Sine Cordi
83 CAPÍTulo 83 - םג
Notas iniciais
“Venha me beijar
Meu doce vampiro
Na luz do luar”.
— Rita Lee em Doce Vampiro—
A Srta. M fez o papel de Quinn Fabray neste dia muito bem. E, à noite, usando de sua malícia sobre a ignorância do cuidador sobre o fato, saiu da suíte vestida em pijamas, sobretudo e… Pantufas! Precisava convencer o homem a levá-la até Rachel. E não seria sendo ela mesma, Srta. M, que conseguiria. Então, por que não usar o que aprendeu no Glee Club (odiava pensar nesse clubinho) e encenar um número para ir até a capitã do Novas Direções? Só não cantaria! Tinha ojeriza de cada canção que a fazia se lembrar daqueles dias. Nunca mais ouviu Queen e Somebody To Love. Ou Bohemian Rhapsody. Ou We Are The Champions. Barbra Streisand nem pensar! Era a sua morte em vida! Porém, não seria mal um pouco de encenação, sem música tema, para chegar até a Berry.
“Não consigo dormir”, falou, direta, evitando mirar o cuidador, que estava de costas, terminando de arrumar alguma coisa sobre a bancada na copa.
Ele virou para ela com assombro.
“Quer que eu lhe aplique a dose extra de tranquilizante?”.
A loira o fitou com surpresa. Tranquilizante? Era o que menos precisava! Suspirou e manteve o personagem:
“Não. Eu preciso ir até a Rachel”, falou sem rodeios e viu a expressão de terror que apareceu na face de Holmes. Queria entender a razão de ele parecer tão assustado. O alvo dela não era ele. Era a Rachel!
“Eu falei algum disparate?”, perguntou, guardando o sarcasmo, mas a frieza ficou.
“Não…”, Holmes negou ainda sem compreender bem o que aconteceu. Precisava se situar. Quinn não conseguia dormir. E Quinn queria ver a Rachel.
Repassou:
“Quinn não conseguia dormir”.
“Quinn queria ver Rachel”.
Entendeu a primeira oração.
Mas a segunda…
“Por quê? Teve alguma outra lembrança que precise que ela confirme? Podemos fazer isso por telefone, se for o caso”. Holmes não queria ter outro encontro com a Srta. M. Ela quase enlouqueceu a ele e Wilhelm da última vez, quando decidiu que deveriam “tomar uns tragos para amainar a tensão”. E Quinn não podia beber por causa dos medicamentos! Foi, no mínimo, exaustivo tentar contê-la sem que ela não tentasse fazer uma cena. Wilhelm chegou a ponderar a ideia de desmaiar a loira com uma gravata. Entretanto, uma confusa Quinn apareceu e as coisas se resolveram.
A senhorita M. achava engraçado o fato de Holmes estar, justamente agora, conversando com a razão de seu susto.
“Não. Eu não tive nenhuma lembrança”, negou e o observou com atenuada atenção. “Por quê? Isso faz diferença?”, ela indagou, contendo o divertimento diante da situação.
“Não, Dra. Fabray. Mas pediu para que eu evitasse que saíssemos de casa. E dentro do pedido está claro que também deve se manter afastada de Rachel”.
A Srta. M não acreditou que Quinn tenha feito um pedido tão idiota quanto esse! O jeito seria tentar mudar as regras.
“Ok…”, sorriu e se aproximou dele, correndo os olhos rapidamente pela face do gigante e abaixando o olhar, parecendo frágil, “então… Eu quero mudar essa regra e poder ir até a casa da Rachel”.
O homem estava desconcertado.
“Por quê? Sempre que se encontram, alguma coisa ruim acontece. Uma das personalidades aparece… E faz uma confusão dos infernos e eu, realmente, não sei como lidar com isso”, confessou.
“Tem medo de a Srta. M aparecer?”, perguntou, achando o máximo aquele homenzarrão temê-la.
Ele assentiu, antes de completar:
“Eu tenho medo de que você não volte mais, Quinn”.
A Srta. M achou realmente fofo da parte daquele gigante tanta demonstração de… Afeto? Talvez ele fosse sincero.
“Não se preocupe, Sr. Holmes! Quinn Fabray sempre será a personalidade dominante, embora dominada uma vez ou outra, e voltará sempre. Estamos arrumando tudo para que eu fique bem com o trabalho de Eleanor, com Eleanor”, ela sabia que o convenceria, “eu sei que vou conseguir ficar bem. Mas, mesmo não querendo, eu sinto que a Rachel deverá ser parte desse processo. Ela conviveu comigo. Ela sabe de mim mais que os outros. Eu preciso desse contato”, deu um tom de confissão no final da conversa.
O homem a fitou com o cenho preocupado.
“Holmes…”, ela murmurou e mordeu o lábio inferior de uma forma atordoada tão meticulosamente ensaiada na frente do espelho, enquanto pensavam que descansava, que as dúvidas do homem foram por terra.
“Eu vou avisá-la, apesar do adiantado da hora”, concordou com a loira. Para Holmes, Quinn estava certa. E ela nunca confessaria uma fraqueza, como a de precisar de contato com a Rachel, se não fosse para o próprio bem.
Essa era exatamente a lógica da Srta. M.
Ela realmente queria contato com Rachel.
E teria!
“Venha sugar o calor
De dentro do meu sangue vermelho
Tão vivo tão eterno, veneno
Que mata sua sede
Que me bebe quente
Como um licor
Brindando a morte e fazendo amor”.
