Sine Cordi

78 CAPÍTulo 78 - עח


Notas iniciais
Perdoem pela demora em postar. Perdoem pelos erros grotescos de grafia do capítulo 77 (consertarei). E leiam (e vejam como SC é história da carochinha) a fic da LuizaBerry: Quando ela não vê... https://fanfiction.com.br/historia/689429/Quando_Ela_Nao_Ve (simplesmente "uau!").

Hoje será o dia

Em que eles jogarão tudo de volta para você

Por agora, você já deveria

De alguma maneira

Perceber o que precisa fazer

Não acredito que alguém

Sinta o mesmo que eu sinto por você agora

Andam dizendo por aí

Que o fogo no seu coração se apagou

Tenho certeza que você já ouviu tudo isso antes

Mas você nunca duvidou

Não acredito que alguém

Sinta o mesmo que eu sinto por você agora”.

— Oasis em Wonderwall

Rachel mirou o cuidador, que pareceu-lhe, pensou exatamente o mesmo que ela.

“Senhorita”, ele comunicou, “sinta-se livre para ir. Eu cuidarei de tudo a partir daqui”.

A cantora, dessa vez, mirou Santana, que aparentava – também – um pouco atordoada. Mas, concordou com Holmes:

Esta es tu elección”, ressalvou.

Rachel puxou o ar. Não havia mais razão para ficar. Acabou a chantagem, mesmo que, por ventura, o contrato dissesse que ela, Rachel Berry, matou o marido em consonância com Marco. Não havia mais amarras.

Entretanto, não podia, não queria deixar Quinn. Definitivamente, não queria! Jesse foi seu erro, ao passo que – de uma forma certa ou não – foi seu amante. Deu-lhe um filho, e uma das coisas que mais respeitava em outro ser humano: sua compassividade, sua sinceridade e toda a sua amizade. No meio de toda a bagunça que criaram, encontraram um jeito de serem apoio um do outro. E, por mais que ele – no final – combatesse Quinn, sabia que apoiava o amor que ela, Rachel, sentia pela namorada. A mulher que, mesmo alheia a tudo, esteve entre os dois durante o casamento. Porque, como amante, Rachel nunca foi completa com ele. E Jesse sabia. Ele sempre soube. E, neste instante, estava Quinn, a quem sempre quis. Porque nunca deixou de pretendê-la.

Wilhelm pensou que percebeu a cantora confusa:

“Eu irei para lá e cuidarei de tudo. Precisaremos averiguar se pegamos o ‘cara’ certo. Fique com a Quinn e, tão logo seja necessário, eu entrarei em contato”, presumiu que a norteava, pois analisou que ela ficou entre ir para a delegacia e se quedar com a esposa.

Rachel apenas assentiu, muda.

Aparentemente, o homem que matou Jesse acabou de ser preso, enquanto ela assinava os papéis que internariam Quinn.

Era este o prelúdio de uma vida solitária? Teve a vida de Jesse furtada e via uma pretensa relação com Quinn perder a razão que as mantinha casadas, além de pender para o estado de insanidade. Era isto um mau presságio?

Santana se aproximou da cantora e lhe passou o braço por sobre os ombros e avisou, calma:

“Eu ajudarei a cuidar de tudo. E, caso você precise de um advogado especialista, acho que a Quinn mandaria o Mathews tomar a frente do caso. Ele sabe das coisas e a Ice Quinn fez um bom negócio contratando-o para o staff do escritório”.

A praticidade de Quinn era, realmente, espantosa, analisou a judia. Mesmo quando estava fora dos seus sentidos.

Eleanor entrou e sorriu com simpatia para a atriz e cumprimentou Santana, que não via há algum tempo.

Explicou o que aconteceu para eles e perguntou se Rachel gostaria de ver a advogada, que dormia tranquila e não era uma ameaça ou coisa parecida.

A morena, no primeiro instante, ficou sem saber o que responder.

Eleanor pareceu entender a dúvida na cantora e explicou a razão do oferecimento:

“É a esposa dela, oficialmente. Se quiser vê-la, não posso lhe impedir”.

“Oh”, meneou a cabeça, ainda meio fora de sua real e, talvez temporária, condição civil: casada. E com Quinn Fabray, que – se estivesse em seus sentidos – não faria a menor questão de ser visitada. Menos ainda por ela, Rachel Berry. Ainda assim, assentiu para a médica e a acompanhou. Quinn estava só! E ela, principalmente, não queria desistir dela outra vez.

Dentro do elevador, somente as duas, comentou:

“Sei que não pode falar sobre o que aconteceu, além de que a Quinn teve uma crise no meio da consulta, mas eu sei que algo mais ocorreu”, Rachel afirmou, como se tal fato estivesse redigido na face da médica. “Foi muito sério?”, indagou diante da silenciosa postura rígida de Eleanor.

A mulher mais alta a fitou e respondeu, não querendo ser conclusiva ainda:

“Não, foi um encontro até amistoso e produtivo, levando-se em consideração que eu conheci a personalidade que jogou roleta russa em sua presença ontem”.

A judia engoliu em seco.

“Rachel, eu acho que ainda é cedo, mas parece que a Srta. M…”.

“Senhorita quem?”, a cantora cortou a médica, pois pensou que não ouviu direito.

A Parker explicou, enquanto a caixa de metal estancava, a porta se abria e as duas saíam para um corredor quase imaculado:

“Ela se autointitula Srta. M, e não indague o significado da letra. Há alguns nomes que ela enumerou com esta consoante como inicial que poderemos conversar em outro instante”.

“É grave?”, perguntou, apreensiva, sobre os nomes que a personalidade de Quinn enumerou. “Ela tentou fazer algo contra a Quinn?”, preocupou-se.

“Não. Ela foi, apesar da raiva controlada, muito comportada e, até, acessível”, constatou. “O mais sério foi a forte dor de cabeça que Quinn apresentou”, complementou, sem mencionar que a dor também era emocional, quando a advogada se referiu a dor no coração. Uma dor de amor, de desalento. Talvez de decepção.

