Sine Cordi

62 CAPÍTULO 62 - סב


Notas iniciais
Um pedido: fiquem calmas. Ok? Beijinhos coloridos! :*

Deve-se temer mais o amor de uma mulher, do que o ódio de um homem.”

– Sócrates -

Rachel teve a nítida sensação de que o coração parou de bater.

Puxou o ar com dificuldade.

Sentiu como se a cabeça esquentasse e teve a impressão de que seu cérebro estava tendo altas descargas elétricas, a ponto de lhe causar a sensação de que sua longa cabeleira eriçou-se.

Mas não!

Foi só o choque de escutar Quinn verbalizar que havia tentado se matar e fazer uma piadinha sobre o fato de o morto, no final das contas, ser Jesse.

Espera!

Um momento…

O que foi mesmo que Quinn disse?

“O quê?”, gaguejou a pergunta.

A loira suspirou.

Piscou e voltou o olhar para a pasta sobre a mesa, diante de seus olhos.

“Quinn…”, chamou-a. Precisava saber que estava interpretando alguma das palavras da ex-namorada de maneira errônea. Com certeza, deixou passar alguma coisa, um pequeno murmúrio da loira, talvez, capaz de lhe mostrar que realmente estava tendo as impressões erradas.

“Quinn…”, o chamado saiu frágil.

A loira a mirou sem culpa ou qualquer coisa parecida.

“Rachel, eu pedirei que Holmes traga o chá, o café, o suco e o que mais houver… Você poderá escolher o que desejar”, avisou.

“Não, Quinn! Eu preciso entender! Eu escutei direito? Desde quando você sabe? Eu pensei que você não lembrava! Aliás, acho que todos pensam que você não se lembra…”.

“Rachel!”, interrompeu-a, “uma coisa de cada vez!”, pediu.

A judia calou, olhando-a de forma apavorada.

“Eu explicarei tudo”, o tom baixo e a tranquilidade resultada pela falta de emoção era palpável.

Rachel Berry fechou os olhos, respirou fundo mais uma vez e sentiu que o chão fugia de sob os pés.

Entretanto, ter uma crise histérica agora não seria o ideal. Precisava ser forte!

Lembrou de Hiram e da conversa que tiveram…

Você tem medo?”, inquiriu, mirando o pai com aqueles olhos que ele achava os mais lindos e hipnotizantes do mundo, “tem medo de que Quinn possa ser, de alguma maneira, violenta comigo?”.

Hiram suspirou.

“Eu tenho muitos medos, meu amor. E a grande maioria deles está ligada a você e a sua felicidade, porque eu a amo e quero o melhor para você”, acarinhou-lhe a face, “eu acho a Quinn especial… Ela tem senso de humor e aquela garota que corava cada vez que olhava para mim com cara de ‘eu estou fazendo coisas sujas com a sua filha’ desapareceu por completo e deu lugar a uma mulher segura e sem muito verniz quando ela está num de seus dias em que o cérebro nem terminou de pensar, mas a boca já soltou o pensamento”, suspirou outra vez, “porém, eu acho que esta mulher é uma persona ensaiada, uma Quinn irreal. E sinto que ela tem alguma coisa de intocável… Algo como… Você vai desejá-la, Rachel, mas ela não se importará com isso… Compreende?”, inquiriu, inseguro com a coerência de sua explanação.

“Está querendo dizer que Quinn não se importará comigo? Ela será indiferente a mim?”.

O homem assentiu bem devagar, antes de exclamar:

“Isso!”.

“Rachel, eu a convidei até aqui porque achei que deveríamos conversar sobre o que aconteceu entre nós. Sobre a ‘história de amor’ que vivenciamos”, não desviou os olhos.

E Rachel a mirava entre atônita e incrédula.

“Eu sei que está um pouco surpresa”, sorriu, sabendo que estava sendo humilde ao descrever o total espanto da cantora, ainda a mirá-la entre atônita e incrédula. Continuou, diante da – provisória – incapacidade de falar da judia:

“Eu não gosto muito de ser interrompida quando estou explicando alguma coisa, mas este não será o caso. Você poderá fazer as perguntas que desejar, caso haja alguma dúvida, assim como eu lhe farei algumas. E, Rachel, da mesma maneira que eu serei muito sincera com você, espero o mesmo de sua parte. Nada de floreios ou tentativas de minimizar o que quer que seja. Lembre-se: eu não ligo! Mas, eu tenho planos para você. Se eu não os tivesse, não estaríamos aqui. Eu fui clara? Ficou alguma dúvida?”, perguntou, com a tranquilidade e o distanciamento que lhe eram peculiares.

