Sing of the times
14 The Winner Takes It All
Notas iniciais
Capítulo 14:
“The gods may throw a dice, their minds as cold as ice... And someone way down here loses someone dear. The winner takes it all, the loser has to fall. It’s simple and it’s plain, why should I complain?”
(The Winner Takes It All- ABBA)
O ar na sala de reuniões subterrânea da mansão de Carlisle Cullen parecia, pela primeira vez em meses, limpo de suspeitas. Não havia espaço para discussões sobre o passado, nem espaço para o julgamento moral que quase despedaçara a família dias antes. O relógio de parede marcava quatro da manhã. Sobre a mesa de carvalho, mapas rodoviários, horários de voos privados fretados sob pseudônimos corporativos e as credenciais de segurança para o grande evento de gala da Cullen-Swan Group que aconteceria naquela noite no Lincoln Center.
Edward permanecia de pé, os braços cruzados sobre o peito, os olhos verdes fixos no plano traçado por Jasper e Stefan. Ao seu lado, Bella mantinha as mãos unidas no colo, os nós dos dedos brancos pela tensão. O cansaço físico era evidente em suas feições, mas havia um brilho diferente em seu olhar — a faísca quase esquecida da esperança.
— O plano é simples, e a execução precisa ser cirúrgica — Jasper explicou, a voz baixa, o tom militarista que ele usava apenas em situações de gerenciamento de crise extrema. — O evento de gala terá mais de setecentos convidados, além da imprensa internacional e equipes de segurança privada. Damon estará sob os refletores. Ele passará a primeira hora da noite sendo o centro das atenções, consolidando a imagem pública da Salvatore Tech na fusão. É a nossa única janela de oportunidade.
— Eu tiro a Charlotte da mansão exatamente às oito e meia — Alice interveio, aproximando-se de Bella e tocando seu ombro com firmeza protetora. — Vou usar o pretexto de levá-la para o camarote infantil do evento mais cedo, mas o carro já estará com as malas prontas. Nós vamos direto para o hangar privado em Teterboro. O jato da Cullen Enterprise já estará com os motores ligados, registrado para um voo doméstico em direção a uma propriedade nossa no Alasca, mas o plano de voo real será alterado no ar para o Canadá.
Bella olhou para Stefan, que permanecia encostado na parede, o semblante carregado de uma melancolia profunda. Ele estava traindo o próprio irmão, mas sabia que aquela era a única forma de evitar uma tragédia de proporções inimagináveis.
— Damon não desconfia de nada nessa linha — Stefan disse, a voz rouca. — Ele acha que tem o controle absoluto porque instalou um sistema de monitoramento no seu celular, Bella. O que ele não sabe é que o Jasper clonou o sinal do seu aparelho. Durante o evento, nós vamos manter o sinal do seu celular ativo dentro do Lincoln Center, flutuando entre as salas VIPs, mesmo depois que você já tiver saído pelas portas dos fundos.
Edward finalmente se moveu, agachando-se em frente a Bella. Em dez anos, ele nunca estivera tão perto de tê-la de volta por inteiro. Ele pegou as mãos dela entre as suas, ignorando a presença dos outros na sala.
— Você só precisa aguentar mais algumas horas, Bella — Edward sussurrou, os olhos fixos nos dela, injetando uma determinação que ela precisava desesperadamente. — Vista o vestido, sorria para as câmeras ao lado dele na entrada, e às nove horas, quando a apresentação principal da fusão começar no palco, você caminha em direção ao lounge de imprensa. Eu estarei esperando na saída de serviço com o carro. Nós pegamos a Lottie e nunca mais olhamos para trás. Não haverá juiz em Nova York que possa nos alcançar antes de formalizarmos a custódia em solo internacional.
Bella engoliu em seco, sentindo o coração bater forte contra as costelas. Sabia o tamanho do risco: estava fugindo do país levando a filha que tivera com Damon, mas a obsessão dele e o ambiente asfixiante daquela casa não deixavam outra alternativa. A imagem de uma vida livre parecia, finalmente, real.
