Sine Cordi
74 CAPÍTulo 74 - עד
Notas iniciais
“Qualquer um que tenha um amor
Parecido com este
Sabe o que estou dizendo.
Qualquer um que deseje
Que um sonho se realize
Sabe como eu me sinto.
Tudo em que consigo pensar
É em nós dois realizando coisas
Que eu quero fazer”.
— Roxette em Anyone—
Quando Quinn entrou, confusa, pelo lobby do apartamento, Holmes sentiu que o peso do tamanho do mundo lhe foi tirado de sobre os ombros.
Ela estava uma completa bagunça!
Os cabelos revoltos, o sobretudo fechado até o pescoço, os pés bem tratados descalços e sujos pela terra e poeira da rua.
Ela abraçava a si mesma.
E, pela primeira vez, ele a viu como ela era realmente: vulnerável.
Num impulso, causado pelo alívio de vê-la aparentemente salva, avançou até ela e a engolfou num enlace que a fez se perder entre os seus braços.
Beijou-a nos cabelos desarrumados e a manteve ali, firme, como se soltá-la pudesse fazer com que quebrasse. Ou desaparecesse, como um ser etéreo.
“Eu sinto muito…”, murmurou, consternado.
“Eu não sei onde estive… Ou o que eu fiz… Eu só…”, ela murmurou, em voz sumida, atordoada ainda, sem saber o que acontecia com a devida clareza.
“Está tudo bem agora…”, ele murmurou, sentindo-se incompetente por deixá-la escapulir. Era seu dever cuidá-la! E ali estava ela: atormentada, perdida, frágil porque não conseguia entender, com lógica, o que lhe ocorria. “Eu acho que imagino onde esteve”, ele prosseguiu, com a mente a gritar o nome de Rachel Berry, ao tempo em que desejava tranquilizá-la pelo que acontecia.
“Eu estava no Central Park… Mas não sei como cheguei ali e nem por que…”, ela sussurrou.
Ele a levou até a sala de estar, sem soltá-la do abraço, atento e zeloso e a fez se sentar no sofá.
Quinn, diferente de outras vezes, não contestou. Silente, obedeceu.
A voz estava quieta.
Por quê? Por que ela não a incomodava agora? Por que estava silenciosa?
Viu quando o cuidador pegou o próprio telefone e, como se fosse em câmera lenta, ele destravou a tela, deu dois toques mais e levou o aparelho até o ouvido. E, aparentemente, a pessoa para quem ligava não contestou.
Ele tornou a insistir.
E o nome de Rachel Berry surgiu dos lábios dele…
“Srta. Berry, desculpe por ligar a essa hora…”, escutou a voz do cuidador, nervoso.
“Nervoso…”, murmurou Quinn, acompanhando aquela conversa como se não estivesse acordada. Era como se estivesse adormecida, sonhando… Era quase onírico, quase irreal. As expressões no rosto de Holmes, que demonstrava que ele estava insatisfeito consigo mesmo… Era como se ela acompanhasse tudo de um outro ponto de vista, que não o seu próprio. Uma sensação estranha de repartimento.
A voz dele, quase longe, ressurgiu em seus ouvidos que pareciam desregulados quanto ao som. A voz masculina apenas lhe alcançava, porém era indiferente e fora de sua realidade. Aliás, estava realmente ali?
“Estou bem aqui…”, murmurou e sabia que, apesar de ser a sua boca, não foi ela quem disse essas palavras. Foi ela! E estava bem ali! De maneira estranha Quinn sabia que não estava sozinha, que a sua “outra” parte estava com ela, em estranha harmonia. Por quê?
“Apenas me responda:”, a voz de Holmes a alcançou outra vez, “Quinn acabou de entrar em casa. Ela escapuliu durante a noite, enquanto eu dormia…”.
“Eu não escapuli…”, falou, um pouco aborrecida por aquele homem falar assim, como se ela fosse alguma espécie de fugitiva.
Porém, apaziguou-se ao perceber o quão ele estava decepcionado com o que aconteceu, com o fato de ela ter “escapulido”.
O alívio na expressão da face do homem e o tom de voz agradecido ao findar a ligação a fez entender que sim, ela realmente passou a noite com Rachel Berry. E apenas isso. E agora, estava sozinha. Sua outra parte se resguardou.
Meneou a cabeça e encostou-a no espaldar do sofá.
A ideia de que esteve com Rachel Berry e não se lembrava era de aborrecer. E por que estava sozinha no Central Park?
“Eu não deveria estar com ela…”, murmurou quando o homem sentou-lhe ao lado, no sofá.
Holmes suspirou.
“Talvez não devesse, mas ela disse que sim… Certamente antes de ir até o Central Park”, murmurou.
“O que ela disse exatamente?”, perguntou. Sentia-se diferente… Nada lhe importava, ao passo em que precisava, desesperadamente, ter algum conhecimento de onde esteve e o que fez. Era uma dicotomia para sua cabeça, meio esvaziada e quase em branco total, que – ao mesmo tempo em que não importava o que fez, pois havia o silêncio e uma sensação de esvaziamento real que há muito não sentia, necessitava preencher os espaços em branco. O branco que aquela sua outra parte, mais jovem, com voz manhosa e mimada, apaixonada por Rachel Berry, lhe causava, pois tomava a sua consciência para ela.