A cantora conseguiu racionalizar:

“Parece que vamos tratar de negócios… E não falarmos da nossa… História. Por isso escolheu o escritório?”, a voz escorreu líquida e dolorida.

“Boa observação, Rachel”, apreciou.

“Boa observação? Boa observação? Quinn… Eu estou muito confusa agora e…”.

“E vai ficar calma para entender o que eu lhe falarei e conseguirá pensar e interagir comigo”, assumiu, calando a atriz.

A respiração de Rachel era mais agitada.

A capacidade de racionalizar estancou, como se as muitas perguntas do lado esquerdo do cérebro e as imagens de como chegou até ali no lado direito, em proporção de forças iguais, puxavam a corda do raciocínio e ela não saía no lugar. Física pura: Terceira Lei de Newton do Movimento! Em qualquer interação há sempre um par de forças de ação e reação, que são iguais em valor e de sentidos opostos… Confuso? Bom, Rachel estava confusa. Então…

“Eu pedirei que Holmes traga um chá de ervas calmantes para você. Parece nervosa… E eu quero, realmente, conversar com muita tranquilidade, Rachel”, informou.

A cantora não respondeu e observou a loira balançar um sinete.

Um sinete? Onde Quinn conseguiu um sinete?

Holmes apareceu e a loira apenas assentiu com a cabeça.

Pouco depois, ele entrava com um carrinho com bebidas e pequenos lanches.

Quinn tinha uma expressão de diversão na face.

Rachel estreitou os olhos.

A ex-namorada estava fazendo algum tipo de brincadeira de mau gosto?

Isso seria demais, certo?

Provavelmente…

Era só a Quinn!

A Quinn mais fria, mais bonita e muito cheia de surpresas desagradáveis.

Como ela conseguia ser tão controlada?

Por que ela não estava nervosa?

Ela deveria ficar…

Porém, Quinn Fabray era a imagem da segurança e tranquilidade, mesmo com aquele abatimento que não sumiu, apesar de tudo. Ela estava saindo de um período em que a saúde esteve frágil…

Como alguém que exalava fragilidade conseguia exalar, igualmente, frialdade?

Os dois opostos de Quinn Fabray?

Um estranho Yin Yang?

“Provavelmente…”, murmurou, observando-a ainda entre atônita e incrédula.

“Como, Rachel?”, a ex cheerleader não entendeu.

E ela também não respondeu. Estava lutando para organizar os pensamentos.

Holmes a mirou.

A cantora estava muito pálida!

“Terá apresentação hoje, senhorita?”, indagou, a fim de distraí-la da tensão que, sabia bem, ela deveria enfrentar nessa conversa com a Fabray.

“Não…”, ela o mirou e aceitou o pires com a xícara de chá bem docinho.

“Beba devagar… Em pequenos goles. Ajudará a relaxar”, sorriu.

Rachel assentiu, um pouco mais alarmada – pela segunda vez neste dia – com a maneira como o cuidador lhe falava.

Observou-o enquanto as deixava outra vez a sós.

Voltou-se para a ex-namorada.

O que Quinn tinha para lhe dizer? Ela, Rachel, já sabia de tudo…Ela conhecia toda a história. Era a personagem principal! Era A vilã! A traidora… Claro, não poderia saber o tipo de comentário que a loira faria. Porém, sabia que seria mordaz. Então, por hora, era melhor relembrar as aulas de meditação e dos exercícios de respiração que fez, a fim de não ter algum tipo de desmaio ou morte súbita no meio da conversa…

“Perfeito!”, Quinn exclamou, após provar o café, trazendo a cantora de volta à realidade.

Bebeu um gole do chá e agradeceu internamente a Holmes pelo líquido estar tão saboroso e aconchegante. Sentiu-se menos inquieta…

Mirou a ex-namorada.

