Sine Cordi
84 CAPÍTulo 84 - םד
Notas iniciais
“Bem-vinda ao meu mundo
Você não quer entrar?
Milagres, eu acho,
Acontecem de vez em quando
Entre no meu coração,
Deixe as preocupações para trás,
Bem-vinda ao meu mundo
Criado pensando em você.”
— Elvis Presley em Welcome To My World—
Rachel sorriu e Quinn riu-se.
Aquilo não poderia ser sério! Não conheceria Rachel. Já sabia bastante dela. Sabia o mais importante.
“Você não tem o que perder”, a cantora insistiu.
E a advogada se questionou. Ela realmente não tinha o que perder?
“Aliás, você só tem a ganhar”, Rachel continuou, numa prece interna de que a loira, que parecia analisar o pedido, cedesse, “haverá mais chances de você cuspir várias outras vezes o quão desleal eu fui; como eu parti o seu coração. Como eu lhe decepcionei”.
Quinn meneou a cabeça em atontada negativa.
“Isso é…”, começou a falar, mas a judia a cortou:
“Um pedido humilhante se você assim quiser considerá-lo. É a única coisa que eu lhe peço, Quinn. Conheça-me. Deixe-me lhe conhecer”.
“Eu lamento sobre a Srta. M e as coisas que ela lhe fez, Rachel. Eu estou tentando ficar bem. E não quero ficar perto de você”, foi taxativa.
Rachel meneou a cabeça. Por que Quinn era tão teimosa? Sorriu pequeno e disfarçada antes de continuar:
“Eu sou a causa do seu mal”, murmurou, sincera, “então, se não quer me conhecer, se me quer longe, o que faz aqui justamente agora? Por que não se afasta de uma vez? Se eu lhe faço mal, por que me manter por perto? Por que do casamento? Você não quer saber sobre a verdade dos meus sentimentos, então, saiba a verdade sobre mim. E deixe-me saber sobre você”, mirou os olhos verdes atônitos.
“Quinn?…”, murmurou o nome da loira, que parecia perdida com a proposta.
“Eu…”, a loira estava surpresa, “eu preciso concatenar as ideias primeiro, Rachel”, falou, sem conseguir sair do estado de atordoamento que a morena lhe causou. Sentia-se um caos de confusão agora.
“A Srta. M disse que moraremos juntas”, pensou que não contou esse fato para a loira.
E teve certeza ao notar a expressão estatelada de Quinn.
“O.. quê?”, a loira deu um sussurro truncado.
“O que eu disse! Suas personalidades lhe trazem para mim. Seja por ódio ou amor. Trazem. Por que se negar a me conhecer, Quinn? Talvez… Talvez nos ajude. Talvez lhe ajude com as personalidades alternativas… Eu não tenho certeza, mas eu não sei o que mais de ruim pode lhe causar”.
“Morar juntas?”, a advogada soltou, como se tivesse sido condenada à morte lenta.
Rachel quase rolou os olhos, mas se conteve. Entretanto, não calou:
“Acho que acontecerá desta maneira”, começou, muito satisfeita com a explicação, “você apagará, tipo, alguma das suas personalidades tomará o seu lugar, e quando você voltar, estaremos em algum lugar exótico destinado a nossa lua de mel”.
Quinn gemeu e assentiu com o olhar aturdido, como se levasse uma tijolada de realidade na cabeça. Murmurou, antes de se aprumar:
“Eu vou falar com Eleanor… Saber o que ela pensa a respeito de nos conhecermos…”.
Rachel segurou o ar, emocionada pelo fato de Quinn, pelo menos, pensar no assunto.
Observou a loira se olhar e franzir o cenho, antes de murmurar em aborrecimento:
“Deus! Eu nunca saio à rua vestida assim… E essas pantufas?…”, e estancou, sentindo o olhar moreno sobre si.
Rachel suspirou e, com muito tato, perguntou:
“Há quanto tempo você sabe das personalidades?”.
Os olhos verdes correram para os marrons e a loira emudeceu diante de uma Rachel Berry que parecia lhe conhecer a alma.
Desviou os olhos, retesou a postura e respirou fundo. Este era um assunto que sempre quis evitar. Que nunca deveria via à tona.
