo hoje?

— Ora, ora, ora! Se não é o irmãozinho da tão inocente Renesmee! — Filipe provocou. — O que você quer moleque? Me bater também?

— Se você está pedindo... — Riley não esperou Filipe formular nenhuma resposta e voou para cima dele; acertando, em cheio, o lado de seu rosto em que eu havia batido agora a pouco. Filipe gemeu de dor, já que a área socada por meu irmão ainda permanecia sensível.

Seu corpo desequilibrou-se, e Riley subiu por cima dele, acertando freneticamente socos de ambos os lados de seu rosto. Em um momento de distração, Filipe desequilibrou Riley, invertendo suas posições e distribuindo socos por várias partes de seu corpo.

A briga entre eles intensificava-se. Gritos femininos, socos, chutes e sangue era tudo o que minha mente conseguia raciocinar. Meu coração comprimia-se a cada instante. Aquele circo dos horrores estava corroendo-me. Como tanta coisa pode acontecer em tão pouco tempo? Eu havia acabado de acordar de um coma de um ano, e minha vida estava mais movimentada do que fora em todos os meus vinte e dois anos de idade.

Queria gritar. Pedir socorro. A ajuda de alguém para separar aquela briga inútil. Queria que Jacob ou algum daqueles homens que permaneciam na porta movessem-se e apartassem aquele banho de sangue que ocorria em nossa frente; porém, eles permaneciam como eu: em estado de choque, estáticos em seus devidos lugares, provavelmente tentando processar o que estava ocorrendo.

Em um ímpeto de desespero, senti minha garganta arranhar e gritei:

— Jacob! Chame a segurança! AGORA!

Ele elevou seu olhar a mim, como se estivesse em câmera lenta, e concordou acenando com a cabeça, saindo correndo em seguida da sala. Hannah foi logo atrás dele.

—Riley, pelo amor de Deus! Pare! — gritava Amy, soluçando, enquanto meu irmão e Filipe atracavam-se no chão.

Não conseguia mais distinguir um do outro ou o que era o quê ali.

Tudo o que via eram seres primitivos, lutando arduamente e cobertos de sangue. O cheiro de ferro já circundava todo local, até que os tão esperados seguranças chegaram e apartaram aquela carnificina. Eles levaram Filipe arrastado logo em seguida. Seu corpo derrotado ia sumindo de meu campo de visão, mas não sem antes me lançar um último olhar terrífico.

Naquele instante, suas palavras ecoaram novamente em minha cabeça: “eu te prometo”.

Percebi que estava de volta ao mundo real assim que os braços macios de minha mãe — que, em algum momento, havia entrado no quarto — envolveram meu corpo, e eu permiti-me, assim, desabar finalmente.

Soluços sacolejavam meu peito, e lágrimas densas e salgadas lambiam-me a face enquanto o som de meu choro desesperado ecoava por todo o cômodo.

— Shiu... Acabou, amor, acabou... — a voz de minha mãe, aveludada e tranquila, soava como uma canção de ninar aos meus ouvidos. Não sei quanto tempo ficamos assim, mas fora muito, pois a multidão, que antes ocupava a porta, já havia dissipado-se.

Permitir-me-ia dormir naquele exato momento, exceto por um motivo.

— Riley! — exclamei o nome do meu irmão caçula, desvencilhando-me do aperto de minha mãe.

Amy estava ao lado de uma enfermeira que tratava de seus ferimentos, sempre com um olhar preocupado. Por sorte, Riley não sofrera nada grave: foram apenas alguns roxos, inchaços e cortes. Nada que um bom repouso não curasse.

Assim que a mulher terminou seus curativos, abracei-o fortemente, e ele retribuiu com a mesma intensidade, logo em seguida.

— Está tudo bem, Nessie.

— Ele o machucou muito? — inquiri. Por mais que estivesse vendo que o estrago não fora tão grande, queria ouvir de sua boca. Riley soltou uma risada de deboche.

