Sine Cordi

82 CAPÍTulo 82 - פב


Notas iniciais
Desculpem a demora. Espero que o capítulo esteja bom, apesar de meio... Vou deixar vocês decidirem! Vejo vocês lá embaixo! ;)

Súbito me encantou

A moça em contraluz

Arrisquei perguntar: quem és?

Mas fraquejou a voz

Sem jeito eu lhe pegava as mãos

Como quem desatasse um nó

Soprei seu rosto sem pensar

E o rosto se desfez em pó (...)”

— A Moça do Sonho (Chico Buarque & Edu Lobo) -

Rachel estava como se acabasse de levar uma martelada na cabeça. Então… O que a Srta. M quis dizer, de fato? Ela a odiava para, assim, não amá-la?

“Ela ainda me ama?”, perguntou-se, atontada e com uma estranha alegria a ribombar dentro do peito. Uma alegria, quiçá, insana e sem uma razão que a apoiasse de fato. Mas… Saber que o lado mais obscuro de Quinn ainda a levava dentro, fosse por ódio, pelo medo de amar e se machucar, era – no instante – um motivo de emoção. Uma que escorreu pelos olhos como lágrimas. Mas não do tipo que a Srta. M disse que beberia. Ela queria as lágrimas de dor. E a última coisa que Rachel sentia após a confissão fria da personalidade alternativa de sua esposa era dor, ou tristeza, ou culpa. Não. Estas eram lágrimas de esperança. Renovadas esperanças que a levaram a secar a água salgada com o dorso das mãos e sair, a toda pressa, do quarto em direção à sala, a fim de tentar ainda falar com aquela mulher de gelo antes que ela se fosse.

Eme”, chamou em voz alta, para que ela estancasse. Porém, ao chegar à sala, foi ela, Rachel Berry, a estancar. E perder a cor. E um pouco do raciocínio também.

“Veja só!”, a Srta. M exclamou, achando a situação muito pertinente, “pai e papai!”, apontou ao léu para os dois homens Berry parados à porta de entrada do apartamento de Rachel, surpresos com a presença de Quinn ali e seu comportamento tão… Trocista? Sim. Ela parecia estar num circo e as pessoas ao redor eram o motivo de riso dela.

“Hiram!”, deu um tapinha no ombro de LeRoy. “LeRoy!”, deu um tapinha no ombro de Hiram e franziu o cenho, perguntando, “ou será o contrário?”.

“É o contrário”, Hiram confirmou, sisudo e estudando-a. Depois, o olhar paterno correu para Holmes e Wilhelm e os cumprimentou com um aceno de cabeça e, por fim, mirou a filha, estatelada como se tivesse vendo a morte de frente. “Rachel?”, o nome da cantora soou como uma sentença interrogativa inteira.

A Srta. M se voltou e estudou a cantora com olhos atentos e divertidos. Mordeu o lábio inferior. E achou que o momento precisava de um toque a mais. Um toque todo seu! Algo tipo… A cereja do bolo! Sorriu e soltou:

“Eu sou tão mal educada e distraída…”, meneou a cabeça em negativa e caminhou até a judia. Parou perto dela e, com um sorrisinho, murmurou:

“Até breve, baby”. Segurou a nuca da judia e a puxou com o jeito e a força necessária para que seus rostos se aproximassem e encaixou os lábios nos dela.

Beijou-a.

E Rachel não teve tempo de racionalizar. Sentiu os lábios úmidos e quentes daquela mulher que não beijava como Quinn e nem como a Quinn 2. Ela era sexual e arrebatadora, a língua invadia duro por entre os lábios carnosos da judia, sujeitada pelos cabelos. Era um beijo roubado. Um beijo arrancado, tomado.

A loira soltou a cantora devagar, os olhos presos na boca agora vermelha da morena. Lambeu os próprios lábios, antes de murmurar somente para a Rachel aturdida escutar:

“Ainda tem um gosto muito bom. Pena que, ao final, tenha um quê de fel”, e se afastou, em direção à porta e sob olhares atônitos de todos na sala, menos de Spencer.

Parou por um instante entre Hiram e LeRoy e se virou para Rachel e soltou, como se fosse a revelação de um segredo secular:

“Conte a novidade para eles! Eu aposto que ficarão…”, fingiu analisar que palavra usar e, por fim, exclamou, em largo sorriso, “Uau!”.

Abriu ela mesmo a porta e, quando percebeu que Holmes e Wilhelm não se mexiam, mirou-os e chamou, sem o menor respeito:

“Vamos, lacaios? Ou pretendem participar da reunião familiar?”.

Os dois homens, então, acordaram para a realidade: não foi Quinn quem beijou Rachel. Não foi Quinn quem debochou, com descaro, dos homens Berry. E Quinn nunca os chamaria de lacaios. Entretanto, a Srta. M… Ela poderia fazer isso sem nenhum arrependimento. Ela não apreciava as outras pessoas. Eram, todas elas, disfarçadas de boa gente e amigáveis. Se olhasse melhor, mais de perto, veria que eram todas mentirosas e falsas.

