Sine Cordi
81 CAPÍTulo 81 - פא
Notas iniciais
“É só olhar, depois sorrir, depois gostar
Você olhou, você sorriu, você me fez gostar”.
— O que é Amar de Jonhy Alf —
Kurt mirou a amiga por um tempo. Ele estava curioso sobre a visita de Alex Bishop. E muito intrigado com a fala dela: “eu não almejo o seu lugar. O meu é mais confortável”. Estavam, por acaso, a falar de Quinn? Ou da prisão do homem que, a polícia estava quase certa, assassinou Jesse St. James? Alex seria capaz de se solidarizar com Rachel?
Ficou mais intrigado.
“Sua apresentação foi linda”, avaliou e sentou ao lado da amiga. Era uma maneira boa de começar uma conversa que poderia lhe dar um indício da razão de a namorada da Rainha de Gelo ter estado ali.
Rachel assentiu com um aceno de cabeça e, após, encostou-se no peito do amigo e empresário, que a envolveu com um braço.
“Você parece cansada”, murmurou, preocupado.
“Eu estou”, ela respondeu automaticamente. As palavras de Alex ainda pesavam e dançavam em sua cabeça. Se a jornalista estivesse certa, teria que averiguar – a partir de agora – se os pagamentos aos pais de Quinn estavam sendo feitos. Ainda não se sentia preparada para lidar com eles. Mas preparação era a última coisa que Quinn sabia que ela, Rach, possuía. E não importava, porque – após a conversa com Alex – estava mais convencida de que a loira estava, de fato, vingando-se dela.
Talvez Santana e Holmes pudessem ajudá-la, pois, pensou, da maneira como Alex lhe informou, havia uma grande possibilidade de Quinn não pagar as faturas dos Fabray e deixá-la em saia justa. Aliás, Alex estava consciente do casamento. Ela seria capaz de contar, antes da hora (se é que haveria alguma), para os Fabray o que a filha fez?
“Eu acho que posso enlouquecer”, murmurou para si mesma.
Entretanto, ouvidos tuberculosos de Kurt a escutaram. Ele a mirou sem conseguir disfarçar a curiosidade.
“Sua potencial loucura e a sua cara de quem chorou muito, além de sua palidez assustadora, têm a ver com a visita da Bishop? Vocês estão em alguma espécie de contenda? Ou a Quinn está tendo algum outro problema, além dos que já tem, e resolveu lhe envolver nele?”, inquiriu.
Rachel, antes de pensar em que responder, perguntou, tentando não dar o peso que a questão tinha para si:
“Quando eu e Quinn éramos um casal, ela possuía alguns bens. E ela ficou bem famosa como fotógrafa”, a voz era suave, mas também insegura.
“Sim”, o empresário a escutava com dedicação.
“O quão rica ela é agora?”, precisava saber o tamanho da ganância que poderia mover os Fabray para uma disputa.
O contratenor achou curiosa a curiosidade de Rachel. Por que ela estava preocupada com o quão rica a loira fria e sem sentimentos era?
“Qual a relevância dessa informação?”, estava muito disposto a saber o que a judia pretendia com essa questão.
Entretanto, Rachel Barbra Berry não era tola. Ela sabia bem até onde o empresário e amigo era curioso. Não tinha a intenção de revelar para ele coisa alguma que Quinn não desejasse sobre a união delas. Mesmo sabendo que seria, a curto prazo, um segredo revelado aos quatro ventos.
“Alex mencionou a saúde precária da Quinn e como os Fabray seriam capazes de tentar…”, suspirou. Não queria levantar questões sobre as quais ainda engatinhava. Entrementes, era necessário estar ao pé de cada coisa se resolvesse estar a frente da esposa que só desejava colocá-la para os abutres. Prosseguiu:
“Os Fabray, se soubessem que a Q não está muito bem, psicologicamente falando, de saúde, tentariam torná-la incapaz diante do Estado e se tornarem tutores dela e dos bens que possui? Você acha isso plausível?”.
O homem de cabelos bem cortados e topete seguro com muito spray fixador analisou a colocação da amiga. O que ela queria com esse tipo de pergunta? O que lhe interessava se Quinn era ou não capaz?
“Por que se importa?”. Deu um sutil movimento de ombros que indicava sua incerteza e o seu descaso sobre a ex-amiga do Glee Club e complementou, antes que a cantora pudesse retorquir, a fim de tentar, em verdade, compreender a razão da judia:
“Eu sei que a Fabray&Advogados é um dos melhores escritórios de Direito do estado de Nova Iorque. Quinn é uma das advogadas mais caras do país. Também sei que a cobertura dela vale alguns milhões de dólares e sei que ela tem outros imóveis espalhados pela cidade e que há muito investimento dela em ações da Bolsa e, segundo o Sam Evans e o meu pai, ela é dona de meia Lima. Eu acho que ela tem bastante dinheiro. Mas não sei quantificar. E também sei que ela tem um gerente de investimentos muito bom… Mas em que isso lhe interessa? Eu não acredito que a Quinn seja tola a ponto de se deixar sob a responsabilidade de outra pessoa que não seja ela mesma”, observou e quis saber, ainda mais, a razão da questão levantada pela judia. Por que tal curiosidade? Não fazia sentido.
A cantora preferiu não responder. Ao contrário, indagou novamente:
“Kurt…”, murmurou, fingindo muito bem ignorar a fala do amigo, “você acha que a Alex pode ser vingativa?”.
As perguntas de Rachel, definitivamente, pareciam soltas. Mas Kurt sabia bem que ela desejava chegar a algum ponto que pudesse ser um tipo de apoio sobre algum assunto relacionado a Quinn. Só restava saber qual era o ponto e qual o tipo de assunto ela se referia. E em como as perguntas soltas feitas por ela fariam sentido para responder as suas próprias curiosidades. Era um quebra-cabeças de peças um tanto aleatórias a princípio, analisou o homem.
“Alex, vingativa? Não que eu saiba…”, as antenas dele permaneciam muito altas, “e por que ela haveria de ser? Aconteceu alguma coisa entre vocês? Você continua a ver a Fabray, mesmo após tudo o que ela lhe fez? Ela afastou você e o Jesse”, lembrou, após tentar deixar de ser sutil e ir direto ao assassínio de suas próprias dúvidas.
A judia suspirou. Não precisava que o empresário lembrasse o que fez a pedido de Quinn.
“Rachel, se você está passando por algum problema, fale comigo”, pediu. “Eu sou seu amigo e só quero o melhor para você”, garantiu.
“Por que escondeu de mim?”, ela murmurou.
O contratenor não compreendeu a pergunta.
Rachel a fez mais clara:
“Por que escondeu que a Quinn tentou se matar?”, conteve o choro que pretendia sair por culpa da dor que tal tema lhe causava. Sua própria culpa.
Kurt suspirou fortemente.
Por alguns instantes, reinou um silêncio carregado. Um silêncio que durava há muito tempo, insuflado de incertezas, de arrependimentos, de sentimentos de fracasso, de inaptidão, de omissão e dano.