— Acho que ele levou a pior. — brincou, e eu ri.

Sentei-me ao seu lado na maca, e mantínhamos uma conversa divertida entre eu, ele, mamãe e Amy.

Mamãe contava-me que o resto de nossa família, incluindo meu pai, estava lá em baixo assinando documentos e acertando os problemas que Filipe causou.

Fomos interrompidos por um pigarreio alto.

— Oi. — cumprimentei sorrindo abertamente ao ver Jacob parado na porta.

— Olá. — respondeu no mesmo tom amigável.

Levantei-me da cama e fui a sua direção. Mamãe e Riley fingiram não se importar, mas sabia que depois essa minha “felicidade instantânea”, ao ver Jacob, repercutiria comentários naquela casa.

— Como você está se sentindo? — ele perguntou demonstrando certa preocupação. Suas mãos estavam infiltradas no bolso de seu jaleco branco, e seu corpo alto e forte descansava na porta.

Observei seu rosto por alguns minutos: era lindo. Mais uma vez, era tudo o que eu conseguia pensar.

Suspirei longamente.

— Física ou emocionalmente? — perguntei, tirando sarro, e ele sorriu dando de ombros. Um sorriso abrasador, tenho de confessar. — Fisicamente cansada e emocionalmente destruída.

— Bom, sobre o aspecto físico, alguns dias de repouso e relaxamento com sua família lhe farão bem. Você precisa disso, passou bastante tempo distante. Receita de médico. — brincou, lançando-me uma piscadela que me fez corar em seguida. — Já emocionalmente... Eu não sei o que ocorreu exatamente entre você e aquele cara. Pelos pontos que eu pude interligar, era algo voltado à traição, mas isso não faz diferença. — deu de ombros, e eu sorri fracamente. — Mas, vai por mim, ele é o maior imbecil que eu já tive a oportunidade de conhecer. Você está melhor sem ele. Dê tempo ao tempo. As coisas geralmente melhoram assim. E quem sabe não aparece alguém que realmente a mereça e a faça feliz? — eu retribuí as suas palavras com um sorriso sincero. — Desculpe se estou me intrometendo demais, é só que não suporto ver meus pacientes sofrerem, independente de ser física ou emocionalmente. — gozou mais uma vez, e eu soltei uma risadinha. — Você tem um sorriso lindo. Deveria usá-lo mais vezes. Só uma dica. — comentou dando de ombros, e eu corei instantaneamente.

Sentia-me uma adolescente de novo, com todas aquelas reações ao deparar-se com um cara bonito. Por Deus Renesmee, você tem vinte e dois anos!

— Pode deixar que irei anotá-la.

— Assim espero. — comentou, abrindo aquele sorriso ofuscante novamente. Precisava descobrir o nome da pasta de dente que ele usava, porque nunca vi dentes brilharem como estrelas. — Bom, se me der licença, irei me retirar. Tenho uma consulta com uma senhora que sofre de dores de cabeças insanas. Pelo menos, é isso que está escrito aqui. — fez uma careta enquanto mexia em sua prancheta, fazendo-me rir novamente.

Jacob virou-se para ir embora até que eu chamei-o novamente:

— Jacob!

— Sim? — questionou, arqueando a sobrancelha.

— Sei o quão desagradável podem ter sido as coisas para você hoje, mas, mesmo assim, você não saiu de lá nenhum minuto e agora veio até aqui, preocupado comigo. Obrigada... Por tudo. — agradeci; sorrindo com sinceridade, em sua direção. Jacob abriu um sorriso; e, como se fosse possível, fora mais lindo do que os últimos, o que fez minhas pernas virarem gelatinas. Agarrei-me à porta para não perder o equilíbrio.

— São os ossos do ofício. — falou, fazendo uma careta, e eu abri minha boca em um pequeno “o”, fingindo indignação. Logo, ele riu. — Apenas fiz aquilo que deveria ser feito.

