Sleeping Beauty
6 Peculiar
Notas iniciais
Oi Meninas! Bom dia ^-^' Como vocês estão?
Então, peço desculpas pelo atraso do capítulo,mas, tudo isso tem uma explicação, como sempre.
O Capítulo estava pronto há, mais ou menos, uma semana, mas só tive tempo de mandar para a Lê betar esses dias; contudo, minha beta diva master, esta muitíssimo ocupada com os próprios projetos e sua viajem de férias. So...Para não atrasar ainda mais as postagens, resolvi postar o capítulo sem betá-lo antes, mesmo.
Qualquer errinho básico ignorem. Terão vários, já vou logo avisando! ('K)
Quando a Letícia conseguir um tempo, ela virá aqui e arrumará tudinho. O.K?
Os outros assuntos pendentes, conversaremos lá em baixo.
Capítulo 6, é dedicado a:
*Lilith
*JuJu MellarkBlack
*MiihEvangelista
Obrigada pelas lindas recomendações meninas, amei mesmo!
Capítulo 6 – Peculiar
Seus braços fortes envolveram meu corpo, ajudando-me a levantar da queda causada pelo mesmo.
Ainda estava meio confusa com o que acontecera há pouco, devido ao desnorteio da pancada em minha, e a curiosidade consumia-me naquele momento, fazendo ressurgir a pergunta que, há minutos, habitara meus pensamentos: o que será que ele estava fazendo ali?
Um sorriso estonteante ocupou seu rosto, fazendo-me abandonar meus devaneios e declarar logo em seguida:
— Continua o mesmo bem humorado de sempre, não? — brinquei arrancando risos do belo homem a minha frente.
— Pois é, querida. E, pelo visto, você continua a mesma desastrada de sempre, não? — arqueou as sobrancelhas, e eu dei de ombros.
— Fazer o quê? Puxei a mamãe. — brinquei mais uma vez. — Mas agora me conta: o que um homem atarefado como você veio fazer numa humilde escola como a em que eu trabalho? — questionei mantendo a mesma aura de divertimento a nossa volta e iniciando o assunto que despertara minha curiosidade.
— Que tal pelo simples motivo de que vim visitar a minha sobrinha favorita, que eu não vejo faz séculos?
— É um bom motivo, Emm... — comentei sorrindo.
— Pra você, é “titio”, pirralha! — veio em minha direção, envolvendo meu pescoço com seus braços e bagunçando meus cabelos.
— Ai, Emmett, para! Assim parece que tenho cinco anos! — resmunguei, livrando-me de seu aperto e arrumando os fios rebeldes de meu cabelo.
Meu tio limitou a dar-me um sorriso.
— O quê? Vai me dizer que já fez seis e nem me convidou para a festa? — indagou boquiaberto, usando aquele tom brincalhão que se tornava único em seus lábios. Rolei os olhos e sorri em resposta.
— Haha, você é sempre engraçado assim, ou é só comigo? — questionei retoricamente, e ele deu de ombros.
— O fato de eu ter esse dom para a comédia fluindo em minhas veias é apenas mais uma de minhas muitas qualidades; não é nada direcionado exclusivamente a você. — fingiu falsa modéstia.
— Uau. — comentei sem dar muita confiança. — Mas me explica essa história direito! Se você veio até aqui para me ver, o que fazia na sala da diretora, Emmett Cullen? — perguntei franzindo o cenho e cruzando os braços sobre meu tronco, abordando um tema mais interessante do que as qualidades de Emmett Cullen.
— Bem... Você me pegou! Não vim aqui apenas para vê-la. Seu primo precisa estudar em algum lugar, e, como a escola mais próxima que temos da nossa nova casa é a em que você trabalha, sua tia Rosalie o matriculou aqui. Mas, como você sabe, a idade está chegando para sua tia. Acabou que ela esqueceu alguns papéis, fazendo o seu tio gostosão vir até aqui e entrar em ação, persuadindo a diretora a aumentar o prazo de matrícula. — lançou-me uma piscadela. — E, é claro, como nenhuma mulher resiste a meu charme “a la George Clooney”, Matt é o mais novo aluno deste colégio. — explicou sorrindo. Rolei os olhos pelo seu comentário, que demonstrava seu “ego inflado”.
