Sine Cordi
29 Capítulo 29 - כט
Notas iniciais
“O luto é destinado aos que amam amar. Vinga-se a pessoa que odeia amar, odeia continuar amando. É o encontro do mais extremo ódio com o mais extremo amor. A união de dois terrorismos”.
– Fabricio Carpinejar -
Rachel sentiu os olhos se agrandarem e soltou, numa fala sufocada pela surpresa:
“Quinn... Quinn?”.
A advogada sorriu, sarcástica, antes de ser desagradável:
“Não, senhorita. Eu sou a Branca de Neve!”.
A cantora suspirou e se recompôs, antes de responder, enfadada:
“É… Eu sei… Desculpe pela confusão”.
As sobrancelhas da Fabray se ergueram e ela estalou em uma gargalhada que deixou Rachel realmente confusa. Quinn ria deliciosamente e a judia não entendeu de imediato, até que se deu conta da piada que fez ao respondê-la.
“Você é inacreditável, Fabray”, comentou, aborrecendo-se, a cruzar os braços sob os seios e o cenho muito franzido. Uma pose típica de Rachel Berry no secundário, quando algumas de suas sugestões não eram atendidas pelo Sr. Schuester.
Quinn respirou fundo e secou delicadamente com a manga do paletó os olhos úmidos pelo riso e se desculpou. Limpou a garganta e voltou a falar, a voz um pouco rouca pela crise que a pequena morena à sua frente, de cara fechada, causou-lhe:
“Eu realmente gostaria muito de que a senhorita se dispusesse a conversar comigo sobre algumas coisas que envolvem, digo, envolveram nós duas...”.
As mandíbulas de Rachel se afastaram a ponto de a advogada lhe notar a língua e desviar a atenção de volta aos olhos marrons incrédulos.
“Qual a surpresa?”.
Rachel se recompôs e retorquiu, muito espantada:
“Qual a surpresa? Qual a surpresa? Quinn Fabray! Eu estou tentando conversar com você e o que eu recebi de volta? Impassividade, um pouquinho de crueldade e... E agora você fica admirada por eu não acreditar nos meus ouvidos quando diz que gostaria de conversar sobre ‘algumas coisas’” — fez aspas com os dedos – “que aconteceram entre nós?”
Quinn sinceramente ficou confusa. E – raro – muda.
“Eu sei que eu realmente lhe machuquei, mas não posso servir de joguete nas suas mãos…”.
“Perdão?...”, a voz da advogada soou céptica.
A cantora meneou a cabeça. O que estava a fazer? Não era isso – conversar com Quinn – que tanto queria? Por que, então, estava irritada? Era para estar feliz... Mirou a ex-namorada de forma realmente triste:
“Eu... Eu não... Eu só não sei, Quinn. Eu amo... Eu amo você, mas eu também sei que machuquei você e... Eu entendo que você sofreu e que eu realmente não sei o tamanho do quanto você sofreu, porém eu imagino, mesmo, que foi muito, porque você não é mais a mesma pessoa por quem eu me apaixonei... Você era doce e tão frágil e eu simplesmente quebrei o seu coração e depois eu não soube mais o que fazer, se eu deveria ir atrás de você... Não! Eu, definitivamente, deveria ter ido atrás de você, mas eu não fui e eu deixei você pensando que eu não lhe amava e na verdade eu nunca deixei de amar você...”.
“Srta. Berry!” — Quinn praticamente gritou, calando a atriz, — “Aqui não... Eu só preciso que aceite conversar comigo. Se houver necessidade que eu me desculpe por minhas... ‘indelicadezas’ para que possamos entender o que houve, eu farei o que for possível. Eu fui clara?”.
Rachel piscou algumas vezes. Não assimilou as palavras da ex-namorada com a devida acuidade. Ela estava disposta a pedir desculpas? Mas, seu tom pareceu tão... Prático!
