Sine Cordi
79 CAPÍTulo 79 - עט
Notas iniciais
“É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló
Dessa vida cumprida a sol
Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida”
— Renato Teixeira em Romaria—
Quinn se despiu devagar, diante do olhar atento de Alex e, em roupa íntima, diminuiu as luzes e caminhou até a cama. Em silêncio, deitou-se, cobriu-se e deu as costas para a mulher.
A jornalista ficou atônita. Precisavam conversar! Quinn não poderia, simplesmente, chegar acompanhada de Rachel Berry e agir como se tal coisa fosse normal. Ou comum.
“Quinn”, chamou, com paciência.
“Eu preciso dormir, Alex…”, murmurou, “poderemos discutir o assunto quando eu acordar”, suspirou.
A suíte caiu em profundo silêncio.
E a jornalista analisou o ultimato da namorada. Sim, de fato elas poderiam conversar mais tarde. Porém:
“Quinnie, eu sei que você está cansada, que os seus encontros com a Parker são estressantes, mas precisamos falar sobre Rachel Berry. Por que ela estava com você? Por que ainda está brincando com ela? Qual a sua curiosidade sobre ela? Eu preciso saber, porque, querendo ou não, sendo convencional ou não, estamos em uma relação. E eu não sou do tipo ciumenta. Você sabe, embora digam o contrário. Mas, acredito que, esperta do jeito que você é, a sua curiosidade sobre a sua relação com a Rachel já foi solucionada. Então, a pergunta que eu farei será uma repetição: por que Rachel Berry ainda está por perto?”.
A loira sentiu uma pontada na cabeça. As vozes sussurravam e depois uma gargalhou alto, como se risse da situação em que ela, Quinn, encontrava-se agora: sendo cobrada por uma namorada a quem deixou bem claro que não era capaz de se apaixonar. E, depois, pelo que se lembrava, não fez nada de errado com a Berry. Exceto provocá-la um pouco. Claro, havia o fato da tal Srta. M apontar uma arma para a própria cabeça, apavorando a cantora que, pelo que foi exigido, deveria ficar longe dela. Mas não ficou.
Será que Rachel realmente aguentaria tudo o que poderia acontecer em relação ao seu descontrole emocional para provar que, de fato, ainda a amava?, questionou-se; ou era só culpa, remorso?
“Quinn?”, a voz de Alex a despertou das elucubrações.
“Alex, eu não me sinto muito coerente agora para lhe responder”, murmurou, fechando os olhos outra vez.
A jornalista sorriu. Quinn não se sentia coerente? Perfeito! Era assim que sempre gostou mais dela. Incoerentemente deliciosa!
Suspirou e deitou. Devagar, arrastou o corpo até o da loira e se colou a ela.
Os olhos verdes de Quinn se abriram, enquanto ela sentia o braço da jornalista tomá-la pelo abdome e ela se apertava às suas costas e traseiro.
“Quinnie, converse comigo, bebê”, murmurou no ouvido loiro.
“Vamos, Quinnie, converse com ela!”, escutou a voz fria e debochada da, pensou, Srta. M.
“Não”, respondeu, irritada, para a voz e Alex franziu o cenho, pois pensou – logicamente – que a negativa era dirigida a ela.
“Como?”, os olhos azuis gaguejaram incrédulos.
Quinn se voltou para a namorada, que agora estava apoiada sobre os cotovelos a fim de mirá-la bem nos olhos, apesar de a habitação estar à meia-luz.
“Eu estou com dor de cabeça”, murmurou, a fim de se justificar.
Alexandra estreitou os olhos.
“Eu sei…”, sussurrou, macia, “mas você nunca foi tão grosseira antes”, observou. “Já lhe vi chorar de raiva e frustração; esmurrar os travesseiros até ficar exausta; quebrar coisas e ser seca comigo. A grosseria crua, entretanto, nunca foi o seu forte”, observou.
“Eu só preciso descansar, Alex. Por favor”, pediu e voltou a se deitar, de costas para a jornalista, que ficou ainda mais incrédula com o tom do “por favor” proferido pela namorada. Desde quando Quinn Fabray pedia favores de uma maneira que lhe parecia tão sincera? E, desde quando ela perdia a postura em respostas grosseiras? Não. Realmente, algo estava diferente.
“Quinn”, voltou a insistir.
A loira só queria ficar quieta. Queria evitar as vozes e a dorzinha impertinente no crânio. Por que Alex não entendia? Sabia que precisavam conversar. Porém, não neste instante…
“Alex”, respirou fundo, buscando olvidar as vozes e se manter racional, “eu não estou tendo bons dias há algum tempo. Você sabe disso. Então, por favor…”.
“Você nunca pede ‘por favor’ sem que isto soe cínico”, a jornalista a cortou.
A loira achou o comentário da jornalista sem propósito e fundamento que o abonasse, mas não fez caso:
“Como eu dizia, eu realmente não estou me sentindo muito bem agora. Prometo que teremos uma agradável conversa amanhã”, a voz soou prática.
“Afaste-se de Rachel Berry, Quinn. Ela não lhe fará bem! Faça isso e eu lhe deixarei em paz”, argumentou, “eu acho que a sua curiosidade já se estendeu demais”, foi direta, apesar de o tom conciliador, “e ela não foi boa para você uma vez e, creia-me, uma vez ruim, sempre ruim”, completou.
“Ok”, a loira concordou e fechou os olhos outra vez.
