Sine Cordi

24 Capíyulo 24 - כד


Notas iniciais
Capítulo bastante revelador... Eu acho. :

Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.”

– Platão -

Quinn sustentava a cabeça com as mãos apoiadas em cada lado da face, os cotovelos sobre a mesa do café da manhã. A expressão entediada irritou ainda mais a namorada quando um suspiro foi solto, reforçando o que o silêncio e o fingido olhar distante já demonstravam: aborrecimento em estado bruto. Alex só não lhe pulou ao pescoço porque a figura da advogada era a mais bela que seus olhos já viram. Os cabelos desalinhados, a pele alva da face sem mácula, os olhos escurecidos pelos cílios longos, a manga embolada do roupão mal arrumado sobre o corpo desnudo quase a empurravam para um abraço e um beijo de puro desejo. Raspou a garganta e insistiu em fingida calma:

“Quinn, você concordou que iria ver um médico!”

Os olhos verdes passearam do ponto distante para o oceano que eram os da oponente à frete (sim, neste momento Alex era uma oposição à sua tranquilidade, pensou Quinn).

“Eu vou...”, murmurou a escrutinar a cara bonita da editora de modas, fazendo-a remexer-se na cadeira, principalmente quando os olhos estancaram sobre os lábios e Quinn os estreitou para observar melhor, enquanto entreabria os próprios e umedecia-os com a língua.

“Santo Deus, Lucy Quinn Fabray! Quer olhar para os meus olhos?”

A loira obedeceu e respondeu:

“Eu estou...”, e voltou a estudar bem a mulher morena, dessa vez a estacionar os olhos no decote da camisa de botões que esta levava. Piscou algumas vezes ao se dar conta que a Bishop abotoou-a até o pescoço. Comentou, lógica:

“Estava tão mais interessante e alinhado...”

A morena não acreditou nos ouvidos...

“Você está zombando de mim?...”

“Nop! Estou sedo sincera... O decote estava elegante e charmoso.”

“Quinn, eu estou a falar da sua saúde e você fica a estudar o meu rosto como se houvesse alguma distorção rara e...”

“Distorção, não” — corrigiu — “harmonia! Perfeita, diga-se de passagem...”

“Você teve uma crise de...”

“Você sabia que as mulheres pestanejam duas vezes mais que os homens?”

A jornalista meneou a cabeça e fechou os olhos.

A advogada sorveu um gole do café, a segurar a xícara com as duas mãos. Pareceu à outra uma menina de cinco anos de idade.

“Baby, eu estou preocupada com você!”

“Por quê?”

“Porque você se sentiu mal e eu desejo que você vá ao médico e ainda não se mexeu para isso!”

“Porque estamos a tomar o café da manhã, Alex! E ainda é cedo! Agora, por favor...”, murmurou a parte final da oração a atrair a atenção da jornalista ainda mais, “você pode desabotoar o colarinho da blusa e coloca-la como antes?”

“Você teve uma crise de Ausência e está preocupada com o quão melhor a minha blusa ficará com o meu colo à mostra? Quinn! Logo o julgamento chegará e como você pensa se apresentar como representante convidada da Promotoria do Estado de Nova York? Deste jeito?”

“Claro que não, Bishop! Vou estar penteada, discretamente maquiada e... Eu ainda não me decidi por qual terno usar. Estou a pensar em comprar algo novo para o primeiro dia, o da estreia. Ah, claro! Eu não posso esquecer os sapatos e o perf...”

“Eu descobri sobre o que aconteceu com você! Tudo!” — cuspiu, sem paciência, a jornalista.

A advogada levou a xícara de café outra vez aos lábios e bebeu outro gole. Após, questionou como se fosse escutar a resposta sobre a razão da existência do Universo:

“Eu já lhe disse que no Antigo Egito matar um gato era um crime punido com a morte?”

A jornalista mordeu o canto direito do lábio inferior numa clara demonstração de paciência quase grau zero.

“E a traição? Como esta era punida?”

Quinn pareceu se animar:

“Bom, havia várias punições, desde a morte por apedrejamento e coisas do tipo. Ainda há países que apedrejam as mulheres que cometem o adultério, porém aqui em NY como em outros vinte e dois estados dos Estados Unidos o adultério é uma contravenção...”

“Eu sei, Quinn. Mas eu não estou a falar do país e – sim – de você!”

“Eu não lhe traí, Alex, querida.”

A editora bufou...

“Eu sei! Eu não disse que você traiu, Quinn! Eu só quero deixar claro que sei que você foi traída. Então, poderia, por gentileza, doar um pouco da sua atenção e seriedade para mim?”

“Claro! Mas...” — fez um adendo — “desde que falemos de assuntos interessantes. Ir à consulta médica é um assunto muito chato e eu realmente não desejo falar dele...”