A Srta. M não levava em consideração uma outra lógica do observar bem de perto: há imagens, coisas e situações que, se olhadas bem de pertinho, ficam desfocadas. E ela estava desse jeito.

Desfocada.

E o que ela via talvez fosse borrado demais.

“Foi um prazer revê-los, sogrinhos!”, ela sorriu antes de se retirar seguida, quase que às carreiras, por Holmes e Wilhelm, que se entreolharam ainda confusos de como tudo se transformou de uma simples dúvida que Quinn tinha para todo um espetáculo protagonizado pela Srta. M.

Este era um problema.

O outro?

Eles não sabiam como lidar com ela.

Por encanto voltou

Cantando a meia voz

Súbito perguntei: quem és?

Mas oscilou a luz

Fugia devagar de mim

E quando a segurei, gemeu

O seu vestido se partiu

E o rosto já não era o seu (...)

— A Moça do Sonho (Chico Buarque & Edu Lobo) -

LeRoy se voltou para Maria e, enquanto Hiram via um Spencer recém-desperto correr para ele alegremente e o recebia nos braços, pediu dois copos com água e sacou da bagagem de mão uma caixinha tarja preta. Sorriu para o neto, que envolvia com os braços o pescoço de Hiram e encaminhou-se, junto ao esposo e neto, para perto de Rachel.

“Papai…”, a judia pronunciou, insegura, o tratamento para LeRoy e se voltou para Hiram, “pai”.

“Estrelinha!”, Roy abriu os braços e a cantora se embrenhou neles, ainda atordoada com tudo o que acontecia.

Hiram percebeu a caixinha tarja preta na mão do companheiro e perguntou a quem ele queria drogar.

“A nós dois”, respondeu, sorridente e feliz de ter a filha entre os braços.

“Nós?”, Hiram entregou Spencer para ele, que o envolveu num delicioso abraço e tomou Rachel e a beijou na testa. “Você parece abatida, meu amor. Soubemos, ontem à noite, sobre a prisão do suspeito de levar o Jesse de nós”, foi amável com o falecido genro, apesar de nem ele e LeRoy concordarem muito com a forma em que a aproximação entre a filha e o ator se deu.

“Oh! Prenderam… E eu irei à delegacia hoje… Eu ainda estou um pouco perdida”, a cantora tentou organizar uma resposta coerente, embora o atordoamento fosse grande. E não era pela prisão do suspeito de matar Jesse.

Maria trouxe uma bandeja com dois copos com água. LeRoy agradeceu e a tomou, colocando-a sobre a mesa baixa que ficava entre os sofás, no centro daquela sala espaçosa. Tirou um comprimido do blister e o deu para Hiram, que não entendeu.

“Perdeu o juízo?”, questionou, confuso. Por que LeRoy estava lhe oferecendo um calmante?

“Pegue, querido, porque, pelo que eu vi e ouvi há pouco de Quinn Fabray, acredito que nossa filha tenha alguma coisa para nos contar. E algo me diz que pode mexer com nossos nervos”.

Hiram tomou o comprimido e, com um gole de água o ingeriu, assim como o esposo o fez também, sob o olhar espantado de Rachel.

Os homens se abancaram no sofá e o médico deu um tapinha, entre ele e Hiram, para que a filha sentasse.

A judia respirou fundo e se colocou entre os pais.

Spencer, outra vez no colo do avô Hiram, inclinou-se e soltou um beijo para a mãe. Sorriram com a ação amorosa e pura do menino.

Rachel afagou os cabelos do filho e suspirou. Estava nervosa. Como os pais reagiriam quando lhes dissesse que ela e Quinn eram esposa e esposa? Casadas! Legalmente casadas pelo Estado de Nova Iorque. E que ela era a detentora dos bens, produtos e responsabilidades da advogada? Que estava metida em uma enorme confusão de sentimentos e sofrimento?

Uma pergunta: desde quando ela, Rachel, não esteve envolvida nesta mesma confusão de sentimentos e sofrimento? Pois, se foi desde o início!