Alex repetiu para si mesma:
“Ok?”. Não acreditou na facilidade com a qual obteve a anuência da advogada. Que estranha mansidão a havia tomado? Onde estava o aborrecimento de Quinn? O enfado no tom de voz diante de uma conversação que não a agradava?
E Quinn, como se soubesse que seria perturbada novamente, completou a resposta, sem abrir os olhos e em voz baixa:
“Eu não me importo com ela, realmente”.
Alex teve a linha de raciocínio cortada neste instante, pois a fala, o tom do comentário feito pela namorada era o que estava acostumada a ouvir. Deitou-se e voltou a abraçar a loira. Entretanto, não ficou calada:
“Amanhã”, cheirou o pescoço pálido da advogada, “você não vai fugir de mim”.
“Não. Eu não vou”, concordou, quase adormecendo, “eu terei consulta com a Parker”.
Então a morena de olhos azuis tirou suas próprias conclusões:
“Está me dizendo que a nossa conversa não acontecerá amanhã?”.
E a loira fez o que sabia de melhor: responder.
“Não. Estou dizendo que tenho consulta cedo. Poderemos conversar após”.
A morena pareceu aceitar, embora o fato de ver Rachel outra vez, com o filho, como há poucos dias, ao redor de Quinn, não a deixou tranquila. Havia alguma coisa naquela situação que estava escapulindo de sua razão. O que estava errado?
Enumerou:
Quinn ficou curiosa sobre a Berry porque soube que foram mais que apenas um caso.
Quinn mandou investigar a cantora e a relação que tiveram, pois a Berry, quando a abordou, fez isso como se a loira soubesse o que aconteceu entre elas no passado. E Quinn não se lembrava de seu passado e nem da Berry nele.
Quinn tinha pesadelos que evitava falar a respeito. E sua intuição lhe dizia que tinham a ver com a cantora.
Quinn tinha uma perda de memória em que tudo sobre a Berry foi varrido de sua mente. Até – pareceu-lhe – o dia em que se encontraram no café com Rachel, Jesse, Kurt e Blaine. Quando voltaram, ela, Quinn, começou a falar sobre a cantora.
Após isso, ela convidou a antiga namorada para almoçar e falou que havia se acidentado. Coisa que Rachel ignorava porque nenhum dos amigos achou que valeria à pena mencionar, haja vista que Quinn não lembrava dela. Uma tolice, em sua opinião particular.
Quinn ainda mantinha a cantora por perto, quando as “curiosidades” dela não duravam muito tempo.
Duas questões após tais colocações: seria possível que Quinn estivesse se apaixonando pela Berry e não estava se dando conta? Ou se dava conta, mas não queria admitir?
“Você está apaixonada por ela?”, soltou, como se fosse um susto de pavor.
A loira abriu os olhos, atordoada. Havia cochilado e sonhado?
Alex sentou na cama e ajeitou o roupão da namorada, que vestia sobre o corpo nu, a fim de ficar “apresentável” para uma conversa muito séria.
Quinn pensou que estava, provavelmente, alucinando. De onde Alex tirou essa ideia tonta?
Devagar, sentou na cama, ajeitou os travesseiros à cabeceira e se recostou, cruzou os braços sobre o abdome reto e voltou os olhos verdes cansados para a jornalista e lhe mirou a face bonita sombreada pela baixa claridade no quarto.
“Alex, você está bem?”, indagou. A jornalista só poderia estar a fazer-lhe algum tipo de terrorismo. Afinal, ela era chata às vezes, mas nunca chegou ao extremo do ciúme infundado. “Eu não consigo me apaixonar, ou realmente gostar de alguém. No máximo, eu tolero algumas pessoas. Não se deve confiar, você sabe. Por que eu confiaria em Rachel Berry com tudo o que eu e você sabemos sobre ela? E você mesma acabou de dizer que a Rachel foi ruim uma vez. E o será novamente. Eu concordei. Qual a sua dúvida?”, perguntou e esfregou as têmporas, a fim de amenizar o incômodo da dor de cabeça. E a gargalhada debochada que a Srta. M fazia ecoar em seus ouvidos. A medicação estava perdendo o efeito e Quinn se sentia atormentada por isso.
A jornalista meneou a cabeça. Ignorou todo o discurso coerente da advogada e se pegou em um detalhe: Quinn “tolerava” as pessoas. Sabia disso quando se envolveu com ela. Mas escutá-la falar isso, de maneira distante, ainda era impactante e magoava, pois ela estava no grupo das pessoas que ela “tolerava”.
“O quanto você ‘tolera’ Rachel Berry?”, ficou interessada. Já que a conversa estava indo pelo caminho da tolerância, o lógico seria Quinn não sentir coisa alguma pela cantora. Porém, ela a estava “tolerando” além da conta!
A advogada fechou os olhos. E riu antes de verbalizar:
“Eu tive um dia infernal, estou tendo dias infernais e você quer fazer cena de ciúmes agora?”.
“Quinn”, Alex mirava a namorada com olhar frio, “pare de se esconder atrás de seus dias ‘infernais’. Desde que eu lhe conheço, eles são uma constante. Apenas me responda: o quanto você tolera Rachel Berry?”.
“O bastante para infernizar a vida dela”, respondeu com irritação, antes de se levantar, sob o olhar atônito da jornalista, vestir um roupão e sair do quarto.