“O fato, Rachel”, começou, tão seca e distante quanto lhe foi possível, “é que este é um tema que eu prefiro não discutir”.
“O fato, Quinn”, a morena estava se enchendo de uma coragem que não sabia de onde vinha, “é que este é um tema que veio à tona. E, como eu já disse antes”, tinha tanta certeza do que dizia, “eu sou a causa de ele vir à tona. E estamos sentadas agora, na minha sala”, lançou um olhar para os pais, Holmes e Maria para que as deixassem a sós. Um a um foi saindo sem que a loira se desse conta, presa às palavras de Rachel:
“Porque uma de suas personalidades, a sua parte mais danificada, a que testemunhou a minha traição”, a palavra saiu com dificuldade, “vem de visita com certa assiduidade. Eu e você precisamos falar sobre isso”, o tom saiu suave, apesar de conter imperatividade.
A advogada meneou a cabeça, contrariada. O que poderia argumentar quanto a isso para se negar a uma conversação com Rachel Berry? Ela estava certa! Ela era a causa das personalidades virem. E Quinn deveria se afastar, mas era tarde. Abusou tanto de sua própria resistência emocional diante de uma mulher que deveria jazer na escuridão de sua falta de lembranças, que a força dela a estava rompendo. Essa consciência era o que mais a apavorava. Ela tentava, mas não conseguia mais se manter à distância, porque as outras personalidades queriam Rachel, de uma forma ou de outra. Uma, a personificação do afeto que um dia lhe teve. A outra, a personificação da dor e decepção que a traição lhe causou. E havia ela mesma, Quinn Fabray, uma terceira pessoa, que estava tentando se manter sã entre os apagões a que era submetida todos os dias e que se aprisionou à mulher que deveria manter à distância e não conseguia. E não entendia a razão disso. Rachel Berry tinha alguma coisa que ela, Quinn, não compreendia. Era uma coisa que fazia com que ela, Quinn, dona – ainda – de suas faculdades mentais, apesar de tudo, não alcançava entender. Era como se Rachel guardasse um segredo. Um segredo que dizia respeito a quem ela, Quinn, foi. O mais inconcebível era que a Quinn que ela foi era irrelevante! Ou deveria ser, mas essa mulher, essa Rachel Berry, apareceu da escuridão para tirar-lhe o prumo. Ela era uma curiosidade à parte! Um pequeno bauzinho que continha um espelho no fundo e, quando Quinn olhava para dentro, via-se a si mesma refletida. Mas tinha uma coisa naquela imagem refletida que tinha um quê de difuso que fazia com que desejasse saber quem foi aquela mulher refletida e que se parecia a ela. Quem foi a Quinn que tinha um montão de câmeras fotográficas guardadas no porão da casa de Lima e várias fotografias penduradas em paredes de grandes colecionadores e alguns museus pelo mundo? Colecionadores e pessoas que, quando por acaso a encontravam no tribunal ou na rua, olhavam-na com confusão. Era como se ela lhes espantasse de alguma forma. Ela via em seus olhos o espanto. De fotógrafa famosa sensível e cool para advogada criminalista famosa por destroçar o oponente de maneira fria e estudada. Realmente, analisando friamente, era raro. E era aí que Rachel Berry entrava (para a inquietação de Quinn), porque a pequena judia que lhe jurava amar lhe fazia ter uma sensação morna de nostalgia. Nostalgia! Como poderia sentir isso se não havia memória? Se esta eram picotes, uns desgarradores, outros nem tanto, de lembranças que não sabia se eram verdadeiras ou um invento de seu cérebro? E, contra toda essa lógica, aparecia, novamente e sempre Rachel. Ela era sua curiosidade. Havia uma coisa dentro dela que era de Quinn, mas Quinn não sabia. E isto a fascinava e inquietava. Como agora. Porque queria doentiamente descobrir o que era e tomar para si.
