Sine Cordi
85 CAPÍTulo 85 - הם
Notas iniciais
“Talvez eu não tenha lhe tratado
Tão bem quanto deveria
Talvez eu não tenha lhe amado
Tanto quanto eu poderia
Pequenas coisas que eu poderia ter dito e feito
Eu simplesmente não encontrei tempo
Vocês sempre está em minha mente…”.
— Always On My Mind com Elvis Presley -
Rachel respirou fundo e cerrou os punhos como se, dessa maneira, pudesse conseguir a coragem necessária para lidar com a mulher que a mirava de uma maneira que fazia com que desejasse que o chão a devorasse. Ao mesmo tempo em que pensava em como Quinn estava conseguindo tornar sua vida um sem fim de baques. Era um atrás do outro! Quando pensava que poderia respirar e o seu coração voltar a bater menos acelerado, vinha-lhe um novo “acontecimento”. Mirou a janela aberta e pensou que só lhe faltava, no momento, um pombo entrar por ela e lhe defecar em cima…
E julgou que não estava livre…
Voltou a face e o olhar para a mulher que a mirava com um quê de desgosto, ou decepção, quem sabe?
Rachel baixou os olhos e analisou a situação, procurando por um pouco de serenidade. Ali, diante dela, estava Judy Fabray, a mulher que, junto a Russel, sempre prezou pela imagem e posição social antes do bem-estar de sua filha caçula, Quinn. A matriarca do exemplo de família perfeita que vivia de aparências e, quando a filha deu um “mau passo”, não se levantou para defendê-la da crueldade de um homem arrogante e cheio de ideias antiquadas e ultraconservadoras. Alcoólica que passou por reabilitação com sucesso, uma vitória – reconhecia Rachel –, e divorciada do pai de Quinn depois de lhe dar uma chance após ser trocada por outra mulher bem mais nova. Não era um bom histórico, pensou a morena. Mas Judy ainda era a mulher que poderia lhe acrescentar um aborrecimento a mais a vida graças a Quinn. Não poderia ignorar este fato.
“Rachel”, Judy quebrou o silêncio, “não acredito que com a boa educação que lhe deram os seus pais, e que eu já pude comprovar em visitas anteriores a tudo o que…”, soltou o ar e o puxou novamente, “tudo o que aconteceu antes, você tenha perdido os seus bons modos”, a mulher a puxou para a realidade, mas com um tom de voz menos imperativo.
“Desculpa! Eu estou…”, suspirou, tentando não ter uma crise de pânico que a levaria direto ao sanitário para devolver o café da manhã, “surpresa”, confessou e esticou o braço, oferecendo o sofá para que a mulher pudesse colocar-se à vontade.
Judy assentiu e a assim o fez, com a graça e a espontaneidade arraigadas que a educação em um colégio católico só para moças de berço lhe ensinou, enquanto a cantora pedia que Maria lhes trouxesse chá, café e aperitivos que combinassem com as bebidas.
A mulher mexicana acatou, sabendo que a bebida de sua patroa teria de ser uma mistura de ervas calmantes, ou “ella se quedará rota”, murmurou.
“Como estão Hiram e LeRoy? Eu não os vejo há cerca de uns vinte dias”, comentou, estudando a atriz, que se sentou no sofá em frente.
“Estão aqui”, revelou e sentiu um pouco de alívio. Eles foram deixar Spencer na escola e logo poderiam estar de volta e talvez não precisasse ter este enfrentamento sozinha. Era uma ideia alentadora. “Agora mesmo…”, analisou o tempo por alto, “devem estar deixando Spencer na escola”, contou.
A mulher assentiu, antes de – após breve pausa para pensar – determinar:
“Eles são bons pais. Você tem sorte em tê-los”.
Rachel anuiu e capturou sinceridade no tom de voz da Fabray mor. E se carcomia por dentro em ansiedade por saber o que, objetivamente, Judith Fabray fazia ali, após uma viajem de longas horas de Lima até Nova York. Ela saberia do casamento?
“Rachel”, a mulher começou, num tom tranquilo e com os olhos cravados nela, enquanto o sexto sentido da Berry lhe dizia que teria a resposta ao seu questionamento logo. “Lima é uma cidade pequena. Quantos somos em termos de habitantes? Trinta e oito mil e alguma coisa? E, como em todo lugar pequeno, as pessoas acabam por saber umas das vidas das outras. Por exemplo, eu sabia que seus pais não estavam na cidade. Poderia pensar que viajaram a negócios ou que vieram lhe ver. O de hábito, porque só nas férias de LeRoy do hospital eles viajam para algum outro lugar que não seja Columbus ou Nova Iorque”, recomeçou Judy, sob o atento e ainda assustado olhar de Rachel, “estou errada quanto aos seus pais?”, inquiriu, surpreendendo a judia com a pergunta. Talvez ela esperasse mais da parte da Fabray.
A cantora deu uma pequena sacudida de cabeça, a fim de tentar aclarar as ideias e responder:
“Está certa”, concordou, “mas… Por que está me contando isso?”. Era uma pergunta pertinente. Por que a mulher rodeava tanto e não ia direto ao objetivo de sua visita ali? Afinal de contas, ela, Rachel, sabia muito bem como era morar em Lima. Não esqueceu e não entendia a razão pela qual a mulher de cabelos dourados se referia a este fato em particular.
“Porque, numa de minhas idas ao mecânico para levar o meu carro para uma revisão”, começou a explicar, “eu soube por Burt, que soube por Kurt, que liga para ele todas as segundas, quartas e sextas, que você e minha filha caçula estavam estreitando laços. Eu me perguntei: qual a chance de isso acontecer? Acho que você sabe que a minha filha tentou se matar. E que, neste infeliz intento, perdeu a memória… Ela acordou do coma com a mente em branco”, fez questão de ser dura nesta parte, porque a magoava e achava justo que a cantora soubesse disso. Prosseguiu:
“Quinn não se lembra de quase setenta por cento do que aconteceu antes do acidente. Ela não sabia que foi capitã das cheerleaders do McKinley; ela não sabia que era fotógrafa de renome. Ela não sabia quem eu era, quem Russel era, nem de Santana ou pessoa alguma. Ela não lembrou da pessoa mais importante da vida dela: Beth. Ela tinha uma lembrança aqui e ali, mas que ela não sabia se era real ou não. Ela não lembrou de você, Rachel! Então, eu atinei sobre o seu divórcio e pensei: ora, ora! A pequena Berry cuidou de se divorciar do marido sob os serviços da Fabray&Advogados, quando Hiram Berry é dono de um dos melhores escritórios de Ohio. Por quê?”.
“Eu moro aqui. Jesse também morava. Por que eu iria tão longe?”, tentou sair com um argumento viável.
Judy sorriu, enlaçou os joelhos com as mãos cruzadas e se ajeitou um pouco mais no sofá, ereta e perspicaz.
“Claro. E a Fabray&Advogados é o único escritório na Grande Maçã que poderia cuidar desse pequeno inconveniente para você”, concluiu, com um tom de descrédito muito a conforme.