LeRoy afagou o ombro da filha, antes de começar a verbalizar para, assim, ajudá-la a falar:

“Quinn trocou os nossos nomes. Ela fez de propósito. Uma provocação e uma forma de nos deixar atentos. Eu fiquei muito atento. Ela nos chamou de sogrinhos. Usou o diminutivo como maneira de menosprezar o nosso papel e, talvez, o seu também, em alguma espécie de relação que vocês tiveram ou têm. Eu e seu pai sabemos o que aconteceu entre vocês. Eu estive no hospital e fiquei chocado com o que vi e mais ainda quando soube o que ela tentou fazer. Eu e o seu pai estivemos aqui quando você não estava bem e ela lhe visitou depois de se reaproximarem. Eu a socorri quando você a beijou e ela teve uma forte crise de dor de cabeça. Após a morte de Jesse, ela não apareceu. Não foi ao velório e nem ao sepultamento. Não nos pareceu tão estranho, dado o fato de que Jesse não era significativo para ela. Ela lhe fez exigências que você, no desespero de reconquistá-la, cumpriu. Eu e seu pai voltamos para Lima e você não nos deu nenhuma pista de que alguma coisa não estava bem. Soubemos do sucesso do musical e que você está se apresentando todas as noites. Entretanto, você não tocou mais no nome de Quinn após isso. Achamos que ela se afastou. Então, chegamos aqui e a encontramos. Qual a razão da visita dela, estrelinha?”.

“Eu me casei com ela”, murmurou com um esforço muito grande e esperou a reação dos pais.

“Você fez o quê?”, Hiram quase gritou a pergunta e Spencer franziu o cenho, assustado. O homem cuidou de sorrir para o neto, a fim de deixá-lo confortável, enquanto mirava a filha com olhar incrédulo.

“É uma longa história”, Rachel sussurrou.

LeRoy sorriu e abraçou a cantora pelos ombros e, após beijar-lhe o topo da cabeça, falou:

“Nós não vamos a lugar algum. Temos tempo para lhe escutar”.

Rachel assentiu. E não deixou de pensar em como o timing de Quinn e da Srta. M era perfeito para lhe meter em situações que a deixavam com os nervos à beira de um colapso.

Respirou fundo e começou a narrar tudo o que aconteceu mais uma vez. Toda a armadilha preparada por Quinn e como a relação delas estava até o momento. E não deixou de fora o fato de a namorada apresentar outras duas personalidades alternativas.

LeRoy foi o que se quedou mais curioso e menos espantado.

Curioso porque era raro, segundo as pesquisas e conversas que teve com colegas psiquiatras e médicos na área de saúde mental, que Quinn fugisse do padrão de pessoas que apresentavam esse tipo de distúrbio. Normalmente, um desengano de amor não era o bastante para fazê-la apresentar outras personas.

Hiram defendeu a tese, a fim de tentar oferecer ao marido um outro ponto de vista, muito coerente segundo a relação das duas mulheres, que a amnésia persistente de Quinn era fruto de um trauma maior, além dos ferimentos na cabeça causados pelo acidente de carro. Não se deveria descartar que ela tentou morrer após surpreender Rachel na cama com Jesse enquanto estavam para se tornar noivas. Ela não conseguiu lidar com a traição de Rachel. Ela até poderia escapar do perfil das pessoas que apresentavam personalidades múltiplas, mas não estava isenta. Afinal, o desespero que a fez tentar morrer mostrava por si só que ela não suportaria a vida sem a presença de Rachel nela. Que não suportaria a vida sabendo que o seu amor estava nos braços de outro.

“O que o terapeuta que está lhe acompanhando disse sobre o casamento?”, LeRoy indagou a respeito do médico que, indicado por Eleanor, começou a acompanhar Rachel há alguns dias.

A judia suspirou antes de verbalizar:

“Ele ainda não tem um parecer. Mas achou interessante o fato de eu aceitar me casar com a Quinn. Ele questionou o que me levou a perder a linha de raciocínio e, apesar das minhas tentativas torpes de rebater as alegações dela sobre tramar contra o Jesse, terminar assinando um contrato de casamento sem ler”.

“Você apenas assinou um documento legal, unindo a sua vida a de uma ex-namorada sem memória que, claramente, tentou lhe apavorar, torturar, sem ler o que dizia o papel? Oh, Rachel! Isso é inacreditável até para mim que adoro uma história de amor impossível”, ponderou, aborrecido, Hiram. Era além da imaginação! Ele concluiu, surpreso:

“Você, no fundo, quis se casar com ela! Achou que era uma oportunidade de se aproximar dela e restabelecer a relação que tinham”.

Rachel respondeu que o psicólogo a levou a analisar a situação e ponderar sobre a mesma e acabou por chegar a esta resposta.

“Eu a quero. Eu a amo. Na verdade, ela não precisava montar toda a trama para me fazer assinar um contrato de casamento… Mesmo sem ler”, acrescentou.

“E as personalidades? Quem era a pessoa que nos recebeu hoje? Eu achei que fosse a Quinn”, LeRoy se mostrou realmente atento.

“Ela se autointitula Srta. M”, respondeu a judia.

“Srta. M?”, Hiram era o que mais se surpreendia.

Rachel assentiu e informou, com desalento:

“M de Morte, M de Morrer e outras tantas palavras de cunho pouco agradáveis que começam por M. Ela parece ser a dona das lembranças de Quinn. Ela sabe de tudo… e me odeia”.