“Nós vamos falar sobre nossas vidas ou vamos fechar um negócio, Quinn?”.
A expressão na face bela da advogada cambiou para surpresa.
“Como?”.
“Sim”, a cantora queria compreender quem era a mulher à sua frente, “você foi tão formal... Você é formal! Você é desprovida de emoção ou gentileza. Eu não sei porque você não pode, só por um momento, abaixar a guarda e falar comigo de maneira natural. Eu ainda sou a mesma Rachel Berry!”.
A advogada meneou a cabeça, a fim de se recuperar da enxurrada de palavras da mulher que se mostrava desgovernada antes de continuar:
“Eu posso perceber que este, realmente, não foi um bom momento para aborda-la, Srta. Berry. Lamento...”, ergueu a bolsa executiva de couro e a abriu. Retirou um cartão e o esticou para a atriz, “são meus telefones. Quando estiver disposta a conversar, eu realmente gostaria muito. Pode ser que, se você demorar muito a se decidir, não consiga falar em nenhum dos números, porque quando os julgamentos acabam, eu costumo me isolar um pouco para que o escravocrata do Russel me deixe em paz...”, sorriu.
Rachel pegou o cartão oferecido e o coração apertou no peito. Aquele sorriso tímido que viu nos lábios de Quinn lhe deu uma dolorida sensação de Dèjá-vu, uma faísca de um tempo que nunca mais voltaria. Ela estava a ser sincera? Quinn Fabray foi sincera neste momento? Ela abaixou a guarda? Ela realmente era formal de guarda baixa?
“Oh! Meu. Deus!”, exprimiu, horrorizada.
Quinn franziu o cenho e pensou que Rachel Berry era desatinada.
“Srta. Berry”, olhou o relógio rapidamente, “eu realmente precisarei ir. Assim... Pense a respeito. E tente, por favor, manter a calma”.
“Manter a calma?” — a cantora tentou entender em que momento o fugaz diálogo com Quinn havia desandado para algo que ela não compreendeu ainda — “Do que estamos a falar precisamente?”.
Quinn estirou a postura e respondeu, tentando parecer bem coerente diante da mulher que, neste momento, achou que era a incoerência encarnada:
“Sobre a senhorita encontrar um tempo para nos encontrarmos e conversarmos. É sobre isso que estamos a falar...”.
Rachel meneou a cabeça.
“Isso eu sei, Dra. Fabray! O que eu não sei é por que você não consegue, por um pequeno momento, ser natural como antes! Você está rígida, Quinn! Rígida como a sua família sempre quis que ficasse! Como o seu pai quis que ficasse! É sobre isso que eu estou falando!”.
A advogada meneou a cabeça e suspirou antes de verbalizar:
“Talvez eu consiga lhe explicar isso... Se nos encontrarmos. Agora, eu realmente preciso ir”.
Saiu assim como entrou: num zás.
Rachel se quedou inerte. Os olhos a acumularem água temperada com sal. A respiração curta. Os lábios entreabertos com as palavras não ditas. O peito estrangulando o coração descompassado e a cabeça a dar voltas e voltas sem conseguir encontrar a coerência necessária para continuar seu trabalho. Realmente, Rachel Berry pareceu ter encontrado a encarnação distoante da crueza e do fingimento em uma só pessoa. Quinn conseguiu ser gentil e fria de maneira espetacular.
Mesmo?
Ou era só a sua falta de crença que, talvez, um dia, num ano qualquer, num local qualquer, numa hora qualquer, Quinn Fabray lhe desse a oportunidade de um encontro onde as arestas poderiam ser aparadas e as peças do quebra-cabeças fossem colocadas em seus lugares, a fim de tentarem compreender o que o futuro ainda poderia lhes reservar após alguns tropeços no passado?
“Meus tropeços...”, murmurou, alquebrada.
“Não fale
Eu sei exatamente o que você está dizendo
Então, por favor, pare de explicar”.
