Sine Cordi

80 CAPÍTulo 80 - פ


O que é que eu vou fazer pra te esquecer?

Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim

Cada sonho teu me abraça ao acordar

Como um anjo lindo

Mais leve que o ar

Tão doce de olhar

Que nenhum adeus pode apagar…”.

— Caetano Veloso em Pra Te lembrar

Alex riu. Na verdade, ela estourou em uma gargalhada. Quinn casada com Rachel Berry! A piada do ano!

Aproximou-se da loira que a mirava com satisfação (pois divertia-se da incredulidade da jornalista) e falou:

“Sei… Você se casou com a Berry e o coelho da páscoa se chama Tambor e participou do filme Bambi”, riu outra vez.

A Srta. M mordeu o lábio inferior enquanto mirava o sorriso moreno de completo deboche.

“Uau, namorada! Você é quente”, murmurou, cheia de admiração pelo comportamento da jornalista. Quase tão fria e prática quanto ela. Alex só tinha um problema: era uma mulher sem fé. Se fosse um pouquinho crédula, confiaria que, de verdade, Rachel e Quinn estavam casadas. E então, a bomba toda estouraria e a judia estaria em maus lençóis. Afinal, a intenção era essa: colocar a Berry em seu devido lugar, causar tormento para ela, espezinhá-la até ela desistir e sumir. Uma incoerência completa!

“Por que eu mentiria sobre isso, baby?”, a Srta. M perguntou, imitando a maneira que Alex tinha de chamar Quinn quando queria manter a situação sob controle.

A jornalista a encarou e respondeu, sem meias palavras:

“Porque você é covarde o suficiente para não assumir que se caga de medo de assumir um compromisso por causa de um engano que ficou num passado que sequer você se lembra e, assim, não consegue superar. Daí você se esconde, Quinn. Porque, eu estou começando a pensar, você nunca se recuperou, de fato, de Rachel Berry. Sua incapacidade de amar deve estar, provavelmente, no fato de que só conseguiu amar a ela e a ninguém mais. E, diante da traição, preferiu se esconder atrás dessa sua amnésia infeliz, que lhe causa essas dores que lhe deixam atordoada. Dor de nunca ter a Rachel. Porque tudo isso a levou a se distanciar de seus melhores amigos para se manter protegida. Porque você prefere a dor de cabeça e o infeliz isolamento a tentar confiar seu amor para outra pessoa. Prefere a maldita dor a se arriscar a se entregar a uma relação e saber se, de fato, haverá amor verdadeiro e lealdade. Você nem quer tentar. Você não me ama, não ama a pessoa alguma. E sabe por que, Quinn? Porque ainda está amarrada ao amor que sentiu pela Rachel. Por isso eu não acredito em você. Nem em seu pedido de casamento e, tampouco, em um enlace com a pessoa que lhe fez tão covarde”.

A Srta. M estancou de chofre. O que aquela mulher estava dizendo? Medo? Covardia? Quem ela pensava que era?

“Talvez se eu lhe mostrar a certidão de casamento, você acredite”, sugeriu, cheia de mordacidade.

Holmes sentiu o sangue lhe escorrer da cara.

“Doutora Fabray…”, ele murmurou, assustado com o que aquela personalidade estava fazendo. Ela estava criando o caos!

Alexandra Bishop ergueu a mão e afagou a face pálida daquela que, pensou, era a sua fria Quinn e, após, deixou cair o braço e retorquiu:

“Quinnie, baby, eu sei o quanto você é inteligente. E sei que seria capaz de fomentar qualquer situação para que as coisas caminhem segundo sua vontade. Mas isso não muda o fato de que o seu medo está aí, em você, escondido sob essa capa de indiferença. Se não me quer em sua vida, apenas me avise para que eu saia dela com dignidade. Não faça joguinhos comigo. Não me peça em casamento de forma tão infeliz e descabida. Não enquanto a covardia em você prevalecer. Não enquanto você não for capaz de se entregar. Resolva-se! E não espere que eu compactue com seus medos e inseguranças. Eu sei quem você é. Por que acha que estamos juntas há tanto tempo? Porque eu e você somos muito similares. Com uma diferença: eu nunca deixaria alguém me magoar como a Rachel fez com você. Eu não tentaria morrer por causa de pessoa alguma! Eu amo mais a mim, Quinn. E por me amar mais é que eu, depois dessa sua linda encenação, vou me retirar. Lembre-se apenas: você não poderá se esconder para sempre. Uma hora, você transbordará. E eu lamento, porque pode ser que você esteja, realmente, sozinha. Porque a sua covardia a impede de confiar e se confiar a alguém. Mesmo que esse alguém seja a Berry”.

Alex Bishop depositou um singelo beijo nos lábios da loira, sorriu com melancolia e murmurou, antes de começar a sair com todo o seu orgulho no devido lugar:

“Eu realmente amaria você, Quinn”, e se pôs a caminhar em direção à porta do quarto.

“Eu pensei que amava”, a loira contestou em voz alta.

A jornalista estancou nos passos, sem se voltar, ao responder:

“Eu também”, sorriu sem graça, “mas, para variar, você, de uma hora para outra, resolveu se envolver pela sua fixação. Enquanto não superar o que aconteceu, Quinn, você não estará apta para pessoa alguma”.

A loira riu e meneou a cabeça e caminhou até perto das costas da jornalista e lhe murmurou no ouvido, arrepiando-a:

“Não acha que demorou muito para se dar conta de que não me ama? Sabe, você tem razão, ex-namorada”, a voz soou gélida e desprovida de emoção, “eu não estou apta para você. Porque, de fato, sob o seu nariz de boa jornalista e todo o seu orgulho e amor-próprio, Quinn Fabray, ao contrário do que você pensa, tem um documento que a prende à Rachel Berry de maneira muito segura. Então, no seu lugar, eu repensaria meu julgamento sobre a covardia de Quinn”.

