Singelas Ameaças
11 Modéstia
Notas iniciais
O tempo naquela tarde estava lindo. Claro, depende do ponto de vista, pois o meu lindo era: céu azul, vento leve que acariciavam meus ombros nus e bagunçavam pouco meu cabelo. Algumas pessoas estavam de moletom, e outros corriam pelo parque com seus cachorros acompanhando, fazendo-me perceber que o parque estava bem movimentado para dia de semana.
Recebi uma mensagem de Camila, me avisando que estava a caminho do parque e que só estava trocando de roupa, então aproveitei para pegar um local com pouco vento, sombra, vista para o lago e que não seria muito acessível. Debaixo de uma árvore gigantesca, com folhas bonitas e verdes, ajeite uma toalha laranja, para colocar tudo que trouxe.
Morangos, chocolate picado, chocolate derretido com manteiga de amendoim, castanhas, uvas, algumas panquecas que fiz de última hora para ficarem quentinhas, uma outra fruta verde que era bem azeda e bonita e claro, bananas! Tudo em potes separados e todos transparentes. Trouxe duas canecas de porcelana com desenhos de super heróis: Uma preta, do pantera negra e outra vermelha e preta, da lince negra. Uma garrafa térmica estampada Times Square com chá, outra garrafa menor, estampada com os desenhos da Marvel com café e uma última, bem grande e quente, estampada Hora de Aventura, com chocolate quente.
Nunca fui muito de comprar utensílios para casa e todas coisas que tenho, foram como presente de alguma data comemorativa. Claro, meus colegas e amigos sabem do meu amor por desenhos e HQ's, então, nunca compro nada porque sei que sempre irei ganhar alguma coisa.
"Onde você tá, L?!"
Camila. Eu estava a vendo, olhando atentamente para os lados enquanto deixa o celular próximo ao rosto, fazendo com que meu sorriso ampliasse pela cena. Sua expressão era calma, porém compenetrada. Levantei de onde estava, atrás de algumas moitas que não deixavam o vento gelado chegar. Seu olhar estava perdido quando pousou os olhos na minha direção, para em seguida, abrir um lindo sorriso.
— Hey, Lolo. — Sua voz estava animada, fazendo-me rir. Envolvi seu magro corpo num forte abraço, fazendo ambas suspirarem. As vozes, gritos de crianças, latidos e qualquer barulho que anteriormente estava ouvindo, sumiram. Parecia que o mundo havia parado e eu escutava apenas o coração de Camila perto da minha bochecha, enquanto minha cabeça estava enterrada no seu pescoço.
— Você veio apenas com essa camiseta?! — Fiquei preocupada com a roupa que ela escolheu para a passar algumas horas comigo antes da faculdade. Não estava frio mas o sol já havia desaparecido, e o vento que batia nos meus ombros era gelado. Apesar de estar de regata, trouxe minha inseparável jaqueta de couro preta.
— Deixei no carro! Só tem uma aula hoje e só bem tarde, então eu quase trouxe meu cobertor porque é frio de noite, mas mudei de ideia. — Sua risada ecoou em meus ouvidos, enquanto eu analisava seu rosto. Sem maquiagem alguma e mesmo assim estava linda!
— Você é maravilhosa... — Sua face ficou corada era extremamente adorável, mesmo eu nunca gostando de garotas fofinhas. Gosto de mulheres maduras e charmosas, que sabem o que querem. E Camila a era! E era muito mais.
— Para, Lauren... — Era primeira vez que a via tão envergonhada. Provavelmente porque agora não poderia fingir não me encarar, afinal, ela estava ali por minha causa! — O que viemos fazer aqui?! Pensei que iríamos sair tipo ir ao shopping comer alguma coisa...
— Ah, acredite em mim. Isso aqui é bem melhor. — Não conseguia parar de sorrir e me sentia boba por isso. Mas era a primeira vez que me sentia assim e estava gostando. Camila estava de jeans claro e regata larga, calçando um all star vermelho. Estava muito natural e tenho certeza... Me apaixonei ainda mais por ela vendo-a desse jeito.
Camila levava consigo apenas seu celular, que deixou no bolso de trás da calça e sua carteira, também no bolso. As chaves do carro estavam penduradas na frente da calça, o que deixava engraçado, pois eu olhava as chaves e seu abdome pouco a mostra também, fazendo-me lembrar que preciso ir com calma dessa vez. Normalmente, deixo a calma com as mulheres pra depois, pois apenas quero curtir aquele momento e nunca mais ver a pessoal depois disso, e sempre foi assim. Com homens é até pior, porque eles fazem o mesmo mas querem meu telefone depois, apenas pra, talvez, lembrar que estou disponível pra quando quiserem, o que não é verdade. Gosto de sentir corpos contra o meu mas apenas quando EU quero. E com Camila, eu... ah, eu queria apenas o corpo dela. Mas por inteiro, todo dia, todo segundo.