– Don't Speak by No Doubot -
Jesse estava ainda estava em choque.
Blaine pensou que Kurt, provavelmente, cortaria sua língua fora e faria um ensopado que seria servido no almoço.
“Aaaacidente?!...”, a incredulidade misturada ao tranco da informação fez a palavra sair desafinada pela garganta do cantor de musicais da Broadway, “como assim?... Acidente? De carro?! Quinn Fabray sofreu um acidente de carro!”, riu. Não porque a revelação era engraçada, mas, sim, drástica. Riu porque, às vezes, diante de certas situações, não conseguia fazer outra coisa a não ser gargalhar histericamente. Como quando viu um homem morrer atropelado em plena Times Square. A cena foi tão bizarra que ele sentou na calçada e riu até quase asfixiar, sob os olhares reprovadores dos transeuntes que não entendiam como alguém poderia se refastelar diante da morte crua e sem razão de um homem que só estava indo para o trabalho numa manhã de segunda-feira em Nova York.
O susto pode ter maneiras estranhas de se manifestar...
Blaine mirou o amigo e cliente sentar numa das cadeiras da plateia, enquanto ria e ria.
“Não é engraçado, St. James!”, aborreceu-se.
O ator tentou se reincorporar. Respirou fundo uma, duas, três vezes e fechou os olhos.
“O que eu lhe disse ficará entre nós. A Rach não precisa saber...”, o empresário observou.
Os olhos claros de Jesse pairaram sobre o homem de gravata borboleta.
“A Rachel não precisa saber?”, levantou-se e se enraizou diante do Anderson. “Por que a minha Rach-Rach não precisa saber? O que ela tem a ver com o acidente da Quinn?”.
Blaine o mirou e pensou se deveria levar adiante aquela conversa.
“Apenas esqueça o que eu disse, St. James. Já basta de tanta confusão”, concluiu.
Entrementes, o artista não estava disposto a estancar o colóquio...
“Não, Blaine! Não faça isso... Não tente dar a entender que a minha Rachel foi a culpada por qualquer merda que a Fabray tenha feito com a própria vida! Eu não vou aceitar isso!”.
“Você não tem que aceitar, Jesse! Ninguém lhe pediu ou pedirá isso”.
A resposta do empresário teve a perícia de atontar o cantor mais uma vez.
“O quê?”.
“O que você escutou! Ninguém está pedindo coisa alguma a você, Jesse. Apenas que deixe a Rachel fora disso! Agora, se você realmente quiser levar toda esta porcaria adiante, ok! Eu estarei do lado da sua Rach-Rach. E eu estarei do lado dela porque eu sei o quanto ela poderá sofrer. Eu, realmente, preciso me alongar mais?”, indagou, visivelamente chateado.
O verbo despido de sutilezas do Anderson fez o cantor capitular. Ele meneou a cabeça e passou a mão pela nuca.
“Não, Blaine...”, murmurou, “isso é um pouco cruel! Quinn foi cruel! O que ela queria? Fazer a minha Rach-Rach se culpar por tudo de ruim que aconteceu com ela? Foi isso? Ela teve a coragem de...”.
“Quinn não sabe! E mais: ela só tentou fazer mal a si mesma”, o empresário cortou.
E a expressão de ter escutado um diálogo em aramaico fluente estampou-se na cara do St. James.
“Como assim a 'Quinn não sabe'? Como alguém sofre um acidente e não sabe que sofreu?”.
A pergunta fez Blaine gemer antes de responder:
“A Quinn sabe que sofreu um acidente. Ela só não sabe o verdadeiro porquê... Desnecessário, certo?”.
E outra vez o St. James perdeu o fôlego e a capacidade de racionalizar determinadas informações.
Só um apêndice: dessa vez, ele não riu.
“Eu...”, e também se esqueceu como pensar e formar uma frase coerente.
Blaine fez um gesto com a mão de que palavras eram desnecessárias. Ao menos, por agora.
