Sine Cordi
65 CAPÍTulo 65 - םה
Notas iniciais
“Transfere pro meu corpo
Seus sentidos
Pra eu sentir
A sua dor, os seus gemidos
E entender porque
Quero você!”
— Zélia Duncan em Sentidos—
Rachel olhou pela janela do quarto de hóspedes. A noite começava a se tornar mais fria com a chegada do Outono. Além do quarto principal, o que Quinn ocupava, este também tinha vista para o Central Park.
Observou a paisagem urbana que se estendia há muitos andares abaixo. Seria inspirador, não fosse a atual situação.
Suspirou. Ainda estava meio atordoada. Na verdade, ainda não acreditava no que lhe aconteceu. Estava casada com Quinn Fabray. Não como desejou, mas estava casada. E hospedada, por esta noite, na casa da advogada. Ela, segundo explicou, queria decidir quem seria os seus olhos em Rachel Berry. Ou seja, quem seria o homem que atuaria como sombra da cantora antes que ela colocasse os pés para fora do apartamento da advogada.
“Isso é tão ridículo!”, meneou a cabeça. E, talvez tardiamente, entendeu a razão de a advogada colocar alguém para vigiá-la…
“Para que eu não a traia…”, murmurou e olhou para a cama de casal do quarto, onde Spencer, que Quinn mandou buscar, dormia tranquilamente, como se nada de estranho estivesse acontecendo, ainda a desfrutar da inocência da infância
“Por que eu cresci e perdi minha inocência?”, perguntou-se e lembrou de sua “esposa”, numa noite de céu claro, quando tudo era mais simples e até mesmo tolo…
“Rachel”, a loira riu, “acho que é senso comum que você poderia ser colocada na categoria das miniaturas”.
A morena arregalou os olhos e abriu a boca, como se estivesse horrorizada com o comentário da namorada. Elas passeavam pelo Central Park e a noite estava linda. Quinn a chamou para verem a lua e entre tantos assuntos sem pé e nem cabeça que compartilhavam, entrou a categorização da altura das pessoas que andavam na rua. Foi divertido escutar Quinn falar sobre algumas pessoas e em que categoria elas se encaixavam até que o tema parou sobre a altura da judia.
“Você não é tão mais alta que eu”, argumentou.
“Definitivamente eu sou sim”, atestou, olhando a cantora de cima, apenas para comprovar a afirmativa que deu.
“Você é tão desonesta, Quinn Fabray”, falou, “eu não sei porque ainda brinco com você”.
“Bom, dependendo do tipo de brincadeira…”.
O olhar marrom voou para a face da loira, que ruborizou um pouco e continuou, com a voz num tom bem baixinho:
“Eu posso lhe dar algumas razões porque ainda brinca comigo…” a voz morreu.
Rachel estreitou os olhos e sorriu. Empurrou a namorada, de um jeito brincalhão e desajeitado:
“Você é tão descarada à vezes, Quinn Fabray, que eu me pergunto qual parte da Bíblia você deve gostar mais. E eu quase tenho certeza que é a parte da serpente tentando Eva no Éden”.
A fotógrafa deu uma deliciosa gargalhada e se benzeu. Ela até estava meio afastada da igreja, mas ainda respeitava o Sagrado.
“Eu deveria cobrar algum tipo de bônus para os seus pais”, comentou, ainda rindo.
A judia franziu o cenho.
E Quinn tratou de esclarecer:
“Bônus, porque não me deram uma mulher… Deram meia mulher”.
A judia pensou que a namorada estava brincando com a própria sorte…
“Quinn Fabray, essa meia mulher vai deixar você inteira com vontade de beijos e outras coisas que costumam se seguir a eles até que se retrate”, avisou, altiva.
“Okay…”, ficou séria e sussurrou com a voz meio rouca e a cara vermelha, “foi mal…”.
Rachel sabia que a loira estava acanhada. Apesar de ter ficado grávida ainda adolescente, e de já fazerem amor há muito tempo, ela sempre ficava envergonhada diante do tema sexo em alguma conversa, principalmente quando era ela quem começava a brincadeira. Quinn não sustentava muito o assunto. O curioso era que, na cama, ela era bem ardente e, até, um pouquinho indecente.
“Não acredito que está vermelha”, provocou.
“Eu já disse que foi mal…”, repetiu.
A cantora estancou e segurou com força a mão da namorada, fazendo com que parasse e se voltasse.
“O quê?”, murmurou.
Rachel a puxou para trás de uma das árvores mais próximas. Acarinhou-lhe a face bonita com afeto. Ficou na ponta dos pés e alcançou a boca da namorada, que a enlaçou pela cintura e se entregou ao beijo apaixonado.
