Singelas Ameaças
7 Joker
Notas iniciais
O sentimento era quente, fazendo todo meu corpo relaxar. Mesmo com a faladeira no banco de trás, entre Dinah e Sofi, eu dirigia tranquilamente, com um pequeno sorriso nos lábios. Talvez fosse cedo mas eu realmente gostava de Lauren. Não era como se fossemos completamente estranhas uma para a outra, porque em pouquíssimo tempo, a intimidade que conseguimos, uma para com a outra, era até de assustar. Nunca tive muitos amigos, nunca fui muito sociável, apesar de ser sempre a brincalhona em qualquer grupo que esteja. E apesar de tudo isso, Lauren fazia com que meu corpo e minha mente não parece de pensar nela. Foi algo do nada e por isso, talvez, me assustou, mas eu sinto que é algo certo. Algo que devo me entregar, mesmo tendo medo.
— Parece que alguém também teve uns bons pegas, hein, Dinah?! — Talvez eu finja que não ouvi isso. Sofi é bem nova para essas coisas.
— Pode ter certeza, Sofi. — Pelo retrovisor, consegui fazer contato visual com Dinah. Ela havia contado alguns detalhes mais suaves para o Sofi, que ficou muito brava por ser a última a saber de tudo e ficou mais brava ainda por eu não contar que havia conhecido e gostado de Lauren. Irmãs.
— Quando vou conhecer minha cunhada, huh?! — Minha irmã adolescente está realmente muito abusada, apesar de crescida. E é muito cedo para dizer o que será de mim com Lauren, porque como Dinah disse antes, posso ser só uma brincadeira para Lauren.
— Talvez quando eu a conhecer melhor, Sofi. Como foi a aula?! — As duas reviraram os olhos e sentaram-se direito no banco de trás do carro, pois ambas sabiam que aquilo significava um ponto final no falatório sobre o assunto.
O caminho da escola de Artes e Danças não era tão longo até nossa casa, então conversamos amenidades no caminho e quando chegamos, tinha um bilhete grudado na porta de madeira. Um aviso. Nossos pais deixaram de herança para mim (e Sofi) praticamente tudo que conquistaram na vida. Ambos eram advogados e tinham uma carreira invejável. Conquistaram uma casa enorme na qual moramos, um loft à dois quarteirões daqui e uma casa de praia, perto do lago que sempre passamos nossas férias. Fora os carros e a moto, que nunca ninguém mexeu. Entretanto, depois que eles se foram, todas as responsabilidades foram, primeiro, para os meus avós e depois, legalmente, para mim. Meus avós são doces e muito prestativos! Nos ajudam mais do que deveriam, porém, quem organiza todas as coisas e todo o dinheiro que recebemos, sou eu. E eu esqueci do maldito loft.
Com tantas contas para organizar e pagar, acabei não colocando a conta na agenda e o aviso dizia que já estava atrasada por dois meses e que a luz do lugar seria cortada em breve. Sofi ficou preocupada pois nunca virá atraso nas contas em todos os anos que estavam sozinhas, porém, depois de tranquilizada por Dinah, pediu por pizza no jantar. Contanto que eu escolha, ótimo.
Antes de ter tempo de me preocupar, o som de um miado me assustou. Uma nova mensagem.
"Mas que merda você fez? Não paro de pensar em você."
Lauren.
— Hm, parece que alguém esqueceu das contas pelo amor, Sofi... — DJ. Quando essa garota quer ser chata, ela consegue.
— Vai se ferrar, Dinah! — Deixei minha bolsa na mesa de canto da sala e fui para a cozinha, pegar o número do telefone da pizzaria Cantos, nossa preferida.
"Isso porque quem rebolou na minha frente, foi você."
Depois de responder a mensagem, liguei para pizzaria e pedi duas pizzas gigantes e uma garrafa de 3 litros de refrigerante. Ouvi Sofi gritando da sala que queria calabresa e Dinah gritando do quarto e descendo as escadas com pressa, pra dizer que quer frango. Uma de cada, eu sempre como qualquer coisa.
— Dinah! Precisamos conversar! — Ouvi os passos dela pararem no meio da escada quando eu acabei o pedido e lhe gritei. Essa frase nunca é boa, principalmente quando eu a digo. E ela sabe disso! Seus passos foram mais rápidos do que antes para voltar lá pra cima, para o quarto. Revirei os olhos e digitei uma mensagem para o contato 'BIGASS', dizendo que só precisamos conversar pois irei precisar de ajuda com o loft.
"DJ, eu só preciso de um auxílio. Que tal alugar o loft por alguns meses?"
Era uma saída para todas as contas e também, eu não precisaria me preocupar em verificar como estão as coisas no loft, pois apesar de um apartamento, o lugar é enorme! Nunca usamos muito o espaço, pois crescemos na casa e já estávamos acostumadas com isso. Principalmente depois que Dinah veio morar conosco.