Rachel respirou fundo a fim de enfrentar a realidade da situação e se perguntou se Judy estava fazendo algum jogo para enervá-la, embora lhe parecesse que estava mais machucada do que desejava deixar notar. Judy parecia triste! Deu-se conta e pensou em como uma traição revirou toda a vida de um grupo de pessoas que, antes, faziam parte ativa da vida de Quinn. Sentiu-se mal. Afinal, foi ela, Rachel Barbra Berry, que traiu Lucy Quinn Fabray com Jesse St. James e deu início a toda essa mágoa que escapava em gotas de Judith! Respirou fundo, a fim de sustentar o impacto, amenizar o mareio e pensar que havia perdido a conta de golpes que Quinn estava lhe infringindo de maneira indireta, fazendo-a perceber o quanto lhe feriu.
“Então”, Judy deu ênfase a palavra, puxando a atenção judia para si outra vez, “eu resolvi telefonar para a minha nora… Ou seja lá a posição que Alex ocupa nessa família. Eu não entendo a relação delas, apenas sei que, de alguma maneira, ela foi boa para a minha filha”.
Alex tinha uma fã! Que maravilha! Pensou a cantora, que respirou e soltou o ar, numa incansável busca por se manter calma, confiante e coerente.
Rachel estancou por um momento.
Espera!
Judy Fabray telefonou para Alex Bishop?
Oh, merda! Foi seu único pensamento no instante.
Onde estava a luz que indicava que havia uma saída, uma maneira de escapulir ilesa do que estava acontecendo agora?
A voz segura da mulher loira a retornou do túnel de terror que parecia atravessar.
“Pela relação delas, as minhas ligações são passadas diretamente para a sala de Alex, quando ela não está em reunião. E foi o que aconteceu quando, curiosa, resolvi falar com ela”, sorriu e percebeu como a cor ia desaparecendo aos poucos da face da cantora. E Judy pensou, com um sorriso secreto, que estava indo pelo caminho certo. Prosseguiu:
“Eu não sei o arranjo delas, de Quinn e Alex, mas a minha querida jornalista nunca, em momento algum, ficou sem resposta a uma simples pergunta que eu sempre faço quando nos falamos ao telefone: como está Quinn?”.
Rachel achou que seria impossível o seu coração bater mais rápido dentro do peito. Mas ele bateu. Estava tomando uma imensa descarga de adrenalina agora e sentia que o oxigênio se tornava escasso e a imensa sala de visitas pequena demais para ela e Judith Fabray com sua pose e sua mirada audaciosa e comportamento de quem sabia todos os segredos.
Uma delas teria que perder! E não seria ela, Rachel Barbra Berry, mesmo com tudo o que sabia que seu errôneo comportamento causou. Queria Quinn! Amava Quinn! Insistiria.
“O meu espanto foi quando”, a mulher loira voltou a falar, depois de se dar conta de que Rachel, aquela pequena mulher de modos graciosos, beleza exótica e voz abençoada, sabia o que estava a acontecer, “Alex ficou em silêncio, como se pensasse uma resposta. Bom, desde que eu a conheço, ela nunca titubeou uma resposta acerca de Quinn. Ela sempre tinha uma informação, algo sutil e educado e a gosto, porque ela sempre foi sincera diante da dificuldade que era estar com Quinn”.
“Quinn não é difícil”, a cantora soltou sem pensar e a loira sorriu. E pensou que estranha opinião aquela.
Quinn não era difícil? Lamentou a ingenuidade da cantora. Meneou a cabeça e foi sarcástica, porém aterrada pela ideia:
“Sempre apaixonada!”.
“O que a Alex lhe disse?”, arguiu a atriz, ignorando o comentário da visita.
Judy se moveu com clara incomodidade antes de verbalizar:
“Aí está o que me deixou alerta”, anunciou, “ela respondeu, de maneira distante e fria, que eu deveria perguntar para a Quinn. Eu não nasci ontem”, observou e Rachel pensou que esta era uma verdade, porém calou. Ao passo em que Judy seguiu:
“Eu pensei: elas romperam? Não fazia sentido! Pareciam bem. Daí, eu recordei as conversas de Burt, que citavam você, mais o que eu soube nos últimos meses sobre minha filha e, ‘por acaso’, você: seu retorno de mais uma de suas longas turnês pela Europa, a fama crescente de Quinn como advogada dando visibilidade a ela nas mídias por causa dos casos que ela ganhava, pouco depois aconteceu o seu divórcio feito pela Fabray&Advogados; daí eu soube por Russel que você assistiu ao julgamento em que Quinn trabalhou há poucos meses e, somando-se a tudo isso, o cometário de Burt, via uma conversa de Kurt, sobre uma possível visita que Alex teria lhe feito no Gershwin. Perguntei-me, mais intrigada: o que faria a namorada de minha filha com a ex-namorada dela? Não foi difícil somar dois mais dois e pensar que a resposta estaria com você. E aqui estou eu, muito curiosa, aguardando o que você tem para me dizer”, colocou e relaxou, sempre de maneira elegante, no sofá e fincou os olhos azuis nos castanhos.
Rachel não conseguiu calar a sua própria curiosidade:
“Por que acredita que a Quinn também não saiba a resposta? Por que não foi perguntar diretamente a ela?”.
Judy ficou grave e desviou o olhar para um ponto qualquer em seus escarpins Louboutin. Confessou, sem razão para omitir a realidade:
“Quinn não me receberia. A portaria dela é mais resguardada que a sua”, riu sem graça. E, voltando o olhar azul para a morena que a fitava, falou:
“Ela faz questão de ser indiferente a mim…”, sorriu com amargura, “como eu um dia fiz, quando não a defendi contra o Russel. É curioso como esse tipo de coisa, apesar da amnésia dela, permaneceu. Ela não confia em mim, ou em Russel… O que me leva a perguntar, outra vez mais: por que ela deixou, ou está lhe deixando se acercar, quando você também a decepcionou”, comentou, atenta para a reação da cantora.
A face da judia entristeceu. E foi tão forte, que Judy se pegou surpresa.
Rachel suspirou alto. Judith Fabray não sabia do casamento, estava em busca de respostas. Teria que contar a verdade. E fazer frente ao que estava temendo: um enfrentamento nos tribunais que a consumiria. Quinn poderia escrever peças de ópera, de preferência réquiens, analisou de maneira sarcástica.
“O que está acontecendo, Sra. Fabray, de fato”, seu tom de voz nunca saiu tão maculado de decepção e um quê de contida tristeza quanto neste momento, “é algum tipo de revanche, vingança… Eu não sei bem que nome dar para o que está passando entre a sua filha, Quinn, e a minha pessoa”, suspirou e ergueu a cabeça, mirando a mulher com a mesma altivez que era olhada, “sua filha e eu estamos casadas há quase dois meses… As coisas são tão atordoantes que, realmente, eu estou meio deslocada no tempo, porque parece que foi há séculos e, depois, parece que foi ontem, como num sonho surreal…”.
A mulher loira piscou algumas vezes.
“Okay! Espera!”, Judy se manifestou esticando a mão direita com a palma de frente para a judia, num gesto para que ela parasse de falar, “espera! Espera! Espera…”, inclinou o corpo para a frente e franziu o cenho, como se tivesse perdida no meio de alguma coisa que não sabia o que era. Entretanto, sabia que tinha importância. Só lhe parecia que não havia decodificado corretamente a mensagem que a Berry passou. Após um suspiro, falou com calma e atenção:
“Eu deixei de entender a sua fala na parte em que você disse alguma coisa sobre você e a Quinn terem…”, riu com incredulidade e meneou a cabeça, porque não poderia ser verdade e não fazia sentido, “algo como vocês terem se casado? Ou algo que rime com isso, porque eu estou confusa”.
