Notas iniciais
Recebi a minha segunda recomendação, e mal posso conter a felicidade que tive ao ler! Muito obrigada Paladina , é muito importante para mim saber que estão a gostar... E o último capítulo foi recheado de surpresas, porque finalmente uma leitora fantasma resolveu aparecer. Benvinda de novo Nymeria! Esforçei-me ao máximo para não passar dos 10 dias de intervalo - suspira aliviada - Espero que gostem! :)



Era como se caísse há anos.

Voe, sussurrou uma voz na escuridão, mas Bran não sabia voar, e, portanto, tudo o que podia fazer era cair.

Mestre Luwin moldou um rapazinho de barro e vestiu-o com a roupa de Bran, atirando-o de um telhado em seguida. Bran recordou o modo como se estilhaçara.

– Mas eu nunca caio – disse, já caindo.

O chão estava tão longe que quase não conseguia distingui-lo através das névoas cinzentas que turbilhavam à sua volta, mas podia sentir que caía muito depressa, e sabia o que o esperava lá embaixo. Mesmo nos sonhos, não é possível cair para sempre. Sabia que acordaria um instante antes de atingir o solo. Sempre se acorda um instante antes de atingir o solo.

E se não acordar? Perguntou a voz.

O chão estava agora mais perto, ainda distante, a um milhar de milhas de distância, mas mais perto do que estivera. O solo, lá embaixo, subia para esmagá-lo. Desejou chorar.

Não chore. Voe.

– Não posso voar – disse Bran – Não posso, não posso...

Como sabe? Alguma vez tentou?

A voz era suave e parecia fraca. Bran olhou em volta para ver de onde vinha. Uma jovem mulher de olhos violeta sorriu-lhe, descia com ele, longe de seu alcance, seguindo-o na queda. Não parecia preocupada com o perigo eminente.

– Ajude-me – disse.

Estou a tentar, respondeu. Se não voar, caímos os dois.

– Está mesmo aqui? – perguntou Bran.

Está mesmo caindo? Retorquiu a jovem.

– É só um sonho – disse Bran.

Será? Perguntou.

– Eu acordo quando atingir o chão – respondeu.

Você morre quando atingir o chão, disse-lhe, e eu morro também.

Bran olhou para baixo. Conseguia agora distinguir as montanhas, com picos brancos de neve, e as fitas prateadas de rios em bosques escuros. Fechou os olhos e começou a chorar.

Isso não serve para nada, acredite. Disse a garota. Já disse que a resposta é voar. Precisa voar.

– Não tenho asas – retrocou.

Há diferentes tipos de asas, disse-lhe.

Bran olhava os braços e as pernas. Era tão magro, só pele, toda esticada por cima de ossos. Teria sido sempre assim tão magro? Tentou lembrar-se. Um rosto nadou até ele, saído da névoa cinzenta, brilhando, luimoso, dourado.

– As coisas que faço por amor – disse o rosto.

Bran gritou.

Não, não, isso não, disse a garota desesperada, alcançando-o e abanando as mãos freneticamente sobre o rosto dourado até ele desaparecer. Bran caía mais depressa do que nunca. As névoas cinzentas uivavam em seu redor enquanto mergulhava para a terra, embaixo.

A garota deu-lhe a mão.

– O que está fazendo? – perguntou choroso.

A ensinar-lhe a voar.

– Não posso voar!

Está voando agora mesmo. Ela respondeu num tom divertido.

– Estou a cair!

Olhe para baixo garotinho.

– Tenho medo...

Olhe para baixo, repetiu visivelmente irritada.

Bran olhou para baixo e sentiu as entranhas transformarem-se em água. O chão corria agora em sua direção. O mundo inteiro espalhava-se por baixo dele, uma tapeçaria de brancos, marrons e verdes. Via tudo com tanta clareza que, por um momento, se esqueceu de ter medo. Conseguia ver todo o reino e toda a gente que nele havia.

Viu Winterfell como as águias o viam, as grandes torres que pareciam baixas e atarracadas vistas de cima, as muralhas do castelo transformadas em simples linhas traçadas na terra. Viu Meistre Luwin na sua varanda, estudando o céu através de um tubo de bronze polido e franzindo a testa enquanto tomava notas num livro. Viu o primo Jon, mais alto do que se lembrava, praticando esgrima no pátio com aço verdadeiro nas mãos. Arya observava-o aborrecida, talvez por não poder participar. Viu Hodor, o gigante simplório dos estábulos, transportando uma bigorna para a forja de Mikken, levando-a ao ombro com tanta facilidade como outro homem levaria um fardo de palha. No coração do bosque sagrado, o grande represeiro branco pairava sobre o seu reflexo na lagoa negra, com as folhas a bater sob um vento gelado, com Sansa ajoelhada aos seus pés.

