Sine Cordi
18 Capítulo 18 - יח
Notas iniciais
"Os amigos se dizem sinceros, os inimigos o são."
– Arthur Schopenhauer -
Rachel sentou à mesa, ao lado de Jesse. Todos os olhares eram dirigidos a ela.
Alex, de pé, perto do ex-marido da cantora, demonstrou clara confusão ante o que aconteceu entre Quinn e a artista e, por educação, agradeceu a atenção dos que ali estavam e avisou que iria até a advogada. Entretanto, antes de ir, ouviu da judia "como você conseguiu?"; a editora de moda lançou um olhar surpreso para a mulher e, a fim de entender a razão de tal questão, perguntou "consegui o quê?". "Entrar no coração dela", a Berry apontou a ex-namorada com um balanço de cabeça. Alex deu um sorriso sem graça e confessou, decepcionada, "eu não entrei no coração dela. Eu só invadi a vida dela, e com muito tato. Quinn é a maior loucura da minha vida, em todos os sentidos e segmentos. Eu não sei o que aconteceu com ela no passado, mas sei que o resultado final foi catastrófico. Por isso, se ela foi fria, cínica ou mesmo grosseira com você, saiba que não foi sempre desse jeito". As palavras da editora de moda não eram novidade para a judia. Ela soube, uma vez, que nunca foi "assim". Tornou a mirar a ex-namorada. De longe, ela ainda lembrava um pouco a mulher que amou. Agradeceu a Alex pela sinceridade e a mulher se encaminhou para Quinn.
Kurt segurou-lhe a mão por entre a sua e, carinhoso, avaliou: "logo, logo essa coisa estranha que você está a sentir por dentro, e que se derrama para fora, passará. E você verá que, se mantiver o devido comedimento, conseguirá lidar com a 'Rainha de Gelo' sem sair muito machucada"; Rachel ainda estava em uma espécie de estado de choque e não respondeu. Seu mirar se voltou novamente para a mesa em que a advogada estava, em companhia de Alex. Percebeu que havia um colóquio entre as duas. E quis muito saber o que conversavam. Mas a distância entre as mesas e a discrição delas impediam qualquer possibilidade de escuta.
Alex fitou a namorada e questionou, séria, "o que você falou para a Srta. Berry que a deixou tão perturbada?"; a loira, que se voltou para o estudo, sem tirar os olhos da tela do note respondeu "o que você acabou de perguntar soou como um ataque pessoal". A editora de moda suspirou e retorquiu que "eu não caio mais em suas armadilhas verbais, Quinn! Então, por favor, converse comigo direito. E me olhe nos olhos", ordenou. A Fabray ergueu a sobrancelha direita e a fitou. E, então, lançou a questão "você, por acaso, faz ideia do que eu pretendi fazer quando vim a este café?"; os olhos azuis de Alex continuaram fixos nos verdes. A advogada respondeu a própria pergunta, grave, "eu tenho um julgamento complicado para enfrentar, cujo objetivo é fazer com que a chance de vitória aumente para a promotoria que representa o Estado e vem uma cantora com histórias de traição e eu, para não ser grosseira, participei de tal colóquio altamente desagradável, porém não pude continuar a ouvir tanta baboseira com o estudo processual diante de mim. Eu não sou terapeuta para aliviar a culpa de pessoa alguma. É só o que eu tenho a dizer", findou e se voltou para as pastas que tinha sobre a mesa e, cuidadosa, juntou-as em ordem, desativou o notebook e iniciou a guardar tudo. Acenou para a garçonete lhe entregar a conta. Alex ficou estática. "Você vai embora?", interrogou, surpresa. A advogada a fitou e perguntou "não lhe parece óbvio?". A morena argumentou que "eu estou louca de saudade de você e, quando tenho a chance de encontrá-la, é assim que age? Deixar-me-á aqui, sozinha?"; a Fabray pagou a conta e atalhou, ao se erguer, "você poderia me acompanhar até o meu 'castelo', porém terá que se comportar. Estarei a trabalhar". A editora de moda sorriu com disfarçada malícia e concordou. Saíram do local e Quinn não se despediu dos amigos que ali estavam, ao contrário de Alex, que fez questão de ser simpática com todos.
