Sine Cordi

86 CAPÍTulo 86 - םו


Notas iniciais
Se eu começar me desculpando, será o mais do mesmo. Então, apenas espero que não seja ruim. ;)

Eu gostaria de lhe atar sob meus sapatos

Fazê-la se sentir feia também

Disseram que eu era bonita

Mas, o que isso significa pra você?

Olhe no espelho. Quem está lá dentro?

Aquela de cabelos longos

A mesma velha eu novamente”.

— I Feel Pretty/Unpretty by Glee Cast

Assim que a porta do carro bateu e Holmes o colocou em movimento, Judy, sentada ao lado da filha no banco traseiro, mirou-lhe o perfil com acuidade. E buscava encontrar algum sinal do que fez sua filha e suas personalidades irem ao encontro da mulher que a levou a se perder.

“Quinn”, chamou, com preocupação no tom de voz.

A loira se fez de surda. Não queria responder a pergunta alguma de Judy sobre uma situação que, sabia, tentava controlar e, ainda assim, via fugir de suas mãos.

“Quinn, apenas olhe para mim…”, pediu a mulher mais velha, “eu só quero ver o seu rosto. Por favor, Quinnie…”.

“Eu odeio que me chamem de Quinnie”, murmurou acidamente e continuou a olhar para a nuca de Holmes.

“Quinn, não seja tão mal criada!”, suplicou. “Eu sei que você não gosta de dar satisfação sobre o que faz da sua vida…”.

“Que bom que se lembra disso!”, foi seca.

“Por isso, eu só quero olhar para o seu rosto”, Judith só queria saber o que mudou! Viu que o olhar de sua filha não era mais tão frio. E sabia que isso se devia a presença de Rachel Berry, a pessoa que poderia desordenar o que estava ordenado.

“O perfil está de bom tamanho”, a loira retorquiu em tom cortante, querendo que Holmes pudesse fazer o carro voar, enquanto sentia a mirada de Judy sobre seu rosto.

“Cristo!”, bufou a Fabray mais velha, “você é tão teimosa e ditadora que a Rachel terá que arrumar uma maneira de comprar paciência para aguentar o seu humor de cão”, voltou o olhar para a frente, frustrada por não ter a força necessária para obrigar Quinn a olhá-la.

“As suas ponderações sobre este assunto são irrelevantes, mamãe”, respondeu sem se deixar dobrar. O que Judith pensava fazer? Bancar a mãe? Bancar a sogra? Muito engraçado… “E fique longe de Rachel e não fuxique sobre a minha vida com ela através dos Berry”, achou bom advertir.

A mulher mais velha sentiu o queixo desencaixar e, ainda sob o efeito de a filha chamá-la (e também aos Berry) de fofoqueira, mirou-a estarrecida.

“Eu não fico falando da vida alheia”, informou, agora realmente aborrecida.

“Sei… Lima é a cidade encantada!”, exclamou a advogada, trocista. “Lá, os passarinhos sopram seus ‘pius-pius’ nas orelhas dos habitantes e eles entendem, pois falam a língua dos pássaros. Faça-me rir, Judith”, açoitou sem perdão, no seu tom mais ácido.

O fato foi que Judy não conseguiu refutar a filha e se deixou levar de volta para Lima, sabendo que, ainda que a contragosto, teria que dar algum suporte para Rachel. Era complicado, ainda, aceitar o que empurrava sua filha sempre em direção da Judia, mesmo com a amnésia. Mas, era um fato: Quinn, contra toda a lógica reinante, envolveu-se com a mesma mulher errada outra vez, contra todas as opiniões e apostas, inclusive dos simpatizantes da tentativa de Rachel reconquistar Quinn e do tratamento doloroso que a loira mantinha junto à Dra. Parker, a fim de unir as personalidades. O mínimo a fazer era tentar ajudar a cantora a lidar com as outras Quinn’s, porque, reconhecendo ou não, sua filha caçula era um pacote. Quase uma promoção de supermercado, como lhe disse uma vez a Srta. M ao informar que ela, Judith, era mãe de quatro lindas garotas: Francis (sempre a primogênita!), Quinn, Lucy Quinn e M. E não mentiu. Uma era distinta da outra e como mãe, não foi complicado distingui-las, inclusive quando a Srta. M tomava o lugar de Quinn e zombava de Russel. Ele nunca se deu conta. E nem Frannie… Curioso a desatenção que se pode encontrar dentro da própria casa, analisou. Apenas ela, e Rachel (sempre a Rachel), eram capazes de distingui-las. E soube que, pela conversa que tiveram, a cantora estava a pagar o seu quinhão. Primeiro, por que Quinn não fazia ideia do que sentia justo agora em relação à cantora. Segundo, Rachel estava estupidamente convencida que a razão que movia as ações de sua filha era a vingança. Principalmente se a Srta. M estivesse envolvida no meio. Sabia que não seria fácil lidar com esta personalidade alternativa de Quinn, mas não era impossível. E, ainda que sua intuição de mãe soubesse que (Oh, nefasta dor!) Rachel Berry saberia exatamente como lidar com a situação, por que não ajudá-la um pouquinho, se isso significava ajudar a Quinn? Afinal, alguém precisava entender o que estava realmente acontecendo. E sabia que a loira não lhe escutaria. Assim, restava Rachel, que – sabia – mesmo sob todas as prováveis dúvidas, ainda ouviria. E, esperava, pudesse perceber que não era a vingança que estava movendo sua filha. Era somente ela mesma, Rachel, adormecida, mas latente dentro da mente de Quinn. E Quinn era daquele jeito: ela agredia quando se sentia ameaçada por alguém. Ela sempre se sentiu ameaçada pela Berry. E agora, ela inconscientemente repetia o que antes fazia com banhos de raspadinhas.

E um pensamento, um dito comum, daqueles que passam de boca em boca, saídos lá dos confins do tempo, veio-lhe à mente quando pensou em como era, de fato, inevitável que Rachel e Quinn se encontrassem. E que haveria consequências.

Murmurou, num suspiro:

“O que Deus risca, ninguém rabisca”.

A minha aparência é legal

Por dentro eu sou triste

Todo tempo eu penso o que estou ao meio

E isso é por causa de você”.