“A Srta. Berry apenas confirmou que você passou a noite na casa dela…”, ele insistiu na resposta, porque não tinha outra e nem detalhes que pudessem aplacar a frustração de Quinn por saber que “passar a noite” era muito genérico… E esperava que Rachel Berry fosse mais coerente e sensata que ela e não deixasse que a sua outra parte, que ainda não conhecia bem, fizesse algo fora do contexto.
“Foi ela…”, murmurou a loira, quase apenas para si mesma, porém, de tão próximos, Holmes a escutou e assentiu, antes de completar com voz sumida:
“Acredito que sim…”.
“Acho que você deveria telefonar para Eleanor…”, ela comentou e se olhou, sem perceber o espanto na face do cuidador, diante da inusitada sugestão de telefonar para a médica.
Quinn se analisou. Precisava de um banho. E dormir. Sentia-se estranhamente cansada. E como se alguma coisa lhe tivesse entrado fundo na alma, sujando-a de alguma maneira. E isso não estava ligado ao fato de ter os pés descalços e sujos.
Ou tinha?
Não sabia…
E o fato de não saber a deixava fora de sua ordem. Sem o chão onde pisar. Queria controlar a situação, mas não sabia como! E desconfiava que, ainda que tudo o que estava lhe acontecendo fosse sobre Rachel Berry, não sabia como contornar a conjuntura e se estar distante dela seria algum fator que a fizesse não se perder de si mesma.
“Quer que eu telefone para a Dra. Parker?”, a voz completamente incrédula de Holmes a trouxe de volta dos devaneios.
Ela o fitou e assentiu.
“Será bom ela conversar com a Berry e comigo… Acho”, analisou.
Era o mais lógico! Não sabia o que estava acontecendo e precisava tomar as rédeas da situação o mais rápido possível! Ao menos, tentar.
“Eu só preciso…”, olhou-se novamente e se sentiu, pela primeira vez, mortal no sentido mais cru da palavra. A forma como saiu de casa, em pijamas… A maneira como estava… Deveria parecer insana! Louca, desvairada e sem controle!
Ah! O controle! Precisava retomá-lo! Precisava controlar isso que estava a lhe acontecer! Entretanto, o que mais a atordoava era que, assim como saiu à noite e foi até a ex-namorada, poderia morar no Japão ou até no lugar ainda não descoberto sobre a Terra que, de alguma maneira, a sua outra “Eu” chegaria até a Berry. O que significava que ela, Quinn Fabray, não tinha controle algum sobre seus atos.
Deveria haver algum tratamento para isso! Alguma forma de refrear ou fazer isso parar! E era mister que Eleanor estivesse bem preparada para ela, pois isso, de outra “pessoa” lhe tomar a consciência era demais!
Espaços em branco eram demais.
E ela já tinha muitos desde o acidente.
Apagões eram terríveis.
A incerteza de não saber o que fez ou o que poderia fazer era de arrebatar o chão.
Qualquer incerteza, na verdade, era negativa.
Incertezas amedrontam e causam insegurança. Algumas vezes, fazem até tremer o coração e causam medo.
Só que ela desconhecia esse medo, embora soubesse que não poderia fugir e nem fingir. Ela só precisava remediar a situação. E deveria, primeiro, conversar, por mais que isso a desgostasse, com Eleanor.
Deveria confessar que ouvia a voz da outra Quinn?
Se contasse, o que a médica faria?
Qual a possibilidade de se ver diante de uma possível internação?
Meneou a cabeça em negativa.
Isso não aconteceria. Não permitiria!
Suspirou e mirou o cuidador:
“Apenas…”, começou, pensativa e analítica, “cuide de marcar a consulta para quando eu me sentir melhor. Mais… Equilibrada. Talvez amanhã… Entretanto, não alongue mais esse momento. Eu preciso me livrar disso, dessa mulher que eu não sei quem é…”, murmurou, embora sentisse que – sem conhecer a razão – conhecia, sim, a “mulher” que dizia não saber quem era. Mesmo sabendo nada do que ela fazia ou de como agia.
§§
Rachel colocou o celular sobre a mesa de noite, devagar, com o olhar perdido e um espanto dentro dela.
Encostou-se à cabeceira, respirou fundo, fechou os olhos e passeou as mãos sobre a próprio corpo, sentindo a própria nudez.
Abriu os orbes marrons de golpe.
Toda a recordação da noite passada lhe atingiu como um bloco de pedra direto na cabeça.
Ergueu-se da cama e, a passos largos, caminhou até o espelho de corpo inteiro no walk in closet. Acendeu as luzes e examinou-se com minúcia.
O pescoço de um lado tinha a marca vermelha de um dos arrebatos de Quinn.
Girou o corpo e o olhou com cuidado. Havia uma ou duas outras muito sutis, que as roupas cobririam. A do pescoço era um caso para se pensar em maquiagem. Ou, como se apresentaria à noite ao elenco antes do musical com essa marca? E ainda estava, “oficialmente” de luto pelo marido, ou melhor, ex-marido, morto.
