Sine Cordi
30 Capítulo 30 - ל
Notas iniciais
“I give, give you my heart
(Eu dou, lhe dou meu coração)
Today, tomorrow and forever
(Hoje, amanhã e para sempre)
You’ll always is my love
(Você sempre será o meu amor)”
– Today, Tomorrow and Forever by Elvis Presley & Ann Margret –
Rachel suspirou, enquanto as recordações seguiam inundando-a até um ponto de quase afogamento…
Reencontraram-se em Nova York. Quinn não foi para New Haven como a cantora pensou. Ela optou pela NYU e estudou fotografia. Dois anos após a declaração que fez, numa exposição de imagens no Museu de Arte Moderna de NY, conhecido como MoMA, em que Rachel estava com Kurt, Blaine e Santana, a ex cheerio era uma das que expunha suas fotografias e o local onde estavam seus trabalhos foi o mais movimentado. As imagens captadas pela loira eram as que mais chamavam a atenção tanto de profissionais, de críticos e especialistas quanto de apreciadores da beleza pura e simples, de imagens que embelezavam o ambiente e enriqueciam as memórias dos que assim se deixavam enriquecer.
“Uau!”, Kurt exclamou ao se deparar com os trabalhos de Quinn sem, no entanto, saber de quem eram. E só percebeu ao ouvir a voz da judia, que soou particularmente emocionada:
“Oh! São dela!”.
O rapaz, conhecedor do que acontecera entre a amiga e a cheerleader, leu o nome da exposição:
“Impressões, de Quinn Fabray… Santo dos Santos! Esta é uma exposição da NYU! A Quinn não está em New Haven?”.
Rachel olhou para Santana, que se fez de desentendida:
“O quê?”.
A pequena estreitou os olhos e foi direta, com acréscimo de um pouco de sarcasmo:
“Sei… Você é inocente”.
A latina confirmou, séria:
“Sim, eu sou”.
Mas a pequena morena não aceitou:
“Você realmente não sabia que a sua ex capitã e membro da ‘Trindade Profana’ estuda em NYU? A quem pensa que engana, Sant?”.
A Lopez não se abalou e retorquiu, lógica:
“Veja bem, Berry, você nunca me perguntou sobre ela! Como eu poderia falar se não era do seu interesse”, questionou.
A aspirante a cantora meneou a cabeça antes de expressar, surpresa com a resposta que recebeu:
“Eu não perguntei porque pensei que ela estava em New Haven! Mas… Que merda, Sant! Você poderia me avisar que ela estava o tempo todo aqui! Por que não o fez”, indagou explicitamente magoada.
As sobrancelhas da outra encontraram o couro cabeludo, em clara surpresa:
“Você está chateada porque eu não lhe contei? Deus, Berry! Você é certa da cabeça? Pelo que eu sei, você não foi receptiva a Quinn quando ela se declarou! O que mudou?”, quis saber.
A pequena meneou a cabeça e bufou. Nenhuma palavra escapou de sua boca. Porém, da boca do Kurt…
“Ela reconheceu que o desejo de ter a amizade da Fabray era, na realidade, paixão sublimada”.
A judia não acreditou na língua comprida do melhor amigo:
“Kurt!....”.
Santana pensou que não escutou direito:
“Como?”.
O rapaz se calou e Rachel o mirou e questionou, cínica:
“Você não acha meio tarde para guardar a sua língua grande, lagarto?”.
Ele suspirou e fez ouvidos mortos e ela sentiu vontade de estapeá-lo. A sorte dele era que, ao contrário de Santana, Rachel sabia se controlar.
Voltou-se para a estudante de Direito e a mirou inquisidora. A outra revirou os olhos e verbalizou, pouco afeita:
“Eu não sou adivinha, Berry! Como eu poderia saber que os seus sentimentos por Q mudaram?”.
“Por que não me contou que ela estava aqui, em Nova York? Há quanto tempo sabe disso?”, a judia despejou, visivelmente ansiosa.
A morena mais alta respondeu muito tranquila, “desde que ela veio para cá, há dois anos”.
“Sério, Sant?! Dois anos? Por que ela não me procurou?”.
A latina riu, incrédula:
“Mesmo, Berry?! Você não quis saber dela! E Quinn, por sua vez, é uma garota orgulhosa. Sangue Fabray, você sabe o que reza a lenda…”.
Rachel sabia, porém, no momento, o que mais desejou foi ter com a loira e não escondeu:
“Eu preciso falar com ela, Sant!”.
