Notas iniciais
Oi, pessoal. Antes de começarmos, queria fazer um pequeno aviso sobre este capítulo. A partir daqui, a história entra em territórios mais pesados. Alguns dos temas que serão abordados nos próximos capítulos envolvem abuso psicológico, relacionamentos tóxicos, obsessão, manipulação emocional e os efeitos que essas situações causam não apenas nas vítimas, mas também nas pessoas ao redor delas. Quero deixar algo muito claro: este capítulo não foi escrito para romantizar comportamentos abusivos. O Damon desta história não está agindo assim porque "ama demais". O que estamos vendo é alguém que deixou o amor se transformar em posse, controle e obsessão. E essas coisas não são amor. Sempre gostei de escrever personagens complexos, falhos e humanos. Personagens capazes de amar profundamente, mas também capazes de tomar decisões terríveis quando estão machucados. Talvez este seja um dos capítulos mais dolorosos que já escrevi para esta história. Espero que vocês gostem da leitura. E, como sempre, obrigada por continuarem aqui. 🖤

Capítulo 14

“I wish you loved me less... I wish I loved you less.”

(Less, Olivia Rodrigo)

A quietude que se instalou sobre a suíte master da mansão Salvatore após as três da manhã não trazia o benefício do descanso; trazia apenas o peso da contagem regressiva. O silêncio ali não era ausência de som, mas um acúmulo de respirações contidas, de passos que evitavam as arestas dos móveis e de olhares que se cruzavam na penumbra com a precisão de lâminas afiadas.

Bella permanecia sentada na beira da cama, os pés descalços tocando o tapete de pelagem escura, os olhos fixos na fresta de luz que vinha do corredor. Ela não se movia. Sabia que qualquer alteração no ritmo de sua respiração seria detectada por ele. Damon não dormia. Ele permanecia na poltrona de couro ao canto, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, os olhos azuis opacos fixos na silhueta da esposa. Havia um copo de cristal sobre a mesa de apoio, o uísque intocado há horas, apenas o gelo derretendo lentamente e transformando-se em uma poça de água morna.

A dinâmica da casa havia mudado de forma irreversível nas últimas quarenta e oito horas. Não existiam mais os gritos daquela primeira noite de retorno, nem os copos estilhaçados contra o mármore da cozinha. O que restara no lugar do caos barulhento fora uma estrutura de controle milimétrica, silenciosa e absoluta. Damon descobrira que a melhor forma de manter Bella sob custódia não era trancando as portas, mas tornando-se a única sombra capaz de segui-la em cada milímetro de sua existência.

A manhã seguinte começou com a mesma encenação meticulosa que Damon vinha aperfeiçoando. Quando Bella desceu as escadas, com o rosto pálido e os olhos marcados pela falta de sono crônica, encontrou a mesa do café da manhã posta. Charlotte já estava sentada, balançando as pernas curtas enquanto comia panquecas. Damon estava ao lado dela, limpando o canto da boca da filha com um guardanapo de linho, o semblante sereno, o tom de voz suave.

— Bom dia, meu anjo — Damon disse, levantando-se no instante em que Bella pisou no último degrau. Ele caminhou até ela, envolveu sua cintura com um braço firme e depositou um beijo demorado em sua têmpora. Para quem olhasse de fora, era a imagem de um marido devotado cuidando de uma esposa exausta. Para Bella, era a pressão exata de um aviso: eu ainda estou aqui. Eu sempre estarei aqui.

— Você precisa comer, Bells — ele continuou, puxando a cadeira para ela com uma cortesia impecável. — Eu notei que você mal tocou no jantar ontem. O Charlie me disse que a fusão está exigindo muito de você, mas eu não posso deixar que você se destrua pelo trabalho. Eu cuido de você.

Bella sentou-se, sentindo o estômago revirar. Ela olhou para o prato e depois para Charlotte, que a observava com os olhos curiosos, semicerrados.

— Você está triste de novo, mamãe? — a voz pequena da menina cortou o ar da sala de jantar como um estilete.

