Sine Cordi

34 CAPÍTULO 34 - לד


Notas iniciais
Por favor, não fiquem ansiosas... XD

Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer — eu sou eu?”

– Fernando Pessoa -

Rachel sabia que entre precisar e conseguir (re)conhecer a mulher que, um dia, foi-lhe muita íntima, havia uma distância respeitosa. Quebrar a muralha de gelo de Quinn sempre foi difícil. Inclusive quando eram colegas de classe e no Glee. A loira nunca se abatia. Ela era como o bambu: até vergava, mas nunca quebrava. De alguma maneira (única), Quinn Fabray dava a volta por cima. Fosse em relação a uma Santana Lopez louca para ser capitã das cheerleaders, fosse por ser descoberta em plena traição quando ela e Finn pegaram Mononucleose (doença do beijo, presente de Santana Lopez) e Rachel ficou com o coração quebrado, ela sempre passava por sobre os problemas como uma espécie de deusa impoluta.

Quando ela se deixou derreter e se confessou apaixonada, Rachel descobriu que a fria menina linda do McKinley era, de verdade, uma moça doce, meiga e cheia de inseguranças; uma menina que ria de coisas tontas até quase ficar sem ar, com uma gargalhada doce de se ouvir e altamente contagiosa. As pessoas se apaixonavam pela risada solta de Quinn Fabray. Era como escutar uma garotinha de cinco anos de idade. Encantava e enternecia.

Quando brigavam e ela se fechava em sua armadura de gelo e a ignorava por semanas inteiras, Rachel sabia que bastava esperar que ela retornaria já despida do gelo e se desculparia, ainda que pudesse ter razão em se frustrar.

Rachel aprendeu sobre Quinn Fabray rápido demais. Ela era um livro aberto. Entrementes, Quinn, com todo o seu pedigree, não pareceu aprender muito sobre Rachel Berry…

Ó doçura da vida: agonizar a toda a hora a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe.”

– William Shakespeare -

Foi a vez da defesa chamar sua testemunha.

Quinn olhou as anotações em seu caderno de capa de couro e, após, abriu o dossier que Wilhelm lhe preparou.

A pessoa que sentou no banco de testemunhas era um homem, Jake Austin Majors. Era amigo do réu e fez muitos negócios rentáveis com ele. Ostentava a riqueza que possuía e parecia ter acabado de sair do banho: a tez muito branca, a barba bem feita, o gel nos cabelos cheios e quase loiros, os olhos de um azul acinzentado…

Jurou sobre a Bíblia e cuidou de se sentar. Era um homem bonito. Os lábios carnudos e bem desenhados, o rosto parecia talhado por um escultor renascentista, percebia-se que também era dono de um belo físico.

A advogada olhou outra vez o relatório do Sr. Majors e leu que o mesmo era exímio nadador e não deixava de se exercitar diariamente. O que explicava a boa forma.

Mathews caminhou até o banco das testemunhas e, de início, agradeceu a presença do empresário. Após o “introito”, empezou o inquérito, atento e cuidadoso:

“Sr. Majors, há quanto tempo conhece o meu cliente?”.

“Há quase sete anos”, respondeu.

“O senhor pode contar a esta corte como se conheceram”, questionou o jovem advogado.

O empresário não fez rodeios:

“Eu tenho uma empresa de confecção de produtos esportivos. Nós estávamos às portas da falência quando o Raul apareceu e me ajudou”.

Os olhos de Anthony brilharam.

“De que maneira o meu cliente o ajudou?”, questionou a sentir a oportunidade de apaziguar a imagem do réu que se prejudicou ao xingar a advogada de acusação.

Quinn sorriu e meneou a cabeça.

A voz do Sr. Majors se fez ouvir pelo recinto, muito econômica:

“Ele injetou capital na fábrica”.

Com um sorriso de satisfação e expressão de alívio na face, Mathews prosseguiu:

“E, após esta ‘injeção’ de capital, como os negócios se desenvolveram?”.

