Sine Cordi

73 CAPÍTulo 73 - עג


Notas iniciais
Hoje é sá-ba-do! Em dia ;) Até...

A verdade levanta tormentas contra si mesma; as quais transportam as suas sementes pelos quatro ventos.”

— Tagore -

Quinn escrutinou Santana de cima a baixo e ao contrário uma, duas, três vezes.

Olhou para Rachel e seu olhar espantado.

Havia, sim, algo errado…

“Santana, odeio gente covarde”, avisou, com desprezo na voz.

A latina sabia que ela iria provocá-la até fazê-la saltar. E se isso acontecesse, poderia falar o que não deveria ainda.

Recomeçou a contar… De um ad infinitum

“Eu sei que vai me ignorar…”, recomeçou seu passeio ao redor da Lopez, observando maliciosa cada curva do corpo esguio e bem moldado pelo DNA latino. Dios Santo que era muy guapa!, pensou. E sabia que a advogada morena, toda elegante no terninho de saia e paletó, sentindo-a rondá-la tão de perto, logo se encresparia.

Sorriu e prendeu a língua entre os dentes, a fim de afogar uma gargalhada que poderia estragar o momento.

Respirou fundo e mordeu o lábio inferior antes de perguntar:

“¿Hasta cuándo, mi amor?”. Se Santana não saltasse agora, era porque o caso carecia de atenção.

A latina sentiu os pelos eriçarem.

Que vontade de rebater a provocação daquela loira de farmácia!

Respirou fundo ou…

¡La voy a matar!, mastigou intimamente, perdendo a contagem.

MieeerrrdaUno, dos, trés, cuatro, cinco, seis, siete, ocho, nueve, diez, once

Sant, corazón! Habla conmigo…”.

O acento quase perfeito das palavras, o erre bem soado que se arrastava pela voz cínica e sensual de Quinn, que fazia questão de lhe falar bem perto da nuca, eram de esmorecer os sentidos. Maldita perra!

E Santana não reagiu.

Quinn a abraçou por trás, colou-se bem nela e deitou-lhe a cabeça no ombro. Suspirou.

Rachel se retesou. E pensou na possibilidade de Santana reagir mal a forma como a loira a estava… O que Quinn achava que estava fazendo?

“Quinn, lejos…”, a latina mastigou o murmúrio irritado.

A loira deu outro suspiro, um beijo de lábios úmidos no pescoço da morena e se afastou.

“Eu acho que a Parker me dirá o que vocês não querem dizer agora”, pensou alto.

Santana, então, virou-se para ela e a mirou.

E não havia raiva nos olhos escuros como a noite. Havia… Dor? Medo? Eram tantas misturadas emoções a dançar por aqueles olhos que Quinn se pegou atenta ao que tentava nunca dar atenção: aos efeitos colaterais de seu acidente de carro.

Eram todos um chute no… Enfim, eram um aborrecimento físico e emocional que a irritavam deveras, até quando não tinha força suficiente sequer para respirar.

“Porém, pelas caras que eu vejo, parece que será mais um adendo e de classificação ‘importante’ no meu histórico psiquiátrico. Eu só gostaria de ter uma pista de vocês. O que aconteceu? O que eu fiz?”, insistiu.

Brittany interrompeu o instante e adentrou ao recinto, parando ao lado de Rachel e lhe segurando a mão, em silencioso apoio, pois sabia que dali, naquele momento, a parte mais assombrada deveria ser a judia. Até porque nunca conviveu com essa Quinn por tanto tempo como ela e Santana. Ela nunca esteve presente…

Vámonos, Britt”, chamou a latina.

“Qual o seu maldito medo, Santana Diabla Lopez?”, insistiu a loira, enojada com a falta de comunicação que decidiram estabelecer contra as perguntas que ela fazia.

No tengo miedo…”, murmurou e olhou a esposa. Percebeu que ela segurava a mão da judia como se desejasse protegê-la. Achou comovente da parte dela. Brittany era tão especial que nunca se cansaria de se apaixonar por ela dia após dia…

“Lopez!”, o chamado carregado de autoridade e a aproximação de Quinn, que invadiu seu espaço pessoal, fizeram-na voltar ao instante e fitá-la de frente.

“Não tem medo, mas está nerviosaSólo hablas em Español”, observou, conhecedora de causa. Bastava Santana se molestar, fosse por qualquer coisa, que logo as palavras jorravam em Espanhol e ela nem se dava conta. Apenas os que estavam com ela lhe chamavam a atenção e a faziam perceber que estavam entendendo coisa nenhuma.

Tão transparente, pensou Quinn, com um sorriso de descaso diante do óbvio.

“Vamos, Sant…”, enlaçou-a pela cintura, “habla conmigo. O que foi que eu fiz de tão espantoso?”, perguntou, sedutora.

Ela quase poderia convencer a latina a responder.

Quase…

“Tire as mãos…”, pediu num humor de cão, a mandíbula apertada em sinal de irritação.

“Tão caliente, assim, irritadinha…”, sussurrou e fez o que nem mesmo a Lopez estava preparada. Espalmou-lhe os glúteos firmes e a puxou de encontro ao seu corpo e a estreitou que seus lábios quase colidiram.

“Acho melhor eu chamar o Holmes…”, murmurou uma Rachel Berry atarantada.

Britt a acalmou.