“Santana”, o contratenor se manifestou, “e eu, nós dois, achamos que você já estava sofrendo com a culpa de trair a Quinn e…”, titubeou, “e ficamos preocupados com o que poderia lhe acontecer se você soubesse que ela sofreu um acidente… O que, depois soubemos, foi uma tentativa de suicídio. Você parecia muito abatida e a Sant estava aborrecida com você. A Quinn ficou entre morre e não morre… E, após ficar estável, não se recuperou no tempo que os médicos esperavam e, assim, eu fui omitindo o suicídio…”.
“Mentindo, você quer dizer”, a cantora murmurou audivelmente.
Kurt limpou a garganta, antes de retorquir:
“Não menti. Eu omiti o que aconteceu… E pode ser que eu tenha errado, mas você estava sofrendo tanto que eu achei que o melhor momento para lhe fazer saber seria quando a Q recobrasse a consciência”, justificou-se.
“Você deveria ter me contado o que aconteceu. Kurt!”, ela insistiu, afastando-se dele para mirá-lo nos orbes azuis.
“E se ela morresse, Rachel?”, ele questionou.
“Eu tinha o direito de saber”, ela respondeu.
Ele negou com um balançar de cabeça.
“Você não suportaria…”, justificou.
A cantora insistiu:
“Eu tinha o direito de saber”.
O empresário deu um sorriso magoado e falou, sincero:
“Não. Você definitivamente não tinha”.
“O quê?”, a judia não acreditou nos próprios ouvidos.
“Você escolheu o Jesse”, o contratenor fundamentou a sua opinião.
“Não, Kurt! Eu não fiz isso”, defendeu-se.
“Rachel, você estava dormindo com os dois! Acho que Quinn tê-los flagrado não foi nenhuma novidade. Você ficou descuidada! E, depois, você e ele se casaram. Você não retornou para Nova Iorque atrás da Q. Eu posso ter errado, mas você também errou”.
“Eu quis vir, mas você não deixou! Você não deixou! E eu só dormi com ele uma vez antes da Quinn…”, ela calou o quase grito.
Kurt a puxou para um abraço apertado e murmurou:
“Eu só não queria vê-la mais culpada! Eu vi o seu sofrimento e… Eu só desejei que acabasse”.
“Mas não acabou, Kurt”, a voz aflita dela o fez estremecer.
“Rachel, eu sei que lidar com a Quinn é difícil. E eu sei também que cometi um erro em não lhe dizer o que aconteceu, mas isso não mudará o que houve. O melhor agora é você deixar esse tema fora de sua vida. Esqueça a Quinn! Ela não existe mais. A nossa Quinn se foi, Rach! Deixe-a”, ele murmurou, desolado, apertando-a mais nos braços.
A cantora emudeceu, dando vazão as lágrimas, enquanto o Hummel se perguntava em como chegaram naquele assunto e foram atingidos por tanta dor. Como o foco foi desviado até chegar às acusações mútuas?
“Rach-Rach”, ele a chamou e Rachel reagiu mal, porque era a maneira carinhosa de Jesse se dirigir a ela e era a maneira cheia de desprezo de Quinn magoá-la, “por favor, a Quinn não se lembrou mais. De que adiantaria lhe fazer saber o que aconteceu se ela nem sabia quem ou o quê você foi para ela? Quem ou o quê eu fui… A Sant foi… Ela esqueceu tudo. E, quer saber, talvez tenha sido o melhor! O que ela faria se soubesse que você… Não estava por perto? Eu errei, mas não foi com má intenção. Apenas, deixe a Quinn. Ela pode magoar muito”, o empresário insistiu, numa tentativa de apaziguar não somente o desespero da judia, mas o seu próprio.
Mais controlada, indagou, meio atrapalhada na forma de construir a oração que lhe saiu pela boca:
“Kurt, se a Quinn, que é a namorada da Alex, fizesse alguma coisa e eu soubesse e a Alex não? Ela, a Alex, poderia criar alguma confusão por isso?”. Tentava, em sua aflição, obter informação sobre o caráter da jornalista com perguntas indiretas e aleatórias para tentar se preparar para o caso de ela, num arroubo de ciúmes, contar aos Fabray sobre o casamento.
O homem de tez de alabastro meneou a cabeça em negativa, com um suspiro profundo.
“Nop, Rach”, sentiu-se um pouco aliviado pela conversação tomar rumo menos ressentido. “Alex não criaria confusão. Talvez ela quisesse algum tipo de satisfação ou informação, mas, se está me perguntando se ela envolveria terceiros num assunto que deveria ser tratado entre ela e você, não creio. Ela é objetiva, sincera… Nunca a vi envolvida em escândalos ou coisa do tipo”.
“Então… Ela é uma pessoa confiável?”, inquiriu.
Kurt se viu curioso outra vez com até onde a cantora queria chegar com aquelas perguntas. A curiosidade o carcomia justo agora, deixando de lado o pesar sobre a omissão do que houve com a advogada quando soube da traição de Rachel.
“Por que essa curiosidade sobre a Bishop?”, questionou, atento ao que sairia pelos lábios da cantora como resposta.
A judia disse que a jornalista esteve ali para saber sobre um assunto referente a Quinn que só conheceu há pouco. Ela queria conversar a respeito.
O empresário não se convenceu. Não era uma boa justificativa.
“E por que a Quinn confiaria algo a você e não a Alex?”, indagou, em busca de compreensão. Por que a loira confiaria em Rachel? Não fazia sentido.
“Porque tem a ver com o nosso passado e a Alex não está inserida nele”, desviou.
“Passado?”, a pergunta soou quase exclamativa e muito incrédula. “O que a Quinn sabe sobre o passado de vocês e que possa ser de interesse da Bishop?”.
Rachel sentia-se muito emaranhada agora.
“Acho que ela… Lembrou de algumas coisas”, murmurou, referindo-se à investigação que a advogada fez para saber do passado das duas e não uma recordação real. Mas era o que poderia e queria dar para o empresário. Não pensava em lhe contar, ainda, sobre o casamento. Antes dele, Hiram e LeRoy precisariam saber. E os Fabray… Sentia-se tão fodida agora por Quinn. Mas de uma maneira nada prazerosa.
“Quinn lembrou?”, Kurt quase engasgou. “E do que ela lembrou? O que de tão importante para fazer a Alex vir até você?”, ele queria uma justificativa mais palpável. Rachel não estava sendo clara.
“Ela lembrou de quando o Clube do Coral a ajudou quando estava grávida de Beth…”, jogou uma verdade. Quinn lembrou mesmo.
“Ela lembrou? Como assim, ela lembrou? Ela não mandou investigar?”, o homem de pele de leite não mastigou bem a informação.
Rachel precisou ser muito atriz neste momento e controlar os nervos. E a falta de logicidade que a conversa mantinha.
“Investigou…”, confirmou e foi adiante, “mas ela também lembrou e não reagiu bem. A saúde dela caiu um pouco e a Alex veio pedir, de maneira até educada, que eu fique longe de Quinn, porque ela, a Quinn, está mais próxima de mim…”, limpou a garganta. Prosseguiu:
“Eu, de acordo com as palavras dela”, nisso também não mentiu, embora fosse uma verdade requentada, como a lembrança que a loira teve, “devo ficar afastada porque sou a causa direta dessas recordações”.
