Sine Cordi
3 Capítulo ג
Notas iniciais
“Há duas maneiras de deslizar facilmente pela vida:
acreditar em tudo ou duvidar de tudo;
as duas maneiras nos impedem de pensar.”
– Alfred Korzybski–
Mesmo firme como o bambu, que até verga, mas não quebra, Santana mal via a hora de a Berry chegar e ver como faria para que a diva e Quinn não se encontrassem. Porém, lembrou do que Russel lhe disse pela manhã: Quinn sairia dali feito um furacão. Ela não gostava muito de sair de casa. Só mesmo a trabalho ou, mui raramente, para um café que havia perto do Central Park. No mais, ela vivia como um monge tibetano. Exceto, é claro, pelo comportamento quando estava em algum lugar e alguém aparecia para puxar conversa. Daí o "Lado Negro da Força" surgia e ela afastava quem fosse. E, se a pessoa insistisse, Holmes, um mulato alto e forte, sempre vestido em ternos sob medida, aparecia e questionava se ela estava a ser incomodada. Ao dar de cara com o gigante com o semblante nada satisfeito, a pessoa saía do recinto num zás. Holmes era a pessoa que mais conhecia a Fabray. Ele morava na cobertura dela. E a tratava com muito zelo, como se fosse um cuidador. Como ela era dada a se desligar da realidade, o homem cuidava de trazê-la de volta.
“Quer saber? Vou parar de ficar ansiosa por nada. A Berry não terá tempo mesmo de abrir a boca para cumprimentar a loira gelada. E, se por acaso conseguir, terá um choque e uma decepção. Se ela pensa que a Quinn ainda é a Quinn... Vai errar feio!”
Mais relaxada, a morena caminhou para seu escritório e encontrou com a Fabray na recepção. Ela chegou com dez minutos de antecedência.
“Quinn?!” a latina não escondeu sua surpresa.
“Diga-me, Sant, por que tem um velho chato a me esperar para uma 'reunião', como se eu não soubesse o assunto e você se espanta ao dar comigo aqui?”, a loira foi indiferente.
“Não é cousa alguma. Eu só me surpreendi com a sua chegada!”, a latina mentiu.
A loira ergueu a sobrancelha direita e falou, séria, “mesmo, Sant? Por que você não fala a verdade?”
A Lopez ficou surpresa. “Qual verdade?”
“Que achou que eu não viria encontrar o aproveitador do Russel.”, e sorriu satisfeita consigo mesma.
“Não. Eu sabia que você viria, só não achei que seria pontual!”
“Uhmm! Então eu a surpreendi? E eu que achei que nada pudesse lhe surpreender!”, sorriu Quinn.
“Usted prodría dejar el cinismo un poco lejos.”
A loira encarou-a e respondeu que “não consigo evitar, Sant!”
A morena desejou torcer o pescoço 'de la rubia' e só não o fez porque Russel apareceu na porta do escritório que ocupava e chamou a filha, que sussurrou para Sant:
“A chatice me chama...”, e caminhou elegantemente até Russel.
…....... *-* ….......
Às duas horas em ponto, Santana recebeu Rachel e ficou surpresa com a elegância e beleza da cantora e não pôde deixar de comentar “¡ Dios, Berry! ¡ Estás muy guapa!”
“Gracias, ¡ Santana!”, a cantora respondeu em espanhol, a ostentar seu sorriso que gritava “sou uma estrela famosa, rica, poderosa e esplendorosa”, o que deixou a advogada ainda mais... boquiaberta (?), impactada (?), arrebatada (?) ou tudo “junto e misturado”?
“Há quanto tempo não nos vemos pessoalmente”, indagou a latina, com os olhos a brilharem e a se perguntar como só Quinn conseguiu ver aquilo tudo no antigo Hobbit. Não que Rachel tivesse crescido ou algo parecido, mas ela estava... Gostosa! Meneou a cabeça e colocou as ideias no lugar. Era uma mulher comprometida, casada, na verdade, com Brittany Susan Pierce Lopez! E pretendia continuar assim!