— Rita Lee em Doce Vampiro—
Rachel se resignou com a notícia de que Quinn a “visitaria”. O relógio marcava quase meia-noite. Havia chegado à casa há cerca de uma hora, após mais uma apresentação bem-sucedida do musical. Era dada como certa sua vitória no Tony Awards, haja vista o alto nível técnico, mesclado com a emoção burilada em aulas de Artes Dramáticas (e, ultimamente, no drama que era o seu enlace com a ex-namorada), que apresentava a cada show. Os críticos sempre voltavam para vê-la e ficavam encantados em como ela era capaz de se superar a cada apresentação. Um alento para o espírito e uma enorme massagem no ego.
Voltou a pensar em Quinn. Há quanto tempo não se viam? Duas semanas? Sim. Duas semanas. Nesse período, o homem preso pelo assassínio de Jesse confessou que atirou no ator porque ele reagiu ao assalto. O que ligava o suspeito ao crime era a arma de calibre 38, ilegal. E os testes de balística comprovaram que o projétil encontrado no corpo de St. James era do calibre 38 e as ranhuras na bala condiziam com as ranhuras que pertenciam à arma do preso.
Hiram e LeRoy acompanharam a filha em todos os aspectos e ficaram surpresos quando souberam que, sob pedido de Quinn, o promotor Lancaster teria especial atenção sobre o caso. E Mathews o acompanharia de perto, representando os interesses da atriz. Santana foi a pessoa que deu a notícia. E disse que Holmes, obviamente sob ordem de Quinn, lhe havia pedido que encaminhasse os detalhes.
“Tem certeza de que pode ficar a sós com ela?”, Hiram indagou, preocupado com a filha e muito dividido quanto às atitudes da advogada. Ao mesmo tempo distante, mas muito atenta aos passos de Rachel.
A atriz afagou o braço do pai, de frente para ela, na sala de estar, e assentiu.
“Eu posso e preciso ficar a sós com ela se quero que ela saiba que não vou me deixar vencer. Será apenas um momento mais de provocação da parte dela”, sorriu triste, “ela pode estar repartida, mas a parte mais complicada dela não é a Quinn de personalidade doce e nem a Srta. M. A mais complicada é a Quinn sendo ela: estudadamente fria, ensaiada, dispersa e indiferente. Uma parece que ainda me ama. A outra me odeia. E a Quinn não faz ideia do que sente. É com ela que tenho que me acertar”, justificou.
O homem concordou, incerto. Beijou a testa da filha e, antes de ir para o quarto de hóspedes, onde LeRoy o esperava em companhia de um adormecido Spencer, avisou:
“Chame se precisar”.
A judia concordou. Ela, certamente, chamaria se precisasse.
Estava a olhar, agora, pela ampla janela da sala de estar. A noite barulhenta de Nova Iorque não era escutada desde a cobertura que habitava. Ela queria poder se deitar e descansar.
“Señora”, a voz de Maria a tirou dos pensamentos.
Voltou-se e viu a esposa em pijamas sob o grosso casaco e calçando pantufas. Holmes estava ao lado dela.
A judia os cumprimentou e fitou a loira, que olhava ao redor e não se fixou nela de momento. Então, a “Quinn” voltou-se para o cuidador e Maria e falou, polida:
“Eu quero ficar a sós com a Sra. Fabray”.
A judia sentiu um calafrio lhe percorrer. Quinn a chamou de Sra. Fabray! Certo. O que estava fora de ordem?
Holmes mirou a patroa e assentiu. Ele sabia que ela tinha esse rasgo de deboche acentuado. Não era estranho ela se dirigir a Berry como Sra. Fabray. Principalmente se desejava provocá-la.
Maria olhou para Rachel numa pergunta muda sobre ficar ou sair.
“Está tudo bem”, a morena avisou e, assim que ficou sozinha com a loira, tomou um respiro profundo e a observou mirando o entorno.
“Se está a procurar por meus pais, eles já se recolheram”, informou e recebeu o olhar observador da loira.
“Eles não ficaram com medo de deixá-la sozinha comigo?”, inquiriu a Srta. M, curiosa.
“Você tem a intenção de me ferir fisicamente?”, a judia indagou.
A loira sorriu e negou com a cabeça. Caminhou devagar em direção a morena e parou em frente a ela.
Rachel a mirou nos olhos.
“O que você quer?”, questionou.
“Contato”, respondeu, insolente.
“Contato?”, a judia franziu o cenho.
“É, Rach-Rach! Contato”, repetiu e a enlaçou pela cintura com o braço direito e a puxou de encontro a si. “Esse tipo de contato”, explicou, mirando descaradamente os lábios da morena.
“Eme!”, exclamou a cantora, reconhecendo a personalidade mais cruel de Quinn.
A loira riu.
“Tão esperta, Rach-Rach!”, murmurou antes de tomar a nuca da cantora com a mão esquerda e sujeitá-la. Devagar, mordeu e sugou o lábio inferior de Rachel, que se perdeu no instante. Afinal, o que esta persona desejava?
“Acho que devemos ter uma lua de mel”, sussurrou a loira, descarada, bem perto dos lábios morenos.
Os olhos de Rachel se abriram como pratos.
“O quê?”, estava incrédula em meio o atordoamento do instante.
“Qual a graça de nos casarmos se a melhor parte do casamento, o sexo, não se realiza? Eu quero muito, Rach-Rach, muito mesmo brincar de casinha com você!”, maliciou.
A morena arfou. Ela precisava se apartar daquela mulher. Ela não era a Quinn! Afastou-se devagar e com cautela. A Srta. M a colocava nervosa. Ela tinha o rosto impassível, o olhar insensível e a sobrancelha direita levantada.
“Com medo?”, questionou, naquele tom frio.
