Sine Cordi
89 CAPÍTulo 89 - סט
Notas iniciais
“O expresso do oriente
Rasga a noite, passa rente
E leva tanta gente
Que eu até perdi a conta
Eu nem te contei uma novidade quente
Eu nem te contei”.
— Paralamas do Sucesso em Uns Dias—
Quinn suspirou e deu as costas para Rachel, que ainda se via incrédula com a atitude da advogada e esposa. Ela esperava que M fosse capaz de cobrar alguma atenção de sua parte, mas não Quinn.
A ex-fotógrafa meneou a cabeça e, sem se voltar, indagou, menos arrogante e mais ponderada:
“Como foram os seus dias? Aconteceu alguma coisa que eu não saiba?”. A loira era consciente que esta era, de um ponto de vista externo, uma pergunta redundante. Ela sabia muito bem o que aconteceu com a cantora durante este tempo. Foi devidamente informada pelos detetives que M cuidou de escolher a dedo para saber todos os passos da esposa. Entretanto, Quinn sabia o que os olhos podiam ver. Mas não o que ia dentro de Rachel, no coração da atriz e cantora.
Era inquietante.
A morena deu dois passos e ficou próxima à loira. Retorquiu, recuperando-se da surpresa que o comportamento da ex-fotógrafa lhe causou:
“Nada de diferente ou especial aconteceu… E eu me afastei porque, além do caso sobre o assassinato de Jesse, eu precisava de um respiro em relação a M…”.
“Eu não sou a M”, Quinn rebateu, seca e tão rápido que se arrependeu, mas não se esforçou para retirar o que expôs, não lhe interessava.
“Não… Você não é ela, mas não pode negar que ela faz parte de você…”, a cantora não desejava que a esposa se distanciasse e continuou, “eu pensei que, talvez, darmos um distanciamento fosse o mais saudável e coerente… talvez dar um tempo entre nós, como eu fiz, permitiria que ficássemos mais fortes… Durante este período M não apareceu aqui…”.
Quinn se voltou e a estudou com muita atenção. Sorriu com desdém e atacou:
“Claro que ela não esteve aqui. E nem eu”, apertou os punhos e falou, do nada, “eu realmente não sei porque estou casada com você”, foi dura e, para sua própria surpresa, sentiu um aperto no peito. Destravou os punhos e respirou fundo, porque não era isso o que deveria dizer. Não era isso o que queria dizer! E não era essa estranha sensação de pesar que deveria sentir. Entretanto, era orgulhosa e dessa forma, pensava, contra qualquer manifestação de sentimento de anelo em relação à judia: quem Rachel achava que era para tentar se manter longe? Antes que pudesse expôr qualquer outra palavra áspera, a atriz argumentou:
“Eu não quis me afastar de você… Eu não quero ficar longe de você. Mesmo que não confie ou acredite em mim, eu amo você… E só desejo que possamos seguir juntas. Pra isso, você precisa se encontrar, Quinn. Saber o que realmente quer. Você quer a mim ou quer se vingar de mim? Eu amo você e desejo ser capaz de fazer você se apaixonar por mim outra vez, mas você se permitirá? Eu não sei o que você quer, eu sei o que a M quer. M é a personalidade que extravasa tudo o que você não é capaz de maneira distante mordaz? Eu e você precisamos saber isso. Porque é importante pra nós duas conhecer se cada uma das personalidades é uma representação do que o seu inconsciente guarda em relação ao meu erro… Você percebe o quanto isso pode ser definitivo para nós duas?”.
Quinn a estudou com muita atenção. Conteve um riso cínico, afinal, precisava ser “suave”, como a mulher que a mirava cheia de dúvidas lhe pediu. Suspirou, porque sinceramente não queria argumentar com Rachel. Talvez ela estivesse certa… Quinn meneou cabeça, a fim de não se importar com as palavras da judia, porém acabou por se perguntar o que realmente estava fazendo. O que realmente queria? Não tinha ímpetos de vingança, mas não poderia dizer o mesmo de M ou Lucy Quinn. E havia outra coisa que a deixava inquieta: que maldita necessidade era essa que se instalava cada vez mais dentro dela e a fazia se pegar, quase a diário, pensando na cantora? Não era capaz de se apegar. Por que parecia que com Rachel isso era diferente? Por que ela desequilibrava esse paradigma? Em que ela era diferente dos demais de quem não se lembrava? Por quem não nutria nenhum tipo de interesse? Por que foi sua namorada? Bom, tinha uma filha e era consciente disso, sabia cada passo dela e de Shelby Corcoran, mas esse fato não era capaz de fazê-la se apresentar diante da adolescente que, sabia, era sua cópia, tinha seu sangue correndo nas veias, como fez o pai da menina. Meneou a cabeça.