“Eu amo você, Quinn Fabray”, sussurrou.
“Eu te amo mais”, sorriu a loira.
Rachel passou os dedos sobre os lábios. Quinn era tão boba e doce… Elas eram tão inocentes, apesar de estarem entrando na idade adulta e vivendo às próprias custas na Grande Maçã. A vida parecia mais fácil. Elas riam mais, brincavam mais e quase não se magoavam. Na verdade, Rachel analisou, talvez ela tenha magoado Quinn um pouquinho mais de vezes. E foi perdoada em todas… Apesar do orgulho “Fabray”, Quinn se isolava por um tempo e, após, ia a procura da namorada. As duas conversavam e se entendiam. Pensar em como jogou fora o amor da mulher que hoje era incapaz de demonstrar qualquer fio de afeto fazia-lhe pesar o coração.
Lembrou do beijo que roubou da ex-namorada há pouco mais de um mês. Ainda sentia aquele arrepio lhe percorrer toda a espinha quando a boca de Quinn estava na sua. E aquela sensação de cócegas no estômago, as tais borboletas… Nossa! As suas ficaram enlouquecidas!
Ainda ficavam…
Suspirou.
Quinn sempre dizia que a amava mais. Agora, havia uma inversão de papéis. Ela amava mais. Quinn não se importava com ela. Desejava-a apenas para… Deus! Nem sabia para que Quinn a queria! Bom, se fosse para alguma espécie de vingança, entendia.
“Como eu vou lidar com isso?”, perguntou-se, confusa. Lembrou de LeRoy e sobre o que ele lhe disse a respeito da ex-namorada, após ela desmaiar e sair carregada por Holmes quando a beijou…
O homem a mirou com afinco, silenciando-a. Falou, numa estranha tranquilidade:
“Estrelinha, o que você viu hoje foi uma parte, eu suponho, do todo de situações como esta. Quinn ficou frágil após o acidente. É emocionalmente instável… Embora pareça muito segura. Ela é muito boa em fingir… Exceto quando sente dor. Então, filha, observe. Aproveite a oportunidade e veja o quão grande é o pacote Quinn Fabray. Haverá momentos bons. Mas haverá muitos momentos ruins. Você precisará estar preparada se quiser seguir com a ideia de tê-la em sua vida novamente”, alertou.
“Pacote Quinn Fabray…”, murmurou. “Precisarei me inteirar de tudo relativo a saúde dela…”, analisou.
Então, interrompendo o silêncio, escutou o barulho de algo caindo e se quebrando.
Olhou para Spencer.
O menino não acordou com o barulho.
Sentiu o coração quase sair pela boca quando ouviu a voz de Quinn.
Ela parecia… Chorar?
Escutou a voz de Holmes falando com a loira.
Por que Quinn choraria? A pessoa obrigada a se casar não foi ela…
Mas, outra vez, ouviu a voz da ex-namorada falando coisas que não entendeu.
Deu uma última olhada no filho, vestiu o penhoar sobre a camisola e saiu do quarto.
Parou no corredor, ao escutar a voz chorosa da ex-namorada, que literalmente implorava:
“Tira essa dor de mim… Tira… Por favor…”.
A cantora sentiu o ar faltar. Quinn estava com dor de cabeça?
Como lidaria com essa situação?
Quinn não parecia muito coerente…
“Eu vou tirar…”, escutou a voz tranquilizadora de Holmes.
A loira continuou a falar durante cerca de cinco minutos, até a voz se tornar um murmúrio fugidio e cessar de vez.
Foi pega de surpresa pelo cuidador, quando este saiu da suíte.
O homem a mirou e, parecendo meio sem jeito, comentou, fraco:
“Ela não se lembrará amanhã… Então, se puder não comentar”.
Rachel meneou a cabeça e sorriu, confusa.
“Por que não comentar o que aconteceu aqui? Aliás, com que frequência isso acontece?”.
O homem passou a mão pela testa, parecendo cansado e com dúvida sobre o que dizer.
“Sr. Holmes, eu preciso saber com o que eu terei que lidar”, argumentou.
“Não se preocupe, Srta. Berry. Eu cuidarei dela. Não haverá preocupação alguma para a sua pessoa”, avisou.
A cantora discordou do homem:
“Não haverá preocupação para mim? Eu tenho um filho pequeno que, por acaso, está adormecido no quarto ao lado. Como acha que ele reagiria se acordasse? Está dormindo num quarto que não é o dele! E escutaria Quinn chorando! Acho que preciso me preocupar com bem-estar do meu filho. E, além disso, eu e ela estamos… Casadas. Dessa forma, eu penso que tenho o direito de saber. E entender a razão de Quinn não poder saber o que aconteceu”.