“Odeia?”, o advogado pareceu não crer. E justificou-se:

“Ela parece fazer o contrário. Por que tanto para lhe forçar a casar? Você se casaria com ela por vontade própria”.

“Mas a Quinn não sabia disso”, LeRoy lembrou e mirou a filha, “ou sabia?”, indagou, meio na dúvida sobre as certezas da filha.

“Não. Foi a Quinn que se casou comigo. Não foi a Srta. M. As duas são pessoas diferentes, acreditem”, esclareceu. Acrescentou:

“E ela se casou comigo para se vingar, para tornar minha vida um inferno”.

“Ou tentar saber se você pode ser digna da confiança dela outra vez”.

“Oh, Hiram! Não fale isso! Quinn é fria, é metódica, é calculista”, interveio LeRoy, “Ela não se importa realmente”, ele pensava que era melhor ser analítico e prático e suportar a decepção a ser romântico e incapaz de suportá-la. No fim, para ele, só havia dois finais para esta história: decepção e decepção.

E não importava a tentativa de tentar finalizar isso sem que alguém não terminasse lastimado. E ele achava que a lastimada seria Rachel.

“Rach”, segurou a face dela e a fez mirá-lo, “por que não tenta conversar com a Quinn e terminar com esse casamento? Ela pode ser ponderada… Se você souber como colocar a situação. Ela não fez tudo isso por coisa alguma. E eu acho que, sim, pode ser por vingança. Eu acho que essa união lhe trará muito aborrecimento. Principalmente por parte dos Fabray. Russel, se souber o que ela fez e que ela está doente, tentará levar a causa aos tribunais. Isso será uma enorme dor de cabeça, querida! Os advogados do Russel irão lhe vender para a sociedade e para o juiz como aproveitadora, infiel e tudo o que pesar contra a sua imagem de maneira negativa. Eles se aproveitarão da sua fama e do que fez com a Quinn e transformarão tudo isso num circo de horrores!”, ponderou, preocupado.

Rachel pareceu travar. Era como se as palavras de LeRoy lhe penetrassem o cérebro como ondas de rádio cheia de interferências. Tudo cortado, picado.

Não pensou na sua carreira! E Russel poderia, de alguma maneira, usar o seu mau passo com Quinn, no passado, e inclusive a tentativa de suicídio, para pintar a ela, Rachel, como uma mulher infiel e com quem sua filha, com amnésia, não se casaria. A menos que não estivesse “gozando das suas faculdades mentais”. E usaria o Transtorno de Personalidades Múltiplas para embasar sua tese. E ela, Rachel, o que diria? Sim, eu traí a Quinn, mas reconheci o meu pecado e estou aqui para me redimir! Eu amo a Quinn. Eu nunca deixei de amá-la!

Aham…

Quem acreditaria?

Nem ela mesma acreditaria.

E meneou a cabeça e segurou-a entre as mãos, antes de falar para os pais:

“Eu estou tão fodida por Quinn! E não é de um jeito bom”.

Hiram mirou o neto e agradeceu ao fato de o pequeno, que não escutava palavrões, estar alheio ao que realmente acontecia, pois a idade lhe permitia.

LeRoy apertou a filha nos braços novamente e a beijou na cabeça.

“Nós estaremos aqui. E o seu pai Hiram é um bom advogado. Estaremos com você, estrelinha”.

Rachel se afastou e falhando em conter as lágrimas, mirou o homem e falou:

“Eu não vou deixar a Quinn! Eu farei o que puder para não perdê-la! Eu sei que ela está meio descomposta agora… Mas eu acredito muito na força da Quinn. Eu acredito que ela conseguirá passar por mais essa etapa complicada e eu quero estar ao lado dela. Mesmo se, no fim, ela acabar nos braços da Alex”, então soltou o pranto e desatou num choro doloroso como o de uma criança que fez tudo certo para ganhar um doce. E, perto da barraquinha, num momento de desatenção de burla do tempo e das incertezas que nos rodeiam, um coletivo muito concorrido e que só passa de hora em hora aparece e ela foi arrastada para dentro, para longe do doce, com a boca a salivar a decepção da hora imprópria, do tempo vagabundo, que lhe engana e lhe rouba e, quando você se dá conta, ele passou. E ele, o tempo, passou e levou todo o desejo pelo doce e o doce com ele, em forma de amor magoado, que deveria ficar no passado resguardado dos olhares alheios através das horas, dos dias, dos anos. E o desejo pelo doce o tempo devolveu. Mas o doce… O doce ele apenas mostrou. E mostrou só para Rachel. E Rachel aguou.

Não era uma visão do paraíso.

E nem do inferno.

Era, por agora, uma incógnita.

E justamente essa incógnita era o que atormentava o espírito combatente. E, vez ou outra, o tormento o fortalecia. E, vez ou outra, arrebatava-o como um ceifador em sua labuta.

Rachel ainda estava forte.