Alex se virou e a fitou com os olhos azuis muito atentos. Estudou a face da advogada. Ela não estava blefando? Ela não estava brincando?

A sobrancelha direita da loira foi erguida e um sorriso de satisfação, de quem conseguiu quebrar o orgulho alheio, dançou nos lábios rosados daquela mulher que a editora tanto desejava.

“Você não fez isso…”, murmurou.

“Não”, sorriu aberto, “eu não fiz. Mas a Quinn fez”, informou.

A morena de olhos de oceano ficou desconcertada. Por que Quinn se referia a ela mesma pelo nome e não pelo pronome “eu”? E porque se escusava da responsabilidade de ser ela a pessoa casada com a cantora, se isso realmente era verdade? Meneou a cabeça em incredulidade e indagou:

“Por que diz que a Quinn se casou, se você é a Quinn? Por que não fez o que eu lhe pedi e se afastou de Rachel? A presença dessa mulher não é boa para você, Quinnie! Fique longe dela! E, quem sabe, poderemos voltar a conversar. Enquanto isso, procure não enlouquecer ainda mais. Você está, definitivamente, estranha”.

A loira riu. Alex era, de fato, tola! Estava a lhe falar a verdade e ela ainda duvidava! Não era tão perceptiva ou inteligente, apesar de muito bonita. Se pudesse escolher, ficaria com ela. Mas, precisava cuidar da Berry…

“Para uma jornalista, você deixa a desejar quanto a sua curiosidade. Deveria se perguntar: o que levou a minha namorada a se casar com a mulher que lhe causou tanto dissabor? Um plano de vingança? Uma paixão sublimada? Mas…”, estudou a morena com atenção redobrada, olhos nos olhos, “não! Você somente deduz, sobre fatos e conhecimentos que pensa ter sobre a mulher que deseja profundamente que lhe ame, que sabe toda a verdade sobre ela e o que leva dentro. Sabe, Srta. Bishop? Você deveria passar mais tempo com a Quinn. Assim, não ficaria tão altiva sobre as suas certezas fincadas sobre terreno movediço”, espetou com indisfarçável deleite.

Alex não respondeu.

Ela suspirou, mirou o cuidador, estático e pálido e pediu:

“Cuide dela, Holmes. Ela precisará de alguém”.

A loira riu e soltou, com veneno:

“Tão cheia de atenção. Estou emocionada”.

“Cure-se, Quinn. Depois, poderemos conversar”, avisou, seca.

“Talvez não haja um depois”, a loira retorquiu, “porque se sair por aquela porta, eu não verei muita distinção entre você e a Berry”.

Alex riu e pensou que Quinn estava tomando um caminho estranho e errado.

“Não me compare a sua ex-namorada”, avisou, sem gentileza, “eu sou bem diferente dela! Eu não magoei você e nem lhe traí. Eu posso ficar algum tempo sem aparecer aqui, sem vir lhe ver ou ficar com você, mas nunca fui para a cama com outra mulher ou homem. Não enquanto estamos juntas. O problema aqui, Quinn, não sou eu. O problema é você! O problema está em você e nessa maldita relação que mantém com a Berry. Uma doença! O que quer dela? Vingança? Só isso? Ou está usando a ideia de ‘infernizá-la’ como desculpa para tê-la ao redor? Pense sobre isso. E não diga que serei como ela. A única coisa que temos em comum, a Berry e eu, é você. Porque eu só fui amiga do Jesse St. James. Eu nunca me deitei com ele e nem me deleitei nele”, a jornalista respondeu. Ela não se deixaria provocar pela loira e se calaria. E menos agora, quando estava aborrecida com ela e com a indiferença exorbitante que demonstrava. E Quinn sabia.

Alexandra Bishop fez o que achou correto: apenas seguiu seu caminho.

E não olhou para trás.

“Por que fez isso?”, Holmes conseguiu perguntar, perdido – ainda – diante da frialdade e da aparente intenção de causar desarmonia da tão malfadada Srta. M.

Quinn o mirou aturdida.

Onde estava Alex?

O homem se aproximou dela, cuidadoso, com a expressão ainda apavorada e repetiu a pergunta:

“Por que fez isso?”.

A advogada o fitou. Do que ele estava falando? O que fez? E por que estava no quarto e não no escritório?

“Contou para a Srta. Bishop que se casou com a Srta. Berry”, ele esclareceu, ao perceber a confusão nos olhos esverdeados.

A loira inclinou a cabeça e o encarou. Do que Holmes estava falando?

“Eu não contei”, ela contestou, enquanto ainda tentava concatenar as ideias e saber se estava acordada ou dormindo.

O homem, ainda chocado, demorou um pouco para se dar conta de que a Srta. M, ou fosse lá a ridícula alcunha que aquela persona se dava, havia se retirado. Era com a Quinn que ele falava no instante, e ela – definitivamente – não entendia sobre o que o homem lhe falava. Ele, então, fez o que lhe era devido e narrou, ainda um pouco atormentado, tudo o que aconteceu entre a outra personalidade da advogada e Alex, a quem chamou de ex-namorada.

Quinn procurou a cama e sentou na beirada, ainda tentando digerir o que acabou de tomar ciência por meio do cuidador.

“A tal Srta. M magoou a Srta. Alex”, ele acrescentou, à meia voz aturdida.

A loira segurou a cabeça entre as mãos. Por que isso estava acontecendo? Precisava voltar a ficar bem… Retomar as rédeas de sua vida.

Eu só fiz o que precisava fazer. E a sua namoradinha jornalista não pareceu muito sentida com o fato de saber que foi preterida pela manhands. Ela é outra que não se importa”, escutou a indiferente voz daquela que estava disposta a lhe causar problemas realmente sérios.

“Por que acha que ela não se importa?”, indagou, murmurante, para a voz insubmissa que a estocava sem piedade alguma.

Holmes mirou a patroa. O que ela falou?