Recostou-se largadamente no sofá, cansada de duelar consigo mesma. Rachel estava certa! Ela precisava saber! Respirou fundo e começou a falar, com voz apagada e distante:
“Eu não sei ao certo quando começaram…”, mirava o vazio, “eram pequenos apagões e, como eu tenho crises de ausência vez ou outra, eu não discernia entre uma e outra. Até que uma vez o Russel falou sobre a época em que eu estudava no McKinley, algo sobre eu ter sido animadora e quantos prêmios eu ganhei por ser capitã. Acho que isso foi há uns quatro anos, não sei bem, nós estávamos em uma das aborrecidas festas de fim de ano promovida pela Fabray&Advogadas para ‘sócios, amigos e clientes’”, desdenhou, “uma maneira de o Russel puxar o saco dos poderosos dessa e outras cidades, quando eu apaguei. Eu me sentia desenfocar um pouco da realidade, como se estivesse em dois pontos ao mesmo tempo e depois, nada. Quando voltei, eu estava na sala do Russel e havia acabado de mexer no computador pessoal dele. Eu não dei peso ao caso e saí. Só depois descobri que ‘eu’”, fez aspas com os dedos, “apaguei toda as iniciais de uma defesa que ele estava estudando para um julgamento importantíssimo! Ele…”, sorriu com um pouco de divertimento, referindo-se ao pai, “ficou tão puto da vida que gritava comigo e ficava vermelho, as veias do pescoço saltavam. Eu me perguntava se ele não teria um infarto”, murmurou, agora em tom que levava uma pitada de curiosidade, “eu assistia a toda aquela cena dele calada, o que o irritava mais, e achava tão patético e, ao mesmo tempo, com um prazer de vê-lo realmente puto por alguma coisa que eu fiz, mas não faço ideia de como. Eu sei apagar arquivos, obviamente, e eu sou a sócia majoritária da Fabray&Advogados. Eu era a única que poderia ter acesso à sala do Russel, porque é minha sala de fato e ele a ocupa porque eu me acomodei…”, calou por alguns instantes, “enfim, então eu soube que algo não estava bem. Eu não me lembrava de ter apagado a argumentação do Russel. Mas eu fiz isso. Depois aconteceu outra vez, com Judy. Ela falava sobre o quanto o marido de Frannie não encontrava trabalho e que ela estava preocupada com o pagamento da hipoteca da casa e da escola das crianças e, de novo, eu senti que estava em dois lugares e, após essa sensação, eu não me recordo do que aconteceu e nem quanto tempo durou. Quando me voltou a consciencia, minha mãe me olhava com os olhos arregalados e disse: ‘isso que você falou foi horrível! Dizer que até pagará a escola das crianças, mas que fará questão de comprar a casa de Frannie, sua irmã, quando for a leilão para alugá-la, enquanto ela vem morar aqui com o Josh e as crianças foi’… Judy não terminou a frase”, explicou, “ela me olhou com horror e, depois, eu sei que havia dor ali. Eu só não sei se por Frannie, ou por mim. Eu nunca sei, porque eu sou antipática a todos eles”, riu com suavidade, apesar do humor, “Judy corre de mim como o diabo corre da cruz. Frannie me olha com uma desconfiança palpável. Josh… Ele me olha sem compreender direito, porque quando ele chegou à vida de Frannie e à família, eu já estava assim, eu já estava em casa, eu já estava formada em direito e montando a Fabray&Advogados. Ele não me conheceu antes do acidente. Ele apenas ouviu falar de como eu era… Não eram crises longas”, justificou. E, após um suspiro cansado, continuou, para surpresa de Rachel, que pensou que ela havia encerrado o assunto:
“Eu me lembro de uma outra vez que Holmes me olhou com espanto porque eu entrei dentro do carro com bolsas de uma loja alternativa cheia de camisas de malha com estampas com motivos transcendentais e surrealistas. Esse não é bem o meu estilo de roupa. Eu sou bem formal. Eu, diante do espanto dele, e do meu também, apenas mandei que ele não falasse coisa alguma e dirigisse. Ele riu e não deu importância. Eu até usei algumas dessas camisas em dias que só quero usar calças de flanela e meias. Ele deixou passar e eu encontrei uma lógica para a compra das blusas. Não eram largas, mas davam certo no cumprimento para o caimento de minhas calças de flanela e eram muito confortáveis…”, divagou, distante e fria, “depois, não aconteceu mais. Bom, exceto pelas pantufas… Eu estava na hora do almoço de um julgamento e, quando voltei, estava com seis pares de pantufas… Coloridas e… Fofas. Quase nunca uso, mas daí, vez ou outra, eu acordava pela manhã e tinha todos os pares espalhados pelo quarto, como se alguém as tivesse usado e não as guardou. Agatha não usa pantufas. Holmes também não usa pantufas. Eu comprei as pantufas, mesmo que não me recorde, e eu – obvio – usei as pantufas, mais de uma vez! E não me lembro! Inclusive há um par perdido…”, murmurou.
