Sine Cordi

9 Capítulo 9 - ט


Notas iniciais
Mais um capítulo! Dia seguinte ao jantar...

"O homem é uma ponte suspensa no abismo

que liga a besta ao super-homem.”

– Nietzsche -

Santana chegou à firma de advocacia aos bocejos e tratou de ir à copa para ingerir sua terceira xícara de café só nesta manhã. Ouviu Russel a perguntar por ela e se mostrou à entrada da dependência para o homem que foi até ela e a levou de volta para dentro do recinto e perguntou se tinha notícias de Quinn. A morena tomou um gole da bebida quente e recém preparada e, após, respondeu que "eu, Britt e a Berry fomos jantar ontem no Tavern on the Green e, por acaso, ela estava lá, acompanhada de um cara que parecia o Leonardo DiCaprio. Como sempre, muito educada, foi até a nossa mesa, apresentou-nos o homem, destilou sua dose regular de cinismo e, quando eu estava preparada para lhe pular no pescoço, despediu-se e saiu com ele". Russel deu um longo suspiro antes de exprimir "o promotor Lancaster está inquieto por uma resposta do escritório... Quer saber se o 'gênio' invencível da minha filha aceitará ajudá-lo no julgamento do assassinato da 'socialite' Wood e Q está incomunicável. Todos os telefones dela estão mudos. Sant, diga-me: porquê ela faz isso? Ela sabe que o caso é importante, que trará dinheiro para a firma e nem assim ela se importa", desabafou.

A advogada não sabia o que dizer. Se é que algo poderia ser dito. Quinn era uma incógnita. E o Fabray, mais do que qualquer outra pessoa, já deveria saber disso. Entrementes, indo contra a maré, atalhou "Sr. Fabray, sabe que sua filha não poderá fazer milagres. E sabe, também, o quanto ela é perfeccionista e escolhe os processos a defender a dedo. Talvez esteja a pesar os prós e os contras! Já pensou nisso?". O homem se quedou em pensamentos. Sim! Sabia de tudo o que a latina lhe falou. Porém, ainda tinha medo das decisões da filha. Ela adorava deixá-lo em suspense. E tal fato não era nada bom para o coração dele. "A defesa já sabe do plano da promotoria?", a morena questionou, curiosa. O homem assentiu. Ela não pode deixar de rir e o Fabray entendeu o motivo para tal e completou "e ainda torce para que ela aceite". A mulher meneou a cabeça e questionou "por que os advogados levam os casos em que Quinn está envolvida para o lado pessoal? Eles não percebem a diferença entre um julgamento e uma luta de boxe? O que desejam? Ganhar o 'cinturão de campeão mundial de julgamentos'?". Russel foi obrigado a rir com o pensamento da Lopez. E concordou. " É, parece exatamente isso! Vencer Quinn num embate judicial parece que lhes fará melhores do que realmente são".

"Por acaso, falou com a Dra. Parker sobre o 'isolamento' da Quinnie", questionou a morena. Russel assentiu positivamente. "E o que ela disse?", a morena — apesar das brigas com a loira — preocupava-se. O Fabray respondeu que "ela me aconselhou a dar espaço para ela, ou poderá acontecer de se isolar ainda mais e perdermos este caso. Estou ansioso, mas se a Dra. Parker pediu que eu fosse paciente, o que mais há para fazer a não ser seguir o conselho dela?". A latina concordou. A médica conhecia muito bem a sua paciente. E, até o momento, era a única a conseguir lidar com ela, ainda que aos trancos e barrancos. A moça loira não mais dava abertura às pessoas, fossem elas amigos ou parentes. A verdade era uma só: sua amiga Quinn Fabray se foi no dia em que flagrou a Berry na cama com o St. James. Logo depois, a notícia do casamento da cantora com o parceiro de palco. E pronto. Quinn já não era mais a mesma. A mudança foi tão radical que afetou a todos aqueles que a conheciam. E, quando conseguiu voltar, estava fria, o cinismo mais do que aflorado. Todo o passado enviado para a cucuia. Nada mais de fotografias, nada mais de arte. Tudo, agora, era preto no branco; tudo ou nada. Distanciou-se, tornou-se reclusa e a advogada mais despida de emoções que um tribunal já tivera. Dó e piedade não estavam em seu vocabulário. Humilhar, desnudar suas vítimas e esmagá-las era o seu objetivo e maior prazer. E, sem dúvida alguma, se a Berry não ficasse fora do caminho, Quinn passaria sobre ela como um rolo compressor.

"O otimismo é a mania de sustentar que tudo está bem

quando tudo está mal."

