Sine Cordi

38 CAPÍTULO 38 - לח


Notas iniciais
Quinn... Um pouco curiosa? Santana... Muito dura? Rachel... Vestiu-se de esperança? Eu... Preciso do feriado logo para tentar avançar com a história!

Ela está colorida com todos os segredos da minha alma

Eu sussurrei todos os meus sonhos

Mas, tão logo a noite cai esta visão se desfaz

Em um enigma para o coração dele”.

– Roxette in Vulnerable

Alex sentiu que era, ainda que de forma branda, empurrada.

Abriu os olhos, sonolenta.

De novo o frágil empuxo, desta vez acompanhado por um gemido.

Abriu os olhos de golpe. Quinn estava inquieta… Embora adormecida. Preocupou-se e sentou na cama, a murmurar o nome da namorada.

Não houve resposta. Apenas os murmúrios de alguém que parecia sofrer… Seria outra crise?

“Quinn…”, insistiu.

A loira parecia estar em uma pequena batalha interna.

“Quinn…”, sacudiu-a devagar.

A ex cheerleader parecia prisioneira de um estado que não soube definir se era uma crise ou um pesadelo.

“Precisarei me inteirar mais do seu histórico médico…”, murmurou nervosa e pensou em Holmes. Olhou o relógio digital sobre a mesa de cabeceira ao lado da namorada. Três e quarenta… Madrugada ainda. Chamaria o cuidador se não conseguisse despertar a mulher por quem era apaixonada.

“Quinnie, baby, acorde”, insistiu, segurando-a pelos ombros e sacudindo-a de leve.

Os olhos verdes se abriram em choque e a loira sentou na cama, perdida, confusa.

“Quinn, está tudo bem?”.

A loira seguiu o som da voz e piscou, os lábios entreabertos, a respiração acelerada.

“Quinnie…”, estendeu a mão para acarinha-la na face, porém a outra se desviou do afago e se afastou, quase despencando da cama ao atingir a beira. Equilibrou-se.

“Quinn, acorde…”, pediu e acendeu o abajur que estava ao alcance das mãos a fim de que a loira a mirasse com mais acuidade.

A advogada voltou a piscar e a confusão nos olhos mudou lentamente para o reconhecimento.

“Alex?”, a voz saiu rouca.

A jornalista se aproximou devagar.

“Sim. Você estava sonhando…”, falou delicada, quase a perguntar.

“Pesadelo… Não sei…”, respondeu atordoada, “não lembro”, acrescentou.

Alex segurou a mão dela e viu como os olhos da namorada acompanharam-lhe o movimento.

“Você se afastou de mim… Está tudo bem?”.

“Está”, confirmou, ainda com os olhos pregados na mão da outra mulher, agora, sobre o seu pulso.

“Eu… Acho melhor voltar a dormir…”, sussurrou, “o julgamento começará daqui a pouco… Eu estou nele”, avisou.

Alex sorriu. A mulher que amava pareceu-lhe uma menina de seis anos de idade.

“Eu posso abraça-la?”, questionou a editora.

A loira franziu o cenho.

“Por quê?”.

“Porque eu amo você…”, respondeu tranquilamente, “porque eu me preocupo com você, porque eu quero você bem… Preciso de mais motivos? Eu posso lhe dar outros…”, sorriu.

“Não… Estes já estão bons… Mas eu só quero deitar e dormir… Sem abraço”, retorquiu.

A jornalista suspirou. Queria a mulher a frente, frágil, entre seus braços. Queria que ela sentisse com o calor do seu corpo o amor que lhe devotava. Entretanto, sabia que alguns limites precisavam, vez ou outra, serem respeitados.

“Ok…”, concordou, tentando escamotear a decepção.

“Ok…”, a loira repetiu e se deitou.

Alex a imitou e se colocou de lado, mirando o perfil bem desenhado da advogada.

“Sabe o que eu farei?”, perguntou bem baixinho.

Quinn virou o rosto para ela…

“Não”.

Alex sorriu-lhe.

“Vou esperar você dormir outra vez e, então, vou abraça-la”, avisou.

Quinn assentiu, distante.