Rachel deu uma gargalhada solta e sincera! Tudo porque Judith Fabray estava confusa! Quase soltou um “junte-se ao clube!”, mas perdeu o riso e após se desculpar por rir, porque não era engraçado, respondeu:
“Quinn e eu nos casamos”, repetiu, sustentando o olhar azul sobre si, que a mirava como se buscasse nela alguma coisa que desmentisse aquelas palavras.
Judy recostou-se, bem devagar, no espaldar do sofá e puxou o ar e o soltou lentamente. Engoliu em seco e meneou a cabeça.
Rachel se preocupou. A mulher mais velha parecia mareada… Parecia que tinha sido atingida por alguma coisa que causava dor.
“Senhora Fabray, eu sei que qualquer coisa que eu diga não irá lhe justificar o fato de eu e Quinn termos nos casado, mas ela me pegou num momento conturbado. Eu ignorava que ela havia se acidentado e soube, num susto, que ela tinha perdido a memória, logo depois eu soube que isso aconteceu porque ela tentou se matar. Então o Jesse foi assassinado e, dentro de todo este tumulto, ela me chamou para uma conversa e, quando eu estava lá, ela tinha uma história que dizia que eu estava traindo o Jesse com o Marco, que é o meu motorista, e que eu, junto com ele, o meu motorista, tramamos a morte dele, digo, do Jesse, e eu não pensava com clareza porque ela era tão convincente, ela mente tão bem que parece verdade o que não faz sentido, mas eu não pensava mais com a devida clareza, ou talvez eu devesse ter dito não, eu não sei, porque…”.
“Rachel, pare, por favor!”, Judy pediu de maneira atordoada. “Por favor, eu acho que sei o quanto você pode estar agitada sobre isso, mas eu, agora, estou muito confusa. Então, eu penso que deveríamos esperar o chá que Maria gentilmente trará e, talvez menos tensas, tentarmos entender o que está acontecendo”.
Aí estava uma reação que a judia não esperava.
Rachel sentiu outro alívio. Não sabia como, após se recompor, Judy reagiria ao fato de que ela e sua filha caçula estavam, de fato, casadas. Mas neste momento, a mulher estava claramente baqueada. Algo lhe dizia que não seria mais duro do que já estava sendo até agora. E não deixou de divagar o quanto Quinn a estava castigando. E que cada castigo seguia uma linha que, num primeiro olhar, parecia torta, mas quanto mais se volvia a olhar essa linha, percebia que havia – sim – ordem dentro do que era aparentemente um caos. Cada passo dado, lento como era a percepção de Quinn sobre a verdade, tomava forma em cada encontro que tiveram, ao acaso ou não, e – a partir desse acercamento – a consciência de em como as outras personalidades alternativas tomaram o lugar de Quinn com ela, Rachel, e não se deu conta. Ela deveria se manter afastada, como lhe avisaram. Ela era tóxica para Quinn e recebia de volta essa sua capacidade de tirar o eixo que sustentava o equilíbrio de Quinn em relação às outras personalidades. Se ela desestabilizava Quinn, por causa da ligação que tinham, desestabilizava-se a si mesma. E estava pagando o preço. Porque, se analisasse friamente a situação agora, desde que ela e a advogada começaram a se acercar, teria que se perguntar: quem foi a mulher fria que pediu que ela se separasse de Jesse, que lhe deu um ultimato? Foi Quinn ou a Srta. M? Porque, na confusão e na ignorância daquele momento, não era capaz de discernir uma personalidade da outra. Quinn se lembraria desse fato?
Com quem se casou? Com Quinn ou com a Srta. M fingindo ser a Quinn? Não sabia mais.
Quem lhe disse, com ar autoritário e um brilho malicioso nos olhos que a levaria para comprar roupas, só para ter o “prazer” de um desfile particular e impôs ordens sobre a relação? Quinn ou M?
Um adendo importante: a Srta. M se manifestava muito mais que a outra Quinn. E percebeu que, há algum tempo, a personalidade alternativa da esposa parecia ter uma ideia, ou plano, arrumada na cabeça. Antes, ela queria que ficasse longe da advogada, cuidou de mostrar quem tinha o controle da situação através da coação. Por agora, ela adotou – sem perder a maledicência que lhe era muito proeminente – uma postura mais lasciva. Comportava-se como se ela, Rachel, fosse uma posse. E uma posse que ela poderia desfrutar como lhe conviesse. Qual era o plano? Não era só lhe macular a imagem. Seria para humilhá-la?
Sacudiu a cabeça em modo de confusão.
Há quanto tempo estava lidando com a Srta. M e não sabia?
Tais questionamentos foram um susto. Levou uma das mão ao peito e a outra a garganta e tentou não surtar. Só precisava respirar com calma. Puxar o ar e soltar, devagar… Um pouco de Clonazepam não seria mau, também, e o chá calmante que, tinha certeza, Maria estava lhe preparando ajudariam muito. Teria que ser um chá muito potente, porque não sabia se seria de bom tom sair e se desesperar no banheiro enquanto Maria fazia sala para Judith. Na verdade, analisando assim por alto, Judy também parecia precisar se “deixar levar pelo desespero”, ou ter um surto, em algum lugar destacado da casa. Pensou em lugares que poderiam ser um bom sítio para isso. Cederia a suíte principal para Judith enquanto gritaria em seu estúdio, que era o lugar onde dava seus agudos sem incomodar o sono de seu filho, ou de Maria…
“Señora”, a voz da mulher mexicana a fez retornar de seu intento de ter um ataque histérico sem que a mãe de sua esposa fosse testemunha.
“O chá!”, exclamou e viu como Judy parecia se sentir tão aliviada quanto ela. A mulher mais velha estaria a pensar em como reverter o casamento? Ou se perguntando se os bens de Quinn estavam a salvo dela, Rachel Berry?
“Jesús, esto se parece muy duro. Quinn me está jodiendo muy duro”, murmurou com vulnerabilidade para Maria.
A mulher latina sorriu de maneira descontraída e respondeu, alentando um pouco o coração da morena:
“Usted lo logrará, señora”, e se retirou.
“Sí…”, confirmou, num sussurrou débil, “lo haré”, e suspirou levando a xícara aos lábios.
Rachel não duvidava de si mesma quando o tema era Quinn. Não mais. Então, enfrentaria qualquer questão levantada por Judith Fabray. E brigaria se fosse preciso.
No final, ela ainda era a força dominante da relação. Era ela que atormentava e tirava a paz de Quinn. Sempre foi assim… Que pena que não valorizou isso quando era demonstração de amor e zelo. Agora pareciam que travavam uma guerra silenciosa! Estava conseguindo desviar de alguns mísseis… Mas, até quando?
Deveria atacar?
Mas, de que maneira?
§§
Quinn se olhou no espelho e se examinou. Estava pronta para ir ao encontro de Eleanor para mais uma sessão que traria para a borda suas personalidades a fim de, assim, fazê-la tentar se lembrar do que aconteceu e uni-las, o que era doloroso e exaustivo. E lhe trazia inacreditáveis crises de choro e um monte de sensações que não gostava e que desejava empurrar para o fundo.
“Maldita Rachel Berry!”, exclamou num sussurro aborrecido. Era tudo por causa dela! Sua dor, sua estranha e inconcebível vontade de querer, ao menos, escutá-la em sua ideia de fazer recordações novas. Mesmo que fosse para ignorá-las depois. Embora não quisesse, de alguma maneira, ignorá-la. Era tão estranho! Tão estranho e confuso que desejava voltar para a ignorância, bênção de alguns. Sabia que havia muita coisa soterrada em seu cérebro. Sabia que havia coisas que não recuperaria nunca mais. Esperava que as recuperáveis não a enfraquecessem… Ou machucassem. O pior era a dor. E odiava sentir dor!