— I Feel Pretty/Unpretty by Glee Cast

Este foi um dia de ansiedade para Rachel, porque, desde que Judy pôs os pés para fora de seu apartamento, tinha dúvidas sobre se Quinn teria condições de honrar o encontro. Por mais que ela se debatesse com essa possibilidade, sabia que deveria ser um momento difícil para a loira. Principalmente depois de escutar de seu pai, LeRoy, que, segundo uma teoria que ele criou após observar o comportamento de Quinn, ela estaria – possivelmente – tentando impedir que alguma coisa mais séria acontecesse e a mãe fosse testemunha. Sabia que se as personalidades resolvessem aparecer, a loira não poderia impedir, então compreendia que havia outra razão para o incômodo e a ansiedade da advogada em ver Judy pelas costas. Talvez uma crise forte de dor de cabeça que ela tentou controlar para não se mostrar fraca e que poderia explicar o humor ácido que levava neste dia, entre outros fatores que o médico achou por bem não expressar a fim de não alargar a preocupação de sua filha. E um pensamento, dos muitos que ela teve, tomou-a: ainda havia o mau humor de Quinn a ser somado para desanimá-la um pouco mais sobre a realização ou não desse encontro.

Quinn foi e voltou várias vezes. As personalidades apareceram e ela esteve meio desnorteada durante parte do dia, e saia a procura de algum calendário e relógio dentro de casa, a fim de se situar no tempo e no espaço, pois ora estava no quarto, ora no escritório sem saber em que momento foi de um para outro, tentando entender o quebra-cabeças que a Srta. M parecia montar junto com Lucy Quinn com pequenas observações que fazia nos lugares onde voltava à consciência. E não era fácil.

Suspirou cansada e se jogou na cama macia. Estava exausta! E confusa. Sabia que as idas e vindas de suas personalidades se deviam ao encontro que prometeu para Rachel. Por mais que desejasse que a “relação” que estava mantendo com a cantora fosse como a que mantinha com Santana ou qualquer outra pessoa de seu passado olvidado, não poderia negar para si mesma que ela foi importante. E, mesmo sabendo que ela lhe foi infiel e que não gostava de infidelidades, havia uma coisa que sempre a protegeria de qualquer pessoa que tentasse se aproximar: a desconfiança. Nunca deixou de ser vigilante quanto as pessoas, e não deixaria de ser com Rachel Berry. O que não impedia que pudesse deixá-la se acercar. Queria saber o que movia aquela mulher, queria saber daquele amor que ela lhe jurava e espalhava para as pessoas que a questionavam, embora o tivesse traído. Era como se tivesse abraçado uma causa. Nunca descartaria, também, o fato de que Rachel era uma atriz. E atrizes interpretam papéis. Talvez ela só estivesse interpretando… Mas… Por quê?

“Sem lógica, Fabray…”, murmurou para si mesma. Seria arrependimento, culpa? A culpa seria tanta que ela, a própria Rachel, não conseguia se perdoar?

“Muita coisa, muita coisa…”, murmurou, tentando controlar o fluxo de pensamentos, enquanto era bombardeada por fragmentos de imagens relacionadas a cantora: viu-se sentada com Santana e Britt no ginásio do McKinley, enquanto comentava um vídeo de uma página… Não lembrava o nome da página… Era como se o nome e a logo da página estivessem borrados. Rachel cantava no vídeo, enquanto ela, com o notebook sobre as pernas, fazia comentários pouco afáveis sobre a judia. E ria dos comentários e de Rachel.

Rachel encurralada por ela contra os armários do McKinley… Por que razão? Ela encurralando Rachel contra uma porta e tomando-a num beijo excitado…

“Oh, meu Deus…”, deu pequenos tapinhas na testa, a fim de fazer parar aquelas imagens que a atordoavam e confundiam. Ela amava e odiava Rachel? Isso era tão louco! Era desconforme e… Será que Judy teria razão? Rachel teria que ser muito paciente para aguentá-la?

“Sem lógica, Fabray… É só um contrato…”, murmurou e respirou fundo, sentindo-se sonolenta, ao passo que a mente lhe despejava imagens que, agora, pareciam oníricas, porque eram pequenos pedaços, de distintos momentos, com distintas pessoas e com Rachel… Todos com Rachel… Como se ela fosse a protagonista… Adormeceu.

Holmes foi verificá-la várias vezes e não percebeu quando as personalidades estavam presentes ou não e, de alguma maneira, quando bateu à porta da suíte e Quinn não respondeu, ele apenas entrabriu a porta, e sentiu alívio quando a viu profundamente dormida. Desejou, muito, que ela acordasse de bom humor e com disposição de ir até Rachel. Talvez as coisas pudessem encontrar algum eixo, mesmo que o equilíbrio deste fugisse um pouco do grau de inclinação admitido.

Mas é sempre a mesma coisa

No final do dia

Ainda sou eu a culpada

Eu só estou viajando”.

— I Feel Pretty/Unpretty by Glee Cast

Rachel mal podia acreditar que estava diante de Quinn, a espera de uma xícara de chá e seu lanche vegetariano naquele café perto do Central Park que a loira tinha o hábito (ou seria alguma obsessão?) de ir sempre que saia por uma bebida quente. Sabia que a escolha da advogada pelo local foi porque dessa maneira dava ao encontro um ar menos formal que um jantar, por exemplo.

Quinn um dia a convidaria para um jantar? Guardava essa ilusão. Era difícil, ainda, acreditar que, após a manhã agitada que tiveram, e do estresse que a presença de Judy trouxe, a advogada acabou por fazer valer sua palavra e foi buscá-la no teatro, após mais uma exitosa apresentação de The Beauty And The Beast, a qual – claro – a advogada não assistiu.

A loira, tesa, mirava ao redor, achando o lugar cheio para a hora. Quase meia-noite e não era final de semana. Os moradores da Big Apple pareciam ter um estranho romance com a noite, pensou.

“Quinn?”, a judia a chamou, pois a garçonete entregava seus pedidos.

A advogada voltou o olhar para a cantora e, depois de ouvir uma voz que ela notou ser da moça do serviço a lhe servir a xícara de chocolate quente que pediu, atentou para o momento e suspirou, lembrando da visita de Judith e desejando mantê-la à borda de sua relação com Rachel.

“Você está muito desconfortável?”, a cantora perguntou, levando um tomate-cereja, que fazia parte da refeição ligeira que pediu, à boca.