“Não…”, na verdade, estava insegura. Mais por si mesma. A proximidade de Quinn, ou da Srta. M, a deixava meio desorientada. “Embora você não seja uma pessoa em quem eu deva confiar… Você me odeia. Lembra?”, afastou-se mais e a encarou.
A loira sorriu, mordeu o lábio inferior e deu um suspiro de tédio.
“Eu sei”, confirmou.
“Então… O quê?”, Rachel tinha certeza que ela só estava ali para brincar com ela e com o sentimento que nutria por Quinn.
“Não seja tão escorregadia, Rach-Rach! Nem tão dura comigo”, fingiu-se sentida. “Eu estou querendo levantar uma bandeira de paz entre nós”, comentou e se aproximou da morena, com passos lentos.
“Bandeira de paz?”, estava incrédula! Estreitou os olhos e se perdeu na fala da loira e, dessa maneira, deixou que ela se aproximasse.
“É! Paz!”, sorriu com malícia e recorreu o corpo da morena de alto a baixo e ao contrário, deliciando-se na visão.
Rachel engoliu em seco. Foi o olhar mais carnal que já havia recebido na vida! Era sexual e cru. Deu um passo atrás.
A Srta. M um passo a frente.
“Não tenha medo…” sussurrou.
“Meus pais estão no quarto…”, começou a falar, a fim de alertar aquela persona tão singular que não queria nenhuma situação constrangedora entre elas.
“E o que você fará? Vai chamá-los para virem defender a sua honra?”, questionou, fleumática e com olhos brincalhões.
“Não! Mas eu não quero preocupá-los. Eles sabem que você, digo, a Quinn viria aqui. E você aparece”, falou, acelerada e atrapalhada.
“E isso lhe aborrece? Que eu não seja a Quinn?”, a expressão na face da loira inspirava-lhe tanto medo que teve, realmente, que reprimir o impulso de sair dali correndo.
“O que acha?”, teve o ímpeto de perguntar, apresentando uma coragem que a adrenalina lhe conferiu.
A Srta. M se aproximou dela e com uma mão lhe sujeitou a cabeça por trás e, com a outra, o pescoço e a mandíbula, inclinando-se sobre ela e fazendo-a curvar-se, encaixando os corpos. E cobriu-lhe a boca com a sua.
A surpresa daquela estudada investida roubou todos os sentidos de Rachel.
A Srta. M a obrigou a inclinar um pouco mais a cabeça para trás e deslizou a língua entre seus lábios, parecendo querer devorá-la.
Alguns passos depois, que Rachel não conseguiu perceber, apenas, sim, conseguiu sentir a parede atrás de suas costas, onde foi apertada com o corpo da loira, que lhe explorava a boca, como se quisesse possuí-la.
Que tipo de ódio era aquele que parecia mais desejo?
Que tipo de vingança era essa, que causava na judia, agora, um revoltar de borboletas e mariposas na barriga e lhe fazia sentir um calor líquido no meio das pernas?
Gemeu, pois os lábios da Srta. M se moviam sobre os seus com destreza. A língua quente e úmida lhe penetrava a boca e depois ela lhe chupou o lábio inferior. E voltou a tomá-la, como se não fosse preciso respirar, pois o beijo era o seu respiro.
A judia sentiu que ficaria sem ar. A loira a apertou com força, encaixou uma perna entre as suas e pressionou. Escorregou a mão pelo abdome até o sexo da morena, coberto pela roupa, e então Rachel conseguiu atinar para o que estava acontecendo.
Reteve a mão da Srta. M, que parou o beijo devagar e afastou o rosto, com o cenho franzido e a a boca tão vermelha quanto a da morena.
“Eu não posso…”, murmurou Rachel, quase perdendo a consciência, o peito subindo e baixando como se acabasse de correr uma maratona.
“Não pode? Por que não pode?”, a voz cética era como nevasca na face.
“Você não é a Quinn. E eu não me orgulho muito de ter… Ter cedido a outra Quinn”, murmurou.
A Srta. M deu um sorrisinho de incredulidade, antes de questionar:
“Não quer trair a Quinn?”.
Rachel não abdicou de responder. Aquela não era uma questão de traição. Era uma questão de saber que poderia estar se aproveitando de um momento de inconsciência de Quinn.
“Se aproveitar de ‘um momento de inconsciência da Quinn’?”, questionou com desprezo.
Rachel silenciou, enquanto analisava que ceder aos encantos do corpo e cheiro de Quinn, inconsciente dos atos das outras personalidades, não era uma coisa bonita de se fazer, embora lhe tenha sido muito prazeroso e era tentador. E, para lhe atiçar mais, a Srta. M era de arrebatar. Ela exalava perigo. Tudo nela gritava “mantenha a distância, produto altamente tóxico”. Mas beijava tão bem! Era tão atrevida! E a Quinn 2 era delicada, mas tinha tanta experiência e falava tantas bobagens em seus ouvidos, com voz de menina travessa, que a agradava e a levava ao clímax entre sorrisos e beijos carinhosos. Ela era casada com três mulheres! Era confuso! Poderia falar em traição?
Então escutou a voz fria que lhe murmurou ao ouvido:
“Então, trepar com o St. Jones enquanto namorava a Quinn era certo, mas comigo é errado?”.
Rachel sentiu um nó na garganta.
Aquelas palavras foram, além de desdenhosas, cruas. Humilhantes.
Até quando poderia aguentar?
