Sk8er Boy
19 Final - Parte 2
Notas iniciais
Quando eu fui embora para Chicago, tudo o que eu conseguia fazer durante meus dias era sentir muita falta dos meus pais e de Elliott. Não sentia falta da escola, já que sempre fui um aluno excluído. Mas saudades de um específico aluno... Isso eu sentia o tempo todo.
Elliott fazia falta em todos os momentos, como se cada vez que eu olhasse para qualquer coisa me remetesse a ele. Eu ficava praticamente o dia inteiro triste, tanto por lembrar que eu costumava visitar meus avós com meus pais, quanto por pensar que agora eu também tinha perdido Elli.
A nova escola era péssima, fazer amizades já não é comigo, ainda por cima cheguei no meio do ano letivo. Mas o que mais me incomodava não era o fato de não me adaptar, e sim a certeza de que eu não queria me adaptar. Não apenas por causa de Elliott, mas por causa minha também. Eu não me sentia à vontade morando com meus preconceituosos avós, que eu tanto amava e que agora estava tão indiferente sobre eles.
Eles não aceitaram o fato de eu e Elliott sermos um casal, por isso me obrigaram a terminar com ele antes de eu me mudar. A dor de fazer isso por bilhete foi imensa, eu queria poder ter contado a ele. Talvez eu devesse ter fugido com ele sem buscar roupa alguma e depois nos virávamos. Eu deveria mesmo ter ido com ele, porque agora eu percebo o quanto dói o que eu fiz.
Magoar alguém e saber que magoou consegue ser ainda pior.
Quando nos falamos, depois de meses sem trocar palavras, me senti alegre novamente. Me senti feliz por poder vê-lo pela câmera, emocionado ao saber que ele tatuou meus olhos em seu pulso.
Mas, em meus pulsos, não havia nenhuma tatuagem, apenas cicatrizes que começaram a se tornar cada vez piores depois do dia em que o perdi. Ele sentiria orgulho de mim? Sentiria orgulho da pessoa que eu sou agora? Uma pessoa que não consegue mais sorrir, que só consegue pensar no quão horrível está o mundo... Eu amava viver, agora eu amaria mesmo morrer.
Em um dia, meus avós pegaram Elliott e eu conversando e perceberam assim que o plano deles para nos separar havia falhado. Eles tiraram meu computador e o celular também, mas antes me obrigaram a fazer algo que eu definitivamente não queria fazer.
Eu disse a Elliott que beijei outro garoto, e o silêncio dele foi tão doloroso que eu comecei a chorar. Não apenas por ter mentido, mas por saber que aquela mentira iria nos separar de vez, afinal quebrei minha promessa. Ou assim ele pensa. A verdade é que eu não teria coragem de beijar outro garoto que não fosse ele.
Antes que meus avós me tirassem de vez o celular, eu mandei uma mensagem por uma rede social para o Dalton, amigo de Elliott:
"Por favor, cuida do Elliott e não deixa ele esquecer que eu o amo. Eu não posso ficar com ele, infelizmente, mas eu nunca vou esquecer dele, não quero que ele se esqueça disso."
E ele me respondeu pouco tempo depois. Meus avós não estavam em casa, então aproveitei.
"Ele me mandou mensagem dizendo que quer morrer. O que você fez?" — Dalton.
"Inventei uma mentira porque fui obrigado. Mas ele não pode saber que é mentira." — Will.
"Tudo bem, vou tomar conta dele. Só se lembra de vir visitá-lo antes que ele enlouqueça." — Dalton.
Mas eu não respondi, assim como eu sabia que não poderia ir visitar o Elli. Quando os mais velhos que eu chegaram, tomaram de mim meu celular e viram a mensagem que mandei para Dalton, apenas desligaram o aparelho e guardaram com eles.
— Isso é para o seu próprio bem. – Minha avó disse.
— Para o meu próprio bem? – Repeti o que ela me disse e revirei os olhos. – Eu preferia ter ido para um abrigo do que ter vindo para cá com vocês. Me obrigaram a terminar o meu namoro e, mesmo que eu e Elli tenhamos continuado amigos, me obrigaram até a mentir para ele. O que ganham com isso? Fizeram duas pessoas sofrer por puro preconceito de vocês.
— Cale a boca. – Meu avô ditou duramente e eu me calei. – Amanhã uns amigos vem aqui jantar e você irá conhecer a linda neta deles. Vai que começa a ser normal depois disso.
Claro, eu esqueci que sou anormal por gostar de um garoto. O que eles pensam? Que eu vou conhecer uma garota e me apaixonar por ela do nada? Não...
Eu só quero o Elliott.
***#***
Dois anos depois.