— Você é tão bobo... — reclamei fazendo uma careta. — Mas isso é uma boa notícia. Talvez eu seja a professora de Matt! — comemorei sorrindo. — Ele está com quantos anos? Seis, sete?
— Ele tem a sua idade. Cinco. — enfatizou, e mostrei a língua em sua direção; ele sorriu em resposta. — Bom, o papo com a minha sobrinha mais linda está ótimo, mas eu já vou indo. Vou aproveitar minha folga e ajudar sua tia a organizar as coisas. Ela está um caos, perdida em meio às novas meninas contratadas para a nova loja de roupas que ela e Alice abriram no shopping. Você deveria ir lá ver. Daria uma maravilhosa cena de comédia: sua tia gritando com aquele bando de moscas mortas de saias enquanto as tais ficam mascando chiclete e dando mole para o primeiro otário que passa. Chega a dar pena. — confidenciou rindo de alguma de suas lembranças.
Senti um pequeno aperto no coração. Devia ser doloroso para tia Rosalie passar por isso. Ela era o tipo de mulher que nascera para mandar; não, para trabalhar. Podia parecer futilidade da parte dela, mas todo mundo acomoda-se de acordo com a criação que teve, e a da Rosalie foi cercada de mimos o tempo inteiro. Ela foi criada para dar ordens, esta era a verdade. Mesmo assim, isto não afetou, em nada, seu caráter. Ela continuava sendo uma pessoa do bem, porém, turrona na maioria das vezes.
O fato de ela estar envolvida em um novo tipo de trabalho e suas ordens não serem nem um pouco acatadas deveria estar deixando-a de cabelo em pé.
Mas eu tinha certeza que não era só isso que a afligia. Desde que ela e tio Emmett voltaram a viver pelas redondezas de Forks, segundo minha mãe, Emmett vivia fazendo viagem a negócios para a Europa, pois era o local da sede de sua empresa. Assim, Rose passava dias a fio, sozinha, com as crianças. Solidão era outra coisa que não era o forte de Rosalie — já que ela vivia cercada de pessoas agradando-a o tempo inteiro —, e tinha certeza de que isso era mais um dos motivos para deixá-la“descontrolada”.
E pensar que tudo isso era minha culpa...
Se eu não tivesse entrado naquela maldita floresta, no dia do meu casamento desastroso; tia Rosalie e tio Emmett nunca precisariam abandonar sua vida de luxo na Europa — e mudar-se para um vilarejo perto de Forks — apenas para acompanhar o lento progresso do meu caso.
Sempre soube que eles nutriam um carinho especial por mim. Desde pequena, tio Emmett tratava-me como se fosse sua própria filha. Tia Alice também sempre foi muito amorosa, porém. Logo, não tinha do que reclamar dos irmãos de meu pai. Entretanto sabia que, no fundo, Emmett era o que mais me considerava. Todavia, após essa grande demonstração da tamanha consideração que eles tinham por mim — que foi capaz de fazê-los abandonar suas vidas e mudar-se para outro continente —, eu pude notar a dimensão deste sentimento.
— Ah, coitada da tia Rose! Quando as crianças me derem uma folga, passarei lá para dar uma forcinha também. — finalmente pronunciei-me, abandonando meus pensamentos, a fim de que Emmett não notasse minha perturbação. — Ela realmente deve estar surtando.
— Pois é. Rosalie não está acostumada a esse tipo de coisa. Nas lojas que ela havia aberto na França, ela apenas dava ordens pelo telefone. Afinal, nós tínhamos os gerentes que administravam toda a confusão, coisa que ainda não conseguimos por aqui. Não havia esse conflito direto, corpo a corpo, e acho que essa mudança de ambiente a desestabilizou um pouco. Você sabe como Rosalie gosta de mandar, e vou lhe confessar que essas meninas não dão a mínima para o que ela fala. — aclarou fazendo uma careta. — E some o fator “Alice” a tudo isso, que você terá a equação perfeita de como a sua Tia está prestes a perder a cabeça. — fez algumas caretas, e eu soltei uma gargalhada entendendo perfeitamente sua alusão.
— Oh meu Deus! Tia Alice e tia Rosalie trabalhando no mesmo ambiente? Pensei que tia Aly ajudaria apenas com o planejamento das grifes; não, com na administração.
