Sine Cordi
31 Capítulo 31 - לא
Notas iniciais
“Entre as dificuldades se
encontram as oportunidades”.
– Albert Einstein -
Rachel realmente quis, desejou profundamente, voltar para a sua existência dorida, porém sustentável, com a ausência de Quinn e das pessoas que, pareceu-lhe, tornaram-se fervorosas defensoras da loira e inimigas de seu comportamento passado, quando cometeu a falha que as separou. Mas nem tudo era como se desejava. E, no momento, tudo o que acontecia caminhava contra a sua mal ajambrada tentativa de se aproximar da ex. O time que lhes queria separadas pareceu um batalhão. Esta, também, pareceu-lhe uma luta injusta! Por que não poderiam apenas deixa-las tentar se afinar, por mais complicado que isso parecesse? Suspirou e, com uma calma que surpreendeu a si mesma, verbalizou apenas para a mulher ao seu lado:
“Por que vocês fazem isso? Eu sei que errei, mas eu realmente estou arrependida…”.
“Pare, Rachel!”, a advogada a cortou, “você não é o ‘problema’. Entenda isto de uma vez por todas! Aquela mulher lá na frente, por quem você não para de babar, é o problema!”.
A cantora deu uma pequena sacudidela na cabeça, na tentativa de introjetar outra vez mais o que ouviu pela enésima vez.
“Sant, enquanto você, Kurt e Blaine ficarem a falar comigo por enigmas, eu realmente não alcançarei a tão secreta mensagem que desejam me passar”, objetou.
Santana foi apenas ela mesma:
“Quinn Fabray não ama você, Rach! E nunca mais amará. Então, qual parte da ‘mensagem secreta’ você ainda não entendeu?”.
A atriz perdeu – momentaneamente – o raciocínio e, consequentemente, a fala. Expressou, confusa:
“Eu não entendi o ‘porquê’. Pode esclarece-lo para mim?”.
Santana voltou ao silêncio. E a judia concluiu, um risco de amargura na voz:
“Era o que eu esperava”.
A latina pensou em abordar a traição como causa do comportamento frio da loira, entretanto ficou cristalino que esta “desculpa” não era mais tão convincente. Não para a baixinha que mirava tudo de maneira aguçada. Rachel Berry era muito perspicaz e irritantemente insistente para continuar a socar uma parede de pedras ao perceber que nesta havia um espaço oco que, embora lhe ferisse as mãos, permitiria-lhe derruba-la mais cedo ou mais tarde.
“Rach”, voltou a falar, mais paciente, “eu amo a Quinnie! E tenho apreço por você. Então, pare de pensar que todos que sabem do envolvimento de vocês no passado estão a conspirar contra sua aproximação dela. Não é isso! Eu, Kurt e Blaine só queremos o seu bem”, findou e se voltou para a frente, a mirar Quinn virar o julgamento, devagar e sempre, a favor da promotoria.
A judia abaixou os olhos em direção às mãos que estavam a descansar sobre as pernas. A voz da advogada ao seu lado a reverberar dentro de sua caixa craniana. Deixou-se engolir pelo pensar e pesar as palavras ditas. Queriam protege-la de Quinn! Isto pareceu tão absurdo! Estava ciente do comportamento da ex-namorada, e também estava muitíssimo ciente do quanto ela era capaz de manipular o discurso em favor próprio. Sentiu isso na pele e estava naquele tribunal para ve-la fazer o mesmo com o réu, o advogado deste, os jurados e a audiência. Ela realmente era perfeita! Contudo, havia algo fora do lugar. E este “algo” estava, sem dúvida alguma, ligado à loira e ao brusco final do namoro que tiveram. Lembrou da conversa com Jesse acerca das palavras de Kurt e outros novos questionamentos a tomaram: o que escamoteavam? Por quê? E, ainda mais curioso e atordoante: o que fez Quinn desejar uma conversa após as tentativas que ela, Rachel, fez?
Voltou o olhar para frente e observou cada pequeno gesto da advogada por quem o seu coração palpitava de amor, saudade e distanciamento. O que estava a olhar e não via? O que precisava perceber? De tudo o que viu da ex-fotógrafa, o que mais lhe pareceu “fugir” do considerado “normal”, segundo as normas de comportamento geral?
“O que você deixou escapar, Rachel?”, perguntou-se. Sim. Havia alguma peculiaridade na ex-namorada.
