Sine Cordi

88 CAPÍTulo 88 - סח


Notas iniciais
Okay... Tentando cumprir minha palavra. Obrigada pela paciência.

Há alguém para ouvir a história

Sobre a garota que veio para ficar?

Ela é o tipo de garota que você quer muito

Que faz você se arrepender

Ainda que você se arrependa por um único dia”.

— Beatles em Girl

Quinn franziu o cenho e tentou se situar. Onde estava? Por que LeRoy e Hiram pareciam aborrecidos e lhe falavam que ela precisava ter limites com Rachel? Por que Rachel estava encostada à parede feito lagartixa antes da chinelada? Aliás, onde estava o café?

“Acho que perdi alguma coisa…”, murmurou e seu cérebro encaixou a circunstância dentro da explicação “uma das personalidades apareceu sem aviso”, o que fez com que procurasse o sofá para sentar, porque se sentia um tanto aturdida e, esta era a pior parte, embaraçada pela situação que parecia insensata.

Olhou pra Rachel, porque sentia que ela poderia lhe ajudar a ordenar as coisas. Tragou o que considerava o seu vexame pessoal e pediu se a cantora poderia lhe explicar o que ocorreu.

Hiram e LeRoy se deram conta de que discursaram para a pessoa errada. Discursaram? Não tinham muita certeza… Tudo parecia desprovido de clareza.

A judia suspirou. E toda a raiva que M lhe causou se foi com a visão de uma Quinn que, apesar da maneira majestosa com que se portava, levava na face o olhar comovedor que já vira algumas vezes. Era aquele olhar de desamparo que deixava transparecer, na época do McKinley, quando Beth lhe foi tirada. O mesmo olhar que ela levava quando a viu com Jesse…

Correu e sentou ao lado da loira e, com o devido cuidado, tomou-lhe as mãos entre as suas e, pedindo aos pais que as deixassem, narrou tudo o que aconteceu no café com a M e não omitiu parte alguma. Esta era uma situação que, apesar de tudo, Quinn também buscou. Rachel pensou que a mágoa da mulher sem memória era muito maior do que M deixava transparecer, para levá-la ao extremo de sua resistência psicológica para se vingar. Quinn já estaria magoando-a se apenas a mantivesse longe. Era tão fácil! Tão fácil que o fato de a loira complicar a situação a fazia ora ou outra lembrar das palavras de Judith Fabray: as personalidades só a estavam testando. Mas… Testando para quê? Para saber até onde seria capaz de dobrar sem estalar para ficar ao lado de Quinn? Se era isso, estava propensa a ser magoada todos os dias pelo resto de sua vida? Porque, quanto mais resistência pusesse, mais as personalidades forçariam para ver até onde ela iria sem arrebentar, feito corda de violão quando se gira e gira e gira a tarraxa esticando e esticando devagar e sempre, devagar e sempre, a corda, tornando-a mais e mais tensa, mais e mais tensa até o ponto em que…

Ela arrebenta.

Então entendeu a fala de M dentro do carro: se ela, Rachel, não terminasse a relação, porque ela era a parte submetida a um provável maldito teste, nem Quinn, nem M ou mesmo Lucy Quinn moveriam um dedo para fazê-lo, porque todas dançavam a mesma música e, até então, não percebera a ironia clara no “seremos felizes para sempre”. De maneira distinta, todas elas, Quinn – provavelmente de maneira inconsciente – estavam fazendo-a de peça dentro de seu retorcido tabuleiro de xadrez nominado de “revanche”. Amor com amor se paga, disse M esta noite.

Então, Rachel matutou… amava Quinn. Entretanto, até onde o amor seria capaz de resistir a surra na qual estava sendo submetida? Até quando resistiria sem estalar se Quinn e nem suas personalidades não acreditassem que realmente a amava?

Sentiu como se o coração apertasse dentro do peito.

Conseguiria ganhar esse jogo tendo como oponente a única pessoa que detinha todas as regras e as mudava ao seu bel prazer?

As regras que pareciam impostas pelas personalidades de Quinn eram muito duras! E suas juras de amor eram como palavras jogadas ao vento. Era esmurrar a ponta da faca, que a mesma M já mencionara antes. Aquela personalidade lhe dizia tudo tão claramente!