— É, mas Alice está “ajudando” na administração também. — ironizou fazendo-me rir.
— Aquelas meninas que me aguardem, pois, a qualquer momento, a casa cai. Ou, nesse caso, seria a loja? — inquiri sorrindo, e Emmett sorriu de volta.
— Essas duas juntas é um perigo. Acho melhor eu ir logo pra lá, antes que eu receba uma ligação da polícia para pagar a fiança da Rosalie por ter espancando as meninas e a Alice. — tio Emmett brincou, e eu sorri em sua direção.
— O.K., vai lá, grandão. — Acenei usando o apelido que lhe havia dado, enquanto ele andava em direção à saída.
— Ah, Nessie, quase me esqueci. — falou virando-se em minha direção novamente. — Sua avó pediu para que almoçasse com ela no domingo. A família toda estará lá; então, é melhor que não falte. — comentou com um olhar acusador, e eu apenas assenti acanhada.
— Pode deixar, estarei lá.
— Espero que sim. Estamos de olho em você, monstrinha. — foi sua vez de usar meu apelido, roubando-me um sorriso tímido, enquanto eu assistia sua bela silhueta deslizando com passos sinuosos até o fim do corredor.
Soltei um longo suspiro assim que sua imagem sumiu de minha vista. De domingo, não passava.
Desde que acordei, tinha evitado passar um longo período com minha família. É claro, não deixei de visitá-los, isto seria uma falta de consideração absurda, mas nada que passasse de períodos de meia hora ou menos. Sempre que eles tocavam naquele assunto delicado, arrumava diversas desculpas para retirar-me. Por exemplo, o fato de eu ter de preparar trabalhos para as crianças ou de estar com uma dor de cabeça extremamente forte — o que Jacob falara que era normal, já que passei um longo período em coma.
Porém, sempre fomos extremamente unidos e honestos uns com os outros, e isto incluía assuntos variados, que iam desde “como foi seu dia?” até “estou traindo meu atual namorado”. Não nos enganávamos, muito menos omitíamo-nos fatos. Se havia algo que me incomodava, recorria a meus tios, meus irmãos, meus pais, até mesmo meus avós, como um refúgio e um ombro amigo para desabafar.
Não serei hipócrita: nem sempre fomos essa família perfeita, unida e amiga. Se, algum dia, eu dissesse isso, seria uma mentira sem tamanho. Tínhamos diversas brigas, desentendimentos, períodos em que ignorávamos uns aos outros por não compreender que cada um tem sua opinião referente a algo; entretanto, tenho orgulho em dizer que, com o tempo, criáramos vínculos mais fortes, de lealdade e amizade, e éramos o que éramos naquele tempo, graças às adversidades que passáramos no passado.
Contudo, desde que acordei, tentava manter-me afastada de toda essa aura de complacência e compreensão. Eu sabia que, no momento em que parasse e conversasse sobre tudo o que realmente aconteceu comigo antes desse meu suposto “coma”, independente de quem seria a pessoa, descobriria que eu escondia algo no segundo em que eu abrisse meus lábios. E isto estava destruindo-me.
Eu travava uma luta interna entre contar o que realmente aconteceu para alguém ou simplesmente ignorar a tudo e a todos e seguir minha vida como se nada tivesse acontecido.
Mas, no fundo, eu sabia que as coisas não seriam tão fáceis daqui para frente. O que eu passei — do modo que eu passei — era algo transmutável e inesquecível que eu nunca poderia esquecer até obter uma clara explicação do que estava, realmente, acontecendo.
Tentei negar, desde o momento em que acordei, o fato de que algo estava aturdindo-me. Porém, isto era algo claramente impossível. Minha vontade de esquecer e voltar a minha vida era grande, e a escola tinha-me ajudado a esquecer um pouco a má fase que passara, mas a vontade de desvendar esse terrível mistério que me cercava era ainda maior.
Um milhão de perguntas, sem as devidas respostas, ecoavam em minha mente, mas eu poderia listar três que vinham assombrando-me com mais frequência.
Quem, afinal, era aquela senhora na floresta? Por que ela escolheu-me para injetar aquele líquido, que me causou tamanho transtorno? E por que diabos eu andava sonhando tanto com um lobo?
Arfei com a última pergunta que, juntamente com as inúmeras lembranças dos sonhos, estava acesa em minha mente.