A morena pareceu que havia levado um choque, pois não fazia sentido o que escutou da namorada. Ela queria “infernizar” a vida da Berry? A troco de quê?
“Quinn, esta é a desculpa mais sem sentido que você já me deu. Por favor, não menospreze a minha inteligência”, pediu em tom aborrecido, seguindo a loira, que se dirigiu, atordoada, para a sala de estar.
A advogada queria se defender. Mas a dorzinha irritante e as vozes, que agora sussurravam entre si, tiravam-lhe o foco.
“Quinn, por favor, baby! Não vamos perder a postura. Apenas me responda”, pediu e acrescentou, “nós não brigamos e agora estamos aqui, discutindo por causa da Berry. Eu só quero que me diga o que há entre você e ela”.
Quinn caminhou em direção ao escritório, enquanto Holmes e Agatha apareciam na sala, surpresos pelo burburinho das vozes e o tema da conversação. Principalmente por Alex, aparentemente preocupada com Rachel junto de Quinn.
“Eu não estou discutindo com você, Alex!”, a advogada aclarou, “você está discutindo comigo. Eu já lhe respondi. Não sei porque ainda insiste nesse tema”, reagiu friamente e entrou no escritório.
“Srta. Bishop, eu posso ajudar?”, Holmes não era o tipo de empregado que se envolvia em assuntos de sua patroa. Porém, quando esse assunto poderia prejudicá-la de alguma maneira – emocionalmente falando – era sua obrigação se meter.
A jornalista suspirou e o fitou.
“Eu só perguntei da Berry”, falou, sem se importar em manter segredo sobre a coisa discutida, “por que a Quinn ainda a mantém por perto?”, inquiriu. E não foi uma pergunta dolorida. Foi direta e prática. Ela queria entender.
A questão era que Holmes também queria entender. E Rachel Berry também queria entender. A Dra. Parker e todas as pessoas que sabiam da aproximação delas também queriam entender. Quinn não deu uma razão lógica! Aparentemente, para o cuidador, a patroa queria esticar o fio que mantinha o controle da cantora afinado. Ela queria saber até onde ela poderia puxar até Rachel desafinar e arrebentar. Mas ele, Holmes, não poderia descartar uma realidade preto no branco: o contrato de casamento que atava a vida de Quinn a da cantora. Este era o porquê maior.
Uma vingança fria e estudada?
Talvez.
Uma brincadeira de mau gosto?
Também era uma opção.
Uma maneira, ainda que inconsciente, de manter a cantora por perto?
Era uma alternativa.
Entretanto, nada disso ele poderia verbalizar para a jornalista, ou porque ele não tinha certeza sobre as razões da advogada, ou porque Alex não sabia que a namorada estava casada com a pessoa que ela pedia, com muita justiça, para que se afastasse. Ela pensava que Rachel estava demorando a ser deixada de lado enquanto o elemento que Quinn se aproximou e – parecia – deixava-se aproximar por ela. Isso nunca aconteceu antes! Exceto com Wilhelm.
“O que a Berry pode oferecer para a Quinn?”, ela questionou desconfiada. Wilhelm, ela sabia, trabalhava para Quinn quando esta tinha algum caso contraditório e ele a ajudava a juntar informações sobre o réu a fim de basear a estrutura de sua abordagem no tribunal. Entendia a função dele na vida de Quinn. E Rachel? Certamente a advogada não queria convites gratuitos para assistir a musicais na Broadway! Ela fugia deles como o diabo da cruz. O que a Quinn queria com a Rachel?
“Senhorita, não acho que seja um bom momento para falarem agora. Ela não teve um bom…”.
“Um bom dia! Eu sei”, a morena de olhos da cor do mar interrompeu o cuidador. Conhecia bem o quadro médico da namorada. Mas, se fosse ficar esperando o “bom dia” de Quinn para terem uma conversação, fosse ela de qualquer tema, talvez demorasse. Os dias bons de Quinn eram raros. Exceto quando ela estava envolvida e algum julgamento. Então, por que negligenciar o momento para falarem? Quinn lhe responderia. Era só insistir um pouco, porém, com tranquilidade. Sem embates verbais. Com jeito sempre conseguiu levá-la. Não perderia a cabeça justamente agora!
“Eu prometo que serei cuidadosa, Holmes”, a jornalista avisou e se encaminhou para o escritório e, quando adentrou ao recinto, encontrou-o como o quarto, à meia luz, e a namorada deitada no sofá, coberta com a manta. No fundo, desejou estrangulá-la. Quinn não estava conversando! E, por mais que a relação delas fosse cheia de peculiaridades, o diálogo nem sempre era difícil. Nem mesmo para aborrecê-la com respostas sem razão, para amolá-la, Quinn estava falando!
Caminhou até o sofá e, devagar, sentou na ponta, à altura do tronco da loira, embora quisesse puxar a manta aos gritos. Sentou-se estrategicamente. Era só se inclinar e estaria perto dos lábios dela, perto do ouvido, da face inteira!
“Baby, por favor, fale comigo”, pediu, sentindo a raiva se esvair e reprimindo o desejo de se deitar sobre o corpo loiro e atacar a namorada com beijos. Desejava-a e, quanto mais ela lhe escapava, mais a queria! Era como um estranho vício. Excitava-a!
“Vamos, baby! Fale com ela!”, a loira escutou a voz de tom frio e debochado. Respirou fundo, a fim de oprimi-la. “Alex, amanhã”, pediu, os olhos ainda cerrados.