Rachel se perguntou quantas vezes as personalidades se mostraram em algum momento, e não poucos, que Quinn precisou guardar os pares de pantufas, organizando-os, que era consciente de que faltava um par. Falou, em tom envergonhado:
“Você esqueceu aqui”, não conseguiu evitar morder o lábio ao lembrar daquela noite. Quinn estava tão… Tão linda e tão doce, tão irresistível que não resistiu. Suspirou. Apesar de saber que não foi um ato bonito de sua parte fazer amor com ela naquela circunstância, não conseguia negar que foi bom e especial. E que queria mais! E, se pegou pensando em como seria o sexo com a Srta. M. Ela era tão brusca e tão possessiva ao mesmo tempo! Ela beijava com fome de ódio e desejo corrompido. Ela era crua nas palavras, porque ela queria ferir. Então, ela não faria amor. Ela foderia. Rachel sabia muito bem disso… E isso era instigante e…
“Doentio…”, murmurou sem querer.
Quinn piscou algumas vezes, como se saísse de um transe e mirou a morena ao seu lado, que tinha a postura ereta, quase rígida. E pensou se a cantora estava fazendo algum tipo de juízo de valor sobre si mesma e – até – ela, Quinn. Não era inocente. Uma de suas personalidades passou uma madrugada com Rachel Berry. O que fizeram? Conversaram sobre os velhos tempos? Aham…
“Eu imagino que deva ser meio difícil para você, Rachel”, falou e havia um tom de autossuficiência em sua voz que fez a judia rir e comentar:
“Deus! Que ego! É maior que o meu!”.
A loira desviou o olhar e murmurou, outra vez distanciando-se:
“Eu estou cansada, Rachel. Eu levarei em consideração o que me disse… Sobre conversarmos”.
Uma pergunta escapou dos lábios judios de maneira curiosa, cuidadosa e realmente preocupada:
“Por que nunca falou sobre isso com Eleanor ou Holmes? Por que escondeu esses apagões, Quinn?”.
A loira escorregou os olhos pela face da morena de maneira rápida e suspirou. Analisou a pergunta da única maneira que conseguia e descobriu que o que a fez calar foi um sentimento: medo.
“Porque…”, Cristo, pensou a loira, era tão difícil admitir que sentia medo e parecer débil diante de Rachel, que meneou a cabeça e pensou em como evadir a pergunta, porque era capaz de sentir a mirada de Rachel sobre ela, sem piscar. Ela a inquietava tanto! Ela lhe tirava de sua zona de conforto com todas essas perguntas que, por agora, não se sentia capaz de responder. Murmurou um “sinto muito” que Rachel chegou a escutar e pôs-se ereta no sofá e fincou os olhos frios sobre a morena, antes de verbalizar:
“Em nossos encontros, não espere conversas profundas. Isso aqui, agora, foi só porque você realmente precisa ficar situada quanto a esse assunto. Sobre as personalidades…”.
“Eu li que isso, essas personalidades, são uma habilidade que algumas pessoas têm…”, devagar, acercou-se à loira e juntou seus braços, sem importar o quanto de roupa a loira levava em cima. Ela só queria invadir o espaço pessoal de Quinn. Fazê-la senti-la perto e confiável. Continuou, após uma respiração:
“Uma habilidade que algumas pessoas têm de se dissociar do evento que lhe causa dano. Outra personalidade aparece e recebe toda a carga, enquanto você esquece. Eu lamento ter sido a causa de essa sua…”, riu, triste, “habilidade se manifestar”.
“Oh!”, Quinn se pegou surpresa, “então você está se informando sobre o caso…”, a pergunta saiu reticente.