“Eu suponho que devo me retirar a fim de lhe dar o devido respiro”, concluiu, causando surpresa na judia.
“Não, Quinn”, murmurou com afeto e tomou-a da mão esquerda com delicadeza e negou as palavras da esposa com um balançar de cabeça:
“É sempre bom vê-la”, confessou. E tentou manter os olhos fixos nos de Quinn, mas estes desviavam para os lábios da loira, num desejo de um beijo que estava difícil de conter. Mas que sabia que precisava sublimar. Levou a outra mão até a face loira e a acariciou com cuidado e devoção.
Quinn fechou os olhos, suspirou e, num ato que lhe era incoerente e completamente instintivo, puxou a morena para si e a abraçou. O olor característico de Rachel penetrou-lhe as fossas nasais ao descansar a face na curva do pescoço dela e sentiu uma saudade de alguma coisa que não sabia o que era, de um tempo que não reconhecia. Sentiu que não poderia deixá-la ir nunca mais. Que estar junto dela era bom, mesmo que esse desejo fosse meio confuso e desprovido de lógica.
Rachel ficou sem ação num primeiro instante, mas enlaçou a esposa pela cintura e sentiu o coração ratear dentro do peito, enquanto se acomodava naquele envolver que a baratinava e fazia cócegas no estômago. Não tinha ideia do que acontecia. Mas nem fazia questão de saber, porque se sentia bem. Porque era o que desejava. Era o que lhe fazia querer sorrir feito tola, aliviava-lhe a alma e enchia de esperança o seu coração já tão magoado pela mágoa que causou.
Nenhuma das duas disse palavra. Somente ficaram juntas. O silêncio lhes dizia o necessário. Para Rachel, ele segredou que o amor que ela levava dentro estava mais forte e vivo; para Quinn, ele sussurrou uma canção que a acalentava. E era bom. Era como se os braços de Rachel fossem o porto que lhe traria o equilíbrio necessário. Um equilíbrio que nunca pensou que lhe faltava. Então aconteceu. E foi como um choque: ela soube que Rachel era a pessoa pela qual poderia se apaixonar. Uma coisa que era fora de seu contexto. Porque não foi capaz de se enamorar de Alex. Ao contrário, era essa certeza de ser incapaz de se apaixonar que a manteve distante em relação a jornalista que, apesar das palavras que dizia que um dia Quinn seria dela, nunca aconteceu. Entretanto, agora parecia palpável e possível com a cantora.
Foi um atordoamento.
Uma assustadora revelação.
Afastou Rachel devagar e recuou alguns passos, mirando-a como se esta tivesse duas cabeças.
“Eu… Eu acho que você… Que eu… Eu devo ir… Eu tenho que ir”, gaguejou, assombrada com o que acabara de se dar conta. E sem nenhuma outra palavra ou explicação, retirou-se tal qual um furacão, gritando para Holmes segui-la, deixando-o sem entender o que aconteceu.
Rachel ficou estatelada no meio da sala. Ela também não entendeu o que aconteceu.
“Eu tive fora uns dias
Numa onda diferente
E provei tantas frutas
Que te deixariam tonta
Eu nem te falei
Da vertigem que se sente”.
— Paralamas do Sucesso em Uns Dias—
Quinn respirou fundo, fechou os olhos e tentou relaxar o corpo no encosto do banco traseiro do carro, observada pelo retrovisor por um silencioso Holmes.