— Eu vou conseguir — Bella respondeu, a voz firme, embora o corpo ainda tremesse levemente. — Eu vou fazer exatamente o que foi planejado. Por favor, cuidem da minha filha.
Charlie Swan, que observava tudo em silêncio perto da janela, aproximou-se da filha e beijou o topo de sua cabeça.
— Eu estarei no salão principal o tempo todo, Bells. Se o Damon tentar qualquer movimento fora do protocolo antes do horário, eu mesmo o intercepto. Vá se preparar. Esta noite termina o nosso cativeiro.
O Lincoln Center estava transformado em um palácio de vidro e luzes de neon azul. Os tapetes vermelhos estendiam-se pela praça, ladeados por centenas de fotógrafos cujos flashes espocavam contra a noite de Nova York como uma tempestade de estrelas artificiais. Os carros pretos de luxo blindados estacionavam em uma linha contínua, despejando a elite financeira, política e social do país.
Quando o carro da família Salvatore estacionou, os repórteres avançaram contra as cordas de isolamento. Damon desceu primeiro. Ele vestia um smoking feito sob medida pela Tom Ford, os cabelos escuros perfeitamente alinhados, a imagem perfeita do magnata da tecnologia no auge de seu poder. Ele contornou o veículo e abriu a porta para Bella.
Ela saiu do carro parecendo uma visão de pura elegância trágica. O vestido de seda verde-esmeralda moldava seu corpo esguio, mas a joia de diamantes em seu pescoço parecia mais uma gargantilha de prevenção do que um adorno. Ela sorriu para as câmeras — o sorriso mecânico que passara a semana inteira ensaiando diante do espelho do banheiro. Damon envolveu a cintura dela com o braço, puxando-a para tão perto que ela conseguia sentir o calor do corpo dele e o cheiro familiar de uísque e colônia cara.
— Você está deslumbrante esta noite, minha esposa — Damon sussurrou contra o ouvido dela, enquanto posavam para os fotógrafos na entrada principal. — O mundo inteiro está olhando para nós. Eles acham que somos invencíveis. E nós somos, não é?
— Vamos entrar, Damon. A imprensa está esperando — ela respondeu, mantendo os lábios esticados no sorriso falso, sentindo o estômago contraído pelo pânico.
Dentro do salão de mármore, a recepção estava lotada. Taças de champanhe circulavam em bandejas de prata, a música de um quarteto de cordas preenchia o ambiente de pé-direito alto, e as conversas cruzavam-se em um zumbido constante de milhões de dólares em negociações.
Edward estava do outro lado do salão, cercado por investidores europeus. Ele vestia um terno clássico, mantendo a postura impecável de um Cullen, mas seus olhos verdes cruzavam o espaço periodicamente, encontrando os de Bella com a precisão de um farol em meio à névoa. O plano estava em andamento. Faltavam apenas quarenta minutos para as oito e meia.
Stefan aproximou-se de Damon, que estava perto do bar de cristal, observando o movimento com uma calma que começou a incomodar o irmão mais novo. Não havia sinais da decadência física dos dias anteriores; Damon parecia revigorado, confiante demais, com um brilho de vitória antecipada nos olhos azuis que parecia gélido como o gelo das taças.
— Você parece calmo, irmão — Stefan disse, pegando um copo de água tônica, tentando sondar o terreno psicológico do mais velho. — Achei que a pressão da apresentação da fusão estaria te deixando tenso.
Damon soltou uma risada baixa, o som ecoando com uma leveza perturbadora. Ele girou a aliança no dedo esquerdo e olhou para Stefan como um semideus olhando para um mortal que tenta decifrar seus desígnios.
— Pressão, Stefan? Eu não sinto pressão quando o jogo já está ganho — Damon disse, a voz caindo para um tom confidencial. Ele inclinou-se ligeiramente na direção do irmão menor. — Você e o Edward acham que são muito espertos com esses movimentos de xadrez corporativo. Vocês acham que eu sou o tabuleiro. Mas esquecem que fui eu quem comprou o jogo.
Stefan sentiu os pelos dos braços se arrepiárem.
— Do que você está falando, Damon?