Rachel suspirou, derrotada. Entretanto, em sua cabeça, perdeu apenas uma batalha, não a guerra. E outros momentos com a loira ainda viriam. Disso estava mais que certa. E teriam outra chance de conversar. E, quem sabe, começarem a acertar os ponteiros.
"Eu acho que a Alex vai tirar satisfação com a 'Rainha de Gelo' pelo que ela, provavelmente, falou-lhe", Jesse observou. Kurt meneou a cabeça e rebateu "como se ela se importasse com a opinião alheia. Acho que a sua amiga não conhece bem a amante". O ator e cantor sorriu e atalhou, seguro, "é óbvio que Alex conhece a Quinn. Esqueceu a resposta que deu para a minha Star ao dizer que não penetrou no coração e, sim, invadiu a vida dela? Alex é muito esperta e inteligente, ou não seria amante da 'Ice Quinn' por três anos."; Blaine concordou com o St. James e acrescentou "e, pelo visto, continuará a ser por longo tempo", e Rachel balançou a cabeça em negativa, a discordar, "não mesmo! Eu gostei muito dela, mas a Quinn é minha! E não desistirei dela diante de qualquer dificuldade que imponha". Kurt e Blaine se entreolharam e o rapaz de olhos azuis argumentou, preocupado, "Rach, esqueça a Quinn! Ela não é mais a mesma há anos! Você só irá se machucar se tentar se reaproximar! Não há nada nela que se possa dizer 'oh, isto é bom', porque a mulher que você amou e deixou está morta e enterrada! Por favor, confie em mim quando lhe digo isso! É para o seu bem". "Por que vocês, Santana e Brittany insistem nesse argumento? Quinnie está bem viva! Eu não consigo entender vocês...", a cantora desabafou. Kurt suspirou e insistiu "você não é cega para deixar de perceber que ela mudou. Discorde de mim se ainda vê a mesma pessoa que amou há cinco anos!", desafiou. A judia não refutou a fala do empresário. Mas não se calou. "Eu sei que causei dano a ela. E, Jesse sabe, se eu pudesse voltar ao passado, não erraria como errei. Eu não duvidaria do nosso amor e me casaria com ela! Quinn se trancou, construiu uma barreira de proteção e, não sei como, consegue se manter distante de todo e qualquer sentimento. Ela foi tão machucada por mim que sente medo de ser ferida. Então, de alguma forma, conseguiu neutralizar todo e qualquer sentimento que possa deixá-la vulnerável"; depois de escutarem a artista, Blaine e o marido acharam por bem não falarem mais. Rachel não poderia se culpar pela escolha de Quinn. E eles não tinham o direito de quebrar o pacto de silêncio feito por aqueles que conheciam o passado das duas mulheres. Porém, Jesse percebeu que havia algo mais. E se perguntou o que poderia ser para fazer com que as pessoas insistissem na teoria de Quinn não ser mais a mesma. Poderiam justificar que tanto tempo se passou que a advogada esqueceu de Rachel e se apaixonou outra vez e levava uma vida mais reclusa e discreta. Mas, ao invés disso, era sempre a mesma estranha ladainha de que a ex de Rachel não era a mesma pessoa, que a Fabray do passado 'morreu' e que a advogada não tinha mais nada de bom para oferecer e que o melhor era a cantora se afastar dela por "medida de segurança". Segurança? Por quê? A Fabray se transformou em algum tipo de psicopata? Afinal, ela — de acordo com as palavras que ouviu — não sentia nada por pessoa alguma, era fria, cínica, desapegada, prática e tinha o manejo social artificial. Só faltava informarem o tipo de arma que usava, se era organizada ou desorganizada... Jesse arriscaria afirmar que ela era do tipo organizado. Escolhia a vítima, observava-a para conhecer seus hábitos e matava por desprezo. Certamente, suas vítimas deveriam ter menos de um metro e sessenta, longos cabelos castanhos escuros, assim como os olhos, pele morena e serem judias ou muçulmanas. "Vocês a descrevem como uma psicopata", exprimiu. Os empresários arregalaram os olhos e Kurt procurou ser o defensor do casal ao retorquir "de jeito nenhum! Quinn não é psicopata! De onde tirou essa ideia maluca?"; o ex-marido de Rachel respondeu, muito equilibrado, "de suas declarações sobre ela! Ou nunca notaram isso? 'Quinn é fria, Quinn não sente nada por pessoa alguma, Quinn é perigosa, mantenha distância dela para a sua segurança e blá, blá, blá, blá, blá...", encarou os dois homens. Rachel franziu o cenho e, surpresa, também buscou os olhos dos amigos e empresários. "Desculpem, não tínhamos essa intenção e nem tal ideia. Nós sabemos que a Quinnie, apesar de tudo o que se fala dela, nunca matou pessoa alguma depois do ac... Acontecido entre a Rach e ela. Nós temos medo de ela, aborrecida com o que aconteceu no passado, machuque a nossa Star, porém não fisicamente, mas verbalmente. Ela tem a língua afiada. E sabe usar palavras que ferem mais que um tapa ou qualquer outro tipo de agressão física", atalhou o Hummel. E sentiu Blaine lhe apertar a mão por baixo da mesa, numa demonstração de apoio e afeto.