Damon soltou uma risada baixa, uma música leve que não combinava com o frio de seus olhos, e acariciou os cabelos da filha.

— A mamãe só está cansada, Lottie. O trabalho em Londres foi muito pesado. Mas o papai está aqui agora para garantir que ela não precise carregar tudo sozinha. Não é, Bells?

Bella forçou os lábios a subirem em um simulacro de sorriso, sentindo as unhas cravarem-se na palma das próprias mãos por baixo da mesa.

— Sim, querida. O papai está cuidando de tudo.

O terror daquela nova fase não residia na violência explícita, mas na distorção da realidade. Damon transformara a proteção em uma arma de isolamento. Quando saíram para a empresa, ele não permitiu que ela dirigisse. Sentou-se ao lado dela no banco de trás do carro corporativo, mantendo a mão espalmada sobre a coxa dela durante todo o trajeto, um peso constante, uma lembrança física de sua posse.

Na sede da Cullen-Swan Group, o comportamento dele seguiu o mesmo padrão doentio. Damon entrava na sala de Bella sem bater, instalava-se no sofá de canto com seu notebook e passava horas fingindo revisar relatórios, enquanto seus olhos monitoravam cada ligação que ela atendia, cada e-mail que ela abria. Se um assistente entrava para entregar papéis, Damon levantava-se imediatamente, pegava os documentos antes que chegassem às mãos de Bella e agradecia com uma simpatia exagerada.

— Minha esposa anda esquecendo de almoçar — ele explicou a uma das secretárias da diretoria, que sorriu, encantada com a "preocupação" do executivo. — Preciso vigiar cada passo dela para ter certeza de que ela está bem.

Todo mundo via amor. Todo mundo via o par perfeito tentando superar o estresse de uma grande transição empresarial. Bella, no entanto, via as paredes de sua cela estreitarem-se a cada minuto. Ela não conseguia ir ao banheiro sem que, ao abrir a porta para sair, encontrasse Damon encostado na parede oposta do corredor, mexendo no celular com uma calma aterrorizante, esperando por ela.

Aproximadamente às duas da tarde, durante o intervalo entre duas reuniões de comitê financeiro, Damon foi chamado por Charlie para assinar uma série de garantias bancárias no andar da presidência. Foram os primeiros quinze minutos de isolamento que Bella obteve em dias.

Com as mãos trêmulas e a respiração curta, ela caminhou rapidamente em direção à área técnica do arquivo morto, um setor raramente visitado no subsolo do edifício. Ela precisava de ar. Precisava de um segundo onde a sombra de Damon não estivesse projetada sobre sua pele.

Ao empurrar a porta de metal pesado, ela congelou. Edward estava lá.

Ele parecia ter envelhecido cinco anos em uma semana. O terno cinza-escuro parecia ligeiramente largo em seus ombros, o cabelo acobreado desalinhado pela mania constante de passar as mãos entre os fios em momentos de crise. Quando os olhos verdes dele encontraram os dela, a dor que emanou de sua expressão foi quase insuportável para Bella.

Edward deu dois passos rápidos e a puxou para trás de uma das estantes de arquivos de aço. Ele a prensou contra o metal, mas não havia a urgência luxuriosa de Londres; havia o desespero de um homem que estava assistindo à mulher que amava sumir diante de seus olhos sem poder intervir. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares traçando as olheiras profundas que a maquiagem não conseguira ocultar.

— Você está desaparecendo, Bella — Edward sussurrou, a voz rouca, os olhos varrendo cada centímetro do rosto dela. — Ele está te matando aos poucos dentro daquela casa e eu sou obrigado a assistir a tudo de longe, fingindo que sou apenas o CEO da empresa parceira. Eu vou acabar com isso. Eu vou até a polícia, eu chamo os advogados hoje, eu não me importo com o escândalo...

— Não! — Bella segurou os pulsos dele, o pânico brilhando em seu olhar. — Você não entende, Edward. Se você fizer isso, ele cumpre a promessa. Ele entra na justiça com o histórico de Londres, ele usa a influência que tem com os juízes conservadores que conhecemos e ele tira a Charlotte de mim. Ele me disse... ele me jurou que me deixa livre, mas o preço é nunca mais ver a minha filha acordar.