“Estou de acordo”, Kurt fomentou. “E, de verdade, não acho que Alex faria algo para lhe prejudicar, Rach. Se é alguma coisa que mexe com ela e a Quinn diretamente, ela fará exatamente o que fez: vir conversar com você sobre o assunto…”, deixou um beijo suave sobre os cabelos meio desordenados pelo desespero que ele não tinha ideia que a cantora estava a passar. “Então, ela está preocupada com a Q e, por isso, esteve aqui?”, averiguou mais uma vez, porque lhe parecia, ainda, surpreendente a presença da jornalista no camarim da cantora. E a conversa que tiveram não tinha a menor coerência. Ele queria alguma, mesmo que pequena, forma de ligar as perguntas e justificativas de Rachel para formar um quadro coerente. Um quadro além do que a cantora lhe pintou com tintas borradas aqui e ali.
Rachel assentiu, pensando que o casamento dela com Quinn mexia, até demais, com a Bishop. E também concluiu que, neste caso, perguntas indiretas não lhe eram benéficas, porque elas traziam respostas incertas.
“E a Quinn está aborrecida com você?”, o empresário voltou a perguntar.
Rachel deu um sorrisinho cínico, antes de responder:
“Sempre”.
“Por isso a Alex disse que a posição dela era mais confortável que a sua?”, rodeou, a fim de se achar menos insatisfeito.
“Pediu para eu ficar longe… Quinn não está bem de saúde. Está com muitas crises de dor de cabeça. E ela pode ser um pouco difícil quando sente dor. E, como já disse, eu posso ser a causa direta. Eu sou um mal para a Quinn e faço mal a ela”, acrescentou, cada vez mais convencida de suas palavras.
O contratenor achou que, agora, depois dessa racionalização de Rachel, o motivo de a jornalista estar ali para uma conversa com ela era mais palpável.
“É um bom conselho”, ele comentou, “e será bom se você o seguir. Esqueça a Quinn! Ela esqueceu você. Esqueceu a todos nós. Recomece a sua vida! Cuide do Spencer, encontre um cara que lhe queira e ao meu afilhado também… Ou uma garota. Eu não sei. Apenas fique longe da Quinn”, reforçou.
Rachel segurou o ar.
“E se eu não quiser ficar longe dela? Eu ainda a amo e não serei capaz de encontrar ‘outro cara’ ou ‘garota’, porque eu nunca deixei de querer a Quinn”, informou, em voz desolada.
“Rach, a tendência de Quinn é machucar as pessoas. Eu ainda não sei como, até agora, ela não atingiu a Alex. Entretanto, se ela realmente recuperou alguma memória, pode ser que ela queira alguma retaliação. Eu, se fosse você, ficaria distante dela. É o mais seguro”, analisou.
Se Kurt soubesse o quão era inútil o seu conselho agora…
“Marco está a sua espera?”, ele desviou o foco de pensamento da cantora.
Ela negou com a cabeça. Era a noite de folga do rapaz, embora ele insistisse que poderia servi-la. Entretanto, Rachel não quis.
“Então eu levarei você para casa. Arrume-se. Você está horrível”, avisou e, gentil, afastou a morena e se ergueu.
“Pela sua aparência, parece que a visita de Alex foi intensa”, observou, insatisfeito com a posição da judia sobre não se afastar de Quinn.
Rachel assentiu, mas não disse palavra.
“Certo. Eu esperarei na coxia”, avisou e saiu para dar liberdade a atriz de se trocar.
Ela se ergueu devagar, como se acabara de ser surrada e se dirigiu ao banheiro. O mareio a deixou e o controle ainda estava descalibrado. Desejava conseguir se apurar o mais rápido possível para enfrentar o próximo golpe que receberia de Quinn. Porque, sabia, as coisas não ficariam só nessa conversa com Alex. E, ainda que ficasse, deveria se preparar. Pelo visto, Quinn não estava brincando. Ela queria vingança e se Alex Bishop estivesse certa (o que era provável), voltar a ver a jornalista com a Quinn seria a menor das suas humilhações. Ou dor de cabeça.
Aliás, sua amada esposa estava lhe dando de provar do mesmo que ela se alimentava todos os dias: dor. Quinn a estava machucando. De propósito. E, pelo visto, não estancaria. Provavelmente pensava que, assim como conseguia sobreviver a trancos e barrancos com a sensação penosa da dor, achava que ela, Rachel, também poderia.
“Poderei?”, perguntou-se, mirando a si mesma pelo reflexo no espelho. Ela desejava realmente ser forte o bastante. Ainda que, neste instante, estava convencida de que Quinn tinha uma espada fincada sobre seu pescoço e usava a Lei de Talião como lema pessoal: “olho por olho, dente por dente”.
“Quis controlar meu coração
Mas foi tão grande a emoção
De sua boca ouvi dizer ‘quero você’”.
— O que é Amar de Jonhy Alf —
Quinn estava sentada na cadeira giratória plantada no meio do estúdio de fotografia que mantinha dentro do escritório com a única porta que dava acesso na cor da parede, o que a tornava imperceptível. Apenas ela e Holmes sabiam, ainda, daquele pequeno lugar.
Olhava, de novo e outra vez mais, as antigas fotografias que mantinha no lugar, presas ao quadro de cortiça ou penduradas em cordas. Eram todas instantes congelados de um tempo do qual não se lembrava.
Dessa vez, concentrou-se mais nas fotografias em que ela estava ao lado de Rachel Berry. Ergueu-se e se aproximou, estudando-as com atenção. A maneira como Rachel e ela se olhavam… Elas pareciam tão apaixonadas! Rachel parecia sentir tanto amor! Pareciam tão cúmplices uma da outra e tão felizes. Então, os olhos escorreram para os recortes de jornais e revistas que noticiaram o casamento da cantora com o St. James. Como elas poderiam parecer tão únicas numa imagem e naquela que anunciava o casamento, dar a impressão de que nunca tivessem existido daquela maneira que luzia tão especial nas fotografias das duas?
Olhou de uma foto dela e da judia para as que estavam nas reportagens. Rachel parecia satisfeita e feliz em seu branco vestido de noiva. Ela não parecia triste quando aparecia ao lado do St. James.
Olhou outra vez as fotos das duas juntas. Havia uma em que ela e Rachel se olhavam e pareciam se acariciar com os olhos.
“Como?”, murmurou para si mesma, sem entender o que aconteceu.
“Rachel traiu você”, a voz sem emoção dentro de sua cabeça fez questão de lembrar.
A loira voltou a sentar e questionou, ainda que amortecida pelo recém despertar:
“Por quê?”.
“Nunca perguntei. Mas de uma coisa eu sei: você está sozinha. E continuará assim. Seus pais nunca se importaram com você. Seus amigos se afastaram. E Holmes só está ao seu lado porque você o paga para isso”.