“Perdão, doutora, mas eu não entendi o que disse”, ele chamou a atenção dela.

A advogada meneou a cabeça e calou. Já estava passando da sua conta de anormalidade. Se ainda revelasse para o cuidador que escutava vozes, certamente seria colocada em um manicômio com direito a camisa de força. Mas não poderia ocultar isso mais, se realmente quisesse ficar bem outra vez. Contaria para Eleanor! Precisava falar ou se perderia mais.

“Quinn?”, ele insistiu.

Ela disse que só pensou alto, ainda perturbada pelo rumo dos acontecimentos. E mais: surpresa pelo fato de Alex se retirar.

Nós não precisamos dela. É apenas mais uma mulherzinha egoísta que só pensa em si mesma. Ela não se importa de verdade. Ela não sabe coisa alguma. Ela não é capaz de entender”, a Srta. M tornou a soar para Quinn, que desejava deixar de ouvi-la. Entretanto, ela continuou:

Ela chamou você de covarde! Como se ela fosse capaz de entender o que eu senti quando vi o que a manhands fez. Você se deu para ela! E o que aquela mulher fez? Ela quebrou o seu coração, Quinn. E a Bishop faria o mesmo! Eu só estou cuidando de nós duas. Cuidando de você”.

“Não. Você não está”, murmurou a loira em desacordo e tão atordoada com o que escutou, que lágrimas que não desejava irromperam por seus olhos, assustando o cuidador.

“Dra. Fabray”, Holmes exclamou, surpreso pelo que via. “Por favor, deixe-me ajudá-la”, pediu.

“Você não pode”, ela respondeu, mirando-o com tormento. “Eu só preciso acabar com isso…”, atestou, cansada.

“Não! O que precisa é continuar indo até a Dra. Parker e se permitir confiar outra vez”, Holmes retorquiu, chocado com as lágrimas que escorriam pelos olhos verdes perdidos e inseguros de sua patroa. Ele nunca a viu chorar assim! Os olhos estavam mais claros, a face bonita torcida pela dor, os lábios curvados para baixo, o nariz bem-feito vermelho, as maçãs do rosto encharcadas de água de sal. “A Srta. Bishop voltará atrás”, ele acrescentou, pensando que – talvez – Quinn sentisse algum afeto pela jornalista.

A advogada negou com um balançar de cabeça. Não precisava que Alex voltasse! Precisava calar as vozes e ser senhora de si outra vez. Mas não verbalizou isso dessa maneira.

“Alex não tem que ficar se eu não desejo que ela fique ou se ela não quer ficar. Ela fez certo em se retirar… Eu não sei para onde estou indo, Holmes”, soluçou as palavras, “e não tenho o direito de arrastar outra pessoa comigo… Eu já estou levando a Rachel…”, sentenciou, cheia de angústia incontida.

“Eu tenho certeza que a Dra. Parker conseguirá ajudá-la”, Holmes atestou, confiante, ao passo em que sentia um estranho sentimento de insegurança em relação a patroa. Uma insegurança que o inspirava a se manter mais atento. Quinn estava afundando em seu próprio sentimento de desproteção e não se dava conta. Em sua insegurança mascarada de frialdade, como Alex observou na discussão de há pouco. Ele só lamentava que a pessoa a escutar as palavras da jornalista não tenha sido Quinn. Que tenha sido a fria personalidade que surgia para encobrir o que, talvez (ele tentava entender), ela tivesse medo de deixar vir à tona: uma Quinn mais humana, mais acessível e apta a sentir, pelo menos, uma pequena fagulha de afeto. Uma Quinn que poderia ser tocada e, assim, ficar vulnerável aos reflexos das sensações que alguém mais aberto à vida e às pessoas poderia sentir.

“Srta. Fabray, permita-se um pouco mais”, ele ousou dizer, preocupado com as lágrimas que ela, sua fria patroa, derramava sem conseguir conter mais e sem forças e controle.

“Não tem que se esconder ou se isolar o tempo todo. Talvez a Srta. Bishop tenha razão: ceda um pouco. O embate está lhe fragilizando. Está fazendo vir à tona uma parte sua que não é bonita e, como disse a Srta. Berry, assusta”.

A advogada realmente queria ser capaz de fazer o que ele lhe dizia. Mas não conseguia! Não enquanto houvesse duas personas descontroladas e aparentemente opostas que travavam debates aos sussurros dentro de sua cabeça.

“Eu só preciso de um pouco de paz”, ela murmurou, enquanto voltava a encaixar a cabeça entre as mãos.

“Dra. Fabray…”, Holmes desejou, sinceramente, ser capaz de aliviar a alma de Quinn, sem drogas ou soluções paliativas e sem efeito definitivo. Quinn, a mulher fria que ele cuidava estava rompendo diante dos olhos dele e não sabia como ajudá-la.

“Faça-me esquecer… Eu não quero ouvir, não quero sentir porque dói”, ela chorou.

O cuidador se aproximou dela, devagar e, atencioso, fez, então, a única coisa que poderia no instante: injetou-lhe a droga que a relaxaria e a faria dormir e, desejava, descansar um pouco do tanto que estava vivendo, entre martirizar, martirizar-se, golpear e ser golpeada. Porque, parecia ao homem, cada ataque que Quinn orquestrava contra Rachel lhe trazia outro de volta, como se ela estivesse – inconscientemente – atacando a si mesma. E ela precisava parar.

Ou seria parada.

A pergunta que o atarantava era: de que maneira?

Quanto isso custaria no final?

Quantas mágoas poderia trazer?

Quanto de dor mais a sentir?

O que eu vou fazer pra te deixar?

Sempre que apresso o passo, passas por mim

E um silêncio teu me pede pra voltar

Ao te ver seguindo

Mais leve que o ar

Tão doce de olhar

Que nenhum adeus pode apagar”.