“Tem certeza de que está tudo bem?”.

“Tenho”, confirmou.

“Por que não fecha os olhos e tenta dormir outra vez? Você precisa descansar”.

“Você quer que eu durma para que eu descanse ou para que possa me abraçar?”, indagou.

A jornalista gargalhou. Às vezes a namorada era deliciosamente sem filtro.

“Para as duas coisas…”, foi sincera.

Quinn pareceu pensar um pouco.

Alex se derretia mirando-a.

“Pode me abraçar…”, murmurou, “agora”.

Os olhos azuis da mulher brilharam e ela se chegou devagar. Beijou a face da namorada com delicadeza e envolveu o braço, levemente, sobre o abdome dela.

“Eu não estou com medo”, observou, “eu não tenho medo dos pesadelos… Na verdade, durante a infância, praticamente a metade das crianças têm sonhos ruins e, durante a idade adulta, quase sessenta por cento das mulheres os têm”, virou a face e aprisionou os olhos azuis nos seus, “você sabia?”.

“Eu já disse que você fica ainda mais linda quando começa a divagar?”, perguntou, enamorada.

A ex cheerio franziu o cenho, séria:

“Não estou a divagar! Estou lhe fornecendo dados científicos”.

“Ok… Então eu vou refazer a minha frase”, a morena afagou a face que a encantava, “eu já disse que você fica ainda mais linda quando explica as coisas mais triviais de maneira tão concentrada?”.

Quinn não respondeu. Desviou o rosto e cerrou os olhos.

Alex a beijou delicadamente no canto da boca. Afastou-se só um pouco e a observou até que, pouco a pouco, percebeu que adormeceu.

“Eu amo você, Quinnie…”, sussurrou e fechou os próprios olhos. Todavia, não dormiu. Preocupou-se. A namorada quase nunca tinha pesadelos… E há algum tempo não a via tão atordoada como há pouco. Seria o julgamento? Não… Este era um dos momentos mais prazerosos da loira: vencer julgamentos!

Suspirou. Talvez, estivesse a procurar muito fundamento em algo que definiu, há pouco, como trivial…

O amor é quando começamos por nos enganar a nós próprios e acabamos por enganar a outra pessoa”.

– Oscar Wilde -

Era o segundo dia de julgamento.

Rachel chegou cedo ao salão de júri e encontrou Santana ao lado de Russel.

Não viu Quinn e se preocupou.

“Ela ainda não chegou”, perguntou, sentando-se ao lado da morena mais alta.

“Não se preocupe. Ela já deve estar a caminho”.

A cantora percebeu que o humor de Santana não estava bom.

“Está aborrecida porque eu fui almoçar com ela ontem?”, questionou, observando-a.

A latina a mirou.

“Eu não posso decidir por você, Rach. Apenas alerta-la…”, confessou.

“Mas decidiu por mim quando ocultou o acidente dela… A tentativa de…”, a voz morreu na garganta ao perceber a palidez da outra.

“Quem lhe disse isso? A Quinn?”.

“Não… Eu pensei que ela não soubesse…”, murmurou.

“E não sabe! E você? Como soube?”, estava preocupada.

“Soube por Jesse que soube por Blaine”, revelou.

“Aquele protótipo de fofoqueiro contou para o Jesse? E eu sempre achei que o ‘porcelana’ seria o que daria com a língua nos dentes”.

“Por quê, Sant? Não pensou que eu tinha o direito de saber”, indagou.

A advogada suspirou antes de retorquir:

“E do que adiantaria? O que acha que poderia fazer para mudar a situação? Os médicos não conseguiram mudar…”.

“Você me culpa…”, sussurrou.

Santana riu sem graça.

“Eu acho que, de verdade, você foi uma cadela. Mas Quinn escolheu morrer. É para ela que eu direciono a minha frustração! Eu não pude fazer nada, Rachel! Ela decidiu sozinha! Todos pagamos… Eu perdi a minha melhor amiga e ganhei uma… Uma sócia debochada e sem o menor senso de culpa. Ela não se importa comigo, ou com a Britt ou mesmo você! Ela tem mudanças de humor e pode ser desagradável”, despejou-se.