Jesse balançou a cabeça para lá e para cá, em negativa.
“Blaine... Eu...”.
O empresário não deixou que prosseguisse:
“Por favor, Jesse! Apenas se lembre que a Rachel tomará o que aconteceu com a Quinn como algo pessoal e sofrerá. Poupe-a! Poupe-se!”.
“Eu não posso impedir a minha Star de reencontrar a felicidade dela ao lado da Quinn”, argumentou sufocado.
“Este é o ponto, Jesse: a Rachel não encontrará a felicidade ao lado da Quinn. Não mais!” — Blaine parecia frio, mas não era assim. Ele só queria evitar que mais desgostos acontecessem.
“Eu...”, Jesse, com efeito, quis que as palavras finais do empresário fossem outras. Quem sabe um pouco mais otimistas, ou esperançosas... Mas...
“Isso é tão cruel, Blaine! A Rachel e eu realmente erramos! E ela só quer outra oportunidade e...”.
“E ela até pode tentar, porém eu tenho quase certeza de que tal coisa não acontecerá. O destino, vez em quando, pode ser muito cínico”, observou.
O cantor se quedou pensativo e murmurou audível:
“Ela não aceitará argumentos... A minha Rachel não desiste de escalar uma montanha só porque lhe dizem que é impossível. Para ela, o impossível é apenas a falta de fé das pessoas em si mesmas”.
O homem de gravata borboleta suspirou, antes de observar:
“Talvez ela nunca tenha precisado escalar uma montanha de gelo. Muita gente morre no meio do caminho...”.
O silêncio se fez presente e os homens se afastaram, sem despedidas ou palavras gentis, cada um com seus pensamentos acerca de um só tema.
A pensar bem, alguns “temas” podem ser cobertos de espinhos.
Sobre os espinhos: eles podem fazer sangrar.
“A vida segue acontecendo nos detalhes, nos desvios, nas surpresas e nas alterações de rota que não são determinadas por você.”
– Martha Medeiros -
Rachel voltou ao lugar em silêncio, ainda sem colocar a devida fé de que Quinn Fabray havia lhe abordado no banheiro. Há quanto tempo ela estaria a observa-la? Desde o início do julgamento? Ou apenas a notou quando se levantou para deixar o salão? E por que ela estava, agora, interessada em conversar?
Santana a fitou.
A judia sentou e olhou para frente e encontrou a figura da ex-namorada sentada tranquilamente perto do promotor, com quem trocava alguma palavras.
“Você está bem, Rachel?”, a questão soou preocupada por parte da advogada morena.
Rachel assentiu, embora fosse mentira. Ela, neste momento, não estava bem. Não que estivesse triste ou a sentir dor. Apenas... Apenas o coração parecia tremer um pouco dentro do peito, a causar uma desagradável sensação de mareação.
“Berry, seu filho está bem?”.
A palavra filho despertou a cantora do estado de inércia em que se encontrava.
“Spencer? Está bem! Muito bem! Ele está na escola...”, respondeu automaticamente.
Santana achou por bem fingir que acreditou na palavras da cantora, embora não encontrasse um motivo papável para a maneira pálida como ela retornou ao lugar. Parecia ter visto um fantasma! Um fantasma ou...
“Quinn!”, atestou.
Rachel desta vez voltou ao mundo real.
“Quinn? O que tem a Quinn?”, olhou em direção à advogada que agora lia uma das páginas do processo.
“Ela também saiu”, observou.
Rachel assentiu, muda.
“E, a observar a sua expressão e postura ao retornar do banheiro, eu tenho quase cem por cento de certeza de que você cruzou com ela e, para variar, ela não foi muito gentil”, continuou.
“Não...”, a cantora murmurou a encarar a latina, “na verdade, ela foi até muito gentil, apesar do hálito frio que escapuliu dos lábios dela quando falou”.
Esta era uma informação que Santana Lopez não estava pronta para receber.