— Caetano Veloso em Pra Te lembrar

Rachel mirava-se no espelho do camarim. Sentia-se, por mais estranho que pudesse parecer após tudo o que aconteceu, renovada após a apresentação de The Beauty and The Beast. O Gershwin estava cheio, toda a temporada esgotada! Cantou com sua voz mais apaixonada, entregando-se à energia que o público que a adorava lhe transmitiu. E ela lhes devolveu o favor com cada nota bem colocada, a afinação perfeita em todas as canções, sobressaindo-se nos solos em perfeição e harmonia que, sentia, o Universo lhe presenteou.

Um alívio para seu espírito alquebrado pelos últimos acontecimentos com Quinn, sua esposa.

Ou seu algoz?

Já não sabia.

Mirou as flores com as quais foi presenteada, os bilhetes carinhosos dos fãs e admiradores. Isso lhe trazia conforto, renovava suas forças. Fazia com que sentisse esperança. Esperança de que, em algum ponto desse emaranhado que havia se transformado sua existência, Quinn fosse capaz de perdoá-la de fato. E permiti-la em sua vida verdadeiramente. Sem mais mágoas ou estratégia de vingança.

Três sutis batidas na porta a fizeram sair dos pensares e ver a figura de Kitty Wilde, sua secretária, entrar – tímida – no camarim. A cantora a mirou em pergunta silenciosa.

A moça loira, que vez ou outra lhe fazia lembrar de Quinn mais jovem, falou num tom profissional:

“A Srta. Alex Bishop está lá fora e deseja muito lhe falar”.

A cor da face de Rachel desapareceu. Ela escutou direito? Alex Bishop? A mulher que era namorada de sua esposa queria lhe falar?

Riu.

Riu porque lhe pareceu meio insano. Não era para a jornalista estar ali. Ela a deixou com Quinn!

Kitty estendeu um pedaço de papel dobrado em quatro e verbalizou:

“Ela disse que, após ler o bilhete, desejará falar com ela”.

A judia olhou para o papel bem dobrado entre os dedos da moça loira e temeu tomá-lo. Sentia que, se o pegasse e desdobrasse, dali, daquele pequeno e aparente inofensivo papel, fosse sair um furacão capaz de varrer toda Nova Iorque. Com ela junto. Uma insanidade, sabia, mas ainda assim… Alex Bishop ali, quando deveria estar com a Quinn, lhe causava calafrios.

“Srta. Berry?”, a loirinha a chamou, estranhando o olhar assustado da cantora e a maneira como ela parecia querer evitar tomar o bilhete nas mãos.

A cantora assentiu, atordoada, e pegou o papel. Com cuidado e mãos inseguras, desdobrou-o parte a parte até dar com uma caligrafia reta, bonita e firme. E sentiu a mandíbula afrouxar, os lábios se separarem e o ar faltar em surpresa ao ler:

PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE SUA ESPOSA, SRA. RACHEL FABRAY”.

“Oh! Meu. Deus! O que a Quinn fez?”, murmurou para si mesma. “O que ela está fazendo?”, sentiu o coração ratear dentro do peito e este doer.

“Quer que eu diga que não se sente bem?”, Kitty indagou, ao notar a palidez e o tremor na cantora e mulher que admirava e desejava se parecer.

Os orbes marrons e maiores que o normal saltaram do papel para a face ávida da Srta. Wilde e, quase que mecanicamente, respondeu:

“Não… Eu só vou me vestir”, murmurou, vendo-se em calcinha, camiseta e um roupão de seda por sobre o corpo, “e então você poderá deixá-la entrar”.

“Claro, Srta. Berry”, sorriu a moça, que se retirou sob um pedido de licença.

Rachel apoiou os cotovelos sobre a bancada a frente, onde se quedava o espelho e segurou a cabeça entre as mãos. Quinn contou para Alex que haviam se casado.

“Ela só pode estar querendo me matar de infarto”, pensou, respirando fundo e sentindo-se desprotegida.

Ânsia de vômito a tomou.

Correu para o banheiro e se ajoelhou em frente ao sanitário e expeliu água e o que mais tinha no estômago. Um suor frio escorreu da testa. Sentiu o banheiro girar e, sem foco e força, deixou-se sentar no chão de ladrilhos claros e frios. Encostou-se a parede, enquanto tentava recuperar um pouco de força e claridade mental.

Desde que voltou à vida de Quinn seus dias se tornaram tempestuosos. Um dia diferente do outro. Era como se a loira houvesse construído um grande parque de diversão para ela, Rachel, onde reinava uma incrível cadeia de montanhas-russas, brinquedo único, com as voltas e declives cada vez mais fechados e inclinados. Era um sobe e desce em velocidade aterrorizante, a clara sensação de que a barra de proteção que a manteria presa ao carrinho estava propositalmente danificada. As voltas eram tantas que o cérebro atordoava quando ficava de ponta cabeça e não sabia definir onde estava o chão e o firmamento.

O resultado de tantas voltas e revoltas?

O que ela sentia, mesmo sentada no chão firme do banheiro do seu camarim no teatro: tremor, insegurança e náusea.

“Berry!”.

A voz surpresa de Alex Bishop, adentrando ao lugar a fez se encolher contra a parede, como um animal ferido e indefeso.

“O que aconteceu?”, a jornalista perguntou, enquanto a tomava, colocando um braço de Rachel sobre seus ombros e a outra sustentando-a pela cintura.

A judia, débil, deixou-se ajudar e levar. Ainda estava mareada pelos rebotes dos trilhos da sua montanha-russa particular, manejada pelas mãos hábeis de Quinn Fabray.

Ouviu a voz de Alex pedir um copo com água para Kitty, enquanto ela a sentava no sofá e, pouco depois, ainda em seu atordoamento, aceitou o copo com o líquido incolor e tomou dois goles, ajudada por Alex.

O afundar do sofá ao seu lado a fez piscar algumas vezes e mirar os olhos azuis da jornalista, que a fitava bem de perto com um traço de preocupação.