“Por Barbra! Você pega toda a situação e torce para me cuspir na cara sempre que pode o que eu fiz! Eu já sei! E já pedi perdão por isso! E não tenho como remediar! Você manda eu sumir, mas vem até aqui e me beija, confunde a minha cabeça e depois…”, empurrou a loira, que retrocedeu alguns passos e estancou, encarando a morena. Rachel continuou:
“Eu não quero me aproveitar de um momento de inconsciência de Quinn!”, precisou controlar a voz para não gritar.
A Srta. M riu, mordendo o lábio inferior antes de exclamar:
“Oh! Tão cheia de consideração!”.
“O que você quer de mim?”, perguntou, quase em desespero.
“Eu já disse! Eu quero contato! Con”, começou a soletrar, “ta… to!”, e voltou a se aproximar de Rachel, que ainda tentou escapulir, mas foi esmagada pelo corpo loiro à parede outra vez, “quero comer você, Rach-Rach! Simples assim! Por que tanto drama? Não estará se aproveitando da Quinn! Vai aproveitar o que a Quinn nunca vai lhe dar: sexo caliente! E, fique feliz! Este será o único sexo que terá. Porque você se lembra que eu mandei vigiá-la”.
Rachel piscou com incredulidade. Ela não poderia falar sério!
A loira continuou:
“Ainda não se deu conta de que eu vou acabar com todo o seu intento de brincar de carneirinho e ficar pulando a cerca? Só vai poder cornear a Quinn comigo e com a ‘unhem-hem-nhem’”, referiu-se a outra personalidade de Quinn. Sorriu outra vez e prosseguiu como se falasse de uma promoção de supermercado:
“Veja que sorte a sua! Três esposas pelo preço de uma! Você nunca vai se cansar! E a gente pode até brincar, tipo: eu começo a comer você, saio e deixo a docinho continuar e você até poderá fazer ‘uni-du-ni-tê’ e definir que vai acabar com você… Não era para rimar”, observou, “enfim, um casamento sem perdão. Mas com muito…”, pensou numa palavra que pudesse rimar, sem parecer grosseira. Não encontrou. Exclamou:
“Enfim!”.
Rachel meneou a cabeça e falou que aquilo não era engraçado. E seus olhos aguaram.
A Srta. M se afastou e, de forma fria, avisou:
“Comece a se acostumar, amor! Estamos num casamento! E eu vou levar você para a minha casa. E para a minha cama. E agradeça por eu considerá-la palatável”, estudou-a de maneira pouco gentil, “porque a Quinnie, baby, vai lhe deixar totalmente na mão, ou nos dedos”, troçou, “ela não vai se interessar por você ou pelo seu corpo. Toda a aproximação dela será errática e distante. E eu não deixarei que você atenue as suas necessidades físicas com amiguinho algum de palco, ou de bastidor, ou de set de filmagens. Aliás, avise ao Sr. Brody Weston que é casada. Ou eu acabarei com a carreira dele. Sabe quanta influência Quinn Fabray tem em Nova Iorque? E fora de Nova Iorque? Ele não vai cantar e rebolar aquela bunda malhada dele nem em bar de beira de estrada, porque eu comprarei o pulgueiro e mandarei fechar. E farei o mesmo com quem mais se aproximar de você!”.
Rachel ficou boquiaberta. Brody? O ator substituto do coprotagonista do coprotagonista? Como a Srta. M sabia da existência dele?
“Eu não tenho nada com ele! Eu mal falo com ele!”, defendeu-se. E era verdade.
“Eu sei…”, sorriu com desfaçatez, “entretanto, esposa, ele ainda pensa que você é viúva do St. Jones”.
“St. James! Por que insiste em trocar o nome dele?”, espetou, aborrecida com a frieza da mulher.
“Eu não troco o nome dele”, respondeu, séria. “Eu faço confusão. Sempre fiz. Desde aquele dia na Fabray&Advogados, quando lhe reconheci. O Russel é um chute no cu!”, explicou, “a Quinn não tem condições de lidar com ele algumas vezes e eu assumo o controle e dificulto a existência dele um pouquinho”, confessou.
“Você?… Você o quê?”, piscou, confusa com as palavras da mulher a sua frente, enquanto a lembrança do dia em que ela e Quinn se encontraram pela primeira vez após anos sem se verem lhe abarcaram…
Rachel sentiu que o coração quase lhe chegou à boca ao perceber a mulher linda e elegante que caminhava em sua direção e de Santana, pois para sair dali, Quinn teria que cruzar com as duas. E qual não foi o espanto delas ao vê-la parar no balcão e pedir um copo de água à Mary, que de pronto foi buscar. Só então a loira enxergou Santana e Rachel.
“Sant, diga-me: eu mereço o céu, certo? Porque aturar o escravocrata do Russel é demais para qualquer um”, comentou.
Rachel estava congelada. Afinal, quem era aquela parada ao balcão do lobby tão bela quanto fria?
A secretária trouxe a água, Quinn agradeceu, sacou da bolsa um vidro de compridos e tirou três, que engoliu com um só gole do líquido fresco. A latina questionou se ela estava bem.
“Uhum… Só aquela dor de cabeça maçante”, respondeu e só então firmou atenção na famosa Berry. Sorriu cheia de desfaçatez e comentou:
“Ora, ora! Mas o que temos aqui! A Sra. St. Jones!”, sorriu com descaso.
“É St. James, Fabray”, Santana a corrigiu.
“Ah, é? Então, perdoe-me Sra. St. James”, falou e se aproximou da atriz, “engraçado…”, olhou-a de cima a baixo, “pensei que fosse mais alta”.
Rachel ficou em choque.
“E que falasse também”, sorriu sem nenhuma emoção.
“Ela fala, Fabray! E você não está a sendo educada”, a latina cuidou de defender a pequena.