Jake ajeitou-se na cadeira:

“Muito bem! Abrimos lojas em doze estados que vendem exclusivamente os nossos produtos”.

O advogado continuou a questionar o homem sobre os bons negócios que fez com o réu e, como deveria ser, indagou também sobre Linda Wood e o relacionamento dos dois. Obteve, como esperava, respostas que em nada desabonavam o Sr. Raul Street. Para terminar o inquérito, retorquiu, surpreso por não ser interrompido por Quinn Fabray:

“Responda-me apenas com um sim ou um não: consideraria o meu cliente um homem íntegro e ciente do respeito ao outro e a vida de seus pares?”.

Jake respondeu que sim, sem muito ponderar.

Dando-se por satisfeito, Mathews encerrou com a famosa frase “sem mais perguntas” e se colocou ao lado de seu pouco tranquilo cliente.

A advogada loira esfregou a fronte com as pontas dos dedos. A dor de cabeça diminuiu, porém não a deixou por completo. Nestes momentos, parecia-lhe deveras desgastante ser clara, lógica e objetiva. Lutava consigo mesma a fim de obter resultados positivos durante a conversação com as testemunhas.

Respirou fundo e, muito calma e sem pressa, caminhou até o Sr. Majors e o cumprimentou antes de averiguar:

“O senhor explicitou para este tribunal que Raul Steven Street o ajudou quando ficou à beira da falência…”.

“Sim” — antecipou-se o homem.

Quinn colocou as mãos na cintura e inclinou o rosto para a direita, a mirar meticulosamente o homem à sua frente, o que o deixou incomodado a ponto de se mexer na cadeira e no nó da gravata, como se esta o asfixiasse.

Ela suspirou ruidosamente e atirou:

“Ele lhe fez um empréstimo”.

A pergunta foi, na verdade, uma afirmação que deixou Jake seriamente atordoado. Emudecido. E isso enfastiou ainda mais a advogada. Só gostaria de saber o porquê das testemunhas reagirem de tal maneira.

“Senhor, por gentileza, pode responder à pergunta?”, insistiu.

Ele olhou para o juiz que não entendeu a razão pela qual recebeu tal mirada e ordenou que o homem obedecesse à demanda de Quinn.

Jake abaixou a cabeça e respirou fundo. Soltou o ar e, por fim, falou:

“Sim… O Sr. Street me beneficiou com um empréstimo”.

A advogada meneou a cabeça e um sorrisinho incrédulo dançou pelos lábios bem-feitos.

“Ele lhe ‘beneficiou’?”.

“Sim”, reafirmou, a tartamudear.

A loira esfregou as têmporas por um momento e tomou de uma respiração antes de seguir:

“Está sob juramento, senhor. Então, apenas refute ou endosse o que lhe perguntarei com um breve ‘sim’ ou ‘não’”.

A testemunha assentiu e a Fabray empurrou:

“O Sr. Street, na verdade, não emprestou dinheiro ao senhor. Ele comprou quarenta por cento da sua confecção, de modo que ele não lhe beneficiou tão somente, outrossim beneficiou aos dois. Correto?”.

O homem, por alguns segundos, perdeu a noção de onde estava. E, ao se recompor, uma pergunta lhe martelou na cabeça com força: como ela poderia saber de tal fato? O acordo entre ele e o Street foi confidencial!

Tornou à realidade ao escutar a voz nasalizada e doce, porém firme e indiferente, a chama-lo:

“Senhor, pode nos responder?”

Na realidade, ele não poderia… Então, para seu próprio infortúnio, deixou escapar uma pergunta…

“Como conseguiu esta informação”.

Quinn respondeu, devagar:

“Não, não, não, Sr. Majors. Eu pergunto e o senhor responde. Ok?”.

O juiz mirou a testemunha. E como esta nada disse, interveio:

“Sr. Majors, responda à pergunta”.

Sem muito mais a fazer, obedeceu à autoridade:

“Sim”.

O tribunal foi ruidoso ao proferir outra vez mais um longo e arrastado “Oh!”.

