Sine Cordi

33 Capìtulo 33 - לג


Notas iniciais
Um milagre aconteceu... Capítulo novo! :O OBS.: Texto em itálico = lembranças, memórias.

A eloquência é a arte de aumentar as coisas pequenas e

diminuir as grandes.”

– Sócrates -

O advogado mirou Quinn. Estava ainda surpreso com o desempenho dela e teve ainda mais certeza de que precisava ser preciso na sua performance, ou ela o “devoraria” tal qual Cronos fez com os filhos.

Pensou em como se colocar sem o risco de ser perturbado pela loira dissimulada que exalava tranquilidade diante de um julgamento que até ele, que estava numa posição mais confortável, ou assim pensava, passou a achar difícil.

“Sra. Stein, seria certo dizer que o Sr. Street é um homem preocupado com o bem-estar de pessoas menos afortunadas?”.

Mary franziu o cenho antes de assentir:

“Sim”.

Quinn estava concentrada na leitura de suas anotações e parecia alheia ao trabalho do Mathews, que continuou, mais seguro:

“Como poderia confirmar tal fato?”.

“Ele, assim como Ryan, Robert e outros amigos, fundaram uma instituição voltada para a recuperação de famílias desestruturadas, com apoio psicológico, educacional, empregatício entre outros benefícios”, falou a mulher.

“Então a senhora poderia afirmar que o Sr. Raul Steven Street é um cidadão que possui uma grande veia humanitária”.

A mulher tentou ser mais realista:

“Não sei se poderia medir o tamanho da ‘veia’ humanitária de Raul, porém não posso negar as coisas boas que fez e ainda faz”. Anthony estava chegando ao ponto que tentou abordar desde que se ergueu para inquirir à testemunha:

“Um cidadão envolvido em tamanha causa social e humanitária, apaixonado por uma mulher a quem tinha a intenção de desposar seria, de acordo com a sua observação fria, capaz de algum tipo de violência que pudesse prejudicar o objeto de seu amor?”.

Quinn meneou a cabeça. Ergueu o braço e falou, num tom despojado de preocupação ou outro tipo de sentimento:

“Protesto, meritíssimo! O Sr. Mathews, com suas perguntas, está tentando levar a testemunha e os jurados à ideia de que um homem que zela por uma boa imagem perante a comunidade seria incapaz de cometer algum tipo de violência, principalmente pela mulher por quem nutria um sentimento de posse e que iria deixa-lo. Uma coisa não valida a outra. Está muito claro o caráter falacioso dos questionamentos do Sr. Advogado”.

O juiz esticou os lábios unidos em um bico e fechou os olhos antes de se voltar para o júri e avisar que desconsiderassem as perguntas feitas pelo jovem defensor.

O Mathews meneou a cabeça e olhou para a advogada sem acreditar que ela realmente conseguiu acabar com seu inquérito à testemunha e o impediu de passar uma imagem impoluta de seu cliente. Com o olhar pregado nela, anunciou:

“Sem mais perguntas”.

A Sra. Stein foi liberada.

Raul não se conformou:

“Mas que…. Que merda é essa? Você é um advogadozinho de bosta! E burro! Como foi permitir que aquela mulher ajudasse a promotoria?”.

O rapaz já estava aborrecido demais e ainda ter que ouvir o cliente lhe maldizer não ajudava muito.

“Pode, por favor, baixar o seu tom e me tratar com mais respeito?”, sussurrou em contraponto com o cliente que tinha a face rubra de raiva.

“Você deixou uma piranha pisar com os saltos dela nos seus bagos, seu idiota!”.

Dessa vez, a atenção do juiz, dos jurados e da audiência se concentrou no réu. A única pessoa que continuou a fazer apontamentos no caderno de capa de couro e a ler alguns papéis era a Fabray.

Lancaster olhou para o juiz, que se manifestou:

“Sr. Street, se continuar a falar neste tom e com este palavreado desrespeitoso no meu tribunal eu mandarei prendê-lo por desordem e desacato! Eu fui claro?”.