Aquilo era surreal, terrível e – apavorantemente – surreal.
Ultimamente, como se não fosse o bastante toda a confusão, conflitos internos e a tentativa de reerguer-me das cinzas; um lobo vinha habitando meus sonhos.
E o que me deixava intrigada não era o fato de eu estar sonhando com um lobo qualquer, mas sim de que aqueles sonhos definitivamente não eram comuns. Não eram imagens distorcidas, aleatórias, sem sentido, e todas as típicas passagens de cenário com que eu estava familiarizada em meus sonhos. O que me deixava abobada com os sonhos era que eles pareciam algum tipo de lembrança. Pareciam ser uma lembrança fria, antiga e esmaecida de um passado que eu nunca cheguei a vivenciar.
Em todos os sonhos, era sempre o mesmo cenário. Sempre, era como se eu estivesse observando de cima, tendo uma visão panorâmica de tudo.
Havia uma garota, aparentemente essa era eu, que estava sentada em uma ampla campina, folheando páginas de um livro antigo, enquanto a brisa de prelúdio à primavera ricocheteava em seu rosto.
Ela usava um vestido rodado em uma tonalidade salmão, puxado para o bege, tão cheio de panos e rendas, que poderia ser confundido com um bolo. Definitivamente, não era algo “usável” na época em que vivíamos, no século vinte e um.
Era neste momento que ela — ou eu— fechava os olhos e inspirava profundamente o aroma doce das flores a sua volta. E, então, abria-os lentamente como se já esperasse por algo, como se sentisse que algo estava prestes a acontecer; logo, ele surgia.
Em meio à escuridão da floresta, a imagem de um enorme lobo – com uma pelugem brilhante, em um tom castanho avermelhado – surgia tímida dentre as densas folhagens esverdeadas.
O olhar da garota conectou-se instantaneamente com o do lobo no momento em que ele preenchera seu campo de visão. E, com os olhos negros mais profundos que eu havia visto em toda a minha vida, ele mantinha-a conectada a ele como se possuísse algum tipo de feitiço.
Um arrepio percorreu a minha espinha apenas por recordar-me de seu olhar penetrante. Aquilo era terrivelmente assustador, entretanto, por mais sinistro que parecesse, um pouco atraente.
O meu eu do sonho — não gostava de assumir que aquela garota era realmente eu — abria um sorriso estonteante assim que aquele lobo de proporções gigantescas misturava-se com a paisagem natural, aproximando-se cada vez mais dela.
Num ímpeto de ansiedade, a garota levantou-se da relva e começou a caminhar animadamente em direção ao lobo que, com a mesma ansiedade, corria em sua direção.
Ao, finalmente, encontrarem-se, a jovem repousou a cabeça na extensa curva do pescoço do lobo avermelhado. O mesmo cheirava o longo cabelo da garota do sonho. Aquilo era alguma forma de carinho que o lobo transmitia-lhe. Era um afago recheado de sentimentos. Sentimentos estes que estavam fora de um patamar animal.
Sempre fui amante da natureza e tudo o que a envolve — consequentemente dos animais. Acreditava realmente no potencial deles, naquela velha história: “os bichos sentem. Eles percebem quando estamos alegres ou tristes. Eles têm sentimentos quase tão profundos quantos os nossos”.
Porém, ao olhar aquele ato, entre aquele lobo gigante e a garota do sonho, pela primeira vez, senti que ela era realmente eu. Não porque aquela demonstração de carinho entre ela e o lobo fosse algo que eu realmente viesse a fazer; mas sim porque eu senti o que eles sentiram naquele momento.
Meus olhos estavam fechados enquanto apreciava as sensações estranhas e diferentes que me acometiam naquele momento. Então, ao abri-los novamente, percebi que parei de observar tudo de cima.
Em um passe de mágica, eu assumia o lugar dela. Eu estava em seu corpo e era eu quem mantinha meus braços em volta do pescoço do lobo. Ele, com seu afago, transmitia um misto de devoção e adoração, mas, acima de tudo, amor; e, nunca, em toda a minha vida, pude notar um animal demonstrar os sentimentos com tanta clareza como aquele lobo.
