Sine Cordi

66 CAPÍTulo 66 - םו


Notas iniciais
Unzinho mais... Relaxem! É só uma fic :)

Se você não suporta mais tanta realidade

Se tudo tanto faz, nada tem finalidade

Então pra quê viver comigo?

Eu não vou ficar pra ver nossa ponte incendiada

Nossa igreja destruída, nossa estrada rachada

Pela grande explosão que pode acontecer no nosso abrigo

Olhei pro amanhã e não gostei do que vi

Sonhos são como deuses

Quando não se acredita neles, deixam de existir

Lutei por sua alma, mas admito que perdi”.

— Paulinho Moska em Admito Que Perdi

Quinn foi praticamente arrastada pela namorada até o escritório e Alex não fez caso de fechar a porta. Para ela, pouco importava se Rachel escutasse ou não o que falaria.

Soltou Quinn perto da escrivaninha e a advogada apoiou as costas ali e, em seguida, usou uma das mãos para manter o equilíbrio. Sentia-se meio zonza…

“O que Rachel Berry está fazendo aqui e com o filho dela?”, a pergunta saiu cheia de curiosidade.

Quinn a mirou atordoada.

“Eu posso repetir a pergunta…”, murmurou e se chegou mais para perto da namorada.

A loira pareceu recobrar a coerência:

“Ela veio me visitar ontem e ficamos conversando até tarde. Spencer adormeceu e eu achei conveniente que os dois passassem a noite. Assim a criança não ficaria estressada por ser acordada a caminho de casa”, mentiu tranquilamente.

E era uma mentira muito boa. Expressada de maneira muito natural. Não deixaria alguém desconfiado. Exceto se esse alguém conhecesse um pouco de Quinn Fabray e seu talento para manejar as pessoas.

“Sei!”, a jornalista exclamou, sorrindo com cinismo, “agora você vai me mostrar o endereço do Papai Noel e me dará o mapa da Toca do Coelho da Páscoa”, debochou.

Quinn riu. Alex era divertida!

“O que eu lhe disse sobre você se aproximar demais dela?”, perguntou a morena de olhos azuis, aproximando-se mais.

Quinn olhou para próprias as mãos, que começaram a mexer no laço do robe que usava sobre o pijama.

“Você sabe que eu não presto atenção quando o assunto não me interessa, Alex. Então, não me pergunte o que você falou porque eu não sei”, ergueu os olhos para a jornalista e sustentou-lhe o olhar.

“Você sabe sim. Sabe porque eu lhe disse, Eleanor lhe disse e a Dra. Helen também! Eu só quero entender como conseguirá lidar com a situação sem pirar antes”, falou, aborrecida, encostando o corpo ao de Quinn, prendendo-a contra o móvel. Sabia que a incomodaria. E era exatamente isso o que desejava fazer: incomodar Quinn!

A advogada sustentou a provocação:

“Por que acha que eu vou…”, fez aspas com os dedos, “‘pirar’? Por causa da maldita dor de cabeça?”, inquiriu, aborrecida.

Alex a apertou mais. Até onde a loira suportaria ser encurralada?

“Sim. Por causa da dor de cabeça”, respondeu e chegou o rosto bem perto do dela. Os lábios quase roçando os da namorada, “porque você sabe que eu sei que você tentou tirar a própria vida por causa da Rachel. Acho que você tem muitas lembranças dolorosas aí dentro dessa memória trancada a sete chaves. Mas, talvez a pressão faça com que a tranca se rompa. E então Quinn? Como será? Você conseguirá controlar?”, indagou.

A advogada apenas mirou, imóvel, a amante por alguns momentos. Um sorriso se formou no rosto e a resposta, apenas para irritar, escorregou:

“Não se pode fazer omeletes sem quebrar os ovos, baby”.

Alex suspirou. Enlaçou a cintura de Quinn e a puxou delicadamente para um abraço aconchegante.

“Você sabe que pode não voltar de um surto! E você está forçando demais as suas próprias defesas! Uma hora, elas ruirão e eu não sei se você conseguirá voltar à tona”, falou com uma crueza serena. Precisava que a namorada se afastasse de Rachel para que nada de pior acontecesse.