A cantora respirou aliviada. Não que o fato de a esposa estar sob uma forte crise de dor de cabeça fosse bom, mas, no fundo, temeu que algo mais sério pudesse ter acontecido com ela, como a personalidade contrariada tentar algum ato violento contra si mesma. Eram variados pensamentos de fundo drástico e dramático que tomavam a mente judia. E ela achava pertinente levá-los em consideração. Afinal, ela viu o quão cruel aquela outra persona da esposa poderia ser.

“Eu…”, a voz melodiosa, porém insegura da cantora, perguntou, “vou precisar me afastar da Quinn, certo? E agora, o detetive Ewing acha que prenderam o homem que matou o Jesse. Não há como a Quinn manter a história dela para nos manter casadas”.

Eleanor a fitou após um suspiro. Esta era uma resposta que ainda não tinha sobre o enlace matrimonial, uma questão que a intrigava. E, independente da prisão ou não do provável assassino de St. James, havia a possibilidade de ela recorrer a outro médico que a auxiliasse junto ao trabalho que faria com a advogada. Não poderia dizer se o saudável seria a cantora se ausentar de Quinn no momento, pois ainda havia o citado contrato de casamento que, pareceu-lhe importante, era uma demonstração – ainda que inconclusiva – sobre a loira querer manter a cantora por perto.

“Mas a outra personalidade dela, essa Srta. M, mandou que eu me afastasse”, falou, atontada pela balança da dúvida que hora pendia para uma aproximação entre ela e a esposa e, noutra, pendia para o afastamento delas.

Sentia como se andasse em terreno movediço.

“Eu sei. Ela me confirmou a mesma coisa”, Eleanor parou diante de uma porta e a atriz a imitou, “mas o meu trabalho, agora, será unir essas personalidades de Quinn. E, talvez assim, possamos entender a razão de ela lhe propôr casamento e lhe dar todo o manejo sobre a vida dela”.

Rachel franziu o cenho. Quinn fez o quê?

“Não, doutora. Eu só me casei com ela e entendo que devo participar de algumas decisões referentes a Quinn. Mas é só isso. Eu tenho direito nenhum sobre coisa alguma dela”, aclarou.

Eleanor a mirou com seriedade e falou:

“Leia o contrato de casamento” e, após, explicou que Quinn estava sedada e que não saberia que havia recebido a visita da cantora. Rachel não se importou. Ela só queria e só precisava ver a mulher que, com todas as falhas que apresentava, principalmente mentais, era o receptáculo de seu amor. Quanto ao contrato de casamento, pensaria nele depois. Até porque sabia que Quinn não confiava em ninguém. Menos ainda nela.

A psiquiatra apenas assentiu e abriu a porta do quarto. Havia uma enfermeira sentada perto da cama da loira, vigiando-a. A pedido de Eleanor, ela se colocou do lado de fora a fim de dar privacidade à cantora.

Rachel mirou o quarto à meia-luz onde a loira jazia em sono tranquilo e de expressão serena sobre a cama.

“Ela acordará em algumas horas”, a médica informou. “E, se estiver bem, vou liberá-la”.

A judia assentiu e a psiquiatra deixou a cantora com esposa.

Rachel se aproximou da cama, devagar. Quinn tinha os lábios entreabertos. Sorriu. Mesmo com a cirurgia para corrigir o duvidoso desvio de septo que ela disse ser a razão para a plástica que fez no nariz, quando foi revelado que Quinn se chamava, de fato, Lucy Quinn Fabray, ela ainda respirava pela boca.

Desejou tocá-la com os próprios lábios, roubar-lhe o ar, provar-lhe o gosto da boca e sentir o hálito quente perto da face. Quinn estava tão palpável, tão ao alcance das mãos. E tão longe. Tão fugaz e inalcançável.

Sentou-se na beirada do colchão da cama alta de hospital com muito jeito para não cair e nem incomodar o sono loiro. Com muito cuidado, roçou as costas da mão direita na face esquerda da loira e lhe sussurrou:

“Eu estou aqui, meu amor. Eu sei que você deve pensar que eu sou dispensável…”, respirou fundo, antes de continuar, “e se eu estivesse no seu lugar, se eu tivesse passado pelas coisas que você passou… Que ainda passa, eu também pensaria como você. Mas… Aqui estamos nós! Por amor ou por ódio, parece que sempre estaremos juntas”, riu com tristeza e afastou a mão da face que acariciava.

Quinn murmurou alguma coisa ininteligível e mexeu o rosto, deixando-o de perfil para a morena. Rachel a adorou! Delicadamente, segurou a mão da esposa e, surpresa, sentiu a loira entrelaçar os dedos com os seus, de maneira débil.

A judia olhou para as mãos de peles que contrastavam. A da esposa pálida de nascimento. A dela morena, também por nascimento. Opostos que, de maneira estranha, atraiam-se ao passo em que se repeliam. E tornavam a se atrair e repelir. Até quando?, inquiriu-se a cantora, meditativa.

“Se eu pudesse voltar o tempo, Quinnie”, falou, bem baixinho, com o coração a reinar sobre a razão, “eu não lhe machucaria. Eu não duvidaria… Eu acreditaria mais em mim e em você. Principalmente, meu amor, eu acreditaria mais em você”. Ergueu as mãos entrelaçadas e depositou um beijo gentil na de Quinn. “Eu não lhe machucaria”, engoliu a decepção consigo mesma e inclinou o corpo e, com os lábios, tocou o canto da boca adormecida e entreaberta da loira. Roçou o nariz na face da esposa e desejou tê-la novamente ao pé de si. E de estar ao pé dela, até o fim de seus dias.

Quinn moveu o rosto e piscou algumas vezes, tentando reconhecer o lugar em que estava e quem lhe falava.

“Rach…”, murmurou.