“Preciso observa-la melhor… Preciso estar com ela… Preciso aceitar conversar com ela e, dessa vez, deixa-la conduzir o diálogo. Talvez eu saiba mais com as perguntas que ela me fará do que com as que eu tenho para fazer”.
Rachel estava no caminho certo.
Talvez as perguntas de Quinn fossem as respostas que ela desejava obter.
“O homem não é velho enquanto está buscando alguma coisa”.
– Jean Rostand -
Quinn continuava a inquirir Mary Stein e arrancar dela, sem quase nenhum esforço, as respostas que desejava para montar a versão da promotoria com bastante clareza na cabeça dos jurados e dos demais presentes ao julgamento. A assertividade dela estava a deixar a testemunha, o juiz Walker e o Mathews impressionados. O advogado de Raul Stevens Street chegou a conjecturar qual seria a probabilidade de a advogada possuir algum tipo de poder sobrenatural ligado à vidência ou algo neste segmento. Então, um traço de humanidade, causado pela expressão de dor na face dela o fez se quedar alarmado.
“A senhora poderia…”, ela travou ao sentir uma forte pontada intracraniana. Merda! Eu estou medicada!, pensou e esfregou a fronte com a mão esquerda, a fim de encontrar o equilíbrio necessário para continuar. Estava claro que a dor era o resultado de estresse. Tantas coisas aconteceram nos últimos dias…
“Algum problema, advogada”, indagou o Walker, conhecedor da fragilidade da mulher.
Ela respirou fundo e se voltou para o magistrado. Meneou a cabeça e foi até a mesa onde Lancaster estava e pediu que ele lhe servisse de água. O homem, assustado, o fez rapidamente.
A loira sorriu e tirou um comprimido de uma caixinha de remédios que estava no bolso do paletó e o engoliu com o líquido.
“Você está pálida”, observou o homem. A advogada puxou uma respiração forte e, devagar, expirou o ar. Localizou-se e voltou até a mulher que testemunhava. Olhou-a e continuou, impassível:
“Pode responder, Sra. Stein”, pediu.
A outra assentiu e verbalizou, mirando-a com certa preocupação:
“Linda comentou várias vezes que a possessividade e ciúmes de Raul a incomodavam. E que ele abordou Robert e pediu que se divorciasse dela a fim de toma-la como esposa”.
Rachel franziu o cenho ao perceber que a ex-namorada empalideceu. Virou-se para Santana e Russel e notou a preocupação estampada na face de cada um. Não se conteve:
“O que aconteceu com ela? Pareceu sentir dor, Sant. Por quê?”.
A latina a fitou e, sem escolher as palavras, respondeu:
“Quinnie parece estar com dor de cabeça”.
A cantora voltou o olhar para a mulher que era o alvo de seu amor. Dor de cabeça… Pensou, confusa. Não entendeu o motivo pelo qual Quinn lhe pareceu tão frágil e nem o susto que a Lopez e o Russel demonstraram ter. Era só uma dor de cabeça! Não era como se a loira tivesse uma doença grave! Então, um arrepio lhe percorreu a espinha. Seria possível? Não! Quinn estava ainda mais bela e tinha uma aparência saudável. Certo? Tentou afastar os maus pensamentos e se voltou para Santana:
“Ela ficará bem!?…”, murmurou com dificuldade. Temeu, inclusive, a resposta.
“Sim, Berry! Ela ficará. Já retomou o controle”, observou a mulher ao seu lado.
“Por que ela ficou tão abatida? Quero dizer… É só uma dor de cabeça…”, questionou com preocupação.
Então a advogada morena pareceu se dar conta que respondeu automaticamente à cantora. Respirou fundo e decidiu que mentir ou omitir a sinceridade para a judia seria uma grande bobagem. Ela não era tola. Definitivamente não mesmo!
“Quinn tem fortes crises de dor de cabeça…”.
“Enxaqueca?”, a dúvida expressada pela pequena não passou ao largo. Santana tentou explicar sem, no entanto, ser prolixa em relação aos fatos que permeavam o mal estar da Fabray:
“Não se trata exatamente de uma enxaqueca, Rachel”.
Porém, para a famosa atriz e cantora, a palavra dita em nada lhe esclareceu a questão. Insistiu, como era de seu feitio:
“Dor de cabeça… Por que ela tem estas dores se a razão inicial não é enxaqueca? O que a deflagra?”.