“Relaxe”.

A judia mirou a loira parada ao seu lado com cara de total incredulidade. Relaxe? Foi isso o que ouviu de Brittany?

“Santana vai matar a Quinn”, sussurrou outra vez, agitada.

“Vai nada! Ela só vai xingá-la por umas horas hoje e, talvez, amanhã também, cada vez que se lembrar disso”, explicou uma Britt tranquila. “Mas ela vai só afastar a Q. Ela não a machuca de fato”, analisou, concentrada. Sabia que Quinn só aparecia diante de Santana para implicar com ela, como se estivessem no colegial, desentendendo-se por coisa nenhuma e ficando uma de cara amarrada com a outra por uma semana, no máximo, até se juntarem outra vez como se nada houvesse passado. Era assim. Embora, agora, elas não voltassem a se falar tão cedo após esses “impasses”. Na realidade, elas se falavam quase nunca…

Te voy a matar, hija de perra”, ameaçou a latina, soltando faíscas pelos olhos, segurando os pulsos de Quinn para lhe tirar as mãos de sua… Região glútea.

“Por que não pode dizer o que eu fiz, Sant?”, inquiriu e arrastou o nariz pela mandíbula contraída de Santana e lhe deixou pequenos beijinhos em seu ponto de pulso, arrepiando-a.

Dios, ¡Quinn! Suéltame”, gritou e empurrou a loira.

Quinn deu alguns passos para trás e estancou, fitando-a sem emoção. Comentou, como se nada fosse:

“Depois quer saber porque eu sou diferente da Quinn…”, fixou os olhos verdes nos escuros e cuspiu, fria, devagar e sem nenhuma gentileza, “por que eu deveria ser o que ela foi? A sua Quinn, a Quinn da Rach-Rach, a Quinn do afetado do Kurt ou de qualquer uma daquelas pessoas do ‘clubinho do coral’? Sabe o que essa ‘sua’ Quinn era? Ela era uma coisa fraca e sem orgulho! Uma perdedora de carteirinha! A sua Quinn, esa tía por quien te mueres”, debochou, “era patética, Lopez!”.

O grito de raiva que Santana Margarita “Diabla” Lopez deu assustou. Foi um urro de dor e raiva que nem ela mesma conseguiu controlar. E assim, cega de paixão por escutar tantas más palavras de Quinn sobre quem ela foi antes de se apagar num maldito e mal logrado intento de suicídio, agarrou-a pelo colarinho da jaqueta do refinado terninho e a empurrou com força até que ela chocasse com as costas na parede, com força mesmo, para machucar. Porque não adiantaria usar das mesmas armas que Quinn usava. Ela não se importava com as palavras dos outros, com o que diziam. Ela menosprezava a opinião alheia. Ela conduzia a discussão e arremetia com força até machucar sem um respingo de afeto! Era um monstro que ladrava e ladrava até lhe fazer desejar que ela apenas se calasse.

E Santana só queria que ela se calasse! Que Quinn parasse de falar mal de quem, um dia, foi!

“Sant…”.

A voz baixa e calma de Britt a fez estancar no momento em que empurraria, pela segunda vez, com mais força, o corpo de Quinn contra a parede para ouvi-la pelo menos murmurar de dor.

“A cabeça dela pode doer”, Britt falou, numa tranquilidade que quebrava a vibração que havia se estabelecido. Uma vibração tensa, de mágoas represadas, de descaso cuspido para quem quisesse ver e ouvir, de falta de afeto e de amor não correspondido.

Santana sentiu os olhos inundarem. Olhou-se. No que Quinn a transformou? Como ela conseguia lhe tirar do sério depois de tanto tempo? Como pode perder a razão com ela? Justamente com a pessoa que não deveria levar a sério, com quem não deveria fazer nada, além de desprezar…

“Eu odeio quem você se tornou”, murmurou com desalento, antes de soltá-la e se virar, saindo do recinto.

Quinn pôs as mãos na cintura e esticou o corpo para trás, a fim de amenizar a dor que o impacto do empurrão da latina lhe causou. Na verdade, um desconforto apenas. Claro, ela não esperava essa reação de Santana. Isso foi o mais espantoso.

Brittany lhe parou em frente e a fitou nos olhos.

Os verdes não se despregaram dos azuis que exalavam uma incompreensível compreensão.

“Sabe, Quinnie, você não se lembra, mas você foi bem legal antes do acidente. E Santana, eu e você éramos melhores amigas. Eu sei que é confuso para você que a Sant ainda fique presa ao que você foi e não ao que é, mas não se zangue. Ela só ama você… Mesmo negando”, sorriu e deu um delicado beijo na face da advogada, que não reagiu e a observou sair para encontrar com a latina.

Quinn a seguiu com o olhar e pensou que Brittany era muito ingênua ao pensar que Santana amava quem ela era agora, após o acidente. Não! Santana não a amava. Assim como o Kurt, o Blaine e todos os outros que a latina fez questão de enumerar. E, pois, que a deixassem em paz! Que não se molestassem a lhe aparecer pela frente, da mesma maneira que não se dava ao trabalho de saber deles.

“Isso foi… Tenso!”, exclamou e se virou para Rachel, parada no mesmo lugar que Britt a deixou, os olhos cravados nela, a boca entreaberta, como se estivesse catatônica.

