Sine Cordi

93 CAPÍTulo 93 - ץג


Notas iniciais
E eis que em meio ao carnaval, após longo desaparecer, foram encontrados vestígios de que a autora de Sine Cordi permanece neste mundo e (há algo fora de lugar?) ESCREVE! Então, segue o capítulo que continua o anterior (duh!). OBS.: se a configuração do texto aparecer estranha, isso tem a ver com o fato de que a autora da fic escreveu o capítulo no celular e quando mandou para o note, deu pane e ela estava sem nenhuma paciência para ajeitar a situação. Assim, a produção pede desculpas... (ºvº)

Que a metade do medo que tenho

Não me impeça de ver o que anseio (...)

— Metade (Oswaldo Montenegro) -

“A-alianças?”, a voz de Rachel era um sussurro afogado no espanto e na incredulidade.

Quinn respirou fundo. Por que Rachel tinha que perguntar o óbvio? Acabou de dizer que precisariam de alianças e ela ainda perguntava! Ou…

“Você não quer aliança? Quero dizer…”, analisou e respondeu baseada na lógica, sentindo uma incômoda e estranha sensação de… Decepção? Nah! Por que estaria decepcionada por Rachel não desejar uma aliança? Então sentiu que o foco foi desaparecendo… Ela estava desaparecendo, perdendo a consciência e não conseguia controlar…

M cravou os olhos verdes musgos que lançavam dardos na face de Rachel, que de imediato viu a mudança de personalidade na esposa.

“Por que não quer usar aliança?”, a pergunta da loira não saiu gentil. Ao contrário, mostrava uma espécie de ira mal contida.

Rachel se deu conta de que M estava ali para proteger Quinn. E essa percepção a levou a perguntar: por quê? Quinn temia alguma coisa? Temia ser magoada outra vez? Traída? Era possível Quinn estar se enamorando outra vez e isso a deixava insegura?

Era uma possibilidade? Sim…

Porém… Isso não deveria acontecer, porque ela importava nada para Quinn.

Quinn não tinha sentimentos por Rachel!

Isso era absurdo!

Ou não?

Os olhos chocolate arregalaram-se e a cantora não conseguiu segurar a mandíbula, ficando literalmente com uma expressão estranha que era um mexido de susto e falta de fé. O coração acelerou e sentiu que flutuava… Estava numa névoa onírica de emoções em que a felicidade se sobressaía! Quinn se importava!

Ou isso parecia…

“Rachel, eu estou falando”, a personalidade pouco agradável da advogada segurou o rosto moreno e o girou até ficarem olhos nos olhos, respiração com respiração. A loira comentou, sem fazer questão de ocultar a malícia:

“Você fica fodidamente sexy com essa cara aturdida…”, aproximou a boca do ouvido judio, respirou e soprou devagar, bem ali dentro, morno e terrivelmente a gosto, que fez fugir um gemido de prazer por entre os lábios de Rachel, que apoiou as mãos nos ombros loiros e murmurou, controlando o tom de voz para não demonstrar o quanto M a provocava:

“Eu não tenho problema algum em usar uma aliança que simbolize a nossa união”.

A loira afastou a face e encarou a cantora, com desconfiança. Escrutinou-a, a fim de se certificar que a morena não estava blefando.

“E o que dirá para a imprensa quando indagarem pelo aro pouco discreto que colocarei no seu dedo?”, acossou, com maledicência.

“Direi a verdade”, Rachel não fugiu à pergunta, “direi que me casei com a pessoa que sempre amei. E quero ficar ao lado dela pra sempre, se possível”, foi sincera.

“E quanto as críticas sobre não esperar o seu defunto marido esfriar para se meter na cama de outra pessoa? Ainda mais uma mulher?”, M instigou.

“Bom… Eu não estava mais compromissada com Jesse quando o nosso casamento, meu e da Quinn, aconteceu. E eu nunca escondi dos meus fãs que sou bissexual e que mantive um relacionamento com uma mulher…”, informou, observando a pupila dos olhos verdes de M irem aumentando de tamanho; “eu apenas não revelei o nome de Quinn e, como na época as pessoas construíram uma imagem romântica de mim, como a talentosa atriz que perdeu o seu príncipe encantado para morte”, fez aspas com os dedos, “o Finn”, elucidou diante do cenho franzido de M e continuou, “as pessoas nunca ligaram o meu nome ao seu… Digo, o meu nome e o de Quinn… Talvez o façam agora”, comentou, ainda sob o escrutínio loiro. Continuou, com um tom confortável na voz:

“E depois, eu serei só mais uma das tantas atrizes e cantoras bissexuais. Na verdade, eu já sou e defendo a causa gay e qualquer outro tipo de luta contra o preconceito”, resolveu acrescentar, como se mostrasse um currículo.