Damon deu um gole longo em seu uísque puro, o sorriso expandindo-se de uma forma que fez o estômago de Stefan despencar.
— Você realmente achou que eu não perceberia o plano B, ou o C, ou o D... enfim, você conhece o alfabeto inteiro, maninho. Eu sei que vocês têm um plano para esta noite. Eu sei que vocês acham que as peças estão posicionadas. Mas a diferença entre mim e o Edward Cullen é que ele joga para vencer o campeonato... e eu jogo para destruir o estádio se eu não puder ficar com a taça. Aproveite a música, Stefan. Ela está prestes a mudar de ritmo.
Damon deu um tapinha condescendente no ombro de Stefan e caminhou em direção a um grupo de senadores, deixando o irmão mais novo paralisado no meio do salão, o coração batendo em um ritmo frenético de puro terror.
Faltavam exatamente dez minutos para as oito e meia. Bella desculpou-se com um grupo de acionistas da Swan Atlantic e caminhou em direção ao lounge VIP dos fundos, fingindo que precisava retocar a maquiagem. Suas pernas pareciam pesadas, cada passo exigindo um esforço monumental de sua vontade.
Ao entrar no corredor de serviço que levava aos banheiros privados e aos camarotes da diretoria, ela sentiu uma súbita onda de calor subir pelo seu pescoço. Sua visão oscilou por um segundo, as luzes do teto parecendo distorcer-se em linhas alongadas de cor branca. Ela segurou-se na parede de gesso, piscando repetidamente.
— O que está acontecendo...? — ela murmurou para si mesma, sentindo uma secura instantânea na boca e um peso terrível nas pálpebras.
Glóbulos de suor frio brotaram em sua testa. Ela tentou pegar o celular na pequena bolsa de mão, mas seus dedos pareciam não responder corretamente aos comandos de seu cérebro. Os movimentos estavam lentos, totalmente descoordenados.
A porta do final do corredor abriu-se sem ruído. Damon entrou. Ele caminhava com uma precisão absoluta, os passos não fazendo som sobre o carpete escuro. Ele não parecia surpreso ao encontrá-la ali; ele era o arquiteto daquela armadilha.
— Você está um pouco tonta, não está, Bells? — a voz dele parecia vir de dentro de uma caixa de eco, distanciada, abafada pela névoa que estava se instalando na mente dela.
Bella tentou recuar, mas suas costas encontraram a parede. Suas pernas cederam e ela começou a escorregar em direção ao chão, mas Damon avançou com rapidez e a segurou pelos braços. O aperto dele era como algemas de aço.
— O que... o que você fez? — ela conseguiu balbuciar, as palavras saindo arrastadas, a língua pesada demais dentro da boca.
— O champanhe que o garçom te entregou logo após as fotos da entrada... uma dose sutil de um sedativo de ação rápida da Salvatore Tech. Nada que te machuque, meu anjo. Apenas o suficiente para desligar essa sua mente teimosa que insiste em tentar me deixar — Damon sussurrou perto do ouvido dela, o tom de voz calmo, uma doçura psicótica que a aterrorizou mais do que qualquer grito.
— A... Charlotte... — Bella tentou gritar o nome da filha, mas o som saiu apenas como um sopro fraco.
— A Charlotte já está no carro, Bells — Damon sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos mortos. — Eu mandei o motorista buscá-la na mansão às sete horas, antes mesmo de a Alice pensar em colocar o pé para fora de casa. Eu mudei os planos. Nós não vamos ficar para a apresentação da fusão. Nós vamos tirar umas férias em família. Só nós três. Longe do Edward. Longe de Nova York. Para sempre.
Bella tentou lutar, tentou empurrá-lo com as poucas forças que restavam em seus músculos, mas seu corpo parou de obedecê-la. Seus olhos reviraram para trás, a escuridão química do sedativo engolindo a última réstia de sua consciência enquanto ela desabava nos braços do marido.