O inquérito de Rachel fez a latina piscar várias vezes. O que mais poderia expressar? O que deveria dizer, se o objetivo era exatamente dizer nada?
“Dios, Berry! Pare de perguntar um pouco! Não há o que eu possa lhe dizer mais sobre a Quinn”, disparou, aborrecida.
A pequena sorriu com desconfiança e verbalizou, baixo:
“Você já mentiu antes, Sant. Mas falhou dessa vez”.
As palavras de Rachel fizeram a mais alta menear a cabeça com desgosto e se voltar para frente.
Um desagradável silêncio caiu sobre as duas.
“Pessoas não fracassam. Elas simplesmente desistem.”
– Henry Ford -
Kurt encarou Blaine com o par de olhos azuis mais abertos do que, possivelmente, a Biologia considerasse normal.
“Você fez o quê?”, a pergunta incrédula saiu repetida pela oitava vez em pouco mais de dois minutos.
Observe-se: ele estava mais pálido. E sim. Isso é cientificamente possível!
Blaine suspirou na exata medida em que o esposo lhe repetiu a pergunta e se negou a repetir a resposta já dada não uma ou duas vezes, mas quatro.
“Blaine Devon Anderson, você quebrou a confiança que foi depositada em você!”, azucrinou o Hummel.
O moreno não se mostrou disposto a prosseguir com a conversação e demonstrou…
“Ora, Kurt! Poupe-me deste drama! Esse ‘segredinho’ já me cansou! Você, de verdade, pensou que – tão logo encontrassem com a Quinn – o Jesse e a Rachel não perceberiam a mudança dela? É tão grosseiramente visível, Kurt! Só alguém que nunca conheceu a Quinn pode pensar que ela sempre foi da maneira como é agora. Como você e Santana aventaram tal ideia? Como puderam se enganar?”.
O contratenor levou a mão direita à nuca e a esquerda à testa e andou pela elegante e espaçosa sala de estar do suntuoso apartamento em que moravam, em Upper West Side, desde que se estabeleceram como a dupla de melhores empresários do jet setter de atores em Nova York e Hollywood, nervoso.
“Kurt, amor, até quando aventou que fazer segredo sobre a causa do comportamento de Quinn poderia durar? Sabíamos que, na primeira oportunidade, a Rachel conseguiria se aproximar dela! E não erramos! Foi um verdadeiro feito mante-la afastada por quase três anos! Jesse e ela são muito inteligentes! As perguntas surgiriam, como surgiram e estão a rimbombar atualmente, causando confusão! Você e Sant sempre foram conscientes disso”, atalhou.
O Hummel suspirou antes de expor:
“Eu sei. Eu só não pude saber que você seria a pessoa a revelar tudo para o Jesse”.
“Eu não contei tudo! Não mesmo”, defendeu-se o moreno.
“Não contou tudo, mas contou o essencial! Quanto tempo acredita que a Rachel levará para descobrir que o ‘acidente’ de Quinn foi uma tentativa frustrada de suicídio?”.
Um adendo: Blaine tinha sérias restrições sobre o uso do adjetivo “frustrada”. Em sua concepção, Quinn conseguiu – mesmo – se não matar-se, matar a pessoa que foi há anos que lhe pareceram mui longos ao analisa-los agora.
“Kurt, por favor, não exagere! Rachel tem o direito de saber…”, alegou.
“Tem? Rachel realmente pode saber, Blaine? Ela vai se culpar por uma sandice da Quinn!…”.
“Uma sandice que ela ajudou a desencadear ao brincar com os sentimentos da Q”, atirou, sem piedade.
Os olhos azuis estavam a derramar incompreensão.
“Blaine!… A Rachel é nossa amiga”.
“E a Quinn também foi, Kurt! E nós a perdemos”, insistiu.
“Quer que percamos também a Rach?”.
A pergunta feita por Kurt fez o moreno estancar e abaixar a cabeça, expressando uma decepcionante derrota. Queria que o esposo compreendesse que, cedo ou tarde, a verdade viria à baila e que tentar tapar o sol com a peneira não os protegeria, e nem a ninguém, dos raios deste.
“Não, Kurt. Eu não quero que a Rach se perca como a Quinn se perdeu. Entretanto, eu também não quero mais fingir que coisa alguma aconteceu, porque – de fato – aconteceu! A traição da Rachel foi a mola propulsora da decisão da Quinn. Não podemos negar isso”, insistiu.