Examinou o terninho de saia e paletó, o cabelo preso num coque austero que lhe dava um ar mais sério, ao passo em que lhe permitia ver o quanto precisava engordar uns quilos. Nunca esteve tão magra após o acidente, quando a perda de peso foi assustadora, fazendo-a parecer ainda mais débil do que estava naquele então.
“Tudo culpa de Rachel Ber…”, parou de murmurar quando escutou as três batidas características de Holmes na porta. O que ele queria? Não iria se atrasar para sua tortura semanal com a Parker! Pensou, aborrecida.
“Estou pronta!”, informou em tom alto e mal humorado.
O homem surgiu, cuidadoso, na porta e a loira o mirou e girou com um sorriso sarcástico no rosto:
“Eu disse que estava pronta”, estancou de frente para o cuidador e o encarou com ar aborrecido.
“Não é isso…”, ele falou, preocupado e em tom baixo, deixando a loira curiosa. “Maria acabou de ligar. Parece que a sua mãe está lá, com a Srta. Berry”, informou e observou qual seria a reação da patroa.
Quinn ficou parada por alguns instantes, pensando em alguma razão para Judith Fabray despencar de Ohio para Nova Iorque. Só pensou em uma coisa: ela estava louca! De pedra! E que não deveria se incomodar com isso.
“E se ela desconfiar do casamento?”, o cuidador percebeu o desligamento da patroa quanto a este fato importante.
A loira ladeou a cabeça, com o cenho franzido, analisando as possibilidades. Judy desconfiada do casamento… Mas… Como? Alex não contaria para pessoa alguma sobre o casamento, tinha certeza sobre isso. Santana… Santana… Talvez Santana contasse para Britt, mas a Britt tinha uma característica muito boa: ela nunca repetia o que escutou se Santana lhe dissesse que era um segredo. Logo, não havia razão para a desconfiança. Ou seria possível que Judith soubesse?
“Nah!…”, murmurou para si mesma, sob o atento e ansioso olhar de Holmes, que ela, perdida em seus devaneios, não lembrava mais de estar parado em frente.
“Quinn…”, o homem estava inquieto e confuso com o comportamento indiferente da patroa sobre o fato que, para ele, tinha relevância.
“Eu não sei o motivo de Judy estar aqui na cidade e de visita com a Berry. Alex nunca contaria sobre o casamento. E nem Santana o faria. Ela preza a Rachel”, insistiu, pois sabia que era assim de fato juramentado, enquanto dava uma olhada em sua aparência no espelho de corpo inteiro, sob o olhar aflito e espantado de Holmes, que esperava que a advogada fizesse algo a respeito.
Entretanto, após um suspiro aborrecido, pensou e sabia que não deveria se importar com isso, mas Judith tinha o dom de lhe atiçar o raio da curiosidade e uma imensa vontade de destilar veneno. Assim, Quinn se colocou a matutar na hipótese de Judy saber ou desconfiar do casamento. Perguntou-se o que faria se fosse Judy e desconfiasse, mas não soubesse, o que de verdade estava acontecendo. Então, pôs-se a avaliar. Primeiro ponto: Judy sabia que Rachel estava envolvida, pois foi atrás dela. Segundo ponto: Judy não foi até ela, Quinn, porque sabia que não era bem-vinda. Terceiro ponto: Judy sabia que Rachel era o lado mais frágil.
“Que mãe ordinária eu tenho”, mastigou com frieza, olhou para o cuidador e, enfastiada, avisou, não deixando transparecer a dúvida em ir ou não até a casa de Rachel:
“Vamos saber o que mamãe Fabray quer com a Berry”.
“E a Dra. Parker?”, ele, no fundo, ficou surpreso pela escolha da patroa. Achou que deixaria a cantora sozinha frente as dificuldades, pois não era isso o que ela queria? Que Rachel fosse tragada pelos Fabray até jogar a toalha? Por que parecia estar enfadada com o fato de Judith estar, neste momento, com a cantora? Isso era bom?
A advogada o encarou com aborrecimento.
“Você realmente não quer que eu vá em socorro da ‘frágil Srta. Berry’?”, debochou, sabendo que o homem guardava certo afeto pela cantora.
O homem emudeceu.
“Ouça, Holmes”, começou, num tom didático como se falasse com um tonto, “apesar de apresentar outras duas personalidades, eu ainda sou uma pessoa só. Então, ou eu vou até a Rachel ou eu vou até a Parker! Uma das duas tem que perder! E, não pergunte a razão, a Parker perdeu hoje. Fácil! Por que ainda está me olhando com cara de espanto? Eu saio em cinco minutos”, informou e foi até o móvel onde estavam seus comprimidos. A cabeça começou a latejar e não queria dar motivo para Judy pensar que estava doente. Engoliu dois e aproveitou para dar mais uma retocada no blush, a fim de parecer mais corada do que realmente estava.
Holmes escutou uma aborrecida patroa sair do quarto murmurando impropérios para si mesma, surpreendendo-o.
Quinn não era mulher das palavras ditas pesadas ou sujas, embora ele, particularmente, não se importunasse por elas. Era somente escutá-las saindo pelos lábios de sua patroa que as fazia soar molestas e feias, concedendo força ao que ela aparentava: estar profundamente aborrecida por ter algum fato não premeditado acontecendo dentro de seu caos aparentemente organizado. Afinal, entender a cabeça e as emoções de Quinn neste momento era muito difícil. Ela simplesmente oscilava. Aquele equilíbrio frio que ela mantinha, o sarcasmo pouco gentil pelo fato de que ela não se importava com as outras pessoas e as afastava, pareciam que davam lugar ou à profunda melancolia seguida na maioria das vezes de prantos contidos e outros desgarradores, ou à ira que a fazia maldizer a tudo e a todos e um humor amargo de fazer desejar evitá-la.
Quinn, agora, parecia de mau humor… Confirmou o pensamento quando a escutou bater a porta do carro com força, ainda abotoando o sobretudo cinza sobre o terno executiva que levava.
“Eu não quero ficar presa em trânsito, Holmes. Trate de encontrar uma maneira de chegar ao prédio da Berry em cinco minutos ou irei a pé. Tenho uma mãe para mandar de volta para Lima”.
E teve certeza mais que absoluta após ouvi-la, mandona.
“Talvez eu não tenha te abraçado
Nos momentos solitários
Eu acho que nunca te disse
‘Sou tão feliz por você ser minha”
Se eu te fiz sentir como um segundo lugar
Garota, eu sinto muito, mas estava cego
Você sempre esteve na minha mente”.
— Always On My Mind com Elvis Presley -
Rachel tomou um gole generoso do chá que Maria lhe preparou, bem quentinho e docinho. Era quase uma pequena bombinha que liberaria serotonina para seu cérebro e a deixaria menos tensa, enquanto Judy fazia a mesma escolha de bebida. O que levou a cantora a pensar que a mulher ainda estava em desequilíbrio. E também fez uma analogia que, nessa altura do campeonato, para ela, já não apavorava: Quinn era como uma bola de boliche nas mãos de um habilidoso jogador. Ela saia rodando pela pista lisa com assertividade até o alvo, derrubando todos os pinos! Derrubava vários e fazia um bater contra o outro, desestabilizando-os ainda mais para a inevitável queda.