“Ok”, concordou, “boa sorte”, desejou assim que viu a fotógrafa se aproximar, sorridente.
Os cabelos de Quinn estavam ainda curtos e penteados de forma que os fios tinham as pontas para fora, no estilo bagunçado arrumadinho. Um vestido verde com decote em V e que marcava a cintura, com sandálias altas que compunham a imagem que fez o ar faltar aos pulmões da cantora, e o sorriso largo ao avistar a amiga e ex-companheira no time de cheerleaders do WMHS, completou a visão que fez a pequena se xingar silenciosamente por ter sido muito cega antes.
“Sant!”, exclamou e puxou a amiga para um abraço caloroso e cheio de afeto. Continuou, com os olhos apertados, rente ao pescoço da latina, “eu senti sua falta! O que aconteceu? Por que você sumiu?”.
Afastaram-se e a garota latina exprimiu, enquanto seguravam uma nos ombros da outra, frente a frente:
“A faculdade toma bastante do meu tempo”.
A Fabray riu mais e verbalizou, descontraída, “eu avisei que Direito era enjoativo, mas você não me levou a sério”.
A amiga cuidou de se defender, risonha:
“Menos, adoradora de gnomos! Eu disse que a faculdade toma muito do meu tempo e não que o curso era enjoado. Para o seu governo, estou muito feliz com a escolha que fiz”.
“Se você diz, como posso discordar?”, brincou e, assim que Santana saiu de seu raio de visão, Rachel e Kurt o ocuparam e o sorriso foi morrendo aos poucos da bela face e a voz saiu com dificuldade:
“Ra… Rachel?! Kurt… Que surpresa!”, e esticou a mão direita para cumprimentá-los.
A cantora meneou a cabeça e, com uma coragem recém-descoberta, pegou a mão da loira e a puxou para si e a envolveu num abraço apertado. Sussurrou, imediatista:
“Quinn! Que bom vê-la! Eu preciso tanto me desculpar com você!”.
A fotógrafa, surpresa, questionou:
“Você está bem? Por que precisa se desculpar?”.
“Porque eu fui tola demais quando você disse que me amava”.
A loira ficou sem ação.
Uma circunstância: algumas surpresas podem nos arrebatar; outras podem nos fazer duvidar.
“Rachel, tudo bem! Eu não agi corretamente com você e, além do mais, Finn era o seu namorado! Eu entendi! Entendi e aceitei…”.
“Não, Quinn! Eu vi que eu a amei durante todo o tempo… Mas me pareceu mais fácil não reconhecer”.
A ex cheerio se afastou e apertou os maxilares, tensa. Deu um sorriso incrédulo e atalhou, a procura de coerência:
“Eu creio que o momento não seja propício para essa conversa, Rachel”.
A judia se afastou, um quê de decepção a marcar o rosto e, antes que pudesse falar qualquer coisa, a loira pronunciou:
“Penso que poderíamos ter essa conversa em outro lugar, onde haja tranquilidade e menos gente… O que você acha?”.
Um sorriso se pronunciou na face da garota menor e ela assentiu. E, ao assentir, carimbou um outro sorriso no rosto de alabastro da jovem de olhos verdes.
Um compromisso foi selado naquele instante.
Só naquele instante.
“Tudo o que engana pode ser dito que encanta.”
– Platão –
Quinn voltou à testemunha e abriu um sorriso tranquilo, que deixou Mary Stein à vontade e a fez sorrir de volta, quase como se tivera sido encantada pela advogada.
E, talvez, realmente foi.
“Sra. Stein, qual o seu estado civil”, questionou com um tom de voz amigável, porém sem demonstrar qualquer tipo de intimidade ou coisa que se assemelhasse.
A depoente respondeu calmamente:
“Casada”.
A advogada assentiu e continuou, sólida:
“Pode, por favor, citar o nome do seu marido e há quantos anos estão casados?”.
E, como se respondesse a um comando automático, a Sra. Stein proferiu:
“Ryan Edmond Stein. Somos casados há dez anos e meio”.
A loira passeou os olhos sobre o júri de forma cativante e tornou para a mulher que lhe respondia:
“Há quanto tempo conhecia a Sra. Wood?”.
A réplica saiu quase instantaneamente:
“Há seis anos”.
Quinn acenou discretamente com a cabeça e prosseguiu:
“Eram amigas íntimas?”.
A questão foi simples e a resposta também:
“Sim”.