A vontade do réu era mandar o juiz passear, mas se conteve.

Quinn voltou a esfregar as têmporas. A dor de cabeça não havia se desvanecido…

Russel e Santana a miraram e o homem falou, à boca pequena:

“Eu espero que ela aguente…”.

A latina observou:

“Eu soube que os medicamentos dela foram reajustados… Talvez não seja uma crise, apenas um leve incômodo que logo passará”.

Rachel ouviu. E não foi capaz de evitar olhar para a morena ao lado com os olhos agrandados.

“Que medicamentos?”.

Santana suspirou e respondeu, o mais tranquila que pôde:

“Para enxaqueca”.

“Enxaqueca?! E desde quando ela tem crises de enxaqueca?”.

“Desde que você se foi com o seu querido maridinho”, espetou de mau humor.

As palavras da cantora morreram na garganta. A inesperada resposta de uma Santana irritada a pegou de surpresa. Entretanto, sua maior surpresa ainda estava na mulher que advogava a favor do Estado. Rachel não tinha uma opinião formada sobre o que viu até o momento. Mas, decerto que a maneira fria e muito controlada de como Quinn conduzia o réu e seu cliente a uma crise pessoal que lhes traria, certamente, um desnível emocional lhe pôs com os olhos e ouvidos muito atentos.

Quinn era uma corrente elétrica de milhões de volts. E a Berry, de uma maneira que não conseguia explicar, estava chocada.

Creiam-me, o menos mal é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim.”

– Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas

Kurt se afundou mais nos braços do marido e falou, a fim de tentar encontrar algum dado no passado que aliviasse o peso que estava a sentir. Sua voz se fez nostálgica quando falou, mergulhado no pretérito…

Rachel não falou durante os dois primeiros dias. Estava desassossegada… Completamente fora de órbita. Não comeu direito e só se manteve em pé por causa dos sucos verdes, água de coco e Gatorade.

Tentou telefonar várias vezes para Quinn, mas não obteve sucesso. Também tentou contato com Santana e, como era de se esperar, também fracassou. A maquiagem mal lhe cobria a palidez e os óculos escuros eram o sinal de que, além de insone, chorou muito. Em verdade, chorou praticamente por toda a primeira semana. Tentou voltar a Nova York, mas não deixei. Então, em desespero, confessou a traição. Pior que ouvir que Quinn a flagrou, foi saber que ela, antes disso, já estava a ‘ficar’ com o Jesse. Foi uma decepção… Nunca imaginei que ela poderia fazer alguma coisa que se aproximasse do verbo trair. Porém, quando me lembro que ela ficou com o Puck porque o Finn perdeu a virgindade com a Santana, analisei friamente situação e – realmente – percebi que não estava mais surpreso do que poderia. Ela já tinha um histórico… Talvez eu até desconsiderasse a primeira vez que traiu, pois entendo que se sentiu, de alguma maneira, enganada por Finn. Ela não era muito segura de si esteticamente durante os anos no McKinley. E a Sant nunca foi flor para se cheirar. Porém, com a Quinn… Elas estavam tão enamoradas! Pelo menos, eu pensei que sim. Então, primeiro me questionei: até que ponto ela, Rachel, realmente amou Quinn? Eu não compreendia… Depois, fiz a mesma pergunta para ela. E a resposta era tão contraditória! Rachel estava tão confusa e sem rumo e sua maneira dispersa de raciocinar e se expressar me deu o real tamanho do drama interior que estava vivendo: ela realmente estava arrependida do que fez. Mas, o que eu – naquela altura dos acontecimentos – poderia dizer ou fazer? Ela já estava tão destruída e se autodestruindo que não encontrei espaço para lhe injetar a verdade sobre o que a Quinn fez. Não naquele instante. Eu estava muito aborrecido com ela, mas não a ponto de ajuda-la a cavar ainda mais fundo a cova em que estava a se meter. Eu, de pronto, necessitava tira-la daquele afogamento. Porque ela, realmente, estava a se afogar em toda a merda que fez. Eu não poderia deixar que retornasse para Nova York e soubesse que a pessoa que ela quebrou a confiança tentou contra a própria vida. Pensei e a aconselhei a dar um tempo… Um hipotético tempo para Quinn. Afinal, a Rach ignorava o que aconteceu e, se dependesse de mim, continuaria a ignorar. Eu precisava que ela se reestruturasse antes de lhe lançar a bomba. Ela estava muito atordoada para rechaçar qualquer sugestão minha. Fiz o que achei certo: se a Quinn se recuperasse, eu contaria o que aconteceu e elas poderiam tentar se entender outra vez. Se a Quinn não resistisse, eu a prepararia e diria a verdade.