“Estou aqui, Quinn”, murmurou, a face tão perto da face da esposa que respirou o ar morno que ela exalou. “Eu estou bem aqui”, murmurou, numa luta interna para não beijá-la. Estavam tão juntas. Tão ao alcance… Porém, apenas ficou ali, admirando aquela face dormida e bela, que não lhe respondeu. Quinn adormeceu. Ou talvez nem tenha acordado de fato. Eventualmente, poderia ser uma reação inconsciente à voz que ela conhecia bem. Com muito controle, Rachel se afastou e se endireitou. Mirou a mão pálida enroscada a sua e sussurrou para a esposa:

“Eu nunca lhe falei sobre como foi a minha vida depois que nos separamos…”, tomou um respiro profundo, “eu chorei muito, e eu sei que isso não importa para você…”, mirou a face dormida, “nem quando acordada e, menos ainda assim, adormecida. Mas eu só… Só quero e preciso falar um pouquinho. Minha vida não foi um mar de rosas. Eu não conseguia falar com você e Kurt e Sant só diziam que eu deveria deixar você seguir em frente. Eles disseram que a sua recuperação de mim estava sendo difícil e eu não fazia ideia do quão literal eles estavam sendo. Você estava tentando sobreviver, mesmo após pretender terminar com a própria vida, estava tentando ser Quinn Fabray outra vez. E eu… Eu acho que aceitei tudo com facilidade, porque eu não sabia o que lhe dizer se lhe encontrasse. Não no calor da hora, nas lágrimas de arrependimento, na falta de razão, no auge do desespero”, suspirou e mirou a frente, analisando as próprias palavras. “Eu tive medo, Quinn, mesmo deixando claro para o Jesse que eu ainda a amava, eu tive medo de ver você. De enfrentar você. Por muito tempo eu tive medo. Tive medo de ser rejeitada… De ver a mágoa nos seus olhos. Até que o tempo estirou e o medo se tornou necessidade de você outra vez. Nós duas morávamos há poucos minutos uma da outra e nunca nos esbarramos. E isso aconteceu porque você se tornou reclusa, uma pessoa de hábitos e solitária. Eu ignorava o que aconteceu com você. Nunca tive coragem de passar em frente ao seu antigo estúdio de fotografia, mesmo após tanto tempo, por medo de lhe ver sorrindo, apaixonada por outra pessoa, ou casada e com filhos, como eu. Eu temi que acontecesse comigo o que eu fiz a você. Eu sabia que você deveria ter alguém. Linda como você é, não ficaria solteira. Eu só esqueci de um detalhe, Quinnie, o mais importante: você me amou de verdade. E quem ama de verdade, não esquece. Exceto, se esse amor for grande o bastante para destruir. E o seu amor por mim era assim de grande. E eu era assim de cega para não me dar conta da realidade, porque, bem lá no fundo, eu sempre me senti menor que você”, respirou profundamente e soltou o ar devagar. “Quinn, você era a garota mais linda e hétero da escola! Como poderia me amar de verdade? Como poderia se fixar na perdedora? Mas você fez tudo o que eu nunca pensei ser possível!”, reteve uma lágrima antes de prosseguir:

“Eu conseguia me enxergar fazendo sucesso na Broadway, conseguia me enxergar sendo a artista respeitada que me tornei, eu conseguia me ver brilhando. Eu conseguia imaginar todas essas coisas! Mas, eu não conseguia conceber que, em realidade e verdade diante dos meus olhos cegados pela insegurança, você me amasse de fato. E eu não lhe amei como era devido. Eu tive reservas sobre você. Logo eu, que tanto fiz por um pouco da sua atenção enquanto estudávamos juntas. E quando eu tive… Eu não fui capaz de, no mais profundo do meu ser, assumir que, de fato, você me queria. Então me perdi de você e perdi você. Eu só quero, Quinnie, encontrar uma pequena parte sua. Uma parte que ainda possa me dar um resquício de confiança. Um pedacinho de oportunidade de lhe mostrar que eu sei e posso amá-la tanto quanto você me amou. Eu não espero o seu amor, como foi um dia, de volta para mim. Eu só quero um espaço na sua vida. Um pequeno lugarzinho. Um lugar discreto de onde eu possa lhe demonstrar o meu amor sincero, devagar e sempre”, calou, a fim de não fraquejar e chorar. Não era hora. Não era o lugar devido. Estava ali para ser apoio de Quinn. Para ser forte por ela e para ela. Mesmo que ela não se lembrasse. Ainda assim, queria estar ali, perto da mulher que, por mais que tentasse, não conseguia compreender. Mesmo enxergando nela o que ninguém mais enxergava: a Quinn Fabray do colegial; a orgulhosa head cheerio; a garota de olhar frio e distanciamento emocional; a garota que ocultava um coração que batia de maneira forte; a garota que sempre se recuperava quando achavam que não havia mais jeito. A garota que sempre surpreendia.

E, por estranho que pudesse parecer, Rachel acreditava que Quinn conseguiria se recuperar novamente. Estava em Quinn superar obstáculos! Estava nela ser forte o bastante para se reerguer quando a queda era grande e ninguém acreditava. Exceto Rachel Berry. Ela sempre acreditaria na cheerleader de nariz empinado, espalhando estudantes enquanto estes abriam caminho para a sua passagem em seu reluzente uniforme branco e vermelho, com detalhes em preto, mesmo quando seu uniforme foi – um dia – roupas negras punks, os cabelos cor-de-rosa e no nariz um piercing que mostrava o quão Quinn Fabray lutava para ser Quinn Fabray. Arrojada, impenetrável, dura.

Sempre forte.

“Quinn, seja você mesma”, murmurou, “não esmoreça agora”, pediu a judia, num sussurro dolorido e cheio de amor, antes de depositar um delicado e singelo beijo nos lábios dormidos de Quinn Fabray.

§§

Santana, sentada ao lado de Holmes na sala de espera, mirou-o e perguntou, muito séria:

“Vai falar para os Fabray sobre a Q e a Rach?”.

O homem a fitou e meneou a cabeça em negativa:

“Acho que podemos manejar a situação. Se o Sr. Fabray souber que a filha está tendo episódios de múltiplas personalidades, certamente tentará torná-la incapaz diante do Estado e ser o tutor dela e de tudo o que tem”.

