Sine Cordi

54 CAPÍTULO 54 - ןד


Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”.

– Nietzsche -

Jesse olhou para a ex-mulher.

Ela estava abatida.

E ele sabia a razão, o nome e o sobrenome da causa da palidez da esposa.

“Eu soube o que aconteceu”, achou melhor falar, a fim de tirá-la do estado de desligamento.

Estavam no teatro onde ele acabara, há hora e meia, a apresentação de estreia do musical que estrelava, sentados lado a lado perto da coxia.

Ela piscou e dirigiu o olhar para ele.

Reparou em como parecia dividido entre a alegria do êxito da estreia com a tristeza que ela lhe causou ao mandá-lo embora de uma hora para outra. Suspirou.

“Está triste comigo”, perguntou e esticou a mão direita até alcançar a dele.

O homem respirou profundamente antes de responder:

“Talvez um pouco… Mas, com o passar da semana, eu comecei a me acostumar com a ideia de não estar com você e o Spencer todos os dias”, sorriu, triste, “entretanto…”, fez uma pausa para limpar a garganta, “eu ainda me preocupo com você”.

“Só comigo?”, ela tentou uma piada.

Jesse meneou a cabeça e verbalizou:

“Spencer não acha que está apaixonado, ainda, por uma loira de olhos verdes e que impõe regras a fim de que possam ficar mais íntimos”. A voz saiu amargurada.

Rachel engoliu seco.

“Eu sei que não fui correta com você… E nem justa, mas eu… Eu precisava, de alguma maneira, Jesse, reafirmar para mim que posso seguir sem você”.

“Reafirmar para você ou para a Quinn?”.

A pergunta, pensada e tranquila, acertou o peito da cantora tal qual flecha afiada justo onde batia o coração, que rateou diante da dor.

“Jesse!”, ela murmurou, surpresa com a pergunta que achou crua e, por que não, cruel também.

“Eu estou mentindo?”, esta outra pergunta também doeu nela, no mesmo lugar e da mesma maneira que a anterior.

“Eu a quero… E eu amo você! Mas são sentimentos diferentes!”, ela procurou esclarecer.

O cantor sorriu antes de prosseguir:

“Eu sei. Você me ama e não sabe o que sente por ela… Foi assim antes, Rach-Rach. E será sempre! Quando a Quinn se mostrar realmente, você saberá que o que sente é só culpa. E não amor”, o tom dele era professoral.

A judia sentiu que algo havia mudado no homem que era seu amigo e pai do seu filho.

“Jesse…”, não sabia o que dizer para ele. Estava ainda bagunçada.

“Eu só estou olhando as coisas à distância, Rach-Rach”, explicou.

“Não está”, ela conseguiu falar, “está magoado comigo. Está decepcionado e, por isso, deseja me ferir. E faz isso usando o meu sentimento pela Quinn”.

“Rachel! Você nunca a amou! Olhe para trás! Reveja o que fez! Ela perdeu a memória, mas você não”, St. James parecia disposto a empurrá-la até a borda do precipício chamado dúvida.

Ela balançou a cabeça para lá e para cá em veemente negativa.

“Eu a amo, Jesse! O que eu quis dizer é que são amores diferentes! Você sempre será o pai do meu filho, o meu amigo e…”.

“Homem com quem traiu a Quinn porque nunca a amou”, cortou-a, calmo.

Ela se ergueu. E recuou alguns passos, apavorada com o homem doce que tinha diante de si e que lhe atirava palavras desagradáveis.

“Por que está fazendo assim?”, a voz dela escapuliu quebrada.

Jesse abaixou a cabeça e pareceu pensativo.

Rachel o observou. Ele, apesar das palavras, parecia triste.

“Jess…”, chamou-o, frágil.

Ele ergueu os olhos e estes estavam úmidos de uma coisa chamada lágrima que, vez ou outra, resolvia transbordar nas horas menos apropriadas. Como agora.