"Os homens nunca sentem remorso
por coisas que estão habituados a fazer."
– Voltaire -
Quinn entrou em sua cobertura seguida por uma Alex ao mesmo tempo confusa e irritada e, sem dar muita atenção à amante, foi direto para o escritório. Sentou à escrivaninha e, calma, pegou uma cigarrilha na caixa que tinha a temperatura certa para mantê-las sempre frescas, com o sabor e olor inalterados. Acendeu e a tragou com sua elegância própria e sensualidade inconsciente. Expirou a fumaça pelos lábios e para cima. Holmes, que já estava a deixa-las a sós, pois percebeu na editora de modas que algo poderia explodir e, apesar de todo o cuidado que tinha com a patroa, achou por bem não se meter, ouviu-a lhe pedir uma taça de vinho tinto suave. Ele pensou em refutar a ideia, entrementes apenas perguntou à amante da advogada se esta também desejava algo para beber e ouviu "apenas água, Holmes. Bem gelada, por favor", ele aquiesceu e se retirou. Quinn ia ligar o computador, mas a mão da namorada a impediu. "Quinn, eu sei, de verdade, o quanto você precisa estudar este processo, porém eu estou com saudade de você. Sei que pediu para eu me comportar e farei isso, mas o que foi que aconteceu naquele café entre você e a Srta. Berry? Eu ainda não entendi...", confessou a morena. A advogada ficou muda, os olhos fixos nos dela. "Quinn!", Alex a chamou e a loira voltou à realidade. Tragou da cigarrilha mais uma vez e a depositou no descanso do belo cinzeiro de grosso cristal. Holmes entrou com uma bandeja onde estavam o vinho disposto na taça e a água em outra, própria para a bebida em questão. Alex agradeceu. A advogada permaneceu muda. Holmes a conhecia bem e percebeu que ela estava visivelmente atordoada. Queria fazer algo a respeito, todavia com a mulher de olhos azuis ali, preferiu deixar para mais tarde. Saiu, a fitar a patroa com olhar significativo. Ela anuiu discretamente e ele se retirou.