“Mas nós dois sabemos que isso não acontecerá, porque a Quinn colocou tudo sob a tutela da Berry com o casamento. Aliás, um fato que me surpreendeu”, exortou.

O cuidador assentiu.

“Diga-me, Holmes: Quinn pensou nisso sozinha ou você ajudou?”.

“Ela pensou em tudo, Dra. Lopez. Eu apenas colaborei sendo testemunha. O Sr. Ewing também foi, mas não sabia do que se tratava”, observou, antes de prosseguir:

“Sei que a Quinn não foi muito gentil com a Srta. Berry. Na verdade, ela foi bem cruel, mas quando eu soube o que ela estava fazendo com aquele documento, e mesmo não conhecendo a Srta. Berry profundamente, de alguma maneira me pareceu que a Dra. Fabray sabia exatamente o que fazia. Então, achei que ela não errou. E, se para fazer a Srta. Berry assinar ela precisou ser cruel, surtiu efeito”.

“Pelo que a Rach me contou, a loira de farmácia foi muito astuta”, murmurou a latina.

“Sim…”, o homem não tinha como desmentir, “de fato, ela foi. Ela usou, de forma imprópria, acrescento, o assassínio do Sr. St. James e montou uma história muito boa, ainda que cruel”. E, após um suspiro, perguntou:

“Diga-me, Dra. Lopez, onde está o Sr. Fabray agora?”.

A latina piscou confusa com a questão do homem. E ele mesmo cuidou de explicitar:

“Eu sei que a relação dele com a Quinn não é boa. E também sei o quão distante ela consegue ser sobre os pais, mas, ainda assim, ela é a filha deles! O Sr. Fabray só telefona quando algum caso que vá render alguns milhões de dólares para a Fabray&Advogados aparece e somente a Quinn pode abonar. Ele não telefona para saber se ela está bem. E eu posso dizer o mesmo da Sra. Fabray. Então, de verdade, eu gostei de Quinn ter se deixado sob a tutela da Srta. Berry. E aposto que ela fez isso porque, bem lá dentro, na mais profunda escuridão dela, ainda há um resquício de certeza sobre a mulher que a Srta. Berry é. Rachel Berry é uma perseguidora de objetivos. Uma perseguidora constante, com objetivos constantes. E o dela, neste momento, é a Quinn. Eu, de alguma maneira, acredito na força dela. Ela é capaz de fazer frente aos Fabray se for necessário”.

“Acha que a Alex não faria?”, a latina indagou, curiosa.

O homem balançou a cabeça em calma negativa. Analisou:

“A Srta. Bishop é uma mulher incrível! É inteligente, sabe o que quer, tem uma característica que me deixa com os pelos arrepiados, que é o de escorregar feito um sapo ensaboado e ficar por ali, silenciosa, como se fizesse parte da decoração. Se a Srta. Fabray está de mau humor e deseja ficar sozinha, a Srta. Alex se faz de morta. Não importa o quanto a Srta. Fabray esperneie, ela fica ali. Ela espera o cansaço tomar conta da Quinn e, então, ela ataca. E depois, desaparece, pois, muito inteligente, sabe que a namorada não é muito amante das namoradas chiclete, segundo definição dela mesma”, pensou, antes de continuar, “ela não tem uma responsabilidade real com a Quinn. Ela não entendeu que, só porque a Quinn não consegue se apegar, deve ser deixada de lado. E apenas procurada vez ou outra! Ela, eu penso, deveria ser mais presente, não importa o quanto a Srta. Fabray possa ser distante e pouco tragável vez ou outra. E eu também não sei o tipo de acordo que há entre elas, ou se há algum. Eu sei que pessoa alguma tem obrigação de suportar a Quinn, mas se você está num compromisso, numa relação, você tem que estar junto com essa pessoa. Seja na hora boa, seja na hora ruim. Não deve dar demasiado espaço, ficar sem aparecer por até dois meses, porque estava viajando a trabalho e resolveu estender para as férias. Ela deveria telefonar e, quem sabe, convidar a Quinn para acompanhá-la. Talvez ela fosse! Quem pode saber? Mas não. Essas atitudes, esses pequenos poréns são o que me fazem questionar a Srta. Bishop. Eu não digo que ela não se importe com a Dra. Fabray. Mas que namorada, em sã consciência, ignora que a outra se casou debaixo do nariz dela com a ex-namorada? Dra. Lopez, diga-me: isso é normal?”.

A latina meneou a cabeça. Eles estavam falando de Quinn Fabray. Ela tinha um talento e tanto para manobrar pessoas e situações que até pareciam histórias contadas por pescador. Entretanto, se pensasse bem, enquanto namorada, Alex deveria estar atenta aos passos de Quinn. Como ela não se manifestava? Como ela viu a aproximação da Rachel com a Quinn e deixou passar? Por que não fez frente a Quinn? Por que Alex não estava ali, também, agora?

“Não é normal, Holmes”, concluiu, com um estranho sentimento de tristeza.

Silêncio.

Os dois miravam a frente de parede branca.

Holmes analisava o fato de o possível assassino de Jesse estar preso e Rachel estar livre para deixar Quinn. O que, para ele, nunca foi – mesmo – um empecilho. Quinn não poderia, de fato, acusar a cantora. Ela teria que provar. E Quinn era só uma boa dissimuladora. E quando Rachel soube, quando a deixou ciente de que tudo o que Quinn lhe disse era sem razão, ela não se manifestou em contra o fato. Rachel ficou.

Santana quebrou o mutismo:

“Então você confia que a Rachel pode ser boa para a Q?”, insistiu.

O homem retornou de seus pensares:

“De fato, Dra. Lopez, eu não sei o que acho”, meditou o cuidador, “entretanto, pelo pouco que vi da Srta. Berry, ela parece disposta a lutar pela Quinn. E, neste caso, acho que Quinn precisa de alguém que possa e saiba lutar por ela e, principalmente, com ela”.