“Cristo! Ela realmente…”, emudeceu. Não tinha adjetivo ou qualquer classe de palavra que pudesse expressar o que sentia sobre Quinn e a maneira como ela a tomou.
Sorriu e se aborreceu consigo mesma. Não era para estar feliz! Quinn não era Quinn, embora fosse completamente Quinn! Doce, sorridente, atenciosa, apaixonada, devassa…
Quando entrou na suíte que jazia à meia luz, estancou à porta e perdeu a fala quando a viu no outro extremo, também parada à porta, a que dava para o restante do apartamento.
“Quinn?”, foi apenas o que conseguiu soltar, espantada. Ela estava de pijamas sob o sobretudo e de… Pantufas? O cabelo longo solto e meio destemperado pela brisa fria que cobria a noite de Nova Iorque.
Rachel percebeu quando a loira seguiu seu olhar até seus pés e se encolheu entre os ombros, escondeu as mãos atrás das costas e se balançou para frente e para trás e, com a voz meio tímida, explicou:
“Eu as encontrei enquanto fuçava o closet…”, confessou, como se tivesse cometido um crime.
“Oh!”, foi o que conseguiu expressar diante da figura tão… Quinn! Uma Quinn que lhe dava vontade de embalar e afagar. Tão oposta a Quinn advogada! E era esse mistério, essa coisa que certamente a psiquiatria explicaria e, provavelmente cuidaria, que a assustava. Assustava porque não sabia ao certo o que fazer, embora o seu apuradíssimo sexto sentido lhe dissesse que o correto seria apenas abraçá-la.
“Holmes sabe que você está aqui?”, perguntou, caminhando devagar até ela.
O quarto à meia luz deixava-a menos insegura. E a luz direta nunca foi sua ideia de aconchego. E Quinn estava tão bonita! Os cabelos soltos, a face limpa e sem marcas, pálida; os olhos verdes e claros, que lhe deixava, cada vez que se aproximava, perceber-lhe a pupila que se destacava. Os lábios rosados, com o inferior preso entre os dentes.
Uma figura que beirava a inocência.
Uma mulher que não era em nada inocente, mas que agora parecia ser. E parecia pelo simples fato de uma peça que sua mente resolveu lhe pregar e assumir uma faceta completamente diferente! Um oposto, quase…
“Holmes? O negro que parece babá? Não… Ele não me viu sair”, respondeu, com um franzir de cenho que quase fez Rachel se desmanchar. “Eu senti sua falta…”, escutou o murmurar da loira e, após isso, ela, Rachel, não conseguiu se conter e, suspirando, encostou o corpo ao de Quinn, descansou a cabeça no ombro esquerdo dela e enlaçou-lhe o tronco com gentileza.
“Eu também senti sua falta, Q”, murmurou, com uma tranquilidade e um alento que há muito não sentia. E sorriu quando sentiu os braços da loira a enlaçaram também e a estreitaram um pouco mais. Sentiu Quinn lhe cheirar os cabelos e o som de satisfação que saiu dela.
Era tudo tão aconchegante!
O momento.
O lugar.
Quinn.
O corpo de Quinn.
O afeto de Quinn…
Os olhos estavam fechados.
Ficaram abraçadas, apenas esquentando e sentindo uma a outra. Um abraço que, apesar das roupas, era o mais íntimo que experimentou. Era como se aquela Quinn fosse a sua Quinn, que não levava segredos e que acreditava que a confiança era a base de qualquer relação.
Confiança…
Quebrou a confiança de Quinn e quebrou Quinn.
Ergueu o rosto devagar e a fitou.
“Eu…”, começou a falar, sentindo-se insegura e atordoada pela maneira como os olhos verdes lhe passeavam por toda a face, inquietos, como se precisassem se certificar de que ela, Rachel, era real, era de verdade. “Eu acho que…”, recomeçou a falar, sob o olhar atento da namorada, “seria bom eu telefonar para o Holmes e avisar que você está aqui”.
Então, Quinn inclinou o rosto para direita e pareceu pensar um pouco antes de questionar, e sentiu um desejo quase incontrolável de beijá-la:
“Por quê?”.
“Para ele não se preocupar”, informou com obviedade.
“Tá…”, Rachel escutou o consentimento da loira e soltou os braços que a estavam enlaçando.
Mas, surpreendeu-se, a loira não soltou os braços que estavam ao seu redor e, com um sorriso de pura traquinice, girou o corpo e a levou, colada a ela, em direção à porta, onde a encostou. Perguntou-lhe, num sussurro doce ao pé do ouvido, que quase a fez desfalecer:
“Pode me dar um beijo primeiro?”.
“Quinn…”, gemeu, sentindo-se a ponto de perder o controle. Aquilo era muito para ela, que amava a mulher que a prendia com o corpo contra a porta e era terrivelmente bonita e gentil, mesmo com aquele estranho estilo de vestimenta.
“Oi, meu amor”, escutou o sussurrar da ex cheerleader, que demonstrava uma excitação contida ao ouvir como o seu nome foi praticamente gemido.