“Ela não vai lhe dar muita atenção, Srta. Berry. E acredito que, pela manhã, estará de volta ao seu apartamento. Assim que não há com o que se preocupar por hora”, procurou desconversar. Holmes pensava que, por agora, o ideal seria que todos tentassem descansar.
“Por hora…”, repetiu as palavras do homem, “e depois? O que acontecerá? Eu estarei aqui quando ela tiver outra crise e, realmente, quero muito saber como lidar com isso”.
O homem suspirou.
A cantora era uma mulher… Teimosa!
Percebendo que ela não tinha intenção de deixá-lo, convidou-a a acompanhá-lo até a sala de jantar. Serviria um chá e poderiam conversar, apesar de avisar que não poderia tirar todas as dúvidas dela.
Rachel concordou. Tentaria aproveitar ao máximo o mínimo que recebesse.
Só queria saber o que seria dali para frente. Ou, pelo menos, ter uma ideia.
Assim que o homem se dirigiu para a sala, dizendo que arrumaria a mesa, ela abriu a porta do quarto de Quinn, devagar.
Estava na penumbra. Ainda assim conseguiu divisar a silhueta da ex-namorada adormecida sobre a cama. Ela parecia estar num sono inquieto…
Menou a cabeça. Se pudesse ir até lá… Se não estivesse tão assustada agora…
“Senhorita Berry”.
A voz tênue de Holmes a fez pular de susto.
Xingou um palavrão silencioso e seguiu o homem. O coração aos pulos.
“O que deu a ela?”, perguntou assim que se sentaram à mesa e o homem a serviu. Pegou a xícara, assoprou o líquido a fim de esfriá-lo enquanto mirava Holmes.
O cuidador respondeu que foi um calmante injetável. O efeito era mais rápido. Quinn, provavelmente, dormiria até o amanhecer. Ou, quem sabe, até um pouco mais.
“E as dores? Terão desaparecido? Ela pareceu inquieta”, questionou e bebeu praticamente toda a xícara de chá.
O homem assentiu (surpreso com a sede da cantora), porém disse que poderia ser um efeito provisório. As dores estavam mais constantes, entretanto e a princípio, deveriam agradecer pelo fato de o mal retroceder e a advogada dormir.
“É provável que não a veja pela manhã. E, se ela sair do quarto, também é possível que esteja meio alheia. Não estranhe”, ele continuou.
A cantora suspirou.
Sentiu o peito apertar.
Como lidaria com a advogada?
“Eu estou insegura agora…”, falou.
O cuidador assentiu e atalhou:
“Eu sei que o seu dia foi cheio de surpresas. Imagino que esteja, ainda, atordoada. Deixe que eu me responsabilizo pela Quinn…”.
“Não é só a Quinn! É toda a situação. Ela é minha esposa agora! Acho que tenho de saber o que acontece com ela…”.
“Srta. Berry”, Holmes era tranquilo, “ela vai evitar que a veja em momentos como esse. Vai mantê-la longe. E esse…”, suspirou, “casamento e todas as coisas que ela lhe falou serão postos de lado e poderá ir embora e viver a sua vida”.
A judia o fitou com surpresa.
Do que ele estava falando?
“Está a me dizer que a Quinn arquitetou todo esse plano para se divertir e depois… Acabou?”.
“Analise o que ela lhe disse! E se tranquilize”.
Rachel meneou a cabeça, incrédula.
“O que está a me dizer?”, indagou.
Ele suspirou e, pensativo, comentou:
“Ela não vai lhe entregar para a polícia. Ela sabe que não pode. E, se pudesse e quisesse fazer isso, já teria feito. Não é da natureza dela! Com toda a falta de memória e tudo de mal que ela possa parecer, Quinn nunca faria algo assim. Se você quiser ir embora, vá. Eu garanto que ela não fará coisa alguma”.
“Então ela teve todo o trabalho de preparar uma armadilha para mim e não fará coisa alguma se eu… Escapar?”, riu, incrédula, “eu lamento, mas não consigo acreditar em você e confiar em Quinn”.
“Senhorita”, Holmes a mirou, “ela não preparou uma armadilha. Ela lhe contou uma história”, explicou.
A judia piscou algumas vezes. Qual a diferença, neste caso, entre armadilha e história? O que saiu da boca da ex-fotógrafa não pareceu apenas um conto da Carochinha…
“Eu não consigo analisar a sua fala. Eu estou, ainda, meio anestesiada. É como uma situação surreal”, confessou.