– Voltaire -

Rachel acordou tarde. Após desabafar com o marido, voltou para a cama, a fim de relaxar e Jesse a acompanhou, dando-lhe colo e aconchego. A empregada deixou seu café preto, forte e puro na cafeteira e estava a cuidar do almoço. Mirou a patroa, que se serviu de uma xícara bem grande e fumegante da bebida na qual era viciada. A cafeína era sua maior fonte de energia. Sentou num banco que ficava ao balcão da cozinha e, só depois de terminar todo o café da xícara, olhou para a mulher que trabalhava para si há cinco anos e a cumprimentou:

"Bom dia, Maria..." — suspirou e falou — "Ou boa tarde... Que horas são?"

A mulher lhe informou, enquanto pegava da xícara e a enchia com mais café. "São onze horas e vinte e dois minutos, senhora". Rachel agradeceu por mais uma "rodada" de seu energético e questionou "onde está o Sr. St. James?", a serviçal retornou para o preparo do almoço e respondeu que "ele já estava acordado quando cheguei. Tomou o desjejum, cuidou do pequeno Spencer e o levou para a escola. Parece que tinha um teste para fazer. Por isso ainda não chegou". A cantora passou a mão pelos cabelos. Bebeu um grande gole de café e, após, comentou, mal-humorada: "merda! Era para eu levar o meu filho! Por que ele não me acordou?". Maria respondeu, sem deixar de se concentrar no que fazia, "o patrão achou melhor deixá-la dormir e me ordenou para não incomodá-la, pois a senhora saiu para jantar com suas amigas e chegou tarde. Ele pensou que, se a deixasse dormir, não haveria coisa melhor para lhe descansar".

Rachel se desculpou com a mulher e comentou que "eu não deveria esperar outro comportamento de Jesse. Ele é um homem deslumbrante!". Fitou a empregada ao diagnosticar que "o cheiro da comida está maravilhoso!". A mulher sorriu e agradeceu. Completou que "foi sugestão do Sr. St. James! Carne de soja bem temperada, assada no forno com molho e legumes, do jeitinho que a senhora aprecia". A atriz meneou a cabeça. Se pudesse mixar o marido com Quinn Fabray, teria o seu par perfeito. O corpo feminino e bem talhado, elegante que a desconcertava e a atenção mais que especial de Jesse. Seria mágico! Todavia, este era um desejo impossível! Completamente louco! "Ele estava bem?", indagou, preocupada com os humores do marido, ora otimista, ora sem ânimo diante da dificuldade para encontrar trabalho. "Sim", Maria retorquiu, "ele estava bem animado. Pelo que eu pude entender, o Sr. Hummel conseguiu um teste para hoje. Ele iria se reunir com o rapaz.". A cantora sorriu. Esta era uma notícia maravilhosa! Se Kurt realmente conseguiu um teste e se Jesse "abocanhasse" o papel, as coisas ficariam muito melhor e ele recuperaria sua autoconfiança. "Oh! Esta é uma notícia excepcional, Maria! Deixou-me extremamente feliz. E ficarei ainda mais se Jess conseguir o papel!", justificou-se e, sinceramente, não sabia porquê o fazia. Afinal, o que a empregada tinha a ver com seu fracassado casamento e o divórcio que estava por acontecer? Retirou-se para o quarto, onde se banhou na espaçosa e delicada banheira. E seus pensamentos escorregaram até a ex-namorada, cada dia mais linda e sensual, ainda que os comentários que lhe saíssem da boca não o fossem. "Ai, Quinnie!... Como eu quero você!", gemeu a sentir todo o corpo gritar pela advogada, "eu farei o possível e o impossível para tê-la de novo e definitivamente! Eu conheço suas fraquezas! E será sobre elas que eu atacarei, até que o seu autocontrole desapareça por completo... Hã...", gemeu quando a mão, de maneira quase inconsciente, desceu até o ventre e sentiu a contração violenta que chegou ao ponto de lhe causar dor. Mordeu o indicador da outra mão, com o objetivo de calar os próprios murmúrios que lhe saiam entre os lábios carnudos enquanto pensava na ex e se tocava. Acomodou-se ainda mais na banheira e se abriu mais. A mão se movia por toda a extensão do sexo e em pouco tempo a imagem da advogada loira a lhe massagear com a língua tomou conta de seus pensamentos. "É... É aqui que eu terei você, Q...", suspirou, "bem aqui..." e se penetrou com dois dedos e iniciou os movimentos de vai-vem frenéticos. "Assim, Quinnie! Bem... Oh!...", gemeu outra vez ao sentir a violência da contração da própria intimidade. Estava tão precisada do corpo e gosto da advogada que o gozo não tardou a chegar, de maneira que explodiu, a sentir a si mesma contrair-se sobre os dedos. Mas, para o infortúnio de sua alma e carne, aquilo não era considerado, ao menos, um milionésimo do que a Fabray poderia dar. Frustrada, mal conseguiu controlar a irritação de ter um orgasmo que era apenas fruto do descontrole de seu corpo. E que culpa tinha se a ex-namorada estava ainda mais bela que antes? E tinha plena consciência de que precisava dela desesperadamente! "Quinnie, Quinnie! Por que você não me deixou explicar a confusão que estava a minha cabeça? No fundo, eu só queria você!", questionou-se, cheia de amargor e reconheceu que esta era a indagação mais estúpida que lhe saía pelos lábios nos últimos tempos. Uma indagação para a qual já tinha respostas. Só precisava ter uma brecha em sua atribulada agenda para encontrá-la. O mais viria depois... Com o tempo e o uso de seus conhecimentos acerca das fraquezas de Quinn... Sim! Estas seriam suas armas: o conhecimento das fraquezas de Quinn Fabray! A ex-fotógrafa até podia posar de fria e cínica, mas não a enganaria com tal postura. Não mais.