“Oh! É claro que ela fala. Através de porta-voz pelo que posso perceber”, concluiu. “Bom… Foi um prazer…”, estudou a cantora, “agora preciso ir. Tenham um bom dia”, finalizou e se encaminhou para a saída do escritório.
Rachel ia chama-la, mas Santana não permitiu.
A cantora perdeu a linha de raciocínio. Piscou algumas vezes, tentando corrigir a respiração que falhou.
“Eu sou ótima como Quinn Fabray, não sou?”, divertia-se a loira. “A sua cara de surpresa agora, de impacto, foi tão grande, Rach-Rach!”. Fez cara de pensativa. “Naquele dia, eu senti muito desprezo por você, Sra. St. Jones”, riu-se e voltou a chocar o corpo com o da judia, voltando a sujeitá-la contra a parede. “E Santana? Nem desconfiou… E papai Fabray?”, gracejou.
Rachel estava estupefata. Desde quando Quinn apresentava esses episódios e pessoa alguma se deu conta ou ela comentou?
“Eu só aparecia vez ou outra. Mas a sua volta, a sua insistência em ficar abelhando, rodeando como a mosca no açúcar… Quinn não aguentou, mesmo não sabendo, sem lembrar realmente. Os sonhos começaram a vir, mas ela não sabia que eram lembranças. Depois, a mente dela apagava tudo… A sua presença impede que a mente apague tudo. Então eu apareço mais”, segurou o rosto atordoado da judia entre as mãos. “Rach-Rach, você só tem que relaxar…”, murmurou, “e deixar eu fazer o resto”, escorregou o nariz pelo pescoço moreno.
Rachel sentiu-se arrepiar! Era uma tortura, mesmo sabendo que a Srta. M era maliciosa, cruel e outros adjetivos menos qualificativos. Ela sabia como provocá-la, acendê-la, turvar-lhe os sentidos.
Ela sabia como desacomodá-la.
“Você é cruel”, Rachel tentou empurrar a loira, mas esta a reteve com o peso do próprio corpo e segurou os braços morenos contra a parede.
“Não seja mal educada, Rach-Rach! Eu sou visita! E uma visita cheia de boa vontade”, sorriu, “você nem mandou servir um uísque ou aperitivo”, afagou o rosto moreno com uma das mãos e forçou a cantora a mirá-la.
“Não seja tão dura com nós duas. Dê uma chance ao amor!”, zombou.
Rachel tentou afastá-la com o braço livre, mas não foi capaz. Aquela personalidade de Quinn era áspera, dura, rija. Ela dominava por completo a cena. Ela se impunha, mesmo contra a vontade alheia.
“Acredite, Rach-Rach, quando eu lhe digo que o máximo que conseguirá de Quinn é distanciamento”, foi crua, porém com a voz macia. “Eu estou aqui para lhe fazer sorrir! Eu sei que fui dura quando brinquei de roleta-russa com a cabeça de Quinn, mas se você se comportar e ser uma boa esposa e…”, colou a boca na orelha da judia e sussurrou, “amante, eu prometo não chegar perto de uma arma e ser uma motorista cautelosa”, afastou a boca e a arrastou pela face e mandíbula de Rachel até a comissura dos lábios, onde estancou e tornou a mirá-la.
A judia estava enfrentando dificuldades para respirar e se manter firme.
A Srta. M não deveria ser levada a sério, analisou Rachel. Ela não deveria deixá-la se aproximar, tanto física como psicologicamente, porque ela tinha a capacidade de aturdir. Ela era capaz de fazer estancar o raciocínio. Ela conseguia despertar o que de mais carnal existia na cantora. Ela fazia o sexo de Rachel martelar. E era muito complicado lidar com a martelamento no cérebro e no seu ponto de prazer.
“Me deixe em paz”, pediu, lutando para omitir o desespero que a quentura do corpo daquela personalidade fria causava no seu.
“Vamos, Rach-Rach! Sabe qual a música que define a Quinn em relação a você e ao amor? Eu vou lhe dar uma palhinha. Não repare na minha voz. Desde que o colegial acabou e você partiu o coração da Quinn, nós não cantamos muito. Releve o meu desafinar”, sorriu e prosseguiu, “o nome da música é Never Again…”, roçou os lábios na face morena e sussurrou, com ritmo e rouca no ouvido judio, “I hope… I never ever love… anyone, much… again… I… can’t take it anymore… I’ve been hurt before… Never, ever… Quite like this time… Never ever…”.
O corpo inteiro de Rachel arrepiou.
“Pare…”, murmurou, num fio de voz frágil.
A Srta. M suspirou bem perto do ouvido da cantora e afastou um pouco o rosto e a mirou.
A judia tinha os olhos fechados. A respiração era controlada com inalações profundas.
“Não resista, Rach-Rach! Eu só quero sentir seu gosto outra vez… E eu sentirei”, sujeitou a face atontada de Rachel pelos cabelos com a mão esquerda e a fez mirá-la. “Debaixo do mesmo teto…”, sussurrou, “nós duas…”, mordeu lentamente o queixo da cantora, “no mesmo quarto…”, roçou os lábios nos morenos, “na mesma cama”.
A judia estrangulou um gemido.
A Srta. M continuou:
“A Quinn distante…”, roçou o nariz pelo pescoço e percebeu como a pele da cantora se arrepiou e ela retesou o corpo, “você em jejum de sexo desde a morte do St. Jones…”.
“Eu não…”, a cantora precisou se esforçar, “dormia mais com o Jess…”.
A loira estancou, franziu o cenho e com olhar de “tá falando sério?” encarou a morena, que mal respirava, ainda sujeitada pelos cabelos.