“O ciúme não lhe cai bem, Alex”, a loira comentou, sem fazer caso das palavras da amante.

“A sua teimosia será a sua ruína, Quinn”, suspirou, “eu avisei antes, eu fui paciente… E eu não vou abrir mão de você”, avisou e roçou a boca no pescoço pálido. Afastou-se e segurou a face da loira entre as mãos. Mirou-a nos olhos.

“Eu não sei o que ela está fazendo aqui. E me preocupa isso. Preocupa-me essa sua curiosidade sobre o passado. Sobre vocês…”, soltou a namorada, afastou-se e caminhou pensativa pelo local, fazendo um círculo com seus passos. Parou-lhe em frente e comentou:

“Eu acho que vou visitar os meus pais por um tempo. Quando você resolver o seu assunto com a Rachel, eu voltarei. E então continuaremos de onde paramos”, avisou e deu as costas para a advogada.

Quando cruzou a porta, deu com uma Rachel Berry assustada e com olhar culpado.

“Eu não queria…”, murmurou.

A jornalista a cortou:

“Você não queria escutar”, meneou a cabeça, “mas escutou. Eu só quero que saiba que seja lá qual for a razão de você estar aqui, esta não durará para sempre. Na verdade, está com os dias contados. Então, com essa informação privilegiada, por que não vai embora? Quinn não é quem você pensa”, controlou a irritação e o tom de voz.

Rachel teve vontade de rir. Se Alex soubesse a verdade… Talvez ela não continuasse tão segura. Engraçado, a cantora percebeu, como o padrão de comportamento da jornalista era similar ao de Quinn. Ela estava sendo prática e lógica. Embora todo mundo dissesse que ela amava Quinn e era muito ciumenta. Entretanto, no momento, ela não parecia ciumenta. Ela parecia mais… Objetiva. Sim… Alguém que sabia, ou pensava que sabia, o que era bom para a namorada. Era possível, continuou pensando Rachel, que a jornalista estivesse certa. Mas também era possível que não.

Como saber?

Alex não era alguém, para Rachel, acima de qualquer suspeita! Ela defenderia o próprio espaço! Ainda que parecesse muito tranquila sobre Quinn. Claro, ela também não sabia do casamento.

Um estalo aconteceu dentro da cabeça de Rachel: Alex só estava calma e segura porque não sabia que Quinn a havia feito assinar um “contrato” de casamento. Ela continuaria tão “senhora de si” se soubesse a verdade? O que ela faria se descobrisse que, no final das contas, a mulher que tinha um papel assinado diante de um juiz era ela, a namorada traidora e esquecida? O alvo da vingança de Quinn? Sentiu um surpreendente impulso de contar a mulher a sua frente o seu “segredinho sujo”. E “segredo” de Quinn também! Aliás, a loira sendo a motivação maior das duas mulheres pensarem que nunca, nesta vida, poderiam ser amigas.

Como Alex reagiria se soubesse que ela, Rachel, era a Sra. Fabray no final das contas? Ela choraria? Não. Alex não parecia o tipo que lamentaria. Provavelmente ela respiraria fundo, daria meia volta e iria ter outra conversa educada e cheia de sarcasmo e incredulidade na voz com Quinn. Emanaria a tranquilidade de alguém que não precisava provar coisa alguma para ninguém. Então, ela sairia e lhe falaria a mesma coisa, mudando apenas algumas palavras. Uma fala como: “Eu só quero que saiba que este casamento não durará para sempre. Na verdade, está com os dias contados. Então, com essa informação privilegiada, por que não vai embora? Quinn não é quem você pensa”.

Sorriu, satisfeita com o infeliz fato de estar casada com Quinn Fabray.

Alex não entendeu a razão daquele sorriso tolo na face da judia. E não fez caso de entender. Seguiu caminho e foi acompanhada até a porta por um Holmes atencioso e sempre gentil.

Rachel prestou atenção a movimentação da porta e o retorno do homem.

Alex se foi. Por enquanto. Certamente, pensou a judia, ela voltaria. Parecia saber muito de Quinn, apesar de ignorar o fato de que ela era agora uma mulher comprometida por um contrato de casamento.