Saiu do banho, colocou um vestido que pairava em comprimento logo acima dos joelhos. Calçou um par de sandálias altas e refinadas, maquiou-se discretamente, escovou os longos e sedosos cabelos que desciam até o meio das costas, pegou de uma bolsa de mão e, antes de se retirar, parou na cozinha. Estava a sentir uma leve e inconveniente dor de cabeça. Pediu duas aspirinas à Maria que, de pronto, serviu-as. Agradeceu e avisou "minha querida, guarde, por obséquio, o meu almoço. É possível que eu não retorne a tempo, pois preciso saber como está a preparação da parte técnica de meu próximo musical. E você sabe muito bem que, quando entro no teatro, acabo por esquecer das horas. Apenas me avise se o Sr. St. James irá ou não buscar Spencer na escola. Caso contrário, eu o farei. Ok?". A empregada abaixou a cabeça e anuiu. A atriz percebeu naquele gesto um risco de tristeza. Cuidou de falar, a fim de acalmar a mulher tão querida por si e pela família, "ei! Relaxe, 'mujer'! Jesse e eu não dividimos mais a mesma cama, porém ele continuará a morar aqui. Acertamos que precisamos, particularmente, da bela amizade que se formou entre nós nestes anos de vida em comum. E, além do mais, temos um lindo filho que precisa de nós dois juntos, a fim de que não tenha traumas ou cousas do tipo! A felicidade maior do nosso pequeno está justamente na nossa união, que lhe dá segurança e confiança. Então, por favor, pare com essa expressão de lamento. Nada mudou, exceto o fato de Jess dormir em 'seu' próprio quarto. Estamos entendidas?", sorriu. A mulher assentiu e opinou que "vocês dois formam o casal mais bonito e donos de uma cumplicidade sem igual. Por isso é doloroso vê-los a se divorciarem... A senhora me entende?". Rachel sorriu e foi até Maria, abraçando-a com força a lhe afirmar que nada mudaria. Havia algo maior que a unia ao marido: a confiança mútua, o amor por Spencer e a amizade. Logo, não havia motivos plausíveis para a tristeza. A empregada sorriu, com claro alívio na face. Amava aquela família e a última coisa que desejava era ver tudo se esvair. Entrementes, as palavras da patroa abrandaram-lhe o coração. E um agradável sorriso estampou-se na face. A cantora se quedou tranquila, despediu-se e saiu.

"Não atire a flecha que retornará contra você"

– Ditado Popular -

A cantora se dirigiu para a "Fabray&Advogados". Precisava ter com Santana. Ela era a única pessoa que, talvez, pudesse lhe ajudar a reconquistar Quinn. Afinal, mesmo fria, percebeu que a ex-namorada ainda possuía uma pequena afinidade com a latina. E isto poderia ser o primeiro passo para ter de volta o amor de sua vida. Obviamente, sabia que haveria resistência por parte de Sant, porém não desistiria e a venceria pelo cansaço. Sorriu, particularmente satisfeita consigo mesma.

A advogada a recebeu com clara surpresa. "Berry! Jantamos ontem e hoje veio repetir o convite?", brincou, mesmo a saber o que levou a famosa colega de Lima, Ohio, até ali. E não errou quando ouviu a resposta da judia, "não foi o jantar idealizado por mim...". "Oh, Berry! Se está a falar da Fabray, relaxe! Não foi o pior dos encontros. Acredite-me.", a latina sorriu, amena. Rachel respirou fundo e confessou que "na verdade, Sant, eu preciso que me fale sobre o que a deixou tão fria e cheia de desfaçatez. Eu a quero, mas para isso, preciso saber como ela pensa. Entende? A Quinn que reencontrei é o avesso da que eu amei e que me amou". A advogada sorriu e meneou a cabeça, incrédula.

CONTINUA.

Notas finais
Um pouquinho de suspense para o próximo capítulo... Até e tenham um bom início de semana. Com afeto sincero, Cal.*-*