“Um beijo?”, seu sexto sentido alertou que só deveria abraçá-la, não ceder a beijos. Mas… Como não ceder? O cheiro de Quinn lhe adentrava às narinas, o corpo dela a apertava devagar contra a porta e fazia com que todos os seus botões fossem acionados, causando um revoar de borboletas dentro de seu estômago que era de enfraquecer as pernas. Sentir Quinn era de enfraquecer…
“Sim…”, voltou ao instante ao escutar a voz rouca e de menina sussurrada, “um beijo”.
O temor a assolou.
Não deveria fazer isso! Não era certo! Quinn não era Quinn! Não era a Quinn sem memória, a Quinn real!
O ar lhe fugiu quando sentiu os lábios macios sobre os próprios e afogou um gemido. E quando a ponta da língua da ex-namorada lhe passeou por entre os lábios, não resistiu e sentiu quando foi invadida. A mão da loira lhe sujeitou a cabeça pelos cabelos, de maneira segura, porém sem machucar e só lembrou de respirar quando ela quebrou o beijo. Sentiu os orbes verdes sobre toda a sua face e quando a loira inclinou o rosto para encaixar a boca na sua, não teve como se opôr.
Sentiu-se esmorecer no instante em que, outra vez, a boca de Quinn tomou-a num beijo com uma fome quase descontrolada.
Não teria forças contra ela! Por mais que desejasse! Até porque o querer que nutria por Quinn era muito maior que o desejo de afastá-la, ainda que soubesse o insólito do que estava por acontecer.
Deixou de corresponder ao beijo quando a ideia de que a loira poderia recobrar os sentidos e a situação entre elas ficar ainda pior lhe assomou. Porque esta Quinn que ainda a beijava e sujeitava estava há quilômetros de ser a Quinn advogada, senhora de todas as respostas e razoabilidades.
Um desalento a tomou quando a loira, devagar, parou o beijo e a fitou, confusa. Escutou-a perguntar, insegura:
“Eu machuquei você, Rach?”.
Meneou a cabeça e sorriu, triste. E, com um fio de voz, respondeu:
“Não, Q. Eu só… Eu estou com medo de machucar você”, confessou, sem conseguir conter as lágrimas.
Ao contrário da Quinn que apenas lhe emprestou o lenço naquele dia estressante, sentiu como esta a enlaçava num abraço e beijava-lhe a testa.
“Você não vai me machucar, Rach… Porque você me ama”, explicou de maneira tão simples, que tal simpleza quase a desmontou ainda mais.
Não conseguiu resistir ao se sentir ser levada até a cama, abraçada cuidadosamente pela esposa.
Deixou-se sentar com a loira ao lado, na beirada do colchão.
“Abrace-me”, escutou Quinn pedir e elevou os olhos até encontrar os verdes. Verdes quase dourados e… E o quê? Era um olhar tão distinto que não sabia explicar. Um olhar que poderia ter afeto? Isso era possível? E se era, como? Como explicar esse olhar que diferia do olhar seco e frio com o qual se encontrou pela primeira vez após anos, na Fabray&Advogados? Um olhar de enfado e cinismo não se transformava num olhar assim, que parecia carregado de afeto. Um olhar tão… Morno!
“Abrace-me, Rachel”, escutou o pedido sussurrante outra vez e, da maneira menos incômoda por estarem sentadas na beirada do colchão, envolveu o tronco da loira e descansou a cabeça sob o queixo desta, que a envolveu também.
Soluçou baixo, enquanto sentia Quinn espalhar beijos ternos e longos por sua cabeça, testa, descendo devagar pela ponte do nariz até chegar a ponta dele, onde plantou um bem delicado, que conseguiu lhe tirar um sorriso em meio as lágrimas silenciosas que ainda caiam-lhe pela face.
“Garotas bonitas não deveriam chorar”, escutou a loira e sentiu-se presa do olhar dela. “Principalmente a garota mais linda que eu já pousei os meus olhos”.
Estas palavras de Quinn a deixaram sem reação e, assim, sua boca foi – outra vez e apaixonadamente – tomada pela de Quinn que voltou a sujeitá-la com delicadeza.
Correspondeu ao beijo.
Precisava desse beijo.
Precisava ser outra vez amada pela pessoa que era o alvo do seu amor. Precisava senti-la, mesmo que fosse por uma única e última vez.
O corpo de Quinn foi se encaixando ao seu de maneira quase perfeita e se deixou ser deitada sobre a cama.
Não se opôs quando a loira se levantou e a ajeitou com cuidado e, tirando o sobretudo devagar deixando-o cair no chão do quarto, mirou-a com olhos que pareciam adorá-la.
“Eu posso deitar perto de você?”.
A pergunta de Quinn, rouca, a fez assentir. E se retesou quando viu a tranquilidade com que a ex-namorada desabotoava botão por botão da blusa do pijama.
“Quinn?…”, exalou, sentindo-se tensa.
“Está frio”, a voz da loira soou tranquila, “eu posso lhe aconchegar melhor se estivermos pele contra pele”, sorriu inocente.