— Então quer dizer que fez tudo isso pra mim, é?! — Poderia jurar que vi seus olhos brilhando, mas prefiro acreditar que ela gosta de comer. Não quero me precipitar. Nunca tive meu coração partido e não quero ter agora. Não com ela.
— Espero que goste. — Sentamos próximas uma a outra, por cima da parte da toalha que não estava coberta de comida, o que era difícil. Eu realmente comprei bastante coisa!
— Você gosta de HQ's?! — Dessa vez seus olhos realmente brilharam! E aposto que os meus também.
— Amo. Cresci lendo e vendo desenhos... só não me faça escolher entre Marvel ou DC, por favor. — Sua risada, definitivamente, é quase uma... geleia para meus ouvidos. Adoro geleia.
— Não faria isso com você, apesar de, claramente, Marvel ser a melhor. — Camila conseguiu ser provocativa, mesmo falando de HQ's. Como isso é possível?!
— Ah, não irei discutir isso com você, temos coisas melhor pra fazer! — Enquanto eu pegava um morango e passava na manteiga de amendoim, sentia seu joelho em minha perna. Assim que virei meu rosto, Camila me roubou um beijo rápido e com gosto de hortelã. Dei meu melhor sorriso do tipo sacana e provocativo e segui seus olhos, que desciam pelo meu corpo, estudando minha linguagem corporal. Coloquei o morango na boca, com a parte do amendoim virada para fora da boca e apontei a parte com um dedo.
Nunca fui de precisar de atenção, pois sempre soube como prender os olhares a mim, mas com Camila era diferente. Ela chegou de mansinho, colocou suas mãos de cada lado da minha bochecha, prendendo meu rosto entre suas mãos firmes e delicadas, beijou a ponta do meu nariz e em seguida, mordeu um pedaço do morango.
Não sei o que deu em mim, mas apenas com seu toque no meu nariz, meus sentimentos começaram a inflar e encher todo meu corpo, e de repente, senti uma lágrima descendo pelo meu rosto.
— Lauren...?! — Sua voz ficou ainda mais mansa e baixa. Fechei meus olhos com força, sentindo seus dedos em meu rosto, limpando a lágrima. Maldita hora pra ficar sensível!
— Desculpe, Camz. É... eu sou meio complicada, sabe?! — Abri os olhos e vi sua feição calma e seu olhar seguro e sereno. Tinha decidido no dia anterior, contar minha história pra ela. Afinal, se ela quiser mesmo se relacionar comigo, uma hora ou outra, vai acabar descobrindo coisas que é melhor eu contar, pessoalmente.
— Sabe, Lauren, assim que te vi, me seduzindo e arrancando suspiros por onde passava, soube que não escolheu nada da sua vida pra você. Só... aconteceu, não é?! — Camila era mais esperta do que todas as pessoas que já passaram pela minha vida. Droga, por que ela?! — Quando te vi no ensaio, tentando me ensinar a dançar, eu... realmente cai aos pés. Você é incrível, Lolo. Mesmo não achando ser.
Nunca senti tanta vontade de chorar na minha vida. Nem quando sai de casa, nem quando perdi meu melhor amigo, nem quando fui agredida e quebrei a costela... Aqueles sentimentos eram tão novos que eu não sabia como lidar, e mesmo querendo desesperadamente que ela me abraçasse, estava com vergonha por parecer tão transparente.
— Ah, Camila... Olha, preciso ser sincera aqui, ok?! Nunca tive nenhum tipo de relacionamento sério e nem nunca me apaixonei! É a primeira vez que isso acontece comigo, e antes de te envolver ainda mais na minha vida, como fiz com Normani, eu preciso te contar algumas coisas. Algumas coisas nada legais, ok?! — Enquanto balançava afirmando com a cabeça, pegou minhas mãos nas suas. Senti algo como empatia, sem nem ao menos ter dito nada.
