Sine Cordi
25 Capítulo 25 - ﬤﬣ
Notas iniciais
“O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.”
– Mahatma Gandhi –
Rachel estava deitada no sofá da imensa sala de sua cobertura, perdida em pensamentos sob o olhar de escrutínio do ex-marido, a passear os olhos sobre a sua agenda onde a nova secretária, com aspirações à Broadway, Kitty Wilde, anotou os compromissos da semana. Esta seria exaustiva! Havia entrevistas, sessão de fotografias para a revista Models...
“Ensaio fotográfico para a revista Models? Desde quando?” – sentou no sofá num pulo espantado.
Jesse, por sua vez, pulou de susto com a repentina atitude da esposa.
“Tudo bem, Star?”
“Não! Quando foi que eu aceitei fazer uma sessão de fotografias para a revista Models?”
O St. James fez cara de cego perdido em meio ao tiroteio e arriscou...
“Quando você e Alex Bishop conversaram no café?”
A judia mirou o homem e negou num balançar firme de cabeça. O homem murmurou, ainda completamente perdido:
“Oh!... Não!... Então... Como?”
“Eu não sei, Jesse! Qual foi a parte da minha surpresa diante do fato que você não capturou?”
Ele fechou os olhos, respirou fundo, aclarou as ideias ainda muito embaralhadas após o assalto que a ex-esposa lhe causou e, depois de uns segundos, verbalizou:
“Rachel, acredite quando eu lhe disser que a minha surpresa foi à custa da sua e, por isso, fiquei confuso. Agora, se você puder relaxar um pouco e relaxar também a postura de quem vai atacar um lobisomem de dois metros e meio de altura...”
Ela riu e ele também. E ela relaxou diante do ridículo da situação.
“Agora, sim, podemos falar sobre você ter consentido uma sessão de fotos para a revista Models e não se lembrar deste ato tão importante para a sua carreira artística”, Jesse falou.
Com os olhos ainda crescidos em tamanho por causa do espanto, a cantora redarguiu:
“Eu realmente não fui consultada sobre isso por Kurt ou Blaine! Como pode estar na minha agenda?”
“Pergunta que somente os dois podem lhe dar...”, observou ele, óbvio. Rachel assentiu e enfatizou:
“Por isso a minha surpresa, Jess! Eles nunca marcariam algo assim sem antes me consultarem. Eles sabem do cuidado que tenho em relação a que publicação ceder de bom grado e...”
“Pagamento”, acrescentou o homem.
Ela assentiu com um sorriso sapeca:
“E pagamento a minha saudável imagem!”
“De quem mais Kitty receberia esta informação para acrescentar à sua agenda, Rach-Rach?”
“Kitty existe para que algumas funções com relação à mídia possam ser intercambiada e negociada sem precisar que Kurt e Blaine se ocupem com os chamados... ‘Assuntos menores’!” – ela marcou com os dedos – “Mas, certamente, ela foi avisada por eles que, em caso de imagem e determinados temas de entrevistas, eu tenho que ser consultada...”
“Logo, ela fez isso porque considerou a revista Models um meio bom e eficaz para propagar a sua imagem. Garota esperta!”
Rachel teve que concordar. Ainda que tivesse que estar com Alex Bishop, não poderia negar o quão positivo seria um ensaio seu – troca muito justa – para a publicação. O único porém: a já pensada e citada e linda e charmosa editora de modas que namorava a mulher por quem ainda era desesperadamente apaixonada: Alex Bishop! Sempre ela!
E como se lesse seus pensamentos, o ex-marido observou:
“Alex não pode ser um empecilho, Star. Até porque ela não está a cometer crime algum por namora a Fabray, que não tem compromisso de qualquer espécie com você.”
“Obrigada por me lembrar, Jesse”, bufou a atriz que voltou a olhar a agenda. A face expressou concentração. Estava a pesar os prós e os contras de um encontro com a Bishop? Por quê? Ela foi gentil no café, quando Quinn foi o oposto! A mente voou até aquele momento, em que conversaram...
"você não sabe tudo, Quinnie! E não está dentro de mim para saber como me sinto!".
A loira deu um sorriso maledicente e respondeu num tom de voz baixo, apenas para a cantora escutar:
"Isso era tudo o que você queria, não é, Berry?"