Rachel engoliu em seco. Como Quinn conseguia ser tão descarada e pulcra ao mesmo tempo?
Em emudecimento a viu deixar a blusa do pijama cair sobre o chão e sentiu o ar lhe faltar ao vê-la com o torso nu. Linda! Os seios pequenos com as auréolas pequenas e os mamilos tensos pela mudança de temperatura, embora o quarto estivesse agradável. O abdome plano e sem marcas. A palidez da pele era ressaltada pela luz do abajur acesa sobre a mesa de noite.
Acompanhou, com atenção, as mão de Quinn tomarem o cós da calça do pijama e começar a baixá-la devagar, surpreendendo-a por não levar roupa de baixo. Completamente nua e de pantufas, que foram retiradas uma com o pé esquerdo e a outra com a ajuda do pé direito, atiradas uma para cada lado, sem cuidado.
“Posso?”.
Rachel precisou piscar algumas vezes até compreender o pedido sussurrado com um sorriso que não era tímido e nem descarado. Era apenas um sorriso sincero, um pedido de permissão.
Assentiu e deu espaço para a loira, que se deitou com cuidado e puxou o lençol sobre as duas.
Os olhos castanhos não conseguiram se manter do tamanho normal quando o corpo pálido se virou e, calmo, se colocou sobre o moreno coberto pelo penhoar sobre a camisola. Encontraram os âmbar, que se prenderam nos marrons.
Não se mexeu quando a mão destra da loira foi até sua face e a acarinhou.
“Por que está com medo?”.
“Porque… Porque eu não quero perder você outra vez…”, não conseguiu mentir ou omitir a verdade. Estava morta de desejo por esta Quinn e morrendo de medo de que a Quinn fria e sem coração aparecesse e acabasse com o pouco que havia entre elas.
“Não vai me perder…”.
A voz murmurada e com um sorriso doce de Quinn lhe penetrou os tímpanos e simplesmente acreditou nas palavras da namorada. Ela não a perderia…
Sentiu a boca da loira sobre a sua e não resistiu mais. Beijou de volta. E como Quinn estava beijando bem! Como ela conseguia excitá-la tanto com a boca e a língua que a invadia, provava, lambia de maneira lenta e úmida, umedecendo-a ao mesmo tempo em que lhe dava mais sede?
“Quinn!…”, afogou o que seria um grito quando a mão lenta e de carícia gentil lhe passeou pelo interior da coxa e, com os quatro dedos da mão, acariciou-lhe o sexo por sobre a lingerie negra que, sabia, estava mais que molhada.
Sentiu-se corar.
E, sem saber o porquê, encarou a mulher que a fazia quase perder todo o controle e encontrou olhos verdes escuros, quase negros de um desejo explícito e quase cru.
Estremeceu.
“Quinn?”, murmurou, sentindo-se gelar.
“Sim?”, o tom da pergunta doce fez o coração rimbombar de excitação em vez de medo.
“Eu só… Só…”, era difícil falar, pois a loira se ergueu e sentou sobre ela e fixou os olhos no corpo coberto pelo penhoar sobre a camisola fina.
“Acho que devíamos igualar esse jogo…”, sorriu e prendeu o lábio inferior vermelho pelos beijos sob os dentes e a mirou com diabrura, “e tirar essa camisola linda e sexy que você leva… Oh! E sua lingerie também”.
Rachel engoliu em seco diante da imagem nua e descaradamente excitada de Quinn.
“Posso?”.
A voz murmurada da loira a fez acenar com assentimento, quando esta pediu permissão para desnudá-la.
Com gentileza, sentiu as mãos pálidas desfazerem o laço do penhoar e abri-lo, deixando ver a camisola fina. Estas mesmas mãos ergueram seu tronco e, com um sorriso, levou-as lentamente, uma a cada lado do penhoar, e o tomou entre os dedos com o cuidado de roçar a pele na sua e o fez escorregar por seus braços. Devagar, levantou-os para, com extremo cuidado, retirar a camisola.
A morena sentiu-se repentinamente tímida diante dos olhos que a escrutinavam com atenção.
“Tão linda…”.
O murmurar embevecido de Quinn a fez erguer os olhos. Como ela ainda poderia vê-la linda? Seu corpo, apesar de em forma e magro, havia mudado após a gravidez. Mudanças que nem os cremes mais caros e toda a ginástica do mundo fariam mudar. Os seios, apesar de belos, já não possuíam a mesma firmeza por causa da amamentação (e não era simpatizante, como Santana, do silicone). As cadeiras, antes estreitas, agora eram mais largas. Detalhes imperceptíveis aos olhos do público, mas que ela sabia que existiam. Entretanto, Quinn a apreciava da mesma maneira. Como se ela fosse a mulher mais linda de toda a face da Terra.
Era apaixonante!
Era gentil!
Era puro!
Era excitante!
E era assustador!
“Quinn…”, tentou falar, mas os lábios úmidos da ex cheerleader pousaram-lhe sobre o pescoço e sentiu-a sugar seu ponto de pulso e, pouco depois, sentiu como o nariz roçava a mesma pele que se arrepiava justo onde antes a boca estava.
