Notas iniciais
Confesso que foram várias as razões que me levaram a demorar tanto tempo para postar, desde as pesadas dúvidas que tive ao reler e reler o que escrevi, a decisão de continuar com o que tinha decidido - e que de certa forma, iria influenciar o caminho que tenho vindo a traçar desde o principio - e o tempo, cada vez mais escasso, que tenho para me dedicar à história. Estou a 11 dias dos exames, então, com sorte - e muito estudo - vou conseguir passar na 1ª fase e dedicar-me mais, como vocês merecem. De qualquer forma, espero que entendam, e quanto ao capítulo, bem, deixo a opinião para vocês. No próximo estou a pensar regressar ao Norte - até porque muitas personagens continuam lá.



Naquele dia Arisa informou-a, durante o desjejum, que a princesa Daenerys a tinha convidado para almoçar em seus aposentos.

– A mensagem veio através de uma criada, milady. Talvez a princesa Rhaenys a tenha dispensado hoje, ou irá juntar-se a vós mais tarde.

– É estranho – respondeu-lhe – Ontem Dany não me disse nada sobre o almoço.

– Talvez lhe tenha surgido a ideia depois – disse Jeyne, enquanto remexia no baú dos vestidos e franzia a testa – Deve vestir-se bem, é uma honra ser convidada da princesa, muitas tentam ganhar o seu favor na corte e poucas o conseguem – Alys não lhe deu grande importância.

Já se apresentava na sua melhor forma. Arisa escovara-lhe os cabelos escuros até brilharem e escolhera suas melhores sedas azuis. O vestido fora um presente do príncipe Oberyn, talvez um pouco indecente para o habitual de Porto Real, mas o tom lembrava-lhe os olhos de Meia Noite e não iria trocar-se.

Alysanne encontrou Viserys sentado á mesa na sala adjacente ao quarto. Joffrey estava ao seu lado, batendo com os dedos sobre a madeira. Os seus olhos passaram rapidamente pelo cómodo e, notando a ausência de Dany, deu um passo para trás.

O guarda que a acompanhou fechou a porta, ficando no exterior – Sente-se, por favor, Lady Dayne – disse-lhe o irmão do rei, gesticulando para a cadeira vazia ao seu lado – Deseja algum vinho enquanto esperamos por minha esposa? – ela aceitou uma taça, somente para agradá-lo, e não fez mais que molhar os lábios. Joffrey observava-a com um sorriso torto – Estou certo de que sabe da minha proposta de casamento... O que acha?

– É uma honra, vossa graça, mas...

– Aegon recusou – disse, jogando a sua taça de vinho ao chão num excesso de fúria e espalhando o liquido sobre o tapete. Alys notou com terror que as suas mãos tremiam. O sorriso de Joffrey pareceu arder – Aquele filho de uma rameira dornesa negou um pedido meu! MEU!

– Vossa Graça – murmurou, tentando encontrar força na voz – O príncipe herdeiro somente deseja que encontre alguém com um estatuto elevado... Eu sou apenas...

– Uma rameira – concluiu, soltando uma gargalhada – Uma rameira dornesa, como a puta da mãe dele. Diga-me, Lady Dayne, aquece-lhe a cama? Diga-me, e certifique-se que sorri tão docemente como sempre faz quando mente.

Ela levantou-se e empurrou a cadeira para trás, movendo-se na direção da porta. Ele agarrou o seu pulso, travando-a – Sente-se, ainda não acabámos de falar. Ainda nem sequer começámos.

Congelada de terror, sentou-se na cadeira, olhando para a mão dele. Seus dedos eram longos e fechavam-se fortemente sobre o seu pulso como uma garra. Nunca julgou que Viserys possuísse tal força. Parecia que a sua mão era a única coisa que Alys podia ver – Daenerys está a vir – disse-lhe.

– Não – respondeu Joffrey – A criada que enviou a mensagem era minha. Tia Daenerys nem sequer sabe que está aqui. Não acha mais divertido assim?

Houve um breve momento de descrença, e então parou de respirar, como se um balde de água gelada tivesse sido derramado em suas entranhas. Viserys fitava-a com um meio sorriso no rosto, sádico, doentio. Entendeu o que ele pretendia fazer.

– Por favor – rogou – Eu não... Eu não tive culpa... Eu... Por favor... – o sorriso de Viserys aumentou e, com a mão livre, Alys deferiu-lhe um tapa no rosto, puxando o braço quando ele afrouxou o aperto. Correu para a porta, julgando por um segundo que poderia alcançá-la.