A latina analisou a fala do cuidador. E opinou:

“Uma coisa é certa: a Berry tem a teimosia necessária para se fazer notar. Inclusive para a Quinn. Até hoje me lembro dela no clube do coral… Ela era irritante! E, sabe o que era pior? Ela era a irritante necessária. Tinha talento de sobra, uma voz maravilhosa e uma disciplina militar”.

“Acredito que ela ainda tenha”, o homem comentou, com um sorriso tímido.

Santana também sorriu.

“Sim. Ela ainda tem. Acho que, por isso, a desmiolada da Fabray a nomeou sua representante legal”, pensou um pouco, antes de tentar racionalizar, “porém, eu vou lhe confessar: estou confusa sobre essa escolha da Quinn. Eu não sei o que a motivou para dar esse passo que, diante da amnésia dela e da postura fria, é incoerente. Eu sou consciente que a Quinn não dá ponto sem nó. E eu não sei onde ela quer chegar colocando a Rach responsável por tudo o que se refere a ela. E você sabe que, se Judy e Russel souberem disso, tentarão brigar na justiça para revogar o que a Quinn decidiu. E eles podem alegar insanidade”.

“Sim. Porém, eu, o Sr. Ewing e o juiz que oficializou o casamento podemos garantir que ela estava muito bem. Assim como a Srta. Berry também pode…”, retrucou.

Santana analisou:

“Realmente, a Quinn pode ser louca vez ou outra, mas sabe exatamente o que está fazendo quando o assunto é ela mesma”.

“Estou de acordo”, Holmes não poderia desmentir. Ele sabia o quão racional a mulher a quem cuidava conseguia ser. Tão racional, que era incapaz de sentir. Porque ela era só isso: razão. Não havia coisa em Quinn que fosse coração. Então, mesmo na insanidade, ela ainda pareceria normal diante de olhos desatentos, como os de Judy e Russel Fabray.

“E eu ajudarei, desde que isso não prejudique ainda mais a miolo mole da Fabray e nem a Rachel”, observou a latina.

“Obrigado, Dra. Lopez”, o cuidador foi sincero.

Santana sendo Santana: a latina franziu o cenho e deu um olhar de advertência para o homem.

Ele assentiu, entendendo que ela não apreciava demonstrações de afeto, principalmente em público. Ainda assim, inquiriu, tentando compreender, junto com a mulher que conhecia sua patroa há anos e acompanhou todo o processo do “acidente”:

“O que a senhorita pensa sobre isso?”, o cuidador estava realmente interessado, apesar das conversas que travou com Rachel e conhecendo Quinn. Talvez, juntos, entendessem a atitude de Quinn.

A mulher latina meneou a cabeça em negativa. Ela não sabia. Não fazia ideia. A única certeza que ela tinha era a de que Rachel Berry deveria ser a última pessoa de quem a Quinn desejaria se aproximar ou dar importância, afinal, após o acidente, nunca falaram sobre ela e que as duas foram algo mais que um pequeno experimento homoafetivo. O fato de a loira se fixar na morena foi, na realidade, surpreendente. Obviamente, a judia foi insistente assim que colocou os olhos sobre a ex-namorada. Porém, entre Rachel tentar se reaproximar de Quinn e esta permitir… Este era o ponto de interrogação. A curiosidade de Quinn era um ponto de interrogação. E o casamento… Havia uma razão. Mas uma razão que só a loira conhecia. E era esta razão que Santana, sabia, teria que descobrir. O que a Quinn queria casando-se com Rachel Berry e nomeando-a sua representante legal? Rachel era, para Santana, o que o que o escritor e estatístico Nassim Nicholas Taleb chama de “cisne negro”: um acontecimento insperado que poderia trazer resultados positivos ou negativos.

Que resultado Quinn esperava de Rachel Berry?

E todas as estradas que temos que percorrer são tortuosas

E todas as luzes que nos levam até lá nos cegam

Há muitas coisas que eu gostaria de lhe dizer

Mas não sei como

Porque talvez

Você vai ser aquela que me salva

E no final de tudo

Você é a minha protetora”.

— Oasis em Wonderwall

Alex Bishop se perguntou o que estava fazendo ali, no lobby da cobertura de Quinn.

Há poucos dias, disse que daria o espaço necessário para ela resolver suas pendências com Rachel Berry, que não participaria do qualquer coisa que a namorada estivesse tramando. Resolveu, como sempre, dar a liberdade que ela e Quinn sempre tiveram no relacionamento. Entretanto, havia alguma coisa que não estava lhe cheirando bem. Sabia que a loira não era capaz de se apegar. Mas ainda guardava esperança de que isso fosse remediável e as duas pudessem se amar em partes iguais. Era ruim querer sozinha. Entretanto, apesar do tempo em que estavam juntas, o quadro não evoluiu. Quinn era escorregadia e tê-la era difícil. Ainda assim, analisou, talvez deixá-la livre para fazer o que bem entendesse, quando o que Quinn quis foi saber mais a respeito de Rachel Berry, não fosse a melhor opção. Precisava fazer frente à Berry. Principalmente após saber que a morena, junto com o filho, pernoitou ali, na casa de Quinn, sua namorada. Algumas pontuações precisavam ser feitas. E ela faria com que acontecessem! Apenas não esperava saber que a advogada estava em consulta com a Dra. Parker, informação dada por Agatha.

“Consulta?”, franziu o cenho e cravou o olhar azul sobre a ajudante de Holmes.

“Sim. Consulta”, Agatha não entendeu a questão desconfiada de Alex. Ela sabia que Quinn frequentava o consultório da psiquiatra e terapeuta.

A editora se aproximou da empregada:

“Quinn teve algum tipo de recaída? Ela não estava bem quando a vi pela última vez”, observou.

“Apenas o de sempre”, respondeu a mulher, silente sobre o que de mais ocorria com a patroa. Se fosse para a jornalista saber, que a própria Quinn falasse. Ou Holmes.

Alex pareceu aceitar a resposta de Agatha e olhou o relógio de pulso. Tinha tempo e nada para fazer. Esperaria por Quinn.

Avisou que tomaria uma ducha e aguardaria a namorada no quarto.