Eu sou um pino agora. Pensou.
E Judith também. Completou.
Será que ela sabe? Questionou-se.
Não… Ela não sabe… Concluiu.
A mulher mais velha a fez retornar para a realidade:
“Então…”, Judy suspirou antes tomar um outro gole do chá e continuar, “Quinn fez você se casar com ela”. A Fabray sabia que não precisava escutar toda a tramoia que sua filha caçula havia feito para “fisgar” a cantora. E o que a deixava apavorada era: Quinn ainda estaria apaixonada por Rachel? O que mais explicaria ela fazer a ex-namorada, que se casaria com ela antes do acidente, casar agora? Por vingança? Quinn não era vingativa… Não essa Quinn pós acidente. Esta era fria e sem apego. Era distante e fechada. Valia sua opinião e nada mais. Ela não se vingaria de alguém de quem ela nem se lembrava! Este era o “nó” em sua cabeça. “Por quê?”, soltou a pergunta pensada em voz alta sem dar-se conta. E seus olhos encontraram os confusos olhos marrons, que também tinham um rasgo de tristeza.
“Porque ela me odeia? Porque eu a traí? Porque eu mereço ter o meu amor desacreditado por ela todos os dias?… Eu posso seguir enumerando razões, Sra. Fabray”, a morena respondeu, com certa simpleza de raciocínio.
“Desculpa, meu bem, mas não”, desmentiu a mulher mais velha. “É mais do que isso. Quinn nunca foi de personalidade simples, de metáforas fáceis, de alegorias tolas. Não mesmo! Ela é mais complexa… Eu sei disso e você também. E sabíamos que apenas um acontecimento de peso emocional poderia trazê-la de volta.”, sentenciou a mulher.
A cantora a observou em silêncio. O que queria dizer com isso?
“Quinn não voltou!”, reclamou, “ela continua sem memória”.
Judith meneou a cabeça em negativa claramente confusa, porque a ideia que lhe passava pela cabeça lhe parecia absurda, ao passo em que a teoria de Rachel também não fazia sentido. Vingança não era uma opção. Quinn não se lembrava da traição. Quinn perdeu a memória! Ela não atormentaria a vida de Rachel. Sua teoria “absurda” falou mais alto e, diante de tal hipótese, estancou e com os olhos azuis muito maiores por causa do espanto que a tomava, inquiriu de chofre:
“Conheceu a Srta. M?”.
Por pouco, Rachel não cuspiu o chá. E ficou paralisada com os olhos tão arregalados quanto os da visitante.
Judith Fabray sabia sobre a Srta. M?
“O… Quê?”, gaguejou, atordoada.
A loira sorriu, pois foi direto ao ponto nevrálgico da situação. Rachel sabia das personalidades alternativas de Quinn! E continuava casada? A Srta. M era o pior lado de Quinn! Por que a cantora estava se submetendo? Ou a Srta. M estava orquestrando aquilo tudo?
“Como?…”, Rachel ainda estava atontada com o fato de Judith Fabray ser conhecedora das outras personalidades de sua esposa.
A loira descansou a xícara no pires e suspirou, antes de inquirir com ar de desgosto:
“Acha que eu sou tão dispersa em relação a minha filha que não seria capaz de saber quando estou falando com ela ou não?”.
A judia não tinha uma resposta. Estava, realmente, perplexa. Nunca imaginou que Judy Fabray fosse atenta quanto a Quinn. Mais: se ela sabia, Russel também?
“O senhor Fabray… O Russel… Ele sabe?”, indagou, com voz insegura.
A mulher mais velha meneou a cabeça em calma e lenta negativa e deu um riso desgostoso:
“Russel não é um pai muito confiável. Não fosse a saúde de Quinn, ele nem trabalharia na Fabray&Advogados… Ele está lá porque acredita que ainda será o dono. Quinn não tem filhos e tudo o que ela tem ficaria…” silenciou, antes de indagar, “por que eu daria para ele uma razão para tentar se apropriar do juízo e da vida de minha filha?”.
Rachel assentiu e tomou outro gole generoso do chá. Parecia que estava numa realidade alternativa. E, quando os olhos azuis de Judith Fabray se prenderam nela, com um brilho malicioso, ficou atenta enquanto escutava da sogra:
“Ela colocou você como tutora dela e dos bens?”.
Rachel perdeu a cor. E ficou entre incrédula e surpresa quando a mulher mais velha continuou:
“Quinn é muito boa em surpreender! Está tudo em seu nome, certo?”, parecia anestesiada pela dedução lógica, “agora eu entendo…”, apurou o olhar na figura estatelada de Rachel, “não é vingança… E nem memória. Ela só lhe pegou pela culpa e lhe fez de escudo contra os interesseiros de plantão”.
“Escudo?”, a cantora franziu o cenho.
Judith Fabray deu um meneio de cabeça e mais um de seus profundos suspiros antes de seguir:
“De verdade, eu não me importo com o patrimônio da minha filha. Ela paga as minhas contas e me permite receber uma quantia pela Fabray&Advogados, como pensão de Russel, que ela desconta de maneira imoral do salário e comissões do pai e, por isso, tenho minhas economias. Eu não ligo, mesmo, para o quão rica ela é. Na verdade, eu me sinto orgulhosa por ver o quão capaz a minha filha é quando deseja alcançar algum objetivo, ainda que você duvide disso… Todos duvidam de que eu me orgulhe de Quinn, ainda que eu me mantenha à distância. E, para a sua informação, ela não me tolera. Mas o Russel… Ele nunca conseguiu o que a filha que ele tanto desprezou conquistou. Senta-se como o grande César da Fabray&Advogados, satisfeito por Quinn não passear muito por lá. E Russel só não toma decisões insólitas porque Santana, apesar da relação conturbada com a Quinn, e Mary manterem-na a par dos fatos”.
A cantora sentiu um pequeno incômodo ao saber que havia uma mulher no escritório da esposa que lhe era de confiança, pois Santana não lhe incomodava. Mas, Mary?… Quem era ela mesmo? Mary… Arregalou os olhos ao lembrar:
“A secretária?”, a pergunta saiu surpresa. Mary era jovem e, apesar dos óculos de armação pesada, era bonita… Era linda, na verdade. Teria que saber mais sobre a secretária…
Não… Era melhor deixar essa ideia sem razão de lado. Talvez fosse bom deixar a Mary totalmente de lado… Por enquanto, talvez.
Aliás, por que estava se incomodando com isso?
“Seria bom se a Quinn confiasse mais em Santana… Talvez ela pudesse ocupar o lugar do Sr. Fabray…”, a voz de Rachel foi sumindo. Não sabia se deveria confiar na sogra.
“Santana…”, suspirou Judy, antes de continuar, “eu acho que o papel dela, no escritório, deverá ser o que ocupa o Russel agora. Eu concordo…”.
Rachel franziu o cenho. Judith Fabray estava de acordo com ela, Rachel Berry? Ou ela estava jogando? Por que Hiram e LeRoy não chegavam?
“Quinn não confia em Sant…”, murmurou a mulher mais velha, enquanto Rachel tinha todos os sentidos ligados nela, “digamos que não sobraram muitas pessoas que gostam da pessoa que a minha filha se tornou após o… O acidente”, completou, marcando a última palavra e tomando um pouco mais do chá. Observou que a cantora parecia pensativa.
