Sky
14 As surpresas dos armários e o jogo de xadrez.
Notas iniciais
Listava mentalmente uma série de assuntos que poderia conversar com a garota, o silêncio dentro do carro era quase sufocante. Tentava manter a atenção no trânsito, mas era inevitável olhar vez ou outra para a passageira que mantinha o semblante fechado, ela com certeza não queria trocar nem meia dúzia de palavras. Krystal era sempre indiferente, carregada de palavras ácidas, e até mesmo severa com a maioria das pessoas. Se aproximar dela era quase um ataque terrorista contra si mesmo e uma tarefa nada fácil. Acabou ligando o rádio para tentar amenizar o clima pesado, mas no mesmo instante a garota desligou o aparelho.
– Não gosta da música? – Perguntou tentando iniciar conversa.
Krystal não respondeu.
– Sabe, eu estou sendo cavalheiro o bastante para te dar uma carona. – Começou incerto, afinal poderia irritá-la. – Então eu gostaria que conversasse um pouco comigo. – Pediu enquanto parava no sinal vermelho.
– Você tem alguma espécie de carência enquanto dirige? – Indagou, cruzando os braços e se virando para o motorista míope. – Pelo que eu saiba não é recomendado ficar conversando enquanto dirige, preste atenção no trânsito.
ShinWoo bufou, quase se esquecendo do sinal que agora estava verde indicando que ele poderia avançar. Depois de deixar Sandeul e GongChan em segurança na casa do colega de trabalho, fez questão de também dar uma carona para Krystal, não era um gesto totalmente solidário – porque queria se aproximar dela –, mas a garota poderia ser no mínimo simpática. Estavam há dez minutos em total silêncio, com ela tentando manter a situação e ele lutando para não ser ridículo ao ponto de perguntar qual era o gênero musical favorito dela.
– Se não gostou da música, do que gosta então? – Certo, ele precisava achar algo em comum com ela.
– Eu gosto de quem não faz perguntas tão clichês! – Disparou. – Só falta perguntar qual é meu filme favorito e qual série estou acompanhando.
– Não me importo de você disser. – ShinWoo disse rindo, o mau humor da garota chegava a ser engraçado.
– Eu gosto daquele filme em que um míope é assassinado por uma jovem muito bonita, ela cansada dele falar tanto, resolve matá-lo para se livrar do problema. – Respondeu irônica.
– Ah, eu gosto desse também. – Concordou, dando uma piscada que fez Krystal se remexer no banco. – Principalmente a parte da “jovem muito bonita”.
A garota controlou a vontade de dar um soco na face risonha do mais velho, só aceitara a carona porque não queria ligar e incomodar seus pais, que reclamariam e mais uma vez listariam o quanto ela era diferente da irmã, sendo irresponsável o suficiente para não conseguir voltar para casa. Ela só queria ficar em silêncio até que chegassem, ainda estava preocupada com GongChan e os últimos acontecimentos da festa, e também ShinWoo era amigo do bando de idiotas do colégio, não queria se aproximar dele de maneira nenhuma.
Porém, ShinWoo era insistente e voltou a ligar o rádio. Dessa vez a música lhe agradava, era de sua banda favorita e foi inevitável começar a cantar baixinho, os lábios se mexiam minimamente só para seguir o ritmo da música. Em questão de segundos o garoto começou a cantar também, só que mais alto para ser notado, e para sua surpresa ele cantava bem. O ambiente mudou completamente, Krystal se soltou e de repente eles se viam em um dueto harmonioso, um desafiando o outro a cantar mais alto e ainda sim seguir o ritmo ditado pela bateria do instrumental.
“Everybody say La La La…
Everybody say Ha Ha Ha…
Everybody say Ta Ta Ta…
Everybody say Hello hello hello!”
– Hm, então gosta de F.T Island? – ShinWoo indagou quando outra canção começava a tocar na estação de rádio.
– É minha banda favorita. – Krystal acabou respondendo, seria idiota negar após cantar sem errar a letra. – Achei que você só ouvisse música clássica. – Comentou com desdém.
– Eu não sou o tipo de nerd que imagina. – Disse, feliz por manter um diálogo com a garota. – E você não é o tipo de menina má que eu imaginava...
Krystal acabou rindo e ela ficava mais bonita assim.