“Melhor?”, perguntou a jornalista, enquanto os olhos castanhos ainda pareciam meio fora da realidade.

“Rachel?”, Alex a chamou.

A cantora deu um respiro profundo e soltou o ar. Alex não parecia a fim de lhe comer o fígado. Ou agredi-la. Ou qualquer outro tipo de reação que uma mulher enganada teria. Ela era como analisou no apartamento de Quinn: controlada. Organizada. Focada. Objetiva. O par perfeito para Quinn!

Soluçou e lágrimas represadas escaparam pelos olhos.

“Eu não estou aqui para duelar, Rachel”, a voz baixa e tranquila da jornalista soou quase como um alento para a alma da cantora, agora de volta à atribulação. “Estou aqui para entender o que aconteceu, porque a Quinn é dada a agir de maneira pouco convencional, mas hoje ela estava exorbitante”, continuou, a fim de se fazer clara quanto ao objetivo de sua presença ali. “E dentro da exorbitância, ela me contou, por crueldade pura, que se casou com você sob o meu nariz. Eu quero entender, porque não era para você aceitar se casar com ela de um dia para o outro. Não tem lógica”, complementou, calma.

Rachel sentiu inveja da tranquilidade e objetividade daquela mulher, que deveria estar lhe gritando e falando desaforos. Mas não estava. Ela parecia muito apaziguada e preparada para escutar qualquer tipo de história. Boa ou ruim.

Estava em meio a um circo de horrores?

“Você não está brava?”, murmurou a pergunta, atarantada ainda com a jornalista ali, perto dela, fitando-a com olhos curiosos.

“Ah! Então é verdade”, Alex exclamou, como se a realidade só lhe caísse agora. Suspirou e respondeu a pergunta da cantora:

“Eu não sei se adiantaria eu ficar brava. Desapontada com a Quinn seria a melhor palavra para me descrever. E, depois, eu não desejo adoecer ou morrer cedo. Há coisas, pessoas e situações diversas. Eu preciso entender cada uma delas. E eu já tive a minha quota de exasperação com a Quinnie hoje”, informou.

Kitty, muito discreta, estendeu uma caixa de lenços descartáveis para a cantora e se retirou do camarim, deixando as duas mulheres sozinhas.

Rachel assoou o nariz num dos lenços e, com as costas da mão direta, secou as lágrimas, que ainda se derramavam, como se agissem por conta própria, a despeito da vontade da dona dos olhos por onde elas escorriam.

“Eu sei que parece louco…”, começou a falar, “mas eu não conseguia pensar! Ela usou o assassinato do Jesse e montou uma história monstruosa sobre eu ser amante do meu motorista e que, juntos, engendramos um plano e matamos o Jesse. Ela criou pretensas provas e eu estava tão desconcertada que, mesmo rebatendo alguns argumentos dela, entrei num estado de medo e susto que eu mal posso lhe detalhar, porque eu só sei que depois eu estava, sim, assinando a certidão de casamento”, e a cantora continuou a revelar, de um só tiro, tudo o que a advogada fez.

Alex analisou, palavra por palavra, cada descrição dada por Rachel e a maneira nervosa como ela soltava toda a “armadilha” que Quinn arrumou com frieza e detalhes para emboscá-la com sucesso.

Um silêncio sepulcral tomou o camarim.

Ouvia-se o soluçar frágil de Rachel e a respiração mais agitada de Alex. A jornalista se perguntava o que Quinn quis dizer quando revelou que tolerava a Berry porque infernizaria a vida dela. Mirou a face contrita da atriz, o tremor no corpo, a desproteção que ela exalava, misturada com um pouco de medo e uma pitada de insegurança e apimentado com a certeza de que não sabia para onde estava indo. Parecia que Quinn estava alcançando o seu objetivo. Ela parecia passar a cantora várias vezes por uma máquina de moer, até que não restasse parte alguma que pudesse ser restaurada. Uma lenta destruição.

“Quando vai pedir a anulação do casamento?”, a jornalista questionou, tranquila. Ela analisou que, no lugar da cantora, já teria feito isso!

Olhos castanhos surpresos a fitaram. Anulação? Rachel não tinha essa intenção. E, depois de ler o contrato de casamento, teve certeza de que as coisas seriam mais complicadas do que pareciam.

Alexandra Bishop sorriu com incredulidade e meneou a cabeça, antes de concluir:

“Você não vai pedir nenhuma anulação”.

“Não sei se posso”, a judia murmurou, baixinho, em voz chorosa.

A mulher de olhos da cor do mar a averiguou.

“Não pode ou não quer?”, quis saber.

“Há mais coisas nisso, Alex. Além, é claro, do meu amor por Quinn”, respondeu.

“Mais coisa? Que tipo de ‘coisa’?”, insistiu.

Rachel queria parar a conversa ali. Não se sentia pronta para falar. E temia dizer sobre o Transtorno Dissociativo da esposa.

“Peça a Quinn para lhe dizer”, procurou desviar-se.

“Não, Rachel. Eu estou aqui porque eu quero escutar de você. Quinn é boa com a arte de iludir. Ela daria voltas e voltas e não me responderia. Já você…”, mirou-a bem, “é quase transparente. Está apavorada. Está com medo. E não tem a ver com a ameaça que Quinn lhe fez. Até porque é notícia em todas as mídias que o suspeito pela morte do seu marido está sob custódia da polícia de Nova Iorque. Assim que não há razão para você temer as ameaças dela e, menos ainda, prosseguir com essa loucura de casamento. Há mais, Berry. E eu quero saber. Eu tenho o direito de saber! Não me importa se estão casadas. Nem se dormiram juntas. Eu não ligo. Eu só quero saber a sua motivação, o seu argumento para continuar nessa cilada que ela lhe preparou. E não me fale de amor. Ou de culpa. Você pode se desfazer do compromisso no papel e continuar a acompanhá-la. O que eu quero está além do que um documento oficial diz”.

