Sine Cordi
94 CAPÍTulo 94 - ץד
Notas iniciais
“Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza”.
— Metade (Oswaldo Montenegro) -
Quinn estava realmente surpresa, enquanto Rachel, um pouco tímida ainda, mostrava como Lucy dispôs toda a nova arrumação do penthouse da loira, a fim de acomodá-la e a ao filho.
“Então…”, a loira fitou a morena que levava Spencer até o que ainda era um dos quartos de hóspedes, “esse será o quarto do menino”, comentou quando entraram no aposento, enquanto mantinha-se atenta ao som de voz de Rachel e evitava olhá-la em demasia. Ultimamente se perdia um pouco na cantora e ainda precisava organizar a cabeça e lidar com as decisões que suas outras personalidades pareciam organizar muito bem. Riu-se. Esta era uma situação muito estranha!
Ela, Quinn, sentia-se muito estranha.
Muito mais do que realmente imaginou ser ou sentir.
“Lucy disse que o outro quarto é menor… Esse poderia ficar para os meus pais quando vierem me visitar… Ou a sua mãe”, Rachel acrescentou.
“Ela não virá”, afirmou em relação a Judy veemente e indiferente, enquanto analisava que, aparentemente ela, Quinn Fabray, parecia não contar muito na equação de M e Lucy quanto ao matrimônio com a judia, ao mesmo tempo em que era essencial. Sacudiu um pouco a cabeça a fim de tentar se focar no assunto em pauta.
Rachel, claro, percebeu:
“Estamos indo rápido demais?”, perguntou, afetuosa.
A advogada a fitou com expressão de quem se perdeu no meio da narrativa e a cantora se deu conta de que, realmente, estava indo rápido demais para a esposa, que via a sua vida se transformar diante de seus olhos sem ser uma participante cem por cento consciente do fato.
“Talvez…”, não admitiu, mas realmente estava atarantada. E pensou que talvez fosse bom abordar mais sobre Rachel como tema de sua terapia com Eleanor.
“Quinn, não quero vê-la confusa… Poderemos falar se quiser… Eu só não sei como evitar que suas outras personalidades apareçam… Eu não sei como…”, a cantora tentou apaziguar a si mesma e à advogada. Havia momentos em que a loira realmente parecia muito assustada com tudo o que acontecia ao seu redor, ainda que tentasse ocultar.
“Okay, Rachel…”, Quinn olhou de relance para a morena e o filho desta, que a mirava de maneira tímida. “Eu só preciso absorver o que está acontecendo… E M e Lucy só estão aqui porque… Porque…”.
Por quê, mesmo?
“Oh! Não acredito que realmente não saiba. Estamos aqui porque você tem medo da dor que Rach-Rach lhe causou…”, a voz de M e Lucy falaram, dissonantes, enquanto a loira tentava se manter presa à realidade.
Por que diziam essas coisas?
Por que Rachel a apavorava e atraia ao mesmo tempo?
“Amá-la trouxe consequências… Estamos aqui para lidar com isso”, outra vez as vozes dissonantes de Lucy e M se fizeram presentes. Quinn soltou um suspiro. Por que não paravam um pouco? Por quê?…
“Q…”, a forma como Rachel a chamou a fez mirá-la com os olhos verdes espantados. Q? Quem a chamava assim? Ninguém a chamava assim, exceto o Russel quando queria se fazer de bonzinho… Ou Santana para aborrecê-la… Ou Judy, às vezes… Esta era uma forma carinhosa de Rachel? Era assim antes de que se esquecesse dela? Soltou outro suspiro, decidida a não tocar nesse tema. Assim que comentou:
“Está tudo…”, como diria que a arrumação havia lhe agradado sem parecer imatura ou emocional para a judia? Entretanto, antes de pensar em uma narrativa, imagens quebradas do que parecia um sonho tomaram a mente loira…
Ela tinha Rachel entre seus braços e, enquanto a desnudava, a cada parte de pele que deixava exposta, cobria de beijos úmidos e cheios de desejo… Os gemidos de Rachel faziam com que a quisesse ainda mais. O sabor dela era tão inebriante, o cheiro da pele e o calor eram embriagadores…
“Quinn”, a voz da esposa a trouxe de volta daquele estranho e sexy momento e, por mais tolo que parecesse e até meio pueril, sentiu a face queimar. Ela e Rachel estavam?…
“Quinn!”, a judia estalou os dedos diante dos olhos estatelados de a ex-fotógrafa, que parecia rija feito pedra.