– Achou que eu fosse gótica? – Perguntou, vendo ShinWoo assentir. – Já ouvi o que falam de mim, tem boatos de que eu sacrifico animais no cemitério.
– E você sacrifica? – ShinWoo perguntou só para provocar, sabia que Krystal não seria capaz de fazer algo envolvendo magia negra.
– Claro que não! – Riu, dando um tapinha no braço que ShinWoo mantinha no volante. – Mas eu acho engraçado o quanto aqueles alunos inventam, são uns idiotas que acreditam em qualquer coisa. – Revelou. – Nove entre dez alunos são uns retardados naquele lugar.
Depois do que presenciou na festa, Krystal julgava ainda mais os alunos e principalmente o grupinho de populares. Se pudesse acabaria com toda palhaçada que existia dentro e fora do colégio, para ela não existia a desculpa de que eram adolescentes, porque simplesmente não existia nenhum motivo para humilhar outro ser humano, rir enquanto um garoto inocente chorava e beber como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Por isso não gostava de festas, não gostava de multidões e preferia não se aproximar de ninguém, mantendo sempre uma palavra ácida na boca para afastar qualquer um que se aproximasse.
E com toda sua aversão, acabou julgando ShinWoo sem conhecê-lo, olhando por outro ângulo ele até poderia ser uma pessoa legal. Ele diferente da maioria estava insistindo em quebrar sua barreira de indiferença, Sandeul e GongChan não precisaram porque estava claro que eles eram uma exceção entre as alunos, agora o garoto com quem esbarrou no primeiro dia parecia ser uma exceção também. Conseguia ser engraçado e natural sem ser forçado, ele também pareceu estar preocupado com ela e seus amigos quando ofereceu ajuda, até poderia ser considerado bonito se ela se esforçasse um pouquinho e por último tinha um bom gosto musical.
– E eu estou entre os nove? – Perguntou assim que estacionou em frente à mansão onde Krystal morava. – Bela casa. – Elogiou.
– Talvez. – Respondeu menos irritada do que antes. – Minha irmã é modelo, atriz e em breve será cantora, como voltamos a morar na Coreia, ela comprou essa casa só para mostrar o quanto está ganhando.
Seu tom amargo ao falar da irmã era notável, o singelo sorriso em seus lábios havia sumido e ela voltou a ser a Krystal de antes, sempre que se lembrava de Jessica era dessa forma. Os pais da garota faziam questão de repetir todos os dias que a irmã mais velha era uma boa filha, feminina, bonita, famosa e responsável, muito diferente da caçula que só era motivo de preocupação. Reclamavam das roupas, do cabelo, da forma como agia e falava, do gênio rebelde e das inúmeras advertências que ela recebia nos colégios anteriores, tanto que Krystal preferia ficar no carro do que encarar o casal Jung novamente.
– Ah, eu sei quem é. – ShinWoo comentou pensativo.
Krystal deu de ombros, todos conheciam a “princesa de gelo” então não era novidade.
– Obrigada pela carona. – Agradeceu saindo do carro. – Mas não pense que somos amigos agora. – Alertou. – Considere como pagamento pela carona.
– Tudo bem, eu não tenho pressa. – Disse animado. – Boa noite, Krystal. – Acenou de dentro do carro, esperando que a garota entrasse. – E a propósito... Acho que você é mais bonita que a sua irmã! – Gritou, mas a garota já tinha sumido de vista.
Suspirou, se encostando no banco do carro e refazendo mentalmente todos os acontecimentos daquela noite. No final não tinha sido ruim, apesar do pequeno espetáculo provocado por JinYoung a festa tinha um saldo positivo, conseguiu ajudar Sandeul e GongChan e conhecer um pouco mais de Krystal. Ela não era tão ameaçadora, era doce como toda garota, um pouco mais escorregadia, mas ainda sim doce. Era evidente seu desconforto ao falar da irmã, talvez fosse essa a razão do seu comportamento e no fundo ela só precisava desabafar um pouco.
Mas por enquanto ele não poderia fazer mais nada, só restava voltar para a festa já que certo loiro bêbado era responsabilidade sua. Assim que ligou o carro, seu celular começou a tocar, atendeu antes de dar a partida no motor porque odiava dirigir enquanto falava ao telefone. Era um de seus melhores amigos – JinYoung – ligando para avisar que Baro iria dormir em sua casa, então ele não precisaria voltar para buscar o bêbado problemático. Ótimo, poderia ir direto para sua própria casa.