A loira ia responder, mas os movimentos da morena, a maneira displicente e graciosa com a qual ela entreabriu os lábios e pôs o fruto entre os dentes para depois começar a mastigá-lo, atraiu-a e fez com que sentisse como se estivesse em algum estado delirante…

Sorriu. Adorava a maneira como Rach mordia o lábio inferior quando percebia que era observada por ela tão fixamente.

“Quinn! Para de me olhar assim!”, pediu, com as bochechas ganhando um tom carmim.

Assim, como, Rach”, perguntou, desejando ser ela a morder os lábios da atriz e sugá-los e

“Quinn?”, a voz de Rachel a fez piscar algumas vezes, mas sua voz parecia tão longínqua, pois a mente ainda estava presa em algum tipo de viagem.

Beijá-los até quase a morena desfalecer em seus braços. Adorava a compleição pequena de Rach, apesar da diferença de altura entre uma e outra ser de apenas sete centímetros, mas ainda era mais alta e tinha mais cinco quilos, e era mais forte por causa dos treinamentos a que se submeteu para ser cheerleader. Eram vantagens que não dispensava para erguê-la nos braços, ou apertá-la contra uma parede quando queria um beijo roubado e deixá-la sorrindo, porque sabia que Rachel amava isso nela.

“Quinn, você está bem?”, a preocupação era palpável na voz da cantora, porque a loira olhava seus lábios com a mirada perdida, “Quinn!”, chamou mais firme e passou a mão diante dos olhos da advogada que piscou e meneou a cabeça devagar, como se tentasse retornar de algum lugar longínquo que a mantinha cativa.

“Quinn?”, insistiu Rachel, mais preocupada.

A advogada a mirou, deslocada. O que Rachel fazia diante dela? Aliás, estavam num café? Não estavam num café antes… Mas também não sabia onde estavam antes. Não lembrava que lugar era aquele onde estavam.

“Onde estávamos?”, perguntou para a morena, que franziu o cenho sem saber a que a esposa com expressão aturdida se referia.

“Acabamos de ser servidas, Quinn. Estamos no café do Central Park… E não falamos muito desde que chegamos, até você ficar me olhando como se…”.

“Não aconteceu?”, a loira ainda estava perdida entre a realidade e o que não sabia se era uma recordação ou parte de algum sonho. “Eu só fiquei olhando pra você?”, murmurou, sentindo que talvez o que viu foi algum fragmento de lembrança. Uma estranha lembrança, como se fosse de uma outra vida, muito diferente dessa que vivia agora. Mas não falaria a respeito. Eram só fragmentos… E fragmentos nunca foram relevantes antes… Não tinham lógica de ordem temporal ou coisa parecida. Eram só imagens soltas.

“O que não aconteceu?”, a cantora perguntou, atenta ao comportamento da esposa.

A advogada levou a mão à testa e a esfregou devagar, apenas com os dedos, tentando se situar. Estava com Rachel… No café do Central Park… Só conversando…

“Dor de cabeça?”, era o que menos Rachel, preocupada, desejava no momento, entretanto tinha a impressão que não teria sorte. Parecia que a resistência de Quinn a ela era tão grande que até chegava a adoecê-la. “Quer que eu chame o Holmes?”, perguntou, decepcionada.

A loira percebeu a tonalidade entristecida na voz da cantora e se endireitou no lugar e parou de esfregar a testa, negando a dor de cabeça e garantindo que estava bem, embora estivesse de cabeça para baixo por dentro. Recobrou-se um pouco e olhou a morena a frente, e adotou a pose do “por que deveria apaziguar a Berry?”. Afinal, ela era bem grandinha para entender que… Não. Rachel não era grande o bastante, e nem forte o bastante. Ela não sabia, não fazia ideia de como esses fragmentos deixavam a ela, Quinn, aturdida, sem saber a profundidade dos sentimentos deles ou o que de fato significavam. Esta era a verdade que calou.

“Tem certeza, Quinn?”, a voz preocupada de Rachel a fez assentir.

“Estou bem e eu sou Quinn Fabray”, achou importante que a cantora soubesse que, apesar do estranho momento, ainda era ela ali e não uma das outras personalidades.

Rachel sorriu de maneira tonta e mordeu o lábio inferior, porque achou gentil o fato da loira lhe informar quem era, enquanto via os olhos verdes dela escorregarem para sua boca e ela ficar, outra vez, atordoada e meio alheia. Por que Quinn parecia estranha?

A advogada puxou o ar e soltou:

“Eu só estou lhe assegurando que…”, a imagem dela e Rachel nuas numa cama a açoitou e mareou. O que estava acontecendo?

“Quinn…”, a pequena morena murmurou o nome dela e lhe segurou a mão que estava sobre a mesa e aproximou seus rostos, a fim de examiná-la e saber o que havia de errado, “você quer ir para casa? Eu entenderei… Talvez você precise descansar”.

A advogada balançou a cabeça em negativa, asseverando que estava bem. E seus olhos casaram com os preocupados da cantora e ficaram presos, juntos.

Rachel procurava sinceridade em Quinn sobre como se sentia.

Quinn procurava a mesma coisa em Rachel. Ela estava mesmo preocupada? Por quê? Porque teimava que ainda a amava? Será que amava?

A mão dela sobre a sua a fez querer entrelaçar os dedos, porque ela estava tendo sonhos recorrentes e neles sempre entrelaçava os dedos de sua mão com os de outra mulher sem rosto, e a sensação era aconchegante e segura. A mulher de seu sonho seria Rachel? Não! Não poderia ser porque… Por que não? Estava muito confusa agora e achou melhor empurrar para longe essa lembrança do sonho. E, também, seria bom manter uma certa distância de Rachel, porque ela, neste instante, parecia fazer pipocar algumas imagens em sua cabeça que não sabia se eram ou não reais. Assim, liberou sua mão da mão morena.

Sentiu um frio que há muito lhe era indiferente.

“Desculpa”, a judia se afastou um pouco decepcionada, “eu só estou preocupada”, justificou-se.