“Eu… Eu…”, a advogada respirou fundo e tentou afastar as imagens, enquanto procurava demonstrar que estava tudo bem.
“Er… Perdão, Rach… Eu acho que…”, mirou a face da judia e os olhos verdes escorregaram para os lábios carnudos. As vozes dentro da cabeça se calaram e ela, devagar, foi se aproximando Rachel, sem entender a razão da atração que sentia por aquela boca morena e até mesmo por toda a morena… Era tão incoerente… Era tão sem sensatez… Tão sem um monte de coisas lógicas que, quando sentiu a maciez dos lábios de Rachel, num beijo que pareceria mais um selinho, não fosse a cantora entreabrir os próprios lábios e Quinn entender que deveria beijá-la com certa decência, quase deixaria escapar um gemido de satisfação. E, não estivesse tão atabalhoada quanto ao que parecia sentir pela judia, desfrutaria do prazer que lhe causava cócegas na barriga e fazia a carne latejar sob a roupa íntima. Porém, num átimo de razoamento, Quinn estancou e, devagar, foi se afastando e com a respiração agitada e com uma desculpa esfarrapada (a quem queria enganar nessa altura do campeonato, apesar de achar que ainda não fazia sentido toda essa atração pela cantora?), sussurrou numa voz que miseravelmente soou escorrendo desejo:
“Eu… Nós não… Spencer está aqui”, apontou o dedo para o menino e, logo, voltou-se para frente, afastando-se da judia e tentando se vestir de frieza… Mas parecia que o calor estava dificultando as coisas. Continuou como se fosse uma educadora metodologicamente correta:
“Acho que o menino não deve presenciar… Essas intimidades”, insistiu em usar Spencer como escusa e Rachel realmente respirou fundo para não rir com o tom em que a palavra “intimidades” foi proferida pela advogada.
A cantora concordou,lutando piamente para conter um sorriso de satisfação que lhe tomava a face mordendo o interior de uma de suas bochechas.
“Você está certa”, sussurrou como pôde para reforçar que apoiava a decisão da loira.
“Estou”, a advogada foi seca e pediu, no mesmo tom, que a cantora lhe mostrasse o restante das mudanças que foram feitas pelas suas outras “caras” no penthouse que parecia não lhe pertencer mais.
Rachel foi mostrando e explicando tudo com cuidado e uma alegria contida, embora a advogado percebesse o quanto a mulher parecia contente pelo tom de voz entusiasmado que não conseguia esconder.
“Vocês fizeram um bom trabalho”, ajuizou quando Rachel a fez segui-la para fora do do último cômodo que estava em modificação.
Rachel conteve um sorriso. Quinn não conseguia mais se esconder dela, mas ainda não se dava conta! Era tão estranhamente doce e tão perigoso ao mesmo tempo. Estava no fio da navalha com a esposa, ao mesmo tempo em que Quinn também estava. Só que, ao contrário dela, Rachel, quem passeava sobre o fio eram Lucy e M, prontas para serem feridas e ferirem, enquanto Quinn submergia-se e escapulia de uma realidade que inconscientemente lhe acendia o sinal de perigo, fazendo-a afastar-se emocionalmente.
Como era o fim do tour pela casa, as duas se encaminharam para a sala de jantar, onde Quinn, ainda com aquelas imagens oníricas de sua esposa e… Ela mesma, Quinn?… Por Deus! Não fazia a menor ideia de onde aquelas imagens surgiram! Eram recordações de uma das personalidades? De M?… Quem sabe? Ou de Lucy?