Se não fosse pela vontade de ver alguém.
Após deixar Krystal seu coração estava inquieto, gostava de estar com a garota e definitivamente queria se aproximar dela. Mas não sabia até onde iria seu interesse, poderia ser curiosidade já que ela era diferente das outras garotas, ou talvez ele enxergasse suas atitudes de rebeldia como a fuga de algum problema, ou ainda na mais absurda das hipóteses poderia estar gostando dela. Por esse motivo antes mesmo de jogar o celular no banco do passageiro, discou números conhecido e esperou a voz sonolenta atender.
Minutos depois finalmente partia, precisava conversar ou iria enlouquecer. Além de confuso se sentia culpado, não poderia de uma hora para outra estar divido, há muito tempo estava seguro e conformado com seus sentimentos, não poderia simplesmente olhar para Krystal com outros olhos. Dirigiu inquieto até chegar ao seu destino, vendo que a luz do segundo andar estava acessa, seu coração bateu mais rápido ao descer na calçada, acionando o alarme do carro para apertar o interfone indicando sua chegada.
– Oi. – Disse envergonhado, afinal já era madrugada. – Sou eu.
– Pode subir. – A voz carregada de sono avisou.
A porta que ficava na lateral do sobrado se abriu, era necessário subir alguns degraus até o segundo andar, o que ele fez sem muita pressa. O anfitrião já o esperava, usando um pijama azul folgado e confortável, com o mesmo sorriso acolhedor de sempre, não só o sorriso, pois ao pisar na sala deparou-se com duas xícaras em cima da mesa de centro do cômodo bem decorado. Sentou-se no sofá e aceitou a bebida, experimentando o café antes de falar.
– Imaginei que uma xícara de café fosse mais apropriada, bebeu alguma coisa na festa? – O mais velho perguntou.
– Não costumo beber qualquer coisa que contenha álcool. – Assegurou. – Me desculpe por acordá-lo.
– Tudo bem. – Onew disse sincero. – Pode me ligar a qualquer hora, você sabe disso.
Sim, ele sabia. Talvez exatamente por isso estava mais inquieto, era sempre tratado com o maior cuidado, recebendo a atenção do mais velho e a compreensão em muitos momentos em que a diferença de idade não significava nada, ou melhor, significava a maturidade que Onew tinha ao lidar com ele. Porque ShinWoo apesar de mais jovem era sensato, centrado em seus objetivos e em sua própria vida, afinal tinha o melhor exemplo bem ali à sua frente.
– Está com algum problema? – Onew foi direto diante do silêncio do mais novo.
– Estou confuso. – Acabou confessando. – Como saber se estamos gostando de alguém?
Onew encostou-se no sofá após depositar sua xícara em cima da mesa, suspirando ao notar que o mais novo estava sério. Era diferente da primeira vez que ShinWoo fez a mesma pergunta, antes o tom era infantil e curioso porque ele era apenas uma criança, agora parecia ter um peso bem maior que anos atrás. O estudante nem ao menos deveria se lembrar de ter perguntado anteriormente, a resposta também não seria a mesma, afinal não era necessário deixar tudo mais fantasioso já que ShinWoo não era mais um garotinho.
– Hm, depende. – Começou tentando buscar a resposta mais clara. – Cada um se sente de um jeito quando está apaixonado, algumas pessoas se tornam mais românticas, outras mais possessivas, e ainda existem aquelas que ser tornam um misto dos dois. – Explicou.
– Eu sei, mas... – Mordeu o lábio em nervosismo. – O que a gente sente exatamente para saber se gostamos ou não de alguém?
– Nós sentimos necessidade de estar perto, tanto que chega a doer. – Disse, apesar de não ter muita experiência com algum amor avassalador. – Acabamos colocando a pessoa muitas vezes em primeiro lugar, querendo a felicidade dela em primeiro lugar. – Certo, aquilo ele tinha lido em um livro. – E também fazemos tudo por ela.
Algumas coisas faziam sentido, outras não. Não que fosse tudo muito novo para ShinWoo, mas ele estava acostumado com outro tipo de amor, algo mais leve e menos intenso do que as palavras de Onew. Algo que ele carregava desde a infância, uma admiração que foi crescendo e que se tornou algo ainda mais bonito, um amor adormecido e ainda sim um amor. Mas que agora se via diante de outro sentimento, que beirava a curiosidade de ter outro alguém, de desvendar outra pessoa já que a paixão original jamais faria sentido, pois se assemelhava a algo platônico que ele se viu preso quando entrou na adolescência e que permanecia intacto até agora.