Rachel assentiu e a mirou com sincero afeto:
“Eu sei que você não queria isso, Quinn. Talvez, apenas talvez, se eu soubesse que me manter longe de você não lhe faria sofrer, eu me omitiria de você. Eu apenas lhe observaria de longe. Eu teria crises silenciosas de ciúmes se lhe visse com Alex. Eu assistiria aos seus julgamentos com discrição e silêncio, orgulhosa de saber que você ganharia a contenda. E eu seguiria sendo a melhor amiga do meu ex-marido e ele, talvez se estivesse vivo, seria o meu melhor amigo. Eu veria o meu filho crescer, e ele me daria a força necessária para ficar um ano mais longe de você”.
“Até o fim dos seus dias?”, a loira perguntou, sem saber a razão.
A judia sorriu com olhos aguados e assentiu.
“Até o fim dos meus dias, Quinn”.
Limpou as lágrimas que escorreram e respirou fundo, enquanto se lembrava de um domingo de primavera, à tarde, ela e Quinn, no apartamento da loira.
“Sabe, Rach?”, ouviu a fotógrafa perguntar, que, sabia, sentia o seu corpo quente e nu se acomodar sobre o dela. Haviam acabado de fazer amor, e Rachel tinha um sorriso tonto no rosto, “quando eu penso em como éramos na escola e… E sinto essa coisa boa que é estar com você depois de fazermos amor…”, sentiu quando Quinn lhe beijou os cabelos. Rachel adorava quando Quinn fazia isso e depois ela aspirava o odor de seu xampu e soltava um gemido de satisfação. “Eu estou feliz por ter tido coragem de reconhecer e lhe contar sobre o meu amor. Eu só quero…”, Rachel sentiu o abdome da namorada inflar antes de ela exalar e completar, “eu só quero que isso dure até o fim dos meus dias”.
“Até o fim dos seus dias?”, perguntou curiosa e um tanto, não se deu conta, incrédula.
Quinn a estreitou mais e sorriu, suave:
“Sim. Até o fim dos meus dias, Rachel”.
“Por quê?”.
A pergunta fria da advogada a fez voltar da recordação.
Encarou os olhos verdes e passeou os castanhos sobre a face bonita da esposa.
“Porque eu nunca serei capaz de amar pessoa alguma como eu amo você. Porque eu não fui capaz de amar o Jesse da maneira como deveria ser. Porque eu só sei que eu nunca vou amar alguém como eu amo você. É fácil de entender se você for capaz de acreditar em mim. Mas, se não acredita, você vai queimar muitos neurônios tentando entender a lógica da coisa. Porque amor é uma coisa doida! E o meu por você foi, é e será sempre… Único. No sentido mais relevante e puro da palavra, se o sentimento para você for subjetivo demais para uma compreensão mais profunda”.
Quinn franziu o cenho antes de perguntar:
“Isso foi sarcasmo?”.
A judia meneou a cabeça. Como Quinn poderia ser tão tonta? Tão incapaz de entender que era só amor! Um sentimento! Quinn era inábil para sentir e isso seria uma batalha e tanto! Uma hora ela teria que entender! Mas… Entender não adiantava. Quinn precisava sentir.
Suspirou e respondeu:
“Eu não fui sarcástica, Quinn. Mas eu e você somos conscientes de que a sua capacidade de se apegar se foi com a sua memória…”, Rachel emudeceu, matutou e pensou em murmúrio para si mesma, “embora pequenas partes estejam voltando…”, mordeu o lábio inferior para conter um sorriso de alívio mesclado com esperança. Continuou, tentando conter o quão acelerado lhe batia o coração dentro do peito:
“Eu sei que você é uma pessoa muito lógica e acho que sentimento é o oposto da lógica. Então, falar de amor com alguém que não sentiu amor e é antissocial me faz pensar que você não possa alcançar o sentido de ‘sentir amor’, haja vista que não amou pessoa alguma”, esclareceu.
“Eu amei você”, a loira lembrou. Rachel tinha amnésia também?
Rachel, por sua vez, sentiu-se surpreender e o coração rateou dentro do peito. Era verdade. Quinn a amou… Amou!
“Mas não ama mais. Nem se lembra disso”, atestou, com obviedade.