Mas sabia que o ceifador estava à espreita.

O tempo novamente mostrava que não era seu amigo.

Ele estava imparcial.

E Rachel precisava, desesperadamente, encontrar uma maneira de se conduzir junto a Quinn.

Suspirou.

Há de haver um lugar

Um confuso casarão

Onde os sonhos são reais

E a vida não

Por ali reinaria meu bem

Com seus risos, seus ais, sua tez

E uma cama à noite

Sonhasse comigo

Talvez

— A Moça do Sonho (Chico Buarque & Edu Lobo) -

Os dias de Quinn foram passando entre momentos de lucidez e outros em que as outras duas personalidades apareciam. E elas iam e vinham com frequência, até que Eleanor, sabendo que a advogada estava à beira da exaustão total, receitou-lhe uma combinação de antipsicóticos, o que não era o ideal, mas trouxe alívio quanto as vozes, que se tornaram mais fracas e menos frequentes. E, de uma maneira torta, pareceram equilibrar a loira.

Olhava pela janela do consultório da médica. Chegou havia quinze minutos, mas não abriu a boca. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo alto. A face lavada. No corpo, um sobretudo preto cobria o pijama de flanela azul bebê. Nos pés, pantufas.

Hoje não estava muito bem. Hoje não estava em sua totalidade. Estava mais para a Quinn 2 que para a Srta. M. E a Quinn 2 era a pessoa que comia as lembranças para que elas não a machucassem, porém a Srta. M insistia em trazê-las de volta.

“Eu gostava mais quando não lembrava”, falou, num tom sincero que chamou a atenção de Eleanor. “Eu gostava mais quando eu confundia a realidade com sonho… Quando eu não discernia”. Respirou fundo e a postura se retesou e um conforto de não fragilidade trouxe um estranho alívio.

“Por quê?”.

Ainda olhando a paisagem urbana pela janela, mas sem realmente enxergá-la, respondeu, distante:

“A dor era mais amena”.

“A dor física era mais amena?”, Eleanor perguntou, atenta.

Quinn piscou algumas vezes e caminhou até o sofá e sentou de frente para a poltrona onde a médica estava. Encostou-se no confortável espaldar, cruzou os braços sob os seios e respirou fundo. Assentiu, com um riso incrédulo e lágrimas que escorreram sem que ela entendesse a razão, embora estivesse desejando isso. Desejando entender.

Não era muito fácil.

Secou as lágrimas com as mangas do sobretudo e respirou fundo, antes de verbalizar, um pouco fanha por causa da congestão nasal que o choro às penas dorido causou:

“Eu sei que é insano, mas a dor de cabeça parece…”, suspirou, atordoada com a confusão que trazia dentro e bamboleando entre ser analítica e ser emocional. As lembranças, as memórias que tinha, elas vinham carregadas de emoção. E há muito tempo que Quinn deixou de lidar com elas. Era como um exímio boxeador que esqueceu os golpes de ataque e defesa da luta e, colocado no ringue, consegue, apenas, escapar de alguns golpes dados pelo opositor por instinto e resistência que a natureza do treino lhe trouxe, mas que, ao final, rendia-lhe um nariz quebrado, um olho inchado e muita dor na cabeça e na região do baço. Uma surra. Entretanto, sem nocaute.

Continuou:

“A dor de cabeça não me traz esse monte de sensações… Essas coisas sobre a Rachel”.

“Sensações sobre um monte de coisas sobre a Rachel?”, era a primeira vez que Quinn parecia mais propensa a tratar do tema Rachel Berry. E a médica desejava que a Srta. M não aparecesse para escusar a dor de Quinn. Ela queria que a advogada fosse capaz de lidar com as feridas que a atormentavam.

A loira assentiu.

“O que você sente, Quinn?”, era a pergunta óbvia a ser feita.

Esperava que a paciente fosse capaz de respondê-la.

Quinn respirou fundo, tragando a resistência que a endurecia no momento, a maneira de não sofrer, de não doer.

“Eu sinto que eu poderia confiar nela, sempre”, limpou a garganta e tentou não ser sarcástica, “um primário erro meu…”.

“Confiar não é errado, Quinn”, a médica interveio.

