Sine Cordi
8 Capítulo 8 - ח
Notas iniciais
"Abandonamos o papel de vítima no momento em que voltamos a ser nós mesmos. Alegramo-nos com a singularidade de nossas características diferenciadas, mas também apreciamos as qualidades que compartilhamos com o resto da humanidade. Nossa vida não é regida exclusivamente pelo que os outros esperam de nós, mas por aquilo que nós consideramos importante."
– Khaleghl Quinn -
Quinn e Wilhelm chegaram a cobertura e foram direto para o escritório. A advogada foi retirando os sapatos pelo caminho, o que lhe era de hábito. O rapaz que a acompava apenas sorriu. Ela se sentou à escrivaninha e o moço fez o mesmo, a ficar de frente para a bela mulher que lhe ofereceu uma de suas cigarrilhas. Ele sorriu ao aceitar e vê-la tirar uma para si mesma. Foi cavalheiro ao acender a dela antes da que tinha entre os lábios. Ela tragou e lançou a fumaça para cima, que tomou o ambiente com um leve olor de menta. Wilhelm fez o mesmo e comentou "eu amo estas cigarrilhas! Ainda tenho a caixa que ma deu de presente praticamente cheia. Elas me fazem moderar no vício do fumo."
Ela sorriu. "Você tem razão. Eu nunca gostei de cigarros. Mas as cigarrilhas... Quando provei na primeira vez, não consegui deixá-las de lado, embora eu não seja uma fumante costumeira. Vez ou outra faço mal aos meus pulmões". Os dois sorriram e o rapaz perguntou "então, Dra. Fabray, o que deseja de mim?". Ela o encarou com cinismo. "O que acha, detetive Wilhelm?". O rapaz, que tragou da cigarrilha e soltou a fumaça para o alto, respondeu, direto "que eu investigue 'alguém' ou 'alguéns' para um caso em que certamente precisará reverter a situação". "Oui, monsieur!",exclamou e passou uma pasta para ele. "Quero saber tudo sobre Raul Steven Street, Linda Power Wood e o marido desta, Robert Wagner Wood", Wilhelm, que na verdade era detetive da polícia do Estado de Nova York, com o cargo de sargento, era um grande amigo da advogada e o trunfo que possuía quando decidiria se pegaria um caso ou não. Quinn Fabray sempre se resguardava ao pegar um cliente. E só defendia pessoas realmente inocentes e acusadas injustamente. E o homem loiro de olhos azuis que parecia com o Leo DiCaprio era a pessoa que lhe fornecia todas as informações necessárias à causa. "Este é aquele caso da amante de Street, que foi encontrada morta enforcada com linha de pesca, que continha um nó corrediço. E a defesa dele está a um fio de conseguir inocentá-lo", o homem falou. A loira sorriu e assentiu. E ele "Fabray, Fabray! Por que você só pega casos escabrosos?". A gargalhada dela saiu deliciosamente satisfeita antes de responder que "eu não aceitei o caso ainda, 'mon ami'!"; "não...", o policial a conhecia bem, "mas aceitará. Você adora esmagar os criminosos no tribunal". "Só os culpados", brincou com o belo sorriso e tragou a cigarrilha pela última vez e a apagou no belo cinzeiro de vidro azul que estava sobre a escrivaninha. Prosseguiu ao falar "aquele mesmo esquema. Mil dólares antes e mais mil quando me entregar o dossiê completo e lindo". O Ewing riu. "Posso saber o motivo do riso?", ela não deixava passar coisa alguma. "Eu estava a me lembrar de quando nos conhecemos". "Oh, não, Júnior! De novo não!", ela tinha um tom cínico na voz. "Por que não, Quinn? Foi divertido!", e ela "para quem, cara pálida?". "Para nós dois!". "Wil, não me faça odiar você."; o policial a fitou com os olhos apertados e afirmou que "você nunca me odiaria. Pode até ser durona, ter um humor pouco ortodoxo, mas sei que sou um dos poucos que você atura". Um brilho cínico dançou nos olhos dela, no momento extremamente verdes escuros. "Talvez... Mas não fique muito cheio de si", atalhou. O "Leo" tratou de se defender "eu? Eu nunca me sentirei assim! Porém, não estou a mentir. Verdade?". A advogada concordou. E, enquanto conversavam, ela tomou os comprimidos para dor e preparou café. Sentaram no delicioso sofá e ela lhe passou tudo sobre o caso, assim como ele também lhe disse o que sabia. Conversaram até quase duas da manhã, quando o policial se despediu, cansado.