Entrei em contato com Santana… E quando soube que a Quinn estava, ainda, após uma semana, em coma, pensei que deveria continuar com a minha farsa. E foi o que fiz. Com dificuldade. Rachel nunca foi estúpida! Então, o cérebro dela, talvez num instinto de autoproteção, criou a justificativa – que ela mesma me contou – de que a Quinnie não queria ve-la… Não pela próxima semana. Resolvi usar a explicação que ela me deu e segui com a história. Rachel pareceu achar natural que a Quinn não quisesse contato com ela, temporariamente. Mas, de nenhuma maneira, deixaria que as coisas ficassem como estavam. Ela tinha urgência em se desculpar ou seja lá o que passou pela cabeça confusa dela. Eu pensei que tudo ficaria bem. Era o tempo para a Q se recuperar e as duas poderem ter uma conversa e tentarem, bem ou mal, entenderem-se.

Após as primeiras semanas, percebi que Jesse estava a ser um bom amigo para ela e, ainda que não houvesse mais nada entre eles. Rachel começou a se sentir menos desconfortável na presença dele.

Foi quando eu vim para Nova York e você, Blaine, foi para a Itália”, suspirou.

O moreno não falou, porém, não conseguiu se excusar da lembrança…

Estava visivelmente nervoso. Desejou, do fundo do coração, assassinar o marido a sangue frio. Como ele poderia voltar para a Big Apple e faze-lo responsável pela turnê de Rachel Berry e a peça Wicked pela Europa, justamente no momento em que se encontrava profundamente desgostoso com a cantora e amiga? Entendia que o esposo também necessitava de um pouco de distanciamento da estrela, mas – talvez – se ele contasse o que realmente o estava a afligir, não estivessem em tal situação. E, além de tudo, Kurt também foi tentar acalmar Santana, que estava a ponto de comprar uma passagem para a Itália a fim de derramar toda a ira e decepção sobre Rachel. De verdade, desejou que o marido não obtivesse sucesso. Algo lhe dizia que a omissão de hoje seria decepção no amanhã. Quinn ainda estava em coma! E, apesar de todo o esforço dos médicos e toda a tecnologia que o dinheiro dos Fabray pudesse comprar, nada seria capaz de trazer a fotógrafa de volta senão um verdadeiro milagre. E, ainda que ela sobrevivesse, sabia que haveria sequelas. E talvez estas fossem muito duras…

O ar lhe faltou ao pulmão quando viu a judia diante de si. Ela lhe pareceu demasiado abatida e delgada. E os olhos dela, sempre tão vivos quanto a noite estrelada, estavam desvanecidos e envergonhados. Não eram capazes de encara-lo… O engraçado de toda a situação era que Blaine também não conseguia encara-la. Um contraponto.

Não trocaram palavra no primeiro dia. Ela, claramente, estava a evita-lo. Ele, por sua vez, não sabia como aborda-la. O que dizer? Como agir? Nunca se sentiu tão inapropriado!

No segundo dia, sentiu-se melhor. Conversou com Kurt ao telefone e soube, não muito aliviado, que Santana – por enquanto – fora dissuadida de abrir a “temporada de caça a Rachel Berry”, como ela mesma resolveu chamar a sua “missão”.