A loira fez ouvidos mortos e continuou:

“Também quero muito fazê-la sofrer. Quero castigá-la pela decepção. E quero…”, meneou a cabeça. Era uma loucura! As lembranças que tinha doíam e não pareciam suas! Eram distantes de quem ela era agora! Sabia que nunca voltaria a confiar outra vez. Dizer que não se lamentava por isso seria cruel. Quinn se lamentava. Lamentava em que se havia tornado. Percebia quem era. Ela era Quinn Fabray, advogada, fria, calculista, dona da melhor firma de advocacia de Nova York e uma das melhores dos Estados Unidos. Ela era capaz de distorcer verdades e palavras, de fingir diante do júri para manipulá-lo, de plantar ideias suas nas cabeças das testemunhas para fazê-las olhar a situação sob o seu ponto de vista. Sabia que era manipuladora, tal qual diziam. Endossava todos os adjetivos que recebeu, desde ser chamada de “brilhante” por uma das maiores publicações sobre Direito do país a “cadela” por um dos homens que colocou atrás das grades. Ela era isso! E por mais que se conscientizasse a cada dia, a cada encontro com Eleanor, a cada pesadelo ou sonho estranho onde Rachel Berry se transformava no Yin Yang, preto e branco e depois se transformava em duas e lhe afirmava em uma só voz “eu sou a dualidade das coisas” e depois voltava a ser a Rachel normal e, então, ela simplesmente era o Dia e a Noite, e lhe confiava “eu sou um antônimo que se complementa” e depois ela era, outra vez, Rachel Berry, e dizia “eu sou tantas, e sou somente uma”. Com tudo isso, Quinn era consciente cada vez mais que a capa que a revestiu por tanto tempo como armadura, tornava-se pele. Uma pele sensível ao tato, mas com dislexia sobre o significado desse contato, do que a pessoa queria lhe transmitir com esse gesto. Não era insensível! Apenas lhe foi consentida a capacidade de se distanciar dos fatos. Eles até poderiam machucar, mas ela sempre seria capaz de colocá-los sob os pés e pisá-los. Com salto alto, de preferência. Ela seria capaz de dar às costas e ir embora sem escusas. Esta era ela, a Rainha de Gelo, que ególatra e egoísta, tentava fazer o mundo girar ao seu redor. E para o seu terror pessoal: ela queria que Rachel Berry, que a traiu, girasse ao seu redor. Um fato que não deveria lhe importar! Para isso estavam e serviam os buracos enormes em sua esfacelada memória! Mas tinha a sua importância! E Quinn não se sentia satisfeita e nem à vontade por isso. Porque isso lhe indicava que Rachel significava algo mais do que lhe falaram sobre ela. Porque em todas as suas recordações que lhe traziam a maldita dor no peito, ela, Rachel Berry, estava presente. Era para ser indiferente! Era para Rachel não ser significante! Mas ela era. E por mais que desejasse eleger Alex, porque não lhe taria dores de cabeça e seria o mais coerente e seguro, o peso que Rachel ganhou em sua vida, essa estranha necessidade, um suicídio emocional sob seu olhar, estava lhe oprimindo a lógica. E não sabia como lidar com isso. Como reagir. O que isso significava, de fato? Não era para ser como estava sendo. Não era para acontecer dessa maneira!

“O que você quer, Quinn?”, Eleanor queria que a loira falasse e a tirou de suas análises silenciosas.

“Eu quero…”, o que ela realmente queria, e sabia o que era, não conseguia sair pela boca. Em vez de ser sincera, porque reconhecia que sabia ser falsa e queria ser, indagou, num intento de se livrar de responder sobre o que mais desejava:

“Por que eu me torturo tanto com isso? Por que eu não posso esquecer outra vez?”, exalou, numa necessidade irracional de tentar compreender a lógica de uma situação que – na verdade – para alguns, não havia lógica. Quinn só queria se proteger do ímã que Rachel era para ela! As lembranças do quanto a quis e do quanto se machucou por causa dela a confundiam! Qual era a maldita lógica da coisa chamada amor? A lógica do se apaixonar? De se enamorar de uma pessoa? A lógica de sorrir porque alguém lhe é importante e lhe faz sentir único e especial? É tudo um engodo do cérebro. Um maldito engodo bom! Mas que, vez ou outra, pode acarretar alguns descompassos. O descompasso de se questionar: como lidar com a realidade de que o outro não é posse sua? De se debater com o fato de que esta pessoa tem uma vida e que esta vida tem outras pessoas no entorno que interagem entre si. Como impedir o objeto de sua paixão não se interessar por outra pessoa e, desafortunadamente para você, quebrar o seu coração? Escondendo-se de futuros relacionamentos, por medo de ser magoado outra vez? Deixando-se levar pelo encanto do outro, mas sempre analisando cada palavra e cada gesto dele, sob a necessidade de se proteger de uma possível nova traição?

Quinn queria entender. E, por isso, precisava se ater aos pormenores, porque ela até queria se esconder, mas a Srta. M, que deveria ter as memórias e protegê-las, estava rachando pouco a pouco, assim como a Quinn 2, que deveria tragar todas as recordações. Então, as lembranças escorriam entre as fendas da armadura que agora se transformava em pele, em estado líquido, e atingiam o cérebro de Quinn como as ondas de um mar bravio castiga as rochas em suas intempéries.

O resultado de tentar unificar as personalidades.

E neste mar bravio, Quinn era uma boa nadadora. Ela se mantinha na superfície, apesar de o cansaço que boiar por horas a fio num mar de tempestade causava.