Por Deus! Precisava se reorganizar, porque Rachel, definitivamente, a deixava fora do eixo. E nem mesmo o pensamento de um homem sendo atropelado conseguiu fazer com que as sensações que a estavam confundindo desaparecessem. Assim que pediu licença e se fechou no escritório, estancando no meio do recinto. Lá, quase em um surto, chamou pelo cuidador e pediu, parecendo desesperada, que ele lhe servisse uma dose de uísque.
“Mas… Você tem tomado Metadona”, Holmes tentou argumentar, entretanto foi cortado por Quinn:
“Eu preciso me manter lúcida… Eu estou…”, meneou a cabeça, “eu estou tão perdida, Holmes… É só uma dose… não terei uma overdose por isso”, rebateu o argumento e os olhos dela pareciam úmidos, como se houvesse alguma coisa assustando-a.
“Eu vou buscar”, o homem consentiu, preocupado com o estado da patroa.
Quinn caminhou até o sofá do escritório e sentou ali, enquanto as imagens de Rachel e ela metralhavam dentro da cabeça.
Foi um sonho?
Parecia tão real… Quase conseguia sentir o gosto da pele morena na boca.
E se foi real, era uma recordação?
E se era uma recordação, era uma recordação de agora (de uma de suas personas) ou do passado submerso em seu inconsciente?
“Oh, meu Deus! Essa mulher vai me deixar louca…”, murmurou, inclinando o corpo para frente e segurando a cabeça entre as mãos.
Holmes voltou ao escritório e ofereceu a dose de uísque puro e Quinn, com olhar agradecido, tomou o copo com as duas mãos e literalmente entornou o líquido garganta abaixo de uma só vez. Após, com profundas respiradas, estendeu o copo vazio para o cuidador com a mão direita, pois na esquerda voltou a descansar o rosto.
“Está melhor?…”, o gigante de ébano perguntou, com olhar preocupado.
A loira suspirou profundamente antes de responder, com uma sinceridade que arrepiou os pelos do corpo do homem:
“Eu realmente não sei, Holmes”, mirou-o com os olhos de um tom esverdeado mais claros, “eu realmente não faço ideia”.
O cuidador silenciou pensativo. E, como costumava cuidar de Q com esmero, verbalizou, tão sincero quanto:
“Ela, Rachel, realmente lhe ama”, observou como a advogada o mirava com atenção, “eu sei que ela errou… E que tudo isso deve ser um pouco assustador pra você agora. Mas, com todo o respeito, eu colocaria não apena uma de minhas mãos no fogo por ela, mas colocaria as duas. Ela se arrependeu. E, se não lhe amasse, não estaria aqui, agora, não importa o que diga o contrato de casamento, lidando com suas outras personalidades tão bem… Eu, no seu lugar, tentaria levar isso em consideração”.
Quinn ficou muda, enquanto observava o cuidador lhe dar as costas, depois de um educado “com licença”, e deixar o local.
Rachel correu até Holmes para saber como a esposa estava.
O homem sorriu com docilidade e retorquiu:
“Um pouco confusa… Um tanto apavorada, talvez. Mas ficará bem”, e sem poder conter a curiosidade, questionou para Rachel, “por que ela está tão aturdida?”.
A cantora deu um sorrisinho e respondeu:
“Acho que foi porque me beijou. Não uma das outras personalidades dela, mas ela…”, riu feliz, “ela me beijou! Depois se afastou, tentou se vestir de gelo e agiu como se tudo estivesse bem”.
“Bom… Definitivamente, ela não me pareceu bem. Entretanto, não vamos nos alarmar. Acho que ela está começando a perceber as coisas. Só não sabe como lidar. Seja paciente”, motivou a judia, que agradeceu o afeto daquele homenzarrão de coração doce.
*-*
M entrou com passos firmes na Fabray&Advogados e todos os olhares se voltaram para a mulher loira que exalava força e beleza enquanto caminhava graciosamente em direção à sala de Russel.
Santana, que conversava com Mary perto da recepção e diplomada no que a loira má conseguia causar no pai, ainda que ignorasse que aquela loira não era Quinn, observou-a e comentou mais para si mesma:
“Ahora sí parece que tiene la intención de matar a su papá”.