A advogada tornou a massagear as têmporas.

De seus lugares, Santana e Russel trocaram olhares preocupados.

“Ela precisa ir adiante!…”, murmurou ele.

A latina voltou os olhos para frente e respirou fundo, preocupada.

Viajou para cinco anos atrás…

Não conseguia falar com Quinn desde que esta lhe telefonou atordoada e, à duras penas, chorando muito, contou o que aconteceu. Narrou, num estado lamentável de pranto, confusão, dor e raiva o que Rachel lhe fez. Contou com crueza de detalhes como flagrou a noiva.

Quase uma hora após a ex cheerleader ter desligado o telefone, recebeu um telefonema de um socorrista, que encontrou o nome e o telefone dela como contato para o caso de algo grave acontecer à moça loira.

“Você disse que é o quê?”, pensou que seu cérebro lhe pregara uma peça e não escutou direito.

Quando, finalmente, entendeu o que aconteceu, saiu – junto com uma Brittany muito assustada – em direção ao local do acidente, enquanto entrava em contato com Russel Fabray.

O que viu quando chegou ao local a apavorou. Ouvir os que testemunharam o acidente a assombrou. Eram muitas vozes e todas elas diziam as mesmas coisas…

“Ela viu o caminhão…”.

“Ela entrou com o carro sob a carroceria…”.

“Jesus, ela fez de propósito!…”.

“Eu não acredito que alguém possa sair vivo daquele monte de ferro retorcido…”.

Não soube por quanto tempo ficou em choque. Porém, voltou à realidade ao escutar a voz da noiva a lhe dizer, sem fazer ideia de como ela conseguiu tal informação, sobre o estado de Quinn:

“Ela está mal, Sant… Mas uma das paramédicas conseguiu se arrastar para dentro do carro, entre as ferragens, e aplicou algumas injeções nela e está monitorando os sinais vitais, até conseguirem tira-la de lá”.

“Ela… Ainda está viva?”, a incredulidade em Santana era tão palpável que atingiu Britt de tal forma que a moça não conseguiu segurar as lágrimas ao continuar:

“Ela está oscilando ente a consciência e a inconsciência e, pelo que entendi, as bolinhas dos olhos dela…”.

“Pupilas…”, murmurou ao ser abraçada pela noiva, que prosseguiu:

“Isso, as pupilas… Elas dilatam e contraem toda a hora… Parece que isso significa que ela tem um trauma cerebral grave…”.

Russel Fabray chegou e a latina, tão submersa em toda a insólita situação, só se deu conta após algum tempo.

“O que ela fez?”, foi a questão incrédula que escutou da boca do patriarca Fabray.

“Eu… Eu realmente ainda não processei…”, respondeu no automático.

Mas, por incrível que pudesse parecer, Brittany sabia exatamente o que aconteceu e, com uma lucidez inexplicável até os dias de hoje, ela esclareceu:

“Quinn tentou morrer… Não conseguiu ainda… Os médicos estão se esforçando para mante-la”.

Russel meneou a cabeça em negativa e em seu rosto toda a dor de sua alma machucada de pai se externalizou numa distorcida expressão.

Ele não perguntou porquê Quinn fez aquilo.

Ele não se interessou no que a motivou a tentar contra si própria.

Ele se mobilizou como o pai que – apesar de ter suas diferenças com a caçula – faz o possível e o impossível para proteger sua prole, mesmo contra uma antagonista tão fria e sem desculpas como a Morte.

Os socorristas levaram mais de meia hora para retirarem a ex cheerleader do carro.

Ela foi levada para o Hospital Presbiteriano de Nova York e toda a equipe de neurocirurgiões, além dos demais médicos, foram os responsáveis por conseguirem estabiliza-la, ainda que todos os pertences encontrados com ela fossem entregados para uma Judy catatônica com um “sinto muito” que fez a mulher acreditar que perdera a filha para sempre.

“Ela… Ela morreu?”, indagou num incrédulo fio de voz.

“Não…”, Britt garantiu e a mulher Fabray a mirou agradecida.