Observou, no Palco do dell Opera di Roma, Rachel soltar sua abençoada voz. E como ela retumbou naquele espaço feito para as belas vozes líricas, dolorida e emocionada, fê-lo mira-la não como o homem prático que era, mas como artista e ser humano e, neste ínterim, encantado pela colossal voz que entornava todo o ambiente de beleza, conseguiu ver a mulher de espírito realmente alquebrado e de coração roto. Pela primeira vez, em todas as semanas que haviam passado, sentiu pena dela. Percebeu o quanto ela era infeliz e seria por muito tempo ainda. Deu-se conta de que nem sucesso ou prêmio seriam capaz de apaixona-la nunca. Nenhum milagre aconteceria para retira-la da escuridão que cobria seus olhos. E se deu conta de que nem o tempo, complacente muitas vezes, seria amigável com ela e seu arrependimento. Rachel Barbra Berry não seria, nunca mais, tão feliz quanto antes.

Estava de volta à mansão que os patrocinadores da peça mantinham para as estrelas da peça e demais componentes do elenco. Escutava o esposo pelo telefone e as notícias não eram animadoras. Kurt e Santana decidiram que seria melhor não se responsabilizarem por contar a Judy e Russel a minuciosa razão pela qual a filha caçula enfiou o carro sob a carroceria de uma jamanta. Acharam, muito a propósito, que Quinn, quando acordasse, deveria ser a pessoa a contar… Ou a própria Rachel, pois a mamãe Fabray – sabe-se como – de imediato apontou a afinada cantora como origem do destempero desarrazoado da filha. E nenhum deles foi capaz de desmenti-la. Pelos menos, meia verdade já estava às claras.

Assim que encerrou a chamada, assustou-se com a figura da cantora a fita-lo, muda, com o cenho franzido, os olhos a escorrerem dele para qualquer ponto do salão e, de novo, para ele e, dele, para outro ponto qualquer…

“Falou com o Kurt…”, o tom saiu entre a afirmação e a pergunta. Na realidade, uma afirmativa insegura. Enfim, a voz e a questão eram tão cheias de antítese quanto a própria dona.

O empresário assentiu como se tivesse o pescoço prejudicado por um doloroso torcicolo.

“Ele falou sobre ela?… Sobre a Quinn?”.

Os olhos úmidos de água salgada dela o deixaram sem saber o que responder. A “ordem” era quanto menos souber melhor, assim que… O que poderia dizer?

“Blaine, por favor…”.

Deus! Por que ela tinha que implorar com a voz tão carregada de dor?

“Falou…”, gaguejou, “ele falou sim… Mas, Rachel, não é uma boa hora… Ainda, sabe? Ela está… Ela está muito… Machucada”, a verdade – nesta hora – foi o melhor, ainda que soasse aos ouvidos e razão da cantora como conotação.

Ela não vai me perdoar nunca…”, murmurou.

Blaine limpou a garganta, desconfortável. Não deveriam ter aquela conversa…

“Rachel, acho que é muito cedo para se chegar a algum tipo de conclusão sobre isso…”.

“Cedo!…”, a palavra escorregou dos lábios dela asceticamente.

“Talvez a Quinn precise de mais tempo…”.

“Eu sei…”, concordou, fungando e segurando as lágrimas com uma perícia que o empresário invejou.

“Rachel…”, tentou, porém ela o interrompeu:

“Ela nunca mais vai querer falar comigo, Blaine! O que eu fiz não tem perdão… Mas, se talvez ela me deixasse falar eu poderia, sabe, quem sabe, talvez, faze-la me desculpar e… E depois, nós poderíamos tentar outra vez, porque eu sei que fui uma estúpida e idiota… Ela não mereceu o que eu fiz, Blaine! E eu sei disso e não posso endireitar! O Kurt não me deixa, a Santana não fala comigo e a Quinn não atende aos meus telefonemas! E a peça… Eu só preciso de um dia para ir até Nova York e falar com ela! Eu prometo que voltarei a tempo!”.

O desespero dela era tão tangível que o homem de olhos verdes quase asfixiou.