“Sim, meu amor”, o ouvido moreno escutou o ronronar loiro e Rachel tomou a face desmemoriada entre as mãos e a mirou com atenção.
“Promete que será cuidadosa comigo?”, perguntou, os olhos aguando outra vez.
O sorriso enamorado de Quinn e o gesto jovial do juramento dos escoteiros que findava sobre o coração fez Rachel sorrir e se sentir dez anos mais jovem, como essa Quinn lhe parecia. Uma garota apaixonada de todo o coração. Um coração frágil que ela, por descuido e descaso deixou cair. E então ele se desfez em minúsculos pedaços… Colaram até, mas ficaram faltando pequeníssimos cacos, que deixaram espaços vazios e ocos, mortos, como as memórias da dona do coração despedaçado.
“Eu prometo Rach”.
A voz rouca, que com toda a rinoplastia para endireitar o desvio de septo, ainda saia sutilmente fanha, porém rouca e sensual, trouxe-a de volta. Mordeu o lábio inferior e passeou os olhos chocolate pela face pálida que a fitava com desejosa expectativa. Rachel, ainda segurando o rosto de Quinn entre as mãos, deixou os olhos viajarem pelo corpo pálido e torneado. Benditos treinos que a treinadora Sue Sylvester imprimia as cheerios! Quinn era tão perfeita para ela! Os seios pequenos encaixavam perfeitamente em suas mãos pequenas. Quando Quinn deitava de bruços e ela sobre as suas costas, seu ventre encaixava e apreciava o contato com as nádegas da loira. E que nádegas! E as pernas grossas e musculosas que ela insistia em resguardar sob vestidos ou sobretudos sempre com dois dedos acima dos joelhos?! Entretanto, quando colocava um vestido mais apertado… Era uma branquela com bunda de mulheres latinas, redonda, firme e farta! Quinn de calças skinny Black Orchid, stilettos Loubotin na versão corazón e uma blusa de mangas três-quartos Carolina Herrera ficaria de matar!
“Você é tão linda, Quinn!”, não conseguiu conter o embevecimento, “e eu te amo tanto”, confessou de alma.
“Então eu posso beijar você inteira, sentir você e amar seu corpo e tentar, assim, desse jeito…”, a visão da loira mordendo o lábio inferior e baixando o olhar, antes de sussurrar: “tocar a sua alma?”, quase desmanchou-a. Rachel achou que Quinn foi tão brega e romântica! Não conseguia explicar. E não queria, muito menos! Importava que o amor se explicava a si mesmo, se não ficamos questionando ou procurando razoabilidade para algo que foge à razão. Assim como Quinn, que lhe fugia completamente da razão!
“Você precisa retirar a minha calcinha…”, murmurou e sorriu para a loira que franziu o cenho e se deu conta de que a parte mais, ou quase mais importante do corpo de Rachel, ainda estava coberta.
Adorou quando um sorriso pícaro surgiu nos lábios rosados de sua Quinn. Só sua e de mais ninguém. Uma Quinn que nunca seria de Alex Bishop e de nenhuma outra. Uma Quinn que só aparecia para ela. Que se confiava a ela, como a Quinn advogada não se confiava a pessoa alguma. Nem a si mesma, porque duvidava da própria sanidade.
Viu a namorada desmontar-lhe e ficar de joelhos ao seu lado, atenta. Inclinou o corpo para trás e se apoiou nos cotovelos e fincando os pés no colchão, ergueu a pélvis e ouviu um “Oh!” abafado escapulir dos lábios loiros, antes que as mãos gentis e pálidas lhe tomassem com cuidados as bordas da lingerie rendada e a descia devagar e cuidadosa, acariciando a pele morna e morena conforme retirava o delicado tecido. E Rachel quase teve um orgasmo quando viu Quinn olhar a peça preta com atenção e, após, levá-la ao nariz, aspirando o cheiro do desejo que umedecia-lhe mais ainda agora.
“Quinn…”, gemeu e voltou a se sentar, com a loira voltando a se colocar sobre ela, “por que não me beija?”, perguntou.
Sentiu os olhos verdes escrutiná-la inteira e acompanhou a maneira calma como a loira inclinava a face e entreabria os lábios, deixando ver a língua molhada que desejava muito tomar e provar.
Quando as bocas se encontraram e as línguas se tocaram, gemeram em uníssono, e Rachel soube que não deveria ter medo. Quinn lhe faria amor. Sua Quinn. Literalmente e unicamente sua.
Deixou-se empurrar e ser deitada languidamente pelo corpo pálido, enquanto suas bocas não se separavam nem para respirar.
Envolveu os braços ao redor do tronco loiro e passeou as mão pelas costas de Quinn, sentindo-lhe a maciez da pele, o calor que emanava dela. Avançou e gemeu dentro dos lábios que devoravam os seus ao alcançar a bunda que lhe atraía demais e apertou-a.
Sorriu na boca de Quinn ao engolir o gemido que ela soltou quando os sexos se comprimiram, aumentando a excitação.
Enterrou os dedos das mãos na cabeleira da namorada e quebrou o beijo, olhando-a com amor e tesão. Duas faces que se complementavam nela. E em Quinn não parecia ser diferente.