A judia se surpreendeu pelas palavras da jornalista. Ela não se importava com o que a Quinn fazia? Era uma pergunta que desejou muito fazer, porém, não no momento. Assim, tentou responder à jornalista da melhor maneira que fosse capaz:

“Quando conversamos, ela disse que tudo o que eu fosse fazer, desde a primeira respiração do dia até a cor do lençol da minha cama teria que passar pela aprovação dela. Ela disse que leria os meus contratos e eu só poderia assiná-los se ela concordasse. Disse que eu seria vigiada, porque não sou digna de confiança. Resumindo: eu estava entregando a minha vida para ela, entregando a minha autonomia”, falou sob os olhos atentos de Alex. Prosseguiu:

“Mas não foi isso o que eu e ela assinamos…”.

“Não?”, a jornalista franziu o cenho.

“Foi o inverso do que ela me disse”, murmurou.

“Inverso?”, a jornalista meditou sob o mirar silencioso da cantora e a compreensão a atingiu feito uma bala de canhão:

“Ela passou a autonomia dela para você”, sussurrou, tomada por uma surpresa que mais parecia um susto seguido de uma expressão de quem acabou de sair da mesma viagem na montanha-russa do parque de Quinn Fabray. “Céus! Ela… O que ela pretende com isso?”, questionou mais para si mesma que para a judia.

Me abraça ao acordar

Como um anjo lindo

Mais leve que o ar

Tão doce de olhar

Que nenhum adeus pode apagar...

— Caetano Veloso em Pra Te lembrar

Quinn estava na sala do coral, no colégio McKinley, em Lima.

O que fazia ali?

O rapaz alto, de sorriso ladeado, estava escrevendo na lousa e a Aretha, como Santana tinha a mania de chamar Mercedes, que adorava cantar Withney Houston, inquiriu:

“Alguém pode me dizer o que é isso, por favor?”.

Observou-a. E, após, olhou para o jovem comprido, que respondeu que os dois clubes de coral da escola, o Troubletones, dirigido por Shelby Corcoran, a mulher que adotou Beth, e o Novas Direções, sob a batuta do Sr. Schuester, trabalhariam juntos e cantariam músicas lésbicas.

Santana, ao lado de Britt, pareceu não concordar. Ela queria protelar a ideia para a outra semana. Parecia incomodada, pois a intenção do rapaz alto era convencê-la a expor sua opção sexual, aceitar-se.

Viu-se sentada ao lado de Rachel. Os cabelos estavam curtos e o tema da aula tinha a ver com as seletivas e o rapaz alto, Finn Hudson, seu ex-namorado e, no momento, namorado de Rachel, disse que estavam preocupados com Santana.

“Preocupe-se com você, cara de feto”, foi a resposta aborrecida que a latina soltou para ele. E então começou um discurso de que ali, no Glee, eles se preocupavam com as pessoas e aprendiam a aceitar quem eram.

Quinn não sabia quem ela era. Havia mais de uma Quinn ali. Ela, agora parada no meio do salão, a outra, ao lado de Rachel, comendo as folhas de um diário e uma que lhe segurava pela mão e, enquanto mostrava tudo o que acontecia, retirava da própria boca as folhas do livro de memórias, inteiras e enroladas como pergaminhos, que foram mastigadas e engolidas pela Quinn ao lado da judia.

Sentia-se confusa entre elas. E ligada a elas. Três Quinn Fabray. E não era nenhuma delas, mas todas eram ela.

Enquanto Santana questionava se não poderia ter voz e opinar sobre o tema e a decisão do clube, via-se repartida em três. Três “Quinns”. Uma Rachel Berry.

Finn falava de escolhas, de aceitar quem se é.

Quem era Quinn Fabray? Quem ela era? Não era mais cheerleader. Não tinha mais Beth. E nem Finn. E nem Rachel.

Blaine e Kurt se levantaram, sob a voz de Finn, e foram cantar para Santana.

A latina, em toda a sua gentileza, chamou os dois rapazes de pôneis e rechaçou a ideia da música.

Blaine tentou argumentar. E santana culpou a gravata borboleta do rapaz de cabelo engomado pela contestação da ideia.

O que ela, Quinn, e as outras duas “Quinns” faziam ali? Deveria estar em Nova Iorque, advogando, e não ali, no meio daquela demonstração de afeto – ou tentativa de salvação da alma gay de Santana.

“Estamos falando de mulher com mulher ou garota com garota?”, Puck, mente torpe, comentou em toda a sua idiotice e lhe chamou a atenção.

Ele era o pai de Beth? Oh, sim! Ele era. Por quê? Ele era tão… O que ele era, afinal de contas?

“É disso que quero lhe resguardar, Quinn”, escutou a outra Quinn, a que regurgitava as folhas de diário que eram mastigadas e engolidas pela que estava sentada ao lado de Rachel. A Quinn que expelia as folhas do diário possuía o olhar frio e voz sem afeto. Escutou-a, gélida, sussurrar-lhe:

“Eu quero lhe resguardar de todas essas coisas que precisou escutar; de toda a dor alheia que testemunhou, de todo o lixo emocional disfarçado de benevolência. Pessoa alguma aqui liga para o que você sente, Quinn! Eles querem ajudar a Santana, mas esquecem que a mulher que está com a sua filha se senta na mesma sala e está tendo um caso com um estudante, que também é o pai de sua filha! E a Rachel sabe disso. E ela não vai lhe deixar recuperar a nossa criança. Porque ela nunca lhe quis de verdade, Quinn. Se ela nos amasse, ela estaria ao seu lado. Não defenderia a mulher que a pôs no mundo e que a abandonou. Veja a comicidade da situação!”.

Quinn mirou Rachel, agora sentada ao seu lado. Mas, sentiu, ela não lhe desejava mal. Ela só queria estar perto. Ela só queria ajudar.