“Creio que há uns três anos”, a diva respondeu e inquiriu “não me diga que não foi me ver nenhuma vez na Broadway?”.
“Sim, na verdade eu fui, em mais de um musical, mas infelizmente não deu para lhe cumprimentar pessoalmente. Quando se fica famoso, 'todos' são seus amigos e os seguranças não acreditaram em mim. Então, enviei flores!”, sorriu a morena.
“E por que não pediu para me chamarem?”
“Digamos que Jesse não achou uma boa ideia. Eu respeitei e me fui. Provavelmente pensou que tinha algo a ver com Quinn” e, nesse momento, a mulher percebeu que tocara num tema nevrálgico que ela mesma deveria evitar.
“Claro...”, a atriz murmurou, porém se fez ouvir por Santana, que imediatamente procurou se desculpar por tocar naquele ponto.
“Não há motivo para você se desculpar, Santana”, a “star” cuidou de diluir o ambiente que logo ficou pesado.
“Eu... Esqueço, às vezes...”, mentiu e convidou a famosa a se sentar na cadeira à escrivaninha, e esta de pronto a obedeceu, agradecida. Entrementes, não deixou passar a oportunidade ao questionar “e ela, como vai?”
A latina sentou à cadeira que lhe pertencia, em frente à artista e respondeu que Quinn estava bem.
“O que aconteceu para ela se tornar advogada? Era uma fotógrafa fantástica, talentosa, renomada, com sua própria empresa e rica! Não entendi quando a vi ontem pela TV, cercada por repórteres, seguranças...”, a curiosidade a corroía. Santana percebeu e sorriu, a perguntar em que planeta a atriz vivia.
“Por que pergunta isso, Sant? Eu sempre quis saber dela, mas muitas pessoas, inclusive você, não me ofereceram muitas informações. Eu me preocupo com ela... Eu nunca deixei de amá-la”, confessou, “apesar de tudo”.
“Bom, mas vamos mudar de assunto porque 'águas passadas não movem moinhos' . Diga-me como estão seus pais. Soube que ainda mantêm a casa de Lima. É verdade? Eles estão a morar em Ohio?”, sorriu a advogada.
“É curioso”, observou a estrela, “que sempre que toco no nome dela as pessoas desconversam”.
Santana piscou algumas vezes. “O que esperava, Rachel? Eu sei o que você fez, Kurt, Blaine, Britt... Quer mais nomes? Esqueça-a! É um bem que fará a você mesma”, aconselhou.
“As cousas não são tão simples assim, Sant...”
“Eu sei, Rach! Mas o que está feito está feito e não pode ser desfeito! Simples dessa forma! Você a traiu, ela viu e pronto! Você seguiu em frente! Não deu um 'stop' em sua carreira e nem em sua vida amorosa”, a latina sabia que ainda tinha intimidade para falar com a diva da maneira com a qual falava, pois estreitaram amizade quando ela e Quinn estavam juntas. “O que deseja de mim ou deste escritório?”, a advogada procurou ser objetiva, mesmo a saber do que se tratava o caso, que já não era segredo para ninguém, até porque o trabalho da imprensa “mexeriqueira” era espalhar fofocas, fossem fatos ou não, de que a diva da Broadway e seu marido, Jesse St. James estavam a se divorciar.
Rachel tomou de um fôlego e rebateu, a dizer que não conseguia, que desejava fazer isso, esquecer a ex, mas havia naquele amor muito mais.
“Eu entendo você, Berry, ainda que não pareça. Mas você virou o mundo dela de cabeça para baixo! E, quando evitamos falar dela para você, acredite: é para o seu próprio bem!” — a advogada advertiu.
“Eu fiz muito mal mesmo a ela...”, a morena insistiu, o que não era nenhuma novidade para a latina. O contrário sim seria uma novidade.