Os cabelos soltos, despreocupadamente arrumados, longos como no primeiro Ano no McKinley, lindos e sedosos… O arco das sobrancelhas bem-feitas, os olhos que cambiavam de cor… Estavam agora tão verdes! A boca rosada… A mandíbula bem-talhada, assim como o nariz. Era tão linda!

E lhe parecia tão horrível por causa de toda a frivolidade que deixava transbordar sem o menor cuidado.

“Eu só lembrei de você, realmente, naquele encontro no café, quando a Alex apareceu e foi conversar com o seu esposo… Você falava e o som da sua voz me pareceu tão… Tão agoniante! E eu comecei a enumerar as razões lógicas que demonstravam, numa forçada análise fria, que você nunca me amou”, recordou…

“Quinn, o que eu senti por Jesse, quando pequei contra a sua confiança e o seu amor por mim, foi pura atração física, desejo, tesão e E eu fiquei muito confusa! Eu a amava e estava a desejar outra pessoa! E eu quis reencontrar o meu equilíbrio, saber exatamente o que ou quem eu queria. E quando a vi naquela situação indesculpável, eu percebi o enorme erro que cometi. Sempre foi você o meu verdadeiro amor! Sempre, Quinn! E eu morrerei afirmando isso”, a atriz falou completamente isenta de simulação.

A advogada sorriu. E havia incredulidade no sorriso.

Respondeu, como se as palavras de Rachel fossem vazias de significados e sentimentos:

“Srta. Berry, eu admiro a sua coragem ao se expor de forma aparentemente sincera, todavia os fatos desmentem o seu verbo. Vejamos: disse que me amou e que sempre fui o objeto de tão profundo sentimento, mas se casou com o Sr. St. James e dessa união nasceu um filho. Afirmou que, ainda que unida ao seu atual ex-marido pelos laços do matrimônio, continuou a me amar. Porém, o seu casamento durou um pouco mais de cinco anos, um tempo significativo para uma união baseada, segundo suas palavras, apenas pelo efêmero desejo. Divorciou-se, entretanto continua a dividir o mesmo teto com o Sr. Seu ex-marido, agem como se ainda estivessem casados e ainda usa a inocente figura de seu filho como desculpa a fim de justificar essa relação distinta. Achou, mesmo, que conseguiria convencer a mim ou qualquer outra pessoa da verdade em suas palavras? Tudo o que disse não passou de um discurso falacioso e muito bem interpretado. É, realmente, uma atriz excepcional, Rachel. E tenho certeza de que ganhará o Tony para o qual foi indicada”, concluiu com os olhos cravados nos da estrela da Broadway.

“Eu só queria feri-la, machucá-la! E eu fiquei feliz quando eu realmente consegui”, falou, satisfeita.

Rachel franziu o cenho, como se sentisse dor ou algo parecido.

“Graças a você, eu tive uma noite infernal…”, Quinn continuou, “eu tentei fingir que era só mais um equívoco da minha mente, um engano como tantos outros… Mas era verdade. E eu passei a noite estudando para o julgamento, embebedando-me de vinho e remédios, tentando me distrair e acalmar a dor… Eu lembrei da vontade de morrer…”, riu, “do quanto eu me senti ferida por você… E decepcionada… Que insano!”, parecia incrédula, “eu realmente tentei me matar!”, olhou para Rachel como se ela fosse a coisa mais ordinária da face da terra, “por você?”, riu outra vez. “Eu sou muito sortuda! Não morri e esqueci desse ato idiota. E só me lembrei dele quando se tornou uma coisa ruim em mim… Uma coisa ruim que você trazia com os seus malditos e vazios pedidos de perdão… Se eu conhecesse a Quinn Fabray que foi apaixonada por você, provavelmente eu cuidaria de dar uma pancada bem forte na cabeça dela e colocar um pouco de juízo lá dentro! Foi um ato estúpido e que me causa um incômodo que eu não consigo explicar…”. Observou bem a cantora e achou interessante acrescentar:

“Foram dois atos estúpidos: tentar me matar e me apaixonar por você”.

Rachel ainda não retornou à tona, após a advogada empurrá-la para baixo com o comentário. Preocupava-se, por hora, em continuar respirando.