“Eu só quero ficar tranquila quanto a você”, admitiu a Bishop.

“Pois fique! Eu já disse que irei até à desagradável consulta que você e o Sr. Holmes marcaram para mim. Aliás, obrigada por contar a ele o que aconteceu”, flauteou em acidez.

A jornalista derramou o olhar sobre a namorada.

“Eu fiz o que achei certo! E não vou debater sobre isso!”

Quinn voltou a beber um pouco mais do café. Deu por finalizada a conversa que em nada lhe apetecia. Já era bastante ter uma pequena crise às vésperas do julgamento. Não precisava de Alex Bishop a fazer ladainha sobre o que aconteceu. Principalmente por duvidar de que falaria com o cuidador sobre a crise que lhe acometeu...

Porém...

“Q, falar faz bem. Converse comigo!”

A loira se serviu de mais café e tomou de um pãozinho que recheou com uma fatia de presunto enrolada e outra de queijo. Mordeu e mastigou tranquilamente. A impressão que a jornalista teve era a de que a amante mascava o alimento em câmera lenta.

“Deus, às vezes você age como se tivesse dez anos de idade”, reclamou.

A advogada engoliu com a ajuda do café e, após se certificar de que não havia farelos em volta dos lábios com a língua, retorquiu:

“E você os meus dez anos vezes oito!”

A morena sorriu com desgosto. E com desgosto rebateu:

“Eu sei que você se sente melhor fugindo dos assuntos que lhe aborrecem com ataques grosseiros, mas eu não vou parar de insistir nas coisas que lhe atormentam sem alguma razão muito boa. Eu amo você e me preocupo!”

“Bishop, foi você que começou! Você disse que eu parecia ter dez anos de idade. Eu já lhe disse que irei à consulta! Não sei o que mais devo lhe falar. Quer que eu repita a informação em Espanhol, Francês, Italiano, Alemão ou, quem sabe, em Esperanto?”

“Não, Quinn! Obrigada pela ideia. Aliás, é uma ótima ideia! Vamos usa-la quando estivermos fazendo amor! O que acha”, indagou, pícara.

“Estivermos fazendo sexo...”, sussurrou a loira para si mesma e mordeu outro pedaço do pãozinho.

Alex a viu murmurar e, por isso, estancou. E pensou no que estava a fazer. Quinn era uma grande fujona quando o assunto era falar do próprio passado e Holmes lhe dissera que as coisas estavam equilibradas sem que este fosse trazido à tona. E concordou com ele... Por que espetar a namorada com isso? Estava zangada por ela nunca mencionar o que fez antes? Tinha o direito de se agastar com ela por não citar algo que lhe aconteceu antes de iniciarem a relação? Ou isso viria à luz conforme a confiança fosse consolidada ainda mais? Sabia que, por tática, nunca foi uma figura de presença constante ao lado da Fabray. Houve momentos que levaram até um mês sem se ver. Porém, estavam juntas há três anos! Juntas! Saiam juntas, conversavam, discutiam, faziam amor, tomavam banhos juntas, reclamavam de suas famílias, do trabalho, choravam juntas... Não, na verdade, ela – Alex Bishop – chorou, pois Quinn só fez isso pouquíssimas vezes e, mesmo assim, por motivo de dor física... Enfim, isso queria dizer alguma coisa! Correto? Então, por que Quinn ainda se mantinha muda, mesmo após receber a informação de que o seu passado com Rachel Berry já não era mais um segredo e muito menos o que aconteceu durante e após ele? O que mantinha a advogada tão cerrada quando este era o tema de um colóquio que, talvez, fizesse bem para ela ao desabafar? Falaria sobre ele na terapia?...

“Você fala sobre o que aconteceu com a Dra. Parker”, a pergunta saiu como um espirro – impossível de conter.

A loira engoliu o pão, bebeu um gole de café e fixou os olhos na face da inquisidora, rastreando-o enquanto respondia:

“Normalmente, em terapias, falamos sobre o que aconteceu. É difícil falar sobre o que acontecerá haja vista que não temos qualquer dom paranormal voltado à vidência.”

“Péssima piada, Fabray”, comentou – agastada – a jornalista.

“Não é uma piada, Alex. É fato!”

A morena realmente franziu o cenho, a pensar que a namorada estava a ser literal como de costume.

“Eu realmente não estou conseguindo lidar bem com o que eu soube Quinn”, concluiu.

A advogada preferiu silenciar. Não captara, ainda, qual era o objetivo da confusão verbal e emocional que a amante estava a fazer em plena mesa do desjejum.

“Quinn, você, por favor, pode conversar comigo?”

A Fabray limpou a garganta e replicou imparcial, “nós já estamos a conversar, Alex!”

“Eu sei... Mas não estamos a ter objetividade!”