Balançou a cabeça ao sentir o nó a lhe apertar com indelicada dor causada por tal memória. A frialdade, a maneira estranha como Quinn a mirou e ainda mirava... Ora parecia conhecê-la, ora não... Como Quinn poderia conhecê-la e, logo em seguida, desconhecer? Fitar-lhe a cara como se fosse pela primeira e inusitada vez? Balançou a cabeça outra vez, dessa para que tão estranha percepção fosse embora.
“A Bishop deve estar realmente curiosa para lhe conhecer in loco, Star! Marcar uma sessão de fotografias em tão poucas horas após nos encontrarmos no café!”
O reparo de Jesse a fez voltar ao momento e à companhia dele...
“Como?”
“Eu disse que entre o nosso encontro e você descobrir que fará uma sessão de fotos para a Models se deu em curto espaço de tempo!”
Rachel assentiu, ainda a internalizar a observação feita pelo ex.
“Acha que ela vai querer saber sobre mim e a Q?”
“Não sei...”, o homem respondeu pensativo. Prosseguiu após curta pausa observada por um par de olhos castanhos ansiosos:
“Pode ser... Alex não é um modelo de ignorância ou tolice. Ela é sagaz, inteligente... Então eu acredito que já saiba de frente para trás e ao inverso a sua e a minha relação com a Fabray. Eu só não posso assegurar que ela deixará passar a oportunidade de perguntar ‘por quê’?”
A cantora abaixou os olhos e mordeu o lábio inferior. Leu o que a secretária escrevera para o final de semana: “sessão de fotografias na Revista Models com Alex Bishop!” O ponto de exclamação ao final do registro do compromisso demonstrava claramente o quanto Kitty considerou importante o evento. E, inconsciente, atestou para Rachel que, sim, realmente se encontrar com Alex Bishop seria importante. Faltava apenas um apêndice que não havia como Kitty Wilde saber e que, no instante, era de suma importância: Rachel considerava cedo demais para um encontro com a atual namorada de Quinn Fabray.
"A medicina cria pessoas doentes, a
matemática pessoas tristes, e a teologia pecadores."
– Martinho Lutero –
Quinn entrou mal-humorada no consultório médico no hospital. A Dra. Tolkien a recebeu com um doce sorriso não correspondido.
"Sente-se, Quinn", a médica pediu com toda a sua gentileza e doçura.
A advogada viu a Dra. Parker encostada à parede do consultório apenas a observar. Helen Tolkien era neurologista e a Dra. Eleanor Parker psiquiatra e psicóloga. A Tolkien comentou:
"Holmes nos informou que você teve uma pequena crise de epilepsia. Isto significa que o remédio que faz uso já não está mais a surtir efeito. Então, eu e a Dra. Parker pensamos no Depakote...”
“Foi uma exceção! Havia três meses que isso não ocorria...”
“No seu caso, Srta. Fabray”, a Dra. Parker se manifestou, “esse tipo de ocorrência não é exceção...”
A advogada ia responder, porém a neurologista não permitiu, a explicar:
“É um bom medicamento indicado para enxaqueca e epilepsia; ele também atua no transtorno bipolar do humor...”
“Oh! Eu sou bipolar?!”
O tom de troça da advogada não desconcentrou a médica, que sorriu e prosseguiu com a explanação que, na opinião da Fabray, era completamente desnecessária:
“É respeitado no mercado e muito utilizado tanto no meio neurológico quanto psicológico...”
“Isso explica a presença da Dra. Parker”, a pergunta saiu trocista. E Helen prosseguiu:
“Você começará a usar uma dosagem alta, mas isso porque o seu organismo já está resistente aos medicamentos..."
A advogada interrompeu outra vez para questionar em toda sua praticidade:
"De quanto estamos a falar quando diz 'dosagem alta'?"
Helen a mirou e respondeu, sem rodeios:
"Mil miligramas para iniciarmos e vermos como o seu organismo reagirá. Então, aumentaremos a dose para mil e quinhentos..."
A Fabray deu um pequeno sorriso de escárnio antes de indagar...
"Quer acabar com as malditas crises me matando?! Foi o plano mais brilhante que ouvi até agora!"