“Digamos que você 'pisou feio na bola'”, a advogada definiu concisa o que aconteceu, “e acho que ficar a se martirizar não adiantará. E, Rach, por favor, vamos deixar a Fabray e cuidar de você e do motivo que a trouxe a este escritório”.
Rachel anuiu e verbalizou que ela e St. James estavam a se divorciar, o que a advogada já deveria saber, pois não era novidade para mais ninguém.
“Ele concordou com o divórcio?”, a latina perguntou, pois era o seu papel naquele “balaio”.
“Não só concordou como foi dele a decisão”.
A ex-cheerio ficou surpresa. Afinal, acabara de ouvir um desfiar de rosário sobre o amor da cantora por Quinn.
“Dele?!”, estava mesmo incrédula.
A Berry revirou os olhos e confirmou, a acrescentar que “apesar de nós dois sermos muito amigos, quase irmãos, eu pensei antes em Spencer, nosso filho. Ele é feliz com a família que tem e eu não queria que tudo desmoronasse ao redor dele como um castelo de areia. Entretanto, eu e Jesse concordamos que ele terá livre acesso ao meu apartamento e a Spencer. Seria como se nada realmente tivesse acontecido. Entendeu, Sant?”, a cantora tinha uma expressão atrapalhada na face.
“Não. Eu realmente não entendi. E se por acaso um de vocês quiser refazer a vida amorosa? Como isso ficará na cabeça do pequeno? Porque na minha está uma zoeira”, confessou a morena mais alta.
Rachel riu. Não conseguiu evitar. Ela também não sabia como seria, por isso, disse que era melhor pensarem no momento e deixarem o futuro para depois, mas certamente tudo acabaria por se encaixar.
“Sei...”, a incredulidade de Santana era visível e risível. A atriz também se mostrou um tanto cética quanto ao seu plano junto a Jesse, e tentaria o melhor para o bem-estar do filho. Isto era, no momento, o mais importante. Também saber da ex-namorada, vê-la pessoalmente... Como ela reagiria? Teria perdoado a traição que sofrera? Teria alguém, um amor? Eram tantos questionamentos que precisavam ser respondidos que se sentia como no olho do furacão. Estava tudo a caminhar, mesmo com a crise no casamento, até vê-la na TV, linda, imponente e …
“Fria!”
“O quê?”, Santana ficou pasmada.
“Quinn!”
A advogada ficou estanque, a fitar sua cliente e colega de adolescência, ainda sem entender patavina. “Rachel?”
A atriz, que tinha os olhos pregados no vazio, murmurou “Quinn está fria!”
Santana meneou a cabeça. “¡Hey, Berry! Quinn siempre fue fría”. A cantora focou os olhos escuros nos dela e justificou tal comentário, enquanto virava a cabeça para lá e para cá em calma negativa. “É diferente...”
“Tierra a llamar Rachel Barbra Berry. Por favor, ¡ manténgase em contacto!” — brincou a latina, lembrando-se que o alvo da conversa da cantora estava na sala quase em frente a dela — “maldita arquitetura de 'Interprise'...”, murmurou mais para si mesma, embora a pequena grande estrela captasse as palavras.
“Como, Santana?”
A outra tossiu, realmente a se engasgar com a própria saliva. A judia se levantou, caminhou até ela, levantou-lhe os dois braços e lhe deu dois tapas robustos nas costas. A advogada a mirou com o par de olhos esbugalhados e, melhor, comentou, enquanto a pequena voltava a sentar na cadeira em frente:
“¡ Puta le parió, Rachel! Quase cuspi os meus pulmões! Vai bater forte assim lá...”
“San-ta-na! Eu lhe fiz um favor!”, atalhou. A advogada calou e, pouco depois de fazer algumas anotações básicas que logo iriam para um dos arquivos no PC do escritório, voltaram a falar sobre o divórcio. Em certo ponto da conversação, a ex-cheerleader questionou “Rach, eu sei, pelo que conversamos até agora, que a sua relação com St. James é pacífica, mas eu preciso saber se alguma vez ele tentou ou fez sexo com você sem sua permissão ou se, de alguma maneira, foi violento”.