“Rach, eu não quero magoá-la”, foi sincero, “mas eu não consigo entender a exigência dela! Por que você tinha que me mandar embora para ela se aproximar?”.

“Porque, talvez, ela não se sinta confortável por saber que foi com você que eu a traí”, supôs.

“Ela lhe disse isso?”, ele ficou surpreso.

Rachel pensou que esta era uma boa justificativa. Uma justificativa que parecia deixar o ator menos magoado. Porém, mentir para ele seria justo? Acrescentar mais mentiras as suas vidas seria correto? Achou que não… E por isso, confessou:

“Não. Ela não falou… Eu sei que ela sabe da traição porque eu confessei antes e, também, porque ela me disse. Mas não se mostrou insegura, de verdade”.

Os lábios dele se separaram em uma surpreendente surpresa. Não era para ele ficar assim, admirado.

“Rachel, consegue se ouvir? Está tirando conclusões baseadas nas suas expectativas sobre ela! Não vê que pode estar apenas se iludindo?”.

Ela bufou.

“Por que está a agir assim? Eu pensei que estava do meu lado! Que torcia para que nós duas nos entendêssemos”, praticamente cuspiu as perguntas, frustrada com o comportamento do ex-marido, “você sempre foi o meu amigo e confidente… Por quê, Jesse? Está magoado comigo, mas direciona a sua raiva para a Quinn… Por quê?”, insistiu.

“Eu não estou direcionando nada para ela. Estou apenas sendo realista, Rach-Rach”, exclamou.

“Realista?”, o tom dela saiu incrédulo.

Ele assentiu e respirou fundo antes de prosseguir:

“Eu sei que você quer tentar algo com ela. E eu entendo isso. Eu pensei que ela estava a par da nossa situação. Por isso, quando você me pediu para ir embora, pensei que havia algo errado. Ela está manipulando você, Rach-Rach”, alertou.

Rachel meneou a cabeça em negativa. Riu sem graça e falou, sem encará-lo, todavia:

“Você não a viu como eu vi… Eu a vi frágil, com dor e lutando para se manter firme… Eu vi o quanto ela se aborreceu por fraquejar diante de mim… E como foi levada porque não tinha forças para caminhar sobre as próprias pernas. Ela pode estar diferente na maior parte do tempo, Jesse, porém, o que eu percebi, é que ela ainda é da mesma maneira que na época da escola e esta característica, apenas, intensificou-se. Ela mascarava a fragilidade por trás da imagem da garota fria e inalcançável. E ela continua assim, só que mais intensa! Ela continua frágil. Só que mais! Tudo em Quinn, positivo ou negativo apenas, pelo que percebi, aumentou em tamanho e intensidade. Ela é uma versão hiperbólica dela mesma! Mais ácida, fria, meio desatenta e com o olhar sobre o próprio umbigo, porém, muito indefesa dela mesma. Não pode controlar a dor! Ela, que gosta de tudo organizado e planificado não está, nunca, preparada para a dor! Então ela reage mal… E eu, após estes dias afastada e apenas sabendo dela via Holmes e, pasme, Alex, consegui compreender como ela funciona. Eu a conheço, Jesse! Ela mudou sim! Ficou mais fria do que já foi. E também mais sensível”.

“Sensível? Como uma estátua de bronze”, ele não acreditou em uma só palavra da esposa. Ela, certamente, estava a defender não Quinn, mas o seu ponto de vista distorcido da realidade sobre a advogada.

“Jesse, eu realmente quero que nos entendamos, eu e você. Mas, para isso, você precisa ter mais fé em mim! Mais confiança na minha capacidade de julgamento”, explicitou.