“Sério?”, riu e passou a língua pelos lábios, “então você é quase virgem?”. Balançou a cabeça em negativa e continuou, atroz:
“Eu já não posso afirmar o mesmo sobre a Quinn. Sabe como é…”, passeou os olhos verdes e frios pelo rosto moreno, “a Alex era uma namorada que gostava de provocar. E a Quinn, mesmo quando não estava bem, não se eximia de aproveitar o corpo e o afeto que a namorada oferecia. Já você…”, negou com um balançar de cabeça, “não apetece a Quinn”.
A cantora não conseguiu conter as lágrimas e elas escorreram.
A loira, séria, observou-lhe o pranto sentido e silencioso.
Com a mão livre, ela passou o polegar sobre a bochecha da judia e recolheu um pouco da lágrima. E levou o dedo à boca, provando-a.
“Eu disse que beberia o seu pranto”, murmurou, soltou a morena e se afastou.
Com frialdade, informou:
“Além de morar comigo, vou cuidar de colocar uma aliança no seu dedo. E, claro, no de Quinn também. É hora de saberem que você está comprometida até a ponta dos cabelos”, desdenhou.
“Você acha que consegue me magoar?”, indagou, sem desviar os olhos aguados dos verdes frios. “Você acha que consegue me magoar mais? Eu já me arrependi do que fiz! Acredite ou não, eu amo a Quinn e vou continuar ao lado dela. A menos que a sua covardia, Srta. M, acaba com a vida dela! Por que você é isso: co-var-de!”, afrontou e empurrou o corpo da loira para mais longe.
A personalidade fria quedou-se de pedra. Ela não esperava pelo arroubo de Rachel. Pelo ataque a fim de se defender.
“Eu amo a Quinn e repetirei isso, mesmo que você aponte uma arma não na cabeça dela, mas na minha, a fim de tentar me fazer retirar a minha palavra, o meu sentimento por ela! Eu amo a Quinn!…”.
“Mentira!”, a Srta. M gritou e empurrou, com violência, o corpo pequeno de Rachel contra a parede, tirando dela um gemido de dor. “Você nunca a amou! Você nunca me amou! Você mentiu o tempo todo! Brincou comigo o tempo todo! Eu sempre fui um objetivo para você, uma vitória particular! A perdedora da escola era a amiga da head cheerio! Namorada da head cheerio! Eu fui apenas uma curiosidade e um troféu para você! Diga-me: foi bom rir de mim junto com o seu amante?”, os olhos verdes faiscavam. Mas, para espanto de Rachel, não faiscavam de raiva. Era mágoa! Toda a mágoa escondida e resguardada pela Srta. M estava ali.
“Viva com isso! Eu amo a Quinn!”, insistiu e escutou o murmurar dolorido da Srta. M:
“Você mente bem… Quase me convenceu”.
“Eu não menti”, insistiu. Mas, para sua surpresa e a das pessoas que estavam naquela casa e escutaram o que se tornou um embate entre as duas mulheres e foram acudir, a Srta. M já não estava. Era Quinn, apoiada sobre uma Rachel acuada à parede. Afastou-se devagar do corpo judio e tentou se conectar com a realidade.
Primeiro: onde estava?
Segundo: o que Rachel fazia diante dela?
Terceiro: o que aconteceu entre a consulta com Eleanor e este momento? Ainda era hoje? Ou era outro dia? Amanhã, talvez?
Mirou a cantora e piscou algumas vezes, atordoada.
“Quinn?”, a judia murmurou o nome da esposa.
Os olhos verdes pousaram sobre os marrons e estavam completamente aturdidos.
Com atenção e mantendo a devida distância entre os corpos, Rachel murmurou:
“A Srta. M esteve aqui… Nós discutimos e ela…”.
“Estou na sua casa?”, mirou-se e, em seguida, olhou para as faces preocupadas de Hiram, LeRoy – que tinha o neto nos braços –, Maria e Holmes.
“Está”, respondeu, buscando calma dentro do seu mais profundo rincão. Ainda sentia a excitação causada pela maneira como a Srta. M a tomou. Mesmo sabendo que não era o que deveria acontecer. Mas não era fácil! Ela sabia como fustigar-lhe o corpo, como se lhe conhecesse todos os segredos carnais e como atiçá-los.
“Hoje… Eu fui a uma consulta com a Eleanor? Quero dizer… Eu estou meio confusa… Quanto tempo eu estive fora?”, sussurrou, perceptivelmente aterrada.
“Sobre a Parker, sim. Hoje você esteve com ela”, a cantora mordeu o lábio e pensou que a situação dela e de Quinn, sob o martelo sentencioso da Srta. M, não era confortável a nenhuma. “Sobre quanto tempo está fora, eu não sei. Ela chegou vestida de você… Não entendi a roupa, mas você costumava fazer isso… Quero dizer: sair de pijama e sobretudo. E pantufas… À noite, quando eu lhe pedia um sorvete ou…”, estancou diante do olhar atento de Quinn, com uma expressão atordoada na face. Talvez divagou demais. Ou Quinn tentava colocar sob ótica a importância de uma fato que ela não recordava, era-lhe indiferente. Rachel não sabia.
Holmes mirava a interação entre as mulheres, que agora confabulavam em tom de voz baixo e percebeu que Quinn parecia desconcertada. E Rachel tentava manter o equilíbrio.
“Dra. Fabray”, manifestou-se, “pediu que eu lhe trouxesse até a Srta. Berry. Não sabia que haveria um desconforto entre vocês”, esclareceu. E se perguntou: em que ponto as duas se desentenderam e começaram a discutir? Quinn não aparentava que perderia a compostura quando saíram de casa e menos ainda quando chegaram até a casa de Rachel. Aliás, ela quase nunca a perdia. Era uma rareza de atitude!