“Eu sei quem ela é. Ela não escondeu”, murmurou, amuada.

A latina meneou a cabeça antes de voltar a falar:

“Você viu o que ela quis que você visse, Rachel! Você não a conhece!”.

“Ela é um ser humano, Sant!”.

“Eu sei! Mas é um ser humano cruel. Ela tem prazer em irritar e controlar as pessoas… Não se iluda!”.

Rachel respirou fundo e se virou para a frente.

Viu o promotor J.J. Lancaster adentrar ao recinto por uma porta lateral, que dava no corredor onde ficava o escritório da promotoria e a sala do juiz Walker.

Santana observou-lhe o perfil. E o abatimento da judia era patente.

“Ela fez você se sentir mal”, atalhou.

A cantora a olhou.

“Eu fiquei atordoada… Ainda estou!”.

“Por que acha que ela resolveu lhe contar?”.

“Talvez porque os meus ‘amigos’ não acharam que eu merecia saber”, espetou.

A latina suspirou e cochichou:

“Você estava longe! E, ainda que não tivesse viajado, seria testemunha de uma tentativa de autodestruição grotesca”, informou, “e ficaria como eu e todos os que aqui ficaram: impotentes”.

“Mas eu estaria preparada para lidar com ela, Sant!”, argumentou.

“Não. Você não estaria. Eu não estou… E eu não saí do lado dela por muito tempo. Mas eu era apenas como uma parte da mobília do hospital… Ela não compreendia o que havia acontecido”, revelou.

Rachel engoliu em seco. Havia na voz da latina rancor?

“Você a odeia?”, sussurrou a pergunta.

Santana suspirou.

“Eu lamento…”, a cantora exprimiu.

“Tarde demais para lamentar, Berry”, respondeu.

“Você está, realmente, irritada porque eu saí com ela ontem?”.

A advogada negou com um balanço de cabeça.

“Seu humor me diz o contrário”, insistiu.

“Eu estou aborrecida com a Quinn! Desculpe, Rach! Mas não é a toda hora que eu tenho paciência para as coisas que ela faz”, derramou.

A atriz não entendeu…

“Isso tem a ver com o fato de sairmos ontem?”, persistiu na questão.

“Tem!”, a advogada foi taxativa ao confessar desta vez.

“Por quê?…”, estava surpresa.

A ex cheerio não respondeu.

“Sant, eu serei cuidadosa…”.

“Boa sorte!”, exclamou.

Rachel não esticou a pequena discussão. Desejou estar cerca da ex fotógrafa e ex-namorada.

Suspirou. Apesar de a vontade em acompanhar a Fabray de ainda mais perto ser imensa, a razão lhe sinalizava que deveria dar espaço para ela. Talvez ela a buscasse outra vez…

Quis isso.

Esperava que Quinn a convidasse para saírem de novo. Talvez Santana apenas estivesse a ser protetora demais.

“Por que você é tão cuidadosa sobre a Quinn… Acha que ela poderia ser má ou fazer algo para me ferir?”, inquiriu.

A advogada elevou e soltou os ombros.

“Ela não vai machuca-la fisicamente! Mas Quinn não tem muita consideração… Eu nunca sei o que ela vai fazer. Há momentos em que eu penso que ela está sendo sincera, mas logo depois ela vira todo o contexto e transforma tudo num grande deboche”.

“E do que tem tanto medo, Sant? Ela não se lembra! Como poderia ser cruel”.

“Ela já foi cruel com você, Rach! Por que não faria de novo?”.

“Ela foi muito atenciosa comigo…”, confessou.

“Ela consegue ser o que quiser, desde que lhe interesse”.

A cantora percebeu que a latina estava irredutível quanto à Quinn.

A própria Santana tinha esta consciência. Mas sua realidade era diferente… Ela viveu os dias traumáticos após o acidente da amiga. Ela se sentiu frustrada por saber que, não importasse o que fizesse, a vida de Quinn não poderia ser devolvida… E sentiu que falhou miseravelmente com ela! E, depois, quando ela estava na reabilitação, não conseguiu lidar com aquela garotinha de seis anos de idade presa dentro do corpo da mulher que foi. Não conseguiu lidar com os humores vários dela, com o fato de ela não reconhece-la e não se lembrar. Nunca conseguiu lidar com a perda de Quinn… E não soube como aprender a lidar com a mulher que passou a existir após o acidente.