“O quê? A Fabray?”, riu.
Rachel assentiu tranquila, como se a situação não beirasse – para a Lopez – uma excentricidade.
“Ela quer conversar comigo... Até me deu o cartão dela para eu telefonar e marcar...”, murmurou e depois indagou para uma Santana boquiaberta, “isso não é estranho?”.
“Definitivamente”, concordou a latina, sem conseguir ocultar a preocupação.
Rachel percebeu e atalhou, enganada:
“Não precisa temer por ela, Sant! Eu não a machucarei outra vez”.
A advogada morena meneou a cabeça e sorriu, achando engraçada a preocupação da cantora. Falou, seca:
“Eu não estou preocupada com a Quinn, Rachel... Eu estou muito preocupada com você”.
A judia encarou o perfil da latina com olhos de espanto.
“Como? Por quê?”, ficou perplexa.
“Porque a probabilidade de fazer alguém sofrer nesta história pende para o lado da Fabray. Você não pode mais machuca-la ou qualquer coisa parecida, Rach! Entenda isso de uma vez por todas”.
Algumas palavras podem confundir uma pessoa.
Neste momento, Rachel Barbra Berry estava confusa.
*-*
O juiz Walker deu a palavra para o Lancaster, que anunciou:
“A acusação chama a Sra. Mary M. Stein”.
Anthony não se surpreendeu. Soube, desde “sempre”, que a promotoria teria pessoas para testemunhar a favor de si mesma. Ele ali estava para defender e os seus opositores para acusar e conseguir condenar. Seria mais cuidadoso. Não poderia impedir tal desdobramento. Entrementes, seria atento o bastante para fazer suas perguntas e evitar mais contestações de Quinn Fabray. Sempre soube que ela era uma arma letal em litígios e até já a vira em ação, mas estar em contenda com ela era muito mais difícil do que presenciou antes. Apesar de todas as histórias que ouviu sobre ela ser, na verdade, frágil e ter algum desconforto no quesito saúde, esta – definitivamente – não lhe pareceu verossímil. Ao contrário, se não se mantivesse em “alerta”, a bela doutora criminalista o deglutiria sem a menor dificuldade!
Uma mulher loira, olhos azuis, entre trinta e cinco e quarenta anos, elegante e de modos refinados, adentrou ao recinto. Ela fez o juramento e sentou para ser ouvida.
Quinn se levantou e caminhou até ela, mas parou estrategicamente a uma certa distância e da mesma maneira que Rachel observou antes. Olhou nos olhos da testemunha e a cumprimentou, afável:
“Obrigada por vir, Sra. Stein. E, antes de qualquer pergunta, poderia se apresentar aos presentes neste tribunal?”.
A mulher sorriu e concordou, a falar com voz forte, segura e com tonalidade que poderia muito bem ser identificada como contralto:
“Eu sou Mary M. Stein, casada com Ryan Stein, amiga de Linda Wood e ‘namorada’ de Robert Wood...”.
Outra comoção tomou conta dos presentes e foi preciso que o juiz acalmasse a surpresa de todos, inclusive a do Mathews.
“Namorada?!”, mirou o cliente e, aborrecido, avaliou, “Sr. Street, sabe que o fato de não me informar 'pequenos' detalhes como este poderá lhe ser prejudicial?”.
O cliente o olhou com desdém e murmurou “balelas! Nada mais!”.
O humor do suspeito estava particularmente ocre. E ainda acrescentou, a deixar o jovem advogado a não acreditar na realidade do que escutou:
“Se eu for condenado pelo assassinato de Linda, você será o culpado!”. “O quê?”, Mathews gaguejou. E ouviu:
"Não deveria ceder à sua maldita vaidade para se confrontar com a Dra. Fabray. Ela será a causa da sua queda! E eu não desejo cair com você", cuspiu o Street, sem ocultar a raiva. Anthony estava pronto para retorquir, entretanto o juiz lançou a atenção para o local em que estavam e, por tal motivo, deixou passar a acusação do cliente. Respirou fundo. Na atua circunstância, precisava ser frio e controlado.