– E é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo? – Acabou perguntando. – Mesmo que exista uma grande diferença entre elas?
– É essa diferença que está te deixando confuso. – Onew sorriu. – Aish, só porque faz tempo que não falamos disso você me vem com essas perguntas? – Indagou divertido. – Você é novo, não se preocupe tanto, apenas dê tempo ao tempo.
O mais velho tinha razão, era cedo demais para dizer se estava apaixonado por Kristal. Resolveu acompanhá-lo até a cozinha, já era tarde e Onew aparentava estar cansado após ter trabalhado o dia inteiro, deixou sua xícara dentro da pia e encarou novamente o patrão e melhor amigo. Mesmo com a diferença de idade, eles conseguiam conversar como se oito anos não os distinguisse, algo que ambos agradeciam.
– Hyung, já se apaixonou de verdade? – Se lembrava de algumas namoradas de Onew, em sua opinião eram todas insuportáveis.
– Uma vez, mas eu era novo e resolvi esquecer. – Revelou. – Era algo inalcançável.
– Por que? – ShinWoo insistiu, segurando no braço direito do mais velho. – Ela não gostava de você? Eu sei quem é a garota?
– Porque não era certo eu gostar dela. – Suspirou. – Você não conhece, só esqueça que eu te contei, certo? – Indagou e ShinWoo assentiu. – Agora vem, separei uma roupa para você dormir, não é bom dirigir a essa hora.
Resolveu não contrariar, seguindo Onew até o quarto. Lá pegou as roupas, se trocou no banheiro – vestiu uma camiseta larga e uma bermuda – e se deitou junto com o mais velho. Até disse que dormiria no sofá, mas com muita insistência Onew o convenceu do contrário. Não era a primeira vez que dormiam juntos, quando eram vizinhos um sempre posava na casa do outro e no meio da noite ShinWoo acabava escapando da cama para ir se deitar com Onew no colchão, porque tinha pesadelos ou simplesmente por querer estar perto.
E enfim adormeceram.
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“Se eu estava confuso antes, deitado ali ao lado dele era ainda pior. Eu sentia o seu cheiro, ouvia sua respiração lenta e na pouca luz do quarto enxergava o contorno do seu corpo. Sempre admirei e vi em Onew uma inspiração, querendo imitá-lo quando menor e passando a desejá-lo ao alcançar a adolescência, mesmo que há algum tempo eu tentasse tirá-lo da minha mente. Krystal era a primeira garota a abalar aquele sentimento que eu trazia da infância, fazendo algo novo nascer em mim que poderia mudar tudo que sentia, porque querendo ou não eu pensei nela naquela noite.”
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x-x-x
Não era sua primeira ressaca, na verdade não se lembrava sequer do primeiro porre que tomara, mas com certeza aquele era o pior entre todos. Não por ser o mais recente, muito menos pela quantidade de álcool que ingeriu e pela dor de cabeça, mas sim por tudo aquilo que fez enquanto estava alegre demais para medir as consequências de seus atos, que eram as piores possíveis. A mancha de vômito que limpou do tapete persa da casa do amigo foi o melhor momento da bebedeira, ou seja, ele estava realmente encrencado.
Como tudo seria dali em diante era praticamente um mistério, por mais que pensasse e repensasse no assunto não conseguia chegar a uma conclusão satisfatória. Tudo iria mudar? Iria. Para pior? Sim. Porém, não conseguia medir até onde levaria o plano – que ele criou enquanto voltava para casa de táxi – adiante, pois se tratando do primo sempre existia algo que o fazia parar. Se apegar a ideia de que começava a aceitar o mais novo era inadmissível, ainda mais para ele que tratou o garoto mal logo na primeira vez em que o viu.
E que o beijou na primeira oportunidade que teve.