A atriz ficou realmente chocada com a pergunta e de pronto cuidou de responder:
“Não, Sant! Jesse é um 'gentleman'! Às vezes, até demais!”
O olhar que a outra morena lhe lançou a fez corar e abaixar a cabeça e pedir que a advogada fosse mais discreta.
“Eu não disse nada, Berry! Foi você...”, respondeu a outra. Contudo, a judia conhecia muito bem a mulher que agora fazia o papel de sua advogada. Santana Margarita “Diabla” Lopez não era flor que se cheirasse. Nunca foi. Por que mudaria? E não deu outra...
“Vocês fizeram acordo pré-nupcial?”
A pergunta saiu junto com um sorrisinho de pura desfaçatez. E Rachel não deixou por menos quando retorquiu que “sim... Pai Hiram achou melhor. Jesse não tem direito a nada do que é meu. Mesmo que eu morresse e ele fosse o guardião de direito de Spencer, há um fundo que meu filho só poderá gerir quando completar os vinte e cinco anos”.
O queixo da latina quase foi ao chão.
“E o menino rico será um rapaz pobre até os vinte e cinco...”
Rachel deu uma deliciosa gargalhada e negou — “ele terá quem administre parte do dinheiro que herdará e que não estará neste...” — fez aspas com os dedos das mãos — “... Fundo!”
“¡ Perfecto! ¡ El niño ya es un principe!”
“Não seja exagerada, Sant!”, pediu a cantora, que não gostava muito de falar no assunto “dinheiro”, até porque era fato de que a atriz tinha um patrimônio superior a cento e cinquenta milhões de dólares, tudo adquirido com ensaios e noites em claro, apresentações em musicais nas quais ela beirava a perfeição, isto quando algum crítico enamorado a apontava como a perfeição em “miniatura” e de como daquele metro e meio de mulher poderia brotar uma voz extremamente bela e de uma potência excepcional, além do cinema, no qual já atuava há pelo menos dois anos, Cds, DVDs, Blue-Rays, roupas, sapatos entre tantas outras cousas com a marca de uma estrela dourada, o copyright de vários objetos da marca Rachel Berry. Ela se transformara numa máquina de fazer dinheiro e, muitas vezes, ouviu Jesse lhe dizer que ela era a versão feminina e atualizada de Midas. E nestas horas ficava ainda maior a distância entre os dois. Ela cresceu mais do que ele mesmo poderia imaginar. Sabia que a garota de Lima, com os pés no chão e a cabeça nas estrelas, que lhe apontou tantas vezes o céu e lhe disse que um dia brilharia tanto ou mais que uma daquelas muitas estrelas tinha potencial para tanto, porém, diferente de Quinn, que muitas vezes disse que ela seria maior que o sol, ele achou que ela até seria uma estrela, mas que, para a verem em meio às constelações, seria necessário um telescópio para diferirem-na das demais. Quinn acertou. Ele... Engolia o amargor de não ser mais Jesse St. James e, apenas, o marido de Rachel Berry.
“Ei, nanica! Eu disse algo que a afetou de maneira negativa?”, a advogada notou que a cliente estava numa trip. A artista voltou à realidade e comentou em como uma vez Quinn lhe disse que ela, Rachel Barbra Berry, brilharia mais que o sol, que iluminaria todo o caminho por onde passasse, ao passo em que aquele que viria a se tornar o seu marido achou que ela seria apenas mais uma, nada além.
A advogada cruzou as mãos abaixo do queixo, onde o apoiou e comentou que “isso acabou por afastá-los mais, estou certa?”
A cantora anuiu com a cabeça.