A loira suspirou. Tornou a mirar as imagens dela com Rachel, sorridentes. Esta, parecia-lhe agora, era uma imagem sem razão. Como poderiam aparentar felicidade? Não poderiam, de verdade, estar felizes… Ou Rachel não estava. Porque, se estivesse feliz, não a deixaria pelo St. James.
“Isso continua confuso para mim…”, murmurou.
As vozes murmuravam, mas a Srta. M se manifestou outra vez em voz que quase a enlouquecia.
“Não é confuso, Quinn. Você confiou nela. Confiou que seria para sempre e se mostrou. Ela percebeu todas as suas falhas, as suas fraquezas e lhe abandonou. É tão simples de compreender! Se você fosse mais forte, se não cedesse tanto, talvez ela lhe respeitasse. Talvez ela não procurasse outra pessoa. Nunca confie porque coisa alguma é garantida. Ela iria lhe trair. Foi só uma questão de tempo”, o tom era mais machucado que frio.
“Eu a amei?”, perguntou-se, tentando olvidar aquela voz que falava como se tivesse todas as dores transformadas em armadura.
Partes do sonho que teve voltaram-lhe à mente. Rachel ao lado de Finn, apaixonada por ele, com olhos somente para ele. E ela, Quinn, com olhos disfarçados para Rachel, apaixonada por ela, com olhos somente para ela.
“Por que mentiu para mim?”, murmurou, confusa, para a judia na fotografia. Não fazia sentido alguém se dizer apaixonada por ela e traí-la! Não era coerente! Se Rachel a traiu era porque havia alguma falha na relação delas. Ou não havia amor. Talvez elas nunca tivessem se amado de verdade. Talvez foi apenas uma aventura. Quanto tempo durou? Cinco anos? Seis? Não sabia, não se recordava (deveria reler o relatório que Wilhelm lhe fez). Fazia mais sentido esse pensamento! Dizem que o amor tudo suporta. Se ela e Rachel não suportaram, foi porque – porventura – nunca se amaram. Ou, se realmente se amaram, não o fizeram bastante para impedir que a cantora se enamorasse de St. James!
“Ela nunca lhe quis, Quinn. Convença-se! Ninguém, nunca, vai lhe querer de fato. Eu nos manterei a salvo”, repetiu a voz fria.
Olvidou a fala da Srta. M e olhou as outras fotografias… Kurt, Blaine, Kurt com Blaine. Santana, Brittany, Santana com Brittany. Mercedes, Sam, Mercedes com o Sam. Puck, Finn, Puck com o Finn. William, Sue. Rachel e Finn…
Um flash lhe surgiu:
“Eu não ficarei ao seu lado, vendo como estraga a sua vida ao se casar com Finn Hudson”, escutou a própria voz e a imagem de Rachel, experimentando o vestido de noiva apareceu com claridade em sua mente.
Suspirou cansada. Era uma recordação? Era um sonho do qual apenas agora se lembrava? Aconteceu de verdade? Se aconteceu, por que elas tiveram um relacionamento, mas a Rachel se casou com o Jesse? E por que foi contra o casamento? Aliás, aquele era o casamento da Rachel com o Finn, porque não estava presente no da cantora com o St. James. E não estava presente porquê…
“Estávamos morrendo”, a voz da Quinn doce foi escutada.
Holmes, que particularmente não apreciava quando a patroa se fechava no estúdio, deu três batidas na porta e a escancarou.
“Só estou tentando entender”, ela murmurou.
O homem suspirou, antes de se manifestar:
“Há coisas que não são possíveis de entender quando sua única fonte de informação se baseia num monte de fotografias e imagens soltas de um passado do qual não se recorda. Ou de uma investigação encomendada sobre si mesma, Dra. Fabray”.
Ela já não tinha tanta certeza. A aproximação de Rachel estava fazendo que imagens, ainda que soltas, lhe viessem à mente. O problema era que ela, Quinn, não conseguia discernir se estas imagens eram fatos que ocorreram de verdade ou apenas criação de seu cérebro fragmentado.
“Eu acho que fui contra o casamento dela com o Finn”, murmurou, com o olhar fincado na fotografia do casal de capitães do Glee Club. Este era um detalhe que, sabia, não estava no dossiê que Wilhelm lhe entregou. Precisava confirmá-lo. Precisava falar com a pessoa que estava presente na sua recordação. Na verdade, em todas as suas recordações. Precisava falar com Rachel.
“Ela precisa me dizer se foi verdade”, comunicou para um Holmes que não entendeu a que a patroa se referia.
“Do que está falando? Do casamento que nunca aconteceu entre a Srta. Berry e este rapaz que a namorou?”, indagou, buscando compreensão.
“Sim”, a loira assentiu. “Rachel poderá me dizer se eu realmente não quis o enlace dela com ele. E a razão… Eu disse que não deixaria que ela estragasse a própria vida com o casamento. Eu me importava. Eu acho que me importei… Não tenho certeza”, voltou os olhos para o homem.
Holmes não sabia se um encontro entre as duas mulheres seria bom agora. A Srta. M poderia aparecer e ele não sabia se conseguiria lidar com ela outra vez em tão pouco espaço de tempo.
“Eu acho que precisa descansar antes de se encontrar com a Dra. Parker”, opinou sem deixar de mirá-la.
Quinn meneou a cabeça. Sentia-se, realmente, cansada. Entretanto, precisava saber se sonhou ou lembrou.
“Holmes, é importante que eu saiba que não estou enlouquecendo. Eu preciso saber se foi verdade”, insistiu.
O cuidador assentiu. Não estava contra a motivação de Quinn. Somente pensava que ela não estava em condição de se encontrar com Rachel. Não ainda. E não podia se olvidar de Alex Bishop, que não deu sinal de vida após sair dali na noite passada. E se ela comentasse sobre o casamento para algum dos Fabray? Quinn não parecia preocupada com isso. Ela só lamentava os apagões, mas não lamentava o que suas outras personalidades faziam, porque não fazia ideia do quão surpreendentes elas poderiam ser, positiva ou negativamente.
O cuidador insistiu mais uma vez que não era saudável que se encontrasse com Rachel com a quantidade de crises que estava apresentando.
A advogada o mirou e sorriu, num momento de cinismo tão próprio e que há algum tempo o homem não via nela, que o fez pensar que era a Srta. M a se apresentar:
“Holmes, eu não ficarei melhor se deixar de falar com a Berry. Assim como você não deixará de parecer assustado diante de mim”, estudou-o antes de questionar, realmente curiosa, sobre a personalidade que lhe dizia frias palavras aos ouvidos, “o quão assustadora ela é?”.
Holmes se empertigou, alarmado. Inclinou um pouco a cabeça, a fim de saber se estava com Quinn ou com a Srta. M. A outra persona da advogada era tão boa em imitá-la que causava indecisão.
Quinn ergueu a sobrancelha direita e percebeu que o cuidador a estudava, como se buscasse alguma coisa. Um inusitado ar zombeteiro a tomou e perguntou:
“Está na dúvida se sou eu ou ela?”.