Quinn a olhou enquanto voltava atrás em seu assento e tomou um gole do chocolate que perdera sua qualidade de quente, porque já estava há algum tempo sobre a mesa e sem ser tocado, limpou a garganta e, ainda sem saber o por quê, falou:

“Eu estou bem, Rachel. Eu só estou…”, não sabia que termos usar para explicar que estava tendo visões com certo conteúdo romântico e erótico entre elas, “acho que o remédio me deixa lenta e meio catatônica”, soltou, pensando que era mais inteligente e poderia formular uma mentira melhor.

“Quinn…”, a cantora não acreditou.

“Eu sei…”, deixou a xícara com chocolate sobre o pires na mesa e suspirou, aborrecida, “não faz sentido”.

A cantora concordou, entre séria e preocupada, balançando a cabeça para lá e para cá reforçando o “não” da fala da esposa.

“Por que não tentamos de novo?”, propôs a advogada, embora desejasse sair correndo dali, porque as imagens dela e de Rachel se beijando iam e vinham e a faziam ficar incomodada, porque quase podia sentir o quão macios eram os lábios dela. E a língua era morna, úmida e…

“O teatro encheu?”, fez a primeira pergunta que lhe apareceu num tom que indicava incômodo, menos curiosidade real e Rachel sorriu, porque a loira não parecia aquela mulher fria e distante. Parecia distante sim, porém atrapalhada, confusa. Por quê? Quis perguntar, mas não sabia se era uma boa hora. Já era muito estarem dividindo um instante que poderia ser interrompido ou pela própria Quinn, se resolvesse que estavam em meio a uma bobagem infundada e ir embora, ou por uma das outras personalidades, se aparecessem.

“Encheu… O teatro encheu”, respondeu, observando a esposa e como ela sinalizava para a moça do serviço e pedia um café quente, forte e puro.

“O chocolate está quase frio”, a loira justificou para a cantora, bebendo um gole do líquido frio e, após uma cara de desagrado, deixá-lo de lado.

“A temporada está esgotada”, a cantora prosseguiu, percebendo que Quinn não colocava a atenção sobre o que ela dizia, mas parecia muito fechada agora, como se estivesse lutando consigo mesma e presa em pensamentos. Era tão frustrante! Bem como lhe disse a Srta. M: Quinn seria errática e fria.

“Na verdade”, a voz da loira, dessa vez segura, chamou-lhe a atenção de suas próprias elucubrações, “eu não gosto de musicais… Nem mesmo o Fantasma da Ópera”.

“Oh!”, foi o que Rachel conseguiu expressar. Primeiro, porque a loira pareceu sair do mundo das ideias de um salto e, segundo, sabia que era verdade e que a esposa não estava tentando ser desagradável. Ela apenas foi sincera… E desagradável! Por que ela não gostava de musicais? A antiga Quinn gostava… Ou será que só o fazia para agradá-la? Não! Quinn gostava.

“Posso saber a razão?”, indagou, pensando que havia encontrado um tema de conversação que permitisse que o encontro não terminasse em nada com coisa nenhuma.

Quinn franziu o cenho. Por que ela não gostava de musicais? Por que eram chatos? Por que eram histórias cantadas com uma orquestra de acompanhamento? Por que lhe davam sono? Nunca pensou sobre isso de fato.

“Porque não gosto…”, confirmou, “não sei a razão. Quando começam eu mudo o canal se for na TV ou, se estiver num teatro, embora eu saiba o quão é deselegante, eu durmo, mesmo não querendo. Bate um sono que eu não sei explicar… Embora eu aprecie a ópera… Mas também não vou muito. Você não tinha uma pergunta mais fácil?”, inquiriu e pensou que estava falando demais. Entretanto, não queria ser grosseira com Rachel. Passou a mão pela nuca, sob os cabelos longos soltos e arrumados de maneira natural e voltou a verbalizar:

“Eu não tenho, realmente, uma explicação lógica para o fato de não apreciar os musicais da Broadway, Off Broadway… Eu só não gosto. Do que você não gosta?”, pensou que fazer perguntas poderia ser melhor que recebê-las.

Rachel sorriu e meneou a cabeça. Do que não gostava? Havia muita coisa que não gostava. Mas expressou apenas uma:

“Eu não gosto do que eu lhe fiz…”.

A loira a mirou muda. Não queria que a conversa caísse nesse tema. Era cansativo, aborrecido e não poderia ser mudado. Por que Rachel insistia?

“Acho que falar disso não será bom para nenhuma de nós. Eu não consigo me lembrar… E, mesmo sendo consciente de que aconteceu, neste momento, para mim, Quinn Fabray, não faz diferença. Talvez faça para as outras personalidades, ou para as outras pessoas, mas não para mim…”, encolheu os ombros, num claro “tanto faz”. Continuou:

“Entretanto, para você, que insiste nisso, parece que o fato de ficar o tempo todo repetindo que se arrepende poderá mudar o que foi feito. Eu sei que estou tendo essas crises de múltiplas personalidades, mas as lembranças estão com elas, entende? Estão com a Srta. M e a outra. Não comigo. Eu…”, a loira queria ser clara, embora não soubesse se estava obtendo êxito, “sonho e acordo como se alguém tivesse me magoado, mas daí eu não sei o que sonhei e os dias após essa sensação passam e eu me sinto melhor, como se nada houvesse acontecido. Isso é lógico pra você?”, inquiriu, com o cenho franzido.

Rachel Berry ainda não alcançava isso. Ela sabia que a Quinn diante dela era alguém com poucas e avariadas lembranças do passado, mas a existência da Srta. M e a similitude entre elas duas, Quinn e sua personalidade mais magoada, dificultava um pouco essa separação entre ser consciente de que Quinn não retinha a memória e ter certeza de que realmente não sentia que foi machucada.

“Eu acho que…”, a cantora parou para arrumar a linha de pensamento e responder, “não alcanço o que você sente, porque, embora eu perceba nitidamente que você não é mais a mulher que me amou, é para a imagem dela que eu olho, é a voz dela que eu escuto, são os olhos verdes dela, que ficam âmbares, que me veem, são os mesmos gestos que ela fazia que eu vejo em suas mãos… Consegue entender?”.

A loira nunca escutou essa explicação simplória e tão reveladora de pessoa alguma. Santana nunca lhe disse isso. Britt também não. Kurt mal a olhava nos olhos, porque tinha medo de (tonto!) alguma coisa que ele pensava que ela pudesse lhe fazer. Mas Rachel… Sorriu e assentiu, surpreendendo a judia.