“Certo…”, M se afastou a um canto e se calou.

Rachel a observou, entre confusa e assustada. Pensou em como M era tão inquietante por sua imprevisibilidade. E que o fato de ela ficar simplesmente como se perdida em algum tipo de pensar lhe deixava com os pelos do corpo arrepiados. E não num sentido agradável.

“M…”, chamou, mas percebeu que a personalidade se foi, porque Quinn se voltou pra ela um pouco zoada e se desculpou, porque havia perdido a consciência. Não sabia quanto tempo ficou fora.

A cantora informou:

“Não foi por muito tempo, Quinn…”.

A ex-fotógrafa assentiu e olhou pela janela. O trânsito, apesar da hora, estava agarrado.

“E sobre a sua pergunta…”, Rachel prosseguiu, enquanto a esposa meneou a cabeça e tentou lembrar qual foi a última coisa que lhe aconteceu antes de cair nas sombras.

Oh!

Lembrou: falou que precisariam de alianças e a cantora não pareceu apoiar a ideia. Respirou fundo e se perguntou o que estava fazendo. Por que se comportava feito tonta diante de Rachel? Que ideia mais idiota foi essa de alianças? E nem pensava que este era um aparato importante! Deus! Rachel lhe estava fundindo a cabeça. Seus parafusos pareciam encaixados nos lugares errados!

“Não falaremos mais sobre isso”, decidiu, já vestida com sua máscara de frieza. “Essa foi uma ideia descabida”, sentenciou.

Rachel conteve um sorriso. Parecia que Quinn estava com o coração partido e agia como se não fosse grande coisa desejar que ambas usassem uma aliança. Ela pensava que Rachel não queria! Tão cabeça dura!

“Quinn…”, a cantora tocou a mão da loira, mas essa a afastou num gesto que, para a morena, pareceu pueril.

“Ouça”, a loira capturou os olhos morenos nos seus agora num tom verde mais claro, pois as pupilas contraídas de Quinn demonstravam o quão insatisfeita ela estava, apesar de tentar parecer que não pela forma como a armadura de indiferença se acoplava a ela e a transformava num robô quase perfeito. Exceto pelo que, de verdade, a mente loira revelava através dos olhos que se cobriam de um manto frio.

O tom que parecia indiferença por parte da loira trouxe Rachel das divagações acerca do que percebia sobre a esposa. Teria que agradecer ao seu terapeuta pela maneira em que ele a induziu a perceber um pouco mais da advogada. Além de tudo o que escutou das outras personalidades que nunca esconderam sua verdadeira intenção.

“Este assunto está encerrado, Rach-Rach”, Quinn foi afilada, “imagino que está concordando com o uso dos anéis porque deve estar assustada. Provavelmente, M apareceu e lhe ameaçou. Pois preste bastante atenção: não vamos seguir por esse caminho”, a advogada soltou o que achou mais lógico para fazer a Berry mudar de ideia: M ameaçou a cantora que, assustada, resolveu obedecer a ordem. Pois bem! Não seria assim! Seria a sua própria maneira, a maneira de Quinn Fabray, e não a de uma personalidade aterradora. E não se importava! Não ficaria insistindo em algo tão trivial como umas alianças só para… Fustigar Rachel?

Merde”, mastigou o xingamento, aborrecida consigo mesma por não compreender o que havia na judia nariguda que a atraía feito ímã. Ela nem era tão bonita… Avaliou, passeando os olhos pela esposa, completamente alheia ao fato de que a cantora a mirava.

“Quinn”, Rachel a fez retornar, tentando ignorar a maneira como a esposa a olhava com mal disfarçado e inconsciente desejo, “eu não fui ameaçada por M. Ela só quis saber a razão pela qual eu titubeei…”.

A loira não disse palavra. Na verdade, ela virou estoicamente o corpo para frente e fez de conta que a morena não estava ali. E, após analisar o contexto sob a própria lógica, decidiu que seria bom levar a cantora para casa… Não conversaria sobre elas viverem juntas. M e Lucy que fizessem o que quisessem e fossem até a cobertura da morena se quisessem vê-la!