Edward fechou os olhos, encostando a testa na dela, os corpos tremendo em uníssono. O cheiro dele ainda era o mesmo de Londres, o mesmo da faculdade, o norte que ela sempre buscara. Mas agora, aquele norte parecia apontar para um penhasco.

— Você está se afastando de mim, Bella — ele constatou, e a vulnerabilidade na voz dele quebrou o que restava da resistência dela. — Nas reuniões, você nem sequer olha na minha direção. Você aceita os toques dele, você se cala. Você... você está desistindo de nós?

As lágrimas de Bella finalmente transbordaram, molhando os dedos de Edward. Ela balançou a cabeça negativamente, soltando um som abafado, uma mistura de soluço e dor.

— Não... eu nunca seria capaz de desistir de você, Edward. Esse é o meu castigo.

— Então por que você está fugindo? Por que parece que existe um oceano entre nós de novo?

Bella olhou bem no fundo dos olhos dele, e a revelação que saiu de seus lábios teve o peso de uma sentença de morte para o romance deles.

— Porque eu queria amar você menos, Edward.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. O som do sistema de ventilação do subsolo parecia o único sinal de vida no ambiente. Edward recuou um milímetro, a expressão paralisada pelo choque daquelas palavras.

— O quê? — ele perguntou, como se o conceito fosse estrangeiro demais para sua mente.

— Eu queria amar você menos — ela repetiu, a voz quebrando em pedaços. — Se eu amasse você menos, eu não teria ido àquela cafeteria em Londres. Se eu amasse você menos, eu não saberia o sabor da sua boca, eu não saberia como é a sensação de estar viva de verdade. Se eu nunca tivesse te amado com essa intensidade doentia que me consome há dez anos, a minha filha estaria dormindo em paz no quarto dela agora. O Damon não estaria quebrando por dentro, o meu pai não estaria carregando a vergonha de ter uma filha adúltera, e eu não estaria sentindo que preciso escolher entre o meu destino e o ar que a minha filha respira. Eu amo você tanto... tanto que isso está destruindo todas as pessoas que confiaram em mim. Eu só queria... eu só queria que esse amor fosse menor. Mais fraco. Mais fácil de abandonar.

Edward permaneceu estático. Ele compreendeu imediatamente a dimensão do estrago. Bella não estava sendo afastada por falta de sentimento; ela estava sendo esmagada pelo próprio excesso dele. O amor que eles guardaram como uma relíquia sagrada por uma década havia se transformado na força gravitacional que estava despedaçando o mundo ao redor deles.

Antes que ele pudesse responder, o som de passos firmes ecoou no corredor externo do arquivo. A maçaneta de metal girou.

Bella empurrou Edward para trás da divisória de aço com uma força que vinha exclusivamente do pânico e deu três passos em direção à entrada, fingindo procurar uma pasta de documentos antigos.

A porta abriu. Damon estava lá.

Ele olhou para Bella, depois os olhos azuis varreram o espaço escuro entre as estantes. Ele não viu Edward, mas a atmosfera pesada da sala não passou despercebida por seus instintos predatórios. Ele caminhou até ela com passos lentos, pegou a pasta vazia da mão dela e a jogou sobre a mesa mais próxima.

— O arquivo morto é um lugar muito frio para você, Bells — ele disse, o tom de voz calmo, o sorriso intocado. Ele pegou o queixo dela entre o polegar e o indicador, forçando-a a olhar para cima. — O seu pai está nos procurando para o fechamento da ata. Vamos. Não queremos deixar os outros esperando por nós.

Ele a conduziu para fora. Edward permaneceu nas sombras, ouvindo o som dos passos de Damon se afastando, sentindo que a sua própria alma estava sendo arrastada junto com ela.