E era neste momento que eu elevava meus olhos e encontrava diretamente os seus. O ar havia escapado de meus pulmões; uma sensação pavorosa instalava-se em meu peito enquanto sentia minhas pernas vacilarem.
Aquele olhar...
Eu conhecia-o, mas, por algum motivo, não conseguia lembrar-me de quem era. Parecia que algo estava impedindo-me de realmente enxergar o que estava ali, na minha frente.
Estava boquiaberta, fascinada com o que via, e ainda tentava repuxar de minha memória a quem pertenciam aqueles lindos olhos. Então, eu acordava.
Aquele sonho vinha frustrando-me por várias semanas. Era azucrinante a maneira como eu lembrava-me perfeitamente dele; todavia, simplesmente, ao acordar, perdia toda a capacidade de, sequer, tentar notar a pessoa a quem pertencia aqueles olhos. Era como se houvesse um bloqueio.
Sabia que era alguém próximo a mim; disso eu tinha quase certeza. Mas, então, quem seria?
Balancei a cabeça negativamente na tentativa de abandonar aqueles pensamentos, que me vinham perturbando nos últimos tempos.
Olhei a minha volta e percebi que ainda estava no corredor, e acabei me lembrando do meu propósito ali. Perdi tempo demais em minhas divagações e esqueci-me de algo mais importante que deveria ser feito: procurar Eric!
Corri pelo corredor em direção à saída que ele havia tomado. Sabia que aquela porta daria ao outro lado do colégio.
Era um campo aberto; onde, rotineiramente, o time de futebol da escola treinava juntamente com a banda e as líderes de torcida. Ou seja, era uma tremenda bagunça!
E aquele não era o lugar ideal para uma criança de cinco anos. Por isso, um pavor começou a estender-se por meu peito.
Deus, se algo acontecesse a Eric, eu seria crucificada!
Comecei a correr desesperadamente em direção ao campo, onde os garotos do time treinavam. Meus olhos varriam todo o local, de uma maneira compulsiva à procura do pequeno garotinho com rostinho angelical, porém com personalidade satânica.
Soltei o ar, que, há poucos minutos, encontrava-se encarcerado em meus pulmões, assim que a imagem de um Eric totalmente animado e alienado com o treino do time invadiu meu campo de visão.
Ao mesmo tempo em que estava aliviada e feliz por vê-lo bem, o nervosismo que ele me fez passar deixara-me irritada. Se algo realmente grave acontecesse àquele garoto; eu, provavelmente, seria afastada do meu cargo de professora — cargo esse que, como dissera antes, estava fazendo-me um bem tremendo.
O pior seria o que seus pais iam pensar de mim, uma mulher de vinte e dois anos que não consegue dar conta de um garoto de cinco. Ou o que pensariam sobre a escola, que foi capaz de contratar uma pessoa nada qualificada para exercer função de tamanha responsabilidade. Estela provavelmente matar-me-ia.
Corri, por conseguinte, furiosa em sua direção.
— Eric! — gritei, chamando sua atenção para mim, que, no momento em que me viu, adquiriu uma expressão de pânico e sobressalto em seu rosto. Poderia ler os seus pensamentos se quisessem e apostaria que ele estava pensando algo como “oh, não! fui descoberto”.
“Sim querido, você foi descoberto!”, acrescentei mentalmente.
Enquanto eu aproximava-me, como um animal que acabou de avistar sua presa, o pequeno garotinho, provavelmente já esperando por uma enorme bronca, levantou da arquibancada. Recheada pelo pânico, observei-o correr em direção à entrada da floresta, que se localizava atrás do campo de treinamento do time.
Ah, não!
— ERIC! — gritei lançando um olhar furioso em sua direção. — Nem pense nisso!
Assim como, há minutos atrás, na sala, ele soltou aquela risadinha sapeca, fê-lo e embrenhou-se em meio aos arbustos verde-musgo.
— Ai, seu pestinha... — murmurei irritada, indo a sua direção.
Tentava locomover-me em meio àquela multidão de adolescentes empolgados, pedindo a Deus que nenhum deles esbarrasse em mim. Isso porque, da maneira que meu estado de nervos encontrava-se, era possível eu cometer um assassinato ali mesmo.
— Dá licença. — pedi educadamente, porém, ao mesmo tempo, autoritária.