"Ótima ideia, Mila. Vamos anunciar apenas na faculdade, porque seria mais fácil do morador do loft falar conosco, caso precise. E temos que ir até lá, verificar se tá tudo bem, retirar as coisas que pertencem a vocês e organizar tudo."
Dinah realmente pegou a ideia bem rápido. Se tudo desse certo, poderíamos arrumar o loft no final de semana e já colocar um anúncio na parede da faculdade na segunda-feira. O mais difícil seria convencer Sofi que isso será melhor, pois ela não gosta de dividir nada do que é seu e sempre que tínhamos que visitar nossos avós por muito tempo, dormíamos no enorme apartamento.
— Mila?! — Acabei me concentrando tanto no meu celular que nem reparei que Sofi estava perto de mim. Levei um susto quando ouvi sua voz tão perto. — Sabe, eu estava pensando que, talvez, eu pudesse me inscrever num problema de trainee's que tem na escola de dança. O que acha?!
Eu sabia que uma hora ou outra, Sofia iria querer ajudar financeiramente. Ela é ainda mais teimosa do que eu!
— Sofia, já conversamos sobre isso. Faça seus cursos e quando tiver tempo suficiente, trabalhe. Um trainee ás vezes recebe pouco demais para tudo que faz. — Ambas suspiramos, por motivos diferentes, mas principalmente, por falta de paciência sobre o assunto.
— Tá bem, mas quando eu fizer 16 anos, não vai me impedir de procurar um estágio na academia de dança, ok?! Combinadas? — Sou protetora demais com minha irmã mais nova, porém, preciso admitir que ela está crescendo. Alguns meses atrás, iria fazer um escândalo e querer brigar, porém, agora quer apenas um acordo.
— Você não quer ensinar matemática profissionalmente?! — Ela revirou os olhos e estendeu a mão. Isso realmente foi um acordo mudo de que ela decide o que fará profissionalmente e quando quiser minha opinião, irá pedir. — Ok. Combinado.
Pouco depois de todas estarem de banho tomado, o entregador bateu na porta. Sofi foi correndo para a minha bolsa, pegou minha carteira e tirou o dinheiro, levando até o entregador. Como sempre, colocou o troco dentro do próprio bolso e nos trouxe as pizzas e o refrigerante. Comemos assistindo uma série britânica de televisão sobre assassinos em série. Novamente, o som do miado fez-se presente e olhei o visor do meu celular. 20 horas e 43 minutos.
"Hey, será que pode me encontrar na praça dos estudantes daqui 15 minutos? Preciso conversar."
O que Lauren precisaria conversar a essa hora da noite que não poderia ser por uma ligação?!
"Claro."
— Meninas, vou precisar sair por alguns minutos... — Dinah engasgou com um pedaço de pizza e Sofi abriu a boca, sem ter certeza do que dizer. Eu não costumo sair de noite por nada, apenas com elas. Encarei as duas enquanto pegava um casaco no armário de casacos. — Lauren.
Se entreolharam e começaram a rir. Riam como se eu tivesse contato uma piada do Cosby ou algo assim. Revirei os olhos e subi depressa as escadas, pegando a primeira calça jeans que vi pela frente, em cima da cama. Desci as escadas procurando meu tênis converse e achei perto da cozinha. Peguei minha carteira e as chaves reservas do lado do aquário falso.
— Eu não demoro, suas tolas. — E ainda estavam rindo quando fechei a porta e permiti soltar o riso também. Realmente, as coisas podem mudar de um dia para o outro, mas o que importava agora e o que não saia da minha cabeça era que precisava chegar logo ao parque, pois deve ser algo realmente importante e urgente.
A praça não ficava perto de casa, então demorei quase 20 minutos dirigindo pois eu não tinha noção do quão ruim é o trânsito nesse horário, porém, assim que cheguei, peguei um pequeno canivete que meu avô me deu, por segurança. Nunca fui muito fã de sair a noite, pois coisas perigosas acontecem. Como ficar esperando numa praça quando todos os estabelecimentos normais já estão fechados e no relógio já marca 21:54.
Fiquei esperando Lauren até quando meu medo e frustração falaram mais alto do que minha paciência. Levantando do banco da praça, olhando ao redor e não encontrando mais nada do que vento frio e as luzes da praça, ouvi o barulho de um graveto sendo quebrado. Meus pelos ficaram eriçados por medo e retirei o canivete do bolso do meu jeans. Dei dois passos para frente e logo ouvi um choro baixinho. Não um lamento normal, mas um choro de desespero. Desespero por estar sozinho e com frio.
Embaixo de algumas folhas de árvore, estava um filhotinho de cachorro, chorando e tremendo de frio e provavelmente fome. Andei com cautela até o lugar e me abaixei, percebendo que na verdade, estava chorando pelo corte que tinha em sua barriga.