Suspirou. E um pensamento teimoso lhe veio a cabeça: não se deve quebrar o coração de ninguém.

O grito irado de Quinn, vindo de dentro do escritório, e o barulho de louça sendo quebrada contra a parede fizeram a cantora saltar e se afastar às pressas, na vã tentativa de proteger o filho do temor que a tomou.

Claro, o garoto chorou.

Holmes correu até a biblioteca.

Quinn bateu a porta com violência e às pressas sentou no sofá do escritório e segurou a cabeça entre as mãos.

Por que só não liberava Rachel e aquele menino chorão?

Os pesadelos diminuiriam… Era só ignorá-la outra vez! Era só se afastar dela! Ou quebrar-lhe o coração! Tão fácil!

O som do pranto da criança, ainda que mais brando, ainda causava mal estar na loira. Tanto que gritou por Holmes. Ato desnecessário, pois o homem estava praticamente plantado ao lado dela. Ele viu algumas das xícaras da coleção da patroa espatifadas no chão. Certamente ela as arremessou contra a parede, em seu ataque de fúria.

Quinn pediu os remédios.

Ele deu.

“Eu só preciso me livrar dela”, murmurou, “fazê-la me odiar”.

“Certo, Quinn”, o homem concordou.

“Pode ficar um pouco aqui?”, perguntou.

Ela não diria, mas ele sabia que a advogada o queria ali porque dormiria inevitavelmente. E ela não gostava dos sonhos que a deixavam confusa. E ele estaria perto para o caso de ela acordar com outro desses sonhos.

Estava tão habituado!

A advogada, após tomar os comprimidos, recostou-se no sofá, ainda sentada, e fechou os olhos. Suspirou.

Estava tão cansada! E os sonhos não a deixavam em paz… E ainda havia a dor de cabeça constante que não estava a lhe dar muita trégua.

“Tudo por causa dela”, murmurou.

Holmes sentou de frente para a advogada, sobre a cadeira que fazia jogo com a escrivaninha, a qual pegou. Sugeriu:

“Por que não se deita”.

Ele estava acostumado a encontrar a mulher dormindo no sofá em que estava sentada durante os anos em que estava com ela. Este hábito havia se tornado mais constante no último mês.

“Eu deitarei…”, murmurou, embora continuasse sentada, com os olhos fechados.

O homem silenciou.

“Para onde ela foi?”, indagou.

Holmes sabia que Quinn se referia a Rachel. Avisou que ela retornou ao quarto de hóspedes.

A loira abriu os olhos e o mirou.

“Senhorita, por que não deixa essa história, realmente, de lado e permite que a senhorita Berry vá embora?”, perguntou, atento a resposta que receberia.

“Eu farei isso…”, ela murmurou.

Os olhos começaram a fechar. Os calmantes começavam a fazer efeito.

Porém, Quinn lutava para não adormecer.

Mas, juntando o cansaço dos dias anteriores e o estresse da manhã, junto com o fato de ainda não estar restabelecida desde a última crise, com o efeito dos medicamentos, ela adormeceu sem sentir.

O homem a tomou com cuidado e a ajeitou deitada sobre o sofá.

Ela abriu os olhos e murmurou que não queria dormir. Ele avisou que estaria por perto.

Ela não discutiu. Adormeceu.

O homem foi recolher os cacos da porcelana quebrada, enquanto observava se Quinn acordaria.

Quase uma hora depois, certo de que ela não despertaria até que o dia se retirasse e desse espaço a noite, retirou-se do escritório e foi pegar os objetos necessários para retirar os pequenos cacos que ainda estavam no chão. Conseguiu recolher, com as mãos, apenas os maiores. Os pequenos, que precisavam de mais atenção e materiais adequados para a sua retirada não eram muitos, mas perigosos o bastante para cortar o pé de alguém descalço e distraído.

Rachel se aproximou do escritório, silenciosa, e viu o homem terminando de recolher a porcelana quebrada em pedaços pequenos.

“O que ela fez?”, indagou e entrou no recinto, cuidadosa. Viu a ex-namorada adormecida sobre o sofá.

“Ela aceitou os remédios?”, quase cochichou a pergunta.