A ajudante de Holmes se sentiu atontada. Sabia que algo estava fora de ordem com a patroa e que o fato de o cuidador, o Sr. Ewing e a Dra. Fabray estarem fora, fazia parte deste quadro fora de esquadro. Sem contar com a presença da Srta. Berry e o filho desta naquela casa. Uma casa que pessoa alguma frequentava. E o aparecimento da jornalista parecia desenquadrar ainda mais o que já não tinha prumo e nem medida.

Avisaria a Holmes, enquanto a “amiga” da patroa se banhava na suíte principal.

Também desejava que Quinn estivesse de bom humor. Ultimamente, não sabia muito bem qual seria o comportamento dela. Com a Srta. Bishop ali, seria bom que a Dra. Fabray estivesse um pouco melhor.

Holmes atendeu tão logo viu o número de Agatha no visor do telefone. E suspirou quando soube que Alex esperava pela namorada em casa.

Passou a mão pela cabeça raspada.

Alex em casa, com Quinn, não seria muito positivo se uma das personalidades resolvesse aparecer. E ele nem conhecia a tal Srta. M!

“M de merda…”, murmurou para si mesmo e fez Santana franzir o cenho.

“Algum problema?”, a latina questionou.

O homem explicou a situação.

E a advogada concordou:

¡Puta la mierda!”.

Hoje seria o dia

Mas eles nunca vão jogá-lo de volta para você

Por agora, você deveria

Saber o que não fez”.

— Oasis em Wonderwall

Quinn abriu os olhos ainda se sentindo lenta por causa da sonolência. Também se sentia desorientada. Onde estava? O que aconteceu? Sentiu que estava envolvida por um braço por sobre o seu estômago e, ao olhar para o lado, deu com uma morena miúda adormecida.

Rachel? O que ela estava fazendo ali? E… Dormindo na mesma cama!

Sem nenhum tato ou gentileza, afastou a cantora e se sentou, zonza pelo medicamento que ainda agia em seu organismo, acalmando as vozes e deixando-a com um pé fora da realidade.

A cantora se assustou com a maneira abrupta com a qual foi despertada e, também atontada, tentou se nortear.

“Onde estamos?”, a voz sonolenta, arrastada e confusa da loira a chamou para a realidade. Adormeceu ao lado da esposa. Olhou o relógio no pulso. Quase na hora de buscar Spencer na escola. Voltou a face para a advogada, de quem, em breve, deveria se separar para buscar o filho.

“Você teve uma conversa com a Dra. Parker”, conteve um bocejo, “mas teve uma crise forte de dor de cabeça. Ela medicou você…”.

A loira ainda não conseguia ligar as palavras da morena aos fatos que estas contavam.

“Eu estive numa consulta?”, perguntou, com ar de incredulidade.

“Quinn, eu acho que você deveria voltar a dormir”, constatou a morena, achando a esposa meio lenta.

A advogada negou com um balançar de cabeça. Perguntou outra vez:

“Onde estamos?”.

“Na clínica… Você veio para a consulta, sentiu-se mal e a Dra. Parker medicou você e lhe deixou sob observação”, Rachel explicou um pouco mais. E não entendia porque a esposa ainda não concatenara as ideias. Por isso, achou pertinente que ela voltasse a dormir. Talvez não estivesse acordada por completo.

“Onde está Holmes?”, a loira se deu conta que estava vestida com uma das camisolas da clínica. Mal sinal, analisou, em sua debilidade. Voltou o olhar meio grogue para a cantora e perguntou o que aconteceu.

Rachel franziu o cenho. Acabou de contar o que aconteceu por duas vezes à esposa. Por que ela ainda não compreendeu?

“Quinn…”.

Foi cortada, quando a loira tentou se fazer entender:

“Quem apareceu?”, a advogada perguntou, fazendo referência a uma das personalidades.

Dessa vez, quem não compreendeu a pergunta foi a judia.

“Qual das Quinns apareceu? A boazinha ou a má?”, Quinn insistiu, cobrindo a boca pois o bocejo foi grande.

A cantora a observou, enquanto sentava na poltrona perto da cama e a esposa voltava a se recostar, fechando os olhos e respirando fundo, como se desejasse, assim, recuperar o equilíbrio que – claramente – não possuía no momento, fosse pela medicação ou pela confusão que sua mente vivenciava nos últimos tempos.

“A Srta. M”, disse.

A loira abriu os olhos lentamente e os voltou, bem devagar, para a mulher sentada ao lado da cama.

“Desculpa… Eu não estou conseguindo ter muita coerência de pensamento e, acho, que de audição também. Poderia repetir a resposta?”, pediu, muito atrapalhada.

Rachel desejou tanto abraçá-la! Quinn parecia tão frágil em sua confusão!

“A Quinn que roubou o revólver do detetive Wilhelm disse que se chama Srta. M”, esclareceu, afogando os desejos dentro.

“M?”, realmente, achou que não estava acordada. “Rachel, poderia ser mais clara?”, pediu.

A cantora não se fez de rogada e contou tudo o que soube pela médica para a esposa no melhor estilo Rachel Berry: num só tiro, sem pausas, sem respirar e de uma coerência incrível diante de tamanha verborragia. Então, ainda que entre muito esforço para acompanhar a velocidade com a qual a cantora despejava informações, Quinn lembrou do início da sessão e de quando a dor de cabeça a atordoou. E depois, só se lembrou que a dor era tão agressiva que a Parker, de fato, a medicou. Mas não sabia o que aconteceu entre o início da dor e da conversa e o momento em que foi medicada.

“Isso é tão frustrante…”, reclamou para si mesma.

Rachel a escutou, mas manteve o silêncio. Não sabia o que argumentar com Quinn, porque concordava com ela: era frustrante! E também causava medo e muita, muita insegurança.

Quinn se ajeitou na cama, comodamente, sentindo-se horrivelmente sonolenta e sem energia.

“Você está sentindo alguma coisa? A dor de cabeça ainda está forte?”, a cantora quis saber, sinceramente preocupada com a loira.

“Não… Eu estou razoavelmente bem”, atestou, apesar de se sentir um pouco estranha com as perguntas de Rachel e, principalmente, com a presença dela ali.