A advogada caminhou um pouco pela arena, a parecer pensativa e volveu ao questionário organizado dentro da cabeça:
“De um a cinco, sabendo-se que o cinco é o máximo, como classificaria o seu grau de amizade com a falecida?”.
Mary abriu um sorriso dorido e expressou, sincera:
“Eu sou assertiva em dizer cinco”.
Quinn sorriu de lado e foi em frente:
“Saberia dizer para este júri e demais espectadores neste tribunal se alguma vez a Sra. Wood foi ciumenta com relação ao seu envolvimento com o Sr. Wood?”.
A depoente sorriu, saudosa:
“Linda sempre foi apaixonada por Robert e, vez ou outra, ela avisava para eu ser cuidadosa com ele e, quando estávamos juntos – eu, ela, Robert, Ryan e Raul – ela ficava, inexoravelmente, junto ao esposo”.
A Fabray inclinou um pouco a cabeça para a direita e quis saber:
“Pela sua fala, poder-se-ia dizer que o Sr. Street sentia-se um pouco à margem?”.
A depoente sentiu que a advogada só desejava confirmar o que já sabia. Ainda assim, era sua obrigação responder:
“Eu não posso afirmar tal fato com cem por cento de certeza, pois Raul sempre soube ser discreto, mas havia momentos em que ele me pareceu um pouco triste com a ausência de Linda. E incomodado com o fato de ela estar ao lado do esposo”.
“Mas”, a Fabray prosseguiu, “o Sr. Street sabia que, de acordo com os termos da ‘relação’, este fato não deveria entristecê-lo”.
A testemunha concordou:
“Sim, porém ele se apegou mais do que deveria a ela”.
Quinn a mirou como se aquela informação fosse nova.
“Como pode afirmar isto, Sra. Stein? Afinal, era um ‘relacionamento’ em que as partes sabiam que este tipo de comportamento poderia ser doloroso”.
Mary deu um sorriso triste e ponderou:
“Sem dúvida, mas eu imagino que nem mesmo ele se deu conta do que estava a acontecer e, quando percebeu, não se afastou enquanto era tempo. Foi então que ele passou a demonstrar uma possessividade que não convinha com o contexto”.
“E qual seria este contexto?”, Quinn continuou.
Neste ínterim, Anthony pensou que a bela advogada se assemelhava muito ao cão pit bull que um vizinho tinha.
Por sua vez, a testemunha foi assertiva ao se expressar:
“O de que, por ser casada e que aquele era um envolvimento passageiro, eventualmente terminaria e cada um continuaria a seguir com suas vidas”.
Raul se virou para o Mathews, que estava muito concentrado no depoimento, e questionou com visível grau de irritação:
“O doutorzinho não fará nenhum aparte ao depoimento”.
O advogado meneou a cabeça em negativa.
“Não?! Ela está a me difamar e você deixará?”.
Anthony fitou o cliente de esguelha e respondeu, tranquilo:
“Até o presente, não há difamação…”.
O empresário ficou incrédulo.
“Oh, não há?! E calúnia?”.
O jovem retorquiu:
“Também não. E seria muito bom se o senhor me deixasse prestar atenção ao depoimento, a fim de que eu possa ter subsídios se quiser que eu continue a lhe representar”.
O empresário murmurou um impropério que passou despercebido pelo seu defensor, extremamente atento ao testemunho e, claro, à advogada que o estava a conduzir.
“Cada pessoa é aquilo que crê;
Fala do que gosta;
Retém o que procura;
Ensina o que aprende;
Tem o que dá e
Vale o que faz.”
– Chico Xavier –
Jesse chegou a casa abatido com a informação que recebeu de Blaine. E pensou sobre as palavras do homem que apreciava as gravatas-borboleta.
“Por favor, Jesse! Apenas se lembre que a Rachel tomará o que aconteceu com a Quinn como algo pessoal e sofrerá. Poupe-a! Poupe-se!”.
“Eu não posso impedir a minha Star de reencontrar a felicidade dela ao lado da Quinn”, argumentou sufocado.
“Este é o ponto, Jesse: a Rachel não encontrará a felicidade ao lado da Quinn. Não mais!”.
“Eu…”, Jesse, com efeito, quis que as palavras finais do empresário fossem outras. Quem sabe um pouco mais otimistas, ou esperançosas. Mas…
“Isso é tão cruel, Blaine! A Rachel e eu realmente erramos! E ela só quer outra oportunidade e…”.