“Aceitou. E como não acordou até agora, acredito que dormirá até o anoitecer. A senhorita também deveria tentar descansar um pouco mais”, comentou.

“Eu não consigo… Estou ansiosa. Eu não sei o que ela fará…”.

“Ela fará nada”, o cuidador avisou e se retirou.

A judia o seguiu.

Entraram na copa e chegaram à cozinha. O homem a convidou a se sentar à mesa.

“Quer chá? Farei um para mim… Se não considerar ousadia de minha parte convidá-la… Porém, se quiser, também posso servi-lo no seu quarto, para que não deixe o seu pequeno sozinho”.

A cantora sorriu agradecida, sentou e o observou.

“Spencer adormeceu…”, mirou com atenção os cacos que eram jogados no lixo seco. “Ela quebrou algumas xícaras”, perguntou, observando o homem, agora, encaminhar-se até a pia, lavar as mãos, pegar e colocar água na chaleira e levá-la ao fogo.

Ele suspirou e assentiu com a cabeça.

“Ela tem mudanças de humor vez ou outra…”.

“Ataques de raiva”, murmurou a judia.

“Srta. Berry, eu sei que ela lhe falou muita coisa, que a ameaçou com uma história de lhe colocar na cadeia, mas se afrontá-la, ela lhe deixará ir”, comentou.

A cantora riu sem humor e meneou a cabeça.

“Eu ainda a quero…”, confessou.

O homem a fitou. Abriu o armário preso à parede e retirou de lá duas xícaras com seus pires e as colocou sobre a mesa. Também acrescentou o açúcar, o adoçante e colheres para mexer o líquido no caso de os usarem.

“Ouça-me: eu não quero parecer desrespeitoso ou algo parecido, porém, vendo este quadro, esta situação da Srta. Fabray…”, pensou antes de questionar, “por que insiste em ficar aqui se eu estou lhe garantindo que ela não lhe colocará na cadeia? Será melhor para as duas”, considerou.

Rachel, apesar de já haver conversado sobre o mesmo tema na noite do dia anterior, conseguiu se surpreender com a indagação do homem. Talvez porque, neste momento, ele parecia bem mais seguro sobre o fato de que a ex cheerleader não a colocaria na prisão. Porém, uma dúvida ainda lhe perseguia: e se ele estivesse errado? E de novo, outra certeza a abordou: esta era sua oportunidade com Quinn! Precisava aproveitá-la! Precisava se aproximar dela e provar que a amava.

O apito da chaleira a despertou dos pensamentos e observou o cuidador retirá-la do fogão e verter a água quente nas duas xícaras, que já continham os saquinhos de chá dentro, colocados por ele.

“Eu não irei lhe responder sobre isso”, ela finalmente falou, “porque eu ainda estou, realmente, atordoada com tudo. E eu… Eu sei que pode parecer loucura, mas é uma chance de eu reconquistá-la! Se eu for embora, talvez nunca mais a veja”.

“Definitivamente isso é uma insanidade”, atalhou o homem, sentando-se do outro lado da mesa, de frente para ela.

A cantora suspirou e bebeu um gole do chá. O líquido lhe pareceu reconfortante.

“Eu, pelo menos, preciso tentar…”, murmurou.

Holmes meneou a cabeça, decepcionado.

“Senhorita… Quinn não vai se apaixonar por você. Eu sinto muito lhe dizer isso, mas é a verdade. Permanecer nessa casa, sob os absurdos que ela lhe impôs, não fará com que ela se enamore! Esse não é o objetivo dela! Ela só quer lhe provocar! Ela quer saber até onde vai a sua paciência! Ela vai lhe provocar até o seu lado mais feio vir à tona! Até que a odeie. Então, depois disso, se dará por satisfeita! Eu a conheço! Eu já a vi fazer isso! Ela fez no tribunal, quando o Street voou sobre ela, a fim de esganá-la! Ela pressiona até a pessoa não aguentar mais… Por que tem que passar por isso? Por que quer passar por isso?”, indagou, realmente sem atinar para as razões da judia.

Rachel só tinha duas respostas:

“Porque eu a amo. E… Não se deve quebrar o coração de ninguém”, murmurou a última parte.