A cantora queria tocá-la, mas não ousou. Quinn lhe parecia frágil, mas também parecia ter um traço de incomodidade que a fazia congelar. Principalmente depois que conheceu a Srta. M.

O quanto Quinn estava ainda drogada que a personalidade alternativa era incapaz de sair e fazer ameaças a própria vida?, a judia se perguntou.

“Eleanor…”, a loira bocejou sem controle e se desculpou, antes de prosseguir, “pretende me manter aqui esta noite?”, perguntou com voz morosa.

“Não se você estiver bem para ir para casa”, Rachel respondeu. “Você está bem?”, questionou.

Quinn suspirou e murmurou:

“Estou com…”, bocejou outra vez, “muito sono… E eu, de verdade, só quero dormir…”, falou como se fosse um bicho-preguiça levantando uma das patinhas para pegar uma folha. Bem devagar.

Insegura, a judia se levantou da cadeira e se aproximou da cama, mirando a esposa.

“Quinn…”, chamou, baixinho.

“Uhmm?…”, murmurou.

“Eu preciso buscar Spencer na escola. Eu pediria a Holmes ou Marco, mas só eu e o Jesse, e pai e papai, têm autorização para isso. Mas eu prometo voltar”, acrescentou.

A loira piscou e a mirou.

“Por que você voltaria?”, questionou, sem entender, realmente, a razão para a cantora volver aquele ambiente que, ela, Quinn, particularmente, tinha ojeriza.

“Porque eu me preocupo com você e… E eu amo você”, disse, pronta para receber algum comentário seco ou cínico da loira.

Entretanto…

“Relaxe, Berry. Eu… só vou cochilar um pouco e irei para casa. Odeio hospitais”, respondeu. “Não há necessidade de você voltar aqui”, bocejou, distanciando-se emocionalmente.

A judia a fitou em silenciosa análise. Quinn, pelo que percebeu, deu-se conta de que deixou a armadura cair um pouco. Não foi grossa, apesar de concisa em suas tentativas de se fazer entender em seu atual estado narcotizado, e – principalmente – não foi debochada e nem a tratou como a única criatura da face da Terra sobre quem desejaria dançar flamenco usando salto agulha. Porém, deu-se conta de que parecia uma pessoa quase palpável, feita de carne e osso e não do ajuntamento de partículas de H2O congeladas e cuidou de se armar novamente.

Rachel sabia. Quinn só queria afastá-la, com aquelas bobagens que impôs no tal documento de casamento e com a postura fria. Tão Quinn Fabray!

Conteve um sorriso e falou, no seu melhor estilo:

“Eu realmente sei o quanto eu sou dispensável para você, Quinn. O quanto você sempre preferiu e prefere me manter longe da sua vida pelo que lhe fiz e mesmo por aquilo que eu não lhe fiz, mas você me fez. Apesar de tudo, de toda a sua irritação em relação a mim, seja porque eu tinha os melhores solos no Glee Club”, nesse momento, a loira realmente ficou atordoada. E a cantora prosseguiu:

“Seja porque eu contei para o Finn que ele não era o pai da Beth, seja porque eu tirei o Finn de você, e depois de tudo isso superado, eu ter lhe traído, eu a amo. E não é só porque eu amo você que eu fiquei aqui e ficarei se necessário for, mas porque eu faria isso por qualquer um dos meus amigos. E, no atual momento, você é muito mais que apenas minha amiga. Então, voltarei. Porque, mesmo que você não se lembre, não saiba, que desconheça, eu sempre admirei você, Quinn. E continuo admirando. Eu sempre amei você, Quinn. E continuo amando”, respirou.

Quinn piscou algumas vezes, enquanto, de cenho franzido, observava a cantora parada diante de seus olhos verdes sonolentos.

“Não tem que ficar, Berry”, repetiu, friamente.

A cantora pôs as mãos na cintura e jorrou:

“Então eu acho que temos um problema aqui, Fabray! Você me fez casar com você. Eu precisei assinar a sua internação. Se eu sou responsável por você enquanto sua esposa, eu não apenas tenho que ficar ao seu lado. Eu preciso. E eu quero. E, se isso for um problema, peça o divórcio. Mas saiba, Fabray, que eu vou dificultar muito a sua vida enquanto tentar se livrar de mim e do nosso enlace matrimonial”.

Quinn riu. Riu porque a postura de Rachel Berry lhe pareceu engraçada, porque foi inesperada. Ela era sempre assim? Teimosa?

“Certo, Berry”, murmurou, distante, “cuidaremos desse tema depois. Por agora, faça-me um favor: chame Eleanor para mim quando for buscar o Spencer?”.

Rachel Berry assentiu, enquanto a esposa cerrava os olhos, parecendo cansada demais. E não deixou de se quedar estática por alguns segundos, diante da aparente gentileza da ex cheerleader. Quinn não era dada a gentilezas. Seria efeito da medicação? Seria efeito de suas palavras? Não sabia muito bem…

Pensou em falar sobre o suspeito pelo assalto e assassinato de Jesse estar preso, mas calou. Não queria tocar nesse assunto, nesse momento. Não queria deixar de estar junto a Quinn. Nunca mais.

Quando se foi, com a esposa adormecida, tão logo chegou ao primeiro andar, onde ficava o consultório da médica e a sala de espera, foi levada por Santana para perto de Holmes e a latina avisou:

“Problemas no paraíso: Alex está no apartamento da Quinn, esperando por ela”.

A cantora sentiu o chão fugir.

Sentou em uma das cadeiras e segurou a cabeça entre as mãos.

“Srta. Berry…”, Holmes se preocupou com ela.

Mas a cantora suspirou, sacudiu a cabeça, recostou-se nas costas da cadeira e avisou:

“Eu estou bem. É só muita coisa ao mesmo tempo. Parece que eu estou dentro de um furacão e, vez ou outra, sou atingida por algum estilhaço…”, respirou fundo e soltou o ar devagar, “eu vou chamar a Dra. Parker, porque a Quinn quer falar com ela e, depois, buscarei o meu filho na escola e, se a Quinn tiver alta hoje, acompanhá-la-ei até em casa”, informou, erguendo-se.