Olhou para leste e viu uma galé que se apressava através das águas da Dentada. Viu sua mãe, sentada, só, numa cabine, olhando para uma faca manchada de sangue pousada sobre a mesa à sua frente, enquanto os remadores puxavam pelos remos e Ser Rodrik se dobrava sobre uma amurada, tremendo em convulsões. Levantava-se uma tempestade à frente do barco, um vasto bramido escuro flagelado por relâmpagos, mas, de alguma maneira, eles não conseguiam vê-la. Olhou para sul e viu um dragão branco atacar um lobo negro, que rosnava e fincava os dentes em escamas impenetráveis.

Ergueu os olhos e viu com clareza para lá do mar estreito, viu as Cidades Livres, o mar verde dothraki, e mais além, até Vaes Dothrak, no sopé de sua montanha, até as terras fabulosas do Mar de Jade, até Ashhai da Sombra, onde um enorme veado mirava o mar.

Finalmente, olhou para o norte. Viu a Muralha brilhar como cristal azul, e o irmão Robb, mais forte do que se lembrava, sozinho numa cama fria, com a pele ficando branca e dura à medida que a memória de todo o calor se ia escapando dele. Seu pai estava na rua, conversando com o rei e um homem idoso.

Olhou para lá da Muralha, para lá de florestas sem fim sob um manto de neve, para lá da costa gelada e dos grandes rios azuis esbranquiçados de gelo e das planícies mortas onde nada crescia nem vivia. Olhou para o norte, e para norte, e para norte, para a cortina de luz no fim do mundo, e então para lá dessa cortina. Olhou para as profundezas do coração de inverno, e então gritou, com medo, e o calor das lágrimas queimou-lhe o rosto.

Agora sabe, sussurrou-lhe a garota, embora parecesse triste e igualmente assustada. Sabe porque deve viver.

– Porquê? – disse Bran, sem compreender, e caindo, caindo.

Porque o inverno está para chegar. Respondeu.

Bran olhou para baixo. Nada havia abaixo dele além de neve, frio e morte, um vazio gelado onde agulhas denteadas de gelo azul esbranquiçado esperavam para abraçá-lo. Voavam em sua direção como lanças. Viu os ossos de mil outros sonhadores empalados em suas pontas. Sentia um medo desesperador.

– Pode um homem continuar a ser valente se tiver medo? – ouviu sua voz dizer, uma voz pequena e distante.

E a voz de seu pai lhe respondeu.

– Essa é a única maneira de um homem ser valente.

Precisa escolher. Insistiu a garota, apertando a sua mão. Voa ou morre.

A morte estendeu as mãos para ele, gritando. Bran abriu os braços e voou. Asas invisíveis beberam do vento e encheram-se, empurrando-o para cima. As terríveis agulhas de gelo afastaram-se lá embaixo. O céu abriu-se lá em cima. Bran pairou. Era melhor que escalar. Era melhor que qualquer outra coisa. O mundo encolheu por baixo dele.

– Estou a voar! – gritou deliciado.

Já percebi. Disse a garota, ainda segurando a sua mão. Bran reparou que ela não voava, o seu peso puxava-o para baixo. Agora preciso ir. Ela largou a sua mão e caiu. Bran gritou, tentando alcançá-la. As névoas cinzentas estremeceram, rodopiaram à sua volta e rasgaram-se como um véu, e ele viu a mulher de longos cabelos negros transformar-se numa criada de Winterfell.

Bran compreendeu que estava em casa, numa cama, num quarto gelado qualquer, numa torre, e a criada deixara uma bacia de água estilhaçar-se no chão e corria pelos degraus abaixo gritando: “Ele está acordado, ele está acordado, ele está acordado”.

Sentiu-se fraco e tonto. Tentou sair da cama, mas nada aconteceu. Sentiu movimento ao lado da cama, e algo pousou agilmente sobre suas pernas. Nada sentiu. Um par de olhos amarelos olhava os seus, brilhando como o sol. A janela estava aberta e fazia frio no quarto, mas o calor que vinha do lobo envolveu-o como um banho quente.

Bran compreendeu que se tratava de sua cria... ou não? O lobo estava tão grande. Estendeu a mão para lhe fazer uma festa, uma mão que tremia como uma folha.

Quando a irmã Sansa entrou correndo no quarto, sem fôlego por causa dos degraus da torre acima e parecendo pouco a dama que sempre tentava ser, o lobo gigante lambia o rosto de Bran.

Ergueu os olhos calmamente.

– O nome dele é Verão – disse. Sansa chorou e abraçou-o.