Damon a ergueu sem esforço, jogando o corpo inerte da esposa sobre o ombro. Ele abriu a porta de saída de emergência que dava para o estacionamento privativo subterrâneo, onde um SUV de vidros totalmente escuros já estava com o motor ligado. Ele a acomodou no banco de trás, ao lado da cadeirinha onde Charlotte já dormia sob o efeito de um xarope calmante leve, e entrou no banco do motorista.
O carro acelerou em direção à saída, deixando para trás o Lincoln Center, as luzes da gala e o plano de fuga que virara poeira antes mesmo de começar.
As os oito e trinta e cinco chegaram. No hangar privado de Teterboro, Edward andava de um lado para o outro ao lado do jato executivo. O motor da aeronave emitia um zumbido contínuo, a tripulação estava pronta, os passaportes estavam sobre o balcão de atendimento.
O celular de Edward vibrou. Era Alice.
— Edward! — a voz da irmã veio em um tom de desespero assustador. — A Charlotte não está aqui! Eu entrei na mansão com o Jasper, mas o quarto dela está vazio. As roupas sumiram. O segurança da guarita disse que o Damon mandou um motorista particular buscá-la há mais de uma hora!
O mundo de Edward pareceu congelar. O ar desapareceu de seus pulmões.
— Como assim? E a Bella? Onde está a Bella?
— Eu não sei! O sinal do celular dela ainda está ativo no Lincoln Center, mas o Stefan disse que o Damon sumiu do salão principal há dez minutos! Edward, ele descobriu tudo!
Edward desligou o aparelho sem responder. Ele correu em direção ao seu carro esportivo, arrancando os pneus contra o asfalto do hangar com uma fúria cega. Ele ligou para Charlie, para Carlisle, para o serviço de segurança privada da família. A engrenagem da busca começou a girar no mesmo instante.
No Lincoln Center, o caos se instalou nos bastidores. Stefan, Charlie e Emmett invadiram o lounge de imprensa, mas encontraram apenas a bolsa de noite de Bella jogada no chão do corredor de serviço, com o celular clonado ainda emitindo o sinal de localização dentro dela. Damon havia deixado o aparelho para trás de propósito, uma provocação final.
Charlie Swan desabou em uma cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, o corpo do velho policial tremendo de puro terror por sua filha. Carlisle estava ao telefone com o chefe de polícia do estado, usando toda a sua influência para bloquear as saídas da cidade, mas Nova York era um labirinto vasto demais quando o sequestrador já estava com uma hora de vantagem.
— Ele levou as duas — Stefan disse, a voz sem vida, os olhos fixos no chão. — Eu conheço o meu irmão. Quando ele entra nesse estado de negação da realidade... ele não vai parar. Ele vai se esconder no único lugar onde ele acha que o mundo não pode alcaná-lo.
O som distante das ondas do Atlântico quebrando contra as rochas foi a primeira coisa que trouxe Bella de volta à superfície da consciência. A dor de cabeça era dilacerante, um latejar constante atrás de seus olhos que parecia acompanhar o ritmo de seu coração.
Ela tentou mover as mãos para massagear as têmporas, mas seus braços não se moveram. Havia uma restrição física rígida em seus pulsos.
Bella abriu os olhos abruptamente, o pânico limpando os últimos resquícios do sedativo de seu sangue. A visão focou lentamente. Ela não estava na mansão de Nova York, nem no apartamento de Londres. O teto alto de madeira rústica aparente e as grandes janelas de vidro que davam para um mar cinzento e tempestuoso identificavam o lugar imediatamente: a propriedade de veraneio isolada dos Salvatore nos Hamptons, uma casa construída em um penhasco privado, cercada por quilômetros de floresta e água.
Ela estava deitada na cama de casal do quarto principal. Seus pulsos estavam amarrados com tiras de couro grosso às colunas de madeira da cabeceira da cama. Suas pernas estavam livres, mas o vestido verde-esmeralda havia sido rasgado na lateral durante o transporte, expondo a pele pálida de sua coxa.
— Charlotte... — o grito saiu de sua garganta como um ganido de desespero. — CHARLOTTE!