— Médicos não devem se envolver em brigas pelos seus pacientes. Eles sempre usam a cabeça antes de fazer algo que possa ser prejudicial à sua vida. — comentei, arqueando as sobrancelhas.

— Não estava agindo como médico e nem usando minha cabeça. — ele comentou dando de ombros.

— Então o que você estava fazendo? Agindo insanamente? — perguntei divertida.

— Não, estava apenas usando o coração. — falou e, por fim, lançou-me um sorriso, sumindo logo em seguida no amplo corredor, deixando-me boquiaberta e, provavelmente, muito corada.

— Hum, hum... — pigarreou Riley atrás de mim, fazendo-me pular devido ao susto.

— Nossa, Riley! Assim você me mata de susto! — resmunguei, colocando a mão no peito teatralmente.

— Vem cá, quem é o médico gostosão com que você estava flertando? — inquiriu, arqueando as sobrancelhas.

— Gostosão? Pensei que seu tipo fossem loiras e não morenos — disse divertida, e ele deu-me um soquinho no ombro. Soltei uma risada. — Espere um minuto. Flertando? "Tá" louco, Riley? Ele é só o meu médico. Meu novo, simpático e extremamente atraente médico. Nossa relação é estritamente profissional. Médico–paciente. O.K.?

— Ah, para com isso, não é, Renesmee?! Você quer realmente que eu acredite que você não fica toda “animadinha” quando o vê? — enfatizou e bufou logo em seguida. — Conta outra, viu...

— Animadinha? — questionei rindo, ignorando totalmente o comentário de Riley.

— É, animadinha... Ou você prefere que eu administre outro tipo de vocabulário para você entender? Molhadinha, "tá" bom para você?

— RILEY! — repreendi incrédula, dando um tapa em sua cabeça. — Pare de falar asneiras, moleque, a mamãe está logo ali. — apontei na direção de minha mãe, que mantinha uma conversa descontraída com Amy. — E não tem nada a ver isso que você está pensando. Mas que ideia, garoto!

— Xi, "tá" na defensiva, Ness? — alfinetou. — Quando fica assim, é porque "tá" a fim.

— Riley, quer parar? Eu não estou a fim de ninguém, não estou interessada em ninguém e acho o cúmulo do absurdo você pensar que eu estava... "Animadinha" graças ao Jacob. — usei a mesma palavra que ele para amenizar a conotação. Era desconfortante, até mesmo brincar sobre esses assuntos com meu irmão mais novo. — Que coisa. Você acha mesmo que eu tenho fantasias sexuais com um cara que eu acabei de conhecer? — inquiri, franzindo o cenho, e ele riu.

— Vai saber, não é? Só queria entender o que estava rolando, conhecer melhor meu futuro cunhado e...

— Futuro cunhado, Riley? Era só o que me faltava! — revirei os olhos. — Preste bem atenção no que eu vou lhe dizer: você não tem nenhum futuro cunhado. Nem agora e nem tão cedo, entendeu? Eu acabei, literalmente acabei, de sair de um relacionamento conturbado e não vou me envolver em outro agora. Não quero nem imaginar as implicações que outro relacionamento traria para a minha vida nesse momento.

— O.K.. Entendi, maninha, relaxa. — ele falou levantando os braços em sinal de rendição. — Eu só estava sondando, sabe?

— Sei... — sibilei em um tom ameno. — Mas, vem cá, você realmente acha ele gostosão, Riley? — Perguntei, e ele respondeu-me com um sorriso safado.

— É, Ness, o cara não é fraco não. Mas, como você mesma disse, meu tipo são as loiras. — lançou-me uma piscadela. — Mas vou logo avisando: se você não pegar, eu pego.

Amostrei minha língua em sua direção, e ele saiu andando em direção ao quarto, permitindo-me vaguear em meus pensamentos, sozinha.

Se Riley não tivesse mencionado daquela maneira, eu não teria enxergado o que realmente estava acontecendo: todas aquelas sensações à flor da pele como se fosse uma adolescente novamente; o sorriso que sempre crescia em meu rosto quando ele aparecia; a felicidade que inundava meu coração ao estar na presença dele... Deus, isso era insano!