Ele analisou a situação. Quinn esteve inquieta durante os dias anteriores e Lucy Quinn havia aparecido e conversou com ele por longo tempo, mais de uma vez. Falaram, entre outras coisas, sobre Rachel e a personalidade alternativa confessou em como estava satisfeita com o fato de estarem casadas, além do desejo de que morassem juntas o mais rápido possível. E foi mais longe ainda, ao revelar que há muito tempo ela e, provavelmente M, esperou pelo retorno da cantora. Ela sabia que Rachel voltaria, mais cedo ou mais tarde. E, quando visse Quinn, certamente tentaria arrumar as coisas entre elas, porque era próprio da judia quando era consciente de que havia magoado outra pessoa. E se essa pessoa se tratasse da ex-fotógrafa, certamente haveria uma culpa muito grande que ela arrastava como pesadas correntes. Sabia sobre o casamento dela e que foi uma grata notícia quando ela procurou a Fabray&Advogados para se divorciar do St. James. E desconfiava que foi M que fez com que a cantora se livrasse do homem que insistia em coabitar com ela, mesmo após a separação. Na realidade, M era a responsável por muitas coisas. Ela, Lucy Quinn, apenas sabia que contraponto da Srta. M.
Foi um susto para o cuidador. Ele não esperava por essa interação e menos ainda pela sinceridade da personalidade alternativa da advogada. Ela foi muito segura quando lhe disse todas essas coisas.
Colocou outra vez a atenção sobre a patroa e percebeu que ela estava em silenciosa inquietude. E era certo.
Quinn não conseguia acomodar a vontade de abraçar Rachel. Era uma coisa estranha. O inexplicável desejo de ter a cantora por perto lhe confundia. Sabia que estava tendo sentimentos desencontrados sobre a ex-namorada, porque não fazia sentido. Ela não lembrava de Rachel, entretanto a cada dia que passava havia uma necessidade maior de tê-la por perto. Necessidade de senti-la, como se ela fosse a tranquilidade que lhe faltava. Uma dicotomia se levasse em conta o fato de saber que ela foi a razão de tentar tirar a própria vida. E pensou que foi fraca na existência da qual não se lembrava. Porque, agora, nunca faria algo assim por pessoa alguma. Então, sem mais, a lembrança do encontro que teve com Alex, a fim de explicar o que aconteceu quando M terminou com o relacionamento delas se assomou e a fez retroceder uns dias no tempo…
A jornalista a mirou com indisfarçável surpresa assim que sua entrada foi autorizada ao escritório.
A advogada sentou na cadeira, à escrivaninha da editora, quedando-se em frente a ela com uma tranquilidade que parecia que tiraria a morena de olhos cor do mar da serenidade que aparentava após o término da relação. E foi seca e aborrecida ao perguntar:
“O que quer comigo, Fabray?”.
Observou a jornalista e percebeu que M realmente a magoou. E, ainda que não fosse de sua índole dar satisfação do que era de sua vida, respondeu com obviedade:
“Eu tenho algumas explicações a lhe dar”.
Escutou a risada incrédula da jornalista.
“Desde quando Quinn Fabray justifica seus atos? O que poderia me contar após a maneira como foi cruel e fria ao se casar com Rachel pelas minhas costas, numa traição sem aparente motivo? Eu sempre foi correta com você, Quinn. E cheguei mesmo a acreditar que, mesmo sendo distante, você não seria capaz de me magoar como fez, parecendo sentir gozo nisso”, soltou de maneira envenenada. “Assim que…”, continuou, fazendo entender que não queria alongar aquele momento, “acho que você pode economizar suas palavras. Ficou tudo muito claro…”.
Inclinou a cabeça para melhor observar a jornalista ao ouvir o respirar profundo dela, que parecia ter por finalidade conter a decepção que parecia se assomar.
Meneou a cabeça antes de verbalizar, firme, consciente de que teria a atenção de Alex:
“Eu concordo que não haja, mesmo, um motivo razoável que justifique o que eu, sob sua ótica, fiz. Entretanto, eu acho que seria bom para ambas que eu lhe aclarasse alguns pontos…”.