O tempo e a convivência com a loira lhe apontaram que sempre seria bom manter um pé atrás com ela.

“Você acredita que ela, Quinn, mente o tempo todo?”.

A pergunta foi feita de maneira quase ingênua.

A latina ponderou…

“Talvez não o tempo todo… Eu não sei o que a move. No início, era muito complicado. Então ela se interessou pelo Direito e decidiu que seria uma das melhores advogadas de Nova York… E conseguiu. Nunca pegou um caso que se pudesse dizer: este é fácil de se ganhar. Só aceitou, até hoje, casos complicados. E ela se dedica intensamente. Então ela ganha. E depois, precisa de mais e mais… Eu prefiro não entender”.

“Por quê?”.

“Talvez eu tenha medo do que vou descobrir… Ou só queira, mesmo, fingir que ela não é diferente”.

“Diferente?”.

Silêncio.

“Sant…”, chamou.

“Rach, apenas se cuide”, insistiu, seca.

Rachel ficou surpresa com a maneira de Santana. Por que o fato de tê-la convidado para almoçar não poderia significar que a loira estava, realmente, tentando uma reaproximação?

Respirou fundo e soltou o ar devagar.

A advogada meneou a cabeça quando viu a expressão boba na face da atriz.

“Não aja como se fosse a adolescente do McKinley! Seja madura. Se naquele tempo você achou que a sua ex-noiva lhe atormentou a vida, saiba que aquela líder fria e cruel ainda ficou nela, só que elevado a uma potência bem maior”.

Dessa vez, um leve tremor percorreu a espinha da cantora.

O racional demais do meu cérebro estraga o emocional”.

– Vitória Noronha Susi -

Holmes a fitou com olhos preocupados.

Ela estava sentada ao lado dele, no banco do carona, enquanto se dirigiam para o tribunal. Estava concentrada na, talvez, milionésima leitura dos autos do processo.

“Não comentou sobre o seu almoço de ontem…”, murmurou, atento ao trânsito.

Ela não respondeu. Estava alheia.

“Eu soube que o Sr. Spock ajudará o juiz Walker…”.

“Bom…”, ela murmurou.

“Então concorda que o Capitão James Kirk também participe do julgamento”, ele acrescentou.

“Aham…”, murmurou.

O cuidador meneou a cabeça. Pela dedicação dela ao processo, diria que ela ganharia ou ganharia. Não havia alternativa na cabeça da advogada.

Então estancou a leitura e comentou ao léu, a causar surpresa no homem:

“Ela está lá… Está a acompanhar o julgamento. Eu só me pergunto: por quê? Ela é uma atriz famosa e…”, pareceu analisar as palavras, “ela deveria ter ocupação de estrelas, como aparecer em programas de entrevistas, comparecer a festas beneficentes… Por que ela insiste em estar num tribunal? Que tipo de pessoa famosa ela é?”.

“Está a divagar sobre a Srta. Berry?”, o espanto saiu na voz de Holmes.

Quinn suspirou e respondeu, indiferente:

“É… Eu acho que estou… Curiosa…”.

“E o que a Srta. Bishop acha sobre a sua curiosidade? Ela sabe?”.

“Ela não é minha dona”, murmurou.

“Mas é a mulher com quem se relaciona”.

A advogada o fitou e suspirou. Falou:

“Eu só estou curiosa sobre Rachel Berry! Eu quero entender o que motiva uma pessoa a acreditar que é apaixonada quando, na verdade, não é. Não pode ser, porque tudo o que eu percebi até agora contradiz as palavras dela… Esta confusão é interessante…”.

“Não brinque com ela…”, murmurou.

“Eu não vou brincar! Você e Santana andaram conversando? Eu sou o bicho papão?”, riu com incredulidade.

“Não, senhorita. Mas… Para mim é curioso que se interesse por alguém…”.