A loira suspirou e contraiu a mandíbula. Mirou o nada e com voz calmada e fria, falou:
“Se amar alguém significa acordar no meio da madrugada, após um sonho ruim com essa pessoa, e sentir que alguém magoou tão profundamente o seu coração que a dor dele é aterrorizante, como se alguém o tivesse ferido com uma seta fina e venenosa, talvez eu alcance o que você fala sobre a subjetividade do sentir. Porque é uma dor lancinante, no meu coração de pedra, de alguém que eu nem sei quem fui, mas que já teve o coração magoado. Para mim não tem lógica. Mas para o seu pretenso subjetivo amor, talvez eu saiba a resposta”.
Rachel perdeu o ar. E ficou como se fosse de pedra.
O olhar frio a alcançou e um sorriso de canto dançou nos lábios rosados de Quinn.
“Eu sempre posso surpreender, percebeu?”, troçou.
Rachel assentiu, e sabia que o deboche de Quinn era só uma maneira de afastamento emocional. Se ela ferisse, afastaria a pessoa ferida. Putz! Pensou Rachel. Ela já me fez e falou cada coisa que essa não faz diferença. Estava ficando imune ao sarcasmo da loira?
“Aham…”, sorriu, concordando com a loira. E insistiu, certa de que conseguiria o que desejava, mesmo que Quinn apenas ficasse olhando para a cara dela, muda:
“Eu vou esperar você me telefonar”. E não conseguiu conter o meneio de cabeça e um sorriso:
“Ou esperar a Srta. M vir me visitar, ou a Quinn que não é você. É sua versão com açúcar… Eu ficaria diabética por ela”, confessou e a loira abriu os olhos como pratos.
Rachel se deu conta do que falou e baixou os olhos para o chão e prendeu a atenção nas pantufas da loira.
Quinn murmurou, no tom menos tosco que conseguiu:
“Está tudo bem, Rachel. Eu acho que você pode me contar sobre essas personalidades da próxima vez. E eu acho que Eleanor não irá se opor a que eu e você possamos…”, meneou a cabeça. Possamos o quê, Quinn? Indagou-se.
“Possamos…”.
“A gente só vai se conhecer”, a cantora simplificou com um sorriso doce e de felicidade que não dava para esconder.
“Exato! Sem eu precisar me preocupar com quem eu fui”, falou, com o cenho franzido os lábios também.
“E sem se preocupar com quem eu fui também. Se acontecer de você lembrar alguma coisa, até poderemos falar sobre o assunto, se você quiser. Mas a ideia é tentar fazer novas recordações. Serão recordações diferentes, mas serão coisas que você não se esquecerá. Porque eu não vou a lugar algum… Com pessoa alguma, exceto você”.
As palavras da morena pareceram como uma música desafinada aos ouvidos loiros, entretanto, poderia claramente distinguir o ritmo. E lhe parecia agradável. Sentiu-se desconcertada e se levantou, ajeitou o sobretudo amassado pelo que parecia um embate físico com a cantora e estirou a coluna. Suspirou e se desculpou, protocolar:
“Eu lamento o que aconteceu hoje e… E peço desculpas pela Srta. M”, mirou a cantora, que tinha ainda um olhar atônito sobre a repentina atitude da loira.
Quinn percebeu e informou, por pura educação, tal mentira que classificava como uma “mentira branca”:
“Já está muito tarde, Rachel. Eu acho que foi estressante para mim e para você. Seria bom um descanso. Eu estou de acordo com essa sua ideia de novas… Memórias, recordações, ou seja lá o nome que você queira dar”, pensou que não deveria ter falado a última parte, mas… Saiu!. Continuou, sisuda:
“Foi muito atencioso da sua parte. Na verdade, é muito atencioso”, essa parte não foi mentira… Desviou os olhos e olhou ao redor, antes de perguntar:
“Onde está o Holmes?”.
“Bata e a porta se abrirá,
Procure e achará,
Peça e ganhará,
As chaves do meu coração.”.
— Elvis Presley em Welcome To My World—
Holmes, assim que entrou na SUV de Quinn, cuidou de justificar para a patroa que não conseguiu discernir sobre a pessoa que ele levou até a Rachel era a Srta. M. Ela conseguia enganar com perfeição!