O cuidador procurava entender o que não conseguia (pois Quinn era pertinente no tema de que o casamento era apenas uma maneira de manter Rachel a rédeas curtas e nada mais – o que, para Holmes, configurava que não haveria debates ou discussões de cunho afetivo, porque o afetivo não era a razão de tal enlace, a princípio, mas somente a racionalidade de uma, talvez, vingança mal justificada e não efetivada como os planos iniciais da advogada).
A cantora mirava a loira com atenção.
“Quinn, vamos sentar um pouco”, falou e passou o braço pela cintura da loira, que se deixou levar até o sofá e ali ser colocada com esmero de cuidado pela judia, que se colocou ao lado dela e indagou, séria:
“Qual a última coisa que se lembra?”.
Quinn tornou a face para a morena e quedaram-se frente a frente, próximas e prendeu suas orbes nas de Rachel antes de pronunciar:
“De estar no consultório de Eleanor, falando sobre o casamento”, murmurou. Respirou fundo e, centrando-se quando isso parecia impossível, falou em tom só para a judia escutar, “o que ela queria?”.
A cantora se distraiu na face atontada de Quinn, que ainda assim continuava linda. Murmurou:
“O quê?”, a pergunta a tirou do transe.
“O que a Srta. M queria”, a advogada repetiu a questão e desviou os olhos da face escrutinadora da Berry, que respondeu, ainda zonza com o que acabara de acontecer:
“Ela quer que anunciemos que nos casamos e que nos relacionemos como manda o protocolo do casamento, com todos os direitos e deveres…”.
“Direitos e deveres?”, o cérebro da loira ainda não estava atinando.
Rachel sentiu-se tola ao perceber que suas bochechas queimaram ao explicitar:
“Sexo… Ela quer que tenhamos um casamento com sexo”, quase sussurrou o final. Sentia-se embaraçada.
“Oh!”, a loira exclamou e suspirou. Isso era, realmente, embaraçoso. Morar com Rachel não seria uma ideia boa. Não mesmo. Não confiava nela. E não se deixaria para ela. O casamento era para cerceá-la e não para mantê-la perto e nem com tanta proximidade.
“Eu sei que você acha que essa não é uma ideia boa”, a atriz não era tola e nem se enganava.
“Não. Eu realmente não acho”, confirmou e fez as palavras da Srta. M que disse que ela seria errática e distante, ainda mais fortes para a morena.
“Então, o que sugere? Ela não quer ponderações, ela não está aberta a negociação, Quinn. E eu não sei, realmente, como agir. Já é complicado interagir com alguém tão… Tão magoada”, concluiu e espantou a loira.
“Magoada?”. Esta era a última coisa que sentia sobre Rachel. Apesar das lembranças, ela era desconfiada, sim. Não estava disposta a dar mais abertura para a cantora, até porque ainda não tinha muito claro o que sentia por ela. Sabia que a amou. Que surtou por ela. O que era uma razão para, apesar da união, não se deixar levar pelos encantos dela. E Rachel realmente encantava… Entretanto, pelo que escutou da Srta. M, ela não parecia uma personalidade que guardasse mágoa.
“Ela retém as suas lembranças mais doloridas, Quinn”, sussurrou, apenada. “E eu sinto muito por isso”, lamentou.
Holmes, Hiram, LeRoy e Maria observavam aquela interação à boca pequena entre as duas mulheres. Quinn lhes parecia estranha. Ela aparentava, agora, estar decepcionada com o fato de ter perdido a linha e gritado com Rachel com um tom carregado de ressentimento.
“Teremos que analisar isso de maneira mais equilibrada”, Quinn desviou os olhos dos olhos chocolate e centrou-os em algum espaço vazio, parecendo perder-se em si mesma.
“Quinn…”, a cantora murmurou, ansiosa por lhe tomar uma das mãos, tocá-la de alguma maneira.
“Eu lamento o que houve”, a advogada falou, distante. “Não consigo, realmente, controlar a situação. Eleanor explicou que este será um longo caminho”, procurou justificar o que não lhe tinha sentido, pois não foi ela quem esteve com a judia.
Rachel respirou fundo, tomando coragem. Ela queria tentar. Realmente tentar. E, se dessa vez não desse certo, ela apenas continuaria casada com a loira, entretanto, procuraria se proteger ao máximo dela. Estava ficando cansada, esgotada. Amava Quinn, e queria que ela soubesse. E não seria em debates com as personalidades alternativas que conseguiria. Haveria enfrentamentos, sem dúvida, mas se Quinn a escutasse, se Quinn aceitasse a sua proposta…
Olhou para a loira e, devagar e sob os atentos olhares silenciosos dos que miravam a cena e não entendiam o que acontecia, esticou devagar a mão até a de Quinn e a tomou, com cuidado.
O toque despertou a loira que a mirou com esvaziamento.
“Quinn, este é um momento muito estranho nas nossas vidas…”, começou e estancou quando viu e cenho franzido da advogada, “eu quero dizer: estamos casadas porque você está zangada com o que eu lhe fiz”.
“Não! Eu não estou…”, a ex head cheerio se defendeu.
Rachel conteve um sorriso e perguntou:
“Então por que planejou tanto o nosso casamento como forma de vingança? Só as pessoas zangadas ou magoadas fazem isso”.
Quinn piscou algumas vezes. Estava zangada com Rachel Berry? Magoada?
A cantora continuou, com uma calma de quem não tinha o que perder, justamente por não ter:
“O que aconteceu entre a gente… Isso foi há quase seis anos, Quinn! E eu, em nenhum momento, deixei de pensar em você”.