“E ela até pode tentar, porém eu tenho quase certeza de que tal coisa não acontecerá. O destino, vez em quando, pode ser muito cínico”.
Suspirou e se deixou cair sentado no sofá da sala de estar, ainda arrebatado.
Maria apareceu, vinda da copa, e avisou que a “Sra. St. James” ligou para saber dele e de Spencer.
O homem sorriu, descontente.
A mulher percebeu que algo não estava bem…
“Señor…”, chamou.
Ele não a mirou. Apenas se deu ao trabalho de comunicar mecanicamente:
“Eu irei à escolinha para buscar Spencer, Maria”.
“Sí, señor. Mas, há algo que o perturba…”, afiançou.
Jesse, então, a encarou e forçou um sorriso apaziguador.
“Não, Maria. Não há coisa a me perturbar… Eu só estou cansado. Os ensaios estão muito fortes. Eu creio que precisarei voltar a correr para ganhar um pouco mais de fôlego. Cantar e dançar requer esforço” – assim com sorrir – pensou.
A mulher não se convenceu. Conhecia muito bem o casal para quem trabalhava! Conhecia Rachel Berry e o passado deles. O passado dela. Conheceu a moça loira bonita que estava sempre naquele mesmo apartamento e que, um dia, deixou de aparecer assim como, um dia, a Srta. Berry se tornou a Sra. St. James. E ouviu o bastante para saber que o “tema” das conversas do casal eram acerca daquela moça loira que, um dia, sem mais nem menos, deixou de existir para ela e o casal. E que – de momento – pareceu retornar do poço escuro do esquecimento e ganhar mais espaço do que poderia imaginar após tantos anos. Porém, este era um dado que não tinha o direito de compartilhar e nem expôr opinião. Por mais que amasse a família para quem trabalhava.
“Eu vou retornar aos meus afazeres”, comunicou.
O homem apenas assentiu com a cabeça, ainda prisioneiro da memória que lhe trazia algumas recordações de não muito tempo atrás…
Puxou Rachel para o quarto que dividiam e, lá, à porta fechada, verbalizou ainda ofegante:
“Eu estava preocupado com você, Star! O que aconteceu? Cheguei e não a encontrei e Maria disse que você não parecia muito bem. O que houve?”.
A preocupação dele era genuína e Rachel sorriu-lhe. Afagou o rosto daquele homem que amava ainda e respondeu, com um perceptível tom de desencanto na voz:
“Eu fui até o teatro encontrar com Blaine”.
Jesse ficou confuso…
“Foi ver como estão as montagens dos cenários? Foi o que eu entendi?”.
A mulher negou com um balanço negativo da cabeça e, antes de qualquer indagação do marido, explanou:
“Fui em busca de informações sobre Quinn”.
O cantor sentiu uma preocupação que não conseguiu explicar a si mesmo.
“E?”, foi a pergunta que expressou com o máximo de calma.
A atriz se afastou dele e, com um meneio negativo, retorquiu:
“Foi como tentar destrancar mais uma porta sem que a chave, apesar de entrar na fechadura, girasse para destravá-la e abrir. Um fiasco com ameaça de eu ser muito humilhada por meu objeto de desejo. Blaine foi apenas mais um a proteger Quinn do meu suposto mau-caratismo”, a voz levou em si um claro entristecer.
Jesse aproximou-se outra vez e a abraçou, a levá-la até a cama que dividiam até alguns dias atrás, onde a fez sentar. Colocou-se ao lado dela e a puxou, gentil, para si. Ela se deixou levar. Precisava de Jesse! Ele, mais que qualquer outra pessoa, sabia como lhe aconselhar de forma analítica.
“Eu não sei porque estão a agir dessa forma comigo, Jess! Eu já reconheci minha falta, porém parecem não acreditar em mim e no meu amor por Quinn”, desabafou, a demonstrar cansaço e o homem sentiu tal peculiaridade pouco comum na esposa e se preocupou mais. Atalhou:
“Você tem certeza de que realmente estão a proteger a Quinn? Pelo que sei, Star, em conversas com Blaine e Kurt, é que Santana, Britt, Russel e os demais têm a intenção de proteger você dela, não o contrário como está a dizer”.
Rachel, até então de cabeça baixa, voltou o olhar para o marido. Questionou, confusa:
“Então… Por quê? Eu não compreendo! Eu sei da frialdade de Quinn, mas esta característica dela não é motivo para tanto cuidado! Eu sou uma mulher adulta! E bem consciente do que fiz e do que desejo fazer! Sei que ela tentará me manter à distância e que poderá ser grosseira, cínica, maledicente… Jesse, eu tenho plena consciência disso! Por que não me dão passagem até ela?”.