“Eu tenho fé e confiança em você, Rach-Rach! Sempre acertou em suas escolhas! Mas, quando se trata da Quinn, você perde o foco! Você sai da realidade! Você fica atordoada demais! Então, depois da exigência dela e da sua obediência cega, acredito que, como seu amigo, tenho o direito de me preocupar e tentar alertá-la! Pense sobre o que está a acontecer! Que garantias tem sobre a sinceridade dela? Ela tem uma namorada!”.

A pequena suspirou. Sabia que Quinn tinha Alex! Por que falar dela?

“Jesse, por favor, Alex é problema da Quinn. E Quinn é o meu”.

“Eu achei que ela fosse o seu amor, não o seu problema…”, espetou.

Rachel revirou os olhos. O ex-marido estava a agir como um garoto mimado.

“Não faça isso! Você não é assim”, murmurou, triste.

Ele sabia que ela estava correta. Ele não era dessa maneira! Mas… Como poderia se sentir diante do que aconteceu? Foi tão inesperado e dolorido! Saber que a pessoa que deu início a um sentimento de tristeza estava rondando sua esposa e filho o deixava inquieto e maledicente. Até, mesmo, cruel. Reconheceu. Entretanto, parar seus pensamentos e calar sua voz assustada, porém revestida de cinismo e mordacidade, era muito difícil. Ainda doía…

Suspirou.

Meneou a cabeça e a fitou. Ergueu-se e caminhou até ela e a abraçou. Beijou-a na cabeça e sentiu os braços dela o rodearem. Ela se deixou romper num pranto quase mudo. Ele a acompanhou.

“Eu só quero que me prometa que se cuidará e não me deixará de fora da sua vida, Rae-Rae”, ele murmurou, cheio de amor.

Ela sorriu entre as lágrimas. E prometeu. Prometeu que não o deixaria de fora de sua vida. Prometeu que sempre estariam juntos. Prometeu que ele era importante para ela.

Então, ele respirou aliviado e, com um sorriso doce, convidou-a para um jantar veganista, no restaurante que ela quisesse.

Ela lembrou que os pais estavam à espera dela, com Spencer.

Ele sorriu grande.

Um jantar em família.

Era tudo o que ele precisava!

A incredulidade é um vomitório para os segredos.”

– Baltasar Gracián y Morales -

Quinn olhou pela janela do carro a portaria do prédio. Quem seria o porteiro da tarde? Não se preocupou em ordená-los por turnos após observação…

“Está em dúvida?”.

A voz incrédula de Holmes, sentado ao volante, a tirou dos pensamentos.

“O quê?”, fitou-o.

Estamos aqui há quase três minutos, as buzinas estão a fazer orquestra desafinada atrás do nosso carro e a senhorita está a olhar para a portaria sem decidir se sai ou fica. Prefere que eu dê uma volta pelo quarteirão até decidir?”, inquiriu, atento.

“Eu não avisei… E não falei com ela… E se eu tiver outra dor de cabeça?”.

Quinn parecia, realmente, em dúvida.

O homem sorriu. A dicotomia daquela mulher o fascinava. Ela ia da frieza e lógica à quase infantil fase dos “porquês” em segundos. E inesperadamente!

“Eu garanto que a Srta. Berry ficará muito contente com a sua visita”, assegurou.

A mulher loira mordeu a bochecha por dentro da boca e franziu a testa.

“Os pais dela ainda estão na cidade…”, murmurou.

“Acredito que eles também gostarão muito de lhe ver”.

Ela o mirou com os olhos apertados, em clara observação.

“Está fazendo lobby para a família Berry? Acho que Alex não simpatizará com você por isso”.

“A srta. Bishop sabe que só faço o que a senhorita manda”.

Quinn riu com sarcasmo.

E Holmes pôde se surpreender outra vez com a capacidade de ela sair de um estado de espírito e ir para outro em fração de segundos.

“Eu não me lembro, e isto não é uma piadinha boba sobre amnésia, de lhe pedir para fazer propaganda positiva dos Berry”, ela comentou, sagaz.

“Realmente”, ele assentiu.