A namorada de Quinn bebeu um pouco da água e, em seguida, depositou o copo, que continha um guardanapo de pano em sua base, sobre a escrivaninha. A advogada bebeu um gole significativo do vinho e, logo após, outro antes de o colocar sobre a mesa. Pegou a cigarrilha e a tragou uma vez mais e expeliu a fumaça pela boca outra vez para o alto. "Quinn, você vai ou não me responder o que aconteceu naquele café", insistiu. A loira tomou mais um pouco do "suco de Baco", deixou a cigarrilha de lado no cinzeiro a espalhar o olor refrescante pelo ambiente e respondeu "eu já lhe disse o que aconteceu. Por que deseja que eu repita tudo de novo?"; Alex sorriu e meneou a cabeça, incrédula. "Há algo mais! Quando ela retornou à mesa em que Jesse e o casal gay estavam, Kurt falou algo sobre você machuca-la e ela me perguntou como eu 'consegui entrar no seu coração'. Eu respondi que não entrei no seu coração, apenas invadi a sua vida", exprimiu a morena, que continuou ao questionar "por que ela me perguntou isso? Qual o interesse dela em você?". A advogada sacudiu a cabeça e respondeu, aturdida, "eu... Eu não sei, Alex! Você me deixa confusa com todo este inquérito!", exclamou, sincera. E a editora de moda se viu confusa também. Porém, insistiu, "como você pode ficar confusa? A Berry não me pareceu louca ou sem saber do que falava. Como isso pode ser?"; a Fabray suspirou profundamente e, cansada, falou, a deixar a namorada um pouco atormentada, "você não gostou do que acabei de dizer". A morena se encostou no espaldar da cadeira e riu, incrédula. "E-Eu o quê? Quinnie, por favor! Não jogue comigo"; a advogada retorquiu, pragmática, "eu não estou a jogar... Eu também seria cética se estivesse em seu lugar. Em resumo se trata de, provavelmente, algo que aconteceu no passado... Nós não tínhamos muita afinidade... Eu a persegui quando estudávamos. Fiz da vida dela um inferno e, certamente, recebi o troco depois. Um bom troco, parece". "Ela não me pareceu o tipo que aprecia revanches...", a jornalista atalhou. E Quinn "as aparências enganam, Alex. Você deveria atentar para esse tipo de coisa!"; "ela enervou você de alguma forma, ou não estaria com esta cigarrilha acesa e a beber vinho a estas horas", observou a mulher. A advogada sorriu, incrédula, e comentou debochada, "nossa! Você realmente parece me conhecer! Estou espantada!". "Não me diga, Dra. Fabray?!", a editora de moda também foi cínica e Quinn não se abalou. "Confiando em uma raposa para lhe guardar o galinheiro! Cuidado, Srta. Bishop! Não há rosas sem espinhos...", respondeu no mesmo tom. Alex sabia que estava a mexer em vespeiro, principalmente ao notar o brilho sagaz nos belos olhos que tanto adorava. Ergueu-se e meneou a cabeça em negativo. "Amo você, Quinn Fabray! E não tenho medo de suas ameaças. Eu só não insistirei mais, porque eu sei o quanto por trás dessa máscara e atitude fria, há a mulher mais frágil que eu já conheci. Portanto, vou deixa-la com seu processo. Mas, depois, eu virei reclamar o que é meu, concorde você ou não", e se virou e caminhou para a saída do recinto, a ouvir a advogada no tom mais frio que pôde imprimir à voz, "eu já lhe disse que não sou e nunca serei de pessoa alguma!"; a editora sorriu e abriu a porta e, antes de se pôr dali para fora, observou a mirar a advogada, "oh, meu amor! Negue o quanto quiser! Ainda assim, você continuará a ser minha. Da mesma forma que eu sou sua!". E se foi. Quinn disse um impropério e tomou da taça e, literalmente, entornou o restante do vinho garganta abaixo. E, irada, atirou o fino recipiente de cristal contra a estante. Então tudo era só cacos perigosamente cortantes.
Holmes adentrou ao escritório e viu a situação nada agradável. A advogada se ergueu e avisou que tomaria um banho. E que não era para ele permitir a entrada de Alex no apartamento nem por um casal de cachorros falantes. O homem anuiu e a viu sair do local com passos firmes e seguros. Porém, ainda assim ficou preocupado. Quinn era uma bomba prestes a explodir a qualquer momento. E isso era o que todos tentavam impedir que ocorresse. "Talvez eu precise ter uma conversa mais esclarecedora com a Srta. Bishop!", murmurou o cuidador, seriamente atordoado.
Rachel não disse palavra. A mente presa na mulher que sempre amou. Olhou os carros que sufocavam as ruas, as pessoas que não caminhavam, corriam para chegar às suas casas e terem o merecido descanso após o dia de trabalho. Desejou que os dias que sempre acabaram no pretérito retornassem. Quinn a chegar ao lar após várias sessões de fotos. As pequenas implicâncias dela com as belas mulheres e homens estonteantes que cercavam a loira durante a maior parte do tempo e, claro, tentavam, incansáveis, algo mais íntimo com ela. E a fotógrafa a lhe calar com beijos que tiravam toda a coerência que possuía e como esses encontros de lábios acabavam com o encontro de seus corpos despidos sobre o tapete da sala, a cama, o sofá... O tempo sabia como machucar... À espera, a confusão, a saudade, a incerteza...
"Poucos gostam de ouvir falar das faltas
Que com prazer praticam."
– William Shakespeare -
CONTINUA.
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