O homem retorquiu que ela, Rachel Berry, não precisava analisar a fala dele. Ela apenas deveria ir embora. Não haveria retaliação da parte de Quinn.
“Eu não vou deixá-la”, avisou. “Já cometi este erro uma vez. Não o cometerei de novo”, foi decidida.
“As circunstâncias são outras”, ele lembrou.
A cantora sabia. Quinn não era a mesma. Quinn não sentia. Quinn só queria se vingar. E, também, Quinn lhe parecia muito perdida… Porém, estavam próximas. Precisava aproveitar a oportunidade.
“Não estão próximas, senhorita”, o cuidador tentou ser ameno na fala, “ela só está jogando. Não guarde ilusões ou semeie esperanças, porque estará se enganando”.
Rachel balançou a cabeça em negativa.
Não sabia o que fazer ainda. Apenas sabia que não deveria deixar a ex-namorada. Não outra vez…
“Não se sinta culpada ou responsável, Srta. Berry. Quinn ficará bem. Porém, eu não sei se poderei garantir isso se continuar por perto”.
“O que quer dizer?”, ela o fitou com os olhos atentos.
“Quero dizer que ela, emocionalmente, pode quebrar porque a senhorita parece ser o calcanhar de Aquiles dela. Se a ama como diz, apenas vá embora”.
Apesar das palavras, Holmes foi atencioso e cavalheiro. Ele só queria que a atriz entendesse que a advogada não ficaria melhor com ela ali. Ainda que não fosse algo bom de se dizer e ser escutado pela judia, tão delicada e – aparentemente – enamorada.
A cantora, apesar de toda a gentileza do cuidador, sentiu-se atingida pelas palavras dele. Ele achava que ela seria capaz de fazer mal para Quinn? Não…
“Eu… Eu agradeço pelo chá…”, levantou-se, “preciso ver o meu filho”, desculpou-se nervosa.
Holmes meneou a cabeça e falou, antes de que algum mal entendido ficasse sobre os dois:
“Eu não a estou culpando, Srta. Berry! Eu apenas sei que essa proximidade não será boa. Para nenhuma das duas. Não se sinta incomodada comigo. Eu não tenho más intenções”, explicou.
Ela assentiu. “Boa noite”, despediu-se e saiu sob o olhar decepcionado de Holmes.
“Seria tão mais fácil se apenas me escutasse…”, murmurou para si mesmo, quando a atriz sumiu pela porta que levava para a sala de estar e, dali, para a suíte que ocupava.
“Todo o inferno está contido nesta palavra: solidão.”
— Victor Hugo -
Rachel entrou em silêncio e se deitou ao lado de Spencer. Observou-o com amor. Trouxe-o, cuidadosamente, para perto e o envolveu com os braços. O pequeno se aconchegou ao corpo da mãe.
Por que, pensou, Holmes lhe garantiu que Quinn não a mandaria presa se não fizesse suas vontades? Ela pareceu tão firme e sem culpa alguma quando discorreu sobre como a colocaria na prisão, como tinha tudo arquitetado nos mínimos detalhes… Deus! Era tão difícil pensar como Quinn! Era tão complicado acompanhar os emaranhados que ela arrumou com tal organização que quase pareciam certos e perfeitos. Quase… Onde estava a falha na história de Quinn que provaria que a ex-namorada só estava brincando de “gato e rato” com ela?, indagou-se Rachel. Aliás, Quinn estava brincando? Não pareceu… Entretanto, Holmes parecia tão seguro ao afirmar que poderia ir embora. Ele conhecia realmente Quinn ou só pensava que conhecia? Porque ela, Rachel, conhecia Quinn. E, quando estavam no McKinley, Quinn costumava blefar para tirar vantagem…
Meneou a cabeça e riu, incrédula. Como poderia pensar uma asneira dessas? Quinn não estava blefando agora. Não mesmo! Ela tinha uma história muito bem tramada e tinha o policial responsável pelo caso sob suas asas. Como alguém tão cheia de argumentos, de fotografias, de cartas de amor que Marco escreveu, com tudo isso, poderia blefar? Quinn pagou ao detetive para investigar todo o passado de Marco! Sabia que o rapaz nutria sentimentos românticos por ela! Sabia de tudo! Por que ela se daria ao trabalho de saber tanto para apenas brincar?
“Não… Ela não está brincando…”, murmurou, insegura em como agir. Sabia que deveria aproveitar o máximo de contato que houvesse entre as duas, ainda que seu sexto sentido lhe dissesse que seria bem pouco, para tentar tirar a ex-namorada do casulo que construiu e no qual se escondeu.