Quinn sorriu e agradeceu ao esclarecimento da depoente e iniciou a perguntar, extremamente segura e desprovida de qualquer tipo de emoção, o que lhe conferiu imensa vantagem, sempre, sobre os seus oponentes:
"Sra. Stein, a senhora e o seu marido compartilham da mesma filosofia de vida do Sr. e da falecida Sra. Wood. Correto?".
A mulher assentiu e verbalizou um sim contundente. A advogada começou a organizar a próxima pergunta quando, para sua surpresa e divertimento particular ouviu o Mathews interferir no testemunho da Sra. Stein, atordoado:
"Meritíssimo, eu posso me aproximar?".
A loira não deixou de perceber a face pálida e surpresa do advogado do Street. O juiz permitiu e Quinn o acompanhou. Pararam perto da bancada onde o Walker estava e o rapaz exprimiu, grave:
"Eu desejo saber sobre a depoente e o fato de ela ser 'namorada' do Sr. Wood".
O homem que mediava o julgamento meneou a cabeça, antes de verbalizar:
"Dr. Mathews, o senhor estudou bem os autos do processo? Imagino, pelo que conheço da Dra. Fabray, que recebeu o arquivo com o nome da depoente. E, assim sendo, o que deseja realmente?".
O jovem advogado olhou do juiz para a Quinn e desta para o juiz outra vez. Pareceu que o embaraço o pegara. E a “Rainha de Gelo” perguntou, monocórdia:
"Não leu a lista de testemunhas que a promotoria lhe enviou?".
Mathews ficou atrapalhado e, ao recompor-se, retorquiu que “é óbvio que eu li... Afinal, este é um... Um julgamento sério”.
A loira o escrutinou e expressou, prática e direta:
“Acho que o doutor mente muito mal...”.
E o advogado sentiu como se a mulher o tivera socado na boca do estômago. E a confusão em que se encontrou foi tamanha que desistiu de pedir um recesso ao magistrado, e pensou em que planeta se meteu para olvidar que seu debate forense seria contra Quinn Fabray!
"Por isso a chamam de a 'Rainha de Gelo'”, murmurou para seu adentro, “Nem parece estar num julgamento! A impressão é a de que está em um parque de diversões. Relax, inabalável... Mas, que merda, Anthony!", brigou consigo mesmo.
“Somente passava dez minutos com o amor de sua vida, e milhares de horas pensando nele.”
– Paulo Coelho -
Rachel, mais uma vez, ficou extremamente atordoada com a maneira como a ex-namorada pareceu passear no parque num domingo tranquilo em pleno tribunal. Ela dominava a cena. Não transpareceu, em qualquer momento, que estava em um julgamento. A voz segura, a boa articulação verbal, a capacidade em interromper a fala do advogado de defesa sempre a se embasar em argumentos palpáveis, a bela presença quase hipnótica... Rachel não soube o que mais acrescentar tamanha a forma com a qual se notou cativa da mulher que nada fez para intoxica-la de maneira tão poderosa. E, a comparar a advogada com a fotógrafa que namorou, certificou-se ainda mais que havia diferenças berrantes entre uma e outra. Na verdade, foi como se a Quinn que agora viu com mais clareza de sentidos fosse uma gêmea da Quinn de há cinco anos passados. Postura, vestir, mover... Se soubesse que a ex nunca tivera uma irmã, seria capaz de pensar que aquela era outra pessoa. Uma doce, porém com uma pequena pitada de sal, lembrança a tomou...