“Senhorita, só há um coração quebrado nesta casa. E, creia, não é o de Quinn”.

Rachel engoliu seco. E sentiu como o próprio coração ainda batia inteiro no peito, com tudo o que aconteceu. Com a falta que Jesse lhe fazia, com o fato de Quinn não ser capaz de sentir o mínimo de afeto por ela, com a ausência dos pais… O coração ainda batia inteiro, entre rateios aqui e ali.

“Meu coração não está quebrado”, afirmou. “O de Quinn está. Pode conhecê-la bem, Sr. Holmes, mas está errado quanto a isso”, atalhou

Holmes soltou o ar, que prendia sem se dar conta, na esperança de que algum juízo fosse colocado na cabeça de Rachel Berry. Mas viu que ela era tão teimosa quanto Quinn Fabray. Ou mais! E pensou que duas teimosas juntos não daria bom resultado…

“Então eu acho que terei muito trabalho”, findou a conversa.

Como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis,

transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos.”

— Caio Fernando Abreu -

Quinn abriu os olhos devagar. Sentia-se tão fora de lugar! A cabeça parecia oca e os pensamentos brancas nuvens. Suspirou e sorriu. Isso era bom. O pensamento em brancas nuvens… A cabeça oca… Espaços em branco imaculado, vertendo paz por todos os lados. Adorava o branco! Era tão… Frio e limpo! Sem dor, sem pecados e males mundanos. Amava a paz do branco que se estendia diante de seus olhos. Dentro da sua cabeça oca! Cabeça oca por onde nadavam brancas nuvens, contrastando apenas por causa de sua matéria do branco de seus pensamentos brancos.

Então uma voz longínqua chamou seu nome. Por que era tão difícil deixá-la com seus pensamentos brancos e cheios de coisa nenhuma?

Outra vez a voz. E dessa vez mais alta. Mais contundente…

“Quinn!”.

Ela direcionou o olhar para Holmes.

“Quinn?”, ele insistiu diante dos olhos verdes atordoados.

“Sou eu”, murmurou de má vontade antes de soltar um lânguido suspiro. E pensou, não mais em branco (porém quase em branco), que deveria saber o que aconteceu nas últimas horas. Tudo estava muito misturado dentro de sua cabeça não mais tão oca.

Sentou-se devagar. Um mareio costumeiro a tomou por uns instantes.

“Acho que estou sem me alimentar há muitas horas”, considerou.

O homem concordou. E aproveitou para perguntar do que ela lembrava.

A loira achou curioso, porque desejava fazer perguntas sobre o mesmo assunto ao cuidador. Afinal, do que ela se lembrava, além do branco de há pouco? Sorriu diante da possibilidade de aturdir um pouco o homem que a mirava com gravidade neste momento…

“Eu me lembro que… Eu tenho uma mãe chamada Judy…”, parecia realmente pensativa, “e que ela foi má comigo, porque disse que Papai Noel existia e, um dia, eu descobri por estranhos que ela estava mentindo. Fiquei tão traumatizada que perdi a memória”, e riu.

Holmes meneou a cabeça. Por quanto tempo ela continuaria com isso?

“Quinn, do que você se lembra”.

A gargalhada dela foi morrendo aos poucos, dando lugar a uma seriedade grave. Grave porque não sabia definir muito bem se estava realmente acordada ou ainda jazia sobre a cama do hospital. Ou ainda estava sonhando? Essa incerteza era aterradora!

Então, vendo que ela não falaria, Holmes – pacientemente – começou a relatar os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas para a loira, que agora se certificava de até onde a quimera se diferenciava da realidade: apenas por um fio muito tênue.

Rachel estava parada à porta do cômodo. Passou um dia infernal, sem saber ou ver Quinn. Exceto pela manhã, quando Alex esteve ali e quando a ex-namorada dormiu no escritório, após quebrar as xícaras. E, tão logo soube que Holmes a acordaria, correu para ficar perto. Precisava ter notícias de Quinn. E, mais importante, precisava saber qual seria a sua situação! A noite havia caído e ela ainda não saiu de sob o teto dela. Estava completamente sem chão, sem saber o que fazer. Atordoada com as inúmeras perguntas que assomavam cada vez mais. E, agora, atordoada um pouquinho mais ao escutar como Holmes narrava para uma silenciosa Quinn os acontecimentos das últimas horas. Narrava porque ela, provavelmente, não se recordava. Como isso era possível?