Quinn foi para a suíte e tomou uma ducha rápida e acabou por se recordar de como ela e o detetive da polícia de Nova York se conheceram. Ela chegou para mais uma consulta “enjoada” com a Dra. Parker e se sentou ao lado dele. Era a primeira vez que o via ali, mas como era arredia e estava irritada por ter que estar ali, nada falou. Puxou um caso judicial antigo e começou a ler para se obrigar a ficar a esperar o momento em que iria transtornar a psicóloga e psiquiatra que cuidava dela já há dois anos. O homem loiro, que, ela percebeu, era um sósia quase idêntico do ator Leonardo DiCaprio, voltou-se para ela e indagou, simpático, "você é Quinn Fabray, certo?". A advogada abaixou o arquivo que lia e respondeu, ácida, "e você é o Leo DiCaprio! Não sabia que atores famosos e bem resolvidos faziam terapia. Principalmente em Nova York, haja vista que em Hollywood deve haver terapeutas cinematográficos!". Ele não conseguiu conter o riso e estendeu a mão para ela, apresentando-se, "Wilhelm Edward Ross Ewing II. Não sou ator. Sou apenas um detetive da polícia estadual de Nova York que passou por uma situação traumática e fui encaminhado para a terapia com a Dra. Parker. E a Dra. Fabray? Poderia me contar porquê é a única paciente que a médica tranca no consultório?". A loira sorriu, enigmática, a observar "vejo que das duas uma: ou você é um ótimo detetive ou um perfeito fofoqueiro.". Ele não aguentou o comentário dela e gargalhou, divertido, antes de responder que "deixarei a decisão para a Dra. Advogada!"; e ela "advogada e não membro do júri e juíza, que tem que proferir a decisão dos jurados". O homem, então, concluiu "agora sei porque é considerada a melhor na sua área. Tem argumentos para tudo! Então, sem querer parecer chato, e se me permitir, usarei da minha experiência como detetive e tentarei encontrar o motivo pelo qual a Dra. Parker lhe tranca no consultório". A loira sorriu e consentiu, enquanto abria a cigarreira e oferecia uma de suas cigarrilhas e tirava uma para si. O policial acendeu a dela e, depois a que lhe foi oferecida e o sabor e o agradável olor o fizeram dar um gemido de puro prazer, antes de comentar que "achei que fosse proibido fumar aqui", e Quinn "e é. Mas, qual a graça de ouvir a teoria de um investigador da polícia sem apreciar uma cigarrilha de agradável paladar e odor de menta, que só irá melhorar o ar deste local deprimente, apesar de ricamente decorado? ". O Ewing sorriu e achou a advogada terrivelmente sensual. Falou, atencioso, "assim que adentrou ao hall, percebi um ar de irritação em sua bela face. Percebi, também, que foi até a recepcionista e confirmou sua consulta e tentou dissuadi-la a remarcar a mesma. Quando percebeu que não iria convencê-la, ameaçou processar o consultório e a recepcionista também por abuso de poder e calúnia e difamação. Após, caminhou para cá nitidamente contrariada, lançou-me um olhar de esguelha e abriu um processo para estudar e não ser incomodada por mim ou qualquer outra pessoa. Infelizmente, a minha cara de pau foi maior e acabou por achar que seria interessante ouvir minhas suposições. Certo ou errado?". A Fabray sorriu e tragou da cigarrilha de uma forma que o policial achou muito charmosa. E, claro, soltou a fumaça pelos lábios diretamente na face do homem, que não conseguiu evitar a tosse que o pegou desprevenido. "Muito bom, detetive! Acho que lhe devo uma resposta", concordou e falou "a querida Dra. Eleanor Parker tranca o consultório e tira a chave da porta porquê eu já a deixei a falar sozinha umas três vezes. Como se diz popularmente: dei no pé. Então, depois de levar este 'baile', achou que a solução seria me trancar". O homem sorriu. "E agora? Você se tornou uma paciente comportada?". A advogada pensou um pouco, antes de responder, sincera, "só de vez em quando. Se eu estiver sem muita paciência, irrito-a até que, antes de pular no meu pescoço, ela abre a porta e eu saio feliz e vitoriosa".