“Quando eu a vi pela primeira vez, realmente, após o acidente, na Fabray&Advogados, eu senti – de imediato – antipatia em relação a você. Eu nunca fui muito amigável… Mas, sentir antipatia por alguém como eu senti por você naquele dia foi a primeira vez”, prosseguiu, sem desviar os olhos da cantora, observando-a com atenção. “Eu espero que você saia deste estado de choque o quanto antes… Isso não é para ser um monólogo, Rach-Rach”, comentou.

“Não… Não é…”, murmurou, colocando em quadro o que Quinn lhe falou sobre o encontro no escritório…

Sentiu que o coração quase lhe chegou à boca ao perceber a mulher linda e elegante que caminhava em sua direção e de Santana, pois para sair dali, teria que cruzar com as duas. E qual não foi o espanto delas ao vê-la parar no balcão e pedir um copo de água à Mary, que de pronto foi buscar. Só então a loira enxergou Santana e ela, Rachel.

“Sant, diga-me: eu mereço o céu, certo? Porque aturar o escravocrata do Russel é demais para qualquer um”, comentou.

Rachel estava congelada. Afinal, quem era aquela parada ao balcão do lobby tão bela quanto fria?

A secretária trouxe a água, Quinn agradeceu, sacou da bolsa um vidro de compridos e tirou três, que engoliu com um só gole do líquido fresco. A latina questionou se ela estava bem.

“Uhum… Só aquela dor de cabeça maçante”, respondeu e só então firmou atenção na famosa Berry. Sorriu cheia de desfaçatez e comentou:

“Ora, ora! Mas o que temos aqui! A Sra. St. Jones!”, sorriu.

“É St. James, Fabray”, Santana a corrigiu.

“Ah, é? Então, perdoe-me Sra. St. James”, falou e se aproximou da atriz, “engraçado…”, olhou-a de cima a baixo, “pensei que fosse mais alta”.

Rachel estava em choque.

“E que falasse também”, sorriu sem nenhuma emoção.

“Ela fala, Fabray! E você não está a ser educada”, a latina cuidou de defender a pequena.

“Oh! É claro que ela fala. Através de porta-voz pelo que posso perceber”, concluiu. “Bom… Foi um prazer…”, estudou a cantora, “agora preciso ir. Tenham um bom dia”, finalizou e se encaminhou para a saída do escritório.

“Você foi grosseira…”, Rachel comentou.

“Fui?”.

“Quando me viu na Fabray&Advogados…”.

“Eu imagino que sim… Eu não gostei de você”, lembrou. Bebeu mais um gole do café e prosseguiu: “eu esqueci o que aconteceu no escritório… Não dei atenção, apesar da antipatia. Nunca fui de me prender a essas coisinhas”, esperou para saber se a cantora faria algum comentário. “Então, eu a encontrei outra vez no Tavern On The Green, com Britt e Santana. Resolvi cumprimentá-las. E eu quase tive certeza de que você não era o tipo de pessoa confiável. Era como se eu a conhecesse, apesar de saber apenas o que a Santana me contou a seu respeito…”.

Aquela noite era muito nítida para a morena…

Ousou levantar seus castanhos olhos e encontrar os verdes que não a miravam, mas sim a Santana e Brit. O mar verde corria de uma para a outra. Nos lábios rosados, um sorriso absolutamente trocista.

A morena judia foi obrigada a respirar fundo, pois aquela imagem fora do comum lhe roubou o ar imediatamente ao surgir de braços dados com o “misterioso” homem.

“Não nos apresentará o seu ‘amigo’, Fabray?”, Santana tomou para si o verbo.

A elegante – e um tanto leviana loira – apontou para o homem a quem tinha o braço enroscado e teve a audácia de questionar:

“Quem? Ele?”.

A latina revirou os olhos e fez cara de poucos amigos.

A Fabray fez-se pensativa, enquanto o homem ao lado tentava não rir de toda a encenação apresentada por sua acompanhante.

“Você faz questão?”, perguntou para ele.

O homem loiro, muito parecido com o ator Leonardo DiCaprio, ficou vermelho. Respondeu, ainda a tentar se recuperar da surpresa que a Fabray lhe causou:

“Acho que seria o correto…”, sorriu.

Quinn deu um monótono suspiro e fez as honras:

“Querido, esta morena com cara de poucos amigos, mas que no fundo é oceano açucarado…”, a latina quase rosnou, “é Santana Lopez, advogada especializada em divórcios, destemperos de casais e divisão de bens”.