“Quinn, esquecer não é a solução. Assim como morrer, como forma de não existir e não existindo, não sentir, também não é”, ponderou Eleanor.

A loira mirava a frente, fixada em nada especial. Distante daquela conversação que não lhe apetecia.

“Já pensou em tentar definir quais sentimentos por Rachel Berry existem em você?”, propôs a médica.

A advogada piscou algumas vezes e meneou a cabeça. Não estava interessada em analisar o que sentia por Rachel Berry! Não agora!

“Talvez não seja uma questão de interesse ou querer, Quinn. Mas uma questão de necessidade. Porque, do meu lugar, de onde eu assisto os acontecimentos, há muito que parece incongruente em suas ações em relação a ela”, a Parker apontou.

“O quê?”, a loira não entendeu a colocação da médica. Não havia incongruência em sua relação com Rachel!

“Por que casou com ela e passou toda a sua responsabilidade para ela?”.

“Oh! Isso…”, murmurou, como se não fosse importante. Mas era.

“Por que a necessidade de um casamento que não se explica diante dos olhos alheios?”, insistiu a médica.

Quinn parecia não compreender a racionalização de Eleanor. Por que não era lógico?

Eleanor deu seu parecer de mera espectadora:

“Você não se lembrava de Rachel. Assim, não deveria se aproximar dela, mesmo com ela insistindo em chegar em você. Tudo o que você descobriu, ou soube, deveria empurrá-la para longe de Rachel. Entretanto, você, Quinn, aproximou-se dela e deixou que ela se aproximasse de você. E coroou tudo isso com um matrimônio sem nenhuma causa que sustente essa atitude, jogando nas mãos dela tudo o que se refere a você. Eu não acho essa atitude racional”. Observou como a advogada parecia meditar sobre as palavras que disse.

“Não da maneira como você colocou”, atalhou.

“E há outra maneira?”, perguntou.

Quinn meneou a cabeça, enquanto o conflito de vozes dentro de sua cabeça se fazia escutar, de maneira que se ouviu falando, mas não manejava o ato de falar e se expressar. Ela era um carro e alguém, que não ela, estava pilotando. E então, já não estava mais. A Srta. M dirigia a conversação agora.

“Claro que há. Há a minha maneira”.

Eleanor não conseguiu controlar a incredulidade:

“O quê?”.

“Eu quero ver a Rachel falhar! Eu pretendo cansá-la até que ela jogue a toalha e desista”.

Para Eleanor ainda não era coerente.

“Quinn, do que a Rachel precisa desistir?”.

“De fingir que me ama. Ela acha que eu não sei que ela está mentindo. Eu sei a verdade. Ela foi muito clara comigo quando se deitou com o St. James. Ela me mostrou o que eu não conseguia ver por causa da cegueira que o amor, o encantamento, o engano causam. Ela foi muito clara. Ela nunca me amou. Foi só um jogo. Agora, é a minha vez de dar ‘play’ e fazê-la jogar. E eu vencerei cada etapa, até que ela perceba que não há final feliz para nós duas. Que será ela para um lado e eu para o outro, embora atadas”, explicou.

“Ainda assim, não justifica o casamento”, a médica insistiu.

A loira suspirou.

“Veja bem, Dra. Parker, e tente entender: se a Rachel estivesse, ainda, viúva…”.

“Divorciada”, a médica achou importante pontuar.

“Que seja”, desfez-se do fato, “ela seria ‘livre’”, fez aspas com os dedos das mãos, “e sendo livre, poderia me evitar e se apaixonar ou se encantar por outra pessoa. E eu estou muito interessada em brincar de casinha com ela”, sorriu maliciosa. “Então, eu pensei: como prender a manhands a mim? Eu sei que ela diz que me ama. Mas… E se no meio do caminho ela se tocar, novamente, que ama merda nenhuma? Não posso deixar passar essa chance de dividir com ela essa coisa chamada dor. Desdenhar do veneno chamado amor que ela me deu de beber. Eu tinha que atá-la a mim, prendê-la e mantê-la para compartilharmos a dor sem que ela pudesse dizer não. Então, casar foi o mais lógico. Ela está amarrada a mim e acabou a liberdade dela. Eu vou desfrutar. Ela é minha”.

“Ela é livre. Você se deixou nas mãos dela”, Eleanor queria compreender a linha de raciocínio da advogada. Ela ainda não percebeu que falava com a Srta. M.

“Isso é o que parece. Mas não é. Rachel é zelosa com as pessoas e, eu tenho certeza, sente que tem mais responsabilidade comigo agora, por causa da culpa de ver o quanto de estrago trouxe a minha vida”, e a Srta. M não estava inclinada a se mostrar, “a Rachel está dividida entre a certeza de que eu não a amo e a esperança de que o casamento e toda essa ‘confiança’ que demonstrei ao me deixar sob a tutela dela possa ser um resquício de amor. Não. Eu sei o que acontecerá em seguida. Ela será pressionada. Por toda a gente que souber do casamento e souber que eu sou alguém incapaz de amar e que sabe como magoar. Ela será pressionada a me deixar. Eu mesma farei pressão. Os pais dela farão pressão. Russel fará pressão. Kurt fará pressão. Sabe, doutora, há pessoas que suportam a pressão. Mas, um dia, elas arrebentam. E Rachel não é diferente. Ela vai espocar”.