O homem franziu o cenho. “Eu ou ela?”. A questão era tão ambígua que poderia estar a falar com Quinn que perguntava sobre a Srta. M; ou com a Srta. M que perguntava sobre a Quinn. Estava, sim, em dúvida.
“São muito parecidas”, confessou sem nenhuma humilhação.
A advogada se ergueu devagar e se aproximou dele. Chegou tão perto que quase o tocava com o próprio corpo. Segurou a face negra e bem-talhada entre as mãos e aproximou da sua. Olhos pretos surpresos nos olhos verdes inquiridores.
“Diga, Holmes: o que vê?”, Quinn questionou.
O cuidador engoliu grosso antes de murmurar, quase com medo de respirar, pois sentia a respiração cadenciada e morna da patroa sobre suas narinas e boca:
“Vejo…”, piscou algumas vezes, “suspensão. E nebulosidade. E confusão. E distanciamento”.
“Então você vê Quinn Fabray”, ela sentenciou, antes de soltá-lo e se voltar para dentro do estúdio e continuar, “eu tenho certeza que a Srta. M não fica confusa… Eu nunca fiquei tão confundida como estou agora, Holmes. E nem tão insegura”, soltou uma confissão fria. Porque somente assim, armada até os dentes de frialdade, seria capaz de verbalizar o que realmente ia lhe causando este maldito atordoamento da razão. As coisas lhe pareciam muito insensatas agora. Os espaços e o recorte do tempo real a deixavam sem certeza das coisas. A cada vez que as personalidades a tomavam deixavam confusões temporais em Quinn que a faziam sentir que vivia numa realidade alternativa. Seu relógio não seguia a cronologia dos demais relógios. Seu tempo não era o mesmo que o de Holmes ou Agatha. Eles tinham os olhos abertos e a racionalidade do momento com eles, sincronizados. Quinn não tinha, pois a cada vez que a Srta. M aparecia, ela vivia o tempo que era de Quinn. Ela roubava a consciência de Quinn, apagava-a e fazia a sua prevalecer. E quando ela ia embora, Quinn não sabia o que aconteceu entre o estar, o não estar e o estar novamente. E, então, ela já não estava. E depois estava. Essa rotatividade de consciência e inconsciência a fazia se sentir aborrecidamente insegura. Não saber o que fez ou falou não era agradável e muito menos interessante. As dúvidas nunca a assustaram tanto. E, por isso, queria “malditamente” ver Rachel Berry e saber se lembrou que foi contra o casamento dela com o Finn ou apenas uma peça de sua cabeça atabalhoada.
“Eu preciso vê-la”, repetiu, mirando a fotografia. “Ela pode me ajudar, Holmes. Porque só ela, infelizmente, sabe a verdade sobre mim. Só ela…”.
Uma inusitada lágrima escorreu pela máscara dura e fria que era a face loira.
O cuidador assentiu, sob a surpresa de perguntas caladas: Quinn confiaria que Rachel não se aproveitaria de suas incertezas e lhe contaria mentiras? Quinn nunca quis escutar do passado porque acreditava que a mesma história teria vários pontos de vista e alguns acréscimos retorcidos ou inexistentes aqui e ali, criando um provável quadro de picotes de memórias alheias e não suas. Por que a memória de Rachel não seria como as outras? E por que Quinn não questionava isso?
“Eu vou avisar a Srta. Berry que lhe faremos uma rápida visita. Você tem consulta e, é provável, a Srta. Berry deverá ir até a delegacia”.
“Delegacia?”, a advogada perguntou, sem se voltar, ainda mirando a imagem de Rachel e Finn.
Holmes confirmou:
“Ontem, enquanto você estava em observação, a polícia prendeu um suspeito de ser o assassino do Sr. St. James”.
A advogada se voltou com o cenho franzido e meneou a cabeça. Prenderam um suspeito de matar o St. James? Por que não ficou sabendo?
“A Srta. Berry achou que deveria cuidá-la primeiro. Ela é a sua esposa…”, o cuidador pontuou. Para ele, este era um ato coerente com o papel de Rachel.
Entretanto, para Quinn este era um ato incoerente. Rachel deveria ir até a delegacia e se inteirar dos fatos que envolveram a prisão do suspeito. Era o provável assassino do homem que ela amava! Do homem por quem foi preterida!
“Mas…”, tentou encaixar o pensamento. As coisas lhe pareciam um pouco desalinhadas no momento. “A Rachel deveria ir…”, murmurou, ainda parecendo um computador dando um bug atrás do outro.
“Ela irá”, Holmes percebeu que a notícia desestabilizou consideravelmente a loira. Ele só não sabia em que nível: da lógica? Pois, para Quinn faria mais sentido Rachel desejar estar face a face com o sujeito que tirou a vida do homem com quem foi casada. Ou emocional? O fato de Rachel escolhê-la, e não a Jesse – ainda que através de seu algoz – tirava-lhe a dúvida sobre a sinceridade da cantora e seu amor.
“Mas o correto seria ela ir imediatamente, logo após ser informada”, Quinn saiu do estúdio e estancou diante do cuidador. Ela tinha um imenso ponto de interrogação dançando na face.
Holmes não sabia o que sentia ao se ver diante de uma Quinn Fabray que lhe parecia extremamente zonza, trocando os passos numa estranha caminhada sobre a linha da emoção e da razão. Afinal, ela sempre foi razão. Ela sempre tinha todas as respostas. Ela sempre fazia o que a lógica apontava, mesmo em meio ao mar de aleatoriedades que era existir. O cérebro dela sempre tentava organizar a realidade para explicá-la de maneira coerente. Ela quase nunca falhava. E, se as coisas não saiam como planejadas, não ficava mortificada por isso. Ela mudava a estratégia para chegar ao objetivo final. Fria e calculadamente.
Rachel seria um cavalo de troia dentro do programa que Quinn escreveu?
“Quinn”, o cuidador a chamou.
Ela aterrissou, ainda atontada:
“Eu acho que não faz sentido isso me preocupar”, ela comentou e pediu que Holmes comunicasse para a judia que estaria com ela.
Ele se quedou estático diante do comentário. Quinn não entendia a razão pelo qual estava preocupada? O que isso significava?
“Acho que deveria comentar esse particular com a Dra. Parker”, soltou, sem o menor cuidado.
A loira se surpreendeu.
“Está, mesmo, sugerindo o que devo ou não abordar na minha terapia?”. A pergunta escorreu tão gélida, que o cuidador piscou, atontado e, sob débeis negativas com a cabeça, saiu para obedecê-la.
Talvez as coisas não ficassem piores do que já estavam. Quinn parecia uma gangorra. Uma hora estava na parte de baixo, quase humana; na outra, estava no ar, acima do bem e do mal, arrogante e fria. Holmes esperava, sinceramente, que a Parker e – de alguma maneira – a Rachel, pudessem ajudar a patroa a não se afogar em meio ao mar de confusão que estava experimentando e causando para os que estavam mais perto dela. Que a gangorra deixasse de pender ora para cina, ora para baixo. Que ela encontrasse um equilíbrio.
“Quis responder, quis lhe abraçar
Tudo falhou
Porém você me segurou e me beijou”.