Eu havia acabado de conhecê-lo, e sentir todas essas coisas não era normal nem — muito menos — aceitável. Ainda mais, nesse momento.

Eu deveria estar arrasada, triste e sofrendo pelo desastre que Filipe causou em minha vida. Porém, por que não o estou? Por que a única imagem que preenche meus pensamentos é o sorriso estonteante do meu médico atencioso? E por que diabos eu estou reclamando disso?

A sensação de não me preocupar mais com Filipe era libertadora. A minha vontade era de pular, gritar, gargalhar, expôr ao mundo que ele estava errado — que, no momento em que ele saiu por aquela porta, eu estava apenas começando a ser feliz; que eu encontraria sim novos motivos para a vida, realmente, valer a pena e que ele nunca, nunca, nunca, conseguiria tirar a coisa mais importante de mim: a esperança.

Esperança de que dias melhores estariam por vir; esperança de que, daqui a algum tempo, essa história apenas viraria meras lembranças, guardadas no baú do esquecimento; esperança de que tudo voltaria a ser como antes; esperança de que eu poderia encontrar alguém que realmente amasse-me e fizesse-me feliz. Poderia dar uma chance a Jacob, quem sabe? Talvez desse certo, talvez não. Contudo, o que realmente importava era que eu ainda tinha uma vida inteira para tentar, para cometer erros novamente, para chorar, brincar, festejar, rir, sofrer... Ser feliz.

No fim, era realmente isso que importava. Não me preocuparia com as palavras ditas por Filipe, independentemente de elas serem verdadeiras ou não. Eu não o deixaria destruir a minha felicidade — não novamente.

Naquela hora, era o momento de esquecer o passado, engajar-me no presente e esperar que, no futuro, coisas melhores aconteceriam para mim.

Era, então, a hora de voltar a viver.

[...]

O arrulho das rolas, que repousavam despreocupadas sobre a janela entreaberta; os filetes de luz, que ultrapassavam a fina camada de vidro; a brisa amena que ricocheteava em meu rosto; o cheiro delicioso de rosas, madeira e terra molhada; os risinhos melodiosos das crianças...Toda aquela aura de paz e tranquilidade fazia-me um bem indescritível.

Mantinha meus olhos fechados, apenas apreciando aquela sensação gostosa e, extremamente, relaxante. Faltavam cinco minutos para o resoar daquele som — antes irritante e agora maravilhoso, pois denunciava que o que eu estava vivendo era real — do sinal da escola.

Havia voltado a trabalhar há três semanas. Logo após que saí do hospital, arrumei minhas coisas na minha casa, conversei com todos meus familiares preocupados e vim diretamente à escola conversar com a diretora.

Estava aflita e afobada em estado de ebulição, apenas ansiando — demasiadamente — a minha volta a esse ambiente terapêutico. Contudo, Estela, a diretora da escola, deu-me duas semanas de descanso. Ela queria que eu recuperasse-me totalmente para que assim, depois, pudesse ter contato com as crianças.

Fiquei abismada, quase em um estado colérico, mas, após um tempo refletindo, sua decisão fez todo o sentido para mim: ela estava, afinal, apenas sendo protetora. Ela não poderia expor as crianças a uma pessoa que esteve em coma por um ano, sem nem ao menos saber o estado mental em que se encontrava.

Graças a Deus, essas duas semanas passaram voando e, no primeiro dia de aula, quando voltei à minha antiga turma, a emoção preencheu todo o meu ser. Meus pequenos esperavam-me com cartazes de boas-vindas, presentes, cartas, desenhos; sem contar os inúmeros e deliciosos beijos com cheiro de bala e abraços apertados com bracinhos gorduchos.