A grande quantidade de meninas — deduzi que eram líderes de torcida, graças ao uniforme — dispersou-se e abriu passagem para mim. Logo em seguida, os poucos rastros que ainda havia de Eric ali eram seus risinhos, que ficavam cada vez mais longínquos, indicando que ele distanciava-se mais e mais.
Eu permanecia, porém, parada em frente à entrada da floresta enquanto aquele pavor incendiava-me novamente.
“Meu Deus, se eu perder esse garoto ou se algo acontecer a ele, me sentirei culpada pelo resto da vida”.
Sem pensar duas vezes, adentrei naquele local que antes era meu refúgio e que, naquele momento, só me trazia recordações sinistras e sombrias.
Afastava as folhagens e os galhos dos arbustos que insistiam em bater em meu rosto, enquanto eu caminhava mais adentro da floresta.
O único som que se ouvia naquele local era o atrito entre a sola da minha bota com as folhas secas misturadas com o chão de terra. Além disso, podia-se notar minha respiração alterada e os batimentos irregulares do meu coração.
Estava nervosa — diria que quase apavorada — por estar em uma floresta de novo. Ainda não estava preparada para isso.
Cheguei a uma minúscula clareira e olhei a minha volta à procura do menino.
— Eric! — chamei aflita. — Eric! — gritei mais uma vez e obtive a mesma resposta: nada. Por conseguinte, comecei a agitar-me novamente. Onde esse garoto metera-se?
Lancei um olhar cuidadoso em um giro de trezentos e sessenta graus; varrendo, com os olhos, todo o perímetro em que me encontrava. Ele tinha de estar por ali.
—Eric! — chamei de novo. — Por favor, querido, apareça! — pedi tentando permanecer gentil.
Notei uma pequena movimentação com o canto dos olhos e virei-me abruptamente na direção da origem deste som.
Um vulto passou correndo entre as árvores, fazendo-me sentir uma pequena pontada no meu coração. Talvez por ansiedade, visando a que fosse Eric; ou talvez por medo de não ser Eric.
— Eric? — chamei aproximando-me mais daquele local. Senti um ar frio bater em meu pescoço; e, automaticamente, meus pelos arrepiaram-se da cabeça aos pés.
Virei-me rapidamente para trás, e lá estava ele de novo.
O vulto preto, que sumia, de maneira fugaz, entre as árvores. Aquilo já estava assustando-me.
— Tá legal, Eric, acabou a brincadeira! Apareça logo. — pedi perdendo a paciência, contudo uma relevante centelha de medo tomou a minha voz.
Ouvi passos a minha direita e virei naquela direção. O vulto corria novamente; naquele momento, cada vez mais perto.
Meu coração parecia um pássaro tentando fugir da caixa torácica. Minhas pernas sofriam leves espasmos, fazendo meu corpo tremer levemente, graças à adrenalina que fluía solta por minhas veias. Prendi a respiração quando meu encontro sinistro com aquela senhora invadiu minha mente propositalmente, como se eu mesma quisesse sabotar-me naquele momento.
— Tu- tudo bem... — balbuciei sentido a vertigem me atingir. Não, Nessie, você é mais forte do que isso, você consegue.
Tentava manter meu autocontrole quando, mais uma vez, senti um ar gélido bater de encontro a meu pescoço e ouvi uma risada ecoar pelo local.
Não era a de Eric. E, dessa vez, não me permiti olhar para trás.
Fechei os olhos fortemente como quando nós queremos espantar um pesadelo de nossa mente e, em seguida, cravei minhas unhas na palma das minhas mãos, tentando manter-me firme, mesmo que a tremedeira em minhas pernas dificultasse todo esse processo.
— Renesmee... Abra seus olhos! Você não consegue ver? As respostas para suas perguntas estão tão perto... — ouvi uma voz ecoar pela clareira.
— Isso não é real... — sussurrava, com voz de choro, a mim mesma. Estava apavorada, literalmente entrando em pânico.
A estranhabrisa fria voltou a bater em meu pescoço, trazendo à tona aquele medo absurdo que estava trancafiado em meu peito da mesma forma que ocorreu na floresta há um ano.
As lágrimas já caíam por meu rosto; e, por fim, decidi abrir meus olhos na tentativa de acabar de uma vez por todas com aquele martírio. Enfrentar meus medos, era isso que eu deveria fazer.