“Eu não pensei em você”, Quinn disse o óbvio e foi tão idiota o comentário e a pressão era tanta que Rachel estalou em gargalhada.
“Você tem… Amnésia”, a judia conseguiu exclamar entre o estouro de risos.
A loira meneou a cabeça. Que comentário tonto! E, sob o arrebato das gargalhadas da judia, riu também.
Era ridículo!
Tudo aquilo era ridículo!
O casamento era ridículo!
Tudo o que fez foi tão ridículo! Tão sem razão e sem nexo! Tão confuso e desaguava nisso: um estalo de risos acompanhados de lágrimas e dores abdominais a causa das gargalhadas que escapavam quase numa histeria.
Aos poucos, e sob os atônitos olhares, as risadas cessaram e as duas mulheres, uma ao lado da outra, largadas sobre o sofá, com as mão dadas, miraram-se.
Soltaram as mãos como se tomassem de um choque e se recompuseram quase como uma o espelho da outra.
Rachel tomou um respiro e continuou:
“O que eu quero dizer, Quinn, é que as pessoas mudam com o passar do tempo. Nós vamos amadurecendo, vamos nos flexibilizando conforme a situação e o contexto… Eu não conheço você!”, concluiu, triste.
Quinn enrijeceu. Como assim, Rachel não a conhecia?
“O que está querendo dizer com isso? Nós vivemos juntas no passado, certo? Minhas lembranças estão encharcadas de você!”, falou num tom frio e pragmático.
A cantora assentiu e continuou:
“Eu sei disso. E é disso que eu estou falando! Suas memórias estão encharcadas de lembranças de quem eu fui e não de quem eu sou agora”.
A loira perdeu a lógica. O que Rachel estava fazendo? Como replicar?
A morena continuou sob o atento e desconfiado olhar verde:
“E eu também não conheço quem você é agora, Quinn, após o acidente e todo o tempo que passamos distantes. Então, eu pensei com os meus botões…”, tomou coragem, “que seria uma boa ideia nós nos conhecermos. Eu ainda me chamo Rachel Barbra Berry. Eu estudei com você. Eu sempre quis me aproximar de você e eu sempre achei você a garota mais bonita que eu pousei os olhos. Eu me apaixonei por você. E eu também traí você, Quinn. Entretanto, eu não sou a mesma pessoa. Há fatos e rasgos de personalidade em mim que podem não ter mudado. Mas abrandaram com o tempo e as experiências vividas, com o tratar com outras pessoas, outras culturas. Estamos sempre em mudança, Quinn. Eu só quero que você me deixe conhecê-la. E que queira me conhecer. Você aceitaria me conhecer, Quinn? Saber quem eu sou, porque quem eu fui já é notícia velha. Assim como quem você foi também é notícia dormida. Nós nunca conversamos de fato sobre coisas cotidianas, sem que eu estivesse implorando pelo seu perdão. E esse eu sei que já não tenho”.
Quinn aterrou-se diante da certeza na voz da cantora. Como ela poderia ter tanta certeza?
“Assim como você tem amnésia sobre mim, eu também tenho sobre você”, Rachel observou.
“O quê?”, a loira estava tentando acompanhar a linha de raciocínio da morena para contestar.
Rachel suspirou e tocando de leve a ponta dos dedos sobre a mão da loira, que se retesou e ergueu a sobrancelha, prosseguiu:
“As pessoas me falam sobre quem você é. Como é fria e distante! Mas elas nunca me falaram qual a sua cor favorita. Eu sei a cor favorita da Quinn por quem eu fui apaixonada. Mas e a sua cor favorita, Quinn? Ainda é a mesma? Você ainda gosta de sorvete de baunilha?…”.
“Eu…”, Quinn precisava fazê-la estancar. “Isso não é importante, Rachel”, justificou.
A morena não concordava:
“Quinn, se você quer se vingar de mim, não seria um pouquinho justo comigo me conhecer primeiro? E não seria ruim eu conhecer o meu carrasco. E você não tem nada a perder! Porque você não me ama mais e nem amará. Eu sei disso. A única pessoa magoada aqui, agora, sou eu, que estou recebendo toda a sua mágoa com a Srta. M. E com o contrato de casamento. Com Judy e Russel que, certamente, lutarão por sua tutela nos tribunais. Você já me mostrou o que fará. A Srta. M até já provou das minhas lágrimas que ela prometeu que faria escorrer até secarem”.
Quinn estarreceu. O quê?
“Não haverá demanda nos tribunais”, falou.
Rachel sorriu incrédula:
“Você pode garantir isso?”.
A loira calou. Não. Ela não poderia. E se aborreceu por isso.
“Até os condenados no corredor da morte têm direito a um último pedido”, a cantora murmurou.
Quinn achou de mau gosto a comparação.
“O meu é que você me deixe conhecê-la e que me conheça. Você estará segura, Quinn. É blindada contra sentimentos!”, Rachel sabia que, depois do que viu nos olhos da Srta. M esta poderia não ser uma verdade absoluta.
Quinn queria entender.
“Não é nada complicado”, Rachel esclareceu, “vamos nos conhecer outra vez! Agora, neste tempo”.
A advogada mirou desconfiada.
Rachel estava propondo um encontro?
“Meu doce vampiro
Na luz do luar
Me acostumei com você
Sempre reclamando da vida
Me ferindo, me curando, a ferida
Mas nada disso importa
Vou abrir a porta
Pra você entrar
Beija a minha boca
Até me matar de amor!”.
— Rita Lee em Doce Vampiro—
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