Quinn não disse palavra. Ela sabia que o cuidador não era culpado. A Srta. M enganou a Alex, que era a sua namorada. Agora, ex-namorada. E analisou que precisava conversar abertamente com a jornalista. Ela, Quinn, não terminou o namoro. Tudo bem que não foi correta com ela quando se casou com a Rachel. Mas… Esteve tão atormentada quando soube que Rachel ficou viúva, que não existiria mais Jesse St. James, que ela se escutava dizendo: tome-a para si. Ela virá. Machuque-a. Ela suportará. E fez tudo isso. Porque Rachel tinha um segredo que Quinn queria descobrir. Entretanto, ela não encontrava a lógica em machucá-la. Outro entretanto era: ela, Quinn, sempre era capaz de machucar. Então, possivelmente, vez ou outra, ela soltaria algum comentário de mau gosto que feriria os brios ou a autoestima de Rachel Berry. Aliás, sabia que estava fazendo isso exatamente agora.
Suspirou. E pensou que, talvez, ou quem sabe, precisava se policiar quanto a isso. Não precisava ser debochada quase todo o tempo. Não havia necessidade de ser desagradável todo o tempo.
No dia seguinte, estava no consultório de Eleanor e a primeira pergunta que fez, antes de a mulher sequer lhe dar bom dia, foi se…
“Seria conveniente e saudável eu e Rachel Berry nos conhecermos?”.
A maneira direta, prática e crua de como a loira lançou a pergunta fez a médica titubear.
Seria bom? Indagou-se.
Quinn se jogou sobre o sofá, cruzou as pernas (estava vestida de advogada executiva) e acrescentou à pergunta:
“Rachel sugeriu que estaríamos construindo ‘new memories’”, sorriu, divertida e perguntou, “por que eu estou lhe perguntando isso? Eu vou fazer o que eu quiser fazer. Ou as outras personalidades farão”, concluiu.
Eleanor chamou-a e a loira a mirou, com interesse. E deu um bufo ao escutar as palavras da médica:
“Eu só queria ter certeza de que não era a Srta. M”.
E, de fato e alegria de Rachel Berry, Holmes telefonou e marcou um encontro no café do Central Park após a apresentação da cantora na Broadway. Ele e Quinn passariam por ela às 21 h.
Era só um café. Seria, no máximo, umas pouquíssimas horas. Talvez fosse decepcionante. Mas era o princípio de alguma coisa. E Rachel se apegaria a isso até se certificar de que Quinn, da forma que fosse, deixasse que ela se aproximasse. De verdade. Sem vontade de vingança.
§§
Rachel estava no estúdio de sua cobertura, escutando algumas músicas que gostaria de inserir em seu novo álbum, quando Maria a interrompeu, desculpando-se, mas dizendo que havia uma pessoa que queria falar com ela plantada no meio da sala de estar.
“Eu tentei dizer que la señora estava trabalhando, mas ela é muito teimosa. Sempre exigente”, murmurou ao final, aborrecida.
Rachel não perguntou quem era. Sentiu-se tão enfadada por alguém passar pela portaria e invadir seu apartamento, que tomaria precauções. O que estava acontecendo com a segurança do prédio? Onde estavam os porteiros?
Quando entrou na sala, estancou de seco.
Perdeu a cor e entendeu porquê a portaria a deixou passar.
Ela já esteve ali antes.
Há muito tempo.
Porém, ela continuava bonita. Os anos quase não se acentuaram na face bela, e mantinha a altivez de uma rainha e uma elegância que condizia com a altivez.
Sentiu os olhos azuis cruzarem com os dela e se prenderem ali, secos, magoados, culpando-a.
“Acho que precisamos ter uma conversa muito séria sobre a minha filha, Rachel”.
A voz de Judith Fabray soou tão firme, que Rachel esqueceu que existia a palavra “não”.
Assentiu torpemente.
“Estarei esperando lá,
Com os meus braços abertos,
Esperando por você,
Seja bem-vinda ao meu mundo,
Bem-vinda ao meu mundo.”
— Elvis Presley em Welcome To My World—
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