O rapaz esticou a mão e tomou a que a mulher lhe ofereceu e roçou, galante e cavalheiro, os lábios ali.

E a morena não perdeu tempo e lhe perguntou o nome.

“Wilhelm Edward Ross Ewing II a seu dispor”, sorriu, gentil.

Foi apresentado a Brittany, que não se intimidava nunca com a figura de Quinn, e que perguntou:

“Você trabalha para ela, como o Holmes?”.

A Fabray se intrometeu e cantou “Brittaaanyyyy…”, a fim de não deixar a esposa de Santana seguir com seus interrogatórios sempre “perigosos”. Mas a dançarina não fez caso e prosseguiu, direta:

“Trabalha ou não trabalha? Na verdade, embora Quinn goste de controlar tudo, até aquilo que não se pode controlar, como o tempo, eu tenho certeza de que você é precioso para ela, mas não é namorado. Você trabalha para ela!”.

“Ok! Já foi o bastante, Britt-Britt! Eu e o Sr. Ewing II temos que ir”, a advogada interpelou, porém e homem olhou dela para Rachel e ergueu as sobrancelhas numa pergunta muda.

“Oh! Claro! Perdoe-me! Esta é a famosíssima cantora, atriz e outras coisas mais Rachel Berry”.

O homem tomou da mão da artista da mesma forma que o fez com as outras duas mulheres e, após o leve roçar de lábios, confessou, encantado:

“Sou descaradamente e inegável fã da Senhorita! Fui a todos os seus musicais e devo dizer que há muito não havia uma atriz tão completa”, e acrescentou, cuidadoso, “lamento pelo seu casamento. A Senhorita e o Sr. St. James formavam um belo casal! Na verdade, se me permite, uma bela família com o seu pequeno menino”.

“Oh!”, sorriu comovida, “obrigada, Sr. Ewing! É muito gentil da sua parte”.

Quinn riu.

“Eu não sabia que você era assim tão galante! Mas, deixe eu lhe avisar duas coisas…”, a Fabray era pura desfaçatez, “ela ‘ainda’ está casada e é uma atriz! Você nunca saberá quando ela estiver a representar ou não. Então, cuidado! Você pode ter surpresas muito, muito desagradáveis meu querido! Entretanto, saiba que se quiser fazer a corte a Srta. Berry eu o apoiarei. Acho mesmo que você precisa de uma companheira”.

“A ‘escolha’ que você fez… A ‘escolha’ que Santana sempre pronunciou… Essa escolha foi a sua decisão de terminar com a sua vida”, indagou, pois lembrou que, na mesma noite, a latina falou sobre ela, Rachel, não ter culpa sobre o comportamento da ex-capitã das cheerleaders, pois este foi escolha dela, Quinn.

“Eu não sei… Ela nunca me falou sobre isso”, a loira respondeu.

“Por que a Britt aventou a possibilidade de o seu amigo… O que lembrava o Leonardo DiCaprio, ser seu namorado? Alex já fazia parte da sua vida”.

“Britt sempre tem essas ideias. Ela acha que a minha relação com a Alex é muito… Distante! Então, se me vir com outra pessoa, acha que pode ser algum relacionamento. E, como eu não sou uma pessoa muito dada a eventos sociais, nem mesmo os da Fabray&Advogados, eu e Brittany quase não nos vemos. Ela não sabe da minha vida e eu não sei da dela”.

Alex… Rachel lembrou: a jornalista sabia que a Quinn tentou se matar!

“A sua namorada sabe que você sabe?”, a pergunta saiu meio torta, mas a advogada compreendeu.

Sorriu e bebericou mais um pouco do café.

Passou a língua pelos lábios e respondeu:

“Sabe… Ela sabe que eu sei… E ela não gosta de falar no assunto. E gosta menos ainda, embora seja muito tranquila, de eu me aproximar de você”.

Rachel ficou, outra vez, entre atônita e incrédula.

“Mas você se aproximou”, quase murmurou.

Quinn a escutou.

“Eu me aproximei”, inclinou o corpo sobre a escrivaninha a fim de ficar mais perto da cantora, “se eu não me aproximasse, você me deixaria em paz?”, indagou.

A atriz piscou algumas vezes.