Meus olhos marejaram instantaneamente ao ver como minha pequena turma havia mudado tanto em tão pouco tempo. Uns tinham cabelos mais longos, outros mais curtos e alguns aderiram a novos penteados também. Alguns haviam engordado um pouquinho, crescido uns cinco centímetros, mas o que me deixava boquiaberta eram suas feições: agora aparentando um pouco mais de maturidade — não era aquele rostinho extremamente redondo de bebê.

— Tia Rê, eu posso ir ao banheiro? — Eric, um garotinho loirinho com sardas nas bochechas e nariz e com olhos enormes e azuis celeste, pedia manhoso para mim. Abri um enorme sorriso em sua direção, pois ele era uma fofura. Meu coração sempre amolecia quando ele pedia-me alguma coisa com esse tom de voz, e acho que ele já tinha noção disso.

— Só mais cinco minutinhos, Eric. Não dá mesmo para aguentar? — inquiri, fazendo uma careta.

Ele rolou os olhos e levantou-se lentamente de sua cadeira, andando perfeitamente em direção da minha mesa. Para um menino na faixa de seus quatro, cinco anos, ele tinha uma postura de dar inveja em qualquer homem.

— Tia Rê, eu tomei muito suquinho de uva hoje. Não "tô" aguentando. Eu vou molhar minhas calças. — ele resmungou, sussurrando em meu ouvido e arrancando uma risadinha minha.

— Tudo bem. Vamos, vou levá-lo até o banheiro. — concordei, pegando em sua mão e caminhando até a porta. —Amber? — chamei a ruivinha sentada na primeira fileira de cadeiras.

— Sim? — respondeu sorridente. Era um sorriso lindo, aliás. Confessarei que, mesmo faltando um ou dois dentes, era de tirar o fôlego.

— Os olhe para mim, tudo bem? — pedi, piscando em sua direção, e ela assentiu sorrindo.

Amber era o tipo de garota que, desde pequena, já impunha respeito e tinha suprema autoridade. Ela era completamente acatada pela turma, e era por isso que, quando saía devido às "emergências" de algumas crianças, era a ela que recorria, pois a garotinha de cinco anos administrava melhor uma turma de vinte alunos do que uma estagiária.

Fechei a porta da sala, soltando a mão de Eric. Esse deu um risinho suspeito, deixando-me em alerta.

— O que foi?

— Você acreditou mesmo que eu estava apertado? — perguntou com uma cara sapeca.

— Eric, o que você está aprontando? — inquiri franzindo o cenho. Ele olhou mais uma vez em minha direção, lançando-me um sorriso malicioso. Sem que eu pudesse esboçar nenhuma reação, ele saiu correndo em disparada pelo corredor, em direção ao centro esportivo.

Como um garotinho consegue correr tão rápido?

Eu ainda estava parada e estática enquanto sua silhueta sumia fugazmente pelo corredor. Quando meus pés começaram a movimentar-se, tentei adquirir um ritmo tão rápido quanto o de Eric, mas aquilo era fisicamente impossível. Sentia-me o coiote em uma busca implacável atrás do papa-léguas.

Meu celular estava bipando, freneticamente, no bolso de minha calça, e, enquanto corria, permiti-me olhar para baixo, para pegá-lo.

Péssima ideia. Senti um baque forte e desconcertante em minha testa e acabei indo de encontro ao chão.

— Mas que merda é essa?! — gritei meio desnorteada, colocando a mão em minha cabeça, agora, extremamente dolorida.

— Me desculpe, mas... — ouvi uma voz arrepiante pedir enquanto saía da sala da diretoria.

Ah, então foi isso que me acertou: um idiota abrindo uma porta. Maravilhoso.

Já estava com impropérios prontos na ponta da língua, apenas esperando o momento exato para interrompê-lo, mas, então, o energúmeno abaixou-se e estendeu-me a mão. Foi nesse instante que meus olhos conectaram-se com os seus e um rebuliço iniciou-se em meu estômago, por ter noção de quem era o ser que me atacou há pouco.