Abriu as pernas e enlaçou o quadril da cheerleader com elas, ao tempo em que empurrou a própria pélvis e criou um choque que lançou ondas de prazer pelo corpo e fazia com que pulsasse por Quinn cada vez mais forte.
“Quinn…”, gemeu no ouvido da loira, “entre em mim… Por favor”, pediu, com um esforço enorme para não se tocar e acabar com aquele tormento de desejo que só poderia ser aplacado completamente pela mulher que estava sobre ela, moendo seus sexos e fazendo-a ver estrelas douradas, prateadas, alaranjadas… Um arco-íris inteiro!
Observou, respirando com dificuldade, a esposa erguer-se e descer devagar pelo seu corpo, com beijos molhados que lhe alcançaram o seio direito e a língua serpenteou ao redor da auréola e sentiu o mamilo ser preso pelos lábios.
“Q…”, murmurou e mordeu o nó dos dedos e elevou a pélvis em busca de maior contato quando sentiu que a língua loira brincava com seu seio.
Engoliu em seco quando latejou tão forte que doeu.
A loira seguiu descendo pelo abdome e lhe prendeu as cadeiras na cama, a fim de impedir seu desespero.
“Estou bem aqui, Rachel”, escutou-a num tom que buscava lhe apaziguar a ânsia de querê-la inteira para si.
Olhou-a e viu quando ela submergiu por entre suas pernas. E gemeu quando sentiu como ela lhe assoprou o sexo molhado, justo sobre o seu ponto de pulso. E, num momento de racionalidade, pensou que usar a tática de Finn em imaginar alguém sendo atropelado era uma alternativa viável para não gozar apenas com as carícias que as mãos e a boca experiente de Quinn lhe faziam. Aliás, como ela ficou tão boa?
“Por Barbra!”, não se conteve quando dois dedos entraram nela e a boca lhe tomou o clitóris. Não conseguiria se segurar por mais tempo. Não assim, com Quinn chupando-a com uma destreza que lhe roubava o fôlego enquanto seus dedos entravam e saiam cadenciados, nem forte nem fraco, alcançando, não sabia como, um ponto lá dentro que lhe enviava ondas e ondas que cresciam cada vez mais.
Agarrou um travesseiro e cobriu o rosto para abafar os gemidos que não conseguia mais conter, enquanto era atada à cama pelos braço da loira que se refastelava entre suas pernas e a impedia de se movimentar pelo desespero de deixar vir o orgasmo.
“Quinn…”, o nome saiu abafado pelo travesseiro enquanto a dona deste entrava e saia, entrava e saia, entrava e saia e a língua ia e vinha em toda a extensão de seu sexo. E suas contrações eram cada vez mais fortes, engolfando os dedos que lhe arremetiam sem perder o ritmo e a força.
Gritou!
Gritou porque a satisfação do gozo foi tão intensa e a boca de Quinn não parava de sugá-la e os dedos seguiam arremetendo, agora diminuindo o compasso, enquanto seu sexo os esmagava. Atirou o travesseiro para o lado, em busca de oxigênio, enquanto o coração rateava dentro do peito e uma bomba de endorfina a tomou, amolecendo-a. As pernas perderam as forças e as deixou cair, esticadas uma de cada lado de uma Quinn que (bandida e ordinária) lambia os próprios dedos que estavam há pouco dentro dela. Que visão!
Fechou os olhos e suspirou.
Quando os abriu, Quinn estava esticada sobre ela, com o queixo descansando cuidadosamente entre seus seios.
“Oi, estranha!”, sussurrou a loira, sorrindo.
Rachel afagou-lhe os cabelos e riu, antes de responder:
“Oi, estranha!”.
“Acho que você desmaiou”, murmurou a loira, com um sorrisinho de satisfação na cara.
“Eu não desmaiei”, murmurou, porque a voz estava falha após abafar os agudos que Quinn lhe arrancou com maestria.
“Desmaiou sim!”, continuava sorrindo com orgulho de si mesma. Mas era um orgulho onde não havia a arrogância da Quinn advogada. A frieza de saber que o que fez foi ensaiado e estudado, calculado para ter o efeito desejado. Não… Sua Quinn tinha um sorriso bobo porque parecia feliz por satisfazê-la, por poder amá-la.
“Eu só adormeci… Acho”, sorriu mais quando a loira se ergueu sobre ela e deu-lhe um beijo sem língua na boca e se colocou ao lado dela.
A morena sentiu quando a loira a abraçou pelo abdome e, com o próprio corpo, foi fazendo-a girar até ficar de costas para ela. Sentiu-a colar o corpo ao seu.
“Descanse um pouco…”, murmurou.
Rachel assentiu, enquanto Quinn, sem soltá-la conseguiu arrumar o lençol sobre as duas. Suspirou e confessou para a loira, num fio de voz:
“Senti tanta falta disso”.
Um beijo lhe foi dado sobre a cabeça.
Então, adormeceu.