E a imagem de um encontro onde o assunto da conversa foi Quinn, há poucos meses, com Santana, veio-lhe a mente como se fosse uma descarga elétrica…

E Judy?…”, a questão saiu temerosa pela boca de Rachel.

Santana balançou a taça com o líquido vermelho e fixou o olhar ali, naquele vinho rubro que lhe parecia sangue.

“Judy tentou… Ela tenta! Como toda, ou quase toda mãe, ela passa por cima do que a Q muitas vezes faz ou fala. E, na sabedoria que lhe foi concedida, só aparece quando a filha não está bem, quando acontece de ir parar no hospital porque teve uma crise forte. Aí, sim, a mãe aparece e usa de toda a sua imperatividade para se fazer obedecer…”.

“Consegue?”, Rachel, a esta altura, já não racionalizava. Apenas esperava por respostas prontas.

“Quase sempre…”, confessou a advogada, “Quinn, como ela mesma costuma dizer, está adestrada. Sabe lidar bem com as máscaras sociais. Finge tão bem que engana. Suas mentiras se tornam verdades! Seus fingimentos são convincentes! Ela é realmente boa”, sorriu, cínica.

A cantora observou a maneira como a latina tentava se desfazer da dor a cada parada que dava na conversação. E como, antes de recomeçar, respirava profundamente.

“Você a queria de volta? Como antes do acidente, eu quero dizer…”, sussurrou.

Santana voltou a fitá-la e sorriu para si mesma.

“É como querer que unicórnios se materializem e façam a minha Britt mais feliz! Impossível de acontecer, Rachel!”, foi direta. Tão direta que a cantora estremeceu.

“Mas… E se ela se lembrar e…”.

“Rachel!”, chamou a cantora para a realidade, “ainda que se lembre, a Quinn não voltará a ser como antes! É como se o cérebro dela desligasse todos os fios que o unia ao coração. Ela deixou de sentir…”.

“Mas… E a Alex?”.

“Alex?”, Santana juntou e meditou sobre suas avaliações, “Alex aconteceu. Quinn e ela estão juntas há três anos. Um tempo considerável, se levarmos em consideração quem a loira com cara de princesa da Disney é de fato. E eu vou lhe dizer: a única pessoa que lida com a verdadeira Quinn Fabray é ela”.

“E Holmes? Ele está sempre ao redor da Quinn… Até mais que a Alex, certo?”.

Santana ponderou sobre a pergunta de Rachel. A resposta era lógica:

“Holmes é o cuidador de Quinn. Ele a ama, mas sabe exatamente com quem trata, foi treinado para isso. É o que a refreia. Está em constante vigilância. Enquanto cada um de nós tomou uma posição distinta sobre a Quinn, a dele é a de proteger a cabeça dela. Ele é a pessoa que não pode permitir que ela caia e sofra qualquer outro tipo de dano. Enquanto para mim e para você ela é um todo, com cabeça, tronco e membros, para Holmes ela só a cabeça. E importa que a cabeça dela esteja sempre resguardada…”.

Um breve silêncio.

“Ele é o homem de confiança dela, embora eu ache que ela, de verdade, não confia em nada e nem ninguém, exceto ela mesma”, ponderou.

A testa de Rachel franziu.

“Quinn está bem, mas há momentos em que ela está completamente do avesso. Então, ele estará por perto, sempre equilibrando a situação para que nada saia do controle”, Sant acrescentou.

Rachel bebeu o vinho com cautela, pesando as palavras da advogada.

“Eu… Ela estava há pouco com a namorada e me pareceu tão… Tão ‘normal’! Como quer que eu conceba alguém que aparentemente é como uma máquina fria e sem sentimento, mas age como uma namorada atenciosa? E Ela foi gentil comigo ontem! Ela foi atenciosa e hoje, quando me viu… Eu…”.