Rachel ainda estava digerindo as palavras e a reação de Judith Fabray ao fato de ela ser a tutora legal de sua filha. Por que ela, Judy, estava tranquila? Ela poderia internar a Quinn… Ela poderia forjar uma situação, aproveitando-se dos brancos da filha, e metê-la num hospital psiquiátrico, alguns chamados agora de maneira mais doce de “centro de reabilitação”, e desfrutar dos luxos que a fortuna poderia conferir.
“Não…”, a negativa e o menear de cabeça da Fabray a obrigaram a focar a atenção no que passava na realidade.
“Não o quê?”, perguntou como se estivesse numa das aulas do McKinley e, ao fazer uma pergunta para o professor, escutaria Quinn fazer uma zoação que lhe magoaria. E não se importaria, porque ela só queria ser uma atriz famosa da Broadway e não importava o quanto Quinn lhe atormentasse. Ela seria famosa. E Quinn seria sua amiga! Não… Quinn seria o seu amor. Quinn era o seu amor. Sempre.
“Não é só isso”, a mulher mais velha repetiu, pensativa. E pensou alto, compartilhando sua racionalização com a cantora, “Quinn não teme o Russel. Ela sabe se resguardar dele, sempre o fez e continuará fazendo, mesmo com as personalidades alternativas aparecendo uma ou outra vez. Elas trabalham a conforme. Então, usar você como tutora e ‘escudo’ não tem base de sustentação enquanto argumento para justificar o casamento”.
Rachel não sabia se concordava. Aliás, ela aceitava que era a culpada de tudo e não entendeu o “a conforme” de Judy. Entrementes, nada a surpreenderia. Inclinou a cabeça e observou a sogra de maneira largada, notando o quanto as engrenagens dentro da cabeça dela funcionavam a todo vapor. Por que ela se importava? Se achava bom o fato de Quinn ter casado com ela, apesar de não fazer sentido, por que matutar a respeito? Era enervante! Todo mundo tinha uma teoria. E, para Rachel, só havia uma válida: revanche! Vingança. Simples assim. Ou não tomaria chá calmante com a sogra inesperada nesse momento!
Judy inquiriu como a cantora soube das personalidades de Quinn e escutou a narrativa da cantora, que omitiu os detalhes mais… “íntimos”. E Rachel soube que a Quinn gentil era chamada, na verdade, de Lucy Quinn.
“Eu não sei por que raios o Holmes não me telefonou”, reclamou Judith, “mas há algo acontecendo com a minha filha. E, para variar, você é o epicentro do abalo sísmico dela. Eu não quero falhar outra vez, entende? Quando vocês namoravam… Eu nunca aceitei de fato ela estar com uma mulher. Entretanto, eu nunca tinha visto a minha filha tão feliz como quando estava com você. Eu não estou feliz de estar aqui agora, olhando para você, Rachel. Eu culpo você pelo que a Quinn fez. E não me importa o que pensem os demais, ou se eu estou equivocada. Porque, certa ou errada, eu ainda acusarei você, sempre! Mas, infelizmente, isso é mais complicado do que parece. Eu não sei o que a minha filha viu em você. Por Deus, eu me pergunto todos os dias! O que a Quinn viu naquela garota? E eu me conformei que ela só amava! Ela amava você! Então, ela não via seus defeitos, suas ambiguidades, suas incertezas… E eu não fiz nada, porque ela não acreditaria em mim, porque o amor cega! E o amor de Quinn por você a cegou que ela não quis nada mais se você não estivesse junto”, respirou fundo, tentando não se emocionar, “minha filha só respirava por sua causa! E ela não aceitava que era um amor exagerado, doente. Mas, agora, após lhe escutar…”, respirou fundo e falou, magoada, “eu vou lhe tolerar por ela, por minha filha. Então, trate de ser mais cuidadosa dessa vez”.
Rachel piscou algumas vezes. Do que Judy estava falando? Sabia que errou com Quinn porque, de fato, se questionava sobre o amor dela, afinal, era Quinn Fabray e ela era só Rachel Berry. Jesse foi um erro de autoafirmação que lhe custou perder a única pessoa que amou e amava ainda em sua vida, de maneira irreparável. Quinn era a sua pessoa! Era o seu amor. Ficando com ela ou não, com Quinn aceitando ou rechaçando-a, este fato era irremediavelmente imutável. E lamentou levar tanto tempo para se dar conta. Mas, nunca o viu como “doente”.
Suspirou.
“Eu não estou entendendo”, confessou.
“Acredita mesmo que a Quinn só está com você por vingança? Pense mais, Berry” a mulher exigiu, com ar de suficiência.
A cantora não entendia muito agora. Estava confusa. Entretanto, se olhasse tudo o que Quinn fez após ser decepcionada, talvez a insinuação insana de Judith Fabray fizesse sentido. Ainda assim, olhou firme e falou da mesma forma:
“Eu lutarei por Quinn, independente do que esteja acontecendo”.
A mulher mais velha a filmou com atenção. Esquadrinhou toda a figura da morena, avaliando-a sem disfarce.
“E como pensa fazer isso? Se você me disser que Quinn consegue ser afetuosa com você, talvez eu lhe tenha um pouco de fé. Porque a Srta. M é cruel; Lucy Quinn não confia de fato. Se for levar esse casamento adiante, prepare-se para lidar com a prisão que pode ser este ‘acordo’ com minha filha e as personalidades dela”, verbalizou.
“Judy”, pela primeira vez a cantora chamou a sogra pelo primeiro nome, “eu não tenho muita escolha nessa união com a sua filha. Ela ainda está com a faca e o queijo nas mãos, porque é inteligente, calculista e tudo o mais que já sabemos. E eu não posso evitar ou proibir a entrada dela aqui em casa, porque eu não sei até onde isso pode ser melhor ou pior dado o fato de que outras personalidades habitam aquela mente. Eu estou andando no escuro, escapando aqui e ali das investidas da Srta. M, ou da indiferença de Quinn…”.
A loira suspirou e assentiu devagar.
A cantora murmurou, abatida:
“Uma coisa é certa em tudo isso: ela, de fato, não confia em mim”.
A mulher mais velha abriu a boca para argumentar, porém estancou ao escutar a voz de Quinn irromper pela sala, denotando mau humor:
“Mamãe Fabray!”, parou em frente a mulher que a observou. Judith notou que a filha estava mais delgada, o rosto mais encovado e o olhar irritado, porém não tão frio quanto esperava ver.
Quinn deu um suspirou aborrecido, antes de perguntar:
“O que está fazendo aqui?”.
Rachel observava a cena, estancada, confusa. Como a advogada foi parar ali? Como ela sabia que Judy estava em Nova Iorque? Ela não demonstrou surpresa ao encontrar a genitora ali.
Mirou Holmes que mexeu a boca em silêncio e ela entendeu o nome que ele usou de mímica para se fazer entender: Maria.
“Maria…”, murmurou bem baixinho. Maria avisou a Quinn… Mas… O que a loira fazia ali?
“O que faz aqui?”, soltou, com o cenho franzido.
A advogada meneou a cabeça e girou o rosto, fitando-a.
“Bom dia, Rachel”, cumprimentou com um sorriso, antes de fechar a cara e inquirir, seca, “o que acha que estou fazendo aqui? Uma visita de cortesia? Eu vim saber a razão pela qual ela veio até aqui, antes de mandá-la de volta para Lima”, informou, mexendo o indicador diante de Judy.