Não conseguir informações quase levou Russel à loucura. O homem não deixava o corredor da emergência de nenhuma maneira, a exigir que sua filha fosse salva. E perguntava, a parecer um tanto ensandecido:

“Como ela está?”.

“Ela vai se recuperar?”.

“Ela vai ficar bem?”.

Mas a morte, caprichosa, não permitiu que resposta alguma pudesse ser dada para o homem. Os médicos se esforçavam, mas havia coisas que estavam além de suas forças e treinamento.

Então, Helen Tolkien, a neurocirurgiã responsável, apareceu e falou, trazendo um resquício de fé para eles…

“Eu, realmente, me recuso a acreditar que alguém com ferimentos tão graves na cabeça ainda esteja viva…”.

Rachel mirou Santana. Percebeu o ar grave da mulher ao seu lado, entrementes nada disse. Guardou silêncio e voltou a observar a ex-namorada que lhe pareceu um pouco impaciente.

Walker acalmou as vozes e sinalizou para que a bela e aparentemente atormentada advogada prosseguisse. Ela respirou fundo outra vez e obedeceu, controlada:

“Então, haja vista que o Sr. Street comprou parte de sua empresa, podemos pensar que ele, além de fazer bem ao próximo, faz também o mesmo para si mesmo. Correto?”.

Majors olhou para o homem que era, na realidade, seu sócio e assentiu enquanto verbalizou um “sim” inseguro.

O réu não ficou satisfeito com a maneira como a advogada desfez a tese do Mathews e soltou, aborrecido:

“Isso é uma piada!…”.

Anthony o fez aquietar. A situação estava a ficar apertada para o cliente. E o melhor que ele deveria fazer era morder a língua para controlar suas opiniões pouco cavalheirescas acerca de Quinn Fabray!

“Como pode querer que eu me acalme diante do fiasco que a minha defesa está a se tornar? Responda-me, Dr. Mathews”, exigiu ainda mais conturbado.

O advogado suspirou outra vez. Mas em que espécie de armadilha foi se meter a ter de um lado um cliente casca dura e do outro uma ajudante de promotor carne de pescoço?

“Por favor, Sr. Street! Procure ter mais paciência! Este é só o primeiro dia de julgamento. Há muito mais…”.

Não terminou sua fala:

“Isto é o que mais me apavora! É só o primeiro dia e sinto você incapaz de dar um passo adiante, pois a doutorazinha está a nos ‘follar’ por completo!”.

Anthony não entendeu o verbo usado pelo cliente, mas imaginou que não era boa cousa.

E, no caso dele, não era mesmo.

A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.”

– Sêneca -

Maria observou, silenciosa, um preocupado e absorto Jesse St. James. Buscou em suas memórias algum outro momento em que o viu assim. Não se lembrou. Provavelmente, esta era a primeira vez que o testemunhava em clara preocupação. Desde que retornou do ensaio se mostrou diferente. E, mesmo com Spencer ao lado a falar pelos cotovelos, não era capaz de colocar atenção no filho. Por quê?

Seu apurado sexto sentido gritou três palavras que lhe trouxeram uma imagem à mente: a moça loira.

A moça loira que lhe parecia a princesa da história que contava para a neta Yolanda, que espetava o dedo num fuso e caia num sono profundo. Teria despertado e por isso causava confusão ao homem sentado a sua frente? E onde mesmo a Srta. Berry foi?… Não para o teatro, disso estava certa.

O fato era que, por mais que desejasse se ausentar de um aparente problema que não lhe dizia respeito, ver as pessoas as quais se apegou em tal fragilidade apertava-lhe o peito. Não se sentia capaz de, simplesmente, virar as costas e fingir que tudo estava bem. Não se era conhecedora da história… Não se a Srta. Berry lhe perguntasse, alguma vez, pela moça loira. Mas, ela nunca perguntou. Então, calou-se.