— Ela não pode te ouvir, Bells. O quarto dela fica do outro lado da ala leste, e as paredes desta casa foram construídas com isolamento acústico duplo. Lembra? Fui eu quem projetou a reforma — a voz de Damon veio da poltrona perto da lareira apagada.
Ele estava sem o paletó do smoking. A camisa branca estava desabotoada até a metade do peito, as mangas dobradas, e ele segurava uma tira de couro semelhante à que prendia os pulsos de Bella. O rosto dele não tinha expressão. Não havia a fúria cega dos maridos traídos; havia apenas a frieza de um executor que determinara a sentença e agora ia cumpri-la com precisão matemática.
Ele levantou-se e caminhou até a beira da cama. O olhar azul varreu o corpo amarrado de Bella com uma mistura de posse e desprezo que fez o estômago dela contrair-se em um espasmo de puro terror físico.
— Por que você me obrigou a fazer isso, Bella? — he perguntou, a voz mansa, quase lamentosa, como se ele fosse a verdadeira vítima daquela situação. Ele sentou-se na beira do colchão, o peso de seu corpo fazendo a superfície afundar, aproximando seu rosto do dela. — Eu tentei ser o homem bom. Eu passei dez anos da minha vida construindo um império para te dar tudo o que o dinheiro podia comprar. Nós construímos uma vida aqui. Eu sou o pai da Charlotte, eu dei a ela o meu sangue, o meu sobrenome, o meu teto! E como você me recompensou? Fugindo para os braços do Cullen na primeira oportunidade em Londres. Mentindo para mim dentro da minha própria casa.
— Damon, por favor... me solta... a Charlotte precisa de mim — Bella implorou, as lágrimas escorrendo quentes pelas suas têmporas, misturando-se ao cabelo castanho desalinhado. — Não faz isso com a nossa família. Se você me odeia, me mata, mas deixa a nossa filha ir embora com o meu pai...
Damon esticou a mão e desferiu um tapa violento contra o rosto de Bella. O som do impacto estalou no quarto vazio. O rosto dela foi jogado para o lado, o lábio inferior partindo-se instantaneamente contra os dentes, o gosto metálico do sangue inundando sua boca.
— Cale a boca! — Damon sibilou, a voz finalmente perdendo a calma mecânica e revelando a monstruosidade que estava oculta por baixo. Ele segurou o queixo dela com os dedos cravando-se na carne, forçando-a a olhar para ele. — Não fale da Charlotte. Você não pensou nela quando abriu as pernas para o Cullen em Londres. Você não pensou no fato de ela ser minha filha quando planejou me deixar como um idiota no evento da empresa esta noite. Você achou que podia me roubar a minha família e depois me jogar fora como lixo?
— Damon... não... — Bella soltou um gemido de puro terror quando viu a intenção nos olhos dele.
O que se seguiu no quarto principal da casa dos Hamptons foi a consumação da promessa de destruição de Damon. Não houve romance, não houve paixão; foi um ato de pura violência doméstica, psicológica e física, focado na aniquilação da autonomia e da dignidade de Bella. Damon usou sua força física superior para subjugar o corpo da esposa, ignorando suas súplicas, transformando o quarto em um cenário de horror onde o controle coercitivo atingiu sua expressão mais brutal.
Cada toque dele era uma marca de propriedade; cada palavra sussurrada contra a pele dela durante a agressão era um lembrete de que, aos olhos dele, ela deixara de ser uma pessoa para se tornar o prêmio de uma guerra que ele se recusava a perder. Quando ele finalmente se afastou, deixando-a trancada e ferida na escuridão do quarto, a alma de Bella parecia ter sido reduzida a cinzas
O relógio marcava três da manhã quando Edward chegou à delegacia central de Manhattan, acompanhado por Carlisle e um batalhão de advogados. O rosto de Edward estava desfigurado pelo pânico e pela falta de controle. Ele avançou contra a mesa do delegado de plantão, sendo contido por Emmett e Jasper antes que cometesse uma agressão física contra a autoridade.
— O celular dele foi desligado na altura da ponte de Queensboro! — Edward gritou, a voz falhando pela exaustão e pelo desespero. — O carro sumiu dos radares das rodovias estaduais! Vocês têm que emitir um alerta de sequestro agora! A Bella está com ele!