Tão claramente que… Qual era a sua dificuldade em entender?

Uma lágrima escorreu. Secou-a com o dorso da mão e, segurando o rosto de Quinn, fez a loira mirá-la e falou:

“Quinn, eu preciso que me ouça com atenção”, afagou a face da esposa e a loira sentiu uma estranha sensação de coisa boa… Que coisa era? Era conforto? Era cuidado? Por que se sentia tão agradável? Tão bom?

“Isso, Quinn, que acontece com você e comigo”, a voz de Rachel a chamou de volta, “está sendo uma prova muito dura pra mim! E eu posso falhar! E eu não estou lhe dizendo que irei lhe trair ou deixá-la por outra pessoa. Estou lhe confessando que talvez eu não seja tão resistente enquanto ser humano, ainda que eu te ame. Porque eu, de maneira diferente de você, e meio que por caminhos tortuosos, soube lidar com os corações que eu parti, inclusive o meu próprio, ao partir o seu. Porque isso que a gente compartilha funciona de maneira muito singular, que é assim: quando eu machuco o seu coração, eu também machuco o meu. Quando você machuca o meu coração, você também machuca o seu. Nós compartilhamos esse estranho fio que nunca arrebentará. Mas para que esse sentimento não doa, teremos que trabalhar juntas nisso. Então, Quinn, seja suave”, e deixou um beijo na testa da loira, que estava em marcha lenta, e decodificava a mensagem de Rachel feito internet discada. Levava tempo para abrir a página.

Mas abria.

“Rachel, eu não…”, meneou a cabeça, porque estava sem saber o que dizer. Não o quê, Quinn Fabray? Escutou a voz de M ressonar em seus ouvidos. Respirou fundo e tentou ser clara:

“Eu estou numa batalha interna muito grande agora, Rachel. Eu não consigo, ainda, colocar em palavras…”, suspirou, contrariada por não ser capaz de definir o que a atraía para a mulher com a qual teve um passado esquecido. “Eu não sei o que lhe dizer sobre como agem as outras personalidades…”, suspirou, apenada, “acredite-me”, baixou os olhos para as mãos que torcia sobre as próprias pernas, num incômodo que não sabia explicar, “isso é tão desagradável para mim quanto deve ser pra você. Apesar de tudo o que me disse, eu não posso assumir uma coisa que eu não sei que fiz! E que não foi gentil! Eu…”, voltou a olhar para a morena e falou, sem conseguir refrear a ideia do bom senso que lhe tocava feito sino de igreja anunciando o amanhecer e hora da Ave-Maria, “sou um pouco comedida quando se trata de sexo… Alex reclamava bastante sobre isso…”, murmurou e desviou os olhos. Por que estava falando de Alex? Por que M a colocou nessa situação?

“Quinn”, Rachel a fez se voltar e mirá-la, “eu sei de tudo isso. Eu só quero que leve isso para a terapia e trabalhe essa sua dor com a Dra. Parker! Eu amo você! Mas eu não sei até onde a minha psique será capaz de aguentar toda a pressão que a M está jogando sobre mim! Ela fez ameaças elaboradas e palpáveis pra mim, Quinn. E em todas você não sai ilesa”, informou, “nenhuma de nós duas sai ilesa. Entendeu? Se eu chorar, uma hora ou outra você também chorará. É assim que funciona entre nós. Mesmo daqui a dez anos, se nos encontrarmos, tenha você memória ou não, esse choque acontecerá. E nós temos duas saídas: continuarmos a nos magoar até nos afastarmos e sofrermos… Ou tentarmos acertar a nossa relação, de maneira que fique confortável para mim e para você”.

Quinn franziu o cenho e respirou fundo. Estudou a morena que a mirava de maneira que lhe parecia muito sincera. Rachel seria capaz de encenar sinceridade? Se fosse, por que o faria? Qual seria o seu interesse? Ela, Quinn, não foi quem machucou na história. Porém, era a que machucava agora, sabia disso e procurava, realmente, evitar ser dura, mas isso não retirava a pertinência do fato de que Rachel não teria nenhuma razão, que não fosse de cunho emocional, que a fizesse querê-la por perto. Seria culpa? Parecia uma desculpa desgastada agora. E isso a preocupava, porque Rachel parecia ressurgir feito uma tatuagem que esteve oculta sob a sua epiderme e agora ela tomava, lentamente, forma, dimensão e cor em quase toda a extensão de pele de seu corpo.