O homem suspirou profundamente antes de responder:
“Talvez realmente haja algo mais com Quinn, como todos não se cansam de falar…”.
Compreendeu, então, que sempre teve razão quando aventou a possibilidade de estarem a proteger Rachel e não Quinn.
“Como será, Rae-Rae, quando souber que ela se acidentou? Como faremos para que você não sofra?”, questionou-se como alguém desvairado, alguém que tinha por hábito murmurar sozinho. Alguém com o nervosismo de não saber o que fazer. Entrementes, uma outra questão se assomou:
“Eu tenho o direito de me calar sobre o que, agora, sei, quando Rachel – para conseguir chegar até Quinn – terá de ser consciente de que, em realidade, o que aconteceu foi muito mais sério que um coração partido?”.
Jesse St. James soube, de imediato, a resposta. E rematou, consciente:
“Não… Rachel tem que, definitivamente, saber. Ainda que isso a faça padecer”.
Em determinados momentos da vida, desejamos apenas fugir da realidade, desaparecer e esperar que a tempestade passe.
Jesse estava a viver um destes peculiares instantes que podem ser mais largos do que parecem.
Ele não estava preparado…
“– Tu falas como as pessoas grandes!
Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:
– Tu confundes todas as coisas… Mistura tudo!
Ele estava realmente irritado. Sacudiu ao vento seus cabelos dourados:
– Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão contas. E o dia todo repete como tu: 'Eu sou um homem sério!' E isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo!”
– Antoine de Saint-Éxupery –
Rachel voltou de seu mundo particular ao ouvir a voz de Quinn a indagar para a Sra. Stein:
“Quando começou a se relacionar com o Sr. Wood?”.
A depoente não se retardou para informar:
“Começamos a nos relacionar há três anos, quando participávamos de um evento beneficente em Nova Jersey. Eu e Ryan estávamos presentes, assim como Robert e Linda. Nós duas já compartilhávamos a amizade. Lembro-me que o meu esposo se interessou por Lindsay Harley, que também era presente. Eu o aconselhei a conversar com ela. Linda, discreta como sempre, ergueu-se e me deixou com Robert. Começamos a conversar, ele me convidou para dançar e nos demos bem desde o início. Jantamos juntos, eu e ele, no dia seguinte e em poucos dias estávamos envolvidos”.
Quinn a mirou neutra e inquiriu:
“A Sra. Wood já namorava o Sr. Street?”.
A testemunha assentiu e complementou, segura, “sim, há alguns meses. Creio que três ou quatro, aproximadamente”.
“Diga-nos, Sra. Stein: sabia que a vítima tinha a intenção de terminar a relação com o Sr. Street?”.
Mary assentiu.
“Sim, eu sabia”.
A advogada, impassível, prosseguiu:
“E, por ventura, a senhora soube a razão de a Sra. Wood querer romper com o amante?”.
Mathews se levantou e protestou, a justificar:
“A advogada está a induzir a testemunha!”.
Quinn o mirou ao mesmo tempo que o juiz e ela questionou, não o juiz, fria:
“Perdão, Dr. Mathews?”.
O Walker não aceitou a justificativa do advogado, pois entendeu, assim como a própria Fabray, que esta só procurava embasar as alegações iniciais.
O rapaz sentou e desejou muito ser cirurgicamente preciso tal qual a advogada.
Após tal equívoco, ela pediu que a testemunha respondesse. E foi ouvida…
“Raul se apaixonou por Linda, mas ela só amou Robert. Então, inconformado com o fato de Linda ser casada, ele pediu para Robert se divorciar dela. Mas este não era o querer dela! E, muito menos, o do Sr. Wood! Ela era casada e apaixonada por Robert! Foi complicado, porque chegou um momento na relação em que, pelo que me confidenciou, a possessividade de Raul estava a se tornar um incômodo. Por fim, ela realmente planejou acabar com a relação”, concluiu a mulher.
“E, por acaso, a senhora soube quando ela decidiu comunicar o final da relação para o Sr. Street?”, a loira foi direto ao ponto.
Mary Stein assentiu e verbalizou, ciente e segura da resposta:
“Na noite em que foi assassinada”.
Um burburinho tomou conta do salão.