— Sr. Cullen, legalmente o Sr. Salvatore ainda é o marido da Sra. Isabella e o pai legítimo da criança — o delegado explicou, tentando manter a calma diante do poder financeiro na sala. — Não há indícios de violência física no Lincoln Center. Para o sistema, eles simplesmente saíram mais cedo de um evento corporativo. É uma disputa familiar.
— Eu estou dizendo que a minha filha foi levada contra a vontade dela! — Charlie Swan interveio, batendo o distintivo de ex-chefe de polícia sobre a mesa com uma força que rachou o vidro de proteção do documento. — Se vocês não emitirem esse alerta em dez minutos, eu mesmo vou colocar a imprensa na porta desta delegacia e dizer que o departamento de polícia de Nova York está acobertando um crime por influência da Salvatore Tech.
Stefan entrou na sala correndo, o celular em mãos. O rosto do irmão mais novo de Damon estava pálido como o de um cadáver.
— Eu sei para onde ele foi — Stefan disse, chamando a atenção de todos na sala. — O departamento de monitoramento financeiro da Salvatore Tech acabou de registrar uma ativação automática do gerador de energia de emergência na nossa propriedade dos Hamptons. A casa está desativada para a temporada, o que significa que alguém entrou lá e ligou os sistemas principais manualmente. É ele. Ele levou as duas para o penhasco.
Edward não esperou a polícia. Ele virou-se e correu em direção à saída, seguido por Emmett e Jasper. A distância entre Manhattan e os Hamptons era de quase duas horas de estrada em condições normais, mas naquela noite, Edward dirigiria como se estivesse correndo contra a própria morte.
O silêncio voltou a se instalar sobre o quarto nos Hamptons, mas agora era o silêncio do pós-desastre. Bella permanecia deitada na cama, o corpo doendo em pontos que ela nem sabia que existiam, o lábio inchado, os pulsos em carne viva pelo esforço inútil contra as tiras de couro. A seda verde do vestido estava destruída ao seu redor, uma mortalha colorida de sua dignidade.
A tempestade do lado de fora havia começado. As gotas de chuva batiam contra o vidro das grandes janelas com a força de pequenas pedras, e os trovões faziam a estrutura de madeira da casa vibrar.
Seus olhos, acostumados com a escuridão, varreram o chão do quarto perto da cômoda de cabeceira. Entre a sombra do móvel e o tapete, algo pequeno e colorido chamou sua atenção.
Ela esticou o corpo o máximo que as amarras permitiam, sentindo a dor excruciante nos ombros, até que conseguiu tocar o objeto com a ponta dos dedos do pé e arrastá-lo para mais perto.
Era uma pequena pulseira de miçangas cor-de-rosa com letras de plástico que formavam o nome: LOTTIE. O fecho estava quebrado, como se tivesse sido arrancado do pulso da menina com pressa.
Bella fechou os olhos, um soluço silencioso rasgando seu peito. Charlotte estivera naquele quarto. Ela vira a mãe ser trazida desacordada, ou talvez tivesse sido arrastada dali antes de Bella acordar.
A verdade final e mais aterrorizante daquele cativeiro desabou sobre ela com a força de um raio: ela não era a verdadeira refém daquela propriedade. Damon não precisava de amarras de couro para mantê-la ali para sempre; ele só precisava manter Charlotte trancada em algum cômodo daquela casa imensa. Enquanto a filha legítima de Damon estivesse sob o controle dele, Bella caminharia para dentro de qualquer cela que ele escolhesse construir.
O som de passos pesados ecoou novamente no corredor de madeira do lado de fora. Passos lentos, ritmados, que pararam exatamente diante da porta do quarto principal.
A fechadura de metal girou pelo lado de fora com um estalo seco e definitivo. A luz do corredor projetou a silhueta longa de Damon contra o chão do quarto, a sombra dele estendendo-se até tocar os pés amarrados de Bella.
O vencedor havia levado tudo. e o preço daquela vitória seria cobrado em sangue antes que a noite terminasse.
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