Sing of the times
9 Skyfall
Notas iniciais
Capítulo 10: Skyfall
“This is the end... Hold your breath and count to ten.”
Faltava apenas uma semana para o voo de volta para Nova York, mas para Bella e Edward, o calendário corporativo parecia um conceito abstrato e distante. Em Londres, o tempo havia se dobrado. Eles não estavam mais vivendo um caso de hotel; estavam habitando a rotina de um casamento que fora interrompido há dez anos e que, agora, retomava seu curso com uma naturalidade avassaladora e perigosa.
LONDRES — 08:30 AM
O quarto de Bella no The Savoy, não era mais apenas dela. O cheiro de Edward estava em cada lençol, em cada canto. Ele estava sentado à beira da cama, usando os óculos de leitura enquanto revisava os contratos finais da fusão, enquanto Bella, vestindo apenas uma de suas camisetas pretas, estava deitada em seu colo. Ela sentia a mão dele percorrer seus cabelos em um carinho rítmico, um gesto tão doméstico que doía.
— Você precisa de mais café? — ela perguntou, a voz sonolenta, olhando para ele de baixo.
— Preciso que você não se mova — ele murmurou, beijando o topo da cabeça dela sem tirar os olhos dos papéis. — E preciso que você me conte mais sobre a aula de balé da Charlotte. Você disse que ela odeia o coque?
— Detesta. Ela diz que o cabelo dela quer ser livre — Bella riu baixo, e Edward sorriu, decorando cada detalhe da vida da menina. Ele não perguntava como um estranho; perguntava como quem já estava construindo um lugar para ela em sua mente.
Eles dividiram o café da manhã na cama, discutindo detalhes técnicos da Swan & Cullen entre beijos e risadas. Bella escolheu o vinho para o jantar daquela noite automaticamente, sabendo exatamente a safra que ele preferia. Era uma felicidade absoluta, mas era uma felicidade construída sobre o gume de uma lâmina.
O celular de Edward, vibrando sobre o edredom, cortou a bolha.
CAROLINE.
Bella ficou tensa imediatamente, mas Edward não recuou. Ele não se levantou, não foi para o banheiro, não se escondeu. Ele atendeu ali mesmo, na frente dela, reafirmando a escolha que fizera.
— Oi, Caroline — ele disse, a voz calma. Calma demais.
Do outro lado, a voz de Caroline chegou quebrada, carregada de um desespero que atravessava o oceano.
— Edward... eu não aguento mais esse silêncio. Eu sinto que estou gritando em uma sala vazia. Talvez... — ela soluçou, esperando uma negação, um protesto. — Talvez a gente devesse se divorciar.
Bella prendeu a respiração. Edward olhou nos olhos de Bella enquanto respondia.
— Eu quero o divórcio, Caroline.
Houve um silêncio absoluto na linha. O tipo de silêncio que precede o colapso de um edifício. Caroline percebeu instantaneamente. Não houve hesitação, não houve "vamos conversar quando eu voltar".
— É ela, não é? — Caroline perguntou, a voz agora fria como gelo. — Você está apaixonado por ela de novo?
Edward respirou fundo, a mão ainda entrelaçada nos dedos de Bella.
— Eu nunca deixei de estar.
NOVA YORK
Caroline desligou e, minutos depois, estava no apartamento de Stefan. Mas desta vez, a dor dela não buscou apenas consolo físico; ela buscou justiça.
— Ele desistiu do nosso casamento como quem desliga uma luz, Stefan — ela disse, andando de um lado para o outro. — Ele nem sequer tentou mentir.
Stefan congelou. Ele conhecia o irmão. Se Edward parara de mentir, era porque a verdade já era sólida demais para ser escondida. Ele pegou o telefone e convocou Alice, Rosalie e Emmett.
Na sala de estar de Stefan, o clima era de velório. Alice estava sentada em um canto, os olhos marejados.
— Eles voltaram — Alice disse em voz alta, a primeira a admitir o que todos temiam. — Londres não é mais uma viagem de negócios. É o começo do fim.
— Ela está destruindo a vida dela! — Rosalie explodiu, furiosa. — O Damon ama aquela mulher. A Charlotte adora o pai. Como a Bella pode ser tão egoísta? O caos vai vir com eles naquele hangar, e vai sobrar para todos nós limparmos o sangue.