No final da tarde, após Damon ter sido obrigado a descer até o pátio de cargas para supervisionar a chegada de um novo maquinário tecnológico da Swan Atlantic — uma tarefa que ele se recusara a delegar apenas para demonstrar controle total sobre a operação —, Charlie Swan entrou na sala de Bella.

Ele fechou a porta com força e puxou as cortinas de rolo, bloqueando a visão dos corredores de vidro. Charlie não parecia o presidente da ala Swan; ele parecia o pai que passara as últimas noites sem conseguir encarar o próprio espelho.

Ele caminhou até a mesa da filha e bateu com as duas mãos na superfície de madeira.

— Olhe para mim, Isabella — ele ordenou, a voz grave, desprovida da autoridade corporativa, preenchida apenas por uma angústia paternal antiga.

Bella levantou os olhos devagar.

— Quando foi a última vez que você dormiu mais de duas horas seguidas? — Charlie perguntou.

Bella não respondeu. Ela tentou desviar o olhar, mas ele a segurou pelos ombros.

— Quando foi a última vez que você comeu algo que não fosse empurrado por obrigação na frente da Charlotte? Quando foi a última vez que você sorriu sem que parecesse que estava sendo ameaçada por uma arma invisível, Bella?

— Pai, os negócios... a transição com os Cullen... — ela tentou usar a velha desculpa corporativa, mas Charlie a cortou com um som amargo.

— Esqueça os Cullen! Esqueça a porcaria da empresa! Eu passei a minha vida inteira empurrando você e o Edward para dentro de contratos, tentando salvar o legado deste sobrenome, e agora eu olho para a minha única filha e vejo um fantasma ambulante. O Stefan me contou o que o Damon está fazendo dentro daquela casa. Ele me contou sobre as ameaças em relação à custódia da Lottie.

Bella desabou. Ela escondeu o rosto nas mãos, os ombros sacudindo enquanto o choro que ela contivera o dia inteiro diante de Damon finalmente vinha à tona. Charlie a puxou para um abraço apertado, o mesmo abraço que ele dava quando ela era apenas uma menina assustada com as tempestades em Forks.

— Ele não vai tirar ela de você, Bells. Eu sou o avô daquela menina, eu tenho o nome mais antigo deste setor, eu conheço cada brecha da lei neste estado. Se o Damon Salvatore acha que pode usar a minha neta como uma coleira para manter você prisioneira de um casamento morto, ele vai descobrir que eu posso destruir a carreira dele antes que ele consiga assinar a petição inicial.

— Você não entende, pai... — ela soluçou contra o paletó dele. — O Damon mudou. Ele não está fazendo isso por raiva da traição. Ele perdeu o controle. Ele passa as noites em claro olhando para mim. Ele sabe cada passo que eu dou. Se eu tentar fugir, ele destrói tudo. Ele destrói a si mesmo, mas nos leva junto. Ele está doente.

Charlie fechou os olhos, sentindo o peso da própria culpa histórica esmagar seu peito.

— Nós criamos isso, Bella... Se eu tivesse deixado você e o Edward dez anos atrás... se eu não tivesse sido um velho ganancioso...

— Não importa mais o que aconteceu há dez anos — Bella disse, afastando-se e limpando o rosto com as mãos trêmulas. — O passado não pode nos salvar agora. Nós estamos colhendo o que plantamos na escuridão.

Do outro lado da cidade, no escritório particular de Stefan, a situação não era menos dramática. Stefan entrou no ambiente e encontrou Damon sentado no sofá. As luzes estavam apagadas. Havia três garrafas vazias de uísque no chão.

Damon não se barbeara nos últimos três dias. A camisa estava amassada, os olhos azuis injetados de sangue pela falta de sono crônica, as olheiras escuras dando a ele a aparência de um homem que estava sendo consumido por uma febre interna. Toda a sua vida, o trabalho na Salvatore Tech, os amigos, os jantares sociais, havia sido abandonada. O seu universo inteiro havia se reduzido a um único objetivo: monitorar a órbita de Isabella Swan.

Stefan acendeu a luz da luminária de mesa, revelando a decadência física do irmão.