A partir daquele dia, Quinn e Wilhelm estreitaram os laços e ela lhe propôs o emprego de investigador dos personagens das causas que estava por pegar. E o detetive era muito bom no que fazia. E a advogada sempre esperava o dossier preciso dele, assim como sua opinião sobre os envolvidos no processo e se ela deveria ou não aceitar. Um laço de confiança se estabeleceu. E os dois formavam uma dupla quase imbatível.
*-*
"Quanto mais pensar em seus infortúnios,
mais poder terão eles para magoá-lo."
– Voltaire -
O dia chegou ensolarado. Mas não o bastante para os nova-iorquinos deixarem seus casacos em casa.
Rachel despertou cedo, o corpo e o coração doridos. O corpo, porque dormiu na cama com o pequeno Spencer; o coração pelo encontro na noite passada com Quinn de braços dados com um homem que parecia dividir segredos com ela. E, somando-se a isso, a maneira como foi tratada pela ex-namorada. "Quinn, Quinn! Quando foi que você se deixou transformar numa pessoa tão fria e cínica?", murmurou para si mesma. E a resposta lhe veio como uma bofetada: "quando você a traiu covardemente com St. James". Ergueu-se cuidadosamente da cama para não acordar o filho. Ainda era cedo para despertá-lo para ir à escola. Apesar da pouca idade, foi uma forma saudável que encontrou para seu pequeno se socializar com crianças da mesma faixa etária que ele. Afinal, era filho único e vivia em meio a adultos com vidas atribuladas e muitos compromissos. A escola foi a escolha ideal.
Encaminhou-se para a suíte que antes ocupava com o marido e tomou um banho morno para relaxar. Vestiu uma de suas caras camisolas e cobriu-se com o penhoar. Escovou os cabelos e sentiu um delicioso cheiro de café. E o reconheceu: era o delicioso café do marido! Jesse era perito em cafés. Nunca experimentou outro mais gostoso que o dele. Tomou o rumo da cozinha e o encontrou, já a se servir de uma xícara do líquido negro, aromático e fumegante. Os dois sorriram e trocaram um beijo carinhoso. "Não acredito que o meu café tenha o poder de lhe acordar, embora me pareça um pouco abatida. O que aconteceu? A noite com a Santana e a Brittany não foi boa?", estendeu uma xícara com café para ela, que sentiu, primeiro o olor delicioso e, depois, tomou um gole e falou "você faz o melhor café do mundo!". Ele sorriu e, sem querer parecer chato, insistiu "fale-me sobre ontem. O Tavern On The Green não estava agradável?". A cantora bebeu mais um gole do líquido e, após, respondeu que "sim, o Tavern é o meu restaurante preferido e você bem o sabe". Ele concordou, mas conhecia muito bem a mulher a sua frente para saber que algo mais aconteceu. "Star, o que aconteceu? Você saiu tão animada! O que deu errado? Não acredito que você e a latina tenham se desentendido". Ela meneou a cabeça e contou. "Quinn estava lá... E acompanhada por um homem que parecia o Leo DiCaprio. Eu fiquei tão passada!". "Passada ou com ciúmes?"; ela o mirou e antes que respondesse, Jesse argumentou "você tem consciência de que é a última pessoa na face da terra que tem o direito de sentir ciúme da Quinn. Certo, Rae-Rae?". Ela sorriu ao ouvir o apelido carinhoso que o marido usava para chamá-la e assentiu, antes de retorquir "a dor de ver Quinn tão indiferente... Deus! O que eu fiz?", questionou-se abatida. Jesse a abraçou, a fim de fazê-la se acalmar um pouco. E então