Emmett, geralmente o alívio cômico do grupo, estava em um silêncio sepulcral. Ele olhou para as próprias mãos, ciente de que, quando os dois voltassem, a família Cullen e o clã Swan nunca mais seriam os mesmos. A bomba agora tinha um cronômetro, e o tempo estava correndo rápido.
LONDRES
Horas depois, em Londres, Bella e Edward estavam em um momento de intimidade profunda, rindo baixo entre os lençóis após fazerem amor. O clima era de entrega total até que o celular dela brilhou.
DAMON (VIDEOCHAMADA).
Bella se ajeitou rapidamente, puxando o lençol. Edward permaneceu ao seu lado, imóvel, observando. Ela atendeu.
— Oi, Damon... — a voz dela soou defensiva desde a primeira sílaba.
Damon apareceu na tela. Ele parecia exausto, com olheiras profundas.
— Você anda difícil de encontrar, Bells. Quatro ligações perdidas? — ele perguntou, o tom leve, mas os olhos inquisidores.
— Estamos na reta final da fusão, Damon. É muita pressão.
Charlotte pulou no colo do pai, interrompendo.
— Mamãe! O Edward ainda está cuidando de você? Ele está aí? Ele prometeu!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Damon olhou para a câmera, a expressão mudando de cansaço para uma desconfiança aguda. Ele sentia a presença de outra pessoa no quarto. O espaço que Bella ocupava na tela parecia pequeno demais, como se ela estivesse tentando esconder alguém.
— O Edward está aí, Bella? No seu quarto? — Damon perguntou, a voz perigosamente baixa.
— Estamos trabalhando juntos, Damon! — ela respondeu rápido demais. — Temos prazos, eu já te disse...
— No seu quarto? — Damon explodiu, a voz subindo. — Desde quando reuniões de diretoria acontecem na sua cama às dez da noite? Você acha que eu sou idiota?
Charlotte, assustada com o tom do pai, começou a chorar. O som do choro da filha foi como uma facada em Bella. Damon engoliu a seco, fechando os olhos por um segundo para se controlar na frente da criança.
— Conversamos quando você voltar — ele disse, com uma frieza que Bella nunca ouvira. — Se você voltar.
A ligação caiu. Bella olhou para a tela preta, sentindo que o chão havia sumido.
— Você acha que eles sabem? — ela perguntou, a voz trêmula, olhando para Edward.
Edward levantou-se e foi até a janela, observando as luzes de Londres que começavam a parecer distantes, como se o céu estivesse prestes a cair.
— Ainda não — ele respondeu, sem se virar. — Mas eles vão. E quando souberem, não sobrará nada do que deixamos para trás.
Mas, enquanto olhava para o reflexo dela no vidro, Edward se perguntava se eles seriam fortes o suficiente para suportar o peso do mundo que estavam prestes a esmagar.
O silêncio que se seguiu ao encerramento da ligação de Damon não era o silêncio confortável dos dias anteriores. Era um vácuo. O choro de Charlotte ainda ecoava nas paredes do quarto, um som agudo que parecia ter rasgado a última camada daquela fantasia londrina.
Bella permanecia estática, o celular ainda pressionado contra o peito, os olhos fixos em um ponto invisível no tapete. Edward estava parado a poucos metros, as mãos mergulhadas nos bolsos da calça, a mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar.
— Ela ficou com medo da voz dele — Bella sussurrou, a voz desprovida de qualquer emoção, como se estivesse em choque. — O Damon nunca grita. A Charlotte nunca ouviu o pai falar daquele jeito.
Edward desviou o olhar para o chão, sentindo o peso daquela constatação.
— Porque nós transformamos o pai dela em um homem desconfiado, Bella — ele respondeu, a voz rouca e carregada de uma lucidez cruel. — Nós estamos alterando a natureza dele à distância.
Bella finalmente olhou para ele, e o que Edward viu não foi paixão, mas uma angústia pura e cortante.
— Isso não é mais sobre nós, Edward! Não é sobre o que a gente sente ou sobre o quanto a gente esperou. Eu não posso destruir meu marido e traumatizar minha filha porque nós decidimos que nos amamos de novo! Eu não posso condenar a infância dela para salvar o meu coração.