Mary olhou da advogada morena para a loira e de novo para a morena, sem compreender o que a latina quis dizer com aquela frase, apesar de seu espanhol fluente. E enquanto a secretária deixava para lá o comentário, seu “patrão”, Russel, falava muito sorridente ao telefone, como se o interlocutor fosse algum conhecido muito querido.
“Espero, realmente, Russel, que a chamada seja local”, M disse, fazendo o sorriso desaparecer da face do homem e ele, de pronto, dar uma desculpa e desligar.
“Q?”, o Fabray estava realmente surpreso a ponto de se levantar da cadeira atrás da escrivaninha. Há muito tempo que a caçula não aparecia no escritório. Desde o julgamento de Raul Street.
“Está tudo bem?”, ele questionou, voltando a se sentar, enquanto ela o mirava fixamente com um ar maroto nos olhos musgos. Russel, ainda surpreso, embora o tom de voz usada por aquela que pensava ser sua filha lhe dissesse que não deveria se espantar ou coisa parecida, porque nada de bom vinha após os comentários cínicos dela.
“Tudo ótimo, Russel. E com você?”, sorriu com malícia, enquanto sentava-se à escrivaninha, em frente ao progenitor.
“Bem…”, o homem também sabia que era bom desconfiar da visita e o que escorria pelos lábios da mulher que o olhava com burla, “então, a que devo a honra da visita”.
M riu, achando o advogado engraçado em meio a ignorância de quem, realmente, falava com ele. Tão cego… Tão patético. Tão estúpido em toda a sua arrogância que mal sabia diferenciá-la de Quinn. Mal sabia o que tinham preparado…
“Pretendo dar uma pequena reunião familiar e gostaria muito da sua presença”, comentou como se nada.
Russel sentiu os pelos de seu corpo, um a um, serem tomados por uma sensação de estática, ficando todos eriçados.
“Reunião?… familiar?…”, o homem estava achando a situação estranha e riu. Quinn nunca convidou pessoa alguma para uma “reunião familiar”. Por que o faria agora?
Diante do olhar verde gelo cravados nele e nenhum sentimento na forma como ela o olhava, ficou sério, afrouxou um pouco o nó da gravata e desabotoou o primeiro botão da camisa social, sob o paletó do terno e M sorriu pequeno, porque sabia que o pai de Quinn estava ficando nervoso. Quase podia sentir o cheiro do temor dele, tão explícito…
“Sim! Eu tenho um comunicado importante pra fazer”, jogou, sabendo que o patriarca Fabray logo precisaria tomar o remédio para controlar a pressão. A razão? Ele era muito curioso… E isso fazia com que a pressão arterial do homem alterasse para mais. Ela só alimentava essa coisinha nele. Nada sério… Na verdade, parecia que ele já começava a ficar um pouco rosa…
“Comunicado?”, Russel engoliu seco, “que tipo de comunicado”, ele não se conteve. Afinal, o quê a caçula teria para dizer? Judith saberia de alguma coisa?
“Oh! Não seja estraga prazeres, papai”, a voz loira o trouxe das divagações, “é surpresa”, disse com um pouco de prazer malicioso na voz.
“Surpresa?”, Russel era a incredulidade em pessoa.
E M o puro deboche:
“Isso mesmo, papi! Sur-pre-sa. O mesmo que imprevisto, o que causa espanto… Será que é tão difícil de entender?”, e se levantou, fazendo menção de sair.
O homem também se levantou, entontecido em como a filha era capaz de deixá–lo no vácuo.
“Quinn! Como assim uma reunião familiar?”.
M o fitou com graça e, aproximando-se dele, abotoou-lhe a camisa e apertou o nó da gravata e, com um sorriso maroto, falou:
“Não me faça desfeita, papi”.
E saiu.
Russel voltou a afrouxar a gravata e desabotoar a camisa, intrigado. Quinn realmente planejava fazer uma reunião familiar. Para quê?
Santana segurou a loira pelo braço assim que ela passou pela porta e a levou para dentro do próprio escritório, fechou a porta e perguntou, sem rodeios ou gentileza:
“O que você está tramando, Fabray?”.