A Parker se meteu ao observar:
"Fabray, o Depakote é bom e basta apenas usá-lo como eu e a Dra. Tolkien estudamos. Não pense que chegamos a esta dosagem aleatoriamente."
A advogada a mirou. E respondeu indiferente:
"Mais um mil miligramas... Isso enriquece muita gente..."
“Este não é um bom argumento...”, a Parker retorquiu.
“Eu não estou a argumentar, doutora.”
A médica calou, observando-a. Quinn sorriu de lado por saber o que a médica estava a fazer. Era divertido parecer um bicho que desperta a curiosidade, um bicho que quase nunca trocava de pele e de humor; um bicho que aparentava mansidão, mas que olhava com escárnio; um bicho que tinha coração, com o porém de bater sob a sujeição de uma mente lógica e prática, sem espaço para coisa que não lhe despertasse o interesse quase que científico sobre determinado fato, pessoa ou ação.
Rachel Berry estava a se transformar em seu mais novo objeto de estudos acadêmicos com o selo de curiosidade Quinn Fabray.
Rachel, ainda com a agenda sobre as pernas cruzadas em cima do sofá, olhou o calendário e soltou um gemido.
Jesse franziu a testa, curioso.
"Alguma data especial, Star?"
Ela respondeu, sem tirar os olhos dos números e mês:
"O julgamento...”, murmurou e olhou para o homem, “o julgamento começará em poucos dias".
O homem sorriu, sem compreender.
"E?"
A atriz observou, incrédula:
"Este é o julgamento em que a Quinn participará, a fim de reverter a situação em favor da promotoria. Como conseguiu esquecer isto, Jess?”
Ele mensurou antes de expor:
“Acho que depois da reação do Kurt ao meu interesse em Quinn eu fiquei atordoado em relação às demais coisas e mais curioso sobre a razão de quererem vocês em polos opostos... Isto realmente, além dos ensaios finais da peça, tomou a minha cabeça por completo.”
Rachel assentiu e pensou sobre as palavras do marido. E riu-se ao pensar no esforço tolo que seus amigos faziam. Quinn já a empurrava para longe sem colaboração de adjuntos!
“Eu, inclusive...”, começou ele com calma pensada, “pensei que a pessoa mais predisposta a nos ajudar a esclarecer a situação se chama Brittany Pierce”.
A judia não foi feliz em não se espantar. Estarrecida, cuidou de expressar e advertir:
“Lopez! Brittany Pierce Lopez?! Esqueceu que ela e Santana são casadas agora? Eu, realmente, pensaria antes de envolver a Sra. Santana Diabla Lopez nesta investigação”.
Jesse sorriu, divertido.
“Não acredito que ainda tem medo da Sant! Rachel, você cresceu!”
“Não é medo, St. James. É respeito. São coisas diferentes”.
Ele duvidou, mas preferiu guardar para si a ideia muito feliz de ter um agradável colóquio com a esposa da Lopez! Fez a pergunta cuja resposta já conhecia:
“Você irá assistir ao julgamento?... Irá vê-la?”
A atriz suspirou.
“Eu realmente não queria, Jess. Mas, eu não consigo ficar longe dela! Eu quero saber quem é esta Quinn Fabray que se revestiu de camadas e mais camadas de gelo e que apenas guarda semelhança física com a Quinn por quem me apaixonei”.
Ele apenas assentiu. Escutou:
“Eu tentarei guardar uma distância segura dela desta vez. Embates verbais com ela só farão com que eu me odeie, odeie a nós dois e, pior, odeie a ela por ser tão cabeça dura e fria e... Deus! Ela vai me enlouquecer!”
O ator se levantou de onde estava sentado e se colocou ao lado da pequena, puxando-a para os braços, envolvendo-a num enlace afetuoso a fim de tranquiliza-la. Antes, funcionava. Desejou que ainda fosse assim...
“Não é bom dizer mentiras;
mas quando a verdade puder trazer uma terrível ruína,
então dizer o que não é bom também é perdoável.”
– Sófocles -
Sem rodeios, a advogada tentou abreviar a incômoda “reunião”:
“Eu só quero saber de uma coisa: este medicamento atrapalhará o meu trabalho?"
Helen sorriu e respondeu que não. E acrescentou que "teremos que mexer também nos miligramas do seu medicamento para a dor. Quanto está a usar atualmente?"