A jornalista suspirou.
“Então, vamos para a cama”, pediu, a fim de tentar uma outra maneira de abordar a namorada.
Entretanto…
“Eu já estou na cama”, Quinn retorquiu em tom murmurante.
Alex bufou e, irritada, segurou o rosto da loira com as duas mãos e a beijou com raiva, mordendo-lhe o lábio inferior, fazendo-a gemer e arregalar os olhos, surpresa.
“Não me provoque, Fabray”, avisou e soltou a loira, levantando e se retirando, sem mais.
“Acho que gosto dela”, a ex head cheerio escutou a voz sem escrúpulos e sentou corretamente no sofá. Perguntou:
“Por que você simplesmente não se cala?”, só queria ficar quieta.
“Por que eu simplesmente não converso com a morena quente?”, propôs e riu.
Quinn chamou por Holmes, que apareceu e aumentou as luzes, fazendo a loira cobrir os olhos e pedir qualquer dose de remédio que a ajudasse a dormir.
Por que não falou com Eleanor das vozes?, perguntou-se. Oh! Porque a Srta. M apareceu e depois… E depois acordou ao lado de Rachel Berry no hospital.
“Estou enlouquecendo, Holmes”, murmurou, enquanto o cuidador pediu paciência para ela, pois pegaria o remédio.
“Aproveite e mande a Alex para a casa dela. Eu não quero vê-la… Estou cansada demais”, avisou.
O homem estancou. E se voltou para ela.
“Srta. Fabray, ela não escuta a mim ou a pessoa alguma. Incluindo você”, justificou a sua falta de manejo em cumprir o que a patroa pedia.
Quinn suspirou.
Sim! Holmes estava certo. Apesar de tudo, do distanciamento, Alex estava ali porque apenas escutava a si mesma. E ela não sairia, porque ela não se importava se Quinn era fria ou quente, alegre ou triste, simpática ou antipática. Importava que ela queria Quinn. De qualquer maneira. E sabia fazer cara de “poker face” tranquilamente e agir como se nada de desagradável estivesse acontecendo. Principalmente com a loira. E, dessa maneira, o namoro sobrevivia. Quinn não se incomodava e tudo ficava bem.
Porém, neste instante, Quinn estava incomodada. Realmente incomodada. Sentia-se invadida. Não como antes, quando Alex lhe chegou e foi se aprumando em sua vida, devagar, compreensiva e racional a ponto de saber o que debater ou o que deixar ao vento sobre a namorada antissocial, fria e incapaz de se apaixonar. Um fato que a praticidade loira não deixou passar logo na primeira vez em que saíram. Ela avisou para a jornalista não se apegar. E, aparentemente, Alex não se apegou. Mas, tinha as suas possessividades. E uma delas era Quinn.
Suspirou.
“Traga-me o remédio”, pediu, enquanto escutava a voz fria da Srta. M se tornar cada vez mais forte até que já não conseguia ouvir mais nada. E não conseguia porque a personalidade de coração de ferro e entranhas de bronze tomou o lugar dela, observando o ambiente ao redor.
Estava no escritório! O mesmo onde fez a pesquisa sobre roleta-russa e as armas de fogo.
Virou a cabeça para o lado e viu o negro bem-vestido mirando-a como se esperasse uma ordem ou algo parecido.
“Dra. Fabray?”, escutou-o perguntar.
Será que era tão óbvia quando aparecia? Não! Ela e Quinn eram semelhantes!
“Sim?”, respondeu e o cuidador assentiu, retirando-se com a fala de “eu trarei o remédio”.
Ela assentiu. Levantou-se e caminhou para fora do lugar, a fim de encontrar com a morena de faiscantes olhos azuis. Afinal, se Quinn não queria falar com ela, ela, a mulher de coração de ferro e entranhas de bronze, queria!
“O meu pai foi peão, minha mãe, solidão
Meus irmão prederam-se na vida
Em busca de aventuras
Descansei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi”
— Renato Teixeira em Romaria—
Rachel entrou em casa em mudo abatimento.
Maria a observou em silêncio.
Queria saber o que atormentava, ainda mais, a patroa. E, após uma notícia que viu na TV, ousou indagar:
“¿Está así de triste porque la policía detuvo al hombre que disparó contra el señor Jesse?”.
A cantora mirou a mulher mais velha, enquanto Spencer não compreendia o que acontecia e corria para o próprio quarto, para encontrar – como toda criança em sua inocência e criada com hábitos – o pai a fim de brincarem de carrinhos.
Rachel esqueceu-se que Wilhelm havia lhe falado sobre a polícia ter em custódia o provável homem que roubou e matou o cantor. Estava tão imersa em Quinn e Alex juntas neste instante, sentindo-se inábil em como lidar com uma situação que não deveria lhe atingir com tanta violência, que esqueceu por completo desse detalhe. Foi involucrada pela loira em um casamento onde apenas ela, Rachel, amava. E, quase acreditava, estava sendo vítima de uma vingança fria e bem construída pela ex head cheerio. E, por mais insano que fosse, não queria sair. Queria ficar. Na verdade, queria voltar ao apartamento de Quinn e cuspir para Alex que estava casada, no papel, sob a testificação de um juiz e de duas testemunhas, com a mulher que ela – no momento – tinha perto e Rachel não.