— Quando foi a última vez que você fez alguma coisa que não envolvesse vigiar a Bella, Damon? — Stefan perguntou, a voz carregada de uma mistura de pena e repulsa. — Olhe para você. Você está se destruindo para manter uma mulher que não quer estar ao seu lado. Isso não é mais um casamento. É um hospício.

Damon soltou um riso curto, asfixiado, e olhou para o irmão com uma fixação perturbadora.

— Você não entende o que é construir uma vida em cima de uma única certeza, Stefan. A Bella era a minha paz. Quando o mundo inteiro era um caos, quando a minha mente estava um inferno, eu voltava para casa e ela estava lá. Ela era o meu centro. Agora que ela tentou tirar isso de mim... agora ela vai ser o meu inferno. Eu não tenho uma vida depois da Bella, Stefan. Se ela me deixar, o homem que eu sou morre. E eu garanto a você que não vou para o túmulo emocional sozinho.

Stefan deu um passo atrás, o coração acelerando de medo real. Ele percebeu, naquele instante, que não estava mais lidando com um irmão ferido pelo orgulho ou pela dor da traição. Estava lidando com alguém que sofrera um colapso de identidade total. Damon fundira sua existência de tal forma à de Bella que a separação funcionava como uma amputação fatal em sua mente.

— Você precisa de ajuda, Damon — Stefan disse, a voz trêmula. — Isso que você sente não é amor. É possessão. É uma doença.

— Chame do que quiser — Damon respondeu, levantando-se com dificuldade, mas mantendo o olhar fixo na janela que dava para as luzes de Manhattan. — Mas ela continua sendo minha esposa. E o Edward Cullen vai ter que passar por cima do meu cadáver se quiser assinar o nome dele nos documentos da minha filha.

A noite chegou com o mesmo frio cortante que vinha do Atlântico. Na mansão, Bella estava sentada no chão do quarto de Charlotte, ajudando a filha a guardar os brinquedos antes de dormir. Damon estava no andar de baixo, trancado no escritório, o silêncio dele sendo mais ameaçador do que qualquer barulho.

Charlotte caminhou até a pequena mesa de desenho e pegou duas folhas de papel craft. Ela voltou para perto de Bella e estendeu as folhas com as mãos pequenas.

— Eu fiz na escola hoje, mamãe — a menina disse, a voz inocente, alheia à tragédia que se desenrolava acima de sua cabeça.

Bella pegou os papéis. O primeiro desenho mostrava três figuras feitas com giz de cera: uma mulher de cabelos longos e castanhos, um homem de cabelos escuros e jaqueta preta, e uma menina menor entre eles. Acima das figuras, a caligrafia trêmula da professora havia escrito: Mamãe, Papai e Charlotte.

O segundo desenho era diferente. Havia a mesma mulher e a mesma menina, mas o homem ao lado tinha cabelos claros, usava um terno escuro e sorria com traços mais suaves. No canto da folha, a própria Charlotte havia tentado escrever o nome: Edward.

Bella sentiu o ar sumir dos pulmões, o papel parecendo queimar seus dedos.

— A professora disse que cada criança só pode pendurar um desenho na parede do mural da família — Charlotte explicou, olhando para a mãe com uma pureza devastadora. — Ela disse que a família é o lugar onde a gente se sente segura e feliz. Qual deles é o certo, mamãe? Qual eu devo pendurar no mural amanhã?

Bella abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Suas cordas vocais pareciam paralisadas pela brutalidade daquela pergunta. O desenho do pai representava a segurança, a estabilidade, a infância intacta da filha. O desenho de Edward representava a verdade de sua própria alma, o amor que resistira ao tempo, mas que trazia consigo o preço do caos.

Ela não conseguiu responder. Apenas puxou Charlotte para o seu colo, escondendo o rosto no pescoço da filha, chorando em silêncio para que a menina não percebesse que a sua mãe era a pessoa que estava destruindo o teto que as protegia.