“Não, Quinn! Ela não quer lhe ajudar”, a Quinn sem sentimentos insistiu. “Ela e os demais estão aqui por Santana”.

A loira meneou a cabeça. Ela também estava ali por Santana!

♫“Segui o caminho errado uma ou duas vezes

Cavei até conseguir sair sangue e fogo”.♪

A voz de Kurt começou a cantar.

“Eles não sabem de nada, Quinn. Não conhecem a sua dor. Eles nunca se interessaram de verdade. Eu sei. Você sabe. Apenas nós sabemos”, a voz sem afeto persistiu.

Quinn olhou a outra, de cabelos curtos, que se alimentava das folhas do livro de memórias.

“O que ela está fazendo?”, perguntou, com estranhamento diante da sua imagem a tragar as folhas escritas.

“Ela está devorando as lembranças e, com elas, as dores”.

“E você?”, mirou a que transbordava frivolidade.

“Eu as vomito, para não esquecer o gosto que os erros e a deslealdade têm. Assim, eu resguardo tudo e mantenho você protegida”.

♫“Decisões ruins, tudo bem”.♯

A voz afinada de contratenor do rapaz de tez pálida continuou a encher a sala.

♪“Bem-vindo a minha vida boba,

mal tratada, deslocada, mal compreendida”.♪

Viu quando Rachel olhou para a latina e sorriu. Finn estava ali, perto dela, de Rachel. A garota com a qual fez uma trégua. A garota de quem escondia um sentimento que era só seu, porque ela só tinha olhos para o quarterback.

“Deixe-me sair daqui”, pediu, atordoada.

“Olhe para eles, Quinn! Não são dignos de confiança. Todos mentem, escondem coisas e só deixam você ver o que querem que você veja”, falou antes de retirar da boca outra folha, que saía enrolada como as mensagens levadas pelos arautos de reino a reino.

Agora Puck cantava para Shelby. Ele queria ficar com ela. E com Beth, seu pequeno milagre, do qual precisou abrir mão porque Russel e Judy não aceitaram sua filha, sua menina.

“Faça parar, por favor”, pediu, agonizante.

“Você precisa ver, Quinn… Essa é a verdade que a Rachel traz”, sussurrou, antes de expelir outra folha.

Quinn olhou ao redor.

Já não estava mais ao lado de Rachel. Por quê?

“Porque ela é de todos, menos sua”, a Quinn que lhe sussurrava palavras petrificadas respondeu.

♫“Mas eu sou o único

Que caminhará sobre o fogo por você”.♫

Puck cantava. E a usava para mascarar o verdadeiro alvo de sua declaração de amor, de desejo: Shelby Corcoran, sentada há algumas cadeiras atrás dela.

“Faça parar”, pediu outra vez.

“Quinn”, ela, fria, falou, “eu só quero que sinta o que eu senti. O que eu vi. O que eu sei”.

“Eu não quero ver… Eu quero esquecer”, implorou.

“Não há mais como esquecer. Você deixou a Rachel chegar perto demais. Mas eu vou me assegurar de que não haja mais dor. Não para mim. Ou você”, sorriu, antes de regurgitar outra folha do diário.

Estava dentro do seu carro. Um New Beetle amarelo, sentada no banco do carona e a Quinn que vomitava as folhas estava sentada na direção do carro, mas não segurava o volante. Entretanto, ela acelerava o carro mais e mais.

“Para onde estamos indo?”, perguntou, e viu que a outra Quinn, a que comia as páginas do diário, estava no banco de trás.

“Estamos a caminho do nada. Da proteção. Da insensibilidade. Do vácuo”, sorriu.

“Eu não consigo respirar!”, gritou, enquanto tentava puxar o ar para dentro dos pulmões.

“Você não precisará respirar mais”, a Quinn que comia as folhas do diário sorriu a resposta e um baque surdo a atingiu.

Uma dor cortante e um gemido de dor.

Uma lágrima.

O branco!

O imaculado branco.

O branco que simbolizava a pureza. A falta de dor.

O esquecimento.

“Eu preciso sair”, tentou se mexer. “Deixe-me sair”, pediu. “Deixe-me sair e respirar”.

Olhos verdes se abriram num golpe só.

Sentia frio.

“Respirar…”, murmurou, aterrorizada, sem saber onde estava.

Uma mulher de branco se aproximou. Era loira e jovem. Tinha gentis olhos azuis.

“Oi, Quinn. Eu sou a Dra. Tolkien. Você sofreu um acidente de carro e morreu”.

Sentou na cama. O coração saltava dentro do peito.

“Eu morri!”, murmurou, atordoada.

Holmes entrou no quarto e a passos largos se aproximou da cama, atento.

“Dra. Fabray”, chamou.

“Eu morri… Eu morri”, repetiu e mirou o cuidador, “eu morri”.

Ele sentou na beirada da cama e a segurou pelos ombros com gentileza para que ela o mirasse.

“Não morreu. Foi só um sonho ruim”, ele explicou, tranquilo.

Quinn meneou a cabeça em negativa perturbada:

“Eu morri! Ela me levou para a morrer. Eu morri”, insistiu.

O cuidador a atraiu devagar e a envolveu num abraço seguro. Falou, imperativo:

“Você está viva e você é Lucy Quinn Fabray. Tem 32 anos de idade e é uma das mais renomadas advogadas de Nova Iorque. O nome do seu pai é Russel Fabray e o nome da sua mãe é Judith Fabray. Você tem uma irmã mais velha, chamada Francis Fabray, mas vocês a chamam de Frannie…”, e o homem continuou a recitar, até que a loira se afastou dele devagar e voltou a se deitar e, segurando forte a mão daquele gigante, adormeceu novamente.

Holmes a afagou com o olhar.

Só queria mantê-la a salvo. E poderia fazer isso se a ameaça fosse externa. Mas, como salvar Quinn dela mesma? Como protegê-la de uma mente danificada e, parecia, dando pane no esforço de mantê-la à margem da dor?