Saiu de sua prostração quando o filho retornou à sala e a fitou, com os olhos claros como os do pai e perguntou onde o homem estava.
A cantora sentiu o ar ficar preso na caixa torácica. Spencer era tão pequenino! Jesse era tão jovem para morrer! Os dois, pai e filho, tinham tanto para viver juntos. Tanto para aprender um com o outro.
Mas isso não aconteceria.
Nunca.
Rachel agachou e abriu os braços para o menino que se embrenhou na mãe e ela murmurou para ele, com calma sincera, mesmo que o filho ainda fosse muito jovem para entender um tema tão subjetivo como a morte:
“Mamãe lhe disse. Papai partiu… Ele dorme agora e não vai mais acordar”, tomou uma respiração, “ele não foi embora porque quis. Ele ama você, mas não podemos – nem eu, você ou Maria – estarmos mais com ele”.
O pequeno assentiu, como era comum em uma criança que tinha suas dúvidas respondidas até sua satisfação. Nem mais, nem menos. Apenas a verdade necessária. E, então, perguntou se a mãe brincaria com ele.
Rachel sorriu. Seu filho era capaz de lhe apaziguar o coração cheio de incertezas sobre as atitudes de Quinn, porque das suas ela estava livre: amava Quinn. Queria Quinn. E ponto.
Tomou o filho nos braços e caminhou com ele para o sofá, onde sentou ao lado dele e deixou que conduzisse a brincadeira, enquanto respondia para Maria:
“Isso também”, e mirou-a com olhos atribulados.
E, num entendimento que ultrapassava a relação de patroa e empregada, porque Maria era para Rachel o que Shelby nunca foi, a mulher mais velha atestou:
“La señorita no está muy bien”, referiu-se a Quinn.
“Não, ela não está”, confirmou as palavras da outra.
Maria se aproximou dela e afagou-lhe os cabelos, antes de dizer, com sua tranquilidade de quem conhecia os caminhos da vida:
“Pero ella se quedará”.
A judia mirou-a e, com um soluço dorido, engoliu as lágrimas que queriam escapar e ajudá-la a se desafogar.
“É o que eu mais desejo, Maria”, confessou, reprimindo a dor para não quebrar diante do filho, “mas a cada dia, a cada pequeno instante, parece mais e mais improvável que ela…”, calou as palavras “possa me perdoar” e suspirou, cansada.
A mulher mais velha mirou-a com profundo afeto e falou, com a simplicidade de um humilde observador dos fatos por muito e muito tempo.
“A señorita não sabe da vida que viveu ao seu lado. Ela não se lembra. Ela não consegue mais olhar para a señora da mesma maneira que fazia antes. Pero, ela deixou que a señora chegasse perto. E ela veio até aqui”, os olhos encontraram os de Rachel, que a mirava com atenção completa. Prosseguiu:
“La señorita Quinn, dentro dela, muito dentro, en lo más profundo de su ser, sabe que a vida dela com a señora não foi só a dor que as separou. Ela sente, mesmo sem saber, que vocês foram muito unidas. Quase a sombra uma da outra. Que vocês caminhavam de mãos dadas pela rua, com roupas que combinavam porque era romântico e vocês se encontravam uma na outra, como alguém que olha num espelho e vê o seu reflexo, o seu outro ser. A sua alma. Ela não se recorda mais, porém quando está perto de usted, señora, ela sabe que adorava escutá-la cantar acompanhando-a ao piano, e que suas vozes contrastantes, a sua forte e poderosa, a dela suave e doce, eram perfeitas juntas. Ela sabe que aqueles dias foram os mais felizes da vida dela. E eram dias tão encantados, que ela sofreu quando os perdeu. Agora, ela só está assustada demais, porque aqueles dias bonitos podem voltar. E, eventualmente, ela teme que possam acabar outra vez e machucá-la de novo. La señorita Quinn só precisará confiar que esses dias, se ela deixar que voltem, não mais se acabarão. Que não há necessidade de se proteger, de se esconder”.
Rachel assentiu. Maria poderia estar certa. Mas, “poderia”, o verbo poder, no sentido de ser capaz de alcançar ou conseguir alguma coisa, foi usado no futuro do pretérito, um tempo que indica um fato dependente de uma condição. E essa condição era justamente Quinn se deixar aproximar. Confiar outra vez. Seria um embate e tanto! Lutar com Quinn Fabray para fazê-la aceitar o oposto ao que ela acha que é o correto nunca foi uma tarefa fácil. Sempre precisava haver um motivo muito forte para fazê-la retroceder. E, neste caso em particular, ela, Rachel, duvidava que uma esquecida Quinn desse um passo atrás por sua causa, por seu amor. Quinn não errava duas vezes. Ela só engravidou uma vez por descuido. Ela só foi colocada para fora de casa uma vez. Ela só foi expulsa das cheerios uma vez. E ela só se entregou para Rachel uma vez.
Claro, no colégio, Quinn não atormentou a cantora apenas uma vez. Ela parecia perder um bom tempo de sua vida pensando em que tipo de cilada arrumaria para Rachel. Ela gastava energia para atormentar Rachel. Ela sempre tinha um comentário cínico ou de descaso para Rachel. E ela se deu ao trabalho de se sentir ameaçada por Rachel quando ela se aproximou de Finn. Ela até entrou para o Glee Club! Obviamente, usou como desculpa uma missão de destruição do Clube do Coral engendrada por Sue Sylvester. Mas, uau! Quanto esforço a Quinn fez por Rachel! E depois, confessou-se apaixonada. Ela teve um jeito retorcido de chamar a atenção da judia, mas funcionou.