Quinn suspirou e caminhou até ela. Fitou-a e sentiu alívio quando os olhos de Rachel a miraram, exceto pelo fato de ela começar a chorar copiosamente. Odiava quando choravam perto dela… As pessoas deveriam fazer isso a sós, nunca na frente de outra pessoa. Era… Embaraçoso!

“Você foi tão cruel”, murmurou, entre soluços, para a loira que a mirava em muda observação. “Você provocou a Sant… Não havia necessidade, Quinn! Ela está preocupada com você e com a sua saúde”.

A loira tirou um delicado lenço do bolso interno do paletó, como o que deu para cantora quando a levou ao café e contou que sofreu o acidente e ela chorou arrebatadamente, e o estendeu.

Rachel agradeceu a gentileza.

Quinn só não queria ver o resultado em forma de muco que se acumulava conforme a morena se desidratava em lágrimas sem sentido.

Suspirou e tentou não soar muito indiferente:

“Está tudo bem, Rach-Rach. Eu ficarei bem com a Santana…”.

“Ela quase machucou você, Quinn! E você mereceu”, constatou, aborrecida.

“Mereci?”, a loira achou injusto. Embates verbais eram embates verbais. Não estavam em uma arena de boxe ou qualquer outra espécie de confronto físico para Santana responder de tal maneira. Era para ser apenas verbal!

“Você debochou dela, você a provocou, irritou… Você apertou a bunda dela, Quinn! E diante da Britt!”, as lágrimas deram lugar a alguma outra coisa que a loira entendeu como irritação. E achou divertido.

“Está aborrecida só porque eu apertei o bumbum da Lopez? Rachel! Foi só uma… Brincadeira! E ela não respondeu a minha pergunta. Aliás, nem você e nem a Britt! O que aconteceu?”, ainda estava interessada.

“Acha que apertar o bumbum dela foi pouco? E a maneira como a abraçou e distribuiu beijinhos pelo pescoço e nuca dela? Você não tem senso comum? Isso foi de um descaro imenso! E a Sant é casada com a Britt, que deveria se aborrecer mais com esse seu comportamento sem noção. E você é casada comigo!”, soltou, muito chateada.

A loira estancou, enquanto a morena saiu do estúdio batendo a porta.

“O que ela quis dizer com eu sou casada com ela? Eu disse que era só no papel… Não é um casamento de verdade”, indagou-se. Rachel estaria com ciúmes? De Santana? Que tolice!

A morena não estava na sala quando pisou no ambiente. Droga! Onde ela se meteu? Ela não poderia estar realmente com ciúmes! Era ilógico! Casaram-se há quantos dias? Dois? Três e meio?

Señorita…”.

Escutou a voz de Maria e se voltou para ela.

Pues sí?”, respondeu, toda educada e composta, como se nada estivesse fora de ordem.

A mulher mais velha se aproximou dela e a fitou com seu olhos castanhos escuros e cheios de humilde sapiência:

“Eu não sou paga para me envolver nos assuntos dos meus patrões, mas a señora me pareceu muito frágil…”, comentou, referindo-se à Rachel.

“E?”, a loira desejava escutar o que a mulher lhe pediria. Embora já desconfiasse o que seria. Rachel lhe escaparia…

Respirou fundo e analisou o que a morena fez. Rachel estava tentando aborrecê-la? Testá-la? Mostrar que não era sua posse?

Esperta… Moderou a respeito da cantora e mordeu o lábio inferior.

“A señorita se importaria que ela ficasse aqui hoje para eu cuidá-la e cuidar um pouco do pequeno Spencer?”.

A voz de Maria a trouxe de volta. Quinn caminhou até o sofá e se deixou cair ali.

Estava se sentindo cansada. Talvez não fosse ruim deixar Rachel um pouco distante. Apenas um pouco… Talvez pudesse, assim, amenizar seja lá o que lhe estava acontecendo.

Porsupuesto que sí, Maria”, concordou com um brilho de malícia nos olhos e completou, “avise a señora que eu enviarei Wilhelm para protegê-la… E que amanhã eu virei vê-la”, sorriu lindamente, sabendo que Rachel poderia ter um achaque ao saber que estaria sendo vigiada, e se levantou.

“Eu avisarei”, a mulher sorriu, agradecida.

A loira estancou, fazendo com que Maria quase trombasse contra ela e se virou, mirando-a.

“Diga-me: o que aconteceu enquanto eu estava aqui, mais cedo?”, questionou, na esperança de que a mulher, sem nenhum vínculo maior com ela, pudesse lhe esclarecer alguma coisa sobre o tempo em que sua mente era um apagão.

Maria a fitou com surpresa. Por que ela estava a lhe perguntar isso? Sem entender, respondeu:

Bueno, señorita, eu fiquei com o pequeno Spencer no quarto dele e só passei aqui para lhe aquecer a mamadeira e levá-la”.

“Não viu ou escutou nada de diferente? Eu me comportei de maneira estranha ou confusa?”.

A mulher sorriu.

No, señorita. Eu apenas a vi conversando com a señorita Britt, enquanto a señora e a Dra. Lopez estavam conversando no estúdio”.

A informação pegou a loira de chofre. Esteve conversando com a Britt?