Tirei meu casaco, sentindo realmente o frio da noite, embrulhei o pequenino em meus braços. Era tão indefeso e tão novo para estar abandonado... Realmente fiquei preocupada com o cachorrinho todo sujo de sangue que corri para o carro. Colocando o pequeno embrulho no banco do carona, peguei meu celular. 22 horas e 17 minutos e nenhuma mensagem ou ligação perdida. Bufei e comecei a dirigir para uma clínica veterinária 24 horas e mesmo com frio, entrei na recepção gelada.
— Olá, eu acabei achando esse pequeno machucado numa praça. Será que pode me ajudar?! — A recepcionista vestida inteiramente de verde olhou atentamente para o pequeno embrulho em meus braços e, mesmo que o cãozinho estivesse sujo de sangue, percebi que seus pelos eram totalmente brancos.
— Acho que parece mais grave do que realmente é, porém vou assegurar que o veterinário de plantão venha depressa. — A jovem mulher me encaminhou para um quarto com alguns materiais de emergência e pediu para que colocasse o cachorrinho na maca a frente. Enquanto esperava a mesma chamar o veterinário, examinei o pequeno e percebi que estava também sujo de terra misturada com sangue. Precisava de um banho.
— Olá, senhorita. Melanie me passou a situação. Sou Esteban. — Totalmente de branco e com um jaleco bordado com alguns detalhes azuis, apertou minha mão e começou a examinar o pequeno. Comecei a explicar a situação de como o encontrei e o mesmo disse que precisaria apenas de dar um banho no cachorro antes de fazer o curativo. Nem precisaria de levar pontos.
Enquanto fazia a ficha técnica com a recepcionista Melanie, encarava o celular de segundos em segundos. Mandei uma mensagem para Dinah, explicando porque demorava tanto e outra para Lauren, perguntando o que havia acontecido.
— O pequenino passa bem, senhorita Camila. Pretende deixá-lo para a adoção?! — Nunca havia tido nenhum animal de estimação e sempre desejei ter um gato, apesar de ser alérgica, porém, uma companhia a mais nunca seria demais. Ainda mais uma companhia deste tipo, que irá conquistar as meninas em casa.
Sorrindo, neguei a pergunta e disse que cuidaria dele. O médico disse que a consulta em si, por ser emergencial, custaria menos do que o costume, porém, o mesmo teria que tomar vacinas para garantir a saúde e o estado do pequeno, então, propus a fazer uma ficha especial, para tornar-me cliente.
— Prontinho, Camila. Está de banho tomado, com todas as vacinas em dia e com o curativo que só precisará ser trocado daqui 3 dias. — Doutor Esteban me entregou o embrulho que estava limpo, cheiroso e dormindo. Seus pelos realmente eram brancos, porém, tinha uma mancha muito charmosa perto da boca, que deixava-o sorridente.
— Agora só precisa efetuar o pagamento e batizá-lo assinando os termos e colocando o nome na linha pontilhada. — Li os termos e assinei o contrato. Na linha pontilhada escrevi Joker e assinei o plano básico de saúde para o pequeno. Efetuei o pagamento do plano durante um mês e da consulta junto com as medicações, agradeci ambos e me direcionei para o carro, segurando com cuidado o pequeno bebê, que descobri ter apenas 3 meses e era uma mistura de Corgi com Yorkie-Shire.
Antes de ir para a casa, passei numa loja especial para cães e gatos e comprei ração e pedacinhos de carne e frango ao molho para filhotes e alguns brinquedinhos, junto com uma coleira e uma pequena cama verde. Quando voltei ao carro, Joker ainda estava dormindo e até roncava, fazendo uns barulhos engraçados.
Na porta de casa, peguei o filhote nos braços com cuidado para não acordá-lo e ouvi o miado, significando uma nova mensagem. Empolgada de como as garotas iriam reagir, abrir a porta de casa e acionei o alarme do carro estacionado na rua. Ambas estavam absortas assistindo algo na TV e apenas viraram os rostos quando ouviram a porta fechar.
— O que é isso, Mila?! Por que demorou?! — Dinah levantou do sofá, quase derrubando Sofi que estava deitada em seu ombro. Joker fez um barulho de choro e Dinah soltou um grito, assustando Sofi que veio correndo ao nosso encontro.
— Apresento a vocês o novo integrante da família. Joker! — Tirei o casaco de seu rosto e ambas soltaram suspiros. Certeza de que iremos mimá-lo bastante, ainda mais por ser um pequeno bebê fofo.
— Mila, você é demais! Já disse que te amo?! — Sofi ficou animada com o filhote e pegou o embrulho no colo, com cuidado para não acordar o pequeno. Enquanto explicava a situação para Dinah, deixando alguns detalhes de lado, ouvi novamente o miado que acabou acordando Joker, animando Sofi.
Duas novas mensagens.
"Como assim?!" — "Camz? Do que tá falando?"
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