A raiva que sentia de Sandeul só não era maior do que a raiva que sentia por si mesmo. Porque ele se lembrava de tudo, dos toques, da troca de beijos e de como foi patético pedindo por mais, como se gostasse do primo a ponto de desejá-lo como um homem deseja uma mulher, ou melhor, como um homem deseja outro homem. Sandeul apesar de ingênuo não era nada feminino, não poderia compará-lo com uma garota, ele não tinha gosto de brilho labial de morango, nem a pele delicada apesar de macia. O que na hora não fez diferença nenhuma, mas que agora mudava absolutamente tudo.
Cha SunWoo beijou um homem, o próprio primo e para piorar teria continuado com os beijos até que eles não fossem mais suficientes. Teria explorado a pele intocada, marcando cada pedaço do corpo com suas mãos firmes e amenizando as marcas com a boca. Irreal demais para acreditar que realmente aconteceu, absurdo e contraditório, pois eles não se suportavam e qualquer um notaria isso. Ele não gostava de garotos, era hétero tinha certeza, julgava o acontecido como um ato de carência, levemente alcoolizado não tinha como distinguir o certo do errado, sendo que nesse momento o errado sempre soa mais tentador.
– Eu vou matar o pato safado. – Rosnou enquanto tentava achar a chave certa do apartamento, estava nervoso e cansado. – Assim que colocar as mãos nele limparei a minha honra. – Continuou com seu discurso e com as tentativas de abrir a porta, que ele conseguiu após muita insistência.
Depois quebraria aquela chave.
Entrou no apartamento em silêncio, serpenteando pela casa pronto para dar o bote em sua presa, iria pegá-lo desprevenido e Sandeul não teria como fugir do seu julgamento. Agradeceu por ser de manhã e seus pais ainda estarem dormindo, talvez acordassem com os gritos do mais novo, mas seria tarde demais porque o pato já estaria assado com uma maça na boca. Porém, quem teve que controlar a vontade de gritar foi ele.
Sandeul estava dormindo como um anjo, mas um anjo que tinha companhia. Então era assim? Beijava um e dormia com outro? Se era possível sua raiva dobrou, duplicou e deu piruetas no ar quase o cegando. Não admitiria aquela falta de vergonha na cara dentro do seu próprio quarto, com seus pais dormindo no fim do corredor sem saber da orgia que estava acontecendo bem debaixo de seus narizes. Rumou até a cama em passos determinados, puxando o edredom e acabando com aquela falta de pudor.
– O que vocês pensam que estão fazendo? – Ditou firme, sem gritar. – Enlouqueceu, pato idiota?
– Ba-Baro, achei que só chegaria mais tarde. – Sandeul disse incerto.
– Eu não dormi pensando em como te mataria. – Revelou com um humor nada agradável.
O mais novo pulou da cama assustado, enquanto GongChan se encolheu perto da cabeceira da cama. Baro chegava a bufar de ódio e aquilo o assustava, nunca tinha visto o primo tão alterando, principalmente porque não estava acontecendo nada ali, não havia motivos para estar tão irritado.
– Não sabia que era tão fácil, Sandeullie. – Disse o apelido de forma irônica. – É só o gato sair para o pato fazer a festa, é isso?
GongChan pensou em corrigir a frase, o correto não seria rato? Mas achou melhor ficar calado para não piorar a situação.
– Do que está falando? – Sandeul perguntou confuso.
– Dessa sua falta de vergonha na cara! – Apontou para a cama. – Fica aí se esfregando no esquisito enquanto eu estou fora.
– Não! – Assustou-se. – Ele só dormiu comigo porque você não deixaria que eu ou ele ocupasse a sua cama... – Tentou explicar.
– Seria o cúmulo você e seu amante transarem na minha cama. – Riu exasperado, queria matar os dois se pudesse. – Preciso falar a sós com você.
Sandeul piscou algumas vezes, não conseguia entender a revolta do primo. Pediu para que GongChan o esperasse na sala, era melhor poupá-lo do escândalo do mais velho, pois ele já tinha com o que se preocupar. Era óbvio que Baro falaria sobre o beijo, do contrário agiriam como sempre, um evitando o outro para não provocar algum atrito entre eles e consequentemente magoar seus tios. O problema é que ele mesmo não conseguia lidar com o fato de seu primeiro beijo ser justo com o primo, não teve tempo para pensar sobre os sete minutos no paraíso, se fechasse os olhos poderia sentir os toques de Baro novamente.
– Eu e o GongChan não temos nada, somos amigos. – Explicou. – Sobre ontem... – Começou incerto.