“Tem certeza disso, Maria?”, indagou, realmente sem uma reação a respeito do assunto. E suspirou. Espremeria Holmes, já que não daria para espremer a Rachel, que ficaria sob a tutela de Maria, a fim de saber o que, de fato, estava acontecendo.

“Tenho, señorita. Eu a vi conversando com a señorita Pierce”, confirmou.

Gracias, Maria”, agradeceu por hábito, embora a mulher lhe tenha dado uma informação, ainda que mínima, sobre o que ela fazia enquanto a mente parecia que dava blackout.

Bom, até logo

Oh, como eu odeio ver você partir

Sim, até logo

Ah, como eu odeio ver você partir

O jeito como eu sentirei a sua falta

Você nunca saberá”.

Reconsider Baby por Elvis Presley -

“Onde está a senhorita Berry?”, o cuidador perguntou, ao vê-la sentar no banco do carona e prender o cinto de segurança.

“Vai deixá-la aqui?”, perguntou, cuidadoso por causa do silêncio e expressão endurecida de Quinn. “Aconteceu alguma coisa?”, ele ainda insistiu.

A advogada respondeu, num tom desapegado e monocórdio:

“Aconteceu”, não deixou de mirar a frente. “Eu conversei com a Britt”, informou.

O homem colocou o carro em movimento.

“E sobre o que conversaram? A Srta. Pierce sempre me pareceu uma mulher muito gentil e até um pouco ingênua, num sentido positivo”, ele comentou e esperou que a advogada retorquisse.

Mas ela não falou.

Ele a mirou de soslaio e percebeu que ela mantinha a mesma expressão distante. Havia acontecido alguma coisa, pensou.

“Foi tudo realmente bem, Dra. Fabray, como combinado?”.

Quinn deu um sorriso de escárnio e mirou-lhe o perfil. Falou, sem o menor tato:

“Mentiroso e hipócrita. Esses dois adjetivos caem como uma luva em você, Sr. Holmes”.

O cuidador só não perdeu a concentração no trânsito, porque não era dado a espantos, embora o comentário de Quinn o tenha deixado apreensivo. Por que ela o estava acusando?

“Perdão, senhorita. Mas está se referindo a mim?”.

“Eu suponho”, ela não se absteve, “afinal, eu tive uma conversa com a Britt que, pelo que Maria me disse, parece que foi agradável. E sabe por quê Maria me contou, Sr. Hipócrita? Porque eu não me lembro disso. Eu tive um… Como posso chamar isso? Branco? Apagão?”, voltou a face para a janela e prestou atenção na rua.

“Eu falei com a Dra. Parker”, comunicou.

Os olhos de Quinn estavam maiores quando retornaram para o perfil do cuidador:

“Eleanor sabe e eu não? A principal interessada nessa confusão toda sou eu. Entretanto, sou a última a saber”.

“Quinn, nem eu ou a Srta. Berry soubemos como agir! Foi diferente de tudo o que já aconteceu”, comunicou, embora não quisesse ser mais detalhista. Não por covardia, mas sim por não se sentir capaz de analisar o que, de fato – além do que ele suspeitava –, acontecia com a patroa. “Ficamos sem saber se lhe falar seria seguro”.

Ela suspirou, agastada. Voltou a mirar o trânsito e percebeu o quão menos embolado parecia.

Holmes ainda estava curioso sobre o que aconteceu…

“A Srta. Berry não veio por quê?…”.

Quinn deu uma gargalhada divertida e o mirou. Ele estava fazendo algum tipo de piada?

“E por que ela viria comigo? Nós sabíamos que assim que ela colocasse os pés para fora da minha casa, não retornaria”, esclareceu, óbvia.

“Ela não é o tipo de pessoa que não honra com a palavra. Tenho certeza que ela voltará para casa”, ele acreditava e esperava que isso acontecesse, embora soubesse que o contrário seria o melhor para a saúda mental de Quinn. “Ela respeita os termos do contrato de casamento”, acrescentou, olhando-a de soslaio.

Ela meneou a cabeça.

“Holmes”, mirou-lhe o perfil com atenção, “contrato de casamento? Faça-me rir…”, voltou-se, outra vez, para a janela. A expressão ficou sombria.

Era bom mesmo Rachel voltar para casa, pensou, irritada.

Fechou-se.

Precisava analisar o que estava acontecendo… Porque se sentia muito atrapalhada agora, como se tudo se despedaçasse e ela se perdesse na bagunça arrumada que era a sua cabeça.

“Para quando Eleanor marcou a consulta?”, perguntou, distraída com a aproximação do quarteirão em que morava e com a voz que não parava de reclamar que ela não foi “competente” o bastante para “levar a Rach para casa, com ela”.

“Ela ainda não marcou”, murmurou.

“Ela ainda não marcou…”, repetiu, quase inconsciente, ignorando a voz e analisando se a mulher era realmente boa no que fazia. Por que ela ainda não havia marcado uma consulta? O que esperava?

“Provavelmente ela deve estar devorando livros ou conversando com outros especialistas a fim de saber o que está acontecendo comigo”, reportou, como se falasse da previsão do tempo e se sentia marear pelo tanto que ouvir aquela voz manhosa e cheia de “nhem nhem nhem” reclamar a ausência da cantora era agastante.

O cuidador pensou se deveria comunicar a Quinn que a médica queria, antes, conversar com Rachel.