“Maria, eu quero muito acreditar que a Quinn poderia me dar outra oportunidade”, a cantora suspirou, “que ela está só me maltratando porque, de verdade, ela me ama, mas não sabe demonstrar. Ela faz tudo ao contrário e há de se ter um estoicismo enorme para não abrir mão dela. Acredite, eu sei disso”, sorriu pequeno, “mas, dessa vez, ela não parece querer chamar a minha atenção. Ela parece estar se vingando. Cobrando cada dia feliz que eu tirei dela”.
“Se ela não se importasse, por que se daria ao trabalho de se vingar? E a que tipo de vingança está se referindo?”, a mulher franziu o cenho, confusa, porque não sabia que a patroa falava sobre o casamento. Um fato que revelou somente para Santana. Maria apenas pensava que Quinn sofria as dores de cabeça e era distante porque não confiava em Rachel. O que, de fato, não era uma mentira em absoluto.
A cantora respirou fundo e soltou o ar audivelmente, buscando alívio, antes de falar, despistando Maria, porém sem retirar a razão da conversa:
“Quinn me dá esperança quando aparece aqui em casa. Quando me recebe para uma visita. Mas, logo depois, ela recolhe essa esperança. Há vezes em que acredito, realmente, que a minha atenção para ela poderá ser significante, que ela verá que eu não estou mentindo sobre o que sinto por ela. Que eu ainda a amo. Que eu a quero e nunca deixei de querer…”, suspirou, “eu só queria uma oportunidade. Uma pequena chance…”.
“Señora, mira: eu não acho que ela esteja se vingando. Talvez ela se sinta acuada. E as pessoas acuadas muitas vezes atacam”, ponderou.
Rachel, no momento, não sabia em que pensar. Até porque, na atual circunstância, a pessoa acuada era ela e não a loira! Meneou a cabeça em outro suspiro. Não queria pensar. Estava cansada. E ainda precisava ir para o teatro.
“Señora”, Maria ainda falou, ao perceber que a cantora se preparava para levar o filho para o quarto junto com ela, “ficará tudo bem”.
Rachel sorriu, sem humor:
“Maria, há uma parte da Quinn que é muito cruel. Uma parte obscura. A mesma parte que a fez tentar se matar. E eu, de verdade, tenho medo de despertá-la”, informou, referindo-se à Srta. M. Porque, mesmo que a mulher mais velha ignorasse essa faceta da loira, Maria soube que Quinn nem sempre foi a pessoa adorável que ela conheceu.
“Señora, não importa quantas partes a señorita Quinn tenha. Concentre-se na que ela se tornou após o acidente. É esta que precisa confiar em você e, assim, apaziguar a fera que leva dentro”, a mulher concluiu e, sem mais, retirou-se, deixando uma Rachel Berry surpresa e pensativa. Nunca imaginou que Maria conseguisse ver tão dentro de Quinn e dela mesma, Rachel.
Se a judia dissesse que estava confortável com o que estava a acontecer com ela e Quinn, mentiria. Não estava. Estava amedrontada, insegura, sem um direcionamento. Tudo era repentino e quase um susto. E sustos nunca eram agradáveis.
Mirou o filho e o tomou nos braços e, quando ele a beijou na bochecha, sorriu. Spencer era o alívio para o seu coração.
Spencer era a sua vida.
A razão de sua existência.
§§
Alex piscou quando a luz foi acesa e viu a namorada parada encostada ao batente da porta, braços cruzados sob os seios, mirando-a de maneira atenta, como se a estudasse.
“O que foi? Resolveu conversar?”, perguntou a jornalista, com um sorriso vencedor nos lábios.
A loira continuou observando-a e a malícia crua cruzou os olhos dela e Alex percebeu.
“Vestiu a armadura!”, concluiu em tom de zombaria, “e agora se sente pronta para conversa?”, perguntou, sentando-se na cama e não desviando os olhos da que, pensava, era a sua namorada. Bom, de alguma forma era. Não. Não era…
“Alex Bishop!”, cantarolou o nome da morena de olhos azuis como se desejasse saber se a sonoridade lhe agradava ao ouvido. Suspirou com enfado palpável e caminhou devagar até a cama, direcionando-se para onde a jornalista estava e sentando bem ao lado dela. Aproximou a face e a jornalista não afastou a sua, enquanto sentia os olhos verdes escrutinarem seu rosto como se fosse a primeira vez que a via realmente.
“Quinn, o que foi?”. A jornalista ficou surpresa. A namorada, agora, não lhe parecia tão abatida.
“Alex Bishop, o que foi?”, repetiu a pergunta, com os olhos verdes cravados nos azuis.
A jornalista afagou-lhe os cabelos e a face, antes de murmurar:
“Você é linda!”,e aproximar a boca para beijar Quinn.
Entrementes, não estava nos planos da Srta. M, que Alexandra não sabia quem era, ser beijada ou beijar. Na verdade, contatos físicos não eram o seu forte. Exceto se fosse para se defender ou ameaçar, por isso, afastou-se e se colocou mais distante da morena de olhos azuis – agora confusos pela reação loira –, embora não se levantasse da cama.
“Eu lhe fiz uma pergunta, não pedi um elogio”, observou, seca.