Mas então, estava no chão, deitada sobre a pedra fria. Viserys jogou seu peso sobre ela e Alys debateu-se, mesmo sabendo que era inútil. Ele virou-a, prendendo os seus braços acima da sua cabeça com a ajuda de Joffrey, e não havia nada que pudesse fazer a não ser tentar lutar. Sou uma loba. Disse a si mesma. Posso ser forte. Mas era fraca e patética sem Meia Noite, e o único pensamento em sua mente enquanto Viserys lhe rasgava o vestido era fugir. Fugir. Fugir. Com o canto do olho, viu movimento do lado de fora da janela. Um corvo negro pousou no batente e grasnou, puxando-a para fora do seu corpo e de repente...

Asas. Ela tinha asas e seu coração estava acelerado em seu peito, sua respiração rápida e superficial, mas a dor tinha ido embora e ela voava, as suas asas batiam e ela voava cada vez mais alto. Tudo o que sabia que estava a fazer era voar para longe. Livre. Algures abaixo de si ouviu um uivo sofrido.

Um toque na porta despertou-a. Sentou-se a contragosto, capaz de dormir durante dias – Entre – respondeu, sentindo o coração bater cada vez mais depressa. Aos pés da cama, Meia Noite levantou a cabeça e cheirou o ar, voltando a pousá-la preguiçosamente sobre as patas.

– Dormiu bem? – a voz de Daenerys chamou a sua atenção. A princesa colocou uma bandeja com algumas frutas e doces na cama, sentando-se num pequeno banco ao seu lado. Alys corou, repreendendo-se por preocupá-la ao permanecer fechada em seus aposentos.

– Dentro dos possíveis – respondeu – Não devia dar-se ao trabalho, princesa. Alguns podem ver a sua preocupação com maus olhos, afinal eu...

– Esqueça, ignore o que dizem – disse – É uma vitima. Viserys é um monstro e merece pagar pelo que fez, não só agora, mas ao longo dos anos. Não irei ficar calada, e era precisamente sobre isso que queria falar consigo. Viserys irá a julgamento... E Aegon quer que testemunhe.

Mais tarde, após um ataque de pânico e relativamente mais calma, quis chorar, mas apercebeu-se que não tinha mais forças. Daenerys abandonara os seus aposentos depois de se certificar que estava melhor e Alys ficara ali, deitada no meio da enorme cama de madeira, fitando a parede sem realmente ver. Lembrou-se do aviso de sua tia algumas luas atrás, antes de partir, e as palavras martelaram na sua mente, mais verdadeiras a cada segundo que passava. Estava sozinha, estava perdida e sentia-se vulnerável.

Quando era pequena, Alys gostava de ouvir canções sobre cavaleiros, dragões e as suas princesas, insistindo com Ned que alinhasse nas suas brincadeiras, muita vez a contragosto. Sua tia Allyria costumava observá-los com um sorriso amargo no rosto, nunca dizendo nada. Posteriormente, quando a levaram para Lançassolar e conheceu Arianne e suas primas, descobriu que existiam outras canções, sobre amantes e romances proibidos; e a sua visão sobre o mundo alargou, mas permaneceu doce.

– A vida não é uma canção, meu amor – disse-lhe Allyria, beijando-lhe o rosto momentos antes de entrar no barco que a levaria a Porto Real – Monstros existem, e eles irão caçá-la se baixar a guarda.

Estava na altura de ser ela a caçar os monstros.

No seu sonho, era uma loba, enorme e poderosa, e quando emergiu de sob as árvores, diante da sua presa, e lhe mostrou os dentes, num rosnado grave e trovejante, sentiu o fedor repulsivo do medo que exalava. O animal berrou o seu terror e disparou inutilmente em fuga.

A luta foi rápida, mas sangrenta. Abocanhara-lhe as pernas e rasgara-lhe a garganta quando se estatelou na terra húmida pela chuva. Os seus dentes afundaram-se na carne macia da perna e deu uma violenta sacudida com a cabeça, arrancando o membro. Exultante com a caçada, abanou-o de um lado para o outro na boca, espalhado as mornas gotículas vermelhas pela fria chuva negra.

Acordou, mas sem realmente acordar. O corvo de três olhos pairava sobre a sua cabeça, grasnando.

Quando o fatídico dia chegou, descobriu que não era capaz de enfrentar a ideia de comida. Tinha o estomago ácido de bílis e seus dedos tremiam de nervosismo.

– Senhora? – disse Jeyne – Está na hora. Os homens de manto dourado estão à espera lá fora.

Alys respirou fundo, armou-se de toda a dignidade que conseguiu arranjar no momento, e saiu. Os quatro homens de manto dourado que a aguardavam no corredor permaneceram em silêncio durante o trajeto. Podia sentir todos a observá-la quando entrou na sala do trono.