M a mirou nos olhos e sorriu, informando:
“Você e Britt-Britt também estão convidadas”. Soltou-se do agarre latino e, enquanto era acompanhada pelos olhos escuros da outra advogada, caminhou pelo local observando o escritório de Santana.
“Invitadas para qué?”, a latina indagou, no idioma materno, desconfiadíssima.
“Para a reunião familiar que oferecerei em meu doce lar”, voltou-se para a morena e a revisou inteira com um olhar travesso e sorriu, antes de perguntar o que há muito nem ela ou Q faziam:
“Tem certeza de que nunca transamos?”, foi se aproximando da morena, que fechou a cara, abriu a porta e, antes de qualquer assalto da loira, avisou que iria ao encontro.
M sorriu e perguntou, de maneira impessoal:
“O que acha de ter um escritório maior?”.
A latina ficou surpresa diante da indagação, enquanto M voltou a se aproximar dela, invadindo-lhe o espaço pessoal e, depois de passear a mão direita sobre o braço esquerdo da outra, demonstrando que o fazia com intenção de provocar, murmurou no ouvido dela:
“Será um prazer recebê-la na reuniãozinha… E eu acho que essa sala está pequena pra você, baby”, e se afastou com um sorriso de quem sabia que havia desestabilizado a morena, deixando a sala e caminhando para a recepção, enquanto Santana soltava um impropério em espanhol, ainda sem entender o que a loira insinuou sobre o tamanho de seu escritório.
“¡Perra!”, xingou a loira de cadela, ainda aborrecida por ela ser tão descarada.
M entrou no elevador e, enquanto este descia, Quinn retornou. Onde estava mesmo? Sabia que saiu pela manhã com a intenção de comunicar a Russel sobre o jantar que ofereceria, mas se perdeu. Será que o convite para a reunião foi feito? Encostou-se à parede da caixa de metal e respirou fundo, dando-se conta de que estava no elevador da Fabray&Advogados e descendo. Nessas horas, odiava perder a consciência. Entretanto, raciocinou, se o elevador descia, era porque o recado foi dado. Olhou a hora no relógio de pulso e se ergueu, recompondo-se:
“Okay, Quinn… Uma delas fez o convite”, disse para si mesma, enquanto se lembrava que Rachel ainda não sabia. Ainda não contou para a esposa sobre o jantar que tinha em mente. Precisava prepará-la, pois era peça fundamental neste.
Após repassar a agenda de trabalho com Kitty Wilde e dispensá-la, Rachelbuscou Holmes e o encontrou na copa. Perguntou novamente, ainda surpresa: Quinn estava preparando um jantar em família? Com os pais dela e os Fabray?
“O que ela tá tramando?”, perguntou, com o par de olhos castanhos escuros pregados no homem. Ele, na verdade, não sabia o que responder para a cantora. Quinn somente disse que abriria seu penthouse para uma reunião familiar. Mas não revelou a razão desta.
“Reunião… familiar?”, a judia estava surpresa. Havia duas semanas que as duas moravam juntas, Spencer estava se adaptando bem, porque Quinn, por mais estranho que parecesse, distraia-se com o pequeno e ele conseguia fazer o que quase ninguém era capaz: sacar gargalhadas da loira. Era uma dicotomia, Rachel sabia disso. Mas… Parecia-lhe, bem no fundo, que esta era uma dicotomia boa entre tantas que Quinn apresentava. E nem todas agradáveis.
“Eu acredito, Sra. Fabray”, o homem tinha um discreto sorriso na face, “que ela lhe colocará a par do que está planejando”.
A cantora assentiu ainda se questionando a razão de a esposa querer o jantar. Pelo que soube, não era hábito da advogada oferecer jantares em sua casa. Nunca.
“Entretanto”, a voz de Holmes a fez focar-se nele e deixar as perguntas para depois, “Quinn nunca faz coisa alguma sem um por que. E isso, senhora, pode ser uma razão boa ou ruim. Eu só espero que seja forte para o caso de alguma surpresa acontecer”.
Rachel meneou a cabeça e perguntou se o cuidador não poderia assustá-la menos.