“Rachel, escute! Por favor! Quinn não está bem! Se você for agora para conversar com ela, poderá piorar as coisas para as duas. Você sabe o quão intempestiva ela pode ser! O lado doce dela quando azeda… Você a conhece e já conheceu o lado irritadiço de Quinn. Então, analise bem: não é melhor dar mais uns dias a ela?”

A cantora não tinha certeza. Não mais. Estava tão afogada na própria culpa que pensar com clareza se tornou algo muito difícil desde que a namorada a flagrou com Jesse.

Eu preciso saber, pelo menos, se ela está bem… Se estão cuidando dela! A Sant está cuidando dela?”.

Esta resposta não foi difícil para ele…

“Sim. A Sant e um monte de outras pessoas… Judy e Russel…”.

Os olhos da pequena se agrandaram.

“Judy e Russel?”.

Blaine sabia a razão do espanto da atriz. Quinn era uma fortaleza quando se tratava do pai, da mãe e da irmã. Se estava se deixando cuidar, era porque seu estado não era – definitivamente – bom.

Se Judy e Russel… Eles vão blinda-la, Blaine! Eu não conseguirei chegar perto dela tão cedo!”, quase gritou a atriz.

Você não sabe, Rachel!”, ele foi enérgico, fazendo-a se calar, “você não sabe de nada! Então, pare de conjecturar! Apenas espere um pouco mais e, depois, faça o que quiser. Vá até Nova York e tente falar com ela. Eu lhe apoiarei. Porém, no momento, você não poderá obter muito”.

A sinceridade dele a fez estancar. Nunca o escutou asseverar coisa alguma com tanta eloquência.

Após este dia, ela não tocou mais no assunto.

Após este dia, ela perdeu qualquer mísero sinal de esperança.

Neste dia, ela soube que teria que dar tempo ao tempo antes de estar, outra vez, diante da mulher que feriu sem nenhuma razão lógica e respeito.

E foi quando Blaine percebeu que ela, de uma maneira – considerada por ele – inconsequente, começou a dar, outra vez, espaço para Jesse St. James…

Entre o que existe e o que não existe, o espaço é o amor.”

– Anônimo -

Rachel se perdeu na imagem da mulher que era a luz de seus olhos. Quinn estava a ouvir o promotor Lancaster e, vez ou outra, balançava sutilmente a cabeça em sinal de concordância e fazia algum comentário. Em algum ponto do discreto colóquio, o homem ao lado dela sorriu e fitou-lhe os lábios. A morena observou que a ex-namorada não colocou atenção em tal acontecido. Enquanto o promotor continuou com o que se tornou uma conversa de uma só voz, Quinn se voltou para a pasta que continha algumas folhas de papel e, pela visão da Berry, a advogada parecia ter se desligado da sutil verborragia do homem ao lado.

Não se cansava em estudar cada pequena ação dela. Desejava encontrar qualquer resquício da fotógrafa que amou no passado e ainda, para seu infortúnio e inferno pessoal, continuava a amar? Haveria, a propósito, ainda alguma coisa da Lucy Quinn Fabray que a amou um dia?

Quinn lhe pareceu incrivelmente tímida quando se encontraram para almoçar no restaurante do próprio MoMA, de frente para o Jardim das Esculturas. O local atraente e com menu variado seduziu Rachel de imediato.

Quinn sorriu ao constatar que a cantora não se deixou contaminar pela variedade gastronômica da Big Apple e continuou fiel à filosofia vegana.

“Então,” — a judia começou — “fale-me de você! Como está a NYU? Você gostou da trocar Yale e New Haven pela agitação desta loucura chamada Nova York?”.

A loira sorriu e abaixou os olhos, corando profusamente. Nunca lhe passou pela cabeça que Rachel Berry se interessaria pela vida que estava a levar. Retorquiu, ainda sem mirar e a morena:

“Se eu dissesse que não estranhei, estaria a mentir!”, sorriu tímida, “entrementes, se eu também lhe dissesse que este não é um ‘admirável mundo novo’, estaria a ser uma grande embusteira. Nova York é fascinante! Esta mistura cultural que a caracteriza é ímpar”.