A editora de modas assentiu e, limpando a garganta, porque o fato da namorada lhe escapulir a deixava mais desejosa dela, indagou:
“Por que ainda está curiosa sobre Rachel Berry?”.
A Srta. M gargalhou. Era realmente engraçado essa mulher, jornalista, aparentemente inteligente, pensar que estivesse interessada em Rachel Berry! Oh! Mas ela não sabia que ela, Srta. M, apesar de ser como Quinn, não era a Quinn. Então, era perdoável este deslize da parte dela. Achou que seria interessante causar uma impressão positiva para a mulher que tinha olhos azuis, azuis:
“Eu não estou curiosa sobre a manhands”.
A morena franziu o cenho. Manhands?
“Quinn!”, pensou que a loira estava jogando.
“Este era um dos apelidos que eu e a Sant… Na verdade, eu coloquei na Rachel quando estudávamos. Eu lhe contei o quanto ela era irritante, sempre querendo todos os solos daquele clubinho de perdedores? Que ela se achava a grande estrela do McKinley?”.
“Por que a chamou de manhands?”, realmente o desprezo na voz da namorada era distinto. Era quase como uma raiva que escorria e poderia ser tomada nas mãos. E como ela sabia que apelidou a cantora? Como sabia que Rachel queria todos os solos do clube do coral e outros detalhes? Por acaso, Rachel havia contado esse apelido para Quinn?
“Quem lhe falou do apelido? Foi a Rachel?”.
A loira negou, balançando a cabeça para lá e para cá por duas vezes.
“Você lembrou? Eu não me recordo de a investigação do Ewing trazer este pormenor”, observou.
A Srta. M gostou da perspicácia da jornalista.
“Sempre atenta, Srta. Bishop?”, questionou, como se fosse um cientista estudando um espécime raro.
Pela primeira vez em que estavam juntas, a jornalista se sentiu incomodada com a maneira como a namorada a olhava. Os olhos verdes possuíam uma espécie de divertimento e crueza que assustavam. Quinn era fria. Cruel vez ou outra, mas este olhar…
“Sempre, Quinn”, confirmou, sem deixar a incomodidade ficar explícita.
“Eu não tenho interesse afetivo pela Berry, se for isso que a inquieta”, informou.
Alex não se pronunciou.
A loira, ao contrário, fechou o raciocínio, sem sentimentalismos:
“E nem por você”.
Alex Bishop perdeu a cor, sob o escrutínio de uma fria mirada verde numa face que parecia uma máscara sem emoção.
Sentiu o estômago revirar e vontade de vomitar.
Ergueu-se da cama e, sem pudores, despiu-se do roupão e começou a se vestir às pressas, enquanto cuspia as palavras:
“Até a minha paciência tem limites para a sua crueldade, Quinn! Se quiser falar comigo, sabe onde me encontrar”.
“Acho que não…”, murmurou, fazendo-se – ainda assim – escutar pela mulher de olhos azuis que voltou a parar em frente a ela e, orgulhosa, atirou:
“Eu nunca traí você, porque eu sempre soube do seu problema com confiança. Eu sempre lhe dei espaço, pois percebi que você tem limitações quanto a uma pessoa constantemente ao seu lado, exigente. Eu sempre fui paciente, Quinn. O mínimo que você deveria me dar era respeito”.
“E eu lhe digo o mesmo!”, ergueu-se e parou em frente a morena, encarando-a, “porque, se de fato me respeitasse, não duvidaria da minha palavra quanto a Rachel Berry. Mas você se preocupa demais com ela. O que quer, Srta. Bishop? Quer ser a Sra. Fabray?”, propôs, muito maliciosa, “que tal? Isso lhe deixaria mais tranquila? Um casamento viria a calhar! O que me diz? Pense na cara da Berry quando souber que a Quinn Fabray nunca mais poderá ser dela porque se casou com você! Diga-me, Alex! Você se casaria com Quinn Fabray?”.
A jornalista soube que a mulher a sua frente não estava blefando.
“E por que eu me casaria com alguém que diz não sentir afeto por mim?”, indagou, altiva.
“Pela mesma razão que a fez continuar com esta mulher durante esses últimos anos: esperança!”, atirou.
Alex Bishop ficou atordoada. Não se imaginou tão transparente para a mulher a sua frente.
“Isso… É loucura, Quinn”, exclamou, sem saber o que mais falar.
“Pode ser loucura. Mas é uma proposta de loucura muito séria”, observou, atenta à mulher que parecia meio aturdida.
A jornalista riu com uma incredulidade que encheu a suíte, de tão grande e indiscutível. Falou, enquanto colocava os sapatos:
“Você não vai criar uma nuvem de fumaça para ocultar a Berry com essa história sem propósito de casamento”.
A loira sorriu, divertida.
“Eu não estou criando uma nuvem de fumaça, Alex Bishop. Estou lhe pedindo em casamento”.
A jornalista estancou e franziu o cenho. O que Quinn estava fazendo?
“Quinn, você não me ama. Por que eu me casaria com você? E não me fale em esperança”, avisou.
A mulher de coração de ferro e entranhas de bronze retorquiu:
“Por que você não acredita quando eu lhe digo que não me importo com Rachel Berry? Por que se apega a esta mulher para não aceitar um pedido lógico de casamento? Afinal, há quanto tempo estamos juntas? Dois anos?”, jogou, satírica.