O que temeu durante o último mês aconteceu. Eli estava, estampado, ainda que num discreto canto da primeira página do New York Times e alguns outros poucos jornais, o que – tinha certeza – aconteceu porque ela, a moça que parecia a princesa de “La Bella Durmiente”, voltou antes da viagem e a Srta. Berry não deveria estar sozinha…

Um acidente.

Uma jovem fotógrafa, um carro e uma carreta.

Nenhuma morte, até o momento. Mas o risco de que a princesa dormisse para sempre estava ali, tangível.

Ela quase conseguia sentir o cheiro da morte, incômodo e desgastante.

Esperou que a jovem patroa telefonasse em busca de informações sobre a namorada. Porém, isso não aconteceu. Então, seu coração se fundiu ao pensar que, talvez, a talentosa cantora escolheu o homem por quem se perdeu.

Não foi novidade quando, alguns anos depois de retornarem da longa excursão da peça com um lindo menininho nos braços, estivessem casados.

Só havia um porém: a moça loira era uma sombra constante sobre o casal. Sempre que discutiam, o nome dela surgia. E então, o silêncio aparecia.

Achava incrível o poder que a princesa adormecida ainda tinha sobre aquele casal. Mesmo ausente, ela estava ali, presente. Quase podia ouvir sua voz e suas gargalhadas.

Deu-se conta que Rachel Berry nunca mais, depois que a moça loira se foi, riu como fazia quando as duas estavam juntas. O Sr. St. James era um jovem bonito, alegre e muito gentil, porém nunca foi capaz de fazer a esposa rir como a Bella Durmiente fazia.

A verdade lhe chocou: a Srta. Rachel, com todo o sucesso e poder que conquistou, não era feliz. Era incompleta. Tudo porque a princesa foi e nunca mais voltou.

AS INDAGAÇÕES

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.”

– Mário Quintana -

Quinn respirou profundamente.

Voltou a erguer a mirada até o Majors e deu prosseguimento ao trabalho, ainda que travasse uma dura batalha contra a dor que a fustigava sem piedade, como uma amante possessiva que a envolvia e reclamava-a somente para si.

“Sr. Majors, disse ao Dr. Mathews que conheceu a Sra. Wood. Lembra-se quando isso aconteceu?”.

Antes de o homem empezar a resposta, o advogado de defesa protestou e justificou “pertinência?”.

Quinn o mirou e, imutável, justificou:

“Eu quero fazer um paralelo entre os testemunhos feitos até o presente e, através de tal feito, reforçar a tese da promotoria”.

Anthony riu, em desfrute.

“Reforçar a tese da promotoria?”, arguiu, “por que não deixa a promotoria reforçar a própria tese?”.

Má pergunta…

Escutou dela, seco e cortante:

“Eu sou a promotoria! Ou esqueceu disso?”.

Mathews se deu por vencido e, antes mesmo que voltasse a sentar, escutou do Street:

“Você é uma piada, doutorzinho. Como pode permitir que uma mulher o trate assim? Onde está a garantia de que este julgamento seria fácil?”.

E, para sua surpresa, o jovem defensor retorquiu de bate-pronto:

“E o senhor? Como foi se perder de amor por uma mulher casada e que não queria nada além de um amante?”.

O empresário perdeu a cor. E perdeu também o raciocínio que lhe permitiria responder ao advogado.

Quinn prosseguiu segura com o testemunho de Majors.

Abordou, sem meandros, a relação do réu com a vítima. Tocou no ponto nevrálgico da relação que estava no fato de Raul pedir ao Sr. Wood que se separasse da esposa.

Ela sabia como envolver as pessoas. O sorriso doce na face, os olhos verdes que deixavam a ilusão de que lhe enxergava a alma enfeitiçava. E o Majors não foi capaz de se dar conta de que já quase não piscava, concentrado demais na agradável e linda mulher que lhe interrogava. E, para desespero do Mathews, escutou dos lábios do homem a testemunhar, sobre Raul e Linda:

“Nunca foi segredo em nosso meio que Raul ficou frustrado por querer desposar Linda e não obter sucesso em tal intento. Algumas pessoas lamentavam o fato de ele insistir em pedi-la em casamento quando ela não escondia o quanto amava o marido”.