— O que é Amar de Jonhy Alf —
Rachel sentou à mesa da sala de jantar, às sete em ponto, para o desjejum, sentindo-se como se, no dia anterior, tivesse enfrentado um lutador de MMA e levado o nocaute do ano. Estava abatida e com dores por todo o corpo. Os olhos ainda inchados pelas lágrimas que derramou à noite, após o encontro com Alex e a revelação de que a jornalista estava a par de seu casamento com Quinn. E, claro, houve Kurt e sua clara desconfiança que quase não foi satisfeita por completo, apesar da postura gentil e neutra que manteve quando a levou para casa. Eram várias frentes que deveria enfrentar. E não sabia por onde começar.
Maria entrou no ambiente, levando um bule fumegante de um recém-preparado café.
“Gracias, Maria”, murmurou, enquanto era servida pela mulher mais velha que a observava com preocupação.
A cantora tomou um gole da bebida forte e amarga, a fim de se sentir mais energizada e menos fora da realidade.
“O Sr. Holmes telefonou há pouco”, informou e, como por milagre, todas as peças que formavam a engrenagem dentro da cabeça da cantora se puseram a trabalhar a todo vapor.
“Holmes?”, ela gaguejou, incrédula. Era cedo demais para outro embate com Quinn. Ou para ver Quinn. Estava cansada; precisava de um respiro.
“Sí”, Maria confirmou, percebendo como a cantora passou a segurar a xícara com as duas mãos, a fim de controlar o tremor que a tomou. Quinn parecia estar traumatizando-a. E, como seu trabalho ainda era seguir ordens, informou com cuidado, “parece que la señorita Fabray se lembrou de uma situação que envolveu usted, señora, e ela. Pero, ela não tem certeza se a recordação é real ou apenas o cérebro dela haciendo una broma”, tentou amenizar a situação.
Rachel ficou curiosa.
“Quinn não sabe se lembrou de algum fato que envolveu a mim e ela? Ela está vindo para me perguntar se é verdade ou não?”. A cantora estava, também, incrédula. “E por que ela me perguntaria alguma coisa se não confia em mim?”, perguntou mais para si mesma.
Maria suspirou, antes de abrir a boca:
“Para mí, todo parece muy claro…”, arrumou o bule sobre a mesa com esmero.
A judia achou-a muito confiada:
“Ah! ¿Sí? E o que lhe parece claro?”.
A mulher sorriu e respondeu:
“Ela vem lhe perguntar porque sabe que somente a señora pode dizer a verdade. Ella no confía en la gente. Pero em usted…”.
“Quinn não confia em mim, Maria. Ela só vem aqui para me magoar um pouco mais. Eu nem sei a razão de ela precisar fingir que se lembrou. Ela não quer lembrar! Ela não quer confiar! Ela não quer voltar a amar, Maria. Ela não quer ser capaz de me perdoar. Ela só quer se vingar”, falou, muito magoada.
A serviçal meneou a cabeça em silencioso desacordo.
Rachel não acreditou na incredulidade estampada na face de Maria.
“Você não sabe, Maria! Você não viu o quanto ela sente, realmente, de dor e desprezo por mim. Se você visse, saberia do que eu estou falando”, desabafou. E foi de um cinismo dolorido ao verbalizar:
“Eu lhe convido a estar presente quando ela chegar e escutar o que ela terá para me dizer. E, por favor, não se assuste se ela, de uma hora para outra, ficar ou muito gentil ou cruel como o demônio”, avisou, referindo-se as personalidades alternativas da esposa.
Maria ficou surpresa com a dor nas palavras da patroa. Sabia que ela estava sofrendo por causa de Quinn. Mas não sabia que espécie de tormento, realmente, estava experimentando.
“Señora, lo siento. Em momento algum eu quis…”, achou que deveria se retratar com a judia.
“Não, Maria! Não se desculpe”, Rachel pediu e colocou a mão sobre a da mulher mais velha, “eu só estou muito atordoada ainda. A complicação da minha relação atual com a Quinn é maior do que você possa imaginar. E eu lhe direi… Assim poderá me compreender melhor”, informou.
A mulher assentiu e, sob o convite da cantora, sentou perto dela, à mesa, serviu-se de uma xícara do café e escutou, entre momentos de surpresa, assombro e alguns pequenos sorrisos (que Rachel não percebeu) sobre o casamento e como Quinn arranjou tudo para preparar, de acordo com o ponto de vista da cantora, sua vingança. E, como confiava na mulher como nunca confiaria em Shelby, falou dos momentos em que as duas personalidades alternativas de Quinn iam e vinham sem controle da advogada.
Neste momento, Maria se preocupou mais. Até então, guardava uma esperança de que Quinn voltaria a ser como antes do acidente. Porém, esta – a esperança – não se desfez e nem se foi por inteira. Talvez Quinn não fosse mais como antes, mas não significava que continuaria a ser insensível.
“Señora, eu imagino que não seja fácil lidar com o que ficou da señorita. Pero, como já lhe disse em outro momento, eu não penso que ela esteja apenas se vingando. Há mais alguma coisa que a empurra para os seus braços. Ela está vindo porque precisa ter certeza da verdade do passado. Ela poderia ir até a señorita Lopez. Pero, ¡ no! Ela vem até usted! ¿Por qué? Eu acho que tem a ver com os dias bonitos que viveram e ela sabe que existiram”, insistiu, de maneira que tirou um sorriso triste da cantora.
“Eu gostaria de acreditar em você, Maria. Eu realmente gostaria”, confessou, contendo a tensão que a tomava por saber que teria outro enfrentamento com Quinn.
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Holmes entrou na sala de estar, com Quinn ao lado e os dois seguidos por Wilhelm que, a pedido da advogada, conseguiu encontrá-la para falar sobre a prisão do suspeito de assaltar e matar Jesse.
Rachel ficou surpresa com a presença do detetive.
“Eu pensei que a minha ida ao distrito seria após o almoço”, comentou, sem tirar os olhos castanhos e inseguros de sobre a esposa que a estudava com atenção.
“Eu o chamei. Você não me contou que um suspeito foi preso. Então achei por bem falar com o Leo”, a loira tomou a palavra e ganhou um olhar atento do detetive. Havia algum tempo que Quinn não o chamava assim, em referência a sua semelhança como o ator Leonardo DiCaprio.
“Não me pareceu o momento adequado”, a judia murmurou a resposta.
A loira se aproximou da cantora e estancou diante dela.
Os olhares se acorrentaram, atentos um ao outro.
Rachel pensou que Quinn tinha olhos encantados e desejava mergulhar dentro deles.
Quinn não entendia a razão pela qual olhar dentro dos olhos da judia lhe fazia querer conhecer como foi sua história com ela. Não deveria se sentir curiosa. Era sem sentido! Não lhe importava! Rachel não lhe importava.
“Maria disse que precisava conversar”, Rachel iniciou, desviando os olhos e voltando-os para Holmes e Wilhelm, cumprimentado-os.
A advogada queria que ficassem a sós.