– Sobre ontem, esqueça. – Baro disse firme, levando uma de suas mãos até a cabeça, puxando os fios loiros com certa força. – Você se aproveitou porque eu estava bêbado!
– O que? – Não poderia acreditar no que o primo dizia. – Você me arrastou até lá e me agarrou! – Lembrou.
Era um absurdo Baro simplesmente jogar a culpa em seus ombros, apesar de ter correspondido quem começou foi o mais velho, ele apenas... Deixou-se levar. Qualquer um na mesma situação corresponderia, não é mesmo? O seu coração batendo cada vez mais rápido não significava nada, era só nervosismo, não era? Então por que olhava fixamente para a boca do primo, admirando os lábios bem desenhados e se lembrando do toque cálido que eles provocavam.
– Está me ouvindo? – Baro irritou-se, estava falando há quinze minutos e Sandeul permanecia olhando como se fosse mesmo um zumbi.
– Ah, estou sim. – Mentiu.
Além de abusar de um pobre bêbado, dormir com GongChan, agora o outro também fingia não lhe ouvir? Sandeul estava brincando com fogo, e Baro gostaria de jogar gasolina para ele se queimar de vez. Praticamente avançou contra ele, segurando em seu braço com força suficiente para machucar, chacoalhando o corpo magro para quem sabe ter a atenção que gostaria. Era muita audácia ser ignorado depois de tudo, mas iria mostrar por bem ou por outros meios quem mandava ali.
– Fique sabendo que eu tenho nojo do que aconteceu. – Disse contra o pescoço de Sandeul, que só se encolhia devido à aproximação dos dois. – Vou ter que escovar meus dentes até que eles caiam para tirar esse gosto ruim da minha boca.
Se a intenção era machucar, estava conseguindo. Sandeul não o encarou de volta, além da dor no braço algo dentro de seu peito se partia, gostaria de tapar os ouvidos, fingindo realmente que não escutava as besteiras que o primo dizia. Claro que não esperava por uma declaração de amor, só queria um pouco de compaixão afinal nada poderia explicar racionalmente o que tinha acontecido dentro do armário. Em sua opinião não passava de um ato de loucura, daquelas que fazemos uma vez na vida e aprendemos com o erro. Porque querendo ou não era um erro beijar o mais velho como se fossem namorados, como se o amasse.
– Eu me arrependo tanto, que se arrependimento matasse eu não estaria mais aqui. – Baro continuou. – Até agora eu peguei leve com você, mas se prepare que mais do que nunca eu quero que no mínimo você desapareça para nunca mais voltar, entendeu? – Indagou, jogando Sandeul contra a cama.
– Não vai se repetir. – Respondeu, sem saber como conseguia falar alguma coisa depois de tudo.
– É bom mesmo, ou você vai rezar para ter morrido no lugar da sua mãezinha. – Disse sem pensar, vendo o impacto que suas palavras causaram logo depois.
Os olhos rapidamente se encheram de lágrimas, internamente Sandeul lutava contra a vontade de chorar. Não iria demonstrar fraqueza justo naquele momento, até mesmo porque o que Baro disse era verdade, seu lugar não era debaixo daquele teto e sim debaixo da terra. O desprezo do primo deveria ser o seu castigo por sair ileso após o acidente, algo que ele carregaria para sempre além da dor que sentia até hoje pela perda da mãe. Porém, Baro não sabia que quase todas as noites ele rezava baixinho pedindo para ser levado também, para poder finalmente se encontrar com sua mãe e aliviar a dor que sentia.
Acabou tomando coragem para encarar o mais velho, se levantando da cama e caminhando em direção à porta do quarto. Não iria sair sem falar nada, mas precisava escolher bem as palavras para não soar ridículo e fraco, porque estava doendo tanto que temeu desmaiar ali mesmo. Era até fácil lidar com a indiferença, suportar os caprichos, aguentar os olhares carregados de ódio, porém parecia ser impossível se manter calado quando sua mãe estava envolvida naquele jogo de gato e rato – ou ainda gato e pato – que os dois mantinham.
– Ela era uma excelente mãe. – Confessou de repente. – Não merecia o filho que tem, prometo desaparecer o mais rápido possível.