ela deixou o pranto escorrer. "Acalme-se, meu amor! Tudo dará certo. Acredite-me! Você nunca se deixou abater antes! E não será um comportamento irônico e debochado de seu grande amor que a fará desistir! Eu lhe conheço, Rae-Rae. E sei que você não é de desistir de uma batalha. Ainda mais em defesa da sua felicidade!"; a cantora secou as lágrimas e retorquiu "não, Jesse. Eu não disse que desistirei dela. Eu só fiquei triste com o quanto eu a magoei. Ela está irreconhecível! E isso foi o que me causou tanta dor!", confessou. O homem a apertou um pouco mais nos braços e foi afetuoso e sincero ao lhe dizer "Rach, a convivência fará com que você e ela voltem a se reconhecer. Acredite nisso, assim como acredita que sempre triunfará na Broadway ou em qualquer empreitada que exija talento, o que você tem de sobra". A cantora sorriu. Era tão bom ter Jesse por perto! Ele sempre tinha as palavras certas para fazê-la lembrar de que era uma vencedora. Afastou-se um pouco e o fitou nos olhos azuis esverdeados e confessou que "o que me deixou mais desconfortável foi o fato de Santana insistir o tempo todo que eu deveria ficar longe de Quinn, pois eu iria me arrepender amargamente. Eu sei que a fiz sofrer... E estou preparada para o que vier da parte dela. Se terei de combater a frialdade e o cinismo dela, eu o farei. Se tiver que suportar a maneira escorregadia que usa como trunfo para escapulir de conversas sérias, eu suportarei! Mas, para isso, precisarei me aproximar mais dela. E a impressão que tenho é a de que Santana embarreira esta aproximação. E lhe digo mais : há algo que estão a me ocultar sobre Quinn. E é isto o que preciso descobrir para acertar as coisas entre nós!". Jesse a mirou. "E você desconfia o que seja", indagou. A atriz meneou a cabeça em negativa. "Já pensou em conversar com alguém da relação de vocês e que talvez saiba de alguma coisa?". A judia ficou pensativa. As únicas pessoas que, sabia, eram próximos, até porque estudaram juntos, eram os seus empresários: Kurt e Blaine. "Acha que Kurt pode saber de alguma coisa? Ou o Blaine?"; o St. James ficou pensativo. E exprimiu "por que não? Afinal, enquanto estávamos em turnê, os dois se revezavam nas idas à Europa para nos acompanhar. É possível que saibam o que a Fabray fez para se tornar tão fria como você diz". E a judia "eu não digo, Jess! É a verdade! Ela continua a me chamar de Sra. St. Jones. Isso não pode ser sério! É pura picardia! E ela me apresentou ao homem que a acompanhava, Wilhelm, e disse que eu estava a me divorciar e que ele estava há muito tempo só. Mas falou para ele ser cuidadoso comigo, pois sou atriz e ele nunca saberia quando eu estivesse a mentir ou não. E, para entornar o caldo, acrescentou que eu não esperava uma relação acabar antes de começar outra". O St. James ficou incrédulo. "Ela teve a coragem de dizer isso?". Rachel assentiu. O homem emudeceu. Não queria desestimular a mãe de seu filho, porém, depois do que acabara de ouvir, pensou se a ideia da esposa em reconquistar o antigo amor ainda era viável. Talvez sua pequena só fosse atrair desgraça para a própria vida. E isto, definitivamente, não era bom. Literalmente!
"Passei a vida tentando corrigir os erros
que cometi na minha ânsia de acertar."
– Clarice Lispector -
CONTINUA.
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