Para minha surpresa, não havia absolutamente nada ali.
Seria tudo aquilo invenção da minha mente?
Busquei o ar e soltei-o de uma maneira lenta. Aquilo era um ato terapêutico como respirar em um saco de papel.
Virei meu corpo, devagar, para recuperar o equilíbrio que eu, fatalmente, havia perdido há minutos atrás.
— AH! — gritei apavorada, assim que a imagem de Eric surgiu em minha frente. — Meu Deus, Eric! — reclamei com os olhos saltando das órbitas e elevando a mão ao peito, tentando acalmar meu coração.
— Desculpe, tia Rê... — ele pediu.
— Tudo bem, tudo bem. Venha aqui! — chamei e abaixei até ficar de sua altura, abraçando-o fortemente. De alguma forma, a presença de Eric ali, fez-me sentir mais protegida e não completamente sozinha. Poderia parecer insano sentir-se protegida por uma criança de cinco anos, mas o fato era que eu estava desesperada.
Soltei um longo suspiro.
— Você está bem? — indaguei, tirando alguns fios loiros que caíam em seu rostinho.
— Sim, tia Rê. Desculpe-me por mentir para você. É que eu queria muito assistir ao treino do Daniel, meu irmão mais velho, e eu sabia que você não iria deixar. — ele falava com aquela voz de criança que está prestes a “abrir o berreiro”. — E me desculpe por fugir para a floresta; é que eu fiquei com medo de que você brigasse comigo. — fez um pequeno biquinho para completar o seu pedido de desculpas.
— Está tudo bem, O.K.? Mas, da próxima vez, me avise. Quem sabe nós dois não poderíamos ter assistido juntos ao treino do Daniel? — questionei sorrindo, e ele abriu um sorrisinho em minha direção.
— Da próxima vez, eu não irei mentir. Prometo, tia Rê.
— Ótimo, agora que tal irmos para a sala? — perguntei, e o menino abriu aquele sorriso sapeca em minha direção.
[...]
Até que ponto a mente de um ser humano pode ir?
Essa era a pergunta que ecoava em minha mente juntamente com o fato assombroso que ocorrera minutos atrás. Porém, distraí-me de meus pensamentos quando comecei a observar o pequeno John, um de meus alunos, batucar com o giz de cera incessantemente na mesa.
Ele era o único que havia sobrado na sala. As outras crianças já haviam ido a suas respectivas casas — inclusive Eric, a quem, aos pais, tive de contar a história de sua “pequena fuga” de uma maneira totalmente descontraída e não apavorante como havia sido realmente — já que o sinal bateu há exatamente uma hora atrás.
John estava inquieto; provavelmente, chateado pelo atraso de sua mãe.
— Hey, John, quer brincar de alguma coisa? — perguntei divertida tentando mantê-lo distraído.
Ele apenas elevou seu olhar cansado em minha direção e respondeu:
— Não, obrigado. Meu tio já deve estar chegando.
Ele deveria ter chegado há uma hora, pensei.
— Hum... — comentei. Na realidade, foi mais um som do que um comentário. — É seu tio que virá te buscar hoje, é? — questionei sorrindo. Não gostava de ver John com aquela expressão triste; normalmente, ele era um garotinho com uma energia tão contagiante.
John parecia um indiozinho com seus cabelos negros e lisos, com um corte desgrenhado, sua pele morena avermelhada, dois olhinhos pretos brilhantes. Sempre sorrindo e com histórias para contar, não havia uma pessoa que não se apaixonasse por ele assim que abrisse a boca.
— Era, mas nem sei mais se ele virá. — falou em um muxoxo. — Está demorando tanto... Eu sei que o trabalho dele é importante, mas eu também sou.
Levantei-me da minha cadeira e fui até o pequeno.
— Eu sei que você é. Seu tio sabe que você é e, com certeza, te acha muito mais importante do que o trabalho dele. Vai por mim. Talvez tenha acontecido alguma coisa no caminho, eu não sei; talvez, algum imprevisto. Mas, já, já, ele estará aqui com você! — tranquilizei-o e depositei um beijo em sua cabeça. — Mas, enquanto ele não chega, que tal eu e você desenharmos um pouco? — perguntei cutucando sua barriguinha, e ele assentiu sorrindo.