Desde que fui embora de Orlando, dois anos atrás, eu falei com Elliott apenas quando o ajudei a estudar, depois disso nunca mais. E eu sentia falta dele, assim como sentia falta de Orlando. Era tudo tão mais tranquilo, tão melhor de se morar e viver.
Senti muita vontade de fugir, mas eu não tinha para onde exatamente ir, e chegar na casa de Elliott do nada estava fora de cogitação. Só de pensar que ele está quase se formando na escola e que já está com vinte anos, me bate uma saudade ainda mais imensa do que eu já sentia antes.
E eu fiz meus dezoito anos, mas a prisão domiciliar ainda é a mesma. Eu ainda sou obrigado a fazer tudo o que meus avôs querem. Eu me formei na escola dois dias atrás, e daqui seis dias é a formatura da minha antiga escola. Eu fiquei feliz por terminar o ensino médio, mas fiquei decepcionado por saber que ainda estava preso em Chicago.
Eu me inscrevi para algumas universidades, uma delas é em Orlando, mas sei que não vou passar lá. Eu fui chamado para uma aqui em Chicago, passei em Engenharia, mas queria Arquitetura, que foi o curso para o qual me inscrevi para a universidade de Orlando.
Eu esperava passar, mas as confirmações já haviam chegado e a minha nunca veio. Estou igual quando eu tinha onze anos e acreditava que minha carta de Hogwarts ainda iria chegar. Ou esperava pelo menos que Hagrid fosse derrubar minha porta no meio da noite para dizer isso.
Se fosse o Elliott eu já estaria até acreditando em magia praticamente, mas sei que não tem como ele fazer isso. Ele não sabe onde estou.
Talvez eu esteja fadado a sobreviver em um inferno que chamo de vida, mas ainda acho que o que eu deveria fazer é fugir daqui.
Uma pena que eu não tenha tanta coragem assim. Planejar é tão fácil...
...ELLIOTT LINCOLN...
— Estamos quase nos formando, Lincoln, bota um sorriso nesse rosto! – Dalton gritou para mim.
Estávamos vestindo as togas de formatura, nas cores vermelho e branco. Era o meu sonho, mesmo que atrasado eu finalmente estava concluindo o ensino médio. Mas ainda parecia ter um vazio dentro de mim. Eu nunca consegui esquecer do Will.
E também nunca me relacionei com mais ninguém, a saudade ainda falava mais alto. Eu ainda tinha esperanças de reencontrá-lo. E eu não fiquei com mais ninguém, não apenas por não tirar o Will da cabeça, mas também pelo fato de que ninguém parecia interessante.
Tudo parecia cinza, inclusive o mundo, porque a coloração que eu precisava estava nos olhos daquele garoto que nunca saíra da minha mente.
William Sebastian Mackenzie. O meu Will. O meu menino. O meu amor...
Fomos chamados para a cerimônia e fiquei sentado perto de Dalton. Ele era o meu único amigo, e ele me ajudou muito para que eu pudesse passar de ano. Tenho sorte de ter ele ao lado, porque se não fosse por ele eu ainda estaria lá no segundo ano do colegial.
Mas algo ainda faltava. Will ainda faltava.
Quando fui chamado para pegar o famoso canudo e tudo o mais, subi sorrindo no palco. O diretor perguntou se eu queria agradecer a alguém e eu, alegremente, agradeci.
— Meus pais, mesmo que não sendo muito presentes. – Eu respirei fundo para não falar errado. Por mais que dislexia não tenha uma “cura”, eu consegui me adaptar a falar muitas coisas de uma forma muito melhor do que anteriormente. Eu até consegui entrar para a faculdade. – Quero agradecer ao Dalton, meu melhor amigo, que me ajudou muito a estudar. E ao Will, porque foi na ausência dele que eu comecei a passar o tempo desenhando e descobri que quero ser artista. Agora, graças ao Will, eu vou estudar Artes na universidade aqui de Orlando.
Recebi aplausos e voltei a me sentar, agora já formado.
A baderna que todos fizeram quando a cerimônia acabou foi ótima, me diverti horrores, então eles me arrastaram para a festa de depois da formatura. Eu queria fugir, isso sim. Eles queriam brincar de coisas insanas, mas eu não me importei.
Eles me amarraram em uma cadeira e me vendaram.
— Agora você vai ter seu presente de formatura! – Um colega meu gritou e eu me assustei.
Um corpo sentou-se sobre as minhas pernas. Droga, como eu vou rejeitar alguém se estou amarrado? Não quero ninguém me tocando!
— Olha, não me leva a mal, mas...
Fui bruscamente interrompido por um beijo. Agora sim estou perdido...
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