Não. Ela não teria deixado Quinn em paz… Apesar de todos os avisos que recebeu sobre manter a distância…

“Eu acho que a sua resposta é não”, comentou com segurança e voltou a se encostar no espaldar da cadeira. Olhou outra vez para a pasta diante dos olhos. Analisava sobre o que havia ali.

Rachel a observava, ainda sem ação.

“Você pretende alguma coisa…”, soltou, aterrada diante da possibilidade de a ex-namorada querer algum tipo de retaliação.

“É claro que eu pretendo”, confirmou.

“Eu não sei, Quinn, o que eu tenho que você possa querer”, retorquiu, dessa vez aborrecida pelo que parecia uma piada de humor negro da advogada.

A loira estudou-a.

Rachel tinha os olhos assustados.

Os lábios apertados, em claro sinal de irritação reprimida…

As mãos segurando com força excessiva os braços da cadeira.

Nossa! Se fosse espetada com um pouco mais de jeito, era possível que Rachel Berry saltasse sobre ela e a agredisse.

Riu com a ideia.

“Você não tem nada para me perguntar?”, questionou. Sabia da natureza prolixa da cantora. A falta de palavras dela era sinal de que ainda não havia se conectado com o que estava acontecendo.

“O que você quer de mim, Quinn? Vingança?”, perguntou sem medo.

“Vingança?”, pensou sobre a palavra usada pela atriz, “não”, e voltou a se inclinar sobre a escrivaninha, “é pouco e fugaz”, voltou a posição anterior, “eu quero algo a longo prazo, Rach-Rach”, comunicou.

Rachel Berry sentiu o coração ratear outra vez. Quinn queria alguma coisa mais duradoura que a vingança? O que ela poderia querer que não se assemelhasse a uma maldita revanche? A um castigo? Afinal, era disso que se tratava aquela conversa, certo?

“Você quer…”, limpou a garganta, “você quer me punir por ter lhe traído? Mesmo após eu ter lhe pedido perdão e demonstrado o meu arrependimento?”.

“Arrependimento?”, riu, achando a cantora engraçada, “você se arrependeu, Rach-Rach? E quando foi isso? Em que momento você se arrependeu? Quando o seu finado e amado esposo lhe pediu o divórcio? Ou quando ele a traiu com um colega de elenco, enquanto ainda estavam casados? Vejamos…”, pareceu pensar, “você me traiu com ele. Após isso, casou com ele. Ele a traiu. Após isso, você o perdoou e ficou grávida dele. Parece, realmente, que você nunca o amou de verdade…”, satirizou, “e, depois que o seu pequeno fruto nasceu, continuaram juntos. Quando voltaram para o país, ele lhe pediu o divórcio. Mas… Não era o que você queria! Ele quis. Então, você se divorciou dele. Estava arrependida mesmo de ter me traído?”, estudou-a, “e, como me amava demais e sofria de arrependimento, propôs que ele, o homem que não quis continuar a ser seu marido, continuasse a morar com você para não traumatizar o seu nenê”, meneou a cabeça e deu uma risadinha de deboche, “acha mesmo que eu, após tudo isso, todos esses fatos, acreditaria que, alguma vez, amou a mim? Você é tola, Rachel. Ingênua demais… Ou muito burra”.

Rachel não sentiu aperto no peito. Ela sentiu um nó. Tipo aquele que o Street usou para matar Linda Wood: corrediço. Quanto mais ela forçava para escapulir, mais ele apertava.

Quinn tinha todo o controle do aperto. Ela conduzia a situação. Rachel não conseguia encontrar uma maneira de, ao menos, atingir algum ponto frágil da advogada. Aliás, como alguém desprovido de sentimentalismos poderia ser atingido? Quinn possuía uma barreira inquebrável!

Quem temia mesmo pela saúde dela? Oh! Alex temia… E Hiram… E LeRoy também lhe falou sobre a fragilidade dela. E Holmes… Inclusive Santana!

Bom, ela aparentava, realmente, muita fragilidade. Mas… Era só isso: aparência! Ela não parecia com alguém que fosse sofrer alguma crise por ter a saúde fragilizada após o trágico acidente… Após a tentativa de suicídio.

Quinn abriu a pasta sobre a mesa e tirou alguns desenhos. Colocou-os diante da atriz. Pediu:

“Veja essas imagens… São réplicas, em desenho, de imagens reais…”.