O contratenor caminhou até o esposo e o mirou. Apoiou as mãos pálidas nos ombros do cônjuge e perguntou:
“Quanto tempo você acha que levarão, Jess e Rach-Rach, para somar um mais um? Não lhe parece óbvio que esta conta será fácil para eles e que a culpa da Rachel um peso grande para ela levar?”.
Uma pergunta cruel dançou na cabeça do homem com gravata borboleta e escorregou língua afora:
“Você acredita que a Rachel sentirá culpa pelo que a Quinn fez a si mesma?”.
Kurt ergueu uma sobrancelha, pensativo. E respondeu, tão sincero quanto o esposo:
“Sim. Rachel se sentirá culpada, embora não devesse. Ela errou. Mas o que a Quinn tentou fazer e, de uma forma ou de outra, fez, foi egoísta demais, Blaine! Ela não pensou em nós, não pensou em Judy, Frannie, em Sant e Britt. Ela esqueceu de todos nós e do quanto ela sempre foi – e ainda é – importante para nós. Ela quebrou os nossos corações porque a Rachel quebrou o dela! Não consigo pensar nisso sem me sentir magoado”.
Blaine puxou o esposo para si e o envolveu num abraço forte e acolhedor. Murmurou no ouvido dele:
“Eu sinto muito, meu amor! Eu sinto muito… Mas eu ainda acredito que a Rachel precisa saber de tudo”.
“Não”, Kurt resfolegou e tentou se afastar do enlace do companheiro, “Rachel não tem que saber!… Não haverá como ela saber! Russel cuidou muito bem do caso… Ele conseguiu abafar tudo!”.
“Mas se ela e Jesse persistirem, Kurt! Se eles persistirem, descobrirão”, insistiu o homem de olhos esverdeados, mantendo o marido preso no abraço.
“Não…”, teimou o Hummel, “o Russel abafou a tentativa de suicídio e o caso foi tratado pela polícia de Nova York como um acidente de trânsito comum”.
“Eu sei! Mas com os contatos certos ela pode descobrir sobre o que quiser. Lembre-se, Kurt: Rachel não é mais a garota talentosa, porém enjoada do McKinley! Hoje ela é Rachel Berry, uma das maiores e mais influentes personalidades de nosso tempo! Se ela lançar mão disso, ela chegará ao suicídio de Quinn! Então, como se justificará com ela, quando vier pedir explicações do motivo de deixarem-na às cegas com uma Quinn Fabray com fortes traços de psicopatia? Responda-me, Kurt! O que você dirá? Que foi para protege-la?”, Blaine forçou.
“Eu queria poder voar,
Queria poder voar agora,
Queria poder voar agora,
Queria poder voar por aí, ao redor
Sobre esta cidade,
Sobre a sujeira no chão.
Eu seguiria o seu caminho
De portas deixadas entreabertas,
Para tentar descobrir
Quem você realmente é.”
– Roxete, Wish I Could Fly–
O silêncio só foi quebrado pela voz de Quinn e da Sra. Stein, que continuaram com o testemunho.
Após a resposta de Mary, houve um burburinho no plenário. Exceto os três que ali estavam para assistir a loira, nos dois sentidos verbais, não se expressaram.
O juiz conseguiu colocar a ordem necessária para que os trabalhos prosseguissem. Ele mirou a advogada e, embora estivesse preocupado com o que aconteceu, ela não demonstrou sinal de dor, ainda que a palidez lhe houvesse tomado e um sutil suor surgisse na fronte.
“A senhora sabe qual foi a reação da Sra. Wood ao ficar ciente do ato de enamoramento possessivo do Sr. Street”, Quinn perguntou com calma estudada. Era esperta e orgulhosa o bastante para não fraquejar em público.
A testemunha assentiu e falou assertiva:
“Ela ficou muito aborrecida”.
“E, após esta vez e com o aborrecimento da Sra. Wood, o réu repetiu tal atitude”, inquiriu com o dedo no que, sabia, era a ferida do Street.
“Sim. Raul abordou Robert outras três ou quatro vezes e fez o mesmo pedido”.
A advogada sorriu e fitou o acusado e atalhou, confiante:
“Não teriam sido, em vez de quatro, seis vezes, num total de sete pedidos que deixaram a Sra. Wood incomodada com o namorado?”.
A testemunha se preparou para responder, entretanto o advogado de defesa se levantou.
“Protesto, meritíssimo! A Srta. Fabray está a fazer suposições a fim de manipular a Sra. Stein”.