“Eu ligarei para vir me apanhar”, avisou ao abrir a porta e saltar do carro com a segurança de quem possuía superpoderes.

E talvez, ela realmente os possuísse. Até os super-heróis têm suas fraquezas. A dela era a dor…

Rachel não acreditou nos próprios ouvidos quando Maria avisou que a Srta. Fabray estava na portaria e queria saber se poderia ser recebida.

Olhou para os pais, que se divertiam com as peripécias do neto.

Eles assentiram, com sorrisos que lhe passavam segurança.

Logo, Maria estava a avisar que o elevador descia para que a visitante pudesse subir.

Os olhos castanhos passearam sobre a figura de cabelos presos num penteado bem-arrumado, blusa branca de mangas longas e punho bem marcado com saia executiva cinza e sapatos escarpins pretos e uma bolsa de mão. Na face, apenas um pouco de maquiagem para, provavelmente, disfarçar o abatimento. Estava mais magra…

“Quinn!', exclamou e correu para a loira, agarrando-se a ela num abraço aliviado.

A loira foi pega de surpresa, mas sorriu e conseguiu sustentar o impacto da menor, que agora a apertava.

“Uau!”, exclamou e a rodeou com os braços também. Comentou, para variar, meio fora de lugar, “eu não sabia que poderia causar tanta comoção”.

Hiram e LeRoy Berry se olharam e depois voltaram os olhos para a loira, ainda meio amalgamada a pequena Estrelinha, e falaram em uníssono:

“Bom vê-la também, Quinn”.

Ela tinha, divertidamente, descoberto que conseguia deitar o rosto e descansar a bochecha sobre o topo da cabeça de Rachel. E fazia isso agora. Virou-o para mirar os homens e descansou a outra bochecha, cumprimentando-os:

“Boa tarde, senhor e senhor Berry”.

Eles sorriram.

A expressão divertida na cara da loira era boa de se ver. Apesar de perceberem que ela estava se aproveitando da altura de sua pequena filha… Quinn Fabray sempre seria, de uma forma ou de outra, Quinn Fabray.

“Eu fiquei tão preocupada”, Rachel murmurou, ainda agarrada à advogada, com o rosto apertado no peito dela.

A loira estava de saltos. A morena, descalça. A diferença de altura realmente se sobressaiu.

E Quinn ainda tinha a cabeça descansando sobre o topo da de Rachel.

“Eu sinto muito… Não sabia que ficaria tão ruim… Mas, se quiser e achar conveniente, embora eu odeie falar a respeito, posso lhe colocar a par das coisinhas que me acompanham desde o acidente. Assim, quando acontecer, você não ficará tão assustada”, falou e soltou um suspiro, como se verbalizar tais coisas fosse muito desagradável.

“Eu quero, Quinn”, murmurou a pequena, voz trêmula pela mal contida emoção de poder estreitar o corpo daquela mulher que a emocionava e despertava o seu amor de maneira tão única.

Como poderiam duvidar dela?

“Está bem…”, concordou a loira.

Rachel afastou a cabeça devagar, sentindo alguns fios dos cabelos ficarem bagunçados com o roçar da bochecha de Quinn.

Fitaram-se.

“Conte-me tudo, mesmo que devagar… Dentro do seu limite”, a cantora pediu. Os olhos entornavam afeto.

“Eu contarei”, a outra assegurou.

“Vamos sentar?”, perguntou, doce.

Afastou-se (com a dolorosa obrigação de socializar com os pais e o filho) da loira. Escorregou a mão pelo braço dela até lhe alcançar a mão e a segurou.

Quinn entrelaçou os dedos num ato involuntário.

Rachel percebeu.

E sorriu.

Quinn não precisava comentar, mas comentou:

“Eu agradeci realmente quando você não entrelaçou as pernas na minha cintura quando me abraçou. Eu não sei como reagiria a isso”.

Era uma análise fria. E inapropriada.