“Você não sabe. E ainda há a questão: por quê, Quinn?”, Eleanor continuava curiosa.

A Srta. M se enfadou:

“Sempre querendo mais e mais explicações!”, suspirou aborrecida e passou os olhos pelo próprio corpo e fez cara de asco quando viu que calçava pantufas. Quantas Quinn tinha? Quantas ela comprou? Livrou-se de uma deixando no apartamento da Berry, quando a outra Quinn resolveu “fazer amor” com a nanica. Agora essa! E? Pijamas com sobretudo? Negava-se a se olhar no espelho. Tinha certeza que estava sem nada de maquiagem. Bufou. E cruzou os braços com mais vigor sob os seios e também cruzou as pernas, num afastamento físico e emocional completo de Eleanor.

“Não pode responsabilizar a Rachel pelas escolhas que você fez, Quinn”, a médica continuava sem se dar conta de que não falava com a paciente. “Ela errou quando lhe traiu. Mas você escolheu morrer…”.

A Srta. M franziu o cenho. De novo o mesmo “blá-blá-blá”? A médica não cansava?

Olhou o pulso e torceu para estar de relógio. Manhã… Há quanto tempo não via Rachel? Sorriu com malícia. Estava dando muito respiro para a “esposa”. E valia saber se os sogrinhos continuavam por Nova Iorque ou voltaram para aquela cidade nos confins de Ohio.

Continuaria a brincar de Quinn Fabray e, quando a noite caísse, faria uma agradável visita para a manhands, decidiu.

“Você não explicou porque casou com a Rachel, Quinn”, a médica insistiu.

A loira franziu o cenho, e fingindo confusão, falou:

“Respondi, sim”.

A médica suspirou. Quinn precisava verbalizar! Precisava se mostrar mais. Deixar as sombras e sair à luz. Deixar-se sair à luz. Ou não haveria melhora.

“Não respondeu, Quinn”, persistiu.

A Srta. M deu um largo suspiro. Inclinou o corpo para frente, apoiou os cotovelos nas pernas e segurou o rosto entre as mãos antes de prender os olhos nos castanhos da médica e verbalizar, muito séria:

“Suponha que o seu amado marido, o homem que diz que lhe ama e por quem você tem imenso respeito, enquanto você está aqui perdendo o nosso tempo com o seu trabalho, estivesse fodendo na sua cama agora com uma colega de trabalho que, por acaso, você já recebeu inclusive na sua casa e confraternizou com ela?”.

A médica engoliu em seco. Foi uma hipótese que a incomodou.

A loira continuou:

“Então, você termina com essa estafante e aborrecida consulta mais cedo e vai para casa fazer uma surpresa para o cara a quem você entregou tudo o que há de mais positivo em você. Um cara por quem você até se tornou uma pessoa melhor!”, riu com cinismo, “e você chega em casa e o encontra com o pau dele, que deveria ser seu, dentro da vadia que grita o nome dele e ele adora isso. Agora, pense: de verdade, se lhe fosse dada a chance de uma revanche, você faria o quê? Iria matá-lo? Não. Cortar as bolas dele? Nah! É pouco. Fazê-lo sofrer? Sim. Mas, como? O que seria mais gostoso, Dra. Parker, após o hipócrita do seu marido lhe trair, reconhecer que cometeu um erro e lhe quisesse de volta? E se lhe fosse dada a chance de pisotear sobre as desculpas dele? E se fosse dado a ele de provar do mesmo veneno que ele lhe fez engolir? O que você faria? De verdade?”.

A médica se perdeu. As palavras eram incômodas. E se repetiam em sua cabeça e Eleanor as sentia, uma a uma, como bala de acre sabor a se dissolver sobre a língua e descendo pela garganta, deixando um rastro de amargor. Elas lhe entranhavam.

E a pergunta lhe martelava: o que ela faria? De verdade?

“Acho que a sessão acabou”, a loira decidiu e se levantou, deixando um consultório em silêncio.

Um lugar deve existir

Uma espécie de bazar

Onde os sonhos extraviados

Vão parar

Entre escadas que fogem dos pés

E relógios que rodam para trás

Se eu pudesse encontrar meu amor

Não voltava

Jamais”.

— A Moça do Sonho (Chico Buarque & Edu Lobo) -

Notas finais
Gente, calma que tem salvação! Beijo do tamanho do mundo e até o cap. 83 (Deus, estou quase no fim! �/