Por quê?

Não entendia. Era uma razão que latejava e latejava, mas nunca se fazia evidente. Era uma coisa amorfa, onde ela buscava uma pista do que poderia ser e não encontrava troço que fizesse sentido.

Não entendia quando acordava de um suposto sonho com a sensação de uma tristeza enorme, porque alguém a magoou. Quem a magoou? Rachel Berry a magoou. Ela sabia disso, porque lhe falaram e Rachel confirmava. Porém, logo depois, não sentia uma ligação emocional dessa dor com Rachel. Parecia uma história que alguém lhe contou e colocou a judia como vilã, mas que nunca viveu de fato. Não tinha sentimentos sobre isso, mas possuía a clara sensação de que não deveria se mostrar muito afável… Era sem lógica essa coisa tão fora de seu alcance consciente, borrado de sua memória e que não deveria parecer emocional. Não conseguia atinar com certeza. Era como investigar um assassinato onde o réu confesso não pode ser preso porque a arma do crime desapareceu. E se achasse a arma do crime? Sofreria? Não sabia. E não queria saber, porque apenas essa ideia lhe causava desagrado e removia-lhe o estômago. Afastou-a e pediu um copo de água para Rachel. Precisava frear todas essas questões por um tempo. Precisava estar recomposta.

“Quinn, o que foi?”, Rachel se preocupou. O que falou para a esposa estava deixando-a dessa maneira, prestes a ter um desmaio? Se era assim, sua fala há pouco sobre a maneira como uma danava a si mesma ao danar a outra estava se fazendo presente na loira. E, se fazia efeito na loira, isso significava o quê?

Rachel ficou chocada, porque o fio que a ligava a ex-fotógrafa foi a maneira suave de informar que estavam encadeadas uma na outra. E os elos do cadeado eram enormes. E pesados. E eram de amor. Um amor retorcido por parte de Quinn. Uma coisa que a ex-fotógrafa não entendia e lhe parecia um conceito muito longínquo.

Okay, Rachel Barbra Berry, não surte agora. Rezou para si mesma a morena, sentindo-se um pouco frágil após se dar conta de uma enxurrada de coisas sobre seu casamento com Quinn. Coisas que precisavam ser analisadas com calma, perguntas que precisavam ser respondidas, cedo ou tarde, por Quinn e para a própria Quinn. Então voltou a tomar a face pálida entre as mãos e garantiu:

“Eu não fugirei, Quinn. Talvez eu precise, vez ou outra, de um respiro da Srta. M. mas você não é ela… Eu não sei até onde eu posso me expressar pra você, sem que isso lhe deixe dessa maneira, quase doente. Eu e você precisamos encontrar uma forma de lidar com isso, Quinn. Eu vou repetir, porque acho importante: tem que ser confortável para nós duas, mesmo que de vez em quando a M apareça com toda sua indelicadeza para causar desassossego. Se você se sentir confortável comigo, talvez ela não apareça muito. Nós teremos que encontrar o equilíbrio disso juntas. Eu só quero que você tente ajustar essa mágoa que tem de mim, porque só assim poderemos ser o que você quiser, mas sem dor, Quinn. Por favor”.

A loira se afastou devagar da morena e assentiu, completando que não havia mágoa. E também não sabia o que fazer agora e nem como convencer a mulher com quem se casou por causa de uma necessidade que não sabia descrever. Ou não desejava racionalizar a respeito. Entretanto, concordou com Rachel Berry.

“Certo…”, murmurou, pensativa, “sobre eu estar magoada com você: eu não estou”, foi sincera, “eu não lembro o que você fez… embora eu tenha lhe feito parecer que lembrava”, calou e suspirou antes de seguir, “a respeito da petição da M, eu tentarei…”, analisou a maneira como reagiria ao fato de amanhecer sem roupa ao lado de Rachel Berry se a cantora e a Srta. M levassem a cabo a parte física do matrimônio, “não reagir de maneira que nos deixe mais embaraçadas do que já estaremos”, pontualizou.