A loira não deu tempo para o juiz falar, ultrapassando-o:
“Eu farei a mesma pergunta ao seu cliente e ele estará sob juramento. Se for um homem que respeita a lei e a integridade deste tribunal, eu ouvirei como resposta o que acabei de indagar à Sra. Stein. Que ele pediu Linda Wood sete cansativas vezes em casamento”.
Anthony ficou surpreso com a atitude abusada de Quinn e emudeceu.
O Street ficou em choque. Mas, diferente do advogado, falou, ainda que debilmente, em bom som para todos ouvirem:
“Filha da puta”.
Walker fechou o semblante e esqueceu da atitude da advogada e chamou a atenção do Mathews e do réu. Os participantes do júri ficaram em aterrador choque.
A loira se voltou para a Sra. Stein e agradeceu sua colaboração e foi se sentar.
O advogado de defesa ficou atordoado de tal maneira que demorou a se dar conta de que a advogada já estava ao lado do promotor e que a testemunha era sua.
Respirou fundo, sacudiu discretamente a cabeça como se precisasse sair de um estado catatônico e se ergueu, tomando o máximo de tempo possível para se apropriar da situação e tentar “limpar” o borrão com o qual o cliente se deixou manchar.
Na assistência, Rachel arregalou os olhos com o xingamento direcionado à loira e foi abraçada pelo terror e a incredulidade. Ficou sem palavras. E mais surpresa ao ouvir de Santana e Russel, respectivamente:
“Um a zero para Quinnie”.
Olhou para os dois com o cenho franzido. A morena ao seu lado justificou:
“Não fique apavorada, Berry! Este é o objetivo de Quinn. Ela quer desestruturar o réu e o advogado de defesa. E já começou. Sabe o trabalho que o Mathews terá para conseguir reverter o pequeno dano que o cliente acabou de causar? Uma ocorrência assim é, definitivamente, um bom estrago para a imagem de qualquer pessoa. Ainda mais se esta pessoa for o réu em um julgamento de assassinato em primeiro grau”.
A cantora meneou a cabeça ligeiramente e, após conseguir se recuperar do susto inicial, perguntou a fim de se certificar que entendera direito:
“Você está a dizer que Quinn orquestrou tudo e que o xingamento foi o resultado disso”, soltou um riso sem fé, “isso é impossível, Sant!”.
A advogada mirou-a.
“Mesmo, Rach? Pois creia-me: sua ex é capaz de irritar qualquer um quando quer”.
A pequena se voltou para frente, chocada com o que ouviu da latina. Olhou para o advogado de defesa, ainda estático. Deus! Era tudo tão… Tão surreal! Pensou.
“Da Discrição:
Não te abras com o teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…”
– Mário Quintana -
Kurt meneou a cabeça, ainda atordoado pela pergunta do esposo. Sentia-se perdido, completamente.
“Eu… Eu não sei…”, gemeu ainda no abraço do homem de olhos esverdeados.
“Então, apenas pare de lutar contra isso! Rachel e Quinn, mais cedo ou mais tarde, terão de lidar com seus erros, seus pecados… Nós não poderemos protege-las, Kurt!”.
“Da mesma forma que não conseguimos proteger a Quinn de si mesma…”, murmurou.
Não era o que Blaine desejou escutar. E, portanto, perguntou:
“Podemos proteger alguém de si mesmo, K? Eu não sei…”.
O contratenor não respondeu. Apenas respirou fundo, em busca de um pouco de clareza. Em busca do próprio eixo. Em busca de um jeito de minimizar os danos colaterais causados pelo segredo que – até então – conseguiram guardar de Rachel.
“O Russel…”, sussurrou, “ele não sabe que a filha tentou se matar porque perdeu a cabeça quando flagrou a noiva com outro… Que flagrou a Rachel com o Jess… Ele ignora isso! A Judy… Deus! Somente nós dois, e a Sant e a Britt e… E Hiram e LeRoy sabemos da verdade… Se isso vier à tona…”, preocupou-se.
Blaine não encontrou maneira de ser razoável…
“Kurt, pirar agora não ajudará!”.
“Ah, não? E quando eu deverei ‘pirar’? Quando precisar manter a calma para apoiar a Rach? Nada disso, Blaine! Eu enlouquecerei agora! E em todos os momentos que eu puder, se isso ajudar a me manter são para a Rachel!”, defendeu-se com voz firme.