O juiz teve um pouco de dificuldade para calar as pessoas ali presentes. Porém, após alguns cansativos e irritantes minutos, finalmente alcançou o seu intento e, neste momento, Anthony se ergueu e protestou, sério:
“A testemunha não é confiável. Ela era amiga da Sra. Wood, o que torna o seu testemunho inválido”.
Quinn suspirou, claramente enfastiada com as tentativas de Mathews em atrapalhar o seu trabalho. Ela defendeu a testemunha e procurou quebrar o argumento do advogado de defesa ao observar, serena:
“Dr. Mathews, a Sra. Stein está a testemunhar apenas. O senhor está a confundir a situação aqui. Se o juiz Walker fosse amigo da Sra. Wood, eu certamente concordaria que haveria aqui um conflito de interesses. Porém, não é este o caso. O fato da minha testemunha ser amiga da vítima apenas corrobora o que eu afirmei nas iniciais: a Sra. Wood tentou terminar o relacionamento com o seu cliente. O Sr. Wood já nos falou sobre tal fato como a Sra. Stein o fez. Qual parte o doutor não entendeu?”.
A cara de quem chupou limão pensando que era laranja lima do jovem advogado foi impagável. Ele sentiu todo o sangue da face descer para os pés e, logo depois, subir com força total, deixando-o rubro. Fitou o juiz, quase num patético pedido de socorro, porém o homem meneou a cabeça e atalhou, prático:
“Lamento, Dr. Mathews, mas a Dra. Fabray está correta. Ela, até o presente, está a ser coerente. Portanto, sou obrigado a indeferir o seu protesto por falta de lógica e, creio, desatenção de sua parte quanto ao trabalho da promotoria”.
Bateu o martelo.
Os olhos de Rachel se agrandaram ao escutar um palavrão nada discreto por parte de Raul Street e, como se houvesse um ímã, seu olhar assustado cruzou com o de Quinn, seu oposto sorridente.
Quedou-se estupefata.
Uma pergunta teimosa feita a si mesma:
“Quem era aquela mulher vestida de Quinn Fabray?”
Murmurou para Santana:
“Como ela consegue ser tão lógica e assertiva?”.
A latina apenas observou, acostumada com os “shows” que a ex fotógrafa sempre apresentou nos julgamentos em que era a estrela principal:
“Não se admire tanto, Berry! Quinn sempre sabe o quê, como e quando falar. Por isso, ela é considerada a mais brilhante das advogadas deste Estado. A porcentagem de acertos e vitórias dela em contendas judicias é de noventa por cento”.
A pequena estreitou os olhos para a advogada ao seu lado.
“E pensar que um dia ela falou que Direito era muito chato e cansativo…”, pensou alto, “eu só gostaria de saber o que a levou a deixar a fotografia e se embrenhar no vasto mundo jurídico”.
A latina a fitou de esguelha.
E como era de sua natureza, Rachel Barbra Berry não se contentou com o silêncio…
“Por quê, Sant?”.
A advogada morena se fez de surda.
Porém, Rachel Berry nasceu Rachel Berry e morreria Rachel Berry:
“Qual o problema de vocês, Lopez”, indagou a judia. Pensou que merecia uma resposta:
“Santana…”, gemeu.
“Não há nada, Berry!”, murmurou a latina.
A judia meneou a cabeça, num gesto de pura incredulidade. Suspirou e voltou a inquirir, aborrecida:
“Eu sei que você também não gosta do que eu fiz, porém tudo o que quero é, de alguma forma, consertar o meu erro e…”.
“Não tem conserto, Rach! Apenas pare de tentar”, Santana atalhou, a cortar o discurso sentido da cantora. E, como quem fala o quer, acabou por ouvir o que não queria:
“Ainda bem que a Quinn pensa diferente de você!”.
A face da Lopez perdeu a cor e se virou para estar de frente com a de sua interlocutora.
“Apenas saiba, Rachel, que eu não desejo o seu mal! Seja um pouco mais crédula quando eu lhe digo para ficar longe da Quinn. Ela vai arrastar você para um lugar feio. E, talvez, você não possa sair de lá”.
“Talvez eu não queira sair, Sant! Já pensou nessa possibilidade?”
“Pode ter certeza que sim, Berry. Pensei sobre isso inúmeras e inúmeras vezes. Por isso, continuo a insistir…”.
“24Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus.
25Disseram-lhe pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor.
Mas ele disse-lhes: Se eu não vir os sinais dos cravos em suas mãos, e não puser os meus dedos no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei.”
– João 20:24-25 –
CONTINUA.
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