A cantora, que estava por chamar Maria e lhe pedir que trouxesse a água para a esposa, ficou surpresa. Quinn estava falando sério? Estava considerando que cedesse às investidas da M? Conteve uma risadinha de incredulidade. O que estava errado na cena? Era algum tipo de pegadinha da parte da advogada? Olhou ao redor, consciente de estava sofrendo de alguma manifestação ligeira de um delírio pessoal, à procura da câmera escondida e que gravava a brincadeira da Srta. M e Quinn.

Não havia câmera alguma… Nem escondida e nem a vista.

Havia Lucy Quinn Fabray sentada ao seu lado, pensativa sobre tudo o que soube de M e a maneira como agiu nesta noite.

“Não está considerando…”, a pergunta que saiu frágil morreu antes do ponto de interrogação, porque a advogada a fitou com expressão de que estava pesando a situação sim.

“É confuso para você também”, a loira concluiu. E deu um sorriso, porque o fato de Rachel conseguir entendê-la dava a sensação de que não estava enlouquecendo. E, se estava, Rachel a acompanhava nessa incursão pela realidade retorcida.

Perderiam a coerência juntas? Ou apenas poderiam administrar o que viviam agora de jeito espaçado e sem muitos embates?

“Não está com medo?”, perguntou, curiosa.

Rachel respirou fundo e se quedou pensativa, analisando a questão apenas sobre o ponto de estar casada com uma mulher sem memória e com outras personalidades que, estas sim, lembravam de tudo sobre a relação que mantiveram.. Sim! Estava com muito medo. Mas… Havia volta atrás? Mais importante: queria voltar atrás?

“Não…”, murmurou, observando a face da esposa que parecia não entender o que lhe era falado. Não havia descrença no olhar de Quinn. Havia a clara expressão de que ela não era capaz de assimilar o quão significativas eram as garantias verbais de amor por parte de Rachel. Como poderia demonstrar tais sentimentos se apenas as personalidades alternativas de Quinn lhe eram alcançáveis?

“Oh, por Barbra!”, murmurou, encontrando a resposta. As personalidades de Quinn, como a M lhe dizia, seriam receptivas, mesmo com toda a confusão entre elas, enquanto Quinn apenas empreenderia uma pantomima de relacionamento, entretanto, não fugiria. E não fugiria porque era parte no emaranhado que M e Lucy Quinn orquestravam a fim de mantê-las juntas.

Sorriu pequeno.

Parecia que uma luz acendia no fim do túnel.

Quando eu penso em todas as vezes

Que tentei deixá-la ir

Ela volta para mim e começa a chorar

Ela me promete o mundo

E eu acredito

Depois de todo este tempo eu não sei por quê”.

— Beatles em Girl

Kurt, primeiro, negou com um balançar de cabeça. Então gargalhou, achando que aquela era a melhor piada que Rachel havia lhe contado. Depois, diante do olhar sério da judia, quase caiu para trás. Como assim ela e Quinn Fabray estavam casadas? Jesse mal acabou de morrer! Como isso era possível?

“Eu não posso acreditar…”, mastigou, incapaz de esconder sua incredulidade com um pouco de decepção.

Rachel, por sua vez, não conseguia entender a razão para o amigo e empresário parecer tão aborrecido. Entenderia ele ficar chocado. Quem não? Mas aborrecido?

“Eu me nego a acreditar que você foi tonta o bastante para cair numa armadilha idiota de Quinn para casar”, respirou fundo, “Rachel! Foi a estupidez mais estúpida que você já fez! Ela sabe que foi traída? Ela lembrou?”.

A cantora suspirou e, tentando se manter calma, explicou outra vez o que aconteceu.

“Isso foi idiota da sua parte! Ela vai massacrá-la”, ele gritou, vermelho, com a veia do pescoço saltando, assustando a judia.

Blaine, que chegou ao camarim da cantora no exato momento, segurou o marido e, com os olhos esverdeados arregalados, tentou acalmar o esposo e entender a situação.