“Ela é uma mulher muito competente”, comentou, em resposta. Suspirou e decidiu que seria bom fazer a advogada ter ciência de que a Srta. Berry teria um encontro com a médica. Até porque a própria Parker comunicaria o fato. Abriu a boca para falar, porém Quinn o interrompeu:

“O que eu faço, Holmes, quando isso acontece?”, ignorou a voz que pareceu rir, “Eu não desmaio… Eu continuo acordada, afinal, de acordo com Maria, eu e Britt conversamos. E nenhuma delas parecia realmente preocupada com o fato de eu ter uma suposta crise de ausência… Entretanto, havia algo mais”, deu por saber. “É claro que havia… Havia Eu”, escutou a voz e meneou a cabeça, louca para soltar um “cale-se”.

O homem entrou com o carro no acesso à garagem do prédio e, enquanto dirigia em busca de uma das vagas de Quinn, respondeu, sincero:

“Eu não sei ao certo, doutora. Sei que fica atenta e… Afetuosa com a Srta. Berry”.

Quinn sentiu que um flash branco a atingiu e uma deliciosa gargalhada que parecia a sua, mas não tinha certeza, pois não era de rir assim, reverberou em seus ouvidos. Piscou algumas vezes.

“Eu não… Escutei. O que eu faço?”, repetiu.

Holmes parou o carro e o desligou. Repetiu, antes de sair, “você parece mais atenta a Srta. Berry e afetuosa… Como se fossem… Namoradas”, falou e observou a mulher sair do automóvel e fitá-lo, sem nada na expressão que demonstrasse algum tipo de emoção. Ela estava preocupada? Estava irritada? Chocada? Temerosa?

Holmes não sabia.

E Quinn não demonstrava como se sentia porque, na verdade, analisava o que escutou. Ficava mais afetuosa com a Berry, como se fossem namoradas? Isso não encaixava…

É claro que encaixa!”.

Ignorou a voz, estreitou os olhos e os cravou no cuidador, que sabia que alguma pergunta impertinente seria elaborada pela patroa.

“E como sabe que eu pareço namorada dela? O que eu faço para dar essa impressão?”, caminhou até ele.

O homem concluiu que falou mais do que deveria. Como explicaria que a viu aos beijos apaixonados com a Srta. Berry? Isso seria embaraçoso… Entretanto, ele a ouviu declarar seu amor para a cantora! Seria correto informar isso? Não sabia…

“Holmes…”, chamou-o, olhando para cima, enquanto ele, de quase dois metros de altura, olhava para baixo. E ela até poderia ser pequena em relação a ele, mas a maneira como ela cravava o olhar fazia com que ele se tornasse menor.

“Doutora, você a beijou na testa e a afagou como nunca a vi afagar outra pessoa… Nem a Srta. Bishop… Havia zelo e afeto”, comentou e omitiu o “eu amo você” que a patroa usou para verbalizar o que sentia pela cantora.

“Ah!”, exclamou, realmente sem ligar o que o homem falou a sua pessoa. Nunca afagaria Rachel Berry com afeto… Com luxúria, quiçá! Ela tinha pernas que negavam que ela era… Como a Lopez a chamou mesmo? Mingnon… Não! Minion… Rachel Berry era muito desejável, e nada mais.

Desejável e nada mais?”, a voz parecia incrédula.

“Quantas vezes eu fiquei assim… Afetuosa? Duas vezes? Três?…”, insistiu, ainda não acreditando muito no que ele lhe disse, embora a voz lhe latisse que Rachel Berry era importante para ela.

“Se aconteceu hoje, na casa da senhora sua esposa, será esta a quarta vez…”.

A ex cheerleader analisou a informação, enquanto caminhava, lado a lado com o cuidador, até o elevador que a levaria para a cobertura.

“Eu não tenho controle…”, sussurrou e ele a ouviu.

“Eu acredito que não tenha”, concordou, compreensivo.

“Eu nem me lembro…”, informou, incomodada com o fato.

Pararam à porta metálica que os levaria até o cume. Ele a abriu para ela, dispensando o trabalho do segurança e agradeceu, seguindo-a.

Ela apertou o botão para a cobertura e digitou a senha de acesso ao andar.

Encostou-se na parede da caixa de aço que a levava até seu castelo. E tentava entender como as coisas estavam lhe assomando. Não tinha controle sobre o que fazia. Era tomada por outra faceta sua, que apenas sabia porque a escutava, que usava seu corpo para fazer coisas das quais não fazia a menor ideia!

O quão grave era isso? Nunca conversou a respeito com a Dra. Parker e nunca aventou algo assim…

E Eleanor! Oh, droga! Até poderia não estar preparada de todo, mas enfrentá-la não lhe agradava em tempo algum. As perguntas que ela insistia em fazer… E que lhe escapavam as respostas, pois ficava em branco.

Em que momentos se perdeu? Em que situações ela foi outra pessoa? O que desencadeou isso?

Não sabia. E desconsiderava que pudesse ser Rachel Berry. Ela não foi tão importante… Entretanto e todavia, era por ela que essa coisa acontecia. Ela ficava, de acordo com Holmes, mais afetuosa com a Berry. Como se fossem namoradas…

Nós somos namoradas!”, informou a voz, séria.