“Três e meio, Quinn! Nem isso você é capaz de saber”, quase enfureceu.
“Certo, foi horrível da minha parte não me centrar em datas e questões temporais”, a loira estava achando a situação interessante. A maneira como Alex erguia as sobrancelhas de maneira irritada era charmosa. “Entretanto, querida namorada, estou realmente propondo que juntemos nossas calcinhas e sutiãs. E as meias, claro, oficialmente. Posso organizar tudo num abrir e fechar de olhos”, sorriu lindamente, embora um raio de zombaria lhe tenha cruzado o olhar frio.
A editora estava estupefata! Quinn estava falando sério? Não estava! Estava brincando, debochando, sendo o que sabia ser melhor: cruel!
“Isso é… É insano, Quinn”, insistiu.
A loira suspirou e tentou esclarecer as coisas:
“Alex, você precisa decidir se o meu pedido de casamento é uma nuvem de fumaça para encobrir a manhands ou uma insanidade. As duas coisas é complicar demais o que é – de fato – muito simples. Basta uma escolha: sim ou não. Vê? Não é tão difícil”.
A morena não conseguia conceber a ideia! Era sem medida! Sempre quis Quinn! Mas amando-a como a amava! Não dessa maneira: inusitada, fria, crua e sem emoção. Partindo de um princípio, aparentemente lógico, embora cheio de ardil, e em nada afetivo para basear uma união estável.
Negou com a cabeça várias vezes, achando que estava mergulhando na insanidade que sempre assombrou Quinn.
E, realmente estava.
Mas não sabia.
“Quinn, as coisas não acontecem assim”, tentou racionalizar, com uma calma que espantava a si mesma.
“Claro que acontecem, Alex”, a loira tinha outro ponto de vista, “você pode vir morar aqui. Ou poderemos escolher um outro lugar. Eu deixo você cuidar de tudo. Se quiser uma festa, faremos uma festa! Se quiser que o seu pai lhe entregue para mim num altar…”.
“Ele nunca faria uma coisa assim, Quinn. Ele não tem simpatia por você”, a morena espetou.
“Então, retiramos o seu pai de cena. Também poderemos retirar o meu. E a minha mãe também. Será perfeito”, sorriu.
Três batidas na porta do quarto, que estava aberta e os olhares das duas mulheres pararam sobre Holmes, que trazia uma bandeja com uma injeção preparada. Ele estranhou a jornalista se arrumando para ir embora e, também, Quinn ali. E, diante da expressão confusa do cuidador, Alex soltou a língua:
“Acredita que a sua patroa acabou de me propôr casamento?”.
O gigante de ébano ficou tão atordoado que a bandeja, com injeção e tudo, foi ao chão.
“Perdão?”, o homem achou que não escutou direito. Quinn não pediu Alex em casamento! Ela não poderia…
A loira conteve o riso ao perceber a reação do homem.
Alex achou a reação do cuidador consonante com o que pensava: era inacreditável e de confundir qualquer cabeça sã.
O homem cuidou de, ainda zonzo, agachar e começar a arrumar a bagunça que o choque causado pelas palavras de Alex lhe causaram. Como Quinn poderia pedir Alex em casamento se estava comprometida com a Rachel? O que ela pretendia?
A Srta. M percebeu a completa confusão estampada na face do cuidador. E achou engraçado. Com quem ele se importava? Com a Quinn ou com a Rachel?
“Qual a sua preocupação, criatura? Com a Rachel ou com a Quinn”, indagou para ele.
O cuidador a mirou com mais acuidade. Ela o chamou de criatura? Ela nunca fazia isso. E se dirigiu a si mesma pelo próprio nome…
“Eu só fiquei como a Srta. Bishop: com a razão um pouco desordenada”, justificou-se, procurando, de alguma maneira, certificar-se de que estava lidando com a Quinn e não com nenhuma de suas outras personalidades.
A loira voltou a fitar Alex, que terminava de se calçar. Quando a jornalista estava pronta para se retirar e Holmes já de pé, com a bandeja nas mãos e a bagunça arrumada, a Srta. M falou, numa tranquilidade jocosa:
“Bom… Na verdade, nós não poderíamos nos casar, Alex”.
A jornalista a fitou. Por que a namorada estava mudando o discurso?
Na realidade, a Srta. M não estava mudando o discurso. Ela só estava interessada em esclarecer as coisas. E o fez:
“Porque eu já me casei com Rachel Berry”.
A bandeja caiu outra vez das mãos de Holmes.
Alex olhou da namorada para o estupefato cuidador e dele para a namorada que tinha uma cara cínica por demais.
“Casou com a Berry!”, exclamou, atônita.
“Casei”, confirmou, com um sorriso sagaz a dançar nos lábios.
Alex lançou um olhar questionador para Holmes.
Ele estava estático. Então, ao mirar outra vez a patroa, percebeu. Era sutil por demais! Entretanto, ali estava. A outra personalidade de Quinn. A que não era de gentilezas. Mas era de crueldades.
E Alex não se deu conta.
E ele quase deixa, também, de perceber.
Ela era fria demais. Implacável e parecia não se importar com o resultado de suas atitudes. Ela apenas fazia. E que os demais se protegessem dos efeitos colaterais.
“Me disseram, porém, que eu viesse aqui
Pra pedir em romaria a prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar”.
— Renato Teixeira em Romaria—
CONTINUA ;)
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