Rachel não conseguiu impedir que lágrimas caíssem. Ela não precisava de uma cena de Kurt! Ela precisava do apoio dele, como estava tendo, mesmo em meio a algumas dissonâncias, de Santana.

“Kurt, eu a amo!”, repetiu, como se apenas esta máxima fosse uma justificativa convincente. Talvez, para ela, sim. Mas, para o contratenor eram apenas palavras unidas e que formavam uma frase sem o menor sentido lógico ou aceitável.

“Rachel…”, recomeçou, “Quinn não é capaz de se apegar. Ela sente nada com coisa nenhuma por você. Ela vai lhe martirizar. Ela vai brincar com você e depois jogar fora, como você fez com ela uma vez”.

“Kurt, eu não a joguei fora! Eu a amo”.

“Ama coisa nenhuma! Você carrega uma culpa enorme e não consegue se livrar dela por nada e confunde isso com amor! Afaste-se dela! Quantas vezes eu lhe avisei que ela não era mais a mesma pessoa? Por que não me deu ouvidos?”, a voz saiu ainda mais aguda e Blaine o conteve. Já estava passando dos limites.

“Você está muito alterado”, o moreno de gravata borboleta murmurou e o homem de tez pálida o fitou com incredulidade. Como não ficar alterado? Rachel acabara de lhe dizer que casou com a pessoa que nunca deveria nem chegar perto!

“Rachel”, ele respirou fundo, “eu vou repetir bem devagar: isso que você chama de amor é culpa. Você está confusa, porque traiu a Quinn e ela se aproveitou do fato e lhe desorientou! Ela se aproveitou porque sabe que você não a ama de verdade. Você só se sente culpada! Por que não reconhece isso e sai desse casamento antes de que ela lhe magoe? Porque é isso o que ela quer e vai fazer! Quinn só quer e vai lhe machucar! Ela vai lhe pagar na mesma moeda”.

A morena secou as lágrimas, respirou fundo e verbalizou:

“Kurt, eu vou fingir que não escutei o que você me disse. Eu sei que essa é uma notícia…”, procurou uma palavra que pudesse caracterizar a situação, “insólita, mas é fato e eu, acredite você ou não, sei diferenciar culpa de amor. A culpa me tornaria fraca e, certamente, após tudo o que a Quinn já fez comigo desde o casamento, eu teria não uma, mas várias razões mais do que justificáveis para ter saído de cena, independente do que o contrato de casamento diz. Mas, não. Eu sei que não será fácil. Entretanto, eu estou ficando mais forte. Porque eu a amo!”, explicou.

O homem de tez pálida riu com escárnio.

“Isso não é amor; é autopunição!”, observou, ainda incrédulo e um tanto descolocado.

“Kurt…”, a judia murmurou, magoada. Ela sabia que errou com Quinn no passado. Ela tinha a real medida do quanto de mal causou para a loira. E, sim, queria remediar. Entretanto, não fazia isso porque a culpa a consumia. Fazia porque queria Quinn. Porque, apesar dos pesares, ficar perto de Quinn lhe acalentava o coração, causava uma revoada de borboletas no estômago e a deixava embobada. Era justamente assim. E isso, segundo o seu conceito, estava longe de se parecer com a culpa.

Blaine, num instante de clareza mental e a fim de acalmar os ânimos, mirou a morena e a aconselhou ir para casa. O momento estava muito emocional e ela e Kurt poderiam se machucar mais.

Rachel achou injusto. Ela tinha o direito de decidir sobre a própria vida!

“Mas você não decidiu! A Quinn decidiu”, gritou o empresário.

E ele nem sabia das personalidades alternativas da loira.

A cantora suspirou e sob o olhar sentido de Blaine pela cena de um Kurt cheio de lágrimas de desengano nos olhos, saiu do camarim para se dirigir a casa sem entender a razão do contratenor ficar tão frustrado com o casamento. Entendia que ele queria preservá-la de um sofrimento maior, e de alguma forma, também proteger Quinn, mas não a ponto de quase ter um acesso de ira! E enquanto Marco dirigia em silêncio, ela observava a noite movimentada pela janela do carro e pensava que não via a loira há quase uma semana.