“Faz todo o sentido, Berry”, chamou-a pelo sobrenome, e não foi por má-fé. Talvez por hábito.

A cantora tomou um pouco do chá, tentando acalmar o espírito após testemunhar um sorriso surpreso e não cínico de sua esposa, apesar do “Berry” no lugar de Rachel esmaecer a cor do instante. Porém, era fato que Quinn realmente parecia satisfeita com a explicação que lhe deu. Era como se nunca lhe tivessem falado o óbvio. Então, aquele rasgo masoquista que todos trazemos um pouquinho, mostrou-se e a atriz colocou para fora verbalmente:

“Você se importa, de fato, sobre como as pessoas se sentem quando veem ou falam com você? Quero dizer, agora você me pareceu satisfeita porque eu lhe dei o meu ponto de vista, enquanto você parece se importar apenas com o seu”, explicou e depois pensou que havia metido os pés pelas mãos.

A advogada recebeu o café fumegante, agradeceu com um sorriso polido para a moça que atendia sua mesa e voltou os olhos para a morena. Levou a xícara para perto dos lábios, aspirou o cheiro do café, deu um pequeno suspiro, quase um gemido de satisfação, e tomou um gole. Após, sem desprender os olhos dos da esposa, respondeu sem nenhuma culpa:

“Não, realmente”. Tomou outro gole do café e viu como os olhos de Rachel lhe percorriam a face e depois voltavam a se prender nos seus. E teve a impressão de que ela queria atravessar a barreira que havia ali e que não permitia que lhe vissem a alma. Embora lhe parecesse que Rachel já a conhecesse, como se ela já tivesse mergulhado no fundo do oceano que era a sua alma. E sua alma nunca foi um mar calmo. Mas, ainda assim, parecia-lhe que aquela mulher que se esforçava para se mostrar sincera diante dela, sabia como era mergulhar em sua alma e não se afogar.

Este era um pensamento incômodo. E estranho. E fomentava essa coisa dentro dela que a fazia ter interesse nessa mulher e a obrigava a reconhecer que ela não foi somente mais uma pessoa de seu passado. Rachel Berry foi “a pessoa” de seu passado. Isso mudava um montão de coisas que ainda não conseguia processar. Mas esperava conseguir com as lembranças de Rachel.

“Talvez, se você se importasse um pouco…”, murmurou a morena.

“Rachel, por favor! Eu não gosto deste tema em questão. Você parece…”, estancou a forma brusca com a qual se expressava e analisou como falaria sem precisar ser grosseira, “na verdade, eu sei que as pessoas desejavam que eu voltasse a ser como antes, mas não aconteceu e este é um assunto enterrado há muito! As pessoas se distanciam, Rachel. Por que sofrer com isso?”. Achou que a judia dava atenção a temas que não convinham que se ficasse martelando sobre eles. Eram assuntos que já foram discutidos vária e várias vezes! Foi questionada sobre isso um sem número! Precisou escutar e responder as pessoas que não entendiam que ela não era mais a mesma. Ponto!

“Talvez…”, recomeçou, mais branda, “nem todos precisem se esforçar como você, Rachel. Porque as coisas que você e Santana, por exemplo, querem são diferentes. Ela quer a pessoa que eu fui. Você quer conquistar a pessoa que eu sou. Isso é muito óbvio pra mim. E isso faz com que ela e você tenham comportamentos distintos. Ela se afastou e eu também. Está acabado, selado. Você quer saber quem eu sou, porque tem consciência de que eu não serei como antes, isso a faz querer ficar perto, me conquistar, obter a minha confiança… Ou amor”.

A cantora piscou algumas vezes, ainda atordoada pelas palavras de Quinn. Embora nunca escondesse que a amava, não se lembrava de ter falado claramente isso com a esposa. Nunca disse que faria com se apaixonasse por ela. Falou com Jesse, com o Kurt, com a Santana, com a Dra. Parker… Não diretamente com Quinn… Entretanto, ela era claramente consciente de que Rachel a desejava e queria que se apaixonasse outra vez por ela. E não fazia menção de fugir disso.

Não tinha sentido…

“Você não parece incomodada com isso…”, avaliou, comendo um bocado das folhas verdes que estavam na salada que quase esqueceu, envolvida pela conversação com a loira que, parecia, não estava mais ausente como no início. Era como se ela ligasse um botão e se tornasse a mulher prática e desapegada do dia a dia. Era como ela se protegia. Tão óbvia!

Quinn avaliou a pergunta de Rachel. Respondeu, devagar, pensando as palavras:

“Na verdade, não estou. Não muito… Eu tenho curiosidades sobre você, Rachel. Por isso concordei com o encontro… E eu espero que seja sincera comigo”, a última frase saiu num tom de advertência.

A cantora assentiu e observou a esposa.

“Por que decidiu ser advogada?”, voltou a inquirir, desviando os olhos para o seu prato de salada, onde pescou outro tomate-cereja e levou à boca, mastigando devagar.

Quinn observou a cena com atenção e, como apenas observava, o silêncio fez a cantora voltar-lhe o olhar e suas miradas chocaram. A advogada tomou outro gole de café, desviou e passeou os olhos ao redor da cafeteria, tentando se prender ao burburinho das pessoas que conversavam entre si, o barulho dos talheres batendo nos pratos, as xícaras colocadas nos pires, as vozes das balconistas, a música de fundo que tocava e olvidar as imagens que pipocaram em sua cabeça há pouco. Entretanto, parecia cada vez mais difícil. Precisava focar a atenção em Rachel e suas perguntas, na troca que mantinham e tentar controlar os fragmentos que hora ou outra apareciam e a deixavam confundida.

“Pode repetir a pergunta, por favor?”, pediu, quase esvaziando o conteúdo da xícara.

Rachel refez a questão, sem perder um pequeno gesto da mulher a quem amava. Ela parecia estar se esforçando para que o encontro não fosse um fiasco total, e isso era bom para o seu coração atarantado.

“Eu não apreciava mais a fotografia. Era alguma coisa que já não me atraía… Eu sabia, eu sei, que gostei de fotografias. Sei reconhecer um bom trabalho em qualquer lugar e sei apreciá-lo, mas não tenho o desejo de fotografar. Então, achei que poderia voltar aos estudos e me dediquei ao Direito. Eu já tinha a Fabray&Advogados e a expandi. As leis são regras. Você precisa saber manipulá-las da melhor maneira possível a seu favor. E eu era boa nisso”, sorriu com certa picardia.