“Já tentaram terapia para casal? Há casos em que dá certo! Porquê, pelo que eu entendi até agora, ele quer o divórcio e você não quer. Correto?”, a morena latina era perspicaz além da conta. Rachel deu um suspiro longo e verbalizou:
“Não deixa de ser isso... Mas, Sant, ontem, quando vi Quinn na TV... As minhas estruturas, tudo o que mantive cerrado dentro de mim, do meu coração, da minha língua, boca, todo o meu ser, vieram à tona. Tentei me enganar por todos estes anos com Jesse, encobrir partes que faltavam aqui e ali, mas foi puro engodo. O lado bom de tudo isso foi nascimento de Spencer e descobrir o grande amigo que Jesse foi, é e continuará a ser para mim. Sem falar no pai excepcional. Entretanto, quando me coloco no lugar dele... Ele sente como se tivesse perdido a identidade...”, a cantora suspirou, “o que não deixa de ser uma verdade. Ele não exste mais como Jesse St. James, o grande astro da Broadway. Ele é somente Jesse St. James, o marido da estrela Rachel Berry! Eu enriqueci, ele não... São diferenças que o ego dele não suportou. E creio que, se fosse ao contrário, o meu também não iria suportar. Não o meu... Meu egocentrismo é vergonhoso”, confessou. Santana franziu o cenho. “É? Ou sempre foi? Berry, por favor! Admita! Você sempre foi um Davi com ego de um Golias. E isto há muuitoo tempo!”
“Pode ser... Mas foi Davi que derrotou Golias. Ou você se esqueceu?”, sorriu. Santana meneou a cabeça em negativa e fez questão de responder:
“Não! Eu não esqueci, Berry. Embora, diferente de você e da Fabray que cumprem com constância escrupulosa a liturgia de suas religiões, eu também sou 'hija de Dios' e faço cá as minhas orações.”
A cantora riu outra vez da forma quase cômica com o tom que a latina usou para falar sobre sua religiosidade.
“Por que está a rir, Berry? Está a duvidar de mim? É isso? Eu posso não ser uma 'carola', mas eu tenho fé!”
A pequena meneou negativamente a cabeça e justificou o porque de seu riso, antes que perdesse a profissional competente que a latina era e que, pareceu-lhe, ainda tinha o pavio meio curto.
“Sant, não estou a desacreditar de você! O seu tom de voz e a expressão do seu rosto foram o que me causaram o riso. Perdoe-me se lhe pareci indelicada. Não foi a minha intenção.”
A outra sorriu e respondeu que também não teve a intenção de assustá-la.
“Você sempre me assustou, Santana”, a atriz foi sincera e, desta vez, quem gargalhou alto foi a advogada. Afinal, a Lopez sempre seria a Lopez e sabia do seu potencial em desarmar e confundir as pessoas com a forma pela qual regulava a aparência de seu humor. Por fim, após tantos assuntos e desassuntos, marcaram um encontro para jantarem juntas no Tavern On The Green, o lendário restaurante mais “chic” do Central Park e o preferido da diva, pois servia saladas maravilhosas, além de oferecer uma vista excepcional do Park e ficava perto da cobertura dela, na West 66th com a Central Park West. A advogada sorriu de canto a canto ao observar que Britt ficaria muito feliz por tevê-la.
“Acredite-me, Sant: a recíproca será verdadeira!” — concluiu a cantora, satisfeita por ter a chance de rever as colegas do WMHS.
Abraçaram-se em despedida e, tão logo saíram porta a fora do escritório da latina, esta ouviu a voz de Russel.
“Quinn, você sabe o quanto este caso é importante! E também sabe que é a melhor advogada criminalista deste escritório! E eu quero que você pegue o caso!”
A atriz estancou. Sentiu o coração dar pulos dentro do peito. A voz lhe fugiu e, como se existisse um grande imã, virou-se na direção da sala do Fabray e vislumbrou um homem meio alterado e uma loira de longos cabelos presos num coque indolente, porém sem deixar de lhe realçar a beleza, vestida em um terno Ralph Lauren, clássico, sob medida com um corpete rendado por baixo e sapatos altos “Mary Jane”.