Qualquer coração, por mais frio que fosse se abalaria com uma confissão tão dolorosa. Baro percebeu que pisou em um solo instável e perigoso, acabou exagerando ao mencionar a mãe do mais novo, pela primeira vez falava dela e mesmo assim escolheu a pior forma de tocar no assunto. Queria assustar o primo, se livrar dele o quanto antes melhor, mas para isso não precisava tocar em uma ferida não cicatrizada, era algo fora do seu alcance, algo pessoal e delicado demais para usar contra ele.
Por muito pouco não voltou atrás, se sentiu incomodado diante do semblante triste, do sorriso tão fraquinho que Sandeul lançou antes de deixar o quarto no mais profundo silêncio. Diante disso, resolveu esfriar a cabeça com um banho relaxante quem sabe assim colocaria seus pensamentos em ordem? Ao ter o corpo agraciado pela água morna, viu a besteira que tinha dito, usando da morte de alguém para benefício próprio. Ele não era aquele garoto cruel, a culpa era do outro que o enlouquecia somente com sua presença, com sua risada alta e seu jeito sempre tão gentil.
Os malditos beijos ainda queimavam em sua boca, para apagá-los só se livrando do causador de tudo aquilo. Da sua insônia, da instabilidade emocional, dos sonhos... De absolutamente tudo que lembrava Sandeul. Encostou as costas na parede fria, deslizando até o chão deixando que a água levasse embora todas as suas dúvidas, não iria voltar atrás, não iria se render ao sentimento que crescia sem que ele percebesse, como uma erva daninha em um jardim florido.
Depois do banho voltou para o quarto e agradeceu por encontrá-lo vazio, secou calmamente os fios descoloridos e vestiu o pijama, ainda era cedo, queria finalmente descansar. O colchão rapidamente o acolheu, se cobriu com uma manta fina porque não estava muito frio, se virando para o lado oposto para não encarar a cama desarrumada do mais novo.
Se deparando com algo ainda pior.
– O que está olhando? – Disse para aquele que o observava. – Até de forma inanimada você me persegue? – Indagou, mas sua pergunta se assemelhava a uma ameaça.
Do lado de sua cama, o patinho de pelúcia parecia lhe observar, como se zelasse por seu sono.
– Pato zumbi, você só me traz problemas. – Continuou falando com o ser de pelúcia. – Não adianta me olhar com essa cara, não tem espaço para você aqui. – Encarou o pato, mantendo o semblante sério. – Quer saber? Não quero dormir com você me encarando. – Ditou se levantando e escondendo o pato em algum canto do quarto.
“Bem melhor”, pensou assim que conseguiu se deitar novamente. Sem patos, sem problemas... Mesmo que algo em sua consciência o impedisse de dormir em paz.
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“Eu vi em meus sonhos as lágrimas derramadas por minha tão imensa culpa. No fundo eu não desejava que ele sofresse, mas de alguma forma eu queria tirar aquele sentimento de dentro de mim, porque me assustava pensar em Sandeul de outra forma. Lembrar de seus beijos e de como eu gostei de prová-los, só mostrava que eu estava envolvido por ele, sendo que jamais poderia permitir meu coração bater por um homem. Cego pelo preconceito eu o machuquei como nunca tinha feito antes, seguro que aquela estória terminaria ali e burro o suficiente para acreditar que era o fim. Estava tão enganado que aquele era só o começo dos meus problemas, que viria a se tornar o sentimento mais forte que já senti, mas que até então eu me negava a acreditar que poderia ser real, fazendo com que ele pagasse o preço por algo que nunca se apagaria com o tempo.”
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Na manhã seguinte o colégio parecia estar pior do que ele no dia anterior, a dor de cabeça do garoto rebelde do terceiro ano já havia passado quando acordou quase seis horas da tarde no domingo, seus pais o repreenderam é claro, mas não era nada que não pudesse contornar com seu talento para enganar as pessoas. Seu humor estava melhor porque não esbarrou com GongChan ao acordar, não queria suportá-lo dentro de sua casa, já era demais ver o esquisito andando para todos os lados com seu primo e ainda despertando sentimentos em seu melhor amigo babaca.
Falando em JinYoung, o garoto passou reto pelo grupinho de Zico, ignorando quando HimChan o chamou para que se juntasse à eles. Não iria cometer o erro de se envolver com mais nada que prejudicasse GongChan, iria agir por si mesmo sem se importar com a opinião daqueles que um dia foram seus amigos. O dia amanheceu bonito demais para ele desperdiçar com quem não valia a pena, se sentia livre para tentar amenizar o clima com GongChan, iria começar do zero, se aproximando lentamente para conquistar a amizade do mais novo.