A advogada, sem medo de ser sincera, respondeu:
"Não sei. As dores têm sido mais frequentes e eu não as suporto..."
As médicas trocaram olhares e Eleanor inquiriu, francamente descontente:
“Você está a usar o analgésico como o 'Dr. House'? Quinn, isso... Isso é muito irresponsável da sua parte".
A Fabray a mirou com desdém e retorquiu, em tom curioso sem desviar os olhos dos dela por um segundo sequer:
"Doutora, por que não me deixa martelar o seu crânio todos os dias, com força, por pelo menos cinco vezes em curtos intervalos e, depois, poderemos debater o quão responsável ou não eu pareço ser”.
A psiquiatra meneou a cabeça.
“Quinn, se continuar assim, a sua dor será dissipada pela sua morte precoce”.
“Obrigada por avisar”, a advogada sorriu como se estivesse profundamente agradecida.
A Dra. Tolkien resolveu ter a atenção da paciente e expos, tranquila e segura:
"Pensei em trocar a Codeína por Vicodin, que tem por princípio ativo a Hidrocodona, derivada da Codeína e Trebaína...”
Quinn usou de toda a sua picardia:
“Ops! Mais drogas opiáceas...”
Eleanor não respondeu e a neurologista continuou:
“Porém, ela – a Hidrocodona – não é aconselhável no seu caso...”
“Meu caso?!...”, a advogada quis que a médica fosse mais explícita.
“Por causa do trauma. A Hidrocodona pode piorar a dor”.
“Pode piorar a minha dor especificamente!”
“Exato, Quinn”, concordou a neurologista com satisfação, “então pensei muito e achei que a Metadona será uma solução eficaz...”
“Além de ser indicado como desintoxicante de drogas”, espetou Eleanor.
Quinn a ignorou sem dificuldade:
“Quanto desta ‘esperança’ para ficar livre da dor terei de ingerir por dia?”
“Você deverá usar dez miligramas a cada três horas”.
A ex cheerio pensou que Helen estava a brincar...
“Só dez miligramas a cada três horas? Sério? Eu usei o triplo, o quíntuplo disso em Codeína em espaços similares de tempo e a dor continuou”.
A neurologista assentiu e redarguiu:
“Eu sei, Quinn. Mas, observe: você tomou a Codeína quando sentia os episódios de dor. Neste caso, o uso será diário e constante. Trataremos suas crises de dores de maneira preventiva. Com o uso diário da Metadona, os episódios diminuirão e, talvez, sejam menos atordoantes. Compreende esta nova abordagem?”
“Minha dor será tratada como um caso crônico...”
“Exato”, Helen sorriu de orelha a orelha. A sagacidade de sua paciente era agradável e sempre bem-vinda.
“E em caso de as dores não diminuírem?”
“Ajustaremos apenas o espaço de tempo entre uma dose e outra”.
“Okay...”, murmurou indiferente.
“Quinn”, a médica tentou capturar a atenção dela, “eu sei que, após tantos anos de experimentos, você se sente sem esperanças. Mas, eu me debrucei muito sobre o seu caso e, após conversar com Holmes hoje pela manhã, soube que este seria um dos melhores caminhos que poderia tomar em relação a você”.
A advogada sorriu e esclareceu, expansiva:
“Eu não estou sem esperanças! Eu só analisava as suas palavras quando lhe respondi. Sua estratégia é interessante. E flexível também”.
“Fico feliz por sua apreciação, Quinn. Eu só quero que você tenha uma coisa muito clara em sua mente: esta nova abordagem não a livrará das crises. O que queremos é que elas demorem a ocorrer, que não seja uma constante em sua vida”, ponderou a médica.
A paciente não respondeu. Pareceu avaliar-lhe a fala.
A Parker informou, centrada nas reações da advogada:
“Eu marquei consultas para você junto a Holmes. Ele está com todas as datas e horários para lembra-la”.
Quinn não reagiu. Achou desnecessário. Se ela, a psiquiatra, marcou um “conselho” entre elas e o intermediário entre as datas dos encontros era Holmes, o óbvio não era outro a não ser: ela seria informada no instante em que estivesse frente ao homem!
"Eu preciso lembra-la de que vou espera-la e se não aparecer, eu a visitarei?"