Rachel sorriu abertamente.

“Nossa, Quinn! Eu realmente estou surpresa com as suas palavras!”, observou.

A ex cheerleader a mirou nos olhos e perguntou o porquê da surpresa.

A judia se deixou mergulhar nos verdes do olhar da garota mais bonita que já vira em sua vida e apenas sorriu, sem que palavras fossem necessárias para demonstrar que importava, apenas, que elas estavam ali, juntas.

O garçom se aproximou com um Miolo da safra de dois mil e onze, tinto. Abriu a garrafa e deixou o líquido rubro respirar. Assim, o sabor seria ainda mais interessante. O jantar foi simples e o agradável vinho tinto suave foi bastante atrativo para as duas. E a conversa… Oh, a conversa! O jeito como os lábios de Quinn se moviam para descrever todo o encantamento que sentia no momento foram o bastante para fascinar um pouco mais a Rachel. E quando ela desviava o olhar e enrubescia… A judia pensou que desmaiaria de tanto embevecimento.

“Estou feliz porque você está aqui”, confessou.

A moça loira sorriu de maneira doce, antes de retorquir:

“Eu também…”.

Rachel achou que o coração pararia, pois sentiu que as batidas ratearam quando a voz harmoniosa, peculiar e delicada lhe banhou a audição.

O garçom, atento, retornou à mesa das moças para servir mais vinho. Quinn colocou a mão sobre a boca da taça e balançou a cabeça em negativa enquanto agradecia. Deveria estar em condições de dirigir.

“Você está de carro?”, perguntou para a pequena, curiosa.

Esta meneou a cabeça em um não que encantou a loira.

“E para onde irá quando sair daqui?”, questionou com um fio de acanhamento na voz.

A judia ergueu os olhos e um sorriso de satisfação brincou pelos lábios carnudos. Retorquiu:

“Para casa!”.

“Casa que divide com Kurt e Santana”, observou a moça loira.

Rachel desejou, intimamente, morar sozinha neste momento. Seria uma oportunidade para estar a sós com a garota que a atraia como um ímã…

“É… Provavelmente Kurt ou Sant estará em casa. Principalmente depois de descobrirem com quem eu almoçaria”.

A loira franziu o cenho. O que Rachel quis insinuar com o comentário? “Perdoe-me, Rachel, mas eu não entendi. Qual o problema de você estar a almoçar comigo? Pensei que não fosse novidade”.

A morena bebeu um pouco do vinho e confessou:

“Eles estão a torcer para que este nosso encontro possa ser o princípio de alguma coisa a mais entre nós”.

“Oh!…”, foi o único som que a loira, mais uma vez enrubescida, murmurou.

A judia não lhe desviou o olhar. Achou que a moça diante dela conseguiu ficar ainda mais linda no tempo em que se mantiveram distantes. E aquela repentinamente timidez… Rachel se chutou mentalmente pela ignorância e torpeza ao dispensar a ex cheerleader e duvidar do amor que ela confessou.

Bebeu mais um gole do vinho e, após tomar uma respiração, reuniu o que tinha de coragem e verbalizou:

“Você… Você está com alguém?”.

O olhar da loira foi de clara surpresa e a sobrancelha direita dela se ergueu.

“O quê?”,

A menor suspirou e pareceu uma tenista num mundial ao rebater a pergunta com uma agilidade espantosa, como se estivesse em busca do primeiro lugar no pódio:

“Você está a namorar, Quinn?”.

Os lábios da loira abriram e fecharam até que seu cérebro decodificou a indagação. Respirou, tomou um generoso gole do vinho que deveria evitar pois dirigiria e verbalizou:

“Não, Rachel. Eu namorei um rapaz da NYU, mas ele era muito ciumento e um tanto possessivo… Não deu certo”.

“Eu também seria se estivesse no lugar dele”, a judia soltou e pegou a loira desprevenida. Quinn se engasgou com o vinho e teve uma séria crise de tosse.

“Você sobreviverá?”, a pequena brincou ante a reação da loira.