“Oh, sim! Nisto eu concordo. Eu confesso que estou um tanto atrapada nesta horrível tentativa de diálogo”, confessou.

“Então, apenas converse comigo...”

“Eu já lhe manifestei que estamos a conversar, Alex!”

“Eu sei e entendi, embora discorde um pouco dos seus métodos de conversação...”

“Métodos?...”, a pergunta escapou dos lábios da loira em incrível grau de incredulidade.

“Sim, Dra. Fabray! Você usa o seu método de ‘desvio’: sempre a desviar quando o tema não lhe é de gosto.”

Quinn se fez de ressentida.

“Isso é tão cruel, Alex!”

A outra mulher não fez caso e tentou provar sua tese:

“Então... Fale comigo sobre Rachel Berry...”

Escutou o riso gostoso da loira antes da fala:

“Falar sobre a Srta. Berry?... Alex, a jornalista aqui é você! Diga-me!”

“Desvio número um...”, contou.

A advogada meneou a cabeça e riu mais.

“Isto não é para ser engraçado, Q!”

“Ok...”, endireitou o corpo a fingir interesse.

“Como você consegue lidar com tudo, com ela a lhe acossar, a falar coisas que... Que...”, não encontrou a palavra certa. Entretanto, a Fabray sim:

“Não importam.”

A jornalista se viu surpresa diante da definitiva da namorada, mas retrucou:

“Não mais para você, Quinn. Mas, para ela ainda sim.”

“O que é curioso...”, murmurou, “porque não deveria importar... Não é razoável!”

“Q, não é razoável para você! Pode compreender isso?”

A loira estudou em silêncio a face da outra mulher e meditou sobre a afirmação que lhe foi dada. Perguntou tranquila, após escanea-la rapidamente com os olhos:

“Você não vai mesmo desabotoar a blusa?”

A morena estancou confusa, até que se lembrou a que se referia a namorada e replicou:

“Desvio número dois... Estou a pensar em começar a lhe cobrar um dólar por cada desvio que você usar para escapar às respostas.”

A advogada riu outra vez e respondeu divertida:

“Eu não estou a desviar, Srta. Bishop! A sua teimosia em não se arrumar como antes é o que está a me desviar a atenção!”

“Quinn...”, começou a desabotoar os três primeiros botões da blusa social feminina que a deixava elegante e naturalmente sensual, “como consegue lidar com Rachel?”

“Simples: eu fiz uma síntese sobre ela e assim deixo que ela dirija a conversa...”

“Dirija a conversa?”

A resposta humilde da advogada a confundiu.

“Como assim, Q? Eu vi o estrago que fez nela. Como conseguiu tal feito se permitiu que ela conduzisse a conversa?”

Quinn sorriu com malícia e explicou, didática:

“Preste atenção: Rachel Berry é um rio; eu sou um barco a remo. Eu só preciso seguir a corrente com o cuidado de não ser tragada pela velocidade da mesma e nem me desviar para a esquerda ou para a direita.”

Alex sinceramente se sentiu imbecil neste momento. Parecia-lhe que a namorada estava a lhe explicar uma equação matemática muito complexa, apesar da forma como ela fez parecer simples.

“Perdão... Eu acho... Não! Eu não acho. Eu tenho certeza: entendi patavinas! Isso não é ‘assim de simples’!”

A advogada não objetou.

“Eu sigo a linha do discurso dela, Alex! O que mais quer que eu explique?”

“A ‘linha do discurso’?...”, tom de total incredulidade escapuliu pelos lábios da jornalista.

“É!...”, Quinn pareceu se lembrar de algo, “veja, baby: digamos que a Srta. Berry estava a conversar sobre um musical da Broadway de que eu só li uma resenha no jornal. O que e fiz foi prestar atenção ao que ela me dizia de novo para liga-lo ao que eu li, então eu só precisei colocar as minhas incertezas como afirmativas ou questionamentos que a fizeram crer que eu realmente assisti ao musical. No fim, eu só falei mal da atriz principal e ela se aborreceu.”

“Oh, meu Deus! Quinn! Você é um monstro”, exclamou sinceramente chocada com a revelação.

A loira não encontrou motivos para o susto da amante...

“Não exagere, Alex! Eu não cometi nenhum crime. Eu só segui a corrente!”

“Não! Você brincou com ela o tempo todo!”

Quinn discordou veemente:

“De forma nenhuma! Eu sei quem ela é. Só que nesta troca ela tem muito mais informações que eu. Aliás, a Srta. Berry tem informações espantosas! Informações que, de alguma forma, alguém se esqueceu de me dar!”

Alex sentiu que, de alguma forma, despertou uma coisa na indiferente Quinn Fabray: a curiosidade.

Não há segredos que o tempo não revele.”

– Jean Racine –

CONTINUA

Notas finais
Comentários? *-*