A advogada entendeu, porém se fez de morta para a psiquiatra.
"O que mais eu preciso saber?", indagou para Helen que, comedida, respondeu:
“Eu preciso ter um relato a fim de entender se estas mudanças foram ou não positivas".
A loira assentiu.
Helen continuou a explicar outros detalhes que à advogada não interessavam, porém se esforçou para não ser indelicada e não se distrair com qualquer outra coisa menos monótona.
"O que eu sou, doutora?"
A pergunta feita de maneira abrupta e repentina tomou as médicas de salto e Helen e Eleanor intercambiaram olhares. A segunda respondeu, com calma:
"Poderemos conversar sobre isso na nossa consulta, Quinn. Agora, atenha-se às explicações de Helen, por favor.”
A advogada avaliou a psiquiatra e a situação. Concluiu:
“Por que não podemos aproveitar o tempo e discutirmos isso brevemente?... Aqui!”
Helen, sempre afetuosa e ponderada, pontificou:
“Eu posso ser, outra vez, explícita com você, Quinn. Só que de maneira muito prática. E a sua pergunta pareceu mais emocional. Concorda comigo?”
“Com emocional você quer dizer existencial, doutora?”
A neurologista assentiu.
Ainda que não muito convencida, virou-se para a psiquiatra e concluiu:
“D’accord! »
A Parker sorriu.
Quinn sentou atrás da bela escrivaninha do escritório e ligou o PC. Abriu o caderninho de capa de couro. Pegou uma cigarrilha e agradeceu a empregada pelo café fresco que lhe serviu. Tomou um gole e olhou para a tela do computador. Manejando o mouse, clicou na pasta "meus documentos" e abriu a que continha todo o estudo sobre o caso que iria auxiliar a promotoria no dia seguinte. Acendeu a cigarrilha e a tragou com calma e expeliu a fumaça pelos lábios bem feitos. Descansou-a no cinzeiro limpo e bebeu um pouco mais do café. Comparou as informações que Wilhelm lhe enviou com as anotações que fez no caderno. Nada poderia lhe escapar. Absolutamente coisa alguma. Tomou da cigarrilha e a tragou pela segunda vez. Recolocou-a no cinzeiro, soltou a fumaça e bebeu outro gole de café. Estava concentrada quando Holmes adentrou ao recinto com uma pequena bandeja em que estavam os dois comprimidos de Depakote, três de Respiridona e um de Metadona.
"Doutora...", chamou-a.
Ela o fitou meio aturdida e escutou:
"Seus remédios... Está na hora".
Quinn então voltou à realidade e se lembrou dos remédios. Pegou-os todos de uma vez, jogou-os literalmente na boca e os engoliu com um substancial gole de água. O cuidador questionou, grave:
"Como se sentiu até agora?"
Ela pegou a cigarrilha e a tragou pela terceira vez. Soltou a fumaça para o alto e respondeu, sincera:
"Bem, Holmes. Não senti nada de diferente, exceto o barato que o analgésico junto aos outros ainda causa. Só espero não estar muito chapada amanhã...”, preocupou-se.
“Tudo sairá a contento”, assegurou o cuidador, a observar, “e a ausência da dor melhora muito o humor... Talvez não esteja apenas chapada”.
“Será um trabalho árduo e não posso me deixar perder", asseverou.
O homem sorriu e constatou, descontraído:
"Dra. Fabray, creia-me: coisa alguma é capaz de lhe desviar de seu foco".
A advogada assentiu, ainda a meditar sobre a reação dos medicamentos no organismo. Ele se retirou e ela voltou ao que estava a fazer. Tragou a cigarrilha pela quarta vez e a descansou no cinzeiro. Bebeu dois goles seguidos do café e voltou a se concentrar no arquivo sobre Street e as anotações que fizera. Estava a escrutinar tudo com muito cuidado. Não poderia dar mínima brecha para a defesa... Defesa! Estranhamente, o substantivo a fez se lembrar de Rachel Berry. Afinal, o que mais, além de se desculpar e tentar se defender fazia a cantora quando estavam juntas?
“Quero entende-la, Srta. Berry! Talvez Will possa me ajudar...”, murmurou para si mesma.
"Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária."
– Clarice Lispector –
CONTINUA
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