— Então o que você quer que eu faça? — Edward deu um passo à frente, a voz subindo, perdendo o controle pela primeira vez. — Que eu volte para Nova York e aperte a mão dele? Que eu finja que não te encontrei de novo? Que eu passe os próximos dez anos olhando para você através de mesas de conferência e morrendo um pouco a cada dia?
— Eu quero respirar sem sentir que estou condenando todo mundo ao redor de mim! — Bella gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Toda vez que você me toca, eu sinto que estou roubando o oxigênio da minha filha. Eu amo você, mas eu estou começando a odiar quem eu me tornei aqui.
Edward parou, o peito subindo e descendo com força. Ele se aproximou até ficar a centímetros dela, os olhos verdes ardendo em desespero.
— Eu já perdi você uma vez, Bella. Eu vivi dez anos no automático, sendo um fantasma. Eu não sobrevivo a uma segunda perda. Se para te ter eu tiver que carregar a culpa de ser o vilão da história, então que seja. Mas eu não vou deixar você ir de novo.
Bella soltou um soluço quebrado e se afastou, correndo para o banheiro. Ela trancou a porta e se apoiou na pia, respirando fundo. Quando se olhou no espelho, o que viu a aterrorizou: apesar dos olhos inchados e da dor, ela parecia viva. Sua pele tinha cor, seu olhar tinha um brilho que Nova York nunca conseguira extrair. Ela era a pior versão de si mesma diante da moral do mundo, mas era a versão mais verdadeira que já existira.
NOVA YORK — 22:30 PM
Damon Salvatore estava sentado na poltrona da sala, no escuro. Ele não ligou as luzes. Ele estava reassistindo, em sua mente, cada segundo daquela ligação. Ele via o modo como Bella segurava o lençol. O modo como os olhos dela buscavam algo fora do enquadramento da câmera. O modo como ela ficara defensiva rápido demais.
Ele sabia. Ele a conhecia melhor do que qualquer um. Bella nunca soubera mentir para ele, porque nunca precisara.
Ele caminhou até o quarto de Charlotte. A menina dormia agarrada ao urso de pelúcia, com o rosto ainda marcado pelo rastro das lágrimas de susto. Damon sentou-se na beira da cama, observando o pequeno milagre que eles haviam criado juntos.
— Você acha que a mamãe sente saudade da gente, Lottie? — ele perguntou em um sussurro, sem esperar resposta.
Mas a menina se mexeu, os olhos entreabertos pelo sono.
— Acho — ela murmurou, a voz miúda. — Mas ela sorri diferente em Londres, papai. O sorriso dela lá é... maior.
Damon sentiu o ar sumir dos pulmões. Ele beijou a testa da filha e saiu do quarto, sentindo o peso de uma verdade que ele ainda não tinha coragem de nomear.
LONDRES — 03:00 AM
O silêncio voltara a reinar na suíte, mas era um silêncio exausto. Edward encontrou Bella dormindo no sofá da sala de estar, encolhida em posição fetal. Ela chorara até apagar.
Mesmo depois da briga, mesmo com a barreira invisível que a culpa erguera entre eles, Edward não conseguiu ignorá-la. Ele pegou uma manta de lã e, com uma delicadeza quase dolorosa, cobriu o corpo dela. Ele ficou ali por um longo tempo, apenas ouvindo a respiração dela, ciente de que cada batida do coração de Bella agora era um passo em direção ao precipício.
Bella abriu os olhos lentamente, encontrando o olhar dele na penumbra. Ela não se moveu.
— Como a gente para isso, Edward? — ela perguntou, a voz seca.
Edward a observou como se estivesse diante da própria sentença de morte, ciente de que já haviam cruzado a linha de onde não se volta jamais.
— Eu não acho que a gente queira parar, Bella. Esse é o nosso maior crime.
Ele se sentou no chão, ao lado do sofá, e ela estendeu a mão para tocar os cabelos dele. Estavam brigaos, estavam destruídos, mas eram incapazes de existir sem o contato um do outro. A queda livre havia começado, e nenhum deles pretendia abrir o paraquedas.
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