“Eu contei para ela”, Rachel avisou.
A loira mais nova franziu o cenho. O que Rachel contou? Do que estava falando?
“Contei que estamos casadas”, explicou.
Quinn não esperava por isso. Virou-se bem devagar para a judia e cruzou os braços em frente do corpo e esquadrinhou a face morena com olhos verdes-musgo atentos.
“Você contou para Judy que estamos casadas?”, queria ter certeza do que ouviu.
Rachel acenou com a cabeça e confirmou verbalmente:
“Contei… Este é o objetivo, certo? Todos saberem e tentarem impedir isso legalmente e irmos aos tribunais e toda o aborrecimento e desgaste emocional que isso terá, além de envolver o meu nome numa trama onde eu me aproveito de você após lhe ser infiel”.
Quinn estreitou os olhos antes de exclamar, achando tudo muito engraçado:
“Uau!”.
“Não é engraçado, Quinn”, Rachel estava magoada.
A loira espetou, maliciosa:
“Seria um bom roteiro para um drama, se você fosse boa em teorias. Essa foi a história mais tonta que já escutei”.
A cantora viu a esposa se voltar para Judy com muita confusão. Qual era o objetivo do casamento?
“Acho que ela está testando você”, a loira mais velha informou para a cantora, que ainda estava alienada em tentar racionalizar Quinn.
“E pensar que faltei à terapia para lhe ouvir falar asneiras, Judy”, a advogada meneou a cabeça em advertência e ordenou, “levante-se e vamos embora. A Berry não precisa de sua visita. E nem eu”, informou.
“Por que se casou com ela?”, Judith teimou.
Rachel ficou assistindo à cena, curiosa. Embora, para ela, “vingança” era “a palavra”, queria entender melhor o aparente rechaço da esposa diante de sua história.
“Por que não me casar com ela?”, a loira mais nova devolveu a pergunta, pensando que aquilo poderia ser mais difícil do que idealizou.
“Por que ela lhe traiu? Por que você tentou se matar por isso?”, a matriarca Fabray deu alguns motivos.
Quinn a mirou com enfado, antes de retorquir:
“Quantas vezes terei de repetir que não me lembro disso. Que isso é irrelevante?”.
“Porque para mim, neste momento, a irrelevância disso é o que me faz duvidar de suas razões. Eu só quero uma razão lógica para entender”, a mulher mais velha insistiu.
A advogada rolou os olhos. Judy era muito topetuda se achava que lhe daria alguma explicação sobre o que fazia ou deixava de fazer:
“Eu acho que você chegará atrasada para o bingo do meio da semana hoje, se continuar aqui. Eu lhe farei o favor de dar uma carona até o aeroporto e lhe acompanhar ao portão de embarque, para evitar que você se perca”.
Judy suspirou. Argumentar com Quinn parecia ser perda de tempo. Mirou-a nos olhos, com preocupação e perguntou:
“Apenas me diga que você sabe o que está fazendo, Quinn”.
A advogada suspirou e, mantendo a expressão mais neutra possível, assentiu:
“Sim, mamãe. Eu sei o que estou fazendo. Você deseja ver alguém mais além da Berry antes de eu levá-la ao aeroporto e despachá-la?”.
“Não”, a mulher respondeu e se ergueu. Parou em frente a filha e tentou um movimento para abraçá-la, mas a advogada desviou-se e a olhou com desagrado. Judith guardou o gesto e mirou Rachel. Caminhou até a judia, que se levantou com cuidado e desapontada por Judith desistir de enfrentar a filha. Foi tomada de surpresa pelo abraço da loira mais velha.
“Cuide dela… E seja paciente… Eu acho que as personalidades estão testando você, Rachel… E talvez ela, mas ela não sabe… É inconsciente, entende? Por favor, seja sincera… Não a machuque mais”, pediu num sussurrou que arrepiou os ossos de Rachel. Ela escutou direito? Judith Fabray estava lhe dando sua bênção? Pior: ela achava que Quinn a amava?
Definitivamente o mundo não estava girando em sua órbita habitual. Algo deveria estar fora de lugar.
“Vamos, Judith! Meu tempo é curto e a minha paciência é ainda menor”, Quinn cuspiu com uma raiva que dançava na tonalidade da voz grunhida em ondas como se fossem de fumaça, atravessando e adentrando as suas narinas, causando mal estar.
A mulher se soltou de Rachel e se virou para a filha. Sustentou-lhe o olhar arrogante e iracundo.
“Está com raiva porque não consegue entender a razão coerente pelo qual se casou com Rachel”, falou.
Quinn literalmente bufou como se fosse um touro diante de seu toureiro com uma capa de vermelho reluzente.
“Não teste a minha paciência, mamãezinha querida”, murmurou de maneira fria, mas o olhar não era frio. Era uma raiva segura com muito esforço. E Judith pensou que talvez não fosse bom que esta se rompesse justo agora…
“Judy!”, Hiram sorriu, aparecendo em companhia do esposo e surpreendendo aos visitantes, que não os esperavam ali.
Rachel sentiu alívio.
“LeRoy! Hiram! Que bom que vocês estão aqui…”, Judith mirou os homens, também com alívio disfarçado no sorriso, enquanto via sua filha respirar fundo e empalidecer, porém permanecer de pé, rija, sustentada pela muralha que a Srta. M construiu em torno dela por causa do medo de ser ferida outra vez por Rachel Berry. E ainda assim, cega pela não aceitação do que para ela, Judith Fabray, parecia muito claro: o amor que restou por Rachel, onde a lembrança da traição jazia no esquecimento e era um peso morto neste caso, empurrava-a lentamente para os braços da mulher que a levou ao desajuízo!
Ela padeceria até aceitar este fato.
E levaria Rachel Berry nesta viagem de dor.
“Hiram, LeRoy”, Quinn cumprimentou os homens, polida e mais equilibrada, entretanto, louca para ver Judith pelas costas. Ela foi abraçada pelos homens, um a cada vez, e não escondeu o que foi fazer ali:
“Eu soube que a minha querida mãe entrou na rua equivocada e veio parar aqui por acidente e vim para reparar o engano”, respirou fundo, a fim de conter o incômodo que aquilo lhe causava, que a presença de Rachel lhe fazia sentir.
A cantora ainda estava tentando acalmar as batidas do coração que estava como se ela estivesse em uma prova de circuito muito forte.
“A nossa estrelinha quase não tem tempo de ir até Lima, assim que a visitamos sempre que possível. E, após o divórcio e o falecimento do Jesse, estamos tentando ser mais presentes”, Hiram informou, sorridente, apesar de sentir que rolava uma tensão no ar.
“Rachel sempre foi afortunada em tê-los”, Judith foi gentil, sabendo que não mentia. Uma sorte que, por sua omissão e o jeito reacionário de Russel, sua filha caçula não teve.
“Então, Judy”, Hiram voltou a se dirigir à matriarca dos Fabray, “o que a fez sair de seu retiro em Lima e vir parar na Big Apple?”, sorriu, direcionando-a para o sofá, onde a mulher, agradecida, sentou-se e cruzou as pernas de maneira elegante. Ela levava um pulcro conjunto de calça e blusa que a deixava com uma bela figura. Os cabelos presos num coque austero imprimiam um toque a mais de bom gosto ao bem cuidado visual da mulher.