Peguei algumas tintas e duas folhas brancas, sentei-me ao lado de John, e, enquanto desenhávamos, ele explicava-me, minuciosamente o que era cada coisa no seu desenho.
— Este é um foguete, e ele está indo para o planeta céu. — explicou apontando para um rabisco azul, e eu sorri.
A imaginação das crianças fascinava-me.
— Ah, muito bom! — comentei. — E o que esta formiga está fazendo dentro do foguete? — questionei arqueando as sobrancelhas e apontando para um rabisco marrom dentro do “foguete”.
John fechou a cara; e, na hora, percebi que tinha feito algo errado.
— O que foi?
— Não é uma formiga, é o meu tio! — respondeu carrancudo, e eu tive de conter a minha vontade de rir.
— Oh, me desculpe! É que a tia Rê está precisando usar óculos. — pedi fazendo uma careta, e ele observava-me com um olhar avaliativo como se tentasse descobri se o que dissera era realmente verdade. — Mas, então... — comecei mudando de assunto estrategicamente. — O que seu tio faz nesse foguete?
— Ele está indo visitar o vovô que mora no planeta céu. Mamãe me falou que o meu tio sente muita falta dele. O planeta céu é muito longe, e meu tio não tem tempo de ir até lá, ele trabalha muito. Então só se ele tivesse um foguete que ele poderia ver o vovô de novo. — explicou distraído acrescentando alguns detalhes no desenho.
— Ah... — foi tudo o que consegui formular para dizer. Não entendi muito bem, mas, como em toda explicação infantil, aquela tinha algum sentido oculto que habitava apenas em sua mente. Seu avô havia morrido? — Mas por que não está no foguete para visitar o vovô também? — perguntei querendo saber mais um pouco.
— Porque eu não preciso. Falo com ele todos os dias. — comentou dando de ombros, e eu franzi o cenho confusa.
Não sei se foi a forma como ele contou a história ou se o seu comentário final ajudou no meu entendimento; contudo, no fundo, eu, desde aquele momento, senti que havia algo peculiar naquela história. Era como se algo — talvez minha consciência — avisasse-me de que essa não seria a última vez que aquele assunto estaria em pauta. Assunto este que eu, ao menos, sabia qual era, mas que despertara minha curiosidade instantaneamente.
Se, hipoteticamente, seu avô havia morrido como ele falava com ele?
Quando ia fazer-lhe mais uma pergunta, para entender a situação, ouvi uma voz ecoar pela sala que fez meu coração parar.
— John?
O menino virou na direção da porta, que ficava atrás de mim.
— Tio! — gritou animado exibindo seu sorriso banguela e levantou-se rapidamente da cadeira indo em direção ao seu tão estimado tio. — Por que você demorou tanto? — indagou.
— Desculpe pelo atraso, amigão, mas é que tive um pequeno imprevisto no hospital... — ele falou, e eu parei instantaneamente.
Ainda não me havia virado para cumprimentá-lo, pois catava as tintas que eu e John tínhamos espalhado sobre a mesa.
Todavia, ao ouvir a palavra “hospital”,tudo ficou claro em minha mente.
Aquela voz...
— Jacob? — questionei finalmente virando-me, dando de cara com uma cena que fez um sorriso gigantesco formar-se em meu rosto.
Notas finais
Mas o Jake não aparecer no inicio era necessário. Ficaria muito clichê, sabe? E sairia do rumo da fic totalmente.
But, anyway! Eu sei que vocês devem estar pensando também, sobre aquele assunto do melhor review. Eu decidi, deixar para iniciar com o melhor review neste capítulo. Por que não teria como mandar um pedaço do capítulo 6 para vocês, sem que vocês descobrissem dos segredos do capítulo e, ai, quando fossem lê-lo todo, não teria mais graça.
Então, começaremos com o melhor review neste capítulo, O.K?
Então já sabem, né? Caprichem, assim como fizeram no último, e terão alguns "privilégios"!
No último capítulo tivemos 38 reviews! Fiquei maravilhosamente feliz, mas, ainda tem muitas leitoras não comentando. Então, vamos tentar chegar aos 40? Que tal?
Prometo que, se chegarmos a esta meta, postarei o capítulo o mais rápido que puder!
Enfim. Mil beijos e estou esperando os reviews. E RECOMENDAÇÕES!
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