“Você é muito boa, na verdade”, a cantora não mentiu e acrescentou, pensativa,“a fotografia lhe outorgava um lado mais sensível”.

A loira continuava a mirá-la, e apreciou a sinceridade dela; o não julgamento sobre deixar a fotografia, porque todos pensavam que ela deveria ser a mesma de antes.

“Obrigada, Rach”, falou, um tanto desconforme, porque era difícil agradecer aos elogios porque, no fundo, detestava-os.

“Está tudo bem, Quinn”, a judia sorriu e bebeu um gole de seu chá.

O que, a princípio, começou meio amarrado, foi ganhando desenvoltura com o passar das horas e do relaxamento das duas mulheres. Quinn falou menos, porque sua atenção estava toda nas palavras da cantora, que a prendiam de uma maneira que tentava deixar para analisar a razão em outro momento. E deixá-la falar, e ela falava bastante e sorria e luzia tão feliz que parecia uma garotinha que acabou de ganhar um presente, não era ruim. Até que uma pergunta lhe veio, a fim de entender racionalmente o passado, e soltou-a, cortando a fala da cantora:

“Por que não foi sincera com Quinn, sua namorada, e lhe disse que se sentia atraída também pelo Jesse?”.

Rachel sentiu a cor lhe fugir e piscou algumas vezes, enquanto a esposa seguia:

“Eu já ouvi falar de pessoas que se veem atônitas diante do fato de gostarem de duas pessoas ao mesmo tempo. Não faz sentido para mim, porém…”, percebeu que a cantora empalideceu e tentou ser mais concisa, “o que eu quero entender é: por que não pediu um tempo para Quinn e foi sincera? Eu acho que ela ficaria com o coração partido, mas…”.

“Eu poderia perdê-la! Se Quinn se inteirasse sobre o Jesse, ela sairia da minha vida para sempre e eu… Eu não suportaria”, retorquiu a cantora, em um quase desespero e num tiro só.

“Mas você a perdeu, ela saiu da sua vida e você, pelo que parece, suportou”, sorriu, porque para ela, Quinn, seria mais lógico estabelecer os interesses entre as relações que Rachel mantinha com ela e Jesse e fazer uma escolha. Se ainda assim houvesse dúvida entre elas, fosse apenas um interesse que colocava à prova seus sentimentos, ao pedir um tempo, saberia o que ou quem de fato desejava após se afastarem.

Rachel perdeu a fome e respirou fundo. Quinn era tão fria quando ponderava sobre o que seria o “certo” a fazer que conseguia lhe magoar. E sabia que não era por querer. Ela era assim! Ficou assim! Desconfiada, sempre em busca de uma razão que pudesse explicar um ato ou um dado! Ela era exasperante!

“Eu poderia ter feito isso”, a cantora prendeu os olhos nos esverdeados, “mas não fiz. Eu não sabia o que sentia, realmente, pelo Jesse. E eu amava você… Amo você! Mas naquele tempo eu… Eu olhava para você e me parecia tão fora de contexto o que estávamos vivendo! Você era Quinn Fabray, a abelha-rainha do McKinley, a garota hétero e linda! Eu era a perdedora, a que teve que suportar os olhares de escárnio que as pessoas colocavam sobre mim e seus risinhos debochados. Eu tive medo… Perder você estava fora de cogitação. Eu fui egoísta, mas eu não queria lhe magoar. Se você não chegasse de viagem antes, talvez nunca soubesse do Jesse”.

A advogada franziu o cenho antes de comentar, como se fosse sobre um fato qualquer:

“Chegar de vigem antes foi clichê. Mas, o que fez foi feio da sua parte. E sua fala dá a entender que o St. James era só um passatempo. Mas não foi”.

Rachel ficou parada, mirando a mulher linda que tinha diante de si e como ela estava indo, sutilmente, abrindo-se um pouco, colocando suas dúvidas para fora e suas opiniões. E mesmo que parecesse seca, percebeu que Quinn tentava se justificar, apontando o próprio ponto de vista, a fim de se fazer clara. Isso era bom, certo? Queria que fosse…

“Foi feio…”, concordou.

“Faria de novo?”, a pergunta foi certeira tal qual punhal em mãos de atirador de faca profissional. E foi sem nenhum ressentimento ou qualquer demonstração de dor. Um questionamento de alguém curioso e distante do fato conversado.

A Judia não esperava esse questionamento. E ficou estanque diante do tom distante na pergunta. Porém, lembrou de Judy lhe aconselhar em ser sincera com Quinn, sob qualquer situação.

Respirou fundo e respondeu, segura:

“Hoje, não. Porque só depois que eu lhe perdi, pude ver o meu erro. Até então eu apenas me justificava comigo mesma sobre estar me relacionando com Jesse e você. Eu afoguei a culpa, para que você não percebesse que eu estava errando, para não lhe magoar. Mas eu nunca deixei de apreciar cada momento que passamos juntas, de querê-la cada dia mais… Eu realmente fui egoísta e insensata, Quinn”, admitiu, “e foi um erro sem conserto. Eu não conseguia achar uma maneira de arrumar as coisas. Assim que você me deixou, Jesse foi se aproximando de mim, sem intenções sexuais a princípio, talvez porque ele soubesse que o nosso casamento seria um fiasco. Mas durou, até contra os nossos prognósticos. Eu também não sabia de você e o que aconteceu! E eu permiti ser mantida alheia do mundo por algum tempo, talvez por fuga, presa em apresentações e ensaios diários porque Kurt exigia, porque queria que eu fosse a melhor das melhores! Eu nunca pensaria que as coisas tomariam esse caminho”, confessou.

Quinn percebeu o quanto aquele tema era doloroso para Rachel, entretanto ela não se negava a responder as perguntas que lhe lançava. E parecia sincera, como alguém que nada mais tinha a perder no amor, porque era consciente de que já não o tinha. Pensou que isso era bom. Fazia da cantora uma camicase em termos de falar sobre o passado, sentimentos e como estes se deram, sem maquiagem.

Estava começando a apreciar camicases.

“Fale-me de seu filho”, a loira pediu e isso conseguiu causar uma surpresa maior na cantora.