Rachel engoliu em seco e pegou as folhas.

Na primeira imagem havia um homem e uma mulher perto de um carro. Ele a mirava com um sorriso e lhe estendia a mão e ela a tomava, enquanto sorria também.

Na segunda, o mesmo casal e o mesmo carro. Agora ele a mirava com atenção, enquanto pareciam conversar.

Olhou a terceira imagem.

Olhou a quarta.

Olhou a quinta.

Olhou a sexta…

O casal era o mesmo, os lugares ou situações sofriam pequenas mudanças.

Olhou a nona imagem.

A décima.

A décima primeira…

Até que cansou, soltou-as sobre a mesa e perguntou a razão daqueles desenhos.

“O que acha que estas imagens, deste casal, têm em comum?”, a loira questionou.

Rachel bufou. O jogo de Quinn não estava sendo divertido e nem fazia o menor sentido.

Repassou os desenhos sem muita paciência.

“Olhe com atenção, Rachel. Não fale qualquer bobagem para mim”, alertou.

A cantora a mirou, preocupada.

Outra vez, analisou as imagens uma a uma. O que elas tinham em comum?

Suspirou e recolocou-as sobre a escrivaninha e voltou os olhos para a advogada.

“Além dos mesmos bonecos?”, tentou parecer indiferente, “não sei… Parecem um casal, talvez, apaixonado”.

Quinn sorriu e assentiu.

“Eles realmente parecem um casal”, esticou-se e recuperou os desenhos. Arrumou-os e, enquanto os organizava dentro da pasta, comentou, “eles foram riscados sobre estas fotografias…”, e retirou-as da mesma pasta, ordenadas, e colocou-as em frente a cantora.

Os olhos de Rachel aumentaram em tamanho.

Pegou as imagens, coloridas, certamente feitas com máquina fotográfica profissional e por alguém experiente. Mas, até então, estava tudo bem. O xis da questão estava no casal daquelas fotos feitas de diversos ângulos e muito nítidas: eram imagens dela e de Marco, o seu motorista, em diversos momentos.

“O quê?”, estava, ainda, confusa.

Quinn não se importou em explicar:

“O casal do desenho, ou os bonecos, como você os nomeou, foram feitos sobre estas fotografias. O casal que pareceu apaixonado para você, nada mais é do que você e o seu motorista. Sabia que ele nutre uma inequívoca paixão por você? Ele é bonito…”, analisou.

Rachel ainda não atinou.

“Marco é um rapaz gentil e prestativo. Um profissional competente, honesto e que tem noiva”, tentou impedir qualquer sugestão maliciosa da ex-namorada, “eu nunca traí o Jesse com ele… Nem com outra pessoa qualquer”, tentou arranhar a ex-namorada com o subtexto “fui fiel a Jesse como não fui com você”.

A advogada sorriu.

Recolheu as fotos e as mirou. Perguntou, distraída:

“O que acha que alguém que olhasse para estas fotos e, acompanhada delas, encontrasse não a arma que matou o seu marido, mas a fotografia que ele carregava dentro da carteira, onde estavam retratados você, ele e Spencer? O que a polícia pensaria? Mais: e se, além dessas fotos, da fotografia de família, encontrassem, também, algumas cartas de amor de Marco dirigidas a você?”, olhou-a.

Rachel piscou algumas vezes.

O que Quinn estava insinuando?

O que a mente criativa e perversa dela estava tramando?

Espera! Como ela sabia que Jesse levava uma foto dela com ele e o filho na carteira?

A palidez a tomou outra vez mais.

“Quinn…”, murmurou, agora com muito medo, “o que você fez?”.

“O que eu fiz?”, a ex cheerleader não parecia, definitivamente, culpada por coisa alguma. “A pergunta certa, Rach-Rach, é: o que você e o seu motorista fizeram com o inocente do Jesse”.

O cérebro da cantora demorou um pouco para decodificar a mensagem nítida que a advogada lhe enviou.

Até que tudo fez sentido:

“Oh, meu Deus! Você está insinuando que eu tenho um caso com Marco e que, juntos, planejamos a morte de Jesse?”.

Quinn sorriu.

Rachel não era tão estúpida afinal de contas!

Para mau pagador, más garantias.”

– Homero -

CONTINUA.