Não sabia.

O que é que eu vou fazer pra te lembrar?

Como tantos que eu conheço e esqueço de amar

Em que espelho teu, sou eu que vou estar?

A te ver sorrindo”.

— Caetano Veloso em Pra Te lembrar

Rachel se perguntava, todos os dias, o que a Quinn queria. Ela lhe enviava sinais difusos. Atormentava-a com sua frieza, rechaço e ameaça de suicídio diante de seus olhos. E lhe entregava toda a vida num pedaço de papel. Tudo!

Lembrou outra vez da Srta. M. Ela também lhe entregou a vida de Quinn, pois dependia dela, Rachel, afastar-se ou ela se mataria. Entretanto, o contrato de casamento as prendia. Mesmo que pedisse a anulação do documento, neste estava exposto que, se uma das partes não consentisse, o mesmo deveria ser revisto. E Rachel sabia que Quinn poderia postergar a avaliação. Elas continuariam presas. E depois, quando revissem, ela – provavelmente – discordaria de alguns pontos e exigiria outros, que fariam com que Rachel discordasse e, então, outra avaliação e discussão. Quinn poderia fazer isso durar para sempre! Ou, até quando ela, Quinn, desejasse parar. Ela deixou tudo nas mãos de Rachel. Exceto o invalidar o documento sem o consentimento dela ou de seus advogados. E ela os nomeou na certidão e, pelo que averiguou, eram dois figurões de porte internacional. Quinn era tão ruim em se dar que, ainda que lhe passasse tudo, amarrava uma ponta a ela. Uma que, nem mesmo depois de Quinn morta, Rachel poderia mudar ou esquecer, porque ela também fez a gentileza de, como num pré-testamento, nomear a judia sua herdeira universal.

Estes sinais que dançavam, incertos, diante dos olhos e juízo da cantora era o que a atormentavam mais. Por que deixar o que possuía para ela e para o seu filho, fruto de seu casamento iniciado com traição? O que a Quinn queria com isso? Mostrar que só a teria no papel e nunca mais fisicamente? Atando-as de forma ajustada que para soltar levaria tempo?

“Há uma cláusula no documento em que, mesmo que eu seja, a grosso modo, responsável por ela, em caso de ela estar debilitada emocionalmente, há dois advogados nomeados que estudarão e avaliarão as petições para o pedido de anulação. E eu tenho certeza de que ela os instruiu em como proceder comigo. Se você soubesse o valor exorbitante que cada um ganhará nesse caso, entenderia que a situação não é tão simples. Os advogados são renomados e eu posso contratar outros renomados, mas eu sei que a função deles é a de encontrar brechas para fechar as minhas. Será uma batalha!”, riu sem humor.

Alex Bishop franziu o cenho e voltou a pensar no que Quinn lhe disse sobre infernizar a vida de Rachel. Mirou a cantora e indagou, curiosa:

“Você sabe como se tornou a relação de Quinn com os pais e a irmã após o acidente?”.

A cantora negou com a cabeça, atenta.

Alex suspirou e explanou:

“Ela não os considera. Porém, ela os mantém. Com todos os luxos. Ela paga todos os gastos da família. Se ela passou tudo para você, esses ‘benefícios’ serão cortados. Sabe que eles virão para cima de você com facas e foices por causa disso?”.

Rachel sentiu-se marear outra vez.

“Como assim?”, a voz foi quase um miado mudo.

“Se ela não estiver bem, Berry, você deverá continuar a pagar as faturas. Se você não pagar, eles questionarão, sutilmente, para Quinn a razão. Se ela decidir dizer, insinuar, que não está bem emocionalmente e que não poderá resolver o assunto, a quem eles deverão recorrer? A você, a esposa e tutora dela. E os Fabray pensam que, se a Quinn morrer antes deles, tudo o que ela tem, e não é pouco, será deles. Imagine quando souberem que ela deixou tudo o que ganhou e construiu para a mulher que a traiu e o filho desta. Eles brigarão na justiça. E, Rachel, vai ser um inferno para você!”, a advogada praticamente empurrou a cantora numa cova e jogou a primeira pá de terra.

“Eles irão me triturar…”, murmurou.

Alex meneou a cabeça em análise, antes de responder:

“Talvez… Mas eu sei que você tem bons advogados. E poderá contratar outros tantos. E os Fabray podem até não ter a sua estrutura financeira, mas o sogrinho Russel tem muito conhecimento. Então, acho que você deverá, mesmo, ficar preparada. Agora eu entendi o que ela quis me dizer, quando eu perguntei a razão de não se afastar de você: ela me respondeu que infernizaria a sua vida. E, pelo que você me disse, além de ter que me ver beijando a sua esposa”, sorriu com humor, “você ainda terá que levar bem os sogrinhos. Rachel, por que não se afastou dela quando eu lhe avisei?”. Deu dois tapinhas na perna da cantora e falou, levantando-se para ir embora:

“Eu não almejo o seu lugar. O meu é mais confortável”, sorriu lindamente e saiu.

Kurt Hummel adentrou ao recinto com o cenho franzido e parou, estático, diante do quadro assustador que era Rachel Berry.

“O que ela quis dizer com não almejar o seu lugar? Aliás, o que ela fazia aqui?”, indagou, cruzando os braços sobre o tórax e erguendo uma sobrancelha na espera de uma resposta que, também, pudesse explicar a aparência de quem viu alma penada que a cantora levava.

“Eu… Ainda não processei”, murmurou, num momento de afasia total.

Mais leve que o ar

Tão doce de olhar

Que nenhum adeus vai apagar”.

— Caetano Veloso em Pra Te lembrar

Notas finais
Desculpem-me por demorar a postar. E eu ainda não respondi aos reviews. Responderei (I promise!). Abraço afetuoso e até o 81 (quase chegando ao fim...) ;) — Cal. *-*