“Eu fiquei surpresa!”, a judia começou a explicar, “eu nunca pensei que você quisesse ir tão longe comigo”, Rachel não se importou se era ouvida, “eu não tenho medo de M ou de você. Eu te amo Quinn! Eu não amo apenas a pessoa que você foi. Eu amo a pessoa que é agora”, sorriu pequeno, “você sabe… Eu adorarei trocar alianças com você… Ou o que você desejar! Por favor, não se afaste! Acredite em mim… Eu só quero uma oportunidade com você!”, Rachel falou, ainda que fosse para a indiferença da esposa. Entretanto, a loira sentiu o coração acelerar no peito e a ideia de que ela e Rachel compartilhariam o mesmo teto, as manhãs, a cama (se não o fizesse, certamente M ou Lucy fariam) lhe causou as malditas mariposas no baixo-ventre. E… A imagem de si mesma roçando os lábios judios com os próprios a tomou. Não sabia se foi um sonho ou… Uma lembrança? Na verdade, não importava, porque sentiu-se excitar e isso não era conveniente e para nada bom. Saber que poderia fazer amor com Rachel e…

“Nada bom, nada bom, nada bom…”, cantarolou para si mesma, ao passo em que colocava a pergunta baixo seu foco analítico: fazer amor com Rachel? Nah! Fariam sexo! Nada além disso! Apenas uma satisfação ao apelo carnal.

Voltou-se para a judia e, atabalhoada como nunca foi antes, piscou algumas vezes e soltou, com a voz rouca pelo resultado que as imagens inconvenientes de sua mente sobre a judia ainda lhe causavam:

“O… Como? Eu… Eu acho que me distraí…”, falou a verdade.

“Estava tentando me ignorar”, a morena informou. A loira sentia um calor que a estava incomodando. Retirou o sobretudo, desabotoou o paletó do conjunto executivo que usava e sentiu que a face lhe queimava.

“Mas que merda…”, respirou fundo e a ideia de pensar em alguém sendo atropelado por Holmes e voando por sobre o capô do carro, aterrissando feito um boneco de trapo no asfalto sujo lhe veio a mente. Precisava esmaecer o resultado da imagem de Rachel em seu corpo. Aliás, de onde surgiu a ideia do atropelamento?

“De onde saiu isso, por Deus?”, sussurrou e passou a mão na testa. Será que costumava fazer isso para controlar a excitação antes de perder a memória? Era tão estúpido e…

Fez efeito!

Respirou profundamente outra vez e se voltou para a morena, evitando os olhos marrons que possuíam o mau hábito de acorrentá-la.

“O que disse… Pode repetir por gentileza”, pediu e Holmes menou a cabeça discretamente, pensando que a patroa estava de quatro por Rachel Berry. Não se lembrava de ela ser assim, educadinha, com Alex. Era teimosa, arrogante, cínica, frágil, perdida… Mas nunca desse jeito como se comportava com a cantora. E ela nem se dava conta… Riu para si mesmo, agora certo de que a patroa ficaria bem. Não seria da noite para o dia, mas ela parecia seguir pelo caminho correto. Desejou de todo coração que a cantora fosse resistente. E fiel… Porque, apesar de tudo, Rachel parecia a única pessoa capaz de alcançar as incoerências de Quinn e encaixá-las de maneira correta, como se organizasse palavras soltas e descobrisse a frase certa, sem sobra de substantivos, adjetivos, verbos e demais classes que faziam parte de frases e orações.

Rachel, com delicadeza e cuidado, tomou a mão da esposa entre as suas e pediu que essa a mirasse diretamente, sem olhares fugidios.

Quinn franziu o cenho e a encarou. A judia respondeu a pergunta que a loira lhe fez:

“Eu disse que adorarei usar uma aliança que seja o símbolo de nossa união. E eu não tenho problemas em assumir que me casei com uma pessoa do meu mesmo sexo… Amor é amor! E eu posso amar a quem a vida me apontar… E você, Quinn Fabray, sempre esteve na mira”.

A ex-fotógrafa assentiu, mas não voltou ao assunto das alianças.

Rachel ficou desapontada. Quinn seria cabeça dura e não se mobilizaria acerca do assunto. E só porque se surpreendeu com o fato de ela, Quinn, querer usar alianças!