“Está insinuando que eu vou magoar a Rachel? Por que eu faria isso?”.

O cuidador parou o carro no semáforo vermelho a esperar os pedestres atravessarem a larga avenida e se quedou por um instante a analisar o pergunta da jovem mulher. Olhou-a de esguelha:

“Não posso dizer que a senhorita é alguém muito sociável”, confessou.

“Eu sou discreta, Holmes. Há diferença! Eu não saio atrás das pessoas e respeito a minha intimidade. Isso não me faz antissocial”.

“Gosto da maneira como defende o seu ponto de vista. Entendo porque ganha os julgamentos”.

A advogada riu, divertida.

“Diga-me, ó sábio homem: ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’?”.

“Quem seria água? E a pedra?”.

Ela negou com a cabeça e falou:

“Suas dúvidas não contribuem para o enriquecimento de nosso colóquio”.

“Eu tentei…”, murmurou a colocar o carro em movimento.

“Não se esforce tanto”, ela avisou. “Eu quero saber quem ela realmente é!”, tornou a falar.

Ele a olhou de soslaio.

“Não é da sua natureza ser curiosa sobre as pessoas”.

“Bom… A Srta. Berry despertou a minha curiosidade”, afirmou.

“Eu devo me preocupar?”.

Quinn cravou os olhos verdes nele. Voltou-se para frente e respondeu:

“Não creio… Está tudo bem”.

“Srta. Fabray, lembre-se que a Srta. Bishop é muito dedicada a você”.

A loira riu divertida outra vez.

O homem não gostava quando ela não o levava a sério. Temia por ela. Lamentava a forma como acabou por se isolar de todas as pessoas que, certa feita, foram seus amigos. Quem ela tinha agora?

“Não magoe a Srta. Bishop”, avisou.

Não obteve resposta.

Ela já havia se desligado da conversa, de volta a leitura.

Seus clientes menos satisfeitos são sua maior fonte de aprendizado.”

– Bill Gates -

Quinn entrou no tribunal e caminhou até o promotor, que a observou em um terninho azul-marinho bem cortado, a blusa social fina, de cetim azul bebê; a saia do conjunto na altura dos joelhos, os saltos… O cabelo preso num coque charmoso… Era uma mulher belíssima e misteriosa.

“Bom dia”, ela cumprimentou, organizando o material que precisava na bancada, ainda sem sentar.

Após arrumar a papelada, passeou os olhos pela audiência e a viu.

Rachel Berry tinha os olhos pregados nela.

Sorriu, pediu licença ao Lancaster e caminhou até o local onde estava a judia.

Dios…”, murmurou Santana.

A cantora a mirou confusa, mas logo a face se iluminou com a aproximação da loira.

Ela foi polida:

“Bom dia, Sr. Fabray! Bom dia, Drª Lopez e, finalmente”, direcionou os olhos para a cantora que achou que hiperventilaria, “bom dia, Rachel. Como se sente? Eu lembro que lhe dei um cartão com meus telefones, mas cometi o erro crasso de não lhe pedir o seu número. Tentei negociar com a Drª Lopez, mas ela não aceitou os meus argumentos quanto a me ceder, gentilmente, o número do seu telefone”.

A latina bufou.

“Me-Meu número de telefone”, indagou, surpresa.

“Eu quis saber do seu estado após o nosso ‘almoço’… Mas não tinha como contata-la”, justificou.

Rachel sentiu uma onda de felicidade toma-la. A “Rainha de Gelo” não parecia tão fria como lhe disseram, nem ameaçadora…

“Eu gostaria muito de repetir o nosso almoço… Estou curiosa”, confessou.

“Curiosa?”, a cantora sentiu que a felicidade diminuiu.

“Curiosa para conhece-la! Saber o que a move…”, sorriu.

A cantora se sentiu o centro do universo…

“Isso seria muito… Muito agradável e simpático, Quinn”.

“Que bom que gosta da ideia. Faça-me um favor…”, a voz doce encantava a judia, “pegue o cartão que lhe dei e telefone para o número. Salve-o na sua agenda que eu salvarei o seu. Mas, por favor, faça isso logo”.