Suspirou. Não a procurou porque precisava se restabelecer do furacão que era M. Porém sabia que, cedo ou tarde, tanto ela quanto Quinn viveriam sob o mesmo teto. E estava se organizando mentalmente para isso.

§§

Eleanor se debruçou sobre a pergunta: por que Quinn não desfazia o que a Srta. M e Lucy, um pouco mais comedida, faziam? Foram elas que estabeleceram que a judia viveria com a advogada. E, mais: como Rachel estava manejando tal coisa, sabendo que provavelmente comeria o pão que o diabo amassou com o traseiro? Amava tanto a Quinn para aceitar o que as personalidades alternativas haviam planejado? Sabia que a convivência entre elas não era e nem seria fácil. Principalmente por parte de M, a mais ardilosa.

“Quinn, por que você não impede a Srta. M? Por que você não corrige o que ela faz?”, inquiriu a médica.

Quinn suspirou. Era tão complicado explicar! Mas não era mais tão difícil murmurar:

“Porque talvez eu não queira”.

Eleanor a estudou. E assentiu. Quinn não falava, não demonstrava, mas a razão só poderia ser uma: estava apreciando o acercamento da morena. O amor olvidado rimbombava como cada batida de seu coração sem que ela precisasse pensar ou fazer qualquer tipo de esforço. Estava vivo e batia e batia deixando-a, também, viva e, percebeu, com uma expressão menos dolorida na face. Com o olhar sisudo, porém não mais frio e cheio de distanciamento como antes.

E Quinn, por sua vez, não queria se expor tanto. Sua frieza e seu distanciamento eram estudados e conscientes. Vez ou outra se deixava alcançar por alguém ou alguma situação, mas não sempre. Sabia que Rachel lhe quebrou o coração uma vez! Não permitiria que ela o fizesse outra vez, tinha isso muito claro. Compreendia a razão da existência de M e de Lucy. E estava determinada a se resguardar com a ajuda delas, porque não se sentia forte o bastante perto de Rachel. O esquecimento era sua proteção para a coisa que ela não sabia como nomear, mas que lhe fazia querer o acercamento da cantora.

A médica indagou, a fim de buscar mais compreensão:

“Os sentinelas que lhe passam relatórios diários sobre o que a Rachel faz… Isso não lhe cansa? Não pensa que essa será uma convivência fadada ao fracasso?”, questionou.

“Ela não parece pensar como você”, murmurou a loira, referindo-se à cantora.

“Ela tem escolha?”, indagou.

“Ela tem escolha!”, exclamou a loira, com um brilho de contentamento no olhar. “Ela pode me internar num manicômio”, prosseguiu, assertiva, “ela tem a faca e o queijo nas mãos. A decisão é dela! Você é a médica! Convença-a que será o melhor para a minha saúde!”, falou e, diante disso, a médica calou.

Quinn era exímia jogadora! E a Srta. M e Lucy Quinn eram as personas que agiam quando ela se sentia fraca demais, quase a ponto de estalar diante de Rachel ou outra situação. E a Srta. M, principalmente, cuidava de tudo, organizava o ambiente e o ordenava segundo a sua ótica. E, por incrível que pudesse parecer, Quinn convivia bem com isso. E se colocava como o ser passivo de toda a situação que arrumou. Todas as decisões cabiam a Rachel. Rachel era a responsável por manejar o carro que a Srta. M e Lucy Quinn ligaram sem tomarem a direção. Rachel deveria percorrer todo o caminho traçado por elas e chegar a salvo no final, junto com Quinn.

“Talvez a louca seja ela, e não eu”, comentou a loira com olhos desafiantes para a Parker.

“Quinn, diga-me: qual a razão por trás de tudo isso?”, só queria a certeza de que suas conjecturas sobre o que movia as personalidades e a própria Quinn nada mais era que amor. Um amor enviesado, mas amor.