“Quinn…”, chamou e a loira assentiu distraída, antes de murmurar:

“Certo…”, e falar para o cuidador retornar para levarem a morena pra casa. Rachel tentou se manifestar, mas a loira apertou levemente a mão morena, num silencioso aviso que o assunto estava encerrado.

Que a morte de tudo em que acredito

Não me tape os ouvidos e a boca (…)

— Metade (Oswaldo Montenegro) -

Quinn abriu os olhos, meio desfocada. Sentia-se preguiçosa e relaxada. Fechou-os novamente a fim de tentar se colocar e se voltou para o lado e chocou com o um corpo morno e que possuía um cheiro que passou a conhecer e cobiçar: Rachel Berry. Suspirou e voltou a deitar sobre as costas. Mirou o teto e passou a mão pelos fios dourados desde o seu nascimento na testa até as madeixas encontrarem o travesseiro. O que aconteceu? Desde quando esteve inconsciente? A última coisa que lembrava era de Holmes parar o carro em frente à portaria do prédio onde a esposa morava. Alguma das personalidades tomou as rédeas de sua consciência e aproveitou bem a noite, pela forma em que o quarto parecia cheirar a sexo. Além do mais, sentia-se muito sensível em suas partes…

“Não consigo ter o controle da situação…”, lamentou a frustração num murmúrio rouco.

Voltou a face para Rachel e a observou adormecida. Parecia tão linda! A boca entreaberta, convidando para um beijo… Umedeceu os próprios lábios e os mordeu, imaginando como seria tomar a boca carnuda de Rachel e sugar-lhe o lábio inferior… Sentir o sabor que ela levava sobre a língua, sobre a pele…

Estancou e piscou algumas vezes enquanto os olhos pararam sobre a mão esquerda morena. MasQue merda?

Atontada e assustada, ergueu-se da cama, localizou-se e percebeu que estava em seu próprio quarto em seu penthouse. Nua.

Buscou um roupão para cobrir o corpo e se deu conta de que ela também tinha no anelar da mão esquerda uma linda aliança, dourada, larga e cravejada de brilhantes tal qual a de Rachel. Como?

“Mas… Como assim?”, perguntou-se, haja vista que a última lembrança que tinha era da noite passada, na portaria de Rachel e…

Merda! Quanto tempo ficou fora?

Correu até o celular disposto na mesa de cabeceira e o tomou. Tão logo o aparelho foi tocado, hora e data apareceram iluminados na tela preta. Era o dia seguinte… Quase hora do almoço…

Saiu às pressas da suíte a caça de Holmes. Ele saberia explicar exatamente o que aconteceu.

O cuidador se espantou ao dar com a patroa com os cabelos desarrumados e só com o roupão a lhe cobrir a nudez. Ela não parecia muito ordenada…

Quinn mostrou a mão com o aro para nada discreto e perguntou:

“O quê, exatamente, significa isso?”.

Holmes franziu o cenho e sentiu a mandíbula escorregar um pouco pra baixo. Que tipo de pergunta era essa? Então, gemeu um “oh” e se deu conta de que, pelo jeito, Quinn sabia coisa nenhuma do que aconteceu na noite anterior.

“Não fui eu quem… Passou a noite com a Rach… Ou…”, olhou para o dedo da mão esquerda e franziu o cenho, “comprei isso”, ponderou, diante da expressão inusitada do cuidador.

Claro, Holmes sabia que não foi ela quem adquiriu as alianças. Foram M e Lucy, alternadamente, que fizeram tudo e com o consentimento de Rachel. Só imaginou que, em algum momento, a patroa retornaria…

“Talvez seja melhor falar primeiro com a Srta. Berry”, ele pontuou.

Perguntar para Rachel… As palavras lhe ressoaram na cabeça.

“É…”, Quinn não parecia muito racional, “acho que terei que perguntar para Rachel”, concluiu, sem muita noção.

“É uma boa ideia”, o homem ainda não conseguia esconder a surpresa por ver a patroa um pouco transtornada. Rachel parecia ter o dom de deixá-la mais incoerente.

Quinn menou a cabeça em aborrecimento e voltou para o quarto. Rachel ainda dormia. Deixou-se sentar sobre a cama e segurou a cabeça entre as mãos. O que a aborrecia? O fato de suas outras personalidades fazerem o que ela não conseguia?