Viu como os olhos azuis se estreitaram e a face da jornalista demonstrou uma clara consideração sobre o que escutou. Assim, prosseguiu:
“Há alguns anos, após o acidente, eu comecei a ter alguns brancos”, esperou por alguma indagação da ex-namorada, que se limitou a franzir as sobrancelhas. E, sem objeção, prosseguiu:
“Eu não sabia o que era. Mas coisas, estranhas pra mim, começaram a acontecer. Coisas como eu adquirir uma coleção de pantufas, que particularmente não gosto…”. Percebeu como a expressão facial de Alex pareceu desencaixar, em clara confusão.
“Desculpa, Quinn. Mas eu acho que não estou compreendendo…”.
“Na verdade, Alex, você está. Talvez não queira acreditar, o que é diferente”, argumentou e viu a editora de modas piscar algumas vezes. Continuou:
“Eu não comprei apenas pantufas… Comprei outras coisas que não faziam sentido dentro do meu contexto e não me lembro como foi. Eu fiz outras coisas que soube depois por Judy, mas que, realmente, não sei justificar…”. Fez uma pequena pausa e estudou a ex-namorada. Foi adiante:
“Quando Rachel apareceu, estes brancos se tornaram mais constantes e, há pouco tempo, soubemos, eu, Eleanor e Rachel, que eram personalidades alternativas…”.
Viu os olhos azuis ficarem entre incrédulos e surpresos.
“Personalidades… Alternativas?…”, a jornalista sussurrou e se notava espantada. “Você está falando sério?…”.
“Acha que eu brincaria com algo assim? Que eu seria capaz de mentir a fim de não assumir minhas escolhas?”, indagou com agastamento e soube que a jornalista parecia não opor resistência ao que lhe era narrado.
“No dia em que você soube sobre o meu casamento com Rachel, não fui eu quem lhe contou”, relatou e escutou a surpresa em Alex:
“O quê?”, havia uma falta de fé gritante no rosto da jornalista, que deu um risinho incrédulo antes de continuar, “claro que era você”.
“Não era eu”, foi taxativa na negativa e não deu espaço para Alex, que mantinha os lábios separados em clara demonstração de espanto, “a personalidade que falou com você se autodenomina M… E é a parte de mim que retém as memórias que eu perdi, a parte que, aparentemente, mais busca Rachel”, explicou. Viu Alex respirar fundo e assentir em silencioso pensamento.
Uma longa pausa tomou o escritório e levaram caladas quase dois sufocantes minutos, até que a editora mirou-lhe nos olhos verdes e falou:
“Bom, Quinn, isso é um pouco assustador… E eu tenho um monte de perguntas a fazer, mas prefiro não escutar as suas respostas, porque no fim de tudo, isso não mudará o fato de que você casou com a Rachel. Ainda que você me diga que outra personalidade foi o estopim de tudo, esse fato não muda uma verdade que eu não assimilei por desconhecer, até o reaparecimento da Berry, que ela fez parte do seu passado e que ela é a pessoa que você realmente quer e não a mim. Você sempre disse que se pudesse se apaixonar, eu seria a escolhida. Mas…”, viu como Alex ladeou a cabeça antes de sentenciar, ainda com os olhos azuis cravados nela, “sempre foi ela. Mesmo que você não soubesse conscientemente. Acho, Quinn, que de alguma forma você se guardou pra Rachel Berry”.
Riu com as palavras da ex-namorada e foi o mais fria possível ao verbalizar:
“Sua teoria é ridícula”.
Notou como Alex meneou a cabeça e sorriu, antes de dizer com uma assertividade que a deixava aborrecida:
“Você pode negar. Mas o fato de se casar com ela, ou a sua personalidade alternativa, só confirma o que eu penso. Rachel sempre foi e sempre será o amor da sua vida”.
“Rachel sempre foi e sempre será o amor da sua vida”.
“Rachel sempre foi e sempre será o amor da sua vida”.
“O amor da sua vida”.
“O amor da sua vida”.
“O amor da minha vida…”, Quinn murmurou, abriu os olhos e respirou fundo diante do mareio que sentiu. Menou a cabeça, a fim de deixar a lembrança das palavras de Alex atrás e puxou e soltou o ar a fim de fazer o coração bombear com menos violência. Não queria se debruçar sobre essa coisa agora. Estava bastante atormentada para pensar no que acabara de acontecer no apartamento de Rachel e em como as palavras de Alex pareciam fazer sentido.