— Ter um pouco mais de atenção não mata ninguém. — lançou-me um sorriso de lado e deu de ombros, ainda com suas mãos estendias.

Meus olhos estavam esbugalhados, e minha boca estava aberta em um enorme “o”. Em um surto de curiosidade, uma pergunta ascendia em minha mente: o que será que ele estava fazendo ali?


Notas finais
Bom, vamos aos avisos importantes, O.K? Primeiramente, queria avisar que a fic esta entrando numa fase mais calma.
Sem muitos "eventos paranormais".(Não que eles irão parar de existir, mas nesse momento, com menos frequência); até
por questão de estarmos na fase onde os nossos personagens favoritos estão começando a conviver e se aproximar. E posso
revelar algo a vocês: O relacionamento Jake x Nessie vai se desenrolar bem rápido ;); eles automaticamente sentiram essa
atração instantanea e, daí para um romance, é um pulo!
Agora outra coisa. Queria informar a vocês que a partir de hoje começarei a escolher O MELHOR REVIEW do capítulo.
E a pessoa que escrever o melhor review, terá uns certos privilégios na fic. Sempre antes de postar o próximo capítulo, eu estarei
confidênciando algo importante a pessoa que teve o melhor review no último; Algo como o tema que o próximo capítulo irá abordar+
Alguma frase marcante do personagem no capítulo + Trechos intrigantes do capítulo + Capa do capítulo + CHANCE DE TER SUA IDÉIA NO CAPÍTULO.
(É claro, se sua idéia estiver condizente com o desenrolar da fic, vou deixar isso bem claro desde já.); Mas é claro que temos umas
regras básicas. Não basta você escrever um "Gostei :)", e querer que seu review seja o melhor, né? Vocês tem que se esforçar um pouquinho.
Falar o que achou do capítulo, o que quer que aconteça, coisas sobre os personagens...Enfim! Certas coisas básicas! Então meninas, se preparem ai, pois
quem ganhar como melhor review, receberá uma MP com essas surpresas de SB, e saberam um pouco do que irá acontecer, antes de qualquer outro.
Mas é claro que, como sei que tem meninas que não tem tempo de entrar no nyah todos os dias, estarei dando um período de UMA SEMANA, para
escolher o melhor review, O.K? Para dar a mesma oportunidade a todas ;D
ANYWAY# Vamos ao último tópico que irei abordar. Eu só estarei totalmente livre dos estudos a partir do dia 22 ou 25 de novembro;
até lá, estarei tremendamente atolada em provas, mas assim que esse dia chegar, prometo que compensarei com capítulos grandes e regulares,O.K?
Mas se vocês fizerem um esforcinho, e me mandarem bastante reviews, eu faço o meu esforcinho e tento postar antes, pode ser?
Por que, poxa meninas, nem 1/3 das minhas leitoras dão as caras na fic. Por que isso? Tá ruim? SE A FANFIC ESTIVER RUIM, ME
AVISEM QUE EU PARO! Pois não faz sentido escrever se não estou agradando.
Não é do meu feitio fazer isso, mas o próximo capítulo de Sleeping Beauty só sai se tiver, no mínimo, 25 reviews!
(Que foi o número de reviews do último capítulo); e mesmo assim, nem metade das minhas leitoras estaram comentando.
Então eu peço mais uma vez, façam um esforcinho meninas! Eu sei que todo mundo tem a rotina corrida, eu mesma tenho imensamente,
mas sempre que posso arrumo um tempo para escrever a fic, para vir aqui postar, para responder TODOS OS REVIEWS! E agora,
mais esse negócio de escolher o melhor review e dar a vocês privilégios da fic. Me esforço sempre para dar o melhor a vocês, e
vocês bem que poderiam se esforçar um pouquinho e falar se estão gostando/odiando, né?
Enfim! Essa nota ficou enorme, mas eu precisava falar isso tudo!
Nos vemos no próximo e espero que vocês tenham gostado desse ;D
Me digam agora, mereço reviews e recomendações? *-*
Kisses and Hugs!