“Rachel”, Santana a chamou, fazendo-a se calar, “não espero que se justifique comigo ou tente me mostrar algo sobre a Quinn que eu já sei! Eu não sei a razão, mas ela está – mesmo – interessada em você. Não de uma forma romântica. E é isso o que me assusta! Este interesse!”, explicou-se.

A cantora apenas fitava a face da mulher diante de si.

“Eu… Eu ainda a amo…”, suspirou.

A latina deu uma risada de asco antes de prosseguir:

“Eu também amo a Quinn… E, por mais louco e insano, às vezes me permito esperar – de verdade – que um dia ela bata a maldita cabeça de novo e volte a ser quem era!”, respirou fundo e desviou a face, mirando algum ponto indistinto. A mão que levou a taça até os lábios tremiam um pouco.

Rachel não conseguiu conter a pergunta que saiu de forma assustada:

“Ela e Alex… Por que acha que ainda estão juntas?”.

Santana, de fato, não tinha certeza. Ela possuía teorias…

“Talvez seja confortável para a Quinn… Alex não é pegajosa. Ela soube, logo de início, lidar com a loira de farmácia”.

“Como assim?”, uma curiosidade verdadeira saiu pelos lábios da atriz.

“Pouco tempo depois de Alex conseguir conquistar a Quinn, por alguma espécie de milagre ou magia, ela conseguiu arrastá-la para uma festa da Models…”, estancou e pareceu que buscava recordações no porão escuro da memória.

“No dia seguinte à festa, ela me procurou porque precisava conversar sobre a Quinn. Eu me preocupei. Sempre achei Alex uma boa garota e não errei. Ela conseguiu, de pronto, sentir a Quinn e as limitações dela. Mas, neste dia, ela realmente estava meio atordoada… Ela me contou que tiveram uma noite maravilhosa, que Quinn estava bem e cheia de energia. Então, ela contou que adormeceram e despertou antes e, quando a Q acordou, pela primeira vez, durante o tempo em que estavam juntas, ela a mirou com os olhos dourados e mornos… Este foi exatamente o adjetivo que usou. Foi a primeira vez que vislumbrou aquele olhar ímpar… Quinn tinha os olhos mornos e estes a fitaram e, alguns instantes depois, eles piscaram e os olhos mornos se tornaram olhos confusos. E os olhos confusos se desviaram dos dela e olharam ao redor, como se não soubessem em que lugar estavam. Instintivamente, ela a chamou, com muito cuidado e tato para não assustar os olhos confusos e cumprimentou-a com um suave ‘oi’. E a dona dos olhos perdidos respondeu com insegurança para ela com outro ‘oi’. Então, delicadamente, Alex informou quem ela era, onde estavam e o relacionamento que mantinham. E, daí, outra vez, os olhos que foram mornos e, depois confusos, foram sublimados por alguns pestanejares e, quando se fixaram nela, os olhos mornos desapareceram, e levaram consigo os olhos confusos. Apenas o olhar arguto e inquisitivo se fez presente. Então, ela soube que Quinn – para ela – era alguém que, no fundo, era morna e terna. Mas que desaparecia e dava vida e espaço para a Quinn prática, direta e sem emoção…”.

Sentiu o coração ratear dentro do peito com a recordação. Fechou os olhos e respirou fundo. Estar vivenciando todas as palavras de Santana Lopez era estranho e tétrico. Escutar Holmes falar sobre os últimos acontecimentos a fim de que a ex cheerleader se localizasse era tão… Deprimente! E triste.

Suspirou.

O coração palpitou e quase saiu pela boca quando ouviu um pigarrear. Abriu os olhos e deu, literalmente, de cara com uma Quinn Fabray abatida, mas arguta, com um sorriso cínico, porém tremendamente sedutor, que exclamou para Holmes escutar:

“Ora, ora, ora! Veja só quem está escutando atrás da porta!”.

Rachel sentiu que poderia morrer agora.

Quinn a flagrou!

Estremecerei de susto até dormir, e no entanto é tudo tão pequeno.

Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota”.

— Trecho de Desenredo de Adélia Prado -

CONTINUA (sério?)

Notas finais
Beijinhos e até o 67 ;) - Cal. *-*