À meia-noite, Bella estava deitada na cama do quarto de hóspedes, uma concessão que Damon fizera sob a justificativa de que ela precisava "descansar do estresse do trabalho", mas mantendo a porta do quarto aberta para que ele pudesse monitorar o corredor.

A escuridão era total. O silêncio da casa era quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de parede. Com as mãos trêmulas por baixo do edredom, Bella pegou o celular. A tela brilhou, ferindo seus olhos acostumados com a penumbra.

Ela abriu a conversa criptografada com Edward.

Seus dedos hesitaram sobre o teclado por longos minutos.

“Talvez a gente devesse parar. Talvez Londres tenha sido apenas um erro bonito”, ela digitou.

Ela olhou para as palavras na tela, sentindo uma dor física no peito, e apagou tudo.

Digitou novamente:

“Eu amo você mais do que a minha própria vida. Eu sinto sua falta a cada segundo.”

Ela releu a frase. Lembrou-se do rosto de Charlotte perguntando qual era o desenho certo. Lembrou-se do olhar de Damon no arquivo morto. Apagou novamente.

Finalmente, com as lágrimas escorrendo livremente pelas laterais de seu rosto e molhando o travesseiro, ela enviou apenas uma linha seca, desprovida de poesia, preenchida apenas pela exaustão de quem já não tinha mais forças para lutar contra a maré:

[Bella]: Eu não sei mais como salvar todo mundo.

Ela bloqueou a tela e colocou o aparelho contra o peito, fechando os olhos, esperando pelo vazio.

Três minutos depois, o celular vibrou. O visor iluminou a escuridão do quarto.

[Edward]: Talvez a gente não consiga salvar todo mundo, Bella.

Uma segunda mensagem chegou logo em seguida:

[Edward]: Mas eu ainda quero tentar salvar você. Mesmo que o preço seja eu terminar em pedaços no final.

Bella virou-se de lado, encolhendo as pernas contra o peito, e abafou o som de seu choro contra o travesseiro. Ela finalmente compreendera a mensagem mais terrível daquela música: o problema não era que ela amava Edward Cullen apesar do perigo; o problema era que ela o amava exatamente na mesma intensidade devastadora que sempre amara, desde o primeiro dia na faculdade, desde a primeira troca de olhares no hangar há dez anos.

O amor deles não havia diminuído com o tempo, não havia enfraquecido com a distância, não havia se tornado mais fácil de abandonar. Ele continuava sendo um incêndio incontrolável, e a maior tragédia era perceber que, para manter aquela chama acesa, eles teriam que assistir ao mundo inteiro ao redor deles virar cinzas.

Notas finais
🖤 Notas Finais Eu acho que este foi um dos capítulos mais difíceis de escrever. Não pela quantidade de drama. Mas porque, pela primeira vez, ninguém está realmente lutando por amor. Bella está lutando pela Charlotte. Edward está lutando pela Bella. Charlie está lutando pela filha. Stefan está lutando pelo irmão que está desaparecendo diante dos seus olhos. E Damon... Damon está lutando contra a própria incapacidade de aceitar a perda. Talvez a cena que mais me machucou não tenha sido nenhuma das discussões ou ameaças. Foi Charlotte perguntando qual desenho era o certo. Porque crianças têm uma forma cruel de encontrar a verdade sem procurar por ela. E, naquele momento, Bella percebe que não existe mais uma escolha capaz de deixar todos felizes. Também quis trabalhar um tema que considero muito importante: violência psicológica nem sempre se parece com violência. Às vezes ela chega disfarçada de cuidado. Disfarçada de preocupação. Disfarçada de amor. E é justamente isso que a torna tão difícil de reconhecer. O título "Less" representa exatamente o coração deste capítulo. Bella não quer amar Edward menos porque deixou de amá-lo. Ela quer amar menos porque o amor se tornou pesado demais para carregar e talvez essa seja uma das tragédias mais humanas que existem. Obrigada por lerem até aqui. Estamos entrando na reta final dessa história. E prometo que o pior, ou o melhor, ainda está por vir. Nos vemos no próximo capítulo. 🖤