“Não se deve quebrar o coração de ninguém…”, murmurou para si mesma, sentindo-se, repentinamente, profundamente triste e cansada.
§
Acordou num susto. Os olhos espantados rodearam o lugar. Onde estava?
Respirou fundo, tentou se lembrar do que aconteceu antes.
A cabeça era um emaranhado meio desconexo.
O que fez antes de dormir?
Suspirou.
Conversou com Holmes…
Oh, por Barbra!
Ela foi até Quinn… E se casou com ela!
“Deus de Moisés! Eu estou casada…”, exclamou e tentou acalmar os latidos do coração que aumentaram com a descarga de adrenalina, que a impelia a levantar e correr.
Sentiu o calor do corpo do filho. Mirou-o. Ele era tão inocente! Não queria que seu filho vivesse sob uma aura de tensão. E pensou que seria exatamente assim sua vida dali para frente. Não sabia que surpresa e “esposa” lhe reservava. Havia um grande ponto de interrogação que bailava em sua mente quando pensava em Quinn.
Nossa! Mal o primeiro dia de casada começava e sentia que Quinn já lhe causava um desconforto… Como ela conseguia ser tão atroz? Por que não poderia acreditar que sempre a amou? Que nunca faria nada para magoá-la… Não mais! Afinal, não se deve quebrar o coração de ninguém. Porque às vezes remendá-lo é muito difícil. Quase impossível…
Tomou uma respiração profunda.
Precisava levantar e enfrentar a realidade. Fosse ela qual fosse. Não fazia a menor ideia do que Quinn teria guardado para ela neste dia. E em nenhum dos demais dias… Sentia-se como se andasse sobre ovos. Qualquer pisada em falso e “plec”! Quebraria um ou dois deles. E quebrar algo referente a Quinn neste momento não soava como uma ideia boa.
“Sinto-me perdida”, murmurou para si mesma.
Com cuidado, sentou na cama e tentou não acordar Spencer. Mas não conseguiu. O menino abriu os olhos, espantados, e ameaçou chorar.
Rachel tomou o filho nos braços, levantou-se e andou pelo quarto, cantando músicas para acalmar o pequeno e fazê-lo sentir seguro.
O menino, amistoso, relaxou nos braços da mãe e a cantora sentiu-se feliz. Seu filho era, até agora, a única razão de fazer o seu coração florescer de felicidade. Entretanto, precisava se defrontar com Quinn. Não havia como escapar. Não havia como fingir que algo sério não aconteceu no dia anterior entre ela e a ex-namorada… E agora esposa.
“Esposa”, murmurou, pensando em nada.
Respirou fundo e, recomeçando a cantar para manter o filho calmo (e a si mesma), saiu do quarto e se encaminhou para a sala de jantar. Precisava falar com Holmes… Precisava de um Norte!
Escutou a voz de Quinn, meio rouca e débil e outra que lhe falava baixo.
Retesou-se.
Se Quinn estava com visitas, como reagiria quando a visse com Spencer, em camisola e penhoar?
Encheu-se de coragem.
“Quer saber? Dane-se! Ela quis casar. Então é bom começar a aceitar que tem uma esposa e um…”, olhou para o filho com expressão aterrorizada, “enteado!”, apertou o abraço ao redor do filho, pensando que Quinn não seria amorosa com o menino. Inclusive, ameaçou enviá-lo para uma escola em algum lugar distante. Não poderia se arriscar, porém não poderia vacilar. Não iria se dobrar! Mesmo que o seu instinto de sobrevivência lhe gritasse o contrário.
“E lá vou eu”, avisou e realmente foi.
Estancou diante da mesa do café da manhã, onde Quinn estava debilmente sentada à cabeceira e uma Alex Bishop lhe falava em tom baixo, porém aborrecido.
Pensou em dar meia volta.
Entretanto, e como em toda boa situação que se preze, os olhos frágeis de Quinn caíram sobre ela. E se fixaram nela.
Alex apenas fez o óbvio quando percebeu que a namorada já não lhe dava a menor atenção: seguiu o olhar dela. E seus olhos de oceano estacionaram, surpresos, sobre a figura da mãe Rachel Berry, com o filho preso aos braços, protetora.
Voltou o olhar azul para a advogada que jazia imóvel e de olhos fixos na mulher que carregava a criança.
“Acho que precisamos conversar muito seriamente, Quinn”, avisou.
Os olhos da loira se desviaram de Rachel para Alex.
“Agora”, a jornalista avisou.
“Rompi tratados
Traí os ritos
Quebrei a lança
Lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa
É não estar vencido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa…”
— Sangue Latino por Ney Matogrosso -
CONTINUA.
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