§§
Era noite alta e Holmes revisava, na copa, o menu do dia seguinte e a agenda quando escutou como alguém parecia abir a porta de saída do penthouse. Intrigado, caminhou até lá e deu com Quinn toda arrumada num terno feminino de saia e paletó pretos, blusa social branca, cabelos presos num coque alto, maquiagem discreta e um sorriso arteiro nos lábios, que se virou para mirá-lo, sacudindo um par de chaves que ele não fazia ideia de onde eram junto com as da SUV.
“Vou visitar a Sra. Fabray… Ou Rachel Berry, como preferir”, comunicou e deu as costas para sair do recinto.
“O quê?”, o cuidador expressou surpreso e desconfiando que não era Quinn quem lhe falou com picardia o que tinha a intenção de realizar.
M estancou e deu um suspiro de enfado e tornou a se virar para o homem, aproximando-se como uma pantera, mirando-o bem no fundo dos olhos negros como se ele fosse sua presa:
“Não acredito que você, ‘the nanny’, não escutou e entendeu o que eu disse”, segurou as lapelas do paletó do cuidador e fingiu arrumá-las.
“É… É um pou… Um pouco tarde para ir até a Srta. Berry… Não concorda?”, Holmes sabia que era M e realmente se sentia intimidado por essa personalidade de Quinn.
Ela sorriu, prendendo o lábio inferior entre os dentes e balançou a cabeça lentamente para um lado e para o outro discordando dele antes de ficar na ponta dos pés, apesar dos saltos que levava, puxar devagar o homem pelas lapelas que ainda segurava até que seus lábios ficaram próximos do ouvido deste e sussurrou:
“Ainda é cedo, bebê”, sorriu com desfaçatez e o soltou, “vê isso?”, perguntou, mostrando as chaves do carro. Ele assentiu, confuso. M foi sádica de propósito:
“Se telefonar para Rachel ou Maria para avisar que estou a caminho e eu souber, pode ser que Quinn tenha um acidente de carro”. Sorriu polida, virou-se e saiu, despedido-se:
“Au revoir! Ou non…”.
Holmes olhou o relógio. Passava das onze da noite! Talvez pudesse avisar Rachel… Mas e se ela se assustasse e M descobrisse que ele avisou de sua visita? Ela parecia tão capaz de fazer mal a si mesma e, por consequência, a Quinn e isso o deixava inseguro e temeroso quanto que atitude tomar.
“Oh, meu Deus”, murmurou e ponderou se chamar Rachel a essa hora era uma boa ideia. E era boa ideia deixá-la ser surpreendida pela M e sua maledicência e crueldade? O homem andou de um lado para o outro e, por fim, decidiu telefonar para o celular de Wilhelm e pedir que ele ficasse de campana perto do edifício em que morava a cantora. E foi o que fez, recebendo uma resposta positiva do policial. Em seguida e mais calmo, chamou o telefone de Maria. Talvez ela pudesse ajudar e evitar a surpresa que M estava prestes a fazer para Rachel. E o fez. Entretanto, para sua aflição pessoal, ela não atendeu. Se ao menos pudesse avisá-la para deixá-la a par de que logo Rachel teria companhia…
“Eu nem te falei
Que eu te procurei
Pra me confessar
Eu chorava de amor
E não porque eu sofria”.
— Paralamas do Sucesso em Uns Dias—
Romero escutou o rebotar dos saltos no chão de mármore do lobby e ergueu os olhos, dando com a loira bonita e elegante que, sabia, iria até a cobertura da Srta. Berry. Fez menção de interfonar para o apartamento, mas a voz carregada de desprezo o fez estancar com o fone na mão:
“Eu não cometeria esse erro”.
Mirou-o e caminhou até ele, fazendo questão de que os saltos de seu Loubotin ecoassem na silenciosa portaria.
Romero parecia congelado.
M debruçou no balcão, sorridente. O porteiro começou a esboçar, também, um sorriso, que não saiu ao escutar a loira:
“Você é um homenzinho realmente previsível e eu até me esforço, mas não consigo gostar de você”.