Quinn se recuperou e bebeu um gole de água. Respirou fundo e olhou para a morena à sua frente, tomada pela surpresa.

“Eu… Eu…”, a loira emudeceu. Por que Rachel falou isso?

A morena sorriu, ergueu a taça de vinho e falou, orgulhosa:

“Eu consegui deixar Quinn Fabray muda! Se a Rachel do ano passado me contasse tal coisa, eu não acreditaria”; sentiu-se particularmente feliz.

Quinn era ainda mais bela embaraçada!

“Não dirá coisa alguma, Quinnie”, perguntou, brincalhona.

A loira não conseguiu. A surpresa foi tanta que achou que teve um pequeno delírio. Ainda assim, um questionamento lhe martelou a cabeça. E não se escusou de perguntar:

“E você e o Finn? Como estão?”.

A aspirante a cantora deu um suspiro profundo, bebeu da taça que tinha na mão e respondeu, sincera:

“Não estamos, Quinn. Eu… Nós terminamos quando eu vim para cá… Pensei que você soubesse…”.

O rosto da outra moça demonstrou surpresa:

“Você achou que o namoro à distância não daria certo?”.

Rachel negou com um leve balanço de cabeça.

“Ele pensou que eu precisava de espaço e eu descobri, ainda que um pouco tarde, que eu estava apaixonada por você”.

A estudante de fotografia sentiu o coração descompassar dentro do peito.

“Rachel, eu agora fiquei realmente…”, riu incrédula, “eu estou confusa”, confessou.

A judia sorriu e abaixou os olhos. Pediu:

“Não fique confusa, Quinn! Eu só estou a falar que amo você! Porém, ainda que seja doloroso, entenderei se tiver arrependida sobre o que me contou… Eu só precisava que você soubesse…”.

A outra não permitiu que a morena terminasse de falar…

“Não! Eu nunca me arrependi, Rach! E…”, suspirou, “eu ainda amo você! Nunca deixei de amar”.

Um lindo sorriso se abriu na face morena.

E então começamos a namorar, a atriz pensou.

Seus olhos focalizaram a pessoa que, apesar da semelhança com a mulher que ainda amava, não era – realmente – aquela por quem se apaixonou e quebrou o coração. O encontro sem nenhuma emoção no banheiro e o comportamento dela no julgamento eram mais que provas do que lhe rondava a cabeça.

“Haverá alguma maneira de reparar o que eu lhe fiz, Q?”, questionou para si mesma.

Ainda a desejava e queria. Porém a doçura, a gentileza, a devoção apaixonada que antes imperou nela, ou estavam muito bem sublimadas ou foram apagadas. Por mais que parecesse loucura, a cantora conseguiu entender a ex-namorada. Ela sofreu. Ela foi covardemente traída… Como continuar a ser a mesma pessoa após tal decepção?

“Não há como…”, murmurou para si mesma.

Embora olhasse a mesma pessoa que Santana, Rachel voltou a pensar em tudo o que ouvira até o momento sobre e da ex-namorada. Ela lhe disse que não havia o que ser perdoado… Como não? Quando Quinn se tornou tão condescendente? Quando… Estancou. E se não fosse condescendência o que ela lhe transmitiu? E se?…

Chacoalhou a cabeça. Estava complicado demais pensar sobre tais assuntos. Não era o momento adequado. Não quando necessitava mirar a ex fotógrafa e namorada a fim de encontrar algum resquício de quem ela foi. Sim! Precisou reconhecer: seus amigos estavam certos. Quinn não passava nem perto de quem foi.

“Preciso saber quem é você agora, Quinn”, sussurrou, decidida.

Eu estou andando por essa estrada vazia para lugar nenhum

Eu passo pelas casas e quarteirões que uma vez conheci

Minha mãe me avisou para não mexer com a tristeza

Mas eu sempre fiz, Senhor, e ainda faço

Eu ainda estou quebrando as regras”.

Crash! Boom! Bang! by Roxette -

CONTINUA.

Notas finais
Até o trinta e quatro! Abraço afetuoso. - Cal. *-*