“Quinn…”, a voz recém-desperta e insegura de Rachel soou e a loira ficou quieta. Sentiu como a morena se mexia na cama, colocava-se sentada e se aproximava dela com cautela, “eu não quis impedir o que Lucy e M fizeram…”.

Lucy e M?

“Eu acho que ainda não acordei…”, a advogada sussurrou para si mesma.

“E não impedirei nenhuma de suas personalidades de me amarem”, a voz de Rachel, gentil, porém segura, voltou a soar.

A loira assentiu.

“Então… Você está bem com…”, mostrou a mão com a aliança cravejada de brilhantes como a que a cantora levava também no dedo anular da mão esquerda, “isso”.

Rachel sorriu e respondeu que não se importava nem um pouquinho!

“Na verdade, estou muito feliz! E M teve muito bom gosto, apesar do exagero dos brilhantes… Mas, veja”, chegou mais perto da loira, levando consigo uma parte do lençol para se cobrir e colocou a mão com a aliança junto a de Quinn e sorriu como uma criança, “eu estou feliz, Quinn. Após tanto tempo… Após minhas faltas…”, arrastou-se até se colocar ao lado da loira. Tomou-lhe a mão esquerda e uniu com a sua, mirando o par de alianças feitas sob encomenda outra vez.

Quinn esboçou um sorriso, curiosa com o comportamento feliz da esposa. Observou como os lábios carnudos dela se mexiam enquanto discorria sobre como M havia encomendado as alianças há tempos e como Lucy foi romântica com ela. E como era carinhosa e atenta e…

Quinn deixou de escutar, porque agora toda a sua atenção estava voltada para a face da cantora. Em como os lábios dela se moviam felizes e a boca carnuda sorria. Quinn pensou que ela falava sem respirar… O que a levou a pensar que, estrategicamente, seria melhor não contrariar em demasia a judia. Irritada ela deveria ser uma bomba verborrágica! Centrou-se nas mãos delicadas dela. Eram tão macias… Como seria senti-la sobre a pele? E os olhos de Rachel?… Ela era tão comum e tão linda ao mesmo tempo! Como era possível?

Quando ergueu os olhos até a face judia, deu com uma Rachel Berry de cenho franzido e olhar interrogante.

“Estou confundindo você”, a cantora perguntou.

“Eu… Não…”, Quinn estava ainda meio fora de ordem. Rachel a confundia muito!

A cantora se preocupou:

“Você está se sentindo mal com isso? Quinn… Eu só… Estou tentando fazer as coisas certas… Eu entenderei se não for isso o que realmente quer agora e…”.

Quinn não a deixou seguir:

“Não! Não, Rachel! Isso… Não é nada disso! Estou ainda meio confusa…”, voltou a segurar a cabeça entre as mãos e avisou, sincera:

“Eu sou um pacote de confusão. Mentalmente doente e rica o bastante para comprar o silêncio dos corruptos para que eu possa advogar…”, soltou, antes de explicar a razão de colocar tal tema, “eu nunca fiz isso… Mas… Há vezes que preciso repassar toda a leitura de um julgamento, porque alguma das personalidades apareceu e resolveu seguir o trabalho, brincado de advogada”, endireitou a postura. Voltou os olhos num tom de verde muito claro, quase âmbar, para a cantora, “precisará se acostumar com isso… Se realmente formos viver juntas… Eu conseguia controlar ou nunca isso se manifestou tão forte antes… Isso de eu perder o tempo”, piscou, conturbada, “as personalidades… Eu só tinha pequenos apagões e agora…”.

Rachel assentiu. E acrescentou, aproximando devagar (a fim de Quinn não retroceder) o rosto até ficarem nariz com nariz:

“Eu só quero que me permita entrar na sua vida, Quinn. Que a sua distância não seja demasiada e possamos discutir nossa… relação, a fim de irmos nos ajustando. A fim de que você possa ir se ajustando”, sorriu e a loira sentiu o hálito quente bater em seus lábios. Achou seguro para si mesma afastar-se sutilmente, porque sentia essa ânsia (que precisava entender) de apreciar o gosto dos lábios judios. Assim que, além de se afastar um pouco, virou o corpo para frente e escutou a esposa suspirar uma frustração.