Rachel deveria se surpreender com isso.

Mas não se surpreendeu.

Aquela mulher, com os dedos entrelaçados aos dela, era a mesma Quinn Fabray que ela amou. Só que elevada a uma potência que ainda não sabia calcular com a razão, mas o coração sabia exatamente como fazê-lo.

Isso era tudo o que ela precisava saber.

Por que Santana não notou isso?

Como Kurt não foi capaz de ver isso?

Isso era tão simples!

Tão simples quanto andar de bicicleta!

E eles deveriam saber como funcionava Quinn.

Ela só ficou mais intensa.

Como ela era na época do McKinley?

Ela poderia ser mordaz? Sim. E ela foi.

Ela poderia ser cruel? Sim. E ela foi. E Rachel sentiu isso na pele quando recebeu apelidos nada gentis sobre sua pessoa e alguns muitos banhos de raspadinhas.

Ela poderia ser doce? Sim. Ela foi. Ela foi quando disse que a amava.

Ela poderia ser tantas coisas e cada uma delas ainda eram as coisas de sempre. Só que mais fortes. Muito mais fortes!

Mesmo quando não se via nada no fundo dos olhos dela, este nada era intenso. Ele era o que as coisas insignificantes para Quinn Fabray eram na época da escola, só que aumentava tanto de tamanho que parecia um abismo.

Então, por que Santana dizia que perdeu sua melhor amiga?

Por que Kurt não conseguia conversar com ela? Quinn nunca foi doce e simpática com ele na época do colégio. Por que seria agora? Nada mudou! Ainda era Quinn Fabray e o seu comportamento de sempre. Apenas mais e mais forte, berrante, torturante e capaz de asfixiar. Mas, ainda era ela ali. Quinn Fabray! Por isso, disse que ela não tinha início, meio e fim. Era tão desproporcional que, realmente, ficava difícil saber onde ela começava e terminava! Quinn Fabray era de perder de vista. Era onde o barco desaparece no horizonte. A Terra é redonda! Não dá para olhar pela janela e ver tudo! Quinn era assim. Não dava para ver tudo. E nunca deu! Nem na época do McKinley!

Por que faziam tanto alvoroço por quem ela, na verdade, apenas voltou a ser após o acidente? A adolescente do McKinley. Quinn só voltou às origens…

Sorriu.

Era bom saber que, talvez, conseguisse cativar a loira sem coração.

Isso porque o coração de Quinn Fabray – uma dicotomia aqui – ainda era o mesmo coração de sempre. E ela conhecia a cadência dele. Só precisava afiná-los outra vez. O dela com o de Quinn. E eles bateriam juntos. E, quando isso acontecesse, com todos os defeitos e falhas que poderiam dizer que Quinn carregava, ela saberia que a teria, com ou sem amor, porque a música de seus corações seria a mesma. Não desafinariam porque cuidaria para que sempre estivessem no mesmo tom. Ainda que sua voz pudesse ser a mais potente, ela a baixaria até alcançar a de Quinn. E elas ficariam em harmonia… Tudo só dependia disso. Afinarem-se como fizeram uma vez.

Apenas isso.

Quinn estalou os dedos diante dos olhos de Rachel, que piscou algumas vezes e a mirou.

“Uau! Alex diz que quando estou chapada eu meio que viajo, mas você foi longe agora… E sem uso de drogas”, riu da cara confusa da judia.

“Isso não foi um comentário legal, Quinn”, observou, aborrecida.

A loira meneou a cabeça.

“Não era para ser”, e riu outra vez.

Rachel quis apertá-la. Era tão bom reencontrá-la!

“Já vai outra vez?”, a cheerleader estava atenta.

A cantora meneou a cabeça.

“Você sabe muito bem qual a minha opinião sobre o uso de drogas”, reclamou.

“Não. Eu não sei”, a loira achou melhor lembrá-la de que não se lembrava.