Cristo! Agora, sua mente lógica parecia embotada. Não era capaz de ligar os fatos ao que desencadeara essa estranha “fuga”, porque se sentia cansada. O embate com Santana a cansou. A ausência de Rachel a cansava. E tudo porque a maldita voz lamentava o fato de ela estar sem a cantora.

Estava perdendo o juízo?

Talvez Eleanor lhe respondesse. Ou internasse, em camisa de força.

De qualquer forma, precisava retomar o controle da situação. Por isso, apesar dos lamentos da voz, admitiu que a judia ficasse com o filho e Maria. Talvez um pouco de distância fosse bom, analisou.

Quando a porta abriu e deu no lobby do apartamento, caminhou em direção ao quarto e avisou, vazia:

“Apenas me deixe em paz, Holmes. Eu só preciso ficar sozinha…”, murmurou no fim.

Ele não apenas assentiu como consentiu. Nem mesmo Alex Bishop passaria por ele, com todo o respeito que lhe tinha! Este era um daqueles momentos em que, pensava, Quinn apenas precisava se deixar ir, esvaziar-se. Talvez no amanhecer que viria ela estivesse melhor, mais recobrada e – ainda que sofresse dessa estranha mudança de comportamento – conseguisse lidar friamente com a situação. Porque ela era de natureza fria. Analítica. Distante. Um poço de solidão. E ela parecia gostar de habitar este poço, ainda que não conscientemente. E agora ela estava nele. Mergulhada. Porque era no silêncio úmido e escuro que a mente dela encontrava as respostas, ligava um ponto a outro e nivelava o que estivesse fora de nível e reorganizava-se porque, mesmo fria, era mais flexível quando se tratava de autopreservação do que poderiam desconfiar os pais, a irmã, os amigos (?) e até mesmo os médicos. Ela adequava para adequar o outro. Ela moldava-se e, de seu molde, devagar e sempre, ela moldava a outra pessoa, porque – querendo ou não – o humor dela importava muito! Importava para Judy, que tinha uma vida confortável às custas da Fabray&Advogados, que pertencia a Quinn como sócia majoritária e com poder de veto quando lhe desse na telha e pessoa alguma poderia se irritar, nem mesmo Russel, que dirigia o lugar como se fosse seu e retirava seus dividendos sempre e quando precisava, e levava uma vida confortável, assim como Frannie, que, indiretamente e por meio de Judy, tinha uma polpuda quantia depositada em sua conta todo o mês por sua atenciosa mamãe, que era sustentada pela pessoa que precisava de toda a atenção dessas desatentas pessoas. E que precisava, realmente, estar de bom humor para não cortar alguns benefícios quando, por aborrecimento, resolvia visitar a contabilidade do escritório e cortar dinheiro aqui e ali, principalmente se fosse para Russel e Judy, mesmo que, com o tempo, eles reajustassem os valores. Então, era bom ver Quinn em paz, não importasse o que lhe desse essa paz!

Entretanto, Quinn não tinha paz.

Nunca teve.

Sempre houve uma sensação de irrealidade desde que acordou no hospital. Nunca tinha certeza se vivia a realidade ou estava dentro da Matrix… Se tudo não passava de um truque de sua mente. E se acordasse e estivesse, ainda, no hospital? Porém, estava dormindo agora? Estava sonhando?

A voz que reclamava que ela não compreendia a razão de Rachel não estar ali, agora, fazia com que desconfiasse de que alguém pudesse, realmente, pregar o olho com o tanto que ela tagarelava, em tom mimado e aborrecido de que a sua namorada deveria estar ali, e não longe.

Será que ela nunca se calaria?

Ela nunca mais a deixaria em paz e pararia de falar em Rachel Berry?

Caminhou até o banheiro e estancou em frente ao espelho e se viu. Mas… Ela estava mais jovem e seu cabelo tinha outro corte… Embora não estivesse curto. Tinha um corte mais reto e estava à altura dos ombros. Usava vestido florido com cardigã por cima e sapatilhas. E tinha, ainda que séria, um discreto sorriso que lhe passeava pelos lábios, como se pudesse ser feliz.

“Essa não sou eu…”, murmurou.

O seu reflexo não lhe fez caso e começou a lhe culpar por não levar a sério Rachel Berry.

Isso não era agradável, analisou Quinn, apesar da voz que agora não estava dentro dela, somente. Estava fora dela, conversando com ela, ou melhor, reclamando dela.

Não era bom. Era assustador e muito, muito frustrante!

“Cale-se!”, grunhiu, enquanto caminhou a passos trôpegos para o quarto, jogou-se na cama de bruços e cobriu a cabeça com os travesseiros, ao tempo em que esfregava um pé no outro e se livrava dos saltos.

Só precisava de silêncio! Nada mais que silêncio!

Rachel olhou a noite e exalou o vento frio que a tomava. Estava no terraço e olhava o movimento louco da cidade que parecia nunca dormir lá embaixo. Tentava limpar a mente, analisar tudo o que estava a lhe acontecer.

Amava Quinn. Errou com ela, mas a amava. E, agora, após revê-la, e haver se enganado, pensando que conseguiria reconquistá-la, pensou em como seria sua vida casada com ela. E não fazia sentido mais, como fez há alguns anos. O fato de Quinn apresentar uma personalidade muito similar à da mulher a quem amou e que a amou de volta, fazia com que tivesse que ponderar que Santana, talvez, tivesse razão nesse ponto: não era a Quinn. Era um engano, uma máscara que a mente superprotetora da advogada usava para não fazê-la reviver o trauma de ser traída e o que veio depois disso. Uma muralha contra invasores…

Quis chamar LeRoy e Hiram. Os pais, com certeza, saberiam como aconselhá-la. Ou não… Talvez mandassem ela se afastar de Quinn, como a latina lhe pediu mais cedo.