"Quando eu era pequena, meus pais viviam brigando. Muitos pais brigam, mas... meu pai bebia muito e batia na minha mãe. Tenho certeza que ela só não foi embora por nossa causa, os filhos. Mas chega uma hora que cansa, sabe?! Eu entendo o que ela fez, porque fiz o mesmo. Assim que fiz 16 anos, descobri que fui adotada. Meu... pai, acho. Esfregou isso na minha cara, então, pra não dar mais trabalho, eu conversei com meus irmãos e disse que ia embora. Nem me despedi de ninguém, apenas arrumei minhas coisas e pronto. Fiquei num albergue por alguns meses, até conhecer a Ally. Ela me salvou das ruas, porque eu havia conhecido algumas pessoas que... bem, eu não era ingênua, mas, sabe, acabei indo para o lado errado."
Ela não estava com expressão de choque nem nojo, por enquanto. Apenas apertava minhas mãos e balançava a cabeça, chegando mais perto de mim. Coloquei minhas pernas em cima das suas, ainda estando lado a lado com ela.
"Quando comecei no clube, ficava no bar. Tenho um dom com comidas e bebidas, modéstia parte. E todas as garotas menores de idade que entram no clube, começam ou como caixa ou como garçonete/bartender, mas mesmo assim, participamos dos ensaios, pois todas precisamos saber dançar, pelo menos. Fiquei um bom tempo dormindo na casa da Allyson, mas logo o pessoal apareceu. O pessoal que cobra, sabe?! Pela droga e tudo mais... Eu não uso mais! Só que fiquei um bom tempo devendo, então a Ally me ajudou. Quando disse a eles que tinha saído dessa vida, eles apenas riram e começaram a arrancar minha roupa. Foi a primeira vez que entendi que a maioria das strippers/dançarinas, são vistas como prostitutas. E acabei ficando como uma por alguns meses..."
Nessa hora, sim, sua expressão foi de surpresa.
— Nossa, sua vida é bem... corrida, hein?! — Pela sua expressão, achei que iria dizer algo sobre ser inapropriado para relacionamento, mas ri do seu comentário. Pelo menos, seu senso de humor realmente é muito engraçado.
— Não é mais. Tô limpa a 9 meses, só uso remédios para o estômago e bebo. Moderadamente, é claro! — Ela riu e me abraçou. Abraçou tão forte que era certeza: levaria um fora agora.
— Sinto muito por ter passado tudo isso, Lolo. Isso... ainda acontece?! Digo, alguma coisa dessas? — Ajeitei meu corpo em seu colo, pra fazer contato visual.
— Bom, o meu chefe... ficou realmente bravo por eu ter parado de fazer aquelas coisas com os clientes. Ninguém, fora a Allyson sabe, disso, Camz. Nenhuma delas faz e ninguém no clube é obrigada a fazer, só faz quem quer. Eu queria porque... sei lá, achava que faria algum sentido pra minha vida miserável. Nunca tive uma vida boa, nem com a família. Eles me excluíam e só meu irmão mais novo, realmente me amava. Nunca fui amada desse jeito, nunca, ninguém, demonstrou querer me ajudar de verdade, fora Ally. — Suspirei quando lembrei do tanto de coisas que Allyson fez por mim. Ela falava sempre em denunciar os traficantes que iam cobrar na porta da casa dela e me sentia culpada por tudo. — Eu não quero mais ninguém passando o que Ally passou pra me ajudar. Eu fugi da casa dela uma vez mas... ela me conhece melhor que ninguém. Prometi que ia andar na linha, por ela e por mim! E só quero... queria que soubesse que não quero você em encrenca. Eu entendo perfeitamente se disser não pra nós duas.
Desfez nosso abraço, começou a enrolar uma mecha do meu cabelo em seu dedo, enquanto pegava um morango. Passou no chocolate e colocou na boca. Fazendo uma pequena careta, beijou minha bochecha.
— Quero saber mais da sua vida, Lauren. Mas... senti falta de uma coisa. — Minhas sobrancelhas arquearam sozinhas, pois realmente fiquei surpresa pela tentativa de mudar de assunto.
— Não faço ideia do que é, Mila.
Mal acabei de dizer a frase e senti um puxão em minha nuca. O gosto do azedo com o amargo do chocolate fez contraste com o gosto natural de seu beijo, me fazendo suspirar, enquanto meu corpo relaxava. Puxei seu corpo magro para mais perto do meu, fazendo que seu gemido encontra-se o meu e ambos arrepiassem nossos corpos.
— Ah, Camz... — Tentava dar um pouco de razão para todo aquele calor e pensar como uma pessoa normal, mas tudo que estava na minha cabeça naquele instante era sua boca perto da minha orelha, gemendo meu nome bem baixinho. Dane-se a pergunta e dane-se a certeza.
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