– Vai mesmo desafiar o Zico? – Baro perguntou assim que o alcançou, JinYoung andava apressado.
– Ele não manda em mim, aliás... Ele não manda em nenhum de nós. – Respondeu, seguindo pelos corredores vendo que alguns alunos não eram nada discretos ao comentar sobre ele.
– Eu sei, mas você conhece a fixação doentia que ele tem por aquele garoto. – Tentou convencer o amigo, já sabia do acontecido da festa enquanto estava preso no armário. – Ele pode tentar alguma coisa contra você.
– Não me importo. – Parou abruptamente. – Zico tem que parar imediatamente com essa perseguição sem sentido!
Baro suspirou, o amigo estava determinado demais para impedi-lo. Não iria perguntar, mas tinha quase certeza que JinYoung não estava fazendo aquilo por solidariedade, existiam sentimentos por trás das atitudes que ele tomava nas ultimas semanas. Para personalidade calma do amigo, ir contra Zico era uma mudança radical, algo que só teria justificativa se JinYoung estivesse apaixonado por GongChan, o que seria um absurdo. Ou não. Ficou tentado a acabar com todas as suas dúvidas, mas ao ver Sandeul conversando com o esquisito no corredor achou melhor parar por ali, deu um tapinha nas costas do amigo e seguiu na direção contrária.
“Um problema de cada vez”, pensou ao se afastar.
Por outro lado JinYoung estava ansioso e desejava ver GongChan o mais rápido possível, iria ser atencioso e cuidadoso para que a cena protagonizada durante a festa não se repetisse. Cumprimentou os amigos ignorando as fofocas que começavam a surgir ao seu redor, o mais novo estava bonito demais para ele prestar a atenção em outra coisa que não fosse o sorriso singelo e os traços do rosto perfeito. O arrependimento seria motivo suficiente para deixá-lo em paz, porém já não aguentava ficar um dia sequer longe de GongChan.
– Tem algum período livre hoje? – Indagou, queria conversar com ele a sós.
– Vou ficar no camarim de tarde. – Respondeu, seu coração estava inquieto dentro do peito. – Pode ir lá se quiser. – Disse, mas na verdade era um convite.
– Claro, eu adoraria... – Aceitou, feliz demais para notar que estava ridículo. – Adoraria conversar, eu quis dizer. – Tentou arrumar suas falas.
GongChan riu tímido, se virando para abrir seu armário em busca de um caderno.
Que estava ensopado junto com seus outros materiais.
Seus olhos não acreditavam no que viam, quase todo seu material escolar estava destruído, tudo ensopado, as folhas dos livros grudadas e a letra tão bem desenhada não passava de borrões em seu caderno. Uma pilha de papel molhado e inútil, já que não tinha como recuperá-los. Sandeul no mesmo instante abriu seu armário, se deparando com ele vazio com um único bilhete preso com fita adesiva na parte de dentro.
“Procure melhor... Da próxima vez será a sua cabeça.”
– O banheiro! – GongChan gritou, saindo correndo junto com Sandeul.
JinYoung também os seguiu, alguns alunos curiosos também foram atrás e logo uma multidão se formava do lado de fora do banheiro masculino que ficava naquele corredor. Sandeul olhou em todas as cabines desesperado, mas somente na última encontrou seu material dentro do vaso sanitário, tão ensopado quanto os livros do armário vizinho ao seu.
Na parede outro bilhete estava preso.
“É só o começo.”
Ele tinha certeza de que era.
–
“Os bilhetes não eram um aviso, era uma ameaça bem clara e objetiva. Como se fossemos peças a se descartar de um jogo, antes meu melhor amigo era a única peça indefesa no tabuleiro, mas assim que me coloquei em sua frente para defendê-lo me tornei mais um peão a ser derrubado. Porém, seria um peão que daria muito trabalho até o xeque-mate.”
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Notas finais
Aos lindos que sempre estão comigo: Muito obrigada! ♥ Uma nova fase de Sky se inicia, acho que deu pra perceber com o final do capítulo, não é mesmo? Não ficou como eu gostaria, mas prometo vir com um capítulo melhor e com os couples que não apareceram.
Beijos e até o próximo capítulo. ♥
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