“Eu estou trabalhando nisso, Rachel… E, convenhamos, você já está bastante metida na minha vida. E não de uma forma superficial. Então, por gentileza, dê–me um pouco mais de tempo”, pediu, exageradamente formal, porém de maneira nenhuma fria ou distante.

“Quinn…”, a morena, confiante, segurou a face loira delicadamente e a fez mirá–la, “eu amo você! E estarei ao seu lado sempre que desejar”, repetiu, porque parecia que a advogada tinha dificuldade em internalizar esse fato.

O-Kay…”, sussurrou e seus olhos escorregaram dos olhos marrons para os lábios rosados da esposa. Entretanto, em bom momento para Quinn, ela não apenas sentiu como ouviu o estômago rugir e segurou o abdome. Franziu o cenho e constatou, numa empobrecida maneira de cortar o clima e escapar do momento e da atração anormal que tinha pela boca de Rachel justo agora:

“Deus! Estou com fome”.

Rachel riu e sussurrou para si mesma, entretanto com a intenção de que a esposa escutasse:

“A noite foi movimentada”.

Os já tuberculosos ouvidos da advogada escutaram e ela avisou, embora não houvesse aborrecimento na voz:

“Não chateie”, e ergueu-se da cama. Caminhou para fora do quarto, em direção a sala de refeições para matar quem lhe matava. E não era necessariamente a fome.

Rachel sorriu. Quinn era adorável quando estava confusa. Talvez por isso Alex se sentia tão atraída…

Suspirou e pegou o telefone e, enquanto se vestia, conversou com Maria sobre onde estava, sendo informada que Holmes avisou na noite anterior. Soube de Spencer, que o menino reagiu bem ao fato de não ver a mãe pela manhã e que ele não perguntou por Jesse. Nesse momento, Rachel ficava triste e feliz. Triste porque seu filho só teria memórias midiáticas de seu pai; feliz porque ele não sofreria mais a ausência dele. Então, após se inteirar de seus assuntos e de como tudo parecia bem controlado pela mulher de raízes mexicanas e o cuidador de Quinn, foi em direção a sala, tranquila e até feliz por saber que Holmes compartilhava de seu bem-estar com Maria, Hiram e LeRoy.

Encontrou Quinn à cabeceira à mesa com uma grande xícara de café com leite, folheando o New York Times e com uma cigarrilha acesa presa no canto esquerdo dos lábios. Rachel, num impulso insano, tirou a cigarrilha dos lábios rosados da loira que a mirou com verdadeiro espanto, enquanto via a morena desfazer-se do tabaco amassando-o no cinzeiro e pedindo a Agatha que levasse “aquilo” dali.

A sobrancelha direita da loira subiu daquele jeito que indicava que ela não apreciou o gesto, mas também queria entender. Porque foi inesperado!

“O quê?… O que pensa que está fazendo?”, Quinn recuperou a capacidade de se expressar. E com aborrecimento.

Rachel respondeu, insanamente, no mesmo tom:

“Não! Eu que pergunto o quê você pensa que está fazendo?”, e sentou à mesa, enquanto se servia de café puro.

“Fumando?…”, a loira respondeu.

Rachel a mirou e, após longo suspiro e perceber que deveria controlar seus impulsos futuramente, justificou-se:

“O fumo prejudica a minha voz. Eu agradecerei muito se não fumar à mesa e nem perto de Spencer. Por favor”, findou com um pedido.

Quinn assentiu e bebeu um gole do café com leite. Poderia fazer isso… Não fumar perto de Rach e de Spencer.

“Ok…”, concordou e volveu os olhos para o periódico, distraindo-se ali, entre goles de café com leite.

Rachel mordeu o lábio inferior, contendo um sorriso enamorado. Talvez viver com Quinn seria mais do que excitante. Seria apaixonante. Se é que era possível querer a loira mau humorada mais do que já queria. Voltou a olhar a aliança no anelar da mão esquerda. Quando pensou que seria possível, após o que fez, estar casada com a mulher que sempre amou?

Porque metade de mim é o que eu grito

Mas a outra metade é silêncio”.

— Metade (Oswaldo Montenegro) -

NEXT

Notas finais
Gente, desculpe pelo desaparecimento. Escrever está sendo quase um parto (quantos meses para nascer esse capítulo? Quatro, cinco?). Mas eu não deixarei de escrevê-la. Bjs e aproveitem o que resta do feriado! — Cal. *-*