“Spencer?”, perguntou, com incredulidade.

“Você tem outro?”, a pergunta de Quinn foi feita com cara de espanto.

“Não! Eu não tenho… Eu só estou surpresa por você perguntar por meu filho”, explicou.

“Por que eu não perguntaria? Esse é um tema tabu?”, ficou interessada na explicação que ouviria da judia.

“Não, Quinn! Eu só fiquei…”, estudou a face atenta da esposa, “surpresa”, sorriu. “Spencer nasceu de uma vontade que eu sempre tive de ser mãe”, recomeçou a Judia, “nós duas, quando estávamos juntas, fazíamos planos de ter no mínimo dois filhos. Um gestado por mim e o outro por você. Nessa época você já havia aceitado o fato de que Beth estava bem com Shelby e o tema filhos deixou de lhe ser desagradável”, Rachel suspirou, antes de voltar a responder, “eu e Jesse já estávamos rateando no casamento. Ele estava tendo um caso com um dos bailarinos e eu me senti tão humilhada! Eu era a esposa dele! Então eu lembrei do que lhe fiz e deixei passar. Talvez eu merecesse. Conversamos sobre a relação e decidimos tentar mais uma vez. A ideia de ser pai o deixou realmente feliz e nos aproximou mais, porém como amigos… Ele já não se importava se eu saía com outra pessoa e sempre foi a favor de nossa reaproximação… Minha e sua. No fim, pensamos que Spencer poderia ser uma sustentação para o casamento. Mas não… Ele foi um vínculo entre mim e Jesse, mas não grande o bastante para impedir que um não viva sem o outro. E Spencer é um menino gentil, adora carros e…”.

“Por que tentou salvar seu casamento se ainda era apaixonada por Quinn?”, cortou a linha de raciocínio da cantora.

“Porque eu me convenci de que nunca mais nos veríamos. Você nunca mais me aceitaria… E eu não errei”.

A loira analisou a resposta de Rachel. Parecia pertinente, afinal, as duas ficaram ignorantes uma sobre a outra.

“Spencer está na escola infantil”, a advogada retomou o tema. E escutou, atenta e quieta, como Rachel falava da importância que o menino tinha em sua existência. Que ele foi o único capaz de sustentá-la durante muito tempo, porque precisava ser forte por ele. Spencer era a pessoa mais importante em sua vida.

“Esse é um pensamento bonito…”, a loira murmurou, antes de admitir, em racional murmurar, “eu acho que não sei como é isso… Eu não lembro muito dos fatos que dizem respeito a Beth. Exceto que você contou para o Finn que ele não era o pai”, sorriu, “ele era tão… Bobo! Como acreditou que poderia ser o pai se nunca tivemos relação sexual?”.

Rachel pareceu ver um destelho da antiga Quinn ali. Mas como veio, foi:

“Só Finn Hudson…”, estudou a face da cantora e lançou, “esse assunto lhe incomoda? Vocês iriam se casar”.

A Judia respondeu que não era um tema incômodo e admitiu o casamento com um aceno de cabeça.

“Então eu tive aquele acidente que me obrigou a usar cadeira de rodas no último ano”, a advogada prosseguiu, “a caminho do lugar do seu enlace matrimonial”.

“Que não aconteceu”, Rachel deu um pequeno sorriso.

“Eu devo lamentar?”, a loira quis saber, prendendo o mar de chocolate no seu esverdeado.

Rachel balançou a cabeça em negativa e contou que Finn terminou com ela, quando a levou à estação de trem, em sua ida para NYADA, porque ele pensou que era realmente cedo para os dois.

“E o que você pensou?”, Quinn continuava a indagar por coisas e acontecimentos que, de alguma maneira, pareciam dolorosos para a cantora e que ela não se lembrava mais de saber.

“Eu, na verdade, tentei me agarrar em Finn, porque desde que você me contou que era apaixonada por mim, eu fiquei realmente fora de órbita. Era a coisa mais absurda que eu escutei. Então, as perguntas durante a noite, ao meu travesseiro, começaram a ser sobre você e se eu também sentia o mesmo. No início, eu achava impensável nós duas como um casal de namoradas. Não encaixava, entende?”.

A loira sorriu. Estava compreendendo muito bem.

“Aqui, em Nova Iorque, eu me peguei pensando mais em você… Até que nos reencontramos na exposição que a NYU fez… Eu fiquei aborrecida com a Sant e o Kurt porque não me contaram que você estava aqui e não em Yale”.

“Talvez eles soubessem que a nossa relação terminaria mal”, opinou, franca. “Talvez você devesse se casar com Finn. Talvez ele fosse a sua metade”, analisou.

Rachel a mirou sem saber o que dizer.

Quinn se deu conta de que foi indelicada e, após soltar um suspiro aborrecido, falou:

“Desculpe se eu fui insensível… Talvez este ainda seja um tema doloroso para você”.

“Não é… Eu não deveria ter casado com o Finn… Eu e você estávamos juntas quando ele morreu”, pontuou a cantora, “e eu quero escutar você, Quinn. Estamos aqui para nos conhecermos… Eu acho que você está sendo muito flexível e até um pouco condescendente”.

Condescendente… A advogada repetiu mentalmente. Estava, de fato, sendo condescendente com Rachel? No momento, tinha quase certeza de que não. Estava sendo, quem sabe, egoísta e cruel, resguardando-se e deixando que Rachel baixasse as defesas. Na realidade, analisando melhor, Rachel não estava armada! Ela, Quinn, estava. Mas, Rachel… Rachel não. Rachel era como o Barão Vermelho, voando livre, mesmo sob artilharia pesada, consciente de tudo o que acontecia e, ainda assim, correndo perigo. Um perigo que ela parecia saber manejar…

“Quinn…”, a voz de Rachel a fez cravar a atenção na realidade.

“Sim?”.

Rachel parecia insegura sobre a proposta que faria.

“Estou escutando…”, a loira a detalhou, pensando em uma razão para a cantora parecer se debater tanto.

“Você iria, uma vez mais, já que a nossa primeira foi meio turbulenta”, comentou e respirou fundo, “o que eu quero perguntar é: você aceitaria ir comigo e Spencer passar uma tarde no Central Park?”, a judia soltou.