Talvez devesse considerar isso… Se era para o bem de Quinn, e se a amava, deveria deixar de ser egoísta e se afastar. Deixá-la entregue aos cuidados de Alex Bishop.

Bufou.

A ideia não lhe agradava! Sabia que a loira, apesar do casamento no papel, avisou que não mudaria sua vida por isso, embora fosse manter a ela, Rachel, em “rédeas curtas”.

Era justo?

Não.

Era sano?

Também não.

Deveria fazer como os demais e deixar Quinn?

Sim. Mas não porque era como os demais. Deveria deixá-la porque era muito mais que os demais. Tinha peso na vida de Quinn! Um peso tão grande que não fazia ideia! E isso a levou até o momento que viviam, ela e a loira, acorrentadas por um amor difuso, que machucava, que lhes deixavam tão perto e tão distantes! Separadas pela muralha de esquecimento que a mente de Quinn construiu entre ela e as demais pessoas. Isolada, airada, desmontada em pequenos pedaços difíceis de encaixar, toda coesa, sobre um posicionamento frio e prático, apesar de se tornar, em questão de segundos, outra pessoa. O seu quase oposto. A velha e boa Quinn. A doce Quinn, a quem ela mesma chamou de fraca e fez Santana perder as estribeiras.

Quinn odiava a sim mesma?

E, se odiava, seria capaz de tentar, outra vez, com essa personalidade alternativa, morrer diante de alguma dor?

Cobriu a boca com as mãos e afogou um soluço de terror.

Os olhos marejaram.

E se, assim como a Quinn do passado, essa Quinn também fosse apaixonada por ela a ponto de tentar se matar? Isso seria possível?

Por Barbra!

Afastou esses pensamentos, mas não a ponto de considerar que, talvez, se afastar de Quinn também não fosse a solução primordial. Como faria para rejeitar uma mulher que era como a que tentou se matar após ser traída, ainda que ela nunca mencionasse este porém? Era como se ela não soubesse. Este dado, a traição seguida da tentativa de suicídio, estava hermeticamente resguardado. Um segredo que todos sabiam, mas a mente de Quinn enterrava e enterrava cada vez mais fundo da maneira que podia. E fazia isso para protegê-la! Logo, era pertinente considerar este fato. Afastar-se de Quinn de maneira definitiva estava fora de cogitação. E tinha quase certeza que a Dra. Parker consideraria isso.

Quinn deveria enfrentar o seu medo.

Entretanto, qual era o medo de Quinn?

Holmes cogitou que era o medo de ser traída que a fazia tão fria e sem ligação emocional com outra pessoa.

Mas ela nunca conversou sobre isso com Quinn. Até porque, provavelmente, Quinn ignoraria este fato, pois sua mente também sublimava as razões pelas quais a fazia ser outra pessoa e, depois, esquecer o que fez e porquê fez.

E uma ideia, já antes pensada por esta mesma Rachel Berry, bailou diante dela com um sorriso de obviedade: sua principal opositora em relação ao amor de Quinn não era Alex Bishop. Era a mente de Quinn.

Suspirou em decepção e sentimento de impotência.

Não sabia, agora, como agir com Quinn.

Não sabia como ficar perto e nem longe.

Não podia ficar perto. Mas também não podia ficar longe.

Era uma relação estranha e tão sem razão que analisar era de fazer o cérebro desejar entrar em coma. Era complexo. Escapava do real, dava a impressão que passeava pelo imaginário e, quando, outra vez, tocava os pés no chão, ainda ficava uma estranha sensação de arrebatamento que não conseguia explicar, porque não havia palavras que explicassem isso que ela sentia. E menos ainda o que ela vivia. Parecia história de louco. Coisa de gente insana e que gosta, dentro da sua insanidade, levar-nos a passear por sua realidade retorcida e de figuras desconjuntas e, ainda assim, com aparência de seres quaisquer, comuns, a disfarçar suas bizarrices sob um manto de invisibilidade como o de Harry Potter. Seu sonho realizado de, um dia, ter Quinn e estar com ela, não era colorido como o idealizou. Ele tinha sombras. Sombras que se moviam aqui e ali, que a assustavam porque era uma coisa que nunca imaginou em sua vida colorida e sorridente ao lado de Quinn, perdoada por sua luxúria. Porque, pensou, para o pecado da gula havia a dieta; para a avareza havia as lindas e ricas festas beneficentes que lhe ajudavam a economizar alguns milhões quando tinha que prestar contas com a Receita; para a preguiça sempre havia o elíptico e a obrigação de manter a forma e o fôlego em dia, pois era com este que conseguia alcançar e manter as notas altas; para a ira sempre tinha uma comediazinha romântica ou um encontro com uns amigos do show business que soltavam veneno em forma de piadas sobre um colega e amigo do peito ausente no momento (o que falariam dela?), regado a álcool que causava dor de cabeça, mas rir e aplacar a raiva compensava; para a inveja sempre havia uma matéria de algum crítico de bom gosto e os aduladores de plantão para lhe lembrar que era a melhor cantora e atriz do show business; para o orgulho havia a lembrança da época em que estudou no McKinley e teve Quinn como sua maior e melhor acossadora, que lhe brindava com banhos de slushies, apelidos carinhosos como manhands e comentários singelos que diziam que ela era tão horrível que nem a própria mãe a quis… Mas para o pecado da luxúria… Nossa! Para esse parecia não haver perdão! Não para ela, Rachel Barbra Berry. Pois, parecia-lhe, pagaria por sua ingratidão e cada lágrima que fez Quinn derramar por ela. E pagaria assim, prisioneira de um instante em que a mente dela entrasse em pane e deixasse surgir a Quinn que a amou. E depois, ela desapareceria e a realidade vivida pareceria somente um sonho, que se ocultaria na névoa da inconsciência se não fizesse esforço para guardá-lo bem, momento a momento, detalhe a detalhe, pois seria desses vagos momentos que o seu amor se alimentaria. Em conta-gotas… Bem devagar. Uma de cada vez. Sem tempo exato entre uma gota e outra.