A cantora riu. Por que, raios, Quinn queria ficar a sós? Ela já começara a espalhar que estavam casadas. Começou a atormentar-lhe a vida. Por que fazia questão de segredos agora?
“Não sei se quero ficar sozinha com você”, informou, sem temor.
A maneira como as palavras saíram pela boca de Rachel causou surpresa em Quinn. Ela não esperava por isso. E, se em outro momento isto a faria se regozijar com o desafio que a morena poderia ser, agora, neste instante, ela simplesmente não entendeu. Por que não poderiam falar a sós?
“Porque não há segredos entre as pessoas nesta sala, Quinn. Todas estão envolvidas na natureza de nossa relação. Cada uma delas participou para que esta se tornasse viável. Você envolveu a todos. Para que se ocultar agora?”, sorriu com desgosto.
Quinn não desviou a mirada de sobre a judia. E, ainda que não fosse de sua índole se explicar ou coisa dessa natureza, verbalizou:
“Eu lamento pela Alex. Eu não sabia que ela ficaria sabendo sobre o casamento. Não ainda. Eu só…”, um incômodo se fez palpável nas palavras que a advogada pronunciava, “eu não consegui… Eu não consigo evitar que…”, respirou fundo. Odiava a posição e a maneira como se sentia: insegura.
“Não consigo evitar que ela apareça”, conseguiu falar, referindo-se a Srta. M.
A judia voltou a fitá-la e perguntou a razão pela qual estava ali.
A advogada se aproximou mais e, quando Rachel tentou dar um passo atrás, sentiu a mão quente, quase febril, da loira tomá-la pelo pulso e um “não” mudo sair pelos lábios rosados. Estancou, sem conseguir evitar a ânsia por Quinn, que a deixava débil.
“Eu preciso que me diga, com somente um sim ou um não se o que eu lhe perguntar aconteceu de fato”, murmurou apenas para Rachel escutar.
A morena fixou os orbes castanhos nos verdes e meneou a cabeça em confusão. Quinn estava querendo enlouquecê-la? Estavam tão perto e senti-la assim a fazia querê-la mais junto. Porém, com todo o desejo, precisava ser firme:
“Por que perguntar para mim?”, quis saber. Sentia-se desenganada quanto a Quinn.
A loira deu um passo atrás. Não sabia se conseguiria seguir adiante. Rachel foi a mulher que amou. E que a magoou. E, ela, Quinn, também sabia que a magoou quando estudaram juntas. Entretanto, ainda era Quinn Fabray. E precisava de respostas. Ainda que precisasse magoar um pouco mais a Rachel.
Deu um passo a frente e a tomou pela mão e, em tom de voz baixo e ao pé do ouvido moreno, respondeu com praticidade:
“Eu vim perguntar para você porque eu lhe amei. Eu fiz parte da sua vida. Eu confiei que você não falharia. Mas você falhou. Você se desfez do amor que eu lhe tive. Então, tente amortecer a sua culpa sendo sincera sobre as respostas que dará às minhas perguntas”.
A cantora sentiu seu corpo traidor inteiro arrepiar com a hálito morno da ex-namorada e o tom baixo e altivo com o qual lhe falou.
Acho que estou enlouquecendo, pensou. Desejar Quinn era a última coisa que deveria lhe passar neste momento. Principalmente uma mulher tão fria e que não se intimidava mesmo quando seu mundo parecia romper com violência que causava dor, que causava fragilidade e que poderia deixar restos muito degradados para uma restauração.
“Rachel, eu vou arrastá-la até o seu quarto se for necessário. Eu vou me permitir perder a compostura se teimar em não falar comigo”, avisou numa calma fria que fez os olhos morenos ficarem maiores e os lábios cheios de Rachel se afastarem, em surpresa.
“Está me ameaçando?”, perguntou, com o cenho franzido, num sussurrou estrangulado.
A loira suspirou. Respondeu no mesmo tom frio:
“Entenda como quiser”.
“Uau!”, exclamou diante da força que aquela linda mulher que lhe parecia frágil exalava. Esta era a Quinn que conhecia! Mimada e cheia de vontades. E, conhecendo-a, era melhor não criar uma cena.
“Eu falarei com você, mas saiba que eu farei isso porque eu quero. E não porque preciso amenizar a minha culpa ou porque lhe devo favores porque algum dia me amou. Amor, como se diz, é dado de graça. E eu lhe dei o meu, bem ou mal, e estou lhe oferecendo outra vez”. E, dito isso, retirou a mão da de Quinn, pediu licença aos demais presentes e seguiu em direção ao quarto, seguida pela ex head cheerio.
Quinn passou pela porta aberta e segura pela judia, que a fechou e se encostou nela, cruzando os braços abaixo dos seios.
A loira olhou o ambiente e teve a clara sensação de que, em algum lugar do seu passado nebuloso, a decoração era outra. Afastou esses pensamentos e se voltou para a cantora, que lhe pareceu, também, mais bonita agora do que foi quando estudavam juntas. Aliás, sentia, sem saber explicar a razão, que Nova Iorque, NYADA e a fama fizeram muito bem para Rachel e a sua imagem e autoconfiança.
“Você mudou…”, murmurou, sem se dar conta. Era como se estivesse em modo “piloto automático”.
“Todos mudamos, Quinn”, a judia retorquiu, “para melhor ou para pior. Mas, é claro, você dirá que isso é relativo e que depende do olho de quem vê”. Rachel não escondeu sua mágoa e desencanto em relação a loira. Ela não lhe dava descanso!
“Na verdade”, a advogada se empertigou, “eu só quero lhe fazer uma pergunta”.
A judia pediu que ela fosse adiante.
Quinn, numa luta interna para conseguir se abrir, pois isso demonstraria que, neste momento, estava muito inquieta com a sensação de desproteção que a atordoava há dias, cruzou os braços diante do tronco, em clara tentativa de proteção, e falou que teve uma espécie de flash, e que, neste, elas discutiam porque foi contra o casamento com Finn.
Rachel assentiu, concordando com as palavras que saiam dos lábios rosados, umidificados além da conta pela língua de Quinn, uma quase distração para os olhos chocolate.
A loira estancou a fala e mirou a morena com seriedade, durante alguns instantes.
A cantora se incomodou e se justificou:
“O que foi? Eu estou atenta ao que me diz…”.
“Eu sei”, Quinn confirmou, “então, eu – de verdade – fui contra o seu casamento”.
Rachel assentiu. Essa era a grande dúvida que fez a loira se mobilizar tanto? Claro que era! Era uma memória! Uma memória importante!
“Você lembrou!”, exclamou. E toda a decepção e descontentamento pareceram sumir e a cantora se aproximou da loira com um sorriso enorme e olhos emocionados. “Quinn, isso é tão bom! Eu estava sendo cabeça dura naquele momento”, explicou a razão pela qual discutiram sobre o matrimônio, “estava insegura quanto ao casamento, na verdade. Eu amava o Finn. Eu, sinceramente, achei que ficaríamos juntos. Eu estava deixando o meu sonho de NYADA e da Broadway para segundo plano e você não aceitou”.