Voltou ao quarto e procurou a camisola e o penhoar. Viu as pantufas ali, jogadas uma para o lado direito e outra para o esquerdo. Ficou na dúvida. Deveria guardá-las? Ou deveria devolvê-las? Aliás, Quinn usava pantufas?
“Acho que não… Não a Quinn sem memória”, murmurou para si mesma, pegando-as e levando-as para o walk in closet, onde as guardou ao lado de seus sapatos com um sorriso tolo nos lábios.
Suspirou.
E meneou a cabeça ao se dar conta de que deveria colocar os pés na realidade e confessar para Holmes o que aconteceu. Provavelmente ele ficaria muito decepcionado com ela. Mas… Não se lamentaria! Não! Não mais. Não depois de saber, na sua ignorância acadêmica em psiquiatria, que em algum lugar bem lá no fundo, Quinn ainda a queria. Encararia os fatos. E se responsabilizaria por sua irresponsabilidade. Entretanto, sem poréns ou e se. Já estava feito. E foi bom… Muito bom!
“Quem sabe se a recordação pode
realmente prolongar as coisas,
entrelaçar as pernas, abrir
as janelas à madrugada
pentear o cabelo e ressuscitar
os odores, os ruídos, o tato.”
— Carlos Fuentes em La muerte de Artemio Cruz—
Holmes entrou no escritório após buscar Quinn no quarto. Ela deveria estar dormindo. Entretanto, não. Ela estava sentada na frente da tela do computador, vestida em blusa social, cabelos impecavelmente presos e a maquiagem mais forte que o normal, que lhe ressaltavam ainda mais a beleza, escrevendo no caderninho de capa de couro, com uma cigarrilha acesa queimando dentro do cinzeiro e mascando… Chiclete?
“Quinn”, chamou-a ao se aproximar da escrivaninha.
Ela continuou concentrada ali, no que fazia no caderno que usava para anotações em seus estudos de processos.
“Vai sair? Pretende ir ao escritório?”.
“Não…”, murmurou, atenta ainda ao que escrevia.
“Então…”, o cuidador queria entender, “por que está arrumada como se fosse trabalhar?”.
Ela levantou os olhos para ele e franziu o cenho.
“Como?”, perguntou e, em seguida, mirou ao redor. Os olhos pararam sobre a tela do computador e ela deixou a caneta cair. Devagar, desviou os olhos da tela para as anotações no caderno.
Uma conta.
Um cálculo de probabilidade onde os algarismos seis e um, a fração que representava um sexto e o resultado em percentual que apontava dezessete luziam numa letra que não era a sua. Era forte e dançava acima da linha, demonstrando vaidade ao extremo.
Espera!
Ela não escreveu aquilo.
Ela não se arrumou como se fosse para o escritório.
“Quinn?”, escutou a voz de Holmes e o fitou.
“Eu não…”, parou quando sentiu a goma sem açúcar quase descer pela garganta num acidente que poderia ser tolo e fatal. Colocou a mão com a palma aberta para o alto sob o queixo e cuspiu o chiclete de sabor menta, enquanto o cheiro da fumaça da cigarrilha mentolada lhe chegava às narinas.
Também não se lembrava de fumar!
“Quinn?”, o cuidador estava ficando com as antenas em pé.
“Eu não masco chiclete”, avisou.
“Eu sei…”, concordou.
“A outra Quinn mastiga essas coisas e fuma?”.
“Não sei, senhorita”, ele confessou.
“Eu não me lembro de como vim parar aqui e porque estou com uma página da internet sobre armas aberta e muito menos o que esta conta significa”, estendeu o caderno para o cuidador, ainda atordoada.
O homem olhou.
Franziu o cenho.
“Holmes?”.
Ele olhou a página da internet. Eram armas calibre 38, com tambores para seis tiros e de vários fabricantes e preços.
Olhou outra vez os números e as contas.
Sentiu o coração ratear.
“Holmes?”, ela o chamou outra vez.
“Eu não sei…”, murmurou, sem saber se estava certo ou apenas dando asas à imaginação.
“Não sabe?”, ela insistiu, desconfiada.
“Dra. Fabray”, ele começou, resoluto, embora inseguro no tom de voz, “parece que a sua outra personalidade andou pesquisando apenas armas de fogo com tambores de seis tiros, nenhuma pistola automática”, ele pareceu analisar as palavras.
“E?”, Quinn queria entender.
“Uma arma. Um tambor para seis tiros. Uma bala dentro do tambor. Uma chance em seis de essa única bala sair quando o gatilho for puxado. Ou dezessete por cento de probabilidade de morrer com um tiro na cabeça…”, engoliu em seco.
“E?”, ela se recostou na cadeira e o fitou com atenção.
“Parece que a sua outra personalidade está interessada em roleta russa”, ele arfou.
Quinn emudeceu.
“Eu nunca quis lhe causar nenhuma tristeza
Eu nunca quis lhe causar nenhum tipo de dor
Eu só queria tempo para lhe ver sorrindo
Eu apenas quero lhe ver sorrindo na chuva púrpura
Chuva púrpura
Eu só quero ver você se banhar na chuva púrpura”.
— Prince (I love you) em Purple Rain—
CONTINUA.
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