E lá estaria ela, com a boca aberta, ressecada por ausência de afeto, sedenta de um pouquinho de Quinn, a esperar quando a próxima gota cairia…

Ouviu o interfone soar lá embaixo.

Quem seria a essa hora?

Silêncio.

Provavelmente foi Romero com algum recado ou alguma correspondência esquecida.

Ou… O policialzinho amiguinho de Quinn que viria para “protegê-la”! Achou um absurdo isso! Como ela, Quinn, poderia levar a cabo aquela ideia?

Suspirou.

Voltou a atenção para a paisagem, recebendo a brisa na face.

Esperava que o barulho do interfone não tivesse acordado Spencer. O menino demorou a pegar no sono…

Bocejou e se surpreendeu. Esteve tão imersa na confusão temporal de Quinn que, apesar de todas as perguntas e dúvidas que acossavam seu coração, não se deu conta do quão exausta estava.

Sem mais o que fazer por agora, voltou-se para a porta que a levaria até a sua suíte. As dúvidas ainda a confundiam. Porém, esperava que o dia seguinte trouxesse um pouco de alívio.

Um respiro.

Ainda que pequeno.

O sonho é a satisfação de que um desejo se realize.”

— Freud -

Quinn sentiu o ar frio lhe bater no rosto.

Sentia-se fora de lugar.

Olhou ao redor. Estava num parque? Estava sentada num banco, num parque?

Sons de passos em cadenciada corrida a fizeram se conectar.

Piscou algumas vezes.

O que estava fazendo no Central Park? E que horas era? Aliás, como chegou ali?

O olhar acompanhou o casal de meia idade que corria em alegre sincronia e prazer na atividade.

Uma moça com fones nos ouvidos, de corpo esculpido, com os músculos a brilhar sob a fina capa de suor olhava os batimentos cardíacos no cronômetro de pulso.

Olhou-se.

Estava de pijamas, descalça e com um sobretudo negro sobre a roupa de dormir.

Localizou-se.

Estava perto de casa.

Respirou fundo e, com profundo desgosto, ergueu-se do banco. Franziu o cenho, pois sentia que a realidade se expandia e depois voltava ao normal. Respirou outra vez, equilibrou-se e caminhou descalça para casa, agradecendo por ser início da manhã – era o que dizia o relógio dali – e as pessoas em Nova Iorque aparentarem não se importar muito se você está descalço ou não.

O som alto e repetitivo de Help, em versão pouco ousada do Glee Cast, mas que adorava, a fez tatear pela mesa de cabeceira pelo telefone. Help era a música de Holmes…

Rachel olhou o relógio e piscou. Seis horas…

Manhã?

Virou a cabeça para a janela e viu que um tímido sol de outono aparecia ao lado de algumas nuvens.

“Dia…”, murmurou e se sentou para pegar o telefone.

Nesse momento, o lençol escorregou e revelou-lhe a própria nudez.

A lembrança quase onírica de Quinn Fabray lhe veio a mente.

Oh! Mer-da! O que ela fez? Ou melhor: o que elas fizeram?

O telefone voltou a tocar, irritante, e a trouxe de volta.

Respirou fundo, atarantada, e correu o dedo médio pela tela e colou o aparelho no ouvido esquerdo.

Srta. Berry, desculpe por ligar a essa hora…”, escutou a voz do cuidador, nervoso, “mas, apenas me responda: Quinn acabou de entrar em casa agora. Ela escapuliu durante a noite, enquanto eu dormia…”, a voz saiu num tom de decepção consigo mesmo, “apenas me diga: ela passou a noite aí, em sua companhia?”.

Respirou fundo e num fio de voz, respondeu:

“Sim…”.

Obrigado”, escutou o tom agradecido e aliviado de Holmes.

A ligação foi cortada.

Entregou-se tanto ao vício da luxúria que em sua Lei tornou lícito

aquilo que desse prazer, para cancelar a censura que merecia.”

— Dante Alighieri em A Divina Comédia

CONTINUA.

Notas finais
Até sábado (eu realmente espero conseguir postar no próximo sábado). Obrigada por (ainda) lerem SC ;) Abraço afetuoso. - Cal. *-*