“Eu achei que você era grande demais para Lima… Que você era muito maior que o Finn”, falou, como se resgatasse fragmentos que formariam todo o quadro de dentro de um baú que, a princípio, não tinha fundo, “eu sabia que você era maior que Lima”.
“Sim! E, como podemos ver, você estava certa”, o sorriso largo ainda estava estampado na face morena. Este era um pequeno alívio sob um escombro constituído de um passado onde só as feridas se mostravam.
“Então…”, Quinn sentiu-se repartida. Uma metade era ela. A outra, sabia, era a Srta. M. Prosseguiu, com um ar de desfaçatez tomando-lhe a face e os lábios num sorriso de lado:
“Eu sempre estive certa sobre você”.
“Sempre”, a judia respondeu. Porém, deu um passo atrás. E, suspirando e tentando conter a apreensão que a tomava, deu outro passo atrás. O sorriso de seu rosto desapareceu, porque Quinn estava desaparecendo. E a Srta. M dava o ar de sua graça.
“Sabe, Rach-Rach, apesar de você não ser uma pessoa em quem se deva confiar o coração”, alfinetou aquela personalidade tão cheia de descaso, “você ainda é uma pessoa que aprecia se doar quando lhe solicitam”. Pôs-se a caminhar em direção da morena que retrocedia. Sorriu com satisfação:
“Está com medo, Rach-Rach?”.
“Quinn…”, balançou a cabeça em negativa. Não era Quinn.
E a Quinn que não era a Quinn percebeu que a judia estava muito consciente de sua presença.
“Você é inacreditável!”, exclamou em tom de ovação e bateu palmas. “Sabe quanto tempo as pessoas que dizem conhecer a Quinn levam para se dar conta de que eu tomei o lugar dela?”, estancou as palmas. E comentou, como se o fato fosse digno de piada:
“Quer um exemplo gritante: Alex, a namoradinha, ou ex-namoradinha, a jornalista, ainda não percebeu. E nós tivemos uma longa conversa. Uma pena que eu não tenha aproveitado mais o tempo com ela. Estava divertido. Mas, sabe, ela estava um pouco impaciente. É uma mulher muito interessante, na verdade. E bonita, também. Entretanto”, retomou o ponto inicial, “você é rápida no gatilho. O que me faz querer lhe questionar, Berry. E, perdoe se sou um pouco dramática e até fastidiosa: por que, conhecendo a Quinn tão bem, foi capaz de trepar com outro e não ligar para o quanto ela lhe amou?”.
A indagação, crua, fez toda a graça que ainda havia em Rachel se esvair.
A cantora sentiu a porta às costas. E a Srta. M fez questão de estancar bem na frente dela e colocar um braço de cada lado da cabeça da judia. Uma expressão pensativa lhe tomou por um instante teatral e, após, voltou os orbes verdes para a morena e comentou:
“Eu acabei de ter a sensação de passar por um déjà-vu, mas não. Eu e você já experimentamos essa posição desconfortável para você contra os armários do McKinley. E…”, sorriu, “sabe o mais divertido? Você tem a mesma expressão aterrorizada na face. Do que tem medo, Rach-Rach? Eu lhe assusto tanto assim?”, amaciou a voz, em aveludado deboche.
Rachel tinha, sim, medo dela. Ela era uma ameaça ambulante! Ou isso fazia parecer. Ela era boa em assustar. Não temia a morte. Como não se assustar com uma personalidade tão sem respeito pela própria existência? A Srta. M agia como se não houvesse nada a perder. Ela não se importava. E pessoas assim assustavam Rachel Berry. Na verdade, elas assustavam muita gente.
Porém, com todo o temor que essa persona lhe causava, sentiu que também merecia algumas respostas. Então, tomou um respiro e questionou:
“Por que a Quinn se casou comigo? Por que me colocou como sua representante legal se não confia em mim, se me quer longe?”, a pergunta de Rachel saiu curiosa e atormentada.
A loira não se imutou e, ainda divertida, fez cara de quem pensava muito sobre o que responder, embora já tivesse a resposta pronta e coçando-lhe a ponta da língua. Depois de um tempinho, aproximou o rosto e colou os lábios na orelha esquerda de Rachel, fazendo-a perder o ar e sussurrou:
“Isso você terá que perguntar a ela”.
Afastou-se lentamente, respirando devagar e de propósito sobre a face da judia, sabendo que a estava aturdindo.
Às vezes, o inferno traz a ilusão do prazer dos sentidos.
E é muito efêmero.
Rachel estava neste estágio agora.
Queria escapar.
Desejava ficar.
Deixou os olhos passearem pela máscara fria e sem emoção da mulher que tomou o lugar da mulher que tentava reconquistar. Era tão linda. E parecia tão intocável. Tão imune à dor e à emoção.
Num istmo de desajuízo, levou a mão direita até a face da loira e a afagou.
A Srta. M retesou-se e deu um passo atrás, enquanto observava atenta a maneira como os olhos chocolate de Rachel Berry lhe esquadrinhavam a face.
“Por que você se casou comigo?”, a judia questionou, muito coerente sobre o pronome usado, para indicar que a Srta. M havia se casado com ela.
“Eu?”, perguntou, sorrindo em divertimento.
“Sim. Ainda que a Quinn não se lembre do que você ou a Quinn 2 fazem, vocês são parte dela. Então, se ela casou comigo, até onde você quis que isso acontecesse? Só por vingança? Não pensou que me evitando estaria me magoando mais?”, lançou-se. Já estava na fogueira! Por que não se queimar um pouco mais?
A loira ficou séria. E, com uma raiva que escorreu lenta e devagar pela boca bem feita, respondeu:
“Porque eu quero ver o seu sofrimento. Eu quero gozar no seu pesar. Eu quero muito, muito mesmo, lamber cada lágrima salgada que você derramar por minha causa. Eu quero cada gota de lágrima sua. E eu só vou parar, Rach-Rach, quando você secar. Quando ficar tão vazia quanto a Quinn ficou. Quando seu sorriso desaparecer. Quando você cansar de viver”.
Rachel se apoiou na maçaneta da porta e se encostou mais a ela para se estabilizar e ali ficou, como se fosse um inseto preso por um alfinete. Era tão horrível o que escutou, tão cruel. Por que tanto ódio? Tanto tempo passou! E já havia pedido um sem números de vezes por perdão! Por que a Srta. M era tão inflexível?
“Por que me odeia tanto?”, perguntou, pois entenderia a mágoa de Quinn. Mas o ódio? Um ódio que não fazia sentido para alguém que não se lembrava.
A Srta. M se aproximou da judia e encostou o corpo ao dela. Devagar e com cuidado, enlaçou os dedos febris nos frios de Rachel Berry e respondeu-lhe, ao pé do ouvido:
“Você não sabe?”, roçou os lábios no ouvido de judia, torturando-a, “eu te odeio porque, do contrário, eu te amaria”. Afastou-se e, sob uma atônita Rachel Berry, abriu a porta do quarto e se retirou.
“Agora eu posso argumentar
Se perguntarem o que é amar
É só olhar, depois sorrir, depois gostar”.
— O que é Amar de Jonhy Alf—
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