“Ok. Eu não me importo de falá-la para você”, Rachel realmente poderia fazer isso.

Hiram e LeRoy Berry se entreolharam.

Eles amavam sua Estrelinha.

Mas…

“Não, por favor!”, Roy exclamou, “hoje não, Estrelinha! Quinn teve dor de cabeça, amor…”.

A sobrancelha direita da loira subiu.

Rachel fitou os pais com incredulidade.

“Estão insinuando que eu vou causar dor de cabeça em Quinn?”, cruzou os braços sob os seios e bateu o pé no chão.

Os homens voltaram a se entreolhar.

Hiram era o advogado. Cabia a ele a defesa…

“Não é isso! Eu sei que Quinn adorará saber as suas ponderações sobre o uso de drogas, mas com a opinião médica do seu papai que, por acaso é médico…”, apontou para LeRoy.

LeRoy assentiu com a cabeça.

Hiram seguiu:

“Alguns temas que possam envolver opiniões divergentes e uma discussão, quiçá, acalorada, não poderia ser bom para a Quinn. Ela precisou ficar hospitalizada…”, lembrou e sorriu internamente. Advogados eram foda!

Rachel meneou a cabeça.

Conhecia muito bem os seus pais!

Por que ainda achavam que ela tinha seis anos e poderia ser enrolada? O texto até foi bem falado, mas a argumentação foi sofrível!

“Pai Hiram, você já foi melhor nisso”, avisou e se virou para Quinn.

Hiram ficou estarrecido.

LeRoy achou melhor compartilhar o sentimento com o esposo. Rachel cresceu! Por que eles ainda fingiam que isso não aconteceu? Ah! Eram pais! E, para os pais, os filhos ainda são bebês.

“Você realmente se altera em discussões”, Quinn indagou, achando esse tipo de comportamento irracional. Embora já o praticara uma ou outra vez…

“Não”, Rachel exclamou, “eles estão exagerando! Vamos sentar… Você quer beber alguma coisa? Café! Você disse que adora café…”, bom, este dado era realmente novo, mas simples de se habituar. Ela, Rachel, também adorava café! Uma coisa a mais em comum e para afinar seus corações! Uma nota musical na melodia de seu amor…

Sorriu ao ver o sorriso de apreciação da loira.

Chamou Maria, que apareceu sorridente e fez questão de abraçar a loira. La Bela Durmiente

Quinn pensou que a mulher era muito gentil.

Devolveu-lhe a gentileza.

Teve uma boa educação… Pelo menos para isso o Russel serviu!

Sentaram-se lado a lado, espremendo os Berry e Rachel sinalizou para que nenhum ousasse se levantar. Era bom ter Quinn espremida contra o seu corpo…

“Como se sente, Q?”, LeRoy perguntou com a facilidade de um médico que avalia seu paciente.

A loira o mirou.

“Perdão?”.

“Eu perguntei como se sente?”, ele repetiu, sorrindo com o neto que lhe subiu no colo.

“Não. Do que me chamou?”, ela esclareceu.

Roy franziu o cenho. Do que a chamou? Foi tão automático… Quinnie? Não! Q!

“Eu a chamei de Q”, respondeu.

“Perdoe-me, senhor Berry”, ela foi extremamente polida, “mas me chame pelo meu nome, Quinn. Odeio apelidos e diminutivos. Até tolero os Quinnie, mas não gosto. Então, se puder me fazer este favor, agradecerei”.

Um incômodo tomou o espaço.

Rachel suspirou.

Ainda era Quinn Fabray! Antes, ela não gostava de ser chamada de Lucy! Agora, não gostava dos apelidos! Qual o problema?

“Pai e papai, vocês sempre souberam que a Quinn detestou ser chamada pelo primeiro nome”, cuidou de não falá-lo, “não deveriam se espantar por ela não gostar de diminutivos! Ela sempre foi conhecida por Quinn Fabray”.