Quinn rolou os olhos. Os Berry e Judith iriam se pôr em dia? Tricotariam e falariam, inclusive, sobre a sua vida com a Rachel, além de saberem sobre os últimos acontecimentos de Lima? Bufou e olhou para Holmes, que apenas meneou a cabeça e ergueu e abaixou os ombros, demonstrando que seria complicado para ele tirá-la dali com Judy a tiracolo.
Rachel mirou a esposa e, respirando fundo em busca de coragem, levantou-se e foi até ela. Tomou-lhe a mão entre a sua e sentiu o peso da confusão do olhar de Quinn açoitá-la no peito. Entrelaçou os dedos e falou, em tom baixo e afetuoso:
“Acho que você já perdeu a sua consulta com a Dra. Parker. E eu sei que a presença de Judy lhe incomoda. E também sei que entre o incômodo de estar comigo ou com Judy, eu sou a sua primeira escolha de menos pior…”, sorriu quando a loira ergueu a sobrancelha direita, “eu gostaria de sugerir, claramente me aproveitando dessa situação, a ficar comigo em outro lugar, enquanto os ‘adultos’ ficam tricotando sobre as nossas vidas”.
“Não somos adolescentes, Rachel”, ponderou, sentindo como os dedos da cantora estavam frios. A judia não sabia o que sentia no momento. E Quinn ainda piorou ao sentenciar, lógica, mas sem tato algum:
“Devemos rebater qualquer ideia equivocada que façam a respeito da nossa relação. Temos um acordo e não acho que eles devam estar a par. Nenhuma das partes deve saber que eu e você somos nada além de um contrato de casamento”.
Rachel sentiu a punhalada no coração, e sabia que ele sangraria, e que o sangue coagularia fechando a ferida com uma casca seca e ela continuaria vivendo com a cicatriz que a casca deixaria após cair:
“Okay… Então, vamos nos juntar a eles”, soltou a mão da loira e percebeu como ela observou a ação com um franzir de cenho. Caminhou para perto do pai que sorriu e a abraçou, beijando-a nos cabelos.
Quinn fechou inconscientemente a mão que perdeu o contato com a fria da esposa e avaliou a cena. Rachel lhe pareceu tão amada, tão querida. Até Judy parecia à vontade com ela. Por quê? E por que ela, apesar de todo esse amor, parecia-lhe triste? Judy a magoou? Mas, se a magoou, por que interagiam, embora Rachel estivesse mais retraída? Sentiu vontade de abraçá-la, porque alguma coisa lhe martelava que apenas o seu abraço seria capaz de tirar a tristeza dos olhos dela. Uma loucura sem razão. Entretanto, também sentia que isso seria confortável e prazeroso para o seu corpo. Seria aconchegante e agradável como um cobertor a lhe aquecer no inverno. Saber disso era muito estranho, e ela poderia ficar dependente de Rachel Berry, como uma adicta às drogas. Já era demais perder a consciência e saber que sempre era trazida a Rachel pelas personalidades alternativas, que eram culpadas por ela, agora, sentir a fissura do querer um abraço de Rachel Berry. Um abraço aconchegante e que não era pertinente.
“Deus me ajude…”, murmurou, e sentou numa poltrona solitária, enquanto não tirava os olhos de sobre a judia.
“Rachel me contou que ela e Quinn se casaram”, Judy comentou, atraindo a atenção surpresa do casal Berry que assentiu em sincronia.
“O que pensa a respeito?”, Hiram sabia que este não era o desejo da mulher Fabray, entretanto, estavam sob circunstâncias que, parecia, Quinn e suas outras personalidades manejavam.
“Com todo respeito, Sr. Berry”, a advogada tomou a palavra, procurando ser branda, “este é um assunto que diz respeito a mim e a sua filha. Uma decisão tomada por nós duas…”.
“Não, Quinn”, Hiram a desmentiu, sério, “você tomou a decisão e acossou minha filha para que ela assinasse um contrato que sequer teve condições de ler”.
A loira sabia que aquelas eram acusações sérias e, mirando Rachel, que a olhava com insegurança, falou com um sorriso jocoso nos lábios:
“Esta não é a verdade”, afirmou e fez a mandíbula de Rachel desencaixar.
“Como esta não é a verdade? Quinn!”, a cantora se manifestou.
A advogada justificou sua visão dos fatos:
“Por que eu acossaria a pessoa que me ama para demonstrar que confio nela? Por que eu entregaria a minha vida nas mãos de alguém que me ama se eu precisasse forçar para isso? Seria incoerente”, sorriu jocosa e perguntou com os sentidos atentos, “e, Rachel, você me ama, certo?”, indagou.
A cantora estava incrédula. Escutou Quinn repetir que a amava e ainda perguntar, despojada, sem culpa e direta, se ela, Rachel, a amava? Que descarada! Sabia que nunca mentiria a respeito disso…
“Amo, Quinn… Eu amo”, confirmou, sincera. “Mas isso não lhe dá o direito de se aproveitar da situação e me enfiar em situações que me magoam ou confundem”, foi sincera como Judy disse. Esperava que a sogra estivesse certa, ou contrataria um matador profissional para apagá-la em pleno voo de volta para casa e jogasse o corpo do avião no meio de um nada entre Nova Iorque e Ohio.
“Poderemos discutir isso depois, Rachel”, falou, em tom professoral, “eu acho que aqui não é hora e nem lugar para uma discussão de casal. Deveremos sempre fazer isso em particular. Não é bonito, e nem agradável”, considerou, “e se eu me lembro, temos um encontro marcado para hoje, após sua apresentação. Não acho que você queira que eu perca a vontade de ir…”, sorriu, num suspiro vencedor.
Rachel meneou a cabeça.
Quinn jogava tão sujo! Quase como a Srta. M.
Judith, literalmente, estudou a filha, que tinha um olhar divertido sobre a figura de Rachel. E reforçou em voz alta:
“Você a ama, porém está tão atordoada que não consegue se dar conta”.
A advogada mirou a mulher e meneou a cabeça em negativa:
“Não, mamãezinha. Eu estou atordoada com a conversa de vocês”, olhou os Berry, “eu respeito os senhores, mas essa coisa de ficar falando sobre a vida alheia me aborrece. É um tempo morto. Então, seria pertinente e justificado que vocês se despedissem da Sra. Fabray para que eu a leve daqui. Por gentileza”.
Ficaram sem ação, enquanto a loira, sentindo a cabeça dar pontadas, colocou-se de pé e lançou um olhar seco para eles.
“Certo, Quinn”, LeRoy, médico, pensou que a impaciência de Quinn poderia ser uma tentativa dela de se manter lúcida e, movido por essa perspectiva, concordou com ela e esqueceu que ela os chamou de fofoqueiros de maneira educada.
A advogada acenou um agradecimento polido com a cabeça e lançou um olhar para Judy.
Nenhuma palavra mais foi dita.
Holmes sabia o que fazer: caminhar para fora e, seguido de Quinn, que seria seguida por Judy, entrar no carro e conduzir para o destino estipulado pela patroa, que não seria discutido ou contrariado por nenhuma das partes.
Os Berry sabiam que deveriam deixá-los ir.
Rachel torcia para que Quinn não desistisse do encontro delas nesta noite.
“Diga-me que o seu doce amor não morreu
Dê-me
Dê-me mais uma chance
Para deixá-la feliz
“Pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito
Eu simplesmente nunca encontrei tempo
Você sempre esteve em minha mente”.
— Always On My Mind com Elvis Presley -
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