Santana a segurou pelo braço, fazendo-a mirá-la:

“Sabe que não precisa passar por isso. A Fabray vai ter que escolher: ou fica com você e despacha a Alex; ou despacha você e fica com a Alex. E eu estou falando isso pela sua sanidade, que eu já passei a questionar desde que se envolveu de maneira tão profunda pela loira multifacetada”.

Rachel assentiu.

A sinceridade preocupada de Santana conseguia fazer qualquer um despertar para a realidade.

E Rachel despertou.

Quinn não poderia ficar com as duas. Teria que optar por uma ou outra.

Às vezes, pensou, a vontade de fugir era grande.

§§

Alex estava adormecida quando a namorada entrou no quarto.

Abriu os olhos azuis com preguiça e o sorriso que se abria para Quinn morreu ao vê-la acompanhada por Holmes, Rachel e o filho desta, pendurado no colo da mãe como se fosse um daqueles bebês chipanzés.

O que Rachel Berry fazia ali? E por que estava junto de Quinn ainda? Aliás, havia acordado?

Sentou na cama e fixou os olhos no quadro a sua frente. Meneou a cabeça em calma negativa. Suspirou e falou, devagar:

“Então a sua curiosidade pela ex-namorada ainda não passou. E você parece disposta a me mostrar isso. Acho que precisaremos conversar sobre isso, Quinn”, concluiu.

Rachel sentiu-se morrer. Ali estava Alex Bishop, a dona de fato dos beijos e toques de Quinn. A mulher pela qual as mãos da loira e os lábios experimentavam, conscientes e não tomada de uma persona alternativa. Realmente, Santana tinha razão: ela não precisava passar por aquilo. Não pensou que encontraria a jornalista tão à vontade na casa de Quinn. Tão dona e senhora do lugar que deveria ser dela, Rachel, e de Quinn.

Respirou fundo e decidiu que já era demais para um dia. Até porque a “esposa” estava salva em casa.

A loira não disse palavra diante da jornalista.

Mas Rachel sim:

“Eu acho que você ficará bem, Quinn”, atestou, sentindo um nó na garganta, um aperto no peito e um gosto de decepção na boca. O ridículo da situação: ela era a mulher de fato, no papel, preto no branco, casada com Quinn. Mas sem direito sobre o querer da mulher que a forçou aquela situação. Era tão insólito! Era tão sem regras e tumultuado!

Antes de se retirar, olhou para a esposa e falou:

“Você sabe como construir uma vingança. Está me machucando todos os dias”, abraçou o filho com força e se retirou.

Holmes olhou da patroa para a jornalista e, meio zonzo pela reação de Rachel ao ver a jornalista (na verdade, ele também não esperava por isso, apesar de ter sido alertado), seguiu-a e a deteve às portas do elevador:

“Senhorita, por favor”.

A cantora o fitou e avisou:

“Holmes, eu amo a sua patroa. Mas não serei testemunha ou conivente com o romance dela com a Bishop. Eu entendi o recado. Ela só quer se vingar. Por isso o casamento apenas no papel, por isso manter tudo encoberto… Por isso não falar nada para a Alex”.

“Não, senhorita”, o homem discordou veemente, “é mais que isso. Eu sei que é mais”.

Ela sorriu com melancolia para o cuidador.

“Você não sabe, Holmes”, atestou. “Ela só… Ela só está se vingando. E…”, riu com cinismo diante da situação, “o curioso é que eu sei e ainda tento acreditar que não seja só isso”, respirou com dificuldade.

“E eu acho que não é”, Holmes insistiu.

Ela o mirou com incredulidade:

“Acha?”.

O cuidador abaixou a cabeça. Ele queria ter certeza que era algo mais que vingança. Quinn não era dada a esse tipo de coisa! Ela simplesmente ignorava o que não lhe agradava. Ela isolava. Ela era indiferente! E, não era o que estava acontecendo!

“Vai pedir a anulação do casamento?”, o homem questionou. “Por favor, Srta. Berry, não faça nada ainda. Eu acredito que ela não se casou com você somente por vingança”.

A judia não tinha uma resposta. Ela só sabia que não estava suportando – por agora – a pressão. Precisava ir para casa. Precisava cuidar do filho e, depois, precisaria ir para o teatro, pois teria apresentação nesta noite e por todo o final de semana. Precisava respirar. Seus dias não estavam sendo fáceis. Quinn parecia que tinha lhe posto à prova. Era como se precisasse provar que a amava realmente. E, de verdade, não sabia como provar algo tão imaterial quanto o sentimento. Fosse ele de qualquer espécie ou natureza. Era difícil provar para Quinn porque ela não acreditava.

“Então faça com que ela acredite”, o homem pediu.

Rachel não respondeu.

Entrou no elevador e viu o cuidador, desapontado, desaparecer assim que as portas se fecharam.

Conteve o choro.

Seu filho não precisava sentir suas dores. Não precisava conhecer seus pecados. Não precisava saber que ela foi capaz de machucar o coração de alguém.

Não precisava saber que estava pagando cada beijo que roubou de Quinn para dar para Jesse, ou cada abraço, ou cada afagou, ou cada entrega.

Foi Quinn que lhe falou, certa vez, friamente, a frase que repetiu para si mesma:

“Amor com a amor se paga”.

Não acredito que alguém

Sinta o mesmo que eu sinto por você agora

E todas as estradas que levam você até lá são tortuosas

E todas as luzes que guiam o caminho nos cegam

Há muitas coisas que eu gostaria de lhe dizer

Mas não sei como

Porque talvez

Você vai ser aquela que me salva

Você vai ser aquela que me salva”.

— Oasis em Wonderwall

Notas finais
Como ando me atrasando ultimamente, responderei aos reviews do capítulo anterior e, por isso, peço que me desculpem. Vocês são especiais e devem saber disso. Beijo de corações coloridos e até o próximo. — Cal. *-*