Os Berry se miraram.

Franziram o cenho.

Realmente…

Rachel estava certa.

Claro, LeRoy não esperava por um comentário tão frio e seco, mas se analisassem bem, Quinn sempre mudava quando a chamavam por Lucy.

“Não acontecerá novamente, Quinn”, o médico sorriu.

A loira também.

E a morena e o pai desta.

Todos sorriram.

Era só a Quinn!

“Então, como se sente?”, Roy retomou a pergunta.

A loira suspirou e desviou os olhos. Não gostava desse assunto… Mas, ser sincera outra vez poderia ser interpretado como grosseria… Não queria parecer ou ser grosseira com eles. A tratavam tão bem! Rachel estava sendo tão afetuosa e incrivelmente compreensível! Ela parecia entendê-la, como Alex entendia. Isso era novo! Ela, apenas, ainda era muito cheia de murmúrios e fragilidade… Mas, apreciava um pouco de fragilidade. Talvez fosse força disfarçada de fragilidade… Passeou os olhos sobre o corpo bem moldado e no tamanho perfeito de Rachel Berry. Ela estava cada dia mais interessante…

“Eu estou bem”, voltou à conversa, pensando que não foi muito discreta no olhar que deu na cantora.

Rachel sorriu. Sempre gostava de quando a namorada a apreciava. E agora, que ela estava elevada a várias potências, fazia isso sem se dar conta da intensidade e nem do lugar. Parecia tudo muito… Científico.

Mas um científico quente!

Esse jeito de analista de Quinn estava se mostrando muito sexy. Poderia conviver com isso! Com certeza!

“Eu só fiquei em observação”, tentou amenizar o fato a fim de que a conversa parasse. Havia assuntos mais interessantes do qual poderia falar… Mas este não era um desses… Nunca foi. E nunca seria.

“Mas…”, a voz de Rachel soou tímida e atraiu os olhos de Quinn, que estacionaram nos lábios dela, atentos em como se moviam para perguntar, “eles sabem a razão para a dor ser tão forte”.

A loira levantou os olhos para os castanhos e mergulhou neles.

Eram vívidos e expressivos.

Rachel falava através deles… Era tão aberta e sem reservas… Pelo menos, ali, no instante… Deveria ser boa atriz para enganar as pessoas e ser indicada a prêmios por isso… Sorriu com o canto dos lábios, achando o fato interessante. Atores ganhavam para fingir, enganar, mentir…

“Onde se formou, mesmo?”, a pergunta descabida pegou a todos de surpresa.

A atriz respirou fundo. Quinn Fabray costumava fingir vez ou outra. Tudo para fugir de uma verdade ou algo que a incomodasse ou aborrecesse. A pergunta não era uma fuga. Mas era tão inesperada como qualquer atitude passada dela para mudar de assunto. Então, era só responder:

NYADA”.

“Sei… Você foi indicada a algum prêmio?”.

Rachel sorriu com a curiosidade inesperada da advogada. E respondeu a esta pergunta também.

E sorria. Sorria porque estava sendo tão fácil conversar com Quinn. Com a sua Quinn! Aquela que acharam e afirmaram que desapareceu. Deus! Ela não desapareceu! Ela sempre esteve ali, escondida no melhor lugar de todos, onde poucos conseguem enxergar: diante dos olhos!

Que a força do medo que tenho

não me impeça de ver o que anseio

porque a morte de tudo em que acredito

não me tape os ouvidos e a boca

porque metade de mim é o que eu grito

mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe

seja linda ainda que tristeza

que a mulher que amo seja sempre amada

mesmo que distante

porque metade de mim é partida

mas a outra metade é saudade (...)”.

– Oswaldo Montenegro em Metade

CONTINUA.

Notas finais
Até o 55... Abraço afetuoso. - Cal. *-* OBS.: "compre batom, compre batom, compre batom..."