Dias mais tarde, Bran observava Rickon correndo com os lobos no pátio. Onde quer que seu irmão fosse, Nymeria estava lá primeiro, saltando na frente para lhe cortar o caminho, até que Rickon a via, gritava de alegria e desatava a correr noutra direção, apenas para ser parado por Lady. Cão Felpudo corria sempre atrás dele, rodopiando e mordendo se os outros lobos se aproximassem demais. Seu pêlo tinha escurecido até se tornar negro, e seus olhos eram fogueiras verdes. Fantasma nunca participava nas brincadeiras, por isso Verão, o de Bran, vinha por último. Era prata e fumo, com olhos amarelo-ouro que viam tudo, mas menor que Fantasma, e também o mais cauteloso. Bran achava-o o mais inteligente da ninhada. Ouvia o riso sem fôlego do irmão, enquanto corria pela terra batida com suas pequenas pernas de criança.

Seus olhos começaram a arder. Queria estar lá embaixo, rindo e correndo. Zangado com aquele pensamento, Bran esfregou as lágrimas antes que tivesse tempo de cair. O décimo dia do seu nome tinha chegado e partido. Era agora quase um homem feito, velho demais para chorar.

– Era só uma mentira – falou amargamente, lembrando-se da bonita garota do seu sonho – Não posso voar. Sequer posso correr.

– Ah – exclamou a Velha Ama, da cadeira onde tricotava – Conheço uma história sobre uma garota que gostava de sonhar.

– Não quero mais histórias – respondeu, com petulância na voz. Antes, ele gostava da Velha Ama e de suas histórias. Antes. Agora era diferente. Agora a deixavam junto dele o dia inteiro, para vigiá-lo, limpá-lo e evitar que se sentisse só, mas ela só tornava as coisas piores – Detesto suas histórias estúpidas.

A velha mulher mostrou-lhe um sorriso sem dentes.

– Minhas histórias? Não, meu pequeno senhor, minhas não. As histórias são, antes de mim e depois de mim, e antes de você também.

Ela era uma mulher muito feia, pensou Bran rancorosamente; encolhida e enrugada, quase cega, demasiado fraca para subir escadas, sem lhe restarem mais que alguns fios de cabelo branco para cobrir um couro cabeludo cor-de-rosa e pintalgado. Ninguém sabia bem que idade tinha, mas o pai dizia que já lhe chamavam Velha Ama quando ele próprio ainda era rapaz.

A Ama viera para o castelo como ama de leite de um Brandon Stark cuja mãe morrera ao dá-lo à luz, talvez o irmão mais velho de Lord Rickard, o avô de Bran, ou o irmão mais novo, ou um irmão do pai de Lord Rickard. Às vezes a Velha Ama contava a história de uma menira, às vezes outra. Mas em todas, o rapazinho morrera aos três anos de um refriado de verão, mas a Velha Ama permanecera em Winterfell com seus próprios filhos. Perdera ambos os rapazes e o neto na guerra contra Robert Baratheon. As filhas já tinham se casado havia muito tempo, ido viver longe e morrido. Tudo o que restava de seu sangue era Hodor, o gigante simplório que trabalhava nas cavalariças, mas a Velha Ama vivia e continuava a viver, com suas agulhas e suas histórias.

– Não me interessa saber de quem são as histórias – Bran respondeu -, eu as detesto – não queria as histórias e não queria a Velha Ama. Queria a mãe e opai. Queria correr com Verão aos saltos a seu lado, subir a torre quebrada e dar milho aos corvos, voltar a montar seu pônei com os irmãos, e que tudo fosse como antes.

– Sei uma história sobre um rapaz que detestava histórias – a Velha Ama insistiu com seu sorrisinho estúpido, enquanto as agulhas se moviam, clic, clic, clic. Bran sentiu-se capaz de gritar com ela.

Sabia que as coisas nunca voltariam a ser como antes. A garota insistira para que voasse, ledo engano, mas, quando acordou, estava quebrado, e o mundo mudado. Tinham-no abandonado, o pai, a mãe, Robb. Sansa enviara uma ave com uma mensagem para Lord Eddard e outra para a mãe, mas não houve respostas. “Muitas vezes as aves perdem-se, criança” dissera-lhe Meistre Luwin “Há muitas milhas e muitos falcões daqui à Muralha ou Porto Real, e a mensagem pode não ter chegado”.

Para bran era como se todos tivessem morrido enquanto dormia, ou talvez ele tivesse morrido e todos se tivessem esquecido dele. Jory, Sor Rodrik e Vayon Poole também tinham partido, e Hullen, Harwin e Gordo Tom, e um quarto da guarda.