Ele sorriu e respeitosamente tomou-lhe uma das pequeníssimas mãos entre as suas quase gigantescas, ocultando-a quando a cobriu com a outra e, após o que parecia uma meditação acerca de alguma questão, falou:
“Não se apavore. Algo me diz que a Dra. Fabray não deixará que pessoa alguma se levante contra você ou os seus. E nem mesmo ela o fará”.
E isso acalentou e fez Rachel sentir-se segura. Havia uma sinceridade na voz de Holmes, como se ele soubesse de algo muito importante em relação a Quinn.
“Eu confio em suas palavras, meu bom amigo”, ela disse e o abraçou, agradecendo por ele ser tão fiel a Quinn e conhecê-la tão bem!
Desajeitado e com o sempre contido sorriso, o homem se afastou da judia e a mirou com afeto.
“Senhora Berry-Fabray, eu confio em seu amor por Quinn. E eu sei que, entre todas as pessoas que cercam a minha patroa, nenhuma delas, nunca, soube lidar tão bem com ela quanto você. Ela sabe disso. Apenas dê um tempo para ela deixar de se debater feito peixe fora d’água e as coisas entrarão em seu devido lugar. Inclusive na cabeça dela”, atestou.
“Oh, Holmes”, Rachel se emocionou, “você é tão especial!”, e voltou a abraçá-lo.
Quinn, que acabava de entrar, porque M definitivamente “não precisava de motorista e babá”, segundo suas palavras para Holmes como argumento para ir dirigindo até a Fabray&Advogados, observou a cena e estancou, analisando o que acontecia ali. Por que Rachel estava abraçando Holmes? Eles tinham algum tipo de aliança?
“Teoria da conspiração… Estou mesmo perdendo o juízo”, comentou com sátira sobre sua atual situação e com isso, chamou a atenção de Rachel e Holmes, que se afastaram e a miraram surpresos.
Como havia, no fundo, um sutil toque de M na personalidade da própria Quinn, esta resolveu se aproveitar da situação afetuosa entre seu cuidador e sua esposa e caminhou até os dois, parando de forma que os três parecessem um triângulo. Ela era a ponta principal, claro. Olhou de Holmes para Rachel e desta para o gigante de ébano que estava realmente confuso sobre o que poderia passar pela mente criativa de sua patroa. Ergueu a sobrancelha esquerda (ela tinha um talento especial com ambas as sobrancelhas) e perguntou, agora colocando um ar de desconfiança na face:
“Assim que… Eu mal posso dar as costas que os dois ficam de conluio?”.
“Não, Quinn!”, Rachel foi veemente, “Holmes tem sido um bom amigo…”, e se abriu, “você é distante, não conversa comigo, evita ficar perto de mim… Exceto quando M ou Lucy aparecem”, resolveu também dar uma pequena espetada na esposa.
Quinn fez cara de quem não gostou do que ouviu, entretanto sabia que a esposa estava certa. Não contestou e olhou para Holmes.
“Eu agradeço o seu cuidado com Rachel”, falou e deu as costas para se retirar, sob os olhares confusos de Rachel e o cuidador. Porém, parou no meio do caminho e com ar de quem se aborreceu consigo mesma, falou para a cantora:
“Precisamos conversar sobre um jantar…”.
Rachel assentiu, mas não se moveu.
Quinn franziu o cenho e, com as mãos na cintura, disse:
“Agora, Rach! Não fique aí parada, feito estátua”, e daí, sim, a loira aborrecida consigo mesma deu as costas e foi para o escritório.
“Acho melhor eu segui-la… Por que ela parece irritada?”, Rachel perguntou ao gigante de ébano, que sorriu ao responder:
“na verdade, senhora Berry-Fabray, eu penso que ela está irritada com ela mesma…”.
A morena deu um sorriso de quem achou o comentário do homem engraçado e foi atrás de Quinn, no escritório. Afinal, qual a razão de ela querer um jantar em família?
Era algo bom?
Ou seria algo ruim?
Bom… Ela logo saberia.
“Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade”.
— Oswaldo Montenegro (Metade) -
CONTINUA…
Fale com o autor