A latina chamou pela cantora, porém ela não ouviu. Tinha os olhos pregados na loira que aparentava não dar a menor importância para que o pai falava, a futucar um aplicativo qualquer no celular.
“Berry?”, insistiu a advogada. Mas nada a fazia desviar a atenção daquela mulher linda que há muito não via e se perguntou muitas vezes se tornaria a ver.
“Ela... Ela está tão... Tão linda, Sant!” — sussurrou, a parecer hipnotizada. A ex-cheerio meneou a cabeça. Era só o que lhe faltava! Por que Russel tinha de deixar a porta do escritório aberta? Ele foi avisado de que Rachel Berry estaria ali, na Fabray e Advogados no mesmo horário de Quinn! Só havia uma explicação para tal: o velho Russel estava, definitivamente, gagá! Não encontrou outra explicação para tal atitude! Embora, em se tratando de “discutir” negócios com Lucy Quinn Fabray, esta deixava toda gente de cabelos em pé e morte semicerebral.
“Eu preciso falar com ela, Sant!”, a cantora cofessou.
A Lopez sentiu todos os pelos do corpo eriçarem.
“Não precisa, não!”
A pequena conseguiu desviar os olhos da loira para a morena. “Como pode afirmar isso?”
“Porque a Quinn que você conheceu mudou muito ao longo dos anos. Então, se não quiser se aborrecer e nem sair daqui com o coração partido, esqueça esta história sem nexo.”
“Santana, esta não é uma história sem nexo! Eu preciso me explicar com ela, pedir perdão por toda a dor que a fiz sentir e tristeza que causei!”
A advogada fez que não com a cabeça e insistiu que nada daquilo era necessário.
“Como não?”
“Berry, por favor! Escute-me: Quinn vai 'passear' para os seus pedidos de desculpas! Ela não está nem aí para nada, ninguém ou cousa alguma! Consegue entender? Olhe para o que acontece no escritório de Russel! Desde quando você a viu ignorar ou não temer de alguma maneira o velho Fabray? Diga-me, Rachel!”
A cantora voltou a mirar a cena. Russel só faltava cair de joelhos diante da caçula, a lhe dizer que era um caso em que o próprio promotor de justiça requisitou a ajuda da loira. Todavia, Quinn fazia “ouvidos de mercador”.
“Quinnie, estou a falar com você!”, o homem baixou o tom de voz. No grito não conseguiria absolutamente nada com a filha.
Rachel, por sua vez, parecia enraizada no chão do hall do escritório. Nem piscar ela conseguia. Todo o sentimento de amor, de arrependimento, de necessidade de perdão, de desejo pela loira a fazia inerte.
E o patriarca Fabray, que já engolira pelo menos três calmantes para evitar pular no pescoço da caçula e também se proteger de um enfarto fulminante, insistiu:
“Quinn, este caso é importante para o escritório... Para você!”
A loira deu um sorriso de canto, antes de dizer que “ontem eu ganhei um caso importantíssimo para o escritório, para você... Arranje outro advogado, Russel!”
“Raios, Q.! Você sabe que nenhum é tão bom quanto você! Quantas vezes terei de repetir isto?”
Ela não respondeu. Simplesmente puxou uma cigarreira de ouro de dentro da pasta, de lá tirou uma cigarrilha mentolada e a acendeu, a expelir toda a fumaça no rosto do pai, que teve um acesso de tosse.
O queixo de Rachel foi ao chão.
“Desde quando... Desde?”
“Quando Russel a pressiona e ela quer retaliá-lo. E, Berry, esta é só uma das mudanças que você está a ter o prazer de visualizar. Há muito mais sobre Quinn Fabray que você ainda não sabe. E, ouça-me, proteja-se dela. Ela pode machucar. Muito!”
“As nossas quimeras são o que se parecem
mais conosco.”
– Vitctor Hugo -
CONTINUA.
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