Só restava Sansa, Arya, Jon e o bebê Rickon. Jon parecia constantemente preocupado. Usava uma espada verdadeira e nunca sorria. Passava os dias exercitando a guarda e praticando esgrima, fazendo o pátio ressoar com o som do aço, enquanto Bran observava, desamparado, da janela. À noite fechava-se com Meistre Luwin, conversando ou analisando os livros de contas. Rickon chorava e agarrava-se a Sansa, que parecia não saber o que fazer com ele. Arya passava os dias no Bosque.

– Podia contar-lhe a história de Brandon, o Construtor – disse a Velha Ama – Sempre foi a sua favorita – Milhares e milhares de anos antes, Brandon, o Construtor, erguera Winterfell e, segundo alguns diziam, a Muralha. Bran conhecia a história, mas nunca fora a sua favorita. Talvez um dos outros Brandons tivesse gostado dela. Por vezes a Ama falava com ele como se fosse o seu Brandon, o bebê que amamentara há tantos anos, e por vezes o confundia com tio Brandon, que tinha sido morto pelo Rei Louco antes de Bran nascer. Ela vivera tanto tempo, dissera-lhe sua mãe uma vez, que todos os Brandons Stark se tinham transformado numa só pessoa em sua cabeça.

– Essa não é a minha favorita – respondeu – As minhas favoritas são as assustadoras.

– Ah, minha querida criança de verão – disse a Velha Ama em voz baixa – que sabe de medo? O medo pertence ao inverno, meu pequeno senhor, quando as neves se acumulam até três metros de profundidade e o vento gelado uiva do norte. O medo pertece à longa noite, quando o sol esconde o rosto durante anos e as crianças nascem, vivem e morrem sempre na escuridão, enquanto os lobos gigantes se tornam magros e famintos, e os caminhantes brancos se movem pelos bosques.

– Está a falar dos Outros – Bran disse, como que se lamentando.

– Os Outros – concordou a Velha Ama – Há milhares e milhares de anos, caiu um inverno que era mais frio, duro e infinito que qualquer outro na memória do homem. Chegou uma noite que durou uma geração, e tanto tremeram e morreram os reis em seus castelos como os criadores de porcos em suas cabanas. As mulheres preferiram asfixiar os filhos a vê-los passar fome, e choraram, e sentiram as lágrimas congelarem em seu rosto – a voz e as agulhas calaram-se. Ela olhou Bran com seus olhos claros e velados, perguntando – Então, criança? Este é o tipo de história de que gosta?

– Bem... – disse com relutância – Sim, só que...

A Velha Ama acenou com a cabeça.

– Nessa escuridão, os Outros vieram pela primeira vez – a velha começou, enquanto as agulhas faziam clic, clic, clic – Eram coisas frias, mortas, que odiavam o ferro, o fogo, o toque do sol e todas as criaturas com sangue quente nas veias. Arrasaram fortificações, cidades e reinos, derrubaram heróis e exércitos às centenas, montando seus pálidos cavalos mortos e liderando hostes de assassinados. Nem todas as espadas dos homens juntas logravam deter seu avanço, e até donzelas e bebês de peito neles não encontravam piedade. Perseguiam as donzelas através de florestas congeladas e alimentavam seus servos mortos com a carne de crianças humanas.

A voz da Ama tinha-se tornado muito baixa, quase um sussurro, e Bran deu por si inclinando-se para a frente para ouvir.

– Esses foram os tempos antes da chegada dos ândalos, e muito antes das mulheres terem fugido das cidades do Roine através do mar estreito e os cem reinos desses tempos eram os reinos dos Primeiros Homens, que tinham tomado estas terras dos filhos da floresta. Mas aqui e ali, nos bosques mais densos, os filhos ainda viviam em suas cidades de madeira e colinas ocas, e os rostos das árvores mantinham-se vigilantes. E assim, enquanto o frio e a morte enchiam a terra, o último herói decidiu procurar os filhos da floresta, na esperança de que sua antiga magia pudesse reconquistar aquilo que os exércitos dos homens tinham perdido. Partiu para as terras mortas com uma espada, um cavalo, um cão e uma dúzia de companheiros. Procurou durante anos, até perder a esperança de chegar algum dia a encontrar os filhos da floresta em suas cidades secretas. Um por um os amigos morreram, e também o cavalo, e por fim até o cão, e sua espada congelou tanto que a lâmina quebrou quando tentou usá-la. E os Outros cheiraram nele o sangue quente e seguiram-lhe o rastro em silêncio, perseguindo-o com matilhas de aranhas brancas, grandes como cães de caça...

Em sua mente a voz da garota desconhecida suou assutada.

O inverno está para chegar.