E, mais uma vez, o Anderson surpreendeu o esposo ao analisar de maneira coerente:
“Talvez Russel agradeça a Rachel o favor que lhe fez em relação a Quinn. Afinal, ele até tem que aguentar a causticidade dela, porém é bem recompensado monetariamente”.
“Santo dos Santos, Blaine! Isso foi cruel”, espantou-se.
“Cruel, porém verdadeiro”, justificou.
“Ele não se mete com a Alex…”, murmurou Kurt, saindo do abraço do companheiro, sentando-se no sofá espaçoso.
“Não se mete porque a Quinn não deixa… E a Alex não foi a razão pela qual a Q deixou de ser fotógrafa e se tornou advogada… Não foi por causa da Alex que a Quinn esqueceu quem foi…”, o Anderson explicou.
Outra vez ele estava certo.
“A Quinn virou um pacote de problemas que o Russel prefere não discutir… Uma filha com quem ele não sabe mais, de nenhuma maneira, lidar…”, acentuou, “nem ele, nem a Judy, nem eu, nem você ou Santana ou Brittany! Nenhum de nós está apto para Quinn. Não mais”, sentou ao lado de Kurt e lhe segurou a mão entre as suas, afetuoso.
O homem de tez de alabastro puxou a mão e, com a outra, voltou a massagear as próprias têmporas, a fim de fazer o sangue circular e os pensamentos se tornarem mais nítidos e coerentes.
“Eu temo que a Rach surte…”, confidenciou a fitar o esposo.
Blaine acenou com a cabeça, em concordância.
“É uma possibilidade…”, alegou, “porém ainda acredito que ela tem que saber tudo o que aconteceu enquanto estava em turnê pela Europa. Pense, Kurt! Pense e me responda: e se a Quinn tivesse padecido no acidente? Como acha que conseguiria omitir isso dela?”.
Uma filosofia de almanaque: a sinceridade costuma trazer um travo de fel e amargor à existência.
De repente, Kurt John Hummel sentiu dificuldade para tragar a própria saliva. Tornou o olhar para o esposo. E uma pergunta que sempre vinha à baila volveu aos lábios finos dele:
“E, por acaso, Blaine, a Quinn não morreu?”.
O moreno de olhos esverdeados suspirou em compreensão ao ponto do companheiro.
Sobre morrer:
“A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais”. (Epícuro)
“A Rachel vai pirar”, insistiu o homem de olhos azuis.
O moreno de gravata borboleta discordou:
“Ela não vai. Primeiro, porque tem o Jesse e o Spencer; segundo, ela não tem esse direito”.
Kurt meditou sobre as palavras do companheiro. Rachel não teria, realmente, o direito – ainda que apenas por poucos instantes – de se desesperar pela imprudência de Quinn Fabray?
“Ela é um ser humano, Blaine”, expressou, “e não poderia, nunca, conceber que a Quinn poderia tentar algo tão… Tão insano e… Desproporcional”.
Blaine não sabia. Ele era o tipo de pessoa aberta a possibilidades, entrementes, neste momento, sentiu-se incapaz de aventar que Rachel nunca pensou em tal eventualidade.
“Se a Rach não foi capaz de conceber tal coisa, então ela nunca soube o quão desmedidamente Quinn a amou”.
Kurt o mirou com a palidez acentuada renovada.
“Cruzes, Blaine! Isso foi cruel de se dizer!”.
“Não foi cruel. Foi realista! Pense comigo, Kurt: no momento em que a Quinn cortou laços com a própria família, que se desprendeu das próprias amarras, engoliu o orgulho e o medo pelo amor de Rachel, não ficou óbvio o quanto ela a adorou? Quando foi que ela teve dúvidas sobre o que sentiu pela Rach? Quando foi que você, ou eu, ou a Sant ou mesmo a Britt vimos a Q duvidar do quanto amou a Berry? Eu não consigo me lembrar… E você? Você consegue se lembrar de um só momento de dúvida apresentado por ela?”, inquiriu, com a certeza de saber sobre o que falava.
Uma sensação nauseabunda tomou o Hummel.
Ele estava com medo.
Ele estava zonzo.
Ele não sabia como agir quando Rachel soubesse… Pior: ele não sabia como sua amiga e mãe de seu afilhado reagiria.
Então, como se já não fosse o bastante, lembrou:
“A Quinn também não sabe! Não contaram que ela tentou se matar!”.
“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.”
– Platão -
CONTINUA.
Fale com o autor