Quinn deu uma sonora gargalhada ao assistir pela enésima vez a Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Rachel a ouviu. Estava no estúdio, mas não conseguiu se concentrar, pois a cada gargalhada da namorada, ria também, contagiada. Amava a forma como a loira ria. Era tão espontânea e vibrante que ficava impossível não rir. Quinn não conseguia, ao menos, contar uma piada ou história engraçada sem começar a rir antes de chegar ao meio e as pessoas riam por contágio, haja vista que ela nunca as finalizava. Esse foi um lado apaixonante da ex cheerio. A cantora sempre a viu muito séria no colegial, sempre a transparecer indiferença e, particularmente, uma crueldade que fez questão de derramar sobre ela. Foi sua vítima preferida! Quinn sempre fez o que pode para fazer-lhe a vida massacrante. Fechava-a nos corredores do colégio, ameaçava-a, fazia comentários maldosos... E quando no meio do segundo ano até o final do terceiro ela parou com as perseguições e se tornou retraída, principalmente em relação a ela, a judia imaginou o que poderia ter acontecido para a radical mudança. E, no final, quando da formatura, Quinn se aproximou e perguntou se poderia lhe falar, estranhou e desconfiou. Entretanto, sentiu-a tão sincera que não temeu. Caminharam até a sala do Clube e, sozinhas, deu-se conta do quanto a cheerleader estava nervosa.
"Quinn, aconteceu alguma coisa", indagou, realmente preocupada.
A garota loira respirou fundo e pareceu buscar coragem em algum lugar reservado dentro de si mesma. Após quase cinco minutos, verbalizou, numa voz tão frágil e assustada que Rachel pensou que algo grave estava acontecendo: "Sim...", murmurou, a fitar os pés que se moviam de maneira nervosa. "Quinn, você está me preocupando".
"Rachel, vo-você pode me perdoar pelo que eu lhe fiz?".
A pergunta foi feita de forma tão prostrada que a menor sentiu o chão se abrir sob os pés e, incrédula, riu e perguntou:
"Você está brincando, certo?".
A palidez da outra foi imediata e assustadora. E a judia ficou séria e verbalizou:
"Ok! Isso é mesmo sério. O que aconteceu? Por que você faz questão do meu perdão? Você está doente ou algo assim?".
A loira movimentou a cabeça em negativa.
"Você me parece doente, Quinn! E eu estou assustada com isso! Não se preocupe. Eu nunca guardei rancor ou qualquer sentimento negativo em relação a você. Pode ficar tranquila", garantiu e, de cabeça baixa, buscou a saída. Entrementes, a cheerleader travou-lhe do braço e a puxou de volta:
"Isso é sério, Berry! Eu preciso, mesmo, que me perdoe!".
A morena a olhou nos olhos e leu neles dor, e isso fez com que se surpreendesse.
"Certo, Fabray! Eu estou a falar sério! Eu não posso lhe perdoar, porque não sinto raiva de você. Quinn, eu não estou mentindo! Por isso, fique calma e tenha certeza de que eu nunca a odiei!".
A ex cheerleader abaixou a cabeça com o olhar ainda direcionado para o chão. Afrouxou o aperto no braço da judia e esta se libertou, afastando-se. Na porta, parou e voltou a mirar a garota ainda parada, a cabeça baixa, imóvel. Suspirou e, tocada pela imagem que lhe penetrava as retinas, perguntou:
"Por que quis o meu perdão, Quinn?".
A cheerio meneou a cabeça e, sem mudar de posição, respondeu:
"Porque...”, gaguejou insegura, “Porque eu... Porque, Rachel, eu amo você!".
A judia vacilou:
"O... O quê?".
E Quinn repetiu, encarando-a dessa vez:
"Eu. Amo. Você! Sempre amei... Eu só não aceitei e... E ao invés de me punir, eu feri você... Até... Até que no... Até eu perceber que não adiantava eu fazer o que fosse para lhe afastar. Nada mudaria o que eu sinto por você. Nada, Rachel!".
"Não podemos resolver problemas da vida da mesma maneira que os criamos."
– Albert Einstein -
CONTINUA.
Fale com o autor