Correu a mirada de Santana para Russel e ofereceu-lhes o seu olhar mais brincalhão.

Voltou-se para a Berry e aproximou o rosto do dela, encarando-a de tal maneira que os olhos castanhos não piscaram e nem se desviaram. Murmurou:

“Ligue-me…”, e se retirou.

Rachel não conseguiu empunhar o telefone. Tremia de nervosismo causado pela emoção de saber do interesse da ex-namorada.

Santana, que não perdia o foco, avisou:

“Lembre-se que a Quinn tem um cão de guarda chamado Alex Bishop. E ela nunca fica ausente por muito tempo. Respeite a relação delas”.

A cantora sentiu o coração apertar dentro do peito.

“Eu não tentaria fazer nada contra Alex…”, defendeu-se.

“Não?”.

“Não”, confirmou.

“Então, por que está com o telefone nas mãos, pronta para obedecer a Quinn?”.

“Eu não entendo você, Santana! Eu quero recuperar a Quinn… Mesmo que eu tenha que me conformar com a amizade dela”.

A advogada a mirou e falou:

“Por que não nos encontramos e eu lhe conto tudo o que aconteceu com a Quinnie, com riqueza de detalhes? Talvez com um quadro geral da situação, você consiga me entender”.

“Eu realmente gostaria muito disso, Sant. Mas, pela maneira que parece intoxicada por Quinn, poderei confiar no seu parecer? Você será imparcial?”.

A latina suspirou.

“Talvez não… Mas você sempre poderá conferir a veracidade das minhas palavras com o Kurt e o Blaine”, propôs.

A cantora assentiu. Talvez pudesse entender mais sobre a ex-namorada. Ainda que um pouco tarde. Entretanto, pensou, qualquer informação seria bem-vinda para ajuda-la a se aproximar de Quinn. Procurou pelo cartão que a ex-namorada lhe deu no dia anterior e, encontrando-o, digitou os números que estavam no pequeno e requintado objeto de apresentação.

Quase não conteve a euforia ao ver que a loira virou a face para ela e sorriu, quando soube que lhe acatou o pedido.

O julgamento começou pontualmente às nove horas e a defesa chamou a primeira testemunha. Entretanto, foi a Fabray que obteve o melhor desempenho, a causar desconforto no Mathews e profunda raiva em Street que não conteve a língua ao se dirigir ao advogado, repetitivo:

“Por que foi tolo o bastante para aceitar que a Srta. Fabray auxiliasse a promotoria?”.

Anthony fez-se de surdo. Já havia respondido a esta pergunta. Não gastaria saliva para se justificar com o cliente. Até porque não tinha muito o que justificar. Houve um instante, há alguns dias, em que pensou ser capaz de bate-la no tribunal, porém concluiu – tardiamente – que este era um feito muito mais difícil de se alcançar. A advogada parecia ter todas as perguntas prontas e a maneira certa de faze-las, como se soubesse o que seria respondido, além dos protestos que funcionavam como relógio suíço: pontual e sem margem de erro. Tentaria, mais uma das tantas vezes, ser um pouco, ao menos um pouquinho, melhor que ela.

Raul suspirou antes de comentar, insatisfeito:

“Antes o senhor, doutorzinho, tinha o julgamento nas mãos. Por que deixou a vitória escorregar das suas e ir para as da Dra. Fabray?”.

O advogado não disse palavra.

Street riu, descarado:

“Eu a vejo, neste instante, em poder da Dra. Fabray e da promotoria… O que vê, doutor?”.

“Até agora, Sr. Street, apenas o desenrolar de um julgamento. Nada além”, respondeu o advogado.

Raul meneou a cabeça, incrédulo.

“Curioso… Eu tenho a nítida impressão que você vê exatamente o que eu vejo: Quinn Fabray a nos esmagar com frieza e talento…E eu só posso expressar uma palavra: lamentável!”.

Na vida humana só uns poucos sonhos se cumprem, a grande maioria se ronca.”

– Enrique Jardiel Panceta -

CONTINUA.

Notas finais
Abraço afetuoso e aproveite o FDS! OBS.: Drª Andréa Agronsky, obrigada pela ajuda! ;)