O fato de Quinn parecer ponderar sobre o pedido fez um raio de esperança luzir no coração da cantora, que suprimiu um sorriso emocionado, percebendo que a loira tentava entender a pergunta básica.

“Passar uma tarde no Central Park com você e o seu filho?”, a pergunta saiu incrédula e pareceu estranha para a advogada, “como se fôssemos uma família?”.

Diante do tom meio cabreado de Quinn, a morena cuidou de explicar:

“Não! Apenas para continuarmos nesse processo de nos conhecermos. E Spencer é meu filho… Talvez seja bom que se conheçam”, mordeu o lábio e acrescentou, “Quinn, eu não guardo ilusões sobre você. Eu sei que não haverá flores e bombons entre nós e nem doces palavras. Sou consciente, agora mais do que nunca, de que eu joguei fora a minha chance de ser feliz junto a você”.

A loira estancou diante das palavras realistas e até frias da morena. Rachel abriu mão do amor… O que ela queria alcançar então? Só amizade?

“Não tenho amigos, Rachel. E não creio que sejamos amigas algum dia. Mas…”, analisou, porque havia um remoinho dentro dela que a fazia querer saber mais daquela cantora que a atraia de alguma maneira que ainda não alcançava, “acho que podemos… Podemos ir uma tarde ao Central Park. Você pode ver a sua agenda e poderemos combinar isso”, findou como se referisse a um contrato a ser fechado. Prática, indiferente, analítica…

Rachel sorriu grande. Ela nunca esperava que a loira lhe desse uma resposta positiva. Mas aí estava! E lembrou que Judy lhe disse que as personalidades de Quinn a estavam testando. Seria isso possível? Poderia existir algum sentimento de afeto dormido dentro de Quinn por ela, Rachel Berry?

Suspirou num alívio que lhe acalmou o coração e a fez pensar que alguns recomeços poderiam ser pedregosos, mas não impossíveis.

A advogada suprimiu um sorriso. Rachel tinha um lado quase pueril e isso lhe deixava com o espírito mais curioso sobre a mulher com quem se casou.

Foi tirada de suas divagações quando a música que tocava na cafeteria, num melodioso pop romântico, possuía uma voz que lhe parecia conhecida. Sacudiu a cabeça, atordoada com a situação, como se alguma lembrança quisesse vir à tona, e queria se livrar dessa sensação.

“Sou eu cantando, Quinn”, a voz de Rachel fez a sensação ruim ir embora e focou nela.

“Você?…”, murmurou, ainda meio aturdida.

“Essa canção, I Feel Pretty/Unpretty, foi uma gravação que fiz no meu último álbum. Nós, você e eu, cantamos no Novas Direções, o clube do McKinley…”, explicou a cantora, mirando como a face de Quinn, que antes transparecia turbulência mudou para uma que tentava recordar algum resquício desse fato.

Rachel lembrou, despreocupada:

“Eu quis fazer uma plástica no nariz… Eu queria ter o seu nariz… Digo, um nariz igual…”.

Quinn automaticamente levou uma das não ao rosto e passou os dedos indicadores e médio pela parte saliente em seu rosto e correu os olhos pela face da cantora.

“Plástica?”, estava séria, porque pensou que este era um pensamento absurdo. E observou:

“O meu nariz não ficaria bem em seu rosto”.

Rachel piscou algumas vezes, mas estancou assim que a advogada prosseguiu, tentando ser clara:

“Veja bem, Rachel: há uma coisa chamada ‘conjunto’. O seu nariz, de acordo com o meu ponto de vista, e acredito que o ponto de vista de um monte de outras pessoas, ou você não seria protagonista de A Bela e a Fera apenas por essa voz que está cantando no som agora, não porque não seja uma…”, a voz de Rachel era… Era melodiosa, doce e… Afastou os pensamentos e continuou, “voz bonita”, foi prática, antes de retomar, “o seu nariz está do tamanho certo para o formato dos seus lábios, o tamanho de seus olhos. A beleza não mora na perfeição, Rachel. E você é bonita o bastante para ter a atenção de um monte de pessoas”, adjudicou.

A cantora não esperava por isso. Quinn foi bem… Sincera? Ela foi sincera. E séria sobre o tema. Agradeceu e escutou:

“Não foi um elogio, Berry”. A advogada não entendia a razão de a esposa ter esse tipo de comportamento: confundir explicação com elogio.

“Não importa”, Rachel deu de ombros, “só de você não ser debochada sobre isso já é grande coisa pra mim”, falou, sem se importar com o que a ex-namorada pensaria.

Quinn a observou. E seus olhos se encontraram. Olhou com atenção para as janelas da alma da Judia. Ela luzia sincera… E havia uma gota de tristeza que se sobressaía por sua capacidade de tornar melancólicos uns olhos tão bonitos. E ela estava assim porque ainda a amava? Nunca encontrou pessoa tão tenaz! Tão pronta a estender o coração para alguém sem memória e tão atordoada justo agora.

“Lamento…”, murmurou.

Rachel franziu o cenho.

“Por que você lamenta, Quinn?”.

A loira respirou fundo e se retesou antes de falar, sem desviar a mirada um zero grau:

“Lamento por amarrar você a um casamento e não poder…”, ela poderia, mas não queria, “deixar você ir… Por tirar a sua liberdade e fazê-la beber do mesmo cálice de fel que eu bebo, porque não consigo me apegar. E você dará murro em ponta de faca, e sairá machucada”.

“Você quer me machucar?”, perguntou, numa calma que ela mesma, Rachel, estranhou.

“Eu acho que já estou”, atentou.

A cantora sorriu e, num ato de branda euforia, tomou a mão pálida que descansava sobre a mesa e a segurou, enlaçando seus dedos.

“Está tudo bem, Quinn”, falou, sincera. “Eu amo você e tudo ou quem você é ou possa ser”.

Quinn olhou para as mãos e, devagar, fechou seus dedos entre os de Rachel. E a sensação cálida a abraçou.

Foi muito.

E a Srta. M apareceu.

“Mãozinhas dadas…”, sorriu com picardia. “Que romântico!”.

Rachel rolou os olhos.

Mas, se você não olhar para dentro de si mesmo

E também descobrir quem eu sou.

Estar na posição que me faz sentir

Terrivelmente feia”.

— I Feel Pretty/Unpretty by Glee Cast -

Notas finais
Até...