Cavaleiros e fidalgos afastaram-se para deixa-los passar e murmuraram aos ouvidos de suas senhoras. Aegon estava sentado no trono de ferro, acompanhado de Rhaenys e Daenerys em cadeiras de madeira de menor dimensão. Viserys, acorrentado na sua frente e cercado por cavaleiros da Guarda Real, desatou aos berros assim que a viu, insultando-a e amaldiçoando-a, enquanto os mantos brancos o tentavam acalmar. Engoliu em seco, desejando ter Meia Noite ao seu lado naquele momento. Ter-se-ia sentido mais segura, mas compreendia que a loba incomodasse os desconhecidos.

– Lady Dayne.

Curvou-se, cumprimentando-os — Príncipe Aegon, Princesa Rhaenys, Princesa Daenerys.

Dany sorriu, encorajando-a, e foi tudo o que precisou. Não deu detalhes, mas apresentou o seu caso perante a corte, e perante as pessoas que sabiam a horrível verdade. Aos olhos de todos, o ato de Viserys não passara de uma tentativa fracassada, interrompida por sua loba e Dany antes de ir longe demais. Não lhe escapou que Joffrey não tivesse sido mencionado, ou a ausência dos Lannister no julgamento, por isso omitiu o envolvimento dele. Cersei devia ter conseguido proteger o seu primogénito.

Quando terminou de falar, Aegon levantou-se, encarando o tio com visível desdém.

– Tem algo a dizer em sua defesa?

– Perdeu o juízo? Que pensa que me irá fazer? Rhaegar irá saber o que aconteceu, e irá mandar essa puta dornesa para o sitio dela – disse, rindo – Lord Baelish é dono de vários bordeis, talvez lhe arranje um lugar especial e eu possa requisitar os seus serviços.

Sentiu os olhos arderem e respirou fundo, não iria perder a compostura. Não iria chorar, não lhe daria esse gosto – Será exilado – respondeu-lhe Aegon, ao fim do que pareceram anos – Irá para lá do Mar Estreito, sem quaisquer regalias. Levem-no. Quero-o fora de Porto Real até ao fim do dia.

Aegon apareceu durante aquela tarde no Bosque Sagrado, enquanto repousava junto do grande carvalho. Alys permaneceu em silêncio, vendo-o aproximar-se e semicerrou os olhos. Ele parou, mantendo alguma distância, e sentou-se encostado a uma árvore menor, retirando um pequeno livro de dentro das vestes. A confusão em seu rosto deve ter sido aparente, pois quando ele olhou na sua direção, abriu um meio sorriso.

– Espero que não se importe, Lady Dayne, prometo que vou manter-me afastado, mas este é realmente o único sitio em que posso estar em silêncio – não lhe respondeu, nem sequer relaxou. Continuou a fitá-lo ocasionalmente, vendo-o virar as páginas, completamente absorto na leitura. É estranho, pensou, este lado dele.

Nos dias seguintes, a rotina repetiu-se. Chegava no inicio da tarde acompanhada de Meia Noite e Ser Lewyn, que permanecia no inicio do Bosque montando guarda. Aegon surgia por entre as árvores alguns minutos depois, ou horas, e sentava-se no mesmo local do primeiro dia, sempre com um livro diferente.

– Não deveria estar com a princesa Rhaenys? – disparou numa tarde, incapaz de controlar a língua.

Ele virou uma página antes de responder, sem olhar na sua direção – Rhae está demasiado aborrecida comigo ultimamente.

– Por quê? – ele parou de ler e suspirou, talvez chateado. Alysanne arrependeu-se imediatamente – Peço desculpa, Vossa Graça, não devia ter questionado.

– Não tem problema, Lady Dayne... Rhaenys não gosta de ser contrariada – desta vez manteve-se em silêncio, passando os dedos despreocupadamente sob o pêlo negro de Meia Noite – Ela queria autorização para casá-la com Jaime Lannister, mas... Eu tenho outros planos, e ela não está de acordo comigo – podia sentir que ele a observava esperando uma reação da sua parte, e, por uma questão de segundos, outro par de olhos semelhantes aos dele cruzou a sua mente. Outros planos, pensou, todos querem alguma coisa. Voltou-se para o lado e vomitou, sentindo-se nauseada de repente. Aegon praguejou e fez menção de se aproximar, mas Alys gritou e pediu-lhe que mantivesse a distância. Não suportaria que ele lhe tocasse. Não naquele momento. Talvez nunca.

– Chame Daenerys – pediu, amaldiçoando-se por soar tão fraca – Por favor.

Aegon não se moveu até que a loba lhe rosnasse, e assim que o príncipe desapareceu da sua vista, Alys limpou a boca com a manga do vestido e abraçou o próprio corpo, chorando. Foi assim que Daenerys a encontrou minutos depois, e quando a princesa começou a cantar afagando os seus cabelos, Alysanne quis que ela parasse. Canções eram mentiras e ela estava farta de ouvi-las.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.