Romero continuou estático.
M prosseguiu:
“Você é alcoviteiro”.
“Eu… Eu só… Só faço o meu… O meu trabalho”, a voz em defesa própria saiu com dificuldade. O olhar verde, desprovido de qualquer sentimento, fazia o estômago do homem apertar. Mais quando a loira troçou, com voz chorosa e as mãos juntas sobre o peito:
“Eu… E-eu só… Eu só… E-eu só fa-faço o meu… O meu tra-trabalho”.
Ele engoliu em seco. Ela não teve pena:
“Coloque o fone na base. Agora”, M exigiu e Romero, devagar e com os olhos inseguros, obedeceu.
“Bom garoto”, riu, “continue assim e talvez eu consiga suportar você”, falou e deu as costas, caminhando até o elevador, rodando o par de chaves no indicador da mão direita. O barulho dos saltos dela a ecoar no chão da silenciosa portaria. O elevador não tardou e a loira entrou. Antes de a porta fechar, deu uma piscadela para o porteiro, acompanhado de um tchauzinho.
Chegou ao corredor da cobertura e, erguendo o pequeno molho de chaves, escolheu uma que conhecia muito bem e torceu para que Rachel não tivesse trocado a fechadura, apesar do tempo que passou desde quando a relação dela e de Quinn foi para o inferno. Encaixou a chave e, devagar, girou-a duas vezes e, para sua sorte, a porta destrancou e estava sem o seguro. Achou que Rachel confiava muito no tonto do porteiro.
Encontrou a sala na penumbra e o ambiente silencioso. Sorriu e caminhou com segurança em direção ao quarto da judia, desejando profundamente que ela estivesse ali e nos braços de Morfeu.
A porta estava semiaberta e conseguiu divisar, na penumbra, a figura da cantora deitada, adormecida profundamente. Entrou no quarto e fechou-o sem barulho. Retirou os sapatos e caminhou até a beira do leito e observou como Rachel parecia indefesa. Não parecia apenas. Ela estava indefesa. E também linda numa camisola branca que a fazia parecer quase imaculada. Não conseguiu evitar um sorriso de contentamento. Os cabelos escuros espalhavam-se sobre os travesseiros, o lençol cobria o corpo moreno a partir do abdome, onde um braço jazia inerte e o outro estava dobrado ao lado da cabeça. Os lábios entreabertos, a face lavada, deixando ver o sinal que tinha no lado esquerdo da face.
M desabotoou o paletó do terno e o retirou, ficando em saia e blusa. Com cuidado, sentou na beira da cama, ao lado do corpo judio e acercou o rosto. Observou os lábios morenos convidativos e a lembrança de quando Rachel parecia amar Quinn a tomou.
“Você foi tão amada…”, sussurrou, roçando os lábios nos da esposa, “por que magoou Quinn?”.
Rachel murmurou alguma coisa ininteligível.
M a observou de perto, dividida entre o desejo carnal e a mágoa pela cantora. Umedeceu os próprios lábios com a língua e os encaixou nos da morena.
Rachel, em estado onírico, deixou-se beijar e sorriu, num quase sonho em que estava com Quinn, num tempo distante.
M passeou a língua nos lábios da esposa e, então, a cantora abriu os olhos, confusa por causa da sonolência.
“Boa noite, Rach-Rach”, a loira sorriu. E Antes que a cantora pudesse racionalizar o que estava acontecendo, M subiu sobre ela, levou-lhe e prendeu os braços até o alto da cabeça e se inclinou até colar a boca no ouvido moreno e sussurrar:
“Advinha quem veio passar a noite com você?”.
Rachel não sabia se estava sonhando ou se estava acordada.
“Quinn?…”, murmurou com a voz rouca.
“Passou raspando, delícia”, sorriu bem perto dos lábios de Rachel, roçando-os.
“M?…”, murmurou.
“E quem mais?”, indagou com o desejo vibrando na voz e tomou os lábios morenos num beijo cheio de ânsia.
“Mas você chegou e já era dia
E não estava sozinha
Eu tive fora uns dias
Eu te odiei uns dias
Eu quis te matar”.
— Paralamas do Sucesso em Uns Dias—
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