A advogada prosseguiu:

“É verdade que o Sr. Street se tornou mais possessivo sobre a Sra. Wood, demonstrando, inclusive, ciúmes da relação matrimonial dela com o Sr. Wood?”. Jake mirou com visível embaraço o réu, entrementes não pode se esquivar em responder e de maneira ligeira e seca um “sim”.

Street já havia ido da ira ao espanto. A sua questão interna era: como aquela mulher, que se parecia mais com uma modelo de capa de revista tinha tantas e certeiras informações sobre sua vida?

Cochichou ao ouvido de Mathews:

“Como ela pode saber tanto sobre mim?”.

O advogado o mirou com surpresa.

“Como assim ela pode saber tanto sobre você? Ela não sabe! Ela só está averiguando e…”, calou-se e fincou ainda mais o olhar no olhar do cliente, “está a me dizer que a Fabray está a par de pormenores sobre sua vida? Que as palavras e perguntas dela são altamente corretas?”.

Raul deu um sorriso de escárnio e comentou antes de voltar a atenção para a mulher que o levava cada vez mais para o cadafalso:

“Eu tenho certeza de que contratei o advogado errado…”.

Anthony fechou os olhos e contou de cem a zero. O maldito cliente que arranjou era um insolente sem a menor humildade que, com o desenvolver do julgamento, percebeu que lhe ocultou dados que, no momento, estavam a coloca-los com a corda no pescoço.

Fitou com atenção a advogada e um pensamento desagradável o tomou:

“Estamos fodidamente fodidos!”.

A outra pessoa a testemunhar, chamada pela promotoria, foi Ryan Stein, marido de Mary.

Mathews não teve um desempenho melhor do que apresentou até então.

Quinn, apesar da dor que insistia em incomoda-la, pautada nas investigações de Wilhelm e em suas próprias pesquisas, foi sumariamente superior ao antagonista ao levar à tona o fato de que o Street era um pescador medíocre, mas que sabia – sim – fazer um nó corrediço, o que o aborreceu deveras, além de causar furor aos jurados e aos espectadores que se fizeram presentes à contenda judicial.

Russel não conseguiu evitar o orgulhoso e satisfeito sorriso que se plasmou na face.

Santana sentiu-se encantada outra vez mais com a capacidade da loira manejar toda a situação a favor da promotoria e, logo, do Estado.

Nossas vidas são definidas por momentos. Principalmente por aqueles que nos pegam de surpresa.”

– Bob Marley -

Já passava do meio-dia quando o juiz Walker decidiu fazer um recesso de duas horas para o almoço.

Quinn agradeceu mentalmente. Era o tempo necessário para que – talvez – a sutil, porém constante e incômoda dor de cabeça a deixasse.

Olhou para trás, na audiência, à procura de uma cantora que, um pouco mais cedo, abordou no banheiro.

Identificou-a ao lado da Lopez, a se preparar para sair para o almoço.

Será que ela retornaria? Esta foi uma pergunta que precisava de uma resposta imediata…

Rachel buscava pelo telefone, no corredor, quando sentiu a aproximação de alguém por trás e se arrepiou, talvez de susto, quando ouviu a voz rouca bem perto do ouvido direito:

“Por que não pensa melhor e almoça comigo? Eu sei que o tempo será curto, mas creio que, com um pouco de boa vontade, poderemos tirar proveito da conversa”.

A judia girou sobre os calcanhares e perdeu o ar e deixou o telefone, já não mão, resvalar até o chão, num baque surdo, tal qual a batida do coração ao encontrar os olhos verdes fixos nela.

Não leve a vida muito a sério; de todas as formas não sairá vivo desta”.

– Bernard Fontenelle -

CONTINUA.

Notas finais
E a conversa? Rachel terá coragem para acompanhar Quinn? Abraço afetuoso. - Cal. *-* OBS.: eu amo tudo isso! ;)