A advogada meneou a cabeça. O que Eleanor queria escutar? Que não conseguia deixar a mulher traidora longe de seus olhos? Que ela lhe trazia a estranha sensação de que estar com ela era estar justamente onde deveria estar? Não conseguia verbalizar isso! Mal poderia entender ela mesma a si própria, como Eleanor lhe reclamava uma resposta que não conseguia, com toda a eloquência que possuía, explicar com um pouco de clareza, nem para si mesma? Ela só sabia que a presença de Rachel era a única capaz de lhe acalmar os latidos furiosos do coração se despertasse de um pesadelo. Que a voz de Rachel poderia fazê-la retornar à realidade e saber que um pesadelo era, não uma lembrança dolorida, mas apenas um sonho ruim. E, mesmo com sua frieza, sabia que Rachel conseguia enxergá-la e às suas limitações. Rachel parecia ser a única pessoa que a via de verdade. Ela enxergava além da armadura. E isso era bom, de uma maneira que não sabia racionalizar, porque exasperava e a fazia parecer tonta.

“Quinn, você não poderá manter a Rachel nessa prisão que você construiu”, insistiu a médica.

A advogada não pensou muito para responder:

“Eu já disse que ela tem a chave”.

Eleanor suspirou.

Quinn chegou num platô e parecia que, por mais que ela, enquanto médica, insistisse, não conseguiria tirá-la dessa posição que parecia muito confortável. Não era uma cura total. Não estava perto do que desejou dentro do quadro clínico. Entretanto, sentia que não deveria forçar mais. Não por agora. Quinn parecia mais palpável, apesar de tudo. E provavelmente, analisou, Quinn deveria estar mais sensível. Seu papel, diante de tal realidade, era fazê-la – e as personalidades – lidar com isso de maneira mais afável, sem aprisionar Rachel da maneira que fazia.

“Pretende levar a cabo a ideia de viverem juntas?”.

A loira piscou algumas vezes antes de responder, num murmúrio, já cansada de tantos questionamentos:

“Provavelmente”.

Eleanor assentiu, compreendendo que, no final das contas e de tudo o que acontecia de maneira tão atravessada, o objetivo das personalidades da loira era apenas um: ter Rachel ao redor. Retomar o que um dia ficou inacabado.

Uma pergunta que só seria respondida com o passar do tempo, mas que não conseguiu calar, foi: esta união seria frutífera? Afinal, M foi bem clara quando lhe confessou, de maneira fria e nada ortodoxa, que desejava somente magoar a quem lhe magoou.

Escutou a resposta da loira, de forma que lhe era muito peculiar:

“Há um pensamento atribuído a Buda, no qual ele pergunta aos seus discípulos o seguinte: ‘se vocês são reais, onde vocês estão? E, se o mundo e real, onde está?”.

Eleanor soube, então, que a sessão estava encerrada.

Ela é a garota que lhe deixa triste

Quando os seus amigos estão lá

Você se sente tolo”.

— Beatles em Girl

Rachel chegou da delegacia, acompanhada de Anthony Mathews, cansada e desgastada emocionalmente. Era fato, comprovado após as investigações, que o homem preso pela polícia realmente assassinou Jesse. Era réu confesso e seria recluso perpetuamente. Hiram e LeRoy estavam juntos da filha e todos estancaram ao dar com Quinn a esperá-los, sentada confortavelmente no sofá da sala de estar.

“Quinn…”, a cantora murmurou e se colocou atenta, a fim de saber se era realmente a esposa ali, e não M ou Lucy.

A advogada se ergueu, cumprimentou gentilmente aos sogros, conversou em voz baixa com Mathews, a fim de ficar a par dos acontecimentos até que, cerca de dez minutos depois, sob o olhar judio e após Anthony se retirar, virou-se para a esposa e os sogros e verbalizou:

“Eu sou Quinn Fabray, advogada e casada com Rachel Berry…”.

Todos assentiram e ela continuou, num questionamento direto e sem rodeios para os sogros:

“Podem me deixar sozinha com a Rachel?”.

Os homens se entreolharam e, ainda em estado de surpresa, assentiram e se retiraram.

A loira se voltou para a cantora e cruzou os braços, ergueu bem o queixo e com uma autoridade toda própria, indagou:

“Eu posso saber por quê desapareceu por quase quinze dias?”.

Rachel piscou algumas vezes.

Quinn estava aborrecida por sua ausência?

Era sério?

Quando você diz que ela parece legal

Ela age como se já soubesse

Ela é legal

Ah